Durante a manhã, o despertador do celular de Gerry tocou às 10 horas para lembrá-lo do compromisso com Donatella. Olhou para Carol que dormia como um anjo e não teve coragem de acordá-la. Por sorte, aquele era o seu dia de folga no hotel. Poderia dormir até mais tarde. Vestiu o terno que havia deixado de reserva no apartamento e escreveu um bilhete combinando um encontro à tarde, ali mesmo. Seria a sua despedida e a decisão de suas vidas dali em frente. Antes de sair, depositou um beijo suave na boca de Carol e partiu para o seu compromisso.
Mal a porta fechou-se, Carolina abriu os olhos e começou a chorar. Esta tinha sido a última vez que o veria. Não suportaria nenhum outro tipo de despedida. Entre lágrimas, ainda leu o bilhete dele, deixado sobre a mesa de cabeceira.
“Carol, meu anjo
Deverei voltar após as 14 horas. Espere-me. Precisamos conversar antes de minha viagem. Não podemos acabar aqui.
Teu
Gerry”
Mais uma onda de choro a invadiu. Quando conseguiu controlar-se um pouco, foi tomar um banho. Arrumou-se, colocou as roupas de Gerry perfeitamente dobradas numa grande sacola, que deixou na portaria, e saiu a caminho do metrô, perdendo-se na multidão das ruas.
Quando Gerry voltou de seu compromisso, contente e desejoso de contar as boas novas de seus novos contratos com a grife Versace e a Vogue, não a encontrou. Tocou incontáveis vezes a campainha do apartamento. Foi à portaria indagar por ela, mas o porteiro apenas confirmou que ela havia saído e deixado um embrulho para ele. Nenhum bilhete. Nenhuma palavra. Por quê? Ele queria poder entender. Depois da noite incrível que tinham passado... Saiu sem conseguir tirar os olhos do chão, pensando onde ela teria se metido. Foi ao jardim onde tinham começado a se conhecer melhor, mas não a encontrou. Triste e desanimado, voltou ao seu hotel para preparar as malas para a viagem de volta a Los Angeles.
Enquanto isso, Carolina estava dentro do Museu do Louvre diante das esculturas de Michelangelo, lembrando a primeira vez em que viu Gerry naquela suíte do Ritz. Sua lembrança estaria guardada para sempre em seu coração.
O mês que se seguiu foi de trabalho intenso para Gerard e de dedicação exclusiva à arte para Carolina. Ambos tentavam esquecer os dias passados juntos em Paris... Como se isso fosse possível.
A produção de quadros de Carolina foi tamanha e de tal qualidade que surpreendeu aos seus professores da escola de artes. Como fosse impossível para ela levá-los para Portugal, deixou-os aos cuidados do organizador francês do curso, que prometeu conseguir uma exposição exclusivamente para eles. Isto a deixou muito feliz, principalmente porque toda a inspiração para estas obras tinham vindo de uma única e inesquecível pessoa. Fora a maneira que ela encontrara de expulsar sua tristeza e sua saudade. Apesar de tudo, a saudade permanecia... Enorme. Voltou para Lisboa determinada a terminar sua faculdade e começar a expor seu trabalho aos críticos de arte e marchands.
De volta a Los Angeles, Gerard jogou-se ao seu trabalho de ator e produtor de filmes como nunca. Várias propostas de atuação foram aceitas, deixando-o com sua agenda lotada até a metade do próximo ano. Conheceu várias mulheres interessantes e interessadas nele, mas nenhuma que pudesse competir com a história que vivera com Carol. Jamais a esqueceria, apesar da mágoa que ficara pelo modo como ela sumira sem despedir-se dele naquele sábado. Lembrava das inúmeras vezes que discara o telefone do seu apartamento, antes de pegar o avião, e os sinais de chamadas não atendidas soando como marteladas em seu peito.
Mais de um ano se passou...
Finalmente Gerard conseguira uma folga daquele turbilhão de compromissos, viagens e filmagens. Poderia passar alguns dias curtindo o seu apartamento de Nova York, que era a sua cidade favorita nos Estados Unidos, onde podia caminhar pelas ruas sem ser abalroado a toda hora por um paparazzi ou ser cercado por um bando de malucos a gritar seu nome. Estava resolvido a sair com alguns amigos que não via há um bom tempo, andar de bike pelos parques ou simplesmente ler um bom livro e ouvir música. Tinha que se dar este prazer antes que a maré de obrigações contratuais subisse novamente e o levasse de seu sossego.
Naquela manhã, enquanto tomava seu café, como sempre fazia, começou a ler o jornal, iniciando pela parte esportiva. Quando terminou, voltou sua atenção para o caderno de atividades culturais. Foi com surpresa que viu um nome sobressair-se entre os demais numa das colunas que indicava as exposições de arte do dia:
“A jovem e talentosa pintora portuguesa Carolina Rodrigues Alves estará entre nós inaugurando a mais nova galeria de arte de Nova York com uma belíssima exposição de suas telas...”
Não conseguia desgrudar os olhos daquele nome, nem acreditar que fosse ela, a sua Carolina. Seria muita coincidência... Pintora... Portuguesa... Carolina... Era ela, sem dúvida. E a inauguração seria logo mais à noite, na 16th street, em Chelsea.
Mal podia acreditar no que estava acontecendo. Tudo tinha sido tão inesperado e rápido. No dia em que recebeu o telefonema de Larry Gagosian quase caíra sentada no chão. Ele tinha estado em Paris e vira surpreso as telas dela numa pequena exposição na Escola Superior de Belas Artes de Paris. Disse que queria conhecê-la e avaliar mais de perto o seu trabalho. Após este contato, sua carreira como pintora evoluiu como uma avalanche. Larry passou a organizar exposições suas, não só em Lisboa, mas em várias capitais da Europa, como Roma, na galeria que ele havia inaugurado mais recentemente. Agora, com o sucesso de suas telas na Europa, expandia sua arte além-mar, chegando aos Estados Unidos. Aquela exposição em Nova York a deixara extremamente excitada e nervosa. Não só pelo fato de estar expondo sua arte em outro continente, para outro tipo de público, com exigências e gostos diferentes do povo europeu, mas por saber que lá vivia alguém que continuava em seus pensamentos. Certamente ele já a esquecera. Estava convencida que agira certo ao separar-se dele da maneira como fizera. Às vezes chegava aos seus ouvidos e olhos alguma notícia a respeito dele e seu sucesso em filmes românticos ou de ação. Ele merecia tudo isso e muito mais.
A exposição abriu suas portas em torno das 19h30min horas e os convidados e curiosos começaram a chegar. Um coquetel começou a ser servido às 20 horas. O movimento estava sendo como o esperado. Larry apresentava aos amigos do meio cultural nova-iorquino a sua descoberta, Carolina. Depois de dar a atenção solicitada e algumas explicações sobre os motivos de suas pinturas, texturas e cores, ela misturou-se ao público, indo na direção de uma de suas gravuras favoritas. Era um desenho em carvão vegetal, um dos poucos que criara, mas que tinha um grande significado para ela. Era o único que não estava à venda. Mostrava um homem de traços maduros, mas de olhar doce e suave, a contemplar seu espectador fora da tela. Era a expressão que a marcava mais profundamente e que conseguiu transpor para aquela folha de papel. Larry ficara bem impressionado com seu esboço e por isso fizera questão de colocá-lo entre as telas maiores para a exposição.
- Não prefere olhar para o modelo vivo? – perguntou a voz familiarmente rouca e grave, fazendo cócegas em seu ouvido.
Carolina sentiu-se estremecer. Devia estar tendo algum tipo de alucinação ou sonhando acordada diante de seu desenho. Virou-se lentamente, já sentindo aquele perfume que a seduzia um ano atrás.
- Gerry! – exclamou alegremente, tentando manter-se o mais natural possível – Que surpresa boa!
- É boa mesmo? – ele perguntou com um sorriso esmorecido.
- Claro que é... Por que não seria?
Carolina sentia a garganta seca. Ele estava mais bonito e charmoso do que nunca. O tempo parecia ter congelado e ela sentiu todas as emoções passadas ao seu lado voltando como um vento forte e quente.
- Pelo modo como você me deixou na última vez, achei que eu pudesse ter feito alguma coisa errada e ...
- Não... – cortou-o, não permitindo que ele se humilhasse - É claro que não... Você foi perfeito... Até demais... – falou com voz franzina e trêmula – Olhe, acho que aqui não é o local melhor para falarmos dessas coisas...
- Carolina! – a voz de Larry chegou até eles como uma ducha fria – Onde você se meteu, meu bem? Quero apresentá-la para alguns amigos que estão interessados em suas telas – falando assim, pegou-a delicadamente pelo braço e puxou-a na direção de um grupo de pessoas elegantemente vestidas que olhavam um dos quadros maiores – Pode nos dar licença, por favor? – pediu, mal olhando para Gerard.
Carolina tentou objetar, mas foi impedida pelo falatório animado de Larry, que passou a lhe contar animado quem eram os milionários interessados em suas telas. Ela conseguiu lançar um olhar suplicante para Gerry e implorar docemente:
- Você pode me esperar?
Ele apenas assentiu com a cabeça. Ficou olhando para ela, enquanto a via perambular pela galeria acompanhada por Larry, dando atenção a seus convidados. De vez em quando seus olhares se cruzavam.
Finalmente as pessoas começaram a ir embora e as últimas vendas estavam sendo concluídas. A noite tinha sido um sucesso.
- Por que esta ansiedade em que tudo termine logo, Carolina? – perguntou Larry um pouco irritado com a desatenção dela para com sua empolgação.
- Larry, por favor, sei que tudo correu maravilhosamente bem, graças a você, que é o melhor “marchant” que um artista pode querer. Mas preciso falar com alguém, urgentemente, senão vou enlouquecer.
- Vocês, artistas, estão sempre no mundo da lua... É aquele homem com quem você estava falando antes de eu “sequestrá-la”?
- Sim – respondeu, enquanto seus olhos procuravam aflitos por Gerry. Ela o tinha perdido de vista há vários minutos.
- Está bem. Você está liberada. Vá, querida.
- Obrigada, Larry – agradeceu, dando-lhe um beijo no rosto.
Resolveu esperar mais um pouco após a saída de seu descobridor. Talvez ele tivesse saído para tomar um ar e voltasse. As luzes da galeria começaram a ser apagadas. O funcionário responsável veio perguntar se estava à espera de alguém.
- Não... Eu já estou de saída. Desculpe... – respondeu tristonha.
Pegou sua bolsa e dirigiu-se à saída. Os olhos tornaram-se turvos enquanto tentava engolir o choro que insistia em vir à tona. Ficou parada na calçada, olhando a esmo, perdida, pensando em como tinha sido estúpida em Paris. Agora o perdera pela segunda vez. Ao longe, ouviu o som de alguns trovões. Não notara que as nuvens no céu estavam carregadas. Logo, a chuva começou a cair densamente sobre as ruas e transeuntes que tentavam escapar dos grossos pingos de água. Carolina continuava como que paralisada, mal sentindo suas roupas sendo encharcadas. Queria desmanchar-se ali no meio da rua, sumir...
- Está sentindo-se mal ou está tentando o suicídio por afogamento?
- Gerry! – gritou, lançando-se ao seu pescoço e abraçando-o como a uma tábua de salvação.
Quando se recuperou da crise de júbilo por vê-lo, tentou soltar-se dele, mas desta vez um braço possante segurou-a pela cintura, impedindo seu afastamento, enquanto a mão grande erguia o seu queixo, forçando-a a olhar os verdes olhos brilhantes de desejo.
- Desta vez não vou deixar você me escapar – foi a última coisa que ela ouviu a voz rouca dizer antes que seus lábios fossem selados por um beijo intenso e úmido.
O temporal parecia começar a amenizar, mas a tempestuosidade dos carinhos de Carol e Gerry só aumentava.
- Que tal se sairmos do meio da rua e irmos para um lugar seco? – perguntou ele, sorrindo, numa pausa entre os beijos.
- Vou para onde você quiser... – ela anuiu com olhar apaixonado.
Sempre abraçados, conseguiram parar um táxi e foram para o apartamento de Gerry.
Lá chegando, Carol tentou falar.
- Acho que precisamos conversar...
- Vamos deixar esta conversa para depois. Agora só quero matar esta fome que estava de você, que me consome há um ano e que só você pode saciar.
Seus olhos famintos não permitiram que ela falasse mais nada. Sucumbindo ao desejo de tê-lo mais uma vez, deixou-se levar pelas carícias de Gerry. Dedos ansiosos buscavam os botões da camisa social dele, ao mesmo tempo em que ele levantava seu vestido e acariciava-a com volúpia sob a calcinha de renda. Num instante, suas roupas já estavam jogadas pelos tapetes da sala e ele a levava para o seu quarto. Jogada sobre a cama, voltou a sentir o peso do corpo de Gerry mais uma vez. Intenso, viril, rijo e... Apaixonado. Uma paixão que os envolvia como na primeira vez. Em pouco tempo, o ato atingiu seu máximo e ambos puderam relaxar lado a lado, com expressões de felicidade indiscutível.
- Como eu pude deixar você partir daquele jeito, meu amor? – disse ela virando-se sobre o peito dele e acariciando-o – Eu estava com medo, insegura...
- Não precisa falar mais nada, Carol. O importante é que estamos juntos de novo. Este tempo de separação só serviu para me fazer ver que você é a mulher que eu quero pra mim. É você que eu vejo fazendo parte do meu futuro. Não vou permitir que nada nos separe novamente.
- Ah, Gerry... Como é bom ouvir você dizendo isso. Me perdoa por ter fugido de você daquele jeito lá em... – antes que ela pudesse terminar seu pedido de desculpas, ele cobriu seus lábios com a boca sedenta.
Após o beijo, disse:
- Não precisa desculpar-se por mais nada. Só preciso saber se você está certa de que quer ficar comigo, contra toda e qualquer dificuldade que houver.
- Não tenho a menor dúvida sobre isso.
- Carol... Eu te amo...
- Também te amo muito, meu querido...
Mais um beijo apaixonado desencadeou nova torrente de desejo e carícias íntimas, selando as promessas de amor e um futuro compartilhado entre eles dali para frente.
FIM
Pois é, minhas queridas... Infelizmente este pequeno romance chegou ao fim. Mas prometo que o próximo já está a caminho... Em breve.
Beijos!!
Este é um espaço dedicado às pessoas românticas, que apreciam a leitura de estórias de amor. Compartilhem comigo desta viagem ao mundo das emoções do coração...
quarta-feira, 10 de junho de 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
A Camareira - continuação 2
Ele acercou-se ainda mais dela, olhando-a intensamente, como a enfeitiçá-la. Ele a queria muito e tinha certeza que ela compartilhava dos mesmos sentimentos de desejo. Logo estavam entrelaçados, a beijar-se ardentemente. Carolina cedeu em suas defesas, acreditando que ele estava certo. Eram poucos dias que tinha para ficar com ele. Por que não? Porque não se dar este prazer? Ele era lindo, charmoso, envolvente... Teria uma bela recordação destes momentos depois. Não teria tempo para apaixonar-se tão perdidamente por ele. Por que não aproveitar o ambiente e o momento?
“Chega de ter escrúpulos e analisar tanto a situação”, pensou ela.
Quando conseguiram separar suas bocas e diminuir a intensidade das carícias, ela o convidou:
- Que tal almoçarmos lá em casa? Podemos continuar esta conversa e você vai poder provar a melhor omelete que já comeu na sua vida. Topas?
- Adoro omeletes... – respondeu, Gerry, rindo do jeito de menina de Carol, finalmente cedendo à sua aproximação.
- Então, vamos pegar o metrô... Ou você acha que não é adequado andar neste meio de transporte? Afinal, para quem está acostumado a andar de limusine ...
- Vou adorar andar de metrô – sorriu.
De mãos dadas seguiram a caminho do Quartier Latin, onde ficava o apartamento da amiga de Carol, via subterrâneo.
A viagem acabou sendo divertida. Gerard aproveitou ao máximo o fato de não ser reconhecido por ninguém, como uma pessoa comum novamente. Carolina o olhava sorrindo, e pensando em como o desejava. Talvez não passasse disso mesmo. Desejo. Assim que estivessem saciados, cada um iria para o seu lado e... "c’est fini". Sem problemas ou crises existenciais. Ambos eram adultos e desejáveis. Por que não?
Chegaram ao apartamento.
- Sinta-se à vontade – falou, apontando para o grande sofá da sala de estar – Vou para a cozinha preparar o nosso almoço.
Antes que ela pudesse seguir sua intenção, ele a segurou pelos braços e a colou contra seu corpo, mantendo-a presa num abraço.
- Por que a pressa? Eu não estou com tanta fome assim.
Antes que ele a beijasse, ela o empurrou de leve para trás, fazendo-o afrouxar os braços.
- Vamos com calma. Eu o convidei para o almoço... – disse com expressão brejeira – Acho que temos de conversar mais. Você já sabe quase tudo sobre mim e eu não sei nada de você. Quem sabe você me conta tudo enquanto esperamos a fome chegar, aqui nesta sala, sentadinhos no sofá?
Ele resolveu entrar no jogo dela, mantendo distância, até que ela se sentisse mais à vontade com ele.
Sentaram-se. Ela tentou sentar distante, mas ele ficou ao seu lado, evitando a poltrona que Carol havia lhe indicado. Ela não pode deixar de achar graça no olhar de menino arteiro de Gerry.
- Acho que a minha vida está disponível na internet. É só acessar.
- Ah... Eu não gosto de computadores. Quem sabe se você me conta o que a internet não sabe...
- Bem ... Vejamos... – disse com expressão falsamente séria - A internet não sabe que estou no Quartier Latin, quase pronto para experimentar uma deliciosa omelete, feita especialmente por uma linda portuguesa, pela qual estou imensamente interessado – falou, agora sorrindo, envolvendo Carol com seu braço direito sobre os ombros e puxando-a contra si.
- Acho que vou para a cozinha fazer o nosso almoço. Espero que não se decepcione... – falou, desvencilhando-se daquele abraço, sorridente e já tentando levantar-se do sofá.
Quando pensou que conseguiria esfriá-lo, sentiu-se agarrada pelos quadris e puxada para trás, caindo sentada sobre as coxas de Gerry.
- Eu ainda não estou com fome... Que tal continuarmos a nos conhecer melhor? – cochichou roucamente, roçando os lábios na orelha esquerda de Carolina, que imediatamente arrepiou-se toda ao sentir aquele contato. Ele percebeu o seu estremecimento e sorriu satisfeito.
- Eu não tenho computador em casa para poder conhecê-lo melhor... – sua voz já tinha dificuldade em sair.
- O que eu quero que você conheça não está lá...
O desejo incendiou-se em Carol. Ela passou seus braços em torno do pescoço de Gerry e buscou a boca que já a esperava ansiosamente. Esqueceram-se de tudo, deixando o jogo de palavras para trás e entregando-se à paixão evidente. Com mão ágeis, logo estavam ambos sem roupas, amando-se sobre o grande e confortável sofá. Gerry era extremamente habilidoso em fazê-la sentir prazer. Seus dedos manipulavam seu sexo, enquanto a boca e a língua passeavam por seu pescoço, seus seios e abdômen, enlouquecendo-a. Por sua vez, ela o arranhava costas e braços, fazendo-o gemer. Agora, ela o desejava por inteiro. Só pensava em possuir e ser possuída por aquele homem. Jamais experimentara tamanho prazer no ato.
Ao perceber que ela já estava pronta para recebê-lo, Gerry introduziu seu membro rijo, provocando um grito de regozijo em Carol. Com calma e movimentos ondulantes começou sua posse. Aos poucos foi tornando-se mais vigoroso, sentindo que logo alcançaria o êxtase. Carol já gemia alto quando ouviu o grito de Gerry a ecoar pela sala, em meio ao ritmo frenético de vai-e-vem dentro dela.
Aos poucos entregaram-se àquela sensação gostosa após o gozo, atirados um nos braços do outro. Refeitos e satisfeitos, pelo menos naquele momento, Carol brincou:
- E agora... Está com fome?
Ele gargalhou. Um riso gostoso e confortante.
- Não sei... Talvez um pouco mais de “exercício” seja necessário – sorriu matreiro – já começando a percorrer o corpo de Carol com a pontas de seus dedos, excitando-a novamente.
- Talvez você tenha razão...Um “exercício” a mais pode fazer bem...
E mais uma vez amaram-se.
Já eram 15 horas quando decidiram que a fome finalmente chegara e que a omelete era necessária.
Carol levantou-se, vestiu apenas suas roupas íntimas e, depois de dar um beijo em Gerry, seguiu em direção à cozinha.
Enquanto preparava sua especialidade, sentiu aqueles braços fortes envolvendo-a e provocando-lhe uma sensação maravilhosa de conforto e intimidade que nunca tivera nem com Leon. Sentiu um pouco de medo dos sentimentos que a invadiam.
- Se você ficar me pegando assim, eu não garanto a qualidade da omelete – gracejou, experimentando uma felicidade ignorada até então.
- Está bem. Pelo bem do nosso almoço eu me afasto – e imediatamente a soltou – Posso pegar um pouco de água?
Ela percebeu que ele continuava completamente nu e quase deixa cair no chão a espátula que segurava.
- Os copos estão aqui – disse atrapalhada, apontando para o armário aéreo sobre o balcão de mármore – e a água está numa jarra dentro da geladeira.
Ele continuava o seu passeio despido entre os móveis da cozinha, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
-Você quer um pouco também? – ele perguntou, assim que achou os copos.
- Q-quero sim. Por favor...
Ele parecia estar fazendo aquilo de propósito só para tentá-la. Ela sempre fora um pouco envergonhada com as questões de exibir o corpo, apesar de não ter motivos para não gostar do seu. Talvez a educação em colégio de freiras e o fato de não ter tido a mãe sempre ao seu lado, já que esta falecera quando ela era pequena.
- Tome – disse ele, oferecendo-lhe o copo com água e percebendo as faces de Carol ruborizadas – O que houve? – perguntou carinhoso.
- Nada... É que não estou acostumada a ver homens pelados na cozinha enquanto faço as minhas omeletes.
Ele deu novamente aquela gargalhada sonora e envolvente. Aproximou-se dela e deu-lhe um beijo um beijo na bochecha.
- Então é bom acostumar-se, pois eu adoro andar pelado dentro de casa.
De repente ela ficou triste, pensando que não teriam tempo suficiente para que ela se acostumasse à sua presença naqueles trajes dentro do apartamento.
Ele percebeu o que tinha provocado nela e a abraçou novamente, por trás, confortando-a, mas sem dizer palavra alguma.
Não tocaram mais em assuntos que envolvessem uma possível continuidade de seu relacionamento. O domingo prolongou-se prazerosamente, terminando com um jantar romântico e um passeio às margens do Sena de mãos dadas. Como Gerry tinha um compromisso cedo no dia seguinte, deixou Carol em sua casa e foi dormir no hotel.
Depois deste primeiro encontro íntimo, passaram a encontrar-se diariamente, tentando aproveitar ao máximo o tempo que dispunham antes da viagem de Gerry para Los Angeles. Carol continuava com seu trabalho de camareira, evitando encontrá-lo no hotel, e suas aulas de arte, enquanto Gerry cumpria sua agenda de compromissos sociais. Encontravam-se à tarde, se houvesse alguma brecha, e reservavam a noite para ficarem juntos no apartamento de Carol. Seus encontros continuavam intensos e apaixonados. Tentavam evitar pensar no futuro, mas ambos já sofriam intimamente com a separação que se aproximava.
Na sexta, aconteceria uma grande festa vip da grife italiana Fendi. Gerry convidou Carol para ser sua companheira no evento, ao qual ele não poderia faltar. A princípio ela ficou na dúvida, mas acabou aceitando, tendo em vista que aquela seria sua última noite juntos, pois ele partiria na noite seguinte. Buscou no guarda roupa de sua amiga um traje adequado para a festa. Achou um elegante vestido azul, longo, acinturado, com um lindo drapeado sobre o busto e uma saia com um lindo e leve caimento.
Gerry chegou no horário combinado para buscá-la. Haviam concordado que não falariam sobre o dia seguinte. Fariam daquela uma noite muito especial.
Ele estava elegantíssimo em um terno escuro Armani, camisa branca e gravata azul, do mesmo tom do vestido de Carol, por pura coincidência.
- Você está linda, Carol. Vou ficar com ciúmes quando todos ficarem olhando para você... Acho que vamos ficar em casa – exclamou, admirado e sorridente,olhando para sua companheira.
- Quem está de tirar o fôlego é você. Não vou suportar ver todas aquelas peruas dando em cima do meu parceiro.
- Só vou ter olhos para você, minha princesa.
- Gerry... E se alguém estiver hospedado no hotel e me reconhecer? Vou morrer de vergonha.
- Claro que ninguém vai reconhecê-la. Não lembra sua teoria quando conversamos pela primeira vez. Estava certa. Ninguém presta muita atenção num funcionário de hotel. No máximo podem ficar, como eu fiquei, achando que a conhecem de algum outro lugar.
Ficou olhando para ela encantado e sem dizer mais palavras. Após alguns segundos de observação, Carol disse sorrindo:
- O que foi? Desistiu mesmo de sair?
- Quase... É que estou louco de vontade de lhe beijar, mas acho que vou estragar a sua maquiagem. Aí seremos obrigados a ficar aqui.
- Não se preocupe... Eu posso retocar o batom depois... – disse, enquanto envolvia o pescoço dele com suas mãos, aproximando-o de seus lábios – Também estou louca para te beijar – sussurrou, antes de cumprir a “ameaça”.
Depois de refazer praticamente toda a maquiagem depois dos vários beijos que se prolongaram por vários minutos, Carolina e Gerard saíram de casa e foram diretamente para a festa onde Karl Lagerfeld estaria de anfitrião.
Há muito tempo Carol não participava de uma festa assim. Desde que abandonara sua vida de dondoca da alta sociedade. Gostou de experimentar novamente o gosto da movimentação, do desfile de vaidades, olhares e fuxicos que dançavam pelo ar. Não que isso a atraísse como antes. Agora só achava tudo muito curioso. Na verdade gostaria de estar à sós com Gerry. Notou que ele flanava com elegância pelo ambiente, cumprimentando e sorrindo para todos. Ele era extremamente simpático. Achou que ele devia gostar da exposição, até que ele segredou em seu ouvido, como se tivesse lido seus pensamentos:
- Começo a achar que deveríamos ter ficado em casa. Participar de festas deste tipo só para fim de marketing mesmo.
- Na sua profissão isto é necessário, não? – cochichou, sentindo-se aliviada por ele estar pensando da mesma maneira que ela.
- Infelizmente – respondeu, colocando mais um sorriso sedutor nos lábios ao ver Donatela Versace aproximar-se.
- Olá, belo! Como está? – perguntou a ele, mas com o olhar a devorar a figura de Carol – E quem é esta beldade? Não a conheço das passarelas, mas vejo que tem muito bom gosto, tanto para vestidos como para homens. Como é seu nome, caríssima?
- Carolina – respondeu, tentando não fazer uma cara de espanto diante da plástica terrível a que a mulher a sua frente havia se submetido. Quem teria sido o açougueiro que conseguira fazer aquilo com a pobre coitada?
- Lindo nome! Gostando da festa?
- Muito – respondeu Gerry, tentando ser gentil.
- Depois temos que teminar a nossa conversa do outro dia, caro mio. Tenho um convite a fazer e tem que ser antes da sua volta à América. Você poderia vir ao meu escritório amanhã pela manhã?
- Posso sim. Meu retorno está marcado para a noite, às 20 horas.
- Ótimo! Então venha às 11 horas ao meu encontro. Vou deixar avisado com o meu secretário. Vou deixá-los agora. Aproveitem a noite, meus caros. Aproveite bem ele, caríssima – terminou por dizer, dando uma piscadela com olho e um sorriso meio torto na boca de lábios exageradamente preenchidos.
- Pode deixar – Carol assentiu com outra piscadela de olho.
Pensou: “Até que ela é simpática... Às vezes as aparências enganam... Ou a plástica...” Tentava não pensar nas palavras de Gerry ao falar do horário de sua partida no dia seguinte. Tinha medo de começar a chorar. Ela não tinha ficado com ódio dele, como ele imaginara no dia em que se entenderam no Jardin des Tuleries. Aqueles últimos dias tinham sido maravilhosos e só a fizeram gostar ainda mais dele.
- Vamos dançar, querida? – ouviu aquela voz máscula e sensual fazer cócegas em seu ouvido e sorriu. A pista de dança fora aberta para os convidados lançarem-se ao som da música do DJ mais famoso da cidade.
- Vamos sim... – confirmou, dizendo para si mesma que ia aproveitar com Gerry até o último minuto antes da despedida final.
Dançaram muito, até que, cansados e ansiosos para terminar a noite no apartamento de Carolina, seguiram para lá em torno de uma hora da manhã.
- Gostou da festa?
- Gostei, mais do que eu imaginara que gostaria.
- Que bom. Está convidada para as próximas – ao dizer isto, arrependeu-se, por notar a tristeza assumir lugar na face de Carol e lembrar que ele rompera o trato deles ao falar de coisas além do limite dos últimos cinco dias – Desculpe, eu não queria ter falado isto, mas é o que sinto e o que gostaria que acontecesse.
- Melhor não falarmos mais sobre isso, Gerry. Sabemos que isso é praticamente impossível. A partir de amanhã cada um vai seguir sua vida e...
- seus olhos ficaram marejados de lágrimas.
- Por que você tem que ser tão radical? – exclamou ligeiramente irritado, amenizando o tom de voz quando percebeu que ela estava começando a chorar - Nós podemos dar um jeito nisso...
- Prefiro não ter esperanças. Quero ficar com você nas minhas melhores lembranças a fazer planos para um futuro que pode não acontecer.
- Está bem, meu anjo. Você é que sabe. Não quero estragar nossa última noite com discussões que não levam a nada. Eu entendo o seu medo.
Prosseguiram em silêncio até o apartamento. Lá chegando, antes de ultrapassar a porta, pegou-a no colo, roubando-lhe um grito de surpresa e uma gargalhada quase infantil.
- Gerry, o que está fazendo, seu louco? – sem conseguir parar de rir.
- Tentando fazê-la feliz...
Assim que atravessou do corredor do prédio para o interior do apartamento, fechou a porta com um dos pés e levou-a para o quarto. Deitou-a delicadamente na cama e, após fitá-la por alguns segundos, começou a tirar o paletó, a gravata e por fim a camisa branca social. Debruçou-se sobre ela, que estava como que paralisada sobre o leito a admirar as belas formas masculinas de seu amado. Com as mãos, ele buscou o fecho de seu vestido em suas costas, enquanto a boca beijava e mordiscava de leve o seu pescoço.
- Gerry...- ela murmurava, sentindo o desejo aumentar lentamente, proporcionalmente aos carinhos dele.
Logo, ele foi baixando as alças do vestido azul e deixando os seios de Carol à vista, o que provocou uma interjeição suspirosa de sua parte. Ele não cansava de admirar toda aquela beleza. Sua pele clara e delicada, seus cabelos castanhos escuros que caíam despretensiosamente sobre seu colo, os seios arredondados e feitos na medida certa para suas mãos... A cintura fina e o ventre ligeiramente roliço que ele adorava beijar, levando-o ao monte de Vênus, aquela pequena elevação, sob a qual ela o aguardava latente e úmida... As coxas e pernas bem torneadas, que sabiam como envolvê-lo e prendê-lo como nenhuma outra.
- Você me deixa doido, Carol – disse com voz enrouquecida, antes de lançar-se sobre ela para beijá-la com ardor.
Terminou por tirar o vestido e as roupas íntimas de Carol, beijando-a por inteiro, enquanto ela estremecia de prazer em seus braços, sentindo as mãos gananciosas de Gerry passeando por seu corpo. Ao sentir o desejo de Gerry tomar forma sobre suas coxas, forçou-o a deitar-se de costas, invertendo suas posições. Queria poder ver aquele corpo magnífico clamar por ela. Extasiada diante daquela visão, pôs-se a percorrer com os olhos e mãos espalmadas o seu tórax amplo e viril, os braços fortes que buscavam por ela, o abdômen de músculos rijos... Chegando ao membro ereto, que tanto prazer lhe proporcionava, não pode resistir e o acariciou, beijando-o e lambendo-o suavemente, arrancando mais gemidos de Gerry.
Ambos já não podiam mais esperar para a finalização daquele ato. Foi quando Carol sentou-se sobre a virilha de Gerry, colocando-o para dentro de si e iniciando uma dança sensual de idas e vindas sobre ele. Ele segurava sua cintura com ambas as mãos, ajudando-a em seus movimentos cíclicos, e jogava seu quadril contra o dela cada vez mais veementemente. Tão logo alcançaram o clímax, Carol caiu relaxadamente sobre o peito de Gerry, podendo ainda ouvir o coração agitado e a respiração cansada dele. Estavam mais uma vez no paraíso. Ele a rolou delicadamente para o seu lado e a abraçou com carinho. Começava a sofrer também com a separação iminente. Ainda amaram-se muito madrugada adentro, até que dormiram abraçados, exaustos.
“Chega de ter escrúpulos e analisar tanto a situação”, pensou ela.
Quando conseguiram separar suas bocas e diminuir a intensidade das carícias, ela o convidou:
- Que tal almoçarmos lá em casa? Podemos continuar esta conversa e você vai poder provar a melhor omelete que já comeu na sua vida. Topas?
- Adoro omeletes... – respondeu, Gerry, rindo do jeito de menina de Carol, finalmente cedendo à sua aproximação.
- Então, vamos pegar o metrô... Ou você acha que não é adequado andar neste meio de transporte? Afinal, para quem está acostumado a andar de limusine ...
- Vou adorar andar de metrô – sorriu.
De mãos dadas seguiram a caminho do Quartier Latin, onde ficava o apartamento da amiga de Carol, via subterrâneo.
A viagem acabou sendo divertida. Gerard aproveitou ao máximo o fato de não ser reconhecido por ninguém, como uma pessoa comum novamente. Carolina o olhava sorrindo, e pensando em como o desejava. Talvez não passasse disso mesmo. Desejo. Assim que estivessem saciados, cada um iria para o seu lado e... "c’est fini". Sem problemas ou crises existenciais. Ambos eram adultos e desejáveis. Por que não?
Chegaram ao apartamento.
- Sinta-se à vontade – falou, apontando para o grande sofá da sala de estar – Vou para a cozinha preparar o nosso almoço.
Antes que ela pudesse seguir sua intenção, ele a segurou pelos braços e a colou contra seu corpo, mantendo-a presa num abraço.
- Por que a pressa? Eu não estou com tanta fome assim.
Antes que ele a beijasse, ela o empurrou de leve para trás, fazendo-o afrouxar os braços.
- Vamos com calma. Eu o convidei para o almoço... – disse com expressão brejeira – Acho que temos de conversar mais. Você já sabe quase tudo sobre mim e eu não sei nada de você. Quem sabe você me conta tudo enquanto esperamos a fome chegar, aqui nesta sala, sentadinhos no sofá?
Ele resolveu entrar no jogo dela, mantendo distância, até que ela se sentisse mais à vontade com ele.
Sentaram-se. Ela tentou sentar distante, mas ele ficou ao seu lado, evitando a poltrona que Carol havia lhe indicado. Ela não pode deixar de achar graça no olhar de menino arteiro de Gerry.
- Acho que a minha vida está disponível na internet. É só acessar.
- Ah... Eu não gosto de computadores. Quem sabe se você me conta o que a internet não sabe...
- Bem ... Vejamos... – disse com expressão falsamente séria - A internet não sabe que estou no Quartier Latin, quase pronto para experimentar uma deliciosa omelete, feita especialmente por uma linda portuguesa, pela qual estou imensamente interessado – falou, agora sorrindo, envolvendo Carol com seu braço direito sobre os ombros e puxando-a contra si.
- Acho que vou para a cozinha fazer o nosso almoço. Espero que não se decepcione... – falou, desvencilhando-se daquele abraço, sorridente e já tentando levantar-se do sofá.
Quando pensou que conseguiria esfriá-lo, sentiu-se agarrada pelos quadris e puxada para trás, caindo sentada sobre as coxas de Gerry.
- Eu ainda não estou com fome... Que tal continuarmos a nos conhecer melhor? – cochichou roucamente, roçando os lábios na orelha esquerda de Carolina, que imediatamente arrepiou-se toda ao sentir aquele contato. Ele percebeu o seu estremecimento e sorriu satisfeito.
- Eu não tenho computador em casa para poder conhecê-lo melhor... – sua voz já tinha dificuldade em sair.
- O que eu quero que você conheça não está lá...
O desejo incendiou-se em Carol. Ela passou seus braços em torno do pescoço de Gerry e buscou a boca que já a esperava ansiosamente. Esqueceram-se de tudo, deixando o jogo de palavras para trás e entregando-se à paixão evidente. Com mão ágeis, logo estavam ambos sem roupas, amando-se sobre o grande e confortável sofá. Gerry era extremamente habilidoso em fazê-la sentir prazer. Seus dedos manipulavam seu sexo, enquanto a boca e a língua passeavam por seu pescoço, seus seios e abdômen, enlouquecendo-a. Por sua vez, ela o arranhava costas e braços, fazendo-o gemer. Agora, ela o desejava por inteiro. Só pensava em possuir e ser possuída por aquele homem. Jamais experimentara tamanho prazer no ato.
Ao perceber que ela já estava pronta para recebê-lo, Gerry introduziu seu membro rijo, provocando um grito de regozijo em Carol. Com calma e movimentos ondulantes começou sua posse. Aos poucos foi tornando-se mais vigoroso, sentindo que logo alcançaria o êxtase. Carol já gemia alto quando ouviu o grito de Gerry a ecoar pela sala, em meio ao ritmo frenético de vai-e-vem dentro dela.
Aos poucos entregaram-se àquela sensação gostosa após o gozo, atirados um nos braços do outro. Refeitos e satisfeitos, pelo menos naquele momento, Carol brincou:
- E agora... Está com fome?
Ele gargalhou. Um riso gostoso e confortante.
- Não sei... Talvez um pouco mais de “exercício” seja necessário – sorriu matreiro – já começando a percorrer o corpo de Carol com a pontas de seus dedos, excitando-a novamente.
- Talvez você tenha razão...Um “exercício” a mais pode fazer bem...
E mais uma vez amaram-se.
Já eram 15 horas quando decidiram que a fome finalmente chegara e que a omelete era necessária.
Carol levantou-se, vestiu apenas suas roupas íntimas e, depois de dar um beijo em Gerry, seguiu em direção à cozinha.
Enquanto preparava sua especialidade, sentiu aqueles braços fortes envolvendo-a e provocando-lhe uma sensação maravilhosa de conforto e intimidade que nunca tivera nem com Leon. Sentiu um pouco de medo dos sentimentos que a invadiam.
- Se você ficar me pegando assim, eu não garanto a qualidade da omelete – gracejou, experimentando uma felicidade ignorada até então.
- Está bem. Pelo bem do nosso almoço eu me afasto – e imediatamente a soltou – Posso pegar um pouco de água?
Ela percebeu que ele continuava completamente nu e quase deixa cair no chão a espátula que segurava.
- Os copos estão aqui – disse atrapalhada, apontando para o armário aéreo sobre o balcão de mármore – e a água está numa jarra dentro da geladeira.
Ele continuava o seu passeio despido entre os móveis da cozinha, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
-Você quer um pouco também? – ele perguntou, assim que achou os copos.
- Q-quero sim. Por favor...
Ele parecia estar fazendo aquilo de propósito só para tentá-la. Ela sempre fora um pouco envergonhada com as questões de exibir o corpo, apesar de não ter motivos para não gostar do seu. Talvez a educação em colégio de freiras e o fato de não ter tido a mãe sempre ao seu lado, já que esta falecera quando ela era pequena.
- Tome – disse ele, oferecendo-lhe o copo com água e percebendo as faces de Carol ruborizadas – O que houve? – perguntou carinhoso.
- Nada... É que não estou acostumada a ver homens pelados na cozinha enquanto faço as minhas omeletes.
Ele deu novamente aquela gargalhada sonora e envolvente. Aproximou-se dela e deu-lhe um beijo um beijo na bochecha.
- Então é bom acostumar-se, pois eu adoro andar pelado dentro de casa.
De repente ela ficou triste, pensando que não teriam tempo suficiente para que ela se acostumasse à sua presença naqueles trajes dentro do apartamento.
Ele percebeu o que tinha provocado nela e a abraçou novamente, por trás, confortando-a, mas sem dizer palavra alguma.
Não tocaram mais em assuntos que envolvessem uma possível continuidade de seu relacionamento. O domingo prolongou-se prazerosamente, terminando com um jantar romântico e um passeio às margens do Sena de mãos dadas. Como Gerry tinha um compromisso cedo no dia seguinte, deixou Carol em sua casa e foi dormir no hotel.
Depois deste primeiro encontro íntimo, passaram a encontrar-se diariamente, tentando aproveitar ao máximo o tempo que dispunham antes da viagem de Gerry para Los Angeles. Carol continuava com seu trabalho de camareira, evitando encontrá-lo no hotel, e suas aulas de arte, enquanto Gerry cumpria sua agenda de compromissos sociais. Encontravam-se à tarde, se houvesse alguma brecha, e reservavam a noite para ficarem juntos no apartamento de Carol. Seus encontros continuavam intensos e apaixonados. Tentavam evitar pensar no futuro, mas ambos já sofriam intimamente com a separação que se aproximava.
Na sexta, aconteceria uma grande festa vip da grife italiana Fendi. Gerry convidou Carol para ser sua companheira no evento, ao qual ele não poderia faltar. A princípio ela ficou na dúvida, mas acabou aceitando, tendo em vista que aquela seria sua última noite juntos, pois ele partiria na noite seguinte. Buscou no guarda roupa de sua amiga um traje adequado para a festa. Achou um elegante vestido azul, longo, acinturado, com um lindo drapeado sobre o busto e uma saia com um lindo e leve caimento.
Gerry chegou no horário combinado para buscá-la. Haviam concordado que não falariam sobre o dia seguinte. Fariam daquela uma noite muito especial.
Ele estava elegantíssimo em um terno escuro Armani, camisa branca e gravata azul, do mesmo tom do vestido de Carol, por pura coincidência.
- Você está linda, Carol. Vou ficar com ciúmes quando todos ficarem olhando para você... Acho que vamos ficar em casa – exclamou, admirado e sorridente,olhando para sua companheira.
- Quem está de tirar o fôlego é você. Não vou suportar ver todas aquelas peruas dando em cima do meu parceiro.
- Só vou ter olhos para você, minha princesa.
- Gerry... E se alguém estiver hospedado no hotel e me reconhecer? Vou morrer de vergonha.
- Claro que ninguém vai reconhecê-la. Não lembra sua teoria quando conversamos pela primeira vez. Estava certa. Ninguém presta muita atenção num funcionário de hotel. No máximo podem ficar, como eu fiquei, achando que a conhecem de algum outro lugar.
Ficou olhando para ela encantado e sem dizer mais palavras. Após alguns segundos de observação, Carol disse sorrindo:
- O que foi? Desistiu mesmo de sair?
- Quase... É que estou louco de vontade de lhe beijar, mas acho que vou estragar a sua maquiagem. Aí seremos obrigados a ficar aqui.
- Não se preocupe... Eu posso retocar o batom depois... – disse, enquanto envolvia o pescoço dele com suas mãos, aproximando-o de seus lábios – Também estou louca para te beijar – sussurrou, antes de cumprir a “ameaça”.
Depois de refazer praticamente toda a maquiagem depois dos vários beijos que se prolongaram por vários minutos, Carolina e Gerard saíram de casa e foram diretamente para a festa onde Karl Lagerfeld estaria de anfitrião.
Há muito tempo Carol não participava de uma festa assim. Desde que abandonara sua vida de dondoca da alta sociedade. Gostou de experimentar novamente o gosto da movimentação, do desfile de vaidades, olhares e fuxicos que dançavam pelo ar. Não que isso a atraísse como antes. Agora só achava tudo muito curioso. Na verdade gostaria de estar à sós com Gerry. Notou que ele flanava com elegância pelo ambiente, cumprimentando e sorrindo para todos. Ele era extremamente simpático. Achou que ele devia gostar da exposição, até que ele segredou em seu ouvido, como se tivesse lido seus pensamentos:
- Começo a achar que deveríamos ter ficado em casa. Participar de festas deste tipo só para fim de marketing mesmo.
- Na sua profissão isto é necessário, não? – cochichou, sentindo-se aliviada por ele estar pensando da mesma maneira que ela.
- Infelizmente – respondeu, colocando mais um sorriso sedutor nos lábios ao ver Donatela Versace aproximar-se.
- Olá, belo! Como está? – perguntou a ele, mas com o olhar a devorar a figura de Carol – E quem é esta beldade? Não a conheço das passarelas, mas vejo que tem muito bom gosto, tanto para vestidos como para homens. Como é seu nome, caríssima?
- Carolina – respondeu, tentando não fazer uma cara de espanto diante da plástica terrível a que a mulher a sua frente havia se submetido. Quem teria sido o açougueiro que conseguira fazer aquilo com a pobre coitada?
- Lindo nome! Gostando da festa?
- Muito – respondeu Gerry, tentando ser gentil.
- Depois temos que teminar a nossa conversa do outro dia, caro mio. Tenho um convite a fazer e tem que ser antes da sua volta à América. Você poderia vir ao meu escritório amanhã pela manhã?
- Posso sim. Meu retorno está marcado para a noite, às 20 horas.
- Ótimo! Então venha às 11 horas ao meu encontro. Vou deixar avisado com o meu secretário. Vou deixá-los agora. Aproveitem a noite, meus caros. Aproveite bem ele, caríssima – terminou por dizer, dando uma piscadela com olho e um sorriso meio torto na boca de lábios exageradamente preenchidos.
- Pode deixar – Carol assentiu com outra piscadela de olho.
Pensou: “Até que ela é simpática... Às vezes as aparências enganam... Ou a plástica...” Tentava não pensar nas palavras de Gerry ao falar do horário de sua partida no dia seguinte. Tinha medo de começar a chorar. Ela não tinha ficado com ódio dele, como ele imaginara no dia em que se entenderam no Jardin des Tuleries. Aqueles últimos dias tinham sido maravilhosos e só a fizeram gostar ainda mais dele.
- Vamos dançar, querida? – ouviu aquela voz máscula e sensual fazer cócegas em seu ouvido e sorriu. A pista de dança fora aberta para os convidados lançarem-se ao som da música do DJ mais famoso da cidade.
- Vamos sim... – confirmou, dizendo para si mesma que ia aproveitar com Gerry até o último minuto antes da despedida final.
Dançaram muito, até que, cansados e ansiosos para terminar a noite no apartamento de Carolina, seguiram para lá em torno de uma hora da manhã.
- Gostou da festa?
- Gostei, mais do que eu imaginara que gostaria.
- Que bom. Está convidada para as próximas – ao dizer isto, arrependeu-se, por notar a tristeza assumir lugar na face de Carol e lembrar que ele rompera o trato deles ao falar de coisas além do limite dos últimos cinco dias – Desculpe, eu não queria ter falado isto, mas é o que sinto e o que gostaria que acontecesse.
- Melhor não falarmos mais sobre isso, Gerry. Sabemos que isso é praticamente impossível. A partir de amanhã cada um vai seguir sua vida e...
- seus olhos ficaram marejados de lágrimas.
- Por que você tem que ser tão radical? – exclamou ligeiramente irritado, amenizando o tom de voz quando percebeu que ela estava começando a chorar - Nós podemos dar um jeito nisso...
- Prefiro não ter esperanças. Quero ficar com você nas minhas melhores lembranças a fazer planos para um futuro que pode não acontecer.
- Está bem, meu anjo. Você é que sabe. Não quero estragar nossa última noite com discussões que não levam a nada. Eu entendo o seu medo.
Prosseguiram em silêncio até o apartamento. Lá chegando, antes de ultrapassar a porta, pegou-a no colo, roubando-lhe um grito de surpresa e uma gargalhada quase infantil.
- Gerry, o que está fazendo, seu louco? – sem conseguir parar de rir.
- Tentando fazê-la feliz...
Assim que atravessou do corredor do prédio para o interior do apartamento, fechou a porta com um dos pés e levou-a para o quarto. Deitou-a delicadamente na cama e, após fitá-la por alguns segundos, começou a tirar o paletó, a gravata e por fim a camisa branca social. Debruçou-se sobre ela, que estava como que paralisada sobre o leito a admirar as belas formas masculinas de seu amado. Com as mãos, ele buscou o fecho de seu vestido em suas costas, enquanto a boca beijava e mordiscava de leve o seu pescoço.
- Gerry...- ela murmurava, sentindo o desejo aumentar lentamente, proporcionalmente aos carinhos dele.
Logo, ele foi baixando as alças do vestido azul e deixando os seios de Carol à vista, o que provocou uma interjeição suspirosa de sua parte. Ele não cansava de admirar toda aquela beleza. Sua pele clara e delicada, seus cabelos castanhos escuros que caíam despretensiosamente sobre seu colo, os seios arredondados e feitos na medida certa para suas mãos... A cintura fina e o ventre ligeiramente roliço que ele adorava beijar, levando-o ao monte de Vênus, aquela pequena elevação, sob a qual ela o aguardava latente e úmida... As coxas e pernas bem torneadas, que sabiam como envolvê-lo e prendê-lo como nenhuma outra.
- Você me deixa doido, Carol – disse com voz enrouquecida, antes de lançar-se sobre ela para beijá-la com ardor.
Terminou por tirar o vestido e as roupas íntimas de Carol, beijando-a por inteiro, enquanto ela estremecia de prazer em seus braços, sentindo as mãos gananciosas de Gerry passeando por seu corpo. Ao sentir o desejo de Gerry tomar forma sobre suas coxas, forçou-o a deitar-se de costas, invertendo suas posições. Queria poder ver aquele corpo magnífico clamar por ela. Extasiada diante daquela visão, pôs-se a percorrer com os olhos e mãos espalmadas o seu tórax amplo e viril, os braços fortes que buscavam por ela, o abdômen de músculos rijos... Chegando ao membro ereto, que tanto prazer lhe proporcionava, não pode resistir e o acariciou, beijando-o e lambendo-o suavemente, arrancando mais gemidos de Gerry.
Ambos já não podiam mais esperar para a finalização daquele ato. Foi quando Carol sentou-se sobre a virilha de Gerry, colocando-o para dentro de si e iniciando uma dança sensual de idas e vindas sobre ele. Ele segurava sua cintura com ambas as mãos, ajudando-a em seus movimentos cíclicos, e jogava seu quadril contra o dela cada vez mais veementemente. Tão logo alcançaram o clímax, Carol caiu relaxadamente sobre o peito de Gerry, podendo ainda ouvir o coração agitado e a respiração cansada dele. Estavam mais uma vez no paraíso. Ele a rolou delicadamente para o seu lado e a abraçou com carinho. Começava a sofrer também com a separação iminente. Ainda amaram-se muito madrugada adentro, até que dormiram abraçados, exaustos.
Amanhã vocês terão a parte final deste romance. Estão gostando? Será que eles vão ficar juntos? Ainda não tenho ceteza, pois não escrevi o final ainda...rsrsrs.
Obrigada para todas vocês que têm deixado seus comentários aqui ( e também para quem não conseguiu colocar, mas me mandou seu recado para o meu email... ) Beijos!
segunda-feira, 8 de junho de 2009
A Camareira - continuação
Carolina não saía da sua cabeça. Não a viu no dia seguinte no hotel. Não quis perguntar por ela para não prejudicá-la. À tarde, enquanto se dirigia para um compromisso com Donatela Versace, a viu sentada diante de um cavalete na frente de La Madeleine. Pediu que o motorista parasse o carro e foi falar com ela. Aproximou-se sem que ela percebesse. Parecia estar muito concentrada em seu trabalho.
- Você me surpreende cada vez mais. É pintora também?
Assustada por ter sido tirada de sua distração por aquela voz conhecida tão repentinamente, virou-se para confirmar o seu interlocutor. Abriu um sorriso encantador.
- O que você está fazendo por aqui?
- Tentando desvendar os seus mistérios.
- Mistérios? Eu? – começou a gargalhar e voltou a atenção para a tela.
Ele ficou em silêncio, observando-a pintar, até que não resistiu e falou:
- Quero encontrar com você hoje.
- Nós já estamos nos encontrando agora.
- Quero dizer, quero sair para jantar com você, hoje à noite. Adoraria ficar conversando agora, mas tenho um compromisso inadiável neste momento – disse olhando para o relógio de pulso.
- Não sei se vou poder. Acho que já tenho um compromisso – disse sorrindo disfarçadamente.
- Se você não aceitar, vou ser obrigado a pedir o seu endereço no hotel e procurá-la em sua casa até você se dignar a me dar atenção.
Aí, ela pareceu ficar irritada com aquela insistência e disse, olhando-o firmemente:
- Afinal, o que você quer comigo? Você está agindo assim porque eu não caí aos seus pés como as outras? O que um homem como você quer com uma camareira? Melhor me deixar em paz e procurar alguém do seu meio – ela vociferou em voz baixa.
- Eu apenas quero conhecer você. É pedir muito? Por que sente tanta aversão por mim? – sua voz era quase de súplica, bem como seu olhar.
Não podia acreditar que ele ainda quisesse ter alguma conversa com ela depois do que ela havia dito. Ao vê-lo praticamente suplicando por um encontro, foi obrigada a baixar a guarda e considerar seu pedido.
- Não. Não tenho aversão alguma a você – pensou um pouco e assentiu – Está bem. Que tal amanhã, à noite? Hoje realmente eu já tinha combinado uma saída com alguns amigos.
- Onde eu a encontro?
- Na frente do hotel, na Place Vendôme, às 20 horas, junto ao obelisco.
- Excelente! Até amanhã, então.
Satisfeito com a combinação, após uma troca de olhares e tímidos sorrisos, despediram-se.
Ele correu para o seu compromisso, para o qual já estava atrasadíssimo, e ela voltou a olhar para a sua pintura em andamento. Até o final do dia não conseguiu pintar mais nada, pois se perdeu em questionamentos a respeito do compromisso marcado com Gerard. Talvez não devesse ter combinado nenhum jantar. Eles não tinham nada em comum. Não podia negar que ele a atraía muito. Por isso mesmo tinha muito medo de não conseguir resistir a ele. Não queria machucar-se de novo. Há dois anos havia se apaixonado por um ator de teatro que saía com o seu grupo de amigos. Foram seis meses de grande paixão, até que um dia ela o pegou com uma colega do teatro. Teve vontade de morrer. Entrou em depressão, da qual só conseguiu sair após muitas conversas com seu analista. Desde então só mantivera relacionamentos curtos e sem maior importância. Tinha muito medo de apaixonar-se novamente. E agora, este homem surgia inesperadamente. Também ator e tremendamente cativante. Talvez fosse melhor cancelar o encontro ou simplesmente não aparecer. Ele provavelmente não ficaria muito mais tempo na cidade. Seus compromissos acabariam e ele voltaria para Hollywood, esquecendo-a num piscar de olhos. Talvez fosse melhor assim...
- Você me surpreende cada vez mais. É pintora também?
Assustada por ter sido tirada de sua distração por aquela voz conhecida tão repentinamente, virou-se para confirmar o seu interlocutor. Abriu um sorriso encantador.
- O que você está fazendo por aqui?
- Tentando desvendar os seus mistérios.
- Mistérios? Eu? – começou a gargalhar e voltou a atenção para a tela.
Ele ficou em silêncio, observando-a pintar, até que não resistiu e falou:
- Quero encontrar com você hoje.
- Nós já estamos nos encontrando agora.
- Quero dizer, quero sair para jantar com você, hoje à noite. Adoraria ficar conversando agora, mas tenho um compromisso inadiável neste momento – disse olhando para o relógio de pulso.
- Não sei se vou poder. Acho que já tenho um compromisso – disse sorrindo disfarçadamente.
- Se você não aceitar, vou ser obrigado a pedir o seu endereço no hotel e procurá-la em sua casa até você se dignar a me dar atenção.
Aí, ela pareceu ficar irritada com aquela insistência e disse, olhando-o firmemente:
- Afinal, o que você quer comigo? Você está agindo assim porque eu não caí aos seus pés como as outras? O que um homem como você quer com uma camareira? Melhor me deixar em paz e procurar alguém do seu meio – ela vociferou em voz baixa.
- Eu apenas quero conhecer você. É pedir muito? Por que sente tanta aversão por mim? – sua voz era quase de súplica, bem como seu olhar.
Não podia acreditar que ele ainda quisesse ter alguma conversa com ela depois do que ela havia dito. Ao vê-lo praticamente suplicando por um encontro, foi obrigada a baixar a guarda e considerar seu pedido.
- Não. Não tenho aversão alguma a você – pensou um pouco e assentiu – Está bem. Que tal amanhã, à noite? Hoje realmente eu já tinha combinado uma saída com alguns amigos.
- Onde eu a encontro?
- Na frente do hotel, na Place Vendôme, às 20 horas, junto ao obelisco.
- Excelente! Até amanhã, então.
Satisfeito com a combinação, após uma troca de olhares e tímidos sorrisos, despediram-se.
Ele correu para o seu compromisso, para o qual já estava atrasadíssimo, e ela voltou a olhar para a sua pintura em andamento. Até o final do dia não conseguiu pintar mais nada, pois se perdeu em questionamentos a respeito do compromisso marcado com Gerard. Talvez não devesse ter combinado nenhum jantar. Eles não tinham nada em comum. Não podia negar que ele a atraía muito. Por isso mesmo tinha muito medo de não conseguir resistir a ele. Não queria machucar-se de novo. Há dois anos havia se apaixonado por um ator de teatro que saía com o seu grupo de amigos. Foram seis meses de grande paixão, até que um dia ela o pegou com uma colega do teatro. Teve vontade de morrer. Entrou em depressão, da qual só conseguiu sair após muitas conversas com seu analista. Desde então só mantivera relacionamentos curtos e sem maior importância. Tinha muito medo de apaixonar-se novamente. E agora, este homem surgia inesperadamente. Também ator e tremendamente cativante. Talvez fosse melhor cancelar o encontro ou simplesmente não aparecer. Ele provavelmente não ficaria muito mais tempo na cidade. Seus compromissos acabariam e ele voltaria para Hollywood, esquecendo-a num piscar de olhos. Talvez fosse melhor assim...
Gerry chegou ao obelisco pouco antes do horário combinado, andando por ali até quase 21h30min. Seus sentimentos variaram desde a ansiedade, passando por uma irritação crescente até a raiva por ter sido feito de bobo, mais uma vez.
“Isto não vai ficar assim. Ela vai ter que me explicar os seus motivos para me tratar desta maneira ridícula”, pensava ele.
Voltou à recepção do hotel, pediu algumas informações sobre o horário do serviço de quarto e fez uma solicitação.
Naquela manhã, esperou que seu pedido fosse atendido e ficou esperando a chegada de Carolina para fazer a limpeza de sua suíte, deixando o aviso solicitando arrumação pendurado no trinco da porta. Qual não foi sua surpresa quando outra camareira entrou, sendo surpreendida por ele.
- Eu havia pedido por outra pessoa para arrumar meu quarto.
- Perdão, senhor, mas a menina sentiu-se mal e pediu-me que a substituísse.
- Onde está ela?
- Deve estar saindo do hotel. Ela pediu para sair mais cedo, devido à sua indisposição.
Ele podia imaginar qual era o motivo desta “indisposição”. Correu para os elevadores e desceu até o subsolo. Havia sido informado que a saída dos funcionários era feita por uma passagem na garagem do hotel. Chegando lá, viu a sua camareira “indisposta” despedindo-se de alguém e caminhando em direção à saída, que ficava logo após alguns carros estacionados.
Ele correu até ela e, quando estava bem próximo, a chamou:
- Carolina!
Ela virou-se e, ao reconhecê-lo, tentou fugir. Mas ele foi mais rápido e alcançou-a, segurando-a pelo braço, puxando-a e encurralando-a entre um dos carros estacionados e ele.
- Agora você vai me explicar o que está acontecendo. Não gosto de fazer papel de bobo.
A expressão dele deixou-a assustada. Ela ainda tentou escapar daqueles braços poderosos, sem conseguir.
- Me largue... Por favor.
- Só se você concordar em falar comigo – falou um pouco mais calmo.
- O que há com você? Por que não desiste. Já não percebeu que não quero nada com você?
Ele pareceu ter levado um balde de água gelada no rosto ao ouvir aquelas palavras.
Afrouxou o laço em torno dos braços de Carolina e, cabisbaixo, com expressão cansada, disse:
- É... Você tem razão. Sou um estúpido mesmo. Já devia ter percebido isso... – Soltou-a e voltou a falar – Sinto muito. Não vou mais incomodá-la.
Ao vê-lo tão derrotado e tristonho, não conseguiu resistir:
- Gerard – chamou-o, tocando em seu braço – Espere...
Ele continuou andando na direção dos elevadores, sem olhar para ela.
- Espere, por favor!... Está bem! Não é verdade que não quero nada com você. Eu confesso que estou com medo de você.
Ele parou subitamente, ainda sem olhá-la.
- Por favor...? – suplicou – Você tem razão. Precisamos conversar...
Ele finalmente virou-se e a encarou.
- Medo? Medo de mim? Por quê?
Vendo-o assim totalmente desarmado e com olhar de menino machucado, não resistiu à tentação de fazer-lhe um afago no rosto.
- É que sou meio doida... Vamos conversar?
Ele pegou sua mão e a beijou. Este carinho acendeu o desejo de ambos e o abraço e o beijo que se seguiram foram inevitáveis. Ele a puxou contra seu corpo.
- Se você queria me deixar louco, conseguiu.
Colou sua boca nos lábios de Carolina, beijando-a com intensidade, rompendo-lhe as últimas defesas.
De repente ouviram uma voz rompendo o silêncio do local e a sua troca de carinhos.
- Quem está aí? – perguntou o vigia do dia.
- Oi, Pierre! Sou eu, Carolina. Encontrei um amigo. Já estamos de saída.
- Amigo, é? Se o gerente te pega, você sabe o que acontece, não? Ainda bem que sou seu amigo. Melhor sair logo daqui.
- Obrigada, Pierre. Até amanhã.
- Até!
Saíram do estacionamento, seguindo pela rampa reservada aos pedestres, ainda meio sem jeito.
- Que tal se caminhássemos um pouco até o Jardin des Tuileries?
Ele não respondeu. Apenas a seguia de perto, com medo que ela lhe escapasse de novo. Carolina seguia envergonhada pelo que tinha feito na noite passada e pela forma como o tratara minutos antes. Como explicaria à ele o que a levara a fazer aquilo
Parecendo ler seus pensamentos, Gerard quebrou o silêncio, sugerindo:
- Primeiro quero saber o que aconteceu ontem. Por que você não apareceu ao nosso encontro? E que medo é este que você falou? Não entendo...
- Gerard, depois de combinar aquele jantar com você, comecei a pensar se valeria à pena conhecê-lo melhor... Quero dizer... Fiquei com medo de gostar mais de você do que devia. Pronto! Falei.
- E qual seria o problema de gostar de mim?
- Você tem a sua vida lá nos Estados Unidos, está num meio glamoroso, cercado de atrizes e modelos lindas. Que futuro eu teria junto a você? Nenhum. Então, para que começar algo que já está fadado a terminar?
- Você não quer nem ser minha amiga? – perguntou com um olhar maroto, enquanto continuavam andando lado a lado.
- Acho que depois daquelas demonstrações na garagem, nem eu nem você estamos com intenções apenas de amizade. Você não acha?
Ele não pode deixar de sorrir.
- Bom, “depois daquelas demonstrações na garagem” não temos mais como negar que estamos a fim um do outro. Se vai ser um relacionamento duradouro ou não, isto já é outra história.
Ela finalmente conseguiu olhar nos olhos dele e sentiu perder o chão sob seus pés. Ela nunca pensou que pudesse se apaixonar novamente... E agora...
Sentiu um calor gostoso quando ele pegou sua mão e pressionou-a carinhosamente.
- Que tal você me falar um pouco mais da sua vida? Estou curioso sobre as três Carolinas que conheci.
- Três? Como assim? – perguntou surpresa.
- A camareira, a mulher elegante que vai a desfiles da Versace e a artista que pinta telas ao ar livre.
- Ah! Isso. Tem certeza que tem tempo para ouvir uma longa história?
- Tenho a tarde inteira... – disse isso, olhou em frente e fez um ar complacente.
Ela finalmente sorriu. Resolvida a deixar-se levar por aquele homem e não pensar mais nas consequências disso, dispôs-se a contar sobre sua vida.
“Isto não vai ficar assim. Ela vai ter que me explicar os seus motivos para me tratar desta maneira ridícula”, pensava ele.
Voltou à recepção do hotel, pediu algumas informações sobre o horário do serviço de quarto e fez uma solicitação.
Naquela manhã, esperou que seu pedido fosse atendido e ficou esperando a chegada de Carolina para fazer a limpeza de sua suíte, deixando o aviso solicitando arrumação pendurado no trinco da porta. Qual não foi sua surpresa quando outra camareira entrou, sendo surpreendida por ele.
- Eu havia pedido por outra pessoa para arrumar meu quarto.
- Perdão, senhor, mas a menina sentiu-se mal e pediu-me que a substituísse.
- Onde está ela?
- Deve estar saindo do hotel. Ela pediu para sair mais cedo, devido à sua indisposição.
Ele podia imaginar qual era o motivo desta “indisposição”. Correu para os elevadores e desceu até o subsolo. Havia sido informado que a saída dos funcionários era feita por uma passagem na garagem do hotel. Chegando lá, viu a sua camareira “indisposta” despedindo-se de alguém e caminhando em direção à saída, que ficava logo após alguns carros estacionados.
Ele correu até ela e, quando estava bem próximo, a chamou:
- Carolina!
Ela virou-se e, ao reconhecê-lo, tentou fugir. Mas ele foi mais rápido e alcançou-a, segurando-a pelo braço, puxando-a e encurralando-a entre um dos carros estacionados e ele.
- Agora você vai me explicar o que está acontecendo. Não gosto de fazer papel de bobo.
A expressão dele deixou-a assustada. Ela ainda tentou escapar daqueles braços poderosos, sem conseguir.
- Me largue... Por favor.
- Só se você concordar em falar comigo – falou um pouco mais calmo.
- O que há com você? Por que não desiste. Já não percebeu que não quero nada com você?
Ele pareceu ter levado um balde de água gelada no rosto ao ouvir aquelas palavras.
Afrouxou o laço em torno dos braços de Carolina e, cabisbaixo, com expressão cansada, disse:
- É... Você tem razão. Sou um estúpido mesmo. Já devia ter percebido isso... – Soltou-a e voltou a falar – Sinto muito. Não vou mais incomodá-la.
Ao vê-lo tão derrotado e tristonho, não conseguiu resistir:
- Gerard – chamou-o, tocando em seu braço – Espere...
Ele continuou andando na direção dos elevadores, sem olhar para ela.
- Espere, por favor!... Está bem! Não é verdade que não quero nada com você. Eu confesso que estou com medo de você.
Ele parou subitamente, ainda sem olhá-la.
- Por favor...? – suplicou – Você tem razão. Precisamos conversar...
Ele finalmente virou-se e a encarou.
- Medo? Medo de mim? Por quê?
Vendo-o assim totalmente desarmado e com olhar de menino machucado, não resistiu à tentação de fazer-lhe um afago no rosto.
- É que sou meio doida... Vamos conversar?
Ele pegou sua mão e a beijou. Este carinho acendeu o desejo de ambos e o abraço e o beijo que se seguiram foram inevitáveis. Ele a puxou contra seu corpo.
- Se você queria me deixar louco, conseguiu.
Colou sua boca nos lábios de Carolina, beijando-a com intensidade, rompendo-lhe as últimas defesas.
De repente ouviram uma voz rompendo o silêncio do local e a sua troca de carinhos.
- Quem está aí? – perguntou o vigia do dia.
- Oi, Pierre! Sou eu, Carolina. Encontrei um amigo. Já estamos de saída.
- Amigo, é? Se o gerente te pega, você sabe o que acontece, não? Ainda bem que sou seu amigo. Melhor sair logo daqui.
- Obrigada, Pierre. Até amanhã.
- Até!
Saíram do estacionamento, seguindo pela rampa reservada aos pedestres, ainda meio sem jeito.
- Que tal se caminhássemos um pouco até o Jardin des Tuileries?
Ele não respondeu. Apenas a seguia de perto, com medo que ela lhe escapasse de novo. Carolina seguia envergonhada pelo que tinha feito na noite passada e pela forma como o tratara minutos antes. Como explicaria à ele o que a levara a fazer aquilo
Parecendo ler seus pensamentos, Gerard quebrou o silêncio, sugerindo:
- Primeiro quero saber o que aconteceu ontem. Por que você não apareceu ao nosso encontro? E que medo é este que você falou? Não entendo...
- Gerard, depois de combinar aquele jantar com você, comecei a pensar se valeria à pena conhecê-lo melhor... Quero dizer... Fiquei com medo de gostar mais de você do que devia. Pronto! Falei.
- E qual seria o problema de gostar de mim?
- Você tem a sua vida lá nos Estados Unidos, está num meio glamoroso, cercado de atrizes e modelos lindas. Que futuro eu teria junto a você? Nenhum. Então, para que começar algo que já está fadado a terminar?
- Você não quer nem ser minha amiga? – perguntou com um olhar maroto, enquanto continuavam andando lado a lado.
- Acho que depois daquelas demonstrações na garagem, nem eu nem você estamos com intenções apenas de amizade. Você não acha?
Ele não pode deixar de sorrir.
- Bom, “depois daquelas demonstrações na garagem” não temos mais como negar que estamos a fim um do outro. Se vai ser um relacionamento duradouro ou não, isto já é outra história.
Ela finalmente conseguiu olhar nos olhos dele e sentiu perder o chão sob seus pés. Ela nunca pensou que pudesse se apaixonar novamente... E agora...
Sentiu um calor gostoso quando ele pegou sua mão e pressionou-a carinhosamente.
- Que tal você me falar um pouco mais da sua vida? Estou curioso sobre as três Carolinas que conheci.
- Três? Como assim? – perguntou surpresa.
- A camareira, a mulher elegante que vai a desfiles da Versace e a artista que pinta telas ao ar livre.
- Ah! Isso. Tem certeza que tem tempo para ouvir uma longa história?
- Tenho a tarde inteira... – disse isso, olhou em frente e fez um ar complacente.
Ela finalmente sorriu. Resolvida a deixar-se levar por aquele homem e não pensar mais nas consequências disso, dispôs-se a contar sobre sua vida.
- Como já deve ter notado pelo meu sotaque, sou portuguesa. Estou fazendo o último ano da Faculdade de Artes Plásticas em Lisboa. Soube que haveria um curso de aperfeiçoamento de técnicas de pintura, com duração de três meses, aqui em Paris, e resolvi me inscrever. Meu pai pagou pelo curso, mas eu queria poder ficar independente economicamente dele no restante do tempo. Por isso juntei algumas economias e pedi emprestado o apartamento de uma amiga que está de férias fora daqui. As roupas que você me viu vestindo no desfile eram dela. Roupas como aquelas não caberiam na mochila que me acompanhou na viagem de trem até aqui. Meu pai é um empresário do setor de construções e mercado imobiliário em Portugal. Quando resolvi estudar artes plásticas, ele foi meu maior incentivador. Eu sempre tive tudo que quis. Até que eu conheci o Leon...
“Ele frequentava a mesma roda de amigos da alta sociedade lisboense que eu. Leon era um jovem ator de teatro em franca ascensão. No dia em que fomos apresentados senti o que deveria ser um amor à primeira vista. Achei que não poderia mais viver sem ele. Durante seis meses me senti no paraíso, até que... – surpreendentemente não veio a vontade de chorar que sempre aparecia quando falava sobre suas descobertas sobre Leon – Até que descobri quem ele era de verdade. Um oportunista, narcisista e mulherengo inveterado. Descobri isto da pior maneira possível. Ele tinha estreado uma nova peça no teatro e resolvi fazer-lhe uma surpresa. Ele pensava que eu estava na faculdade naquela noite. Assim que encerrou-se o último ato, fui até os camarins para encontrá-lo e dar-lhe os parabéns por mais um sucesso. Quando abri a porta, o encontrei agarrado com a atriz principal, aos beijos. Quando ele percebeu a minha presença, apenas lançou-me um sorriso sarcástico e disse:
- Ora,ora...Você aqui, minha bela? Não tinha aula hoje à noite?
Eu não conseguia encontrar as palavras para demonstrar toda a minha decepção e raiva diante daqueles dois, que me encaravam como se nada houvesse acontecido.
- Nós estávamos fazendo um pequeno ensaio, não é mesmo, Dinah?
Ela apenas me olhou. Um olhar de comiseração, como se eu fosse uma idiota qualquer.
- Querido, vou ao meu camarim para tirar a maquiagem. Depois falo com você. Acho que vocês têm de conversar – deu-lhe um beijo na face e saiu altiva, passando por mim como se eu fosse nada.
Tive vontade de bater nela e dizer-lhe os maiores impropérios, mas estava guardando minhas forças para Leon.
- Então? Que surpresa foi esta? – disse aproximando-se de mim e fazendo menção de beijar-me. Eu o repeli e olhei dentro de seus olhos, a procurar onde estava a vergonha dele.
- Gostou da peça?
Estava impressionada com o cinismo daquele homem que eu achava conhecer.
- Você não tem nada para me dizer sobre a cena que acabei de ver? – perguntei, tentando segurar o choro.
- Mas já lhe falei. Estávamos ensaiando – respondeu com o mesmo sorriso de antes.
Aproximei-me dele e desferi um tapa em seu rosto, com toda a força que consegui arranjar.
Mal recuperado do susto, pois nunca pensou que eu pudesse fazer uma coisa como aquela, seus olhos semicerraram-se e me olharam com desprezo.
- Quem você pensa que é para chegar aqui desta maneira e bater em meu rosto, sua garota mimada!
- Eu pensei que você me amava – minha voz era quase inaudível.
- Carol, você é muito ingênua. Amor é uma coisa que só existe nas peças de teatro, nos romances e no cinema. Você é uma graça de pessoa, linda e desejável, mas daí a me apaixonar... Sinto muito que você tenha pensado errado em relação aos meus sentimentos. Mas tenho certeza que seu pai vai ressarci-la por este triste acontecimento. Talvez uma viagem ou um vestido novo?
Eu não conseguia acreditar no que ouvia.
- Você me acha tão fútil assim?
- Fútil eu não diria, mas inexperiente, fechada numa redoma de vidro e pensando que o mundo está os seus pés. Você tem muito que aprender. Não vou dizer que não gosto de você. Foi um ótimo passatempo tê-la em meus braços durante estes últimos meses. Acho que poderíamos ficar mais tempo juntos, se você quiser. Mas quero estar livre para me encontrar com outras amigas. Você sabe como somos nós os artistas. Não podemos nos sentir engaiolados.
Onde estava o Leon que ela conhecera antes? Não conseguia acreditar que se enganara tanto com ele. Talvez ele tivesse razão sobre a redoma de vidro. Talvez ela tivesse servido como barreira para não deixá-la ver a realidade a sua frente.
Não queria que ele me visse chorar por sua causa. Por isso me virei e saí correndo de lá. Não conseguia falar mais nada. Estava desesperada demais para poder reagir àquela situação. Leon tinha conseguido a sua melhor atuação fingindo-se de apaixonado por mim. E eu tinha sido a sua platéia mais crédula.”
- Ora,ora...Você aqui, minha bela? Não tinha aula hoje à noite?
Eu não conseguia encontrar as palavras para demonstrar toda a minha decepção e raiva diante daqueles dois, que me encaravam como se nada houvesse acontecido.
- Nós estávamos fazendo um pequeno ensaio, não é mesmo, Dinah?
Ela apenas me olhou. Um olhar de comiseração, como se eu fosse uma idiota qualquer.
- Querido, vou ao meu camarim para tirar a maquiagem. Depois falo com você. Acho que vocês têm de conversar – deu-lhe um beijo na face e saiu altiva, passando por mim como se eu fosse nada.
Tive vontade de bater nela e dizer-lhe os maiores impropérios, mas estava guardando minhas forças para Leon.
- Então? Que surpresa foi esta? – disse aproximando-se de mim e fazendo menção de beijar-me. Eu o repeli e olhei dentro de seus olhos, a procurar onde estava a vergonha dele.
- Gostou da peça?
Estava impressionada com o cinismo daquele homem que eu achava conhecer.
- Você não tem nada para me dizer sobre a cena que acabei de ver? – perguntei, tentando segurar o choro.
- Mas já lhe falei. Estávamos ensaiando – respondeu com o mesmo sorriso de antes.
Aproximei-me dele e desferi um tapa em seu rosto, com toda a força que consegui arranjar.
Mal recuperado do susto, pois nunca pensou que eu pudesse fazer uma coisa como aquela, seus olhos semicerraram-se e me olharam com desprezo.
- Quem você pensa que é para chegar aqui desta maneira e bater em meu rosto, sua garota mimada!
- Eu pensei que você me amava – minha voz era quase inaudível.
- Carol, você é muito ingênua. Amor é uma coisa que só existe nas peças de teatro, nos romances e no cinema. Você é uma graça de pessoa, linda e desejável, mas daí a me apaixonar... Sinto muito que você tenha pensado errado em relação aos meus sentimentos. Mas tenho certeza que seu pai vai ressarci-la por este triste acontecimento. Talvez uma viagem ou um vestido novo?
Eu não conseguia acreditar no que ouvia.
- Você me acha tão fútil assim?
- Fútil eu não diria, mas inexperiente, fechada numa redoma de vidro e pensando que o mundo está os seus pés. Você tem muito que aprender. Não vou dizer que não gosto de você. Foi um ótimo passatempo tê-la em meus braços durante estes últimos meses. Acho que poderíamos ficar mais tempo juntos, se você quiser. Mas quero estar livre para me encontrar com outras amigas. Você sabe como somos nós os artistas. Não podemos nos sentir engaiolados.
Onde estava o Leon que ela conhecera antes? Não conseguia acreditar que se enganara tanto com ele. Talvez ele tivesse razão sobre a redoma de vidro. Talvez ela tivesse servido como barreira para não deixá-la ver a realidade a sua frente.
Não queria que ele me visse chorar por sua causa. Por isso me virei e saí correndo de lá. Não conseguia falar mais nada. Estava desesperada demais para poder reagir àquela situação. Leon tinha conseguido a sua melhor atuação fingindo-se de apaixonado por mim. E eu tinha sido a sua platéia mais crédula.”
Depois desta noite, tive que fazer algumas visitas a um psiquiatra para poder superar a minha desilusão. Enfim... Acabei chegando à conclusão de que tudo isto tinha sido benéfico. Eu abri os olhos para uma realidade até então desconhecida. Eu podia vislumbrar o mundo muito além dos muros daquela vidinha de socialite que tinha antes. Jurei que nunca mais me deixaria levar pela paixão. Também comecei a tentar conquistar minha independência. Comecei a trabalhar nas horas vagas, muitas vezes em empregos subalternos, como este em que você me encontrou, para desespero de meu pai. Parei de frequentar as rodinhas sociais. Poucos amigos sobraram daquela época. Já fazem quase dois anos que tudo aconteceu. Também tive poucos relacionamentos neste período. Namoricos sem importância. Agora, você aparece assim, de repente, numa hora em que estou me sentindo quase independente, e revira o meu mundo de pernas para o ar.
- Eu não sabia que eu tinha provocado tal confusão em você...
- Não era para saber mesmo. Agora a boca grande aqui falou tudo que não devia. Mas não precisa se sentir dono da situação porque eu não vou permitir.
- É? E o que você vai fazer a respeito? - ele perguntou zombeteiro.
- Nós vamos parar por aqui e fazer de conta que nada está acontecendo. Você vai voltar para a sua vida de estrelato e eu vou terminar o meu curso e voltar para Lisboa. Cada um continua com sua vida normal, sem turbulências de percurso.
Ele permaneceu olhando para ela, achando graça da forma simplória como ela tinha resolvido abafar seus sentimentos.
- É isso, então?
Eles haviam chegado ao Jardim, próximo ao Museu do Louvre. Carolina não conseguia olhá-lo nos olhos por medo de fraquejar.
- Vamos sentar aqui – pediu ele, indicando um dos bancos do lugar, sob um imenso plátano.
- Eu não sabia que eu tinha provocado tal confusão em você...
- Não era para saber mesmo. Agora a boca grande aqui falou tudo que não devia. Mas não precisa se sentir dono da situação porque eu não vou permitir.
- É? E o que você vai fazer a respeito? - ele perguntou zombeteiro.
- Nós vamos parar por aqui e fazer de conta que nada está acontecendo. Você vai voltar para a sua vida de estrelato e eu vou terminar o meu curso e voltar para Lisboa. Cada um continua com sua vida normal, sem turbulências de percurso.
Ele permaneceu olhando para ela, achando graça da forma simplória como ela tinha resolvido abafar seus sentimentos.
- É isso, então?
Eles haviam chegado ao Jardim, próximo ao Museu do Louvre. Carolina não conseguia olhá-lo nos olhos por medo de fraquejar.
- Vamos sentar aqui – pediu ele, indicando um dos bancos do lugar, sob um imenso plátano.
Sentaram-se e ficaram olhando a sua frente.
- Isso aqui é lindo, não? - continuou ele.
- É... Eu amo Paris – respondeu ela, lançando um olhar contemplativo sobre as belezas que os cercavam.
- Carol, por que você não relaxa um pouco e aproveita só o momento? Agora sabemos que o sentimento de atração é recíproco. Que tal nos dar uma chance para nos conhecermos melhor? O que vai acontecer depois... É depois – disse, aproximando-se um pouco mais dela – Estamos em Paris, conhecida como uma cidade cheia de romantismo. Por que não aproveitar este clima? Ainda vou ficar aqui por mais cinco dias. Pode ser que depois destes dias você me odeie...
Ela podia sentir o calor do corpo de Gerard. Olhou para ele e deparou-se com aquele olhar meigo, da cor do mar, e sussurrou:
- O pior é que duvido muito disso...
- É... Eu amo Paris – respondeu ela, lançando um olhar contemplativo sobre as belezas que os cercavam.
- Carol, por que você não relaxa um pouco e aproveita só o momento? Agora sabemos que o sentimento de atração é recíproco. Que tal nos dar uma chance para nos conhecermos melhor? O que vai acontecer depois... É depois – disse, aproximando-se um pouco mais dela – Estamos em Paris, conhecida como uma cidade cheia de romantismo. Por que não aproveitar este clima? Ainda vou ficar aqui por mais cinco dias. Pode ser que depois destes dias você me odeie...
Ela podia sentir o calor do corpo de Gerard. Olhou para ele e deparou-se com aquele olhar meigo, da cor do mar, e sussurrou:
- O pior é que duvido muito disso...
Prometo que continuo amanhã...rsrsrs...Beijinhos!
domingo, 7 de junho de 2009
VOLTEI!!
Não pensem que esqueci deste blog. Não. Jamais! Posso demorar um pouquinho a postar, mas, como já disse antes, mulher que trabalha fora, tem marido e filhos pequenos ou "aborrecentes" como eu, encontra uma certa dificuldade em manter uma vida paralela como aspirante a escritora. A gente faz o que dá. Mas, hoje pretendo colocar aqui a primeira parte de um novo conto. Inédito para quem já está cansada de reler minhas estórias antigas. Não vou me prolongar muito mais. Este romance foi inspirado no sonho de uma grande amiga portuguesa, que o contou e o colocou à disposição de quem estivesse interessada em torná-lo uma estória mais longa e substanciosa. Assim, a amiga aqui o fêz. Espero que ela e tooooodos os leitores deste blog apreciem.
“Como esta gente é desleixada... Só porque estão num hotel deixam tudo jogado no chão. Até lixo! Será que em casa também fazem isso? Fazem a maior bagunça e a gente tem que penar para limpar tudo. Que horror! Ainda bem que é um emprego provisório e de meio turno. Não posso reclamar. Este dinheiro veio bem a calhar...”
E assim, perdida em seus pensamentos, Carolina terminava a limpeza da suíte 505 daquele famoso hotel em Paris.
Ela saíra de Lisboa há cerca de um mês, apenas com uma mochila, poucas roupas e muitos sonhos, para tentar aproveitar ao máximo suas férias e o curso de pintura no qual conseguira uma vaga na capital francesa. Como o dinheiro que economizara para este fim acabara o jeito foi conseguir este emprego provisório como camareira. O curso já estava pago, pois fora financiado por seu pai, que era seu maior incentivador. Mas precisava comprar material para realizar o seu trabalho e... comer. Estava quase acabando sua faculdade de Artes Plásticas em Lisboa e já pensava em conseguir um patrocínio para uma exposição de seus quadros. O curso em Paris estava sendo muito interessante, pois modificara algumas noções que ela tinha de traços e cores. Ansiava por sua independência financeira. Esta experiência longe das asas de seu pai estava sendo extremamente gratificante... Tirando a parte ruim de seu atual emprego.
- Uggghh ! – exclamou ao entrar no banheiro da suíte.
Nesta época do ano, estavam acontecendo alguns eventos na cidade. Entre eles, uma fashion week. Por isso conseguira mais fácil este trabalho. Com os hotéis lotados, a necessidade de mão - de - obra aumentava. Daí a facilidade para conseguir o seu ganha-pão interino. O salário não era nenhuma maravilha, mas ela não era uma pessoa de grandes gastos.
Naquele dia, saía cansada de sua manhã de trabalho, quando notou a movimentação de fotógrafos e jornalistas diante da entrada principal do Ritz, na Place Vendôme.
Uma limousine preta estava estacionando diante do hotel. Dela, saiu um homem alto, de porte atlético, cabelos curtos e desgrenhados, ligeiramente grisalhos, de óculos escuros, trajando jeans e uma camiseta verde clara. Ele parecia estar meio mal-humorado. Talvez fosse apenas impressão, por não poder ver seus olhos. Quem seria ele? Algum ator ou cantor famoso, para chamar tanto a atenção da mídia e fazer aquele estardalhaço todo.
Carolina seguiu seu caminho na direção de seu apartamento, emprestado por uma amiga designer que estava de férias no Brasil. Lá trocaria de roupa e sairia para passear por Paris. Logo esqueceu o ocorrido diante do hotel e distraiu-se a pensar se encontraria facilmente a tal livraria na Île de St. Louis que lhe indicaram e onde esperava encontrar algum livro de arte interessante. Fora isso, queria explorar a cidade à procura de lugares para pintar.
Na manhã seguinte, de volta ao trabalho remunerado, verificou que o gerente já distribuíra as tarefas entre as funcionárias. Pegou as chaves dos apartamentos para os quais fora designada e foi para o elevador de serviço. Vários já estavam vazios, na maioria de hóspedes que haviam partido na madrugada. De qualquer maneira, sempre tinha o cuidado de verificar se o apartamento estava aberto ou com o aviso pendurado na maçaneta da porta, solicitando a limpeza.
Na suíte 602 nada havia indicando a presença de hóspedes em seu interior, por isso abriu a porta e foi entrando. Abriu as cortinas e começou a arrumar a cama. Respirou aliviada por ter finalmente encontrado um hóspede menos bagunceiro. Foi quando ouviu um ruído na porta do banheiro, que se abriu repentinamente, assustando-a. Carolina virou-se, já temendo a reação do hóspede. Foi então que viu uma escultura viva de Michelangelo saindo do banheiro. Ele estava enrolado numa das toalhas brancas do hotel, amarrada à cintura, com o corpo e os cabelos ainda úmidos. Sentiu os olhos verdes faiscando de raiva ao vê-la de pé no meio do quarto.
- O que você está fazendo aqui? Quem lhe deu permissão para entrar?
- Desculpe senhor, mas a porta não estava trancada e o aviso de “Não perturbe” não havia sido pendurado. Por isso pensei...
- Você deveria ter mais cuidado!
- Perdão... Voltarei mais tarde... – disse com o olhar voltado para o chão, com vontade de chorar, tal a humilhação que estava sentindo.
Ele pareceu perceber o mal estar causado por sua grosseria e falou, em tom de desculpas:
- Desculpe a mim. Realmente eu deveria ter colocado o aviso ou trancado a porta... Por favor, volte mais tarde. Tenho um compromisso dentro de uma hora. Devo sair logo.
- Não tem nada a desculpar. Serei mais cuidadosa na próxima vez. A culpa foi minha. Volto depois – respondeu encabulada com a situação.
Começou a recolher seu material de limpeza, enquanto ele continuava parado na porta do banheiro, exalando um cheiro delicioso. Passou por ele, sentindo que ele não despregava os olhos dela, mantendo o olhar sisudo. Isso a fez sentir-se ainda pior com o que havia ocorrido. Provavelmente seria despedida no dia seguinte.
Passado o incidente, pensou que até que seria interessante ter um corpo daqueles como modelo para um belo nu artístico...Ou para mais algumas coisas... “Só eu mesma para ficar pensando estas coisas do cara que vai me fazer perder o emprego...”, pensou rindo de si mesma. Mais tarde ficou sabendo que o homem era um ator nglês, fazendo carreira nos Estados Unidos e com milhares de fãs no mundo inteiro. Tentou não pensar mais no assunto. Sempre havia a alternativa de trabalhar nas ruas fazendo retratos dos turistas. Tinha muitos colegas que sobreviviam assim. Resolveu voltar o pensamento para o compromisso que teria à tarde, na Fashion Week. Conseguira um convite para assistir a alguns dos desfiles com sua amiga, dona do apartamento em que estava. Naquele início de tarde teria a apresentação da Versace. Não era bem a sua área de interesse, mas achou que seria curioso sentir o clima num evento daqueles em Paris, o reino da alta costura. Provavelmente veria muita gente diferente, interessante ou esquisita. Tentou vestir-se o mais fashion possível, com as poucas roupas que levara em sua mochila. Não conseguiu. Chegara a pensar em comprar alguma coisa nova, mas não queria ter mais este gasto. Apesar de seus protestos, a amiga deixara seu guarda roupa à disposição. Como elas vestiam o mesmo número, acabou por escolher uma calça preta “cigarrete” e uma blusa de seda branca com finas listras vermelhas verticais. Um colar de pedras pretas, com brincos combinando e sapatos Prada vermelhos. Soltou os cabelos que costumava trazer presos sob a touca de seu uniforme no hotel. Olhando-se no espelho, realmente não lembrava nem de longe a pobre camareira de algumas horas antes.
Ao chegar, sentou em seu lugar reservado na segunda fila à direita da passarela. Foi quando viu a editora da Vogue americana chegar, acompanhada por ninguém menos que o famoso ator inglês, Gerard King, com quem se indispusera pela manhã. Quando seus olhares se cruzaram, ele correspondeu com o sorriso mais charmoso do mundo, fazendo-a arrepiar-se. Porém, ela ficou com a impressão de que ele não a reconhecera. Durante toda a atividade, notou que ele volta e meia lhe lançava olhares cheios de curiosidade, como se buscasse na memória de onde a conhecia.
O desfile foi um sucesso. Ao final, Carolina levantou-se e, já estava encaminhando-se para a saída, quando sentiu uma mão forte segurando-lhe o braço, e uma voz rouca e sensual, muito próxima ao seu ouvido, a dizer-lhe:
- Espere um pouco. Quero conversar com você.
- Como? – ela perguntou aparvalhada.
- Por favor... Eu tenho certeza que a conheço de algum lugar, mas não consigo lembrar-me de onde.
- Esta é uma cantada muito antiga, meu caro – disse ela, rindo internamente, tentando esgueirar-se dele. Seria possível que ele não a tivesse reconhecido?
- Não, não é cantada. É sério. Por favor, vamos tomar um café juntos. Você tem tempo? – seu olhar era quase de súplica.
- Na verdade tenho um compromisso dentro de uma hora, mas ... Está bem, aceito o convite para o café – disse, tentando fazer-se de difícil.
- Ótimo... Ah! Deixe-me apresentar-me. Meu nome é Gerard, mas pode me chamar de Gerry. E o seu é...?
- Carolina, mas pode me chamar de Carol – respondeu sorridente.
Ele não pode deixar de rir da imitação que ela fizera dele.
- Então venha, Carol. Venha para refrescar minha memória – disse, pegando-a delicadamente pelo braço e conduzindo-a para fora do salão de desfiles – Tem uma cafeteria fora de série aqui perto.
- Vamos lá! Você tem certeza que não sabe de onde me conhece?
- Você sabe?
- Faço alguma idéia... – disse tentando segurar o riso. Talvez pudesse salvar seu emprego.
Atravessaram uma multidão de gente, alguns muito bem vestidos e outros, pretensamente fashions, mas ridiculamente adornados.
Finalmente sentaram-se numa das mesas ao ar livre do “Deux Margots”, fizeram seus pedidos e olharam-se.
- Tenho a sensação de que você está brincando comigo – falou ele, meio desconfiado da expressão de galhofa estampada no rosto de Carolina.
- É que sempre me surpreendo ao ver como as pessoas que nos prestam serviços são tratadas. Principalmente aquelas que vestem um uniforme. Parece que elas foram produzidas em série só para servir aos seus “patrões”. Nem olhamos para os seus rostos. Acho isto muito triste.
- Do que você está falando?
- De você, de meu pai, de mim mesma, enfim. Nós não olhamos realmente para um empregado ou serviçal. Não importa se a pessoa tem sentimentos, família ou um rosto. Não o culpo, não. É assim que é. Só agora vejo isto e sinto na própria pele.
- De que, diabos, está falando? – disse exasperado.
Foi então que Carolina levantou os cabelos atrás da cabeça e disse, olhando para baixo:
- “Desculpe, senhor, mas a porta não estava trancada...”
O rosto dele anuviou-se.
- Você é... Não acredito... Você é a camareira de hoje de manhã?? – ele não podia acreditar que Carolina e a camareira fossem a mesma pessoa.
- Pois é... A vida tem destas coisas.
- Mas como é possível? Como você está neste desfile, vestida assim? Você pegou “emprestado” de alguém? – perguntou em voz baixa, olhando para os lados.
- Realmente, é mais fácil pensar que eu roubei alguma hóspede do que pensar que eu possa estar apenas fazendo uma pesquisa sobre comportamento humano, ou quem sabe tentando sobreviver fora do jugo financeiro familiar? – ela não conseguia esconder sua indignação com a pretensa acusação dele.
- E em qual destes modelos você se encaixa? – perguntou, começando a se interessar por aquela jovem linda e determinada, que tentava lhe dar uma lição.
- Não sei se vale a pena lhe contar – respondeu, encarando-o desafiadoramente.
Ele sorriu e resolveu aceitar a provocação.
- Quem me garante que você não está tentando me intimidar para evitar que eu fale com o seu gerente e descubra que você cometeu algum deslize?
- Você tem toda a liberdade para fazer o que quiser – agora ela estava realmente furiosa.
Ele a olhava intensamente, cada vez mais admirado com o jeito provocativo da garota. Então, resolveu acabar com aquela arrogância toda.
- Olha, vamos parar com isto. Que tal você me dizer quem é e começarmos a conversar direito?
- Quem começou isto foi você, quando me convidou para tomar um café.
- Você é sempre assim? Ou está se fazendo prá cima de mim? Eu a convidei porque a achei uma mulher interessante, que eu achava já ter visto em algum lugar e quis ser gentil. Só isso. Não esperava ter que receber lições de moral de uma camareira.
- Viu o seu preconceito? Viu?
Gerard teve vontade de levantar-se e deixar Carolina falando sozinha, mas algo mais forte o impediu, forçando-o a respirar fundo e suplicar:
- Olhe, aqui entre nós... Eu adoro todas as camareiras de hotéis. Na verdade eu a reconheci de cara e... Quanto ao café? Era uma cantada sim. Adoro transar com camareiras. Está satisfeita? – falou rispidamente, ficando com expressão bastante séria ao terminar a frase, olhando-a fixamente.
Após quase um minuto interminável de olhares circunspectos de ambas as partes, os risos explodiram sobre a mesa, chamando a atenção dos fregueses a sua volta.
- Desculpe... Eu às vezes encarno a antiburguesa, defensora dos fracos e oprimidos, e me deixo levar muito longe na indignação – Conseguiu dizer quando começou a diminuir a vontade de rir.
- Eu só acho que você está sendo muito dura comigo. Coloque-se no meu lugar, mal tendo acordado, saindo do banho, só enrolado numa toalha e dar de cara com uma estranha mexendo em minhas coisas. Eu também fui surpreendido.
- Já pedi desculpas...Você tem razão ...
- Que tal se começarmos tudo de novo? – pediu ele, humildemente.
- Desde “o meu nome é Gerard, mas pode me chamar de Gerry”? – ela sorriu.
- Acho que podemos pular esta fase de apresentações – disse retribuindo o sorriso.
- Bom... – ela olhou o relógio de pulso, espantando-se com a hora – Infelizmente vou ter de ir embora. Tenho uma aula agora e já estou ficando atrasada. Acho que vamos ter de deixar esta conversa para outra hora.
Deu mais uma bebericada em sua taça de café e foi pegando sua bolsa para sair.
- Não... Espere! Vamos combinar um novo encontro, então.
- Você já sabe onde eu trabalho. Procure-me se realmente quiser continuar esta conversa – olhou-o com doçura e continuou – Eu confesso que não ficaria chateada de encontrá-lo novamente.
Deixou-o sem ação, com um sorriso amarelo nos lábios, enquanto a via sumir no movimento da rua. Que tipo de garota era aquela, que trabalhava como camareira pela manhã, à tarde estava vestida com roupas de grife e tinha aulas no final da tarde? E ainda por cima era linda...
Gostaram deste início? Desta vez vou deixar vocês na curiosidade e postar um pouco mais amanhã. Quem sabe se como uma novela, não aumento a minha audiência? Hihihi!
Por favor, comentem. Estimulem a sua amiga aqui a continuar... ou não, com este blog.
Beijos!
A Camareira
“Como esta gente é desleixada... Só porque estão num hotel deixam tudo jogado no chão. Até lixo! Será que em casa também fazem isso? Fazem a maior bagunça e a gente tem que penar para limpar tudo. Que horror! Ainda bem que é um emprego provisório e de meio turno. Não posso reclamar. Este dinheiro veio bem a calhar...”
E assim, perdida em seus pensamentos, Carolina terminava a limpeza da suíte 505 daquele famoso hotel em Paris.
Ela saíra de Lisboa há cerca de um mês, apenas com uma mochila, poucas roupas e muitos sonhos, para tentar aproveitar ao máximo suas férias e o curso de pintura no qual conseguira uma vaga na capital francesa. Como o dinheiro que economizara para este fim acabara o jeito foi conseguir este emprego provisório como camareira. O curso já estava pago, pois fora financiado por seu pai, que era seu maior incentivador. Mas precisava comprar material para realizar o seu trabalho e... comer. Estava quase acabando sua faculdade de Artes Plásticas em Lisboa e já pensava em conseguir um patrocínio para uma exposição de seus quadros. O curso em Paris estava sendo muito interessante, pois modificara algumas noções que ela tinha de traços e cores. Ansiava por sua independência financeira. Esta experiência longe das asas de seu pai estava sendo extremamente gratificante... Tirando a parte ruim de seu atual emprego.
- Uggghh ! – exclamou ao entrar no banheiro da suíte.
Nesta época do ano, estavam acontecendo alguns eventos na cidade. Entre eles, uma fashion week. Por isso conseguira mais fácil este trabalho. Com os hotéis lotados, a necessidade de mão - de - obra aumentava. Daí a facilidade para conseguir o seu ganha-pão interino. O salário não era nenhuma maravilha, mas ela não era uma pessoa de grandes gastos.
Naquele dia, saía cansada de sua manhã de trabalho, quando notou a movimentação de fotógrafos e jornalistas diante da entrada principal do Ritz, na Place Vendôme.
Uma limousine preta estava estacionando diante do hotel. Dela, saiu um homem alto, de porte atlético, cabelos curtos e desgrenhados, ligeiramente grisalhos, de óculos escuros, trajando jeans e uma camiseta verde clara. Ele parecia estar meio mal-humorado. Talvez fosse apenas impressão, por não poder ver seus olhos. Quem seria ele? Algum ator ou cantor famoso, para chamar tanto a atenção da mídia e fazer aquele estardalhaço todo.
Carolina seguiu seu caminho na direção de seu apartamento, emprestado por uma amiga designer que estava de férias no Brasil. Lá trocaria de roupa e sairia para passear por Paris. Logo esqueceu o ocorrido diante do hotel e distraiu-se a pensar se encontraria facilmente a tal livraria na Île de St. Louis que lhe indicaram e onde esperava encontrar algum livro de arte interessante. Fora isso, queria explorar a cidade à procura de lugares para pintar.
Na manhã seguinte, de volta ao trabalho remunerado, verificou que o gerente já distribuíra as tarefas entre as funcionárias. Pegou as chaves dos apartamentos para os quais fora designada e foi para o elevador de serviço. Vários já estavam vazios, na maioria de hóspedes que haviam partido na madrugada. De qualquer maneira, sempre tinha o cuidado de verificar se o apartamento estava aberto ou com o aviso pendurado na maçaneta da porta, solicitando a limpeza.
Na suíte 602 nada havia indicando a presença de hóspedes em seu interior, por isso abriu a porta e foi entrando. Abriu as cortinas e começou a arrumar a cama. Respirou aliviada por ter finalmente encontrado um hóspede menos bagunceiro. Foi quando ouviu um ruído na porta do banheiro, que se abriu repentinamente, assustando-a. Carolina virou-se, já temendo a reação do hóspede. Foi então que viu uma escultura viva de Michelangelo saindo do banheiro. Ele estava enrolado numa das toalhas brancas do hotel, amarrada à cintura, com o corpo e os cabelos ainda úmidos. Sentiu os olhos verdes faiscando de raiva ao vê-la de pé no meio do quarto.
- O que você está fazendo aqui? Quem lhe deu permissão para entrar?
- Desculpe senhor, mas a porta não estava trancada e o aviso de “Não perturbe” não havia sido pendurado. Por isso pensei...
- Você deveria ter mais cuidado!
- Perdão... Voltarei mais tarde... – disse com o olhar voltado para o chão, com vontade de chorar, tal a humilhação que estava sentindo.
Ele pareceu perceber o mal estar causado por sua grosseria e falou, em tom de desculpas:
- Desculpe a mim. Realmente eu deveria ter colocado o aviso ou trancado a porta... Por favor, volte mais tarde. Tenho um compromisso dentro de uma hora. Devo sair logo.
- Não tem nada a desculpar. Serei mais cuidadosa na próxima vez. A culpa foi minha. Volto depois – respondeu encabulada com a situação.
Começou a recolher seu material de limpeza, enquanto ele continuava parado na porta do banheiro, exalando um cheiro delicioso. Passou por ele, sentindo que ele não despregava os olhos dela, mantendo o olhar sisudo. Isso a fez sentir-se ainda pior com o que havia ocorrido. Provavelmente seria despedida no dia seguinte.
Passado o incidente, pensou que até que seria interessante ter um corpo daqueles como modelo para um belo nu artístico...Ou para mais algumas coisas... “Só eu mesma para ficar pensando estas coisas do cara que vai me fazer perder o emprego...”, pensou rindo de si mesma. Mais tarde ficou sabendo que o homem era um ator nglês, fazendo carreira nos Estados Unidos e com milhares de fãs no mundo inteiro. Tentou não pensar mais no assunto. Sempre havia a alternativa de trabalhar nas ruas fazendo retratos dos turistas. Tinha muitos colegas que sobreviviam assim. Resolveu voltar o pensamento para o compromisso que teria à tarde, na Fashion Week. Conseguira um convite para assistir a alguns dos desfiles com sua amiga, dona do apartamento em que estava. Naquele início de tarde teria a apresentação da Versace. Não era bem a sua área de interesse, mas achou que seria curioso sentir o clima num evento daqueles em Paris, o reino da alta costura. Provavelmente veria muita gente diferente, interessante ou esquisita. Tentou vestir-se o mais fashion possível, com as poucas roupas que levara em sua mochila. Não conseguiu. Chegara a pensar em comprar alguma coisa nova, mas não queria ter mais este gasto. Apesar de seus protestos, a amiga deixara seu guarda roupa à disposição. Como elas vestiam o mesmo número, acabou por escolher uma calça preta “cigarrete” e uma blusa de seda branca com finas listras vermelhas verticais. Um colar de pedras pretas, com brincos combinando e sapatos Prada vermelhos. Soltou os cabelos que costumava trazer presos sob a touca de seu uniforme no hotel. Olhando-se no espelho, realmente não lembrava nem de longe a pobre camareira de algumas horas antes.
Ao chegar, sentou em seu lugar reservado na segunda fila à direita da passarela. Foi quando viu a editora da Vogue americana chegar, acompanhada por ninguém menos que o famoso ator inglês, Gerard King, com quem se indispusera pela manhã. Quando seus olhares se cruzaram, ele correspondeu com o sorriso mais charmoso do mundo, fazendo-a arrepiar-se. Porém, ela ficou com a impressão de que ele não a reconhecera. Durante toda a atividade, notou que ele volta e meia lhe lançava olhares cheios de curiosidade, como se buscasse na memória de onde a conhecia.
O desfile foi um sucesso. Ao final, Carolina levantou-se e, já estava encaminhando-se para a saída, quando sentiu uma mão forte segurando-lhe o braço, e uma voz rouca e sensual, muito próxima ao seu ouvido, a dizer-lhe:
- Espere um pouco. Quero conversar com você.
- Como? – ela perguntou aparvalhada.
- Por favor... Eu tenho certeza que a conheço de algum lugar, mas não consigo lembrar-me de onde.
- Esta é uma cantada muito antiga, meu caro – disse ela, rindo internamente, tentando esgueirar-se dele. Seria possível que ele não a tivesse reconhecido?
- Não, não é cantada. É sério. Por favor, vamos tomar um café juntos. Você tem tempo? – seu olhar era quase de súplica.
- Na verdade tenho um compromisso dentro de uma hora, mas ... Está bem, aceito o convite para o café – disse, tentando fazer-se de difícil.
- Ótimo... Ah! Deixe-me apresentar-me. Meu nome é Gerard, mas pode me chamar de Gerry. E o seu é...?
- Carolina, mas pode me chamar de Carol – respondeu sorridente.
Ele não pode deixar de rir da imitação que ela fizera dele.
- Então venha, Carol. Venha para refrescar minha memória – disse, pegando-a delicadamente pelo braço e conduzindo-a para fora do salão de desfiles – Tem uma cafeteria fora de série aqui perto.
- Vamos lá! Você tem certeza que não sabe de onde me conhece?
- Você sabe?
- Faço alguma idéia... – disse tentando segurar o riso. Talvez pudesse salvar seu emprego.
Atravessaram uma multidão de gente, alguns muito bem vestidos e outros, pretensamente fashions, mas ridiculamente adornados.
Finalmente sentaram-se numa das mesas ao ar livre do “Deux Margots”, fizeram seus pedidos e olharam-se.
- Tenho a sensação de que você está brincando comigo – falou ele, meio desconfiado da expressão de galhofa estampada no rosto de Carolina.
- É que sempre me surpreendo ao ver como as pessoas que nos prestam serviços são tratadas. Principalmente aquelas que vestem um uniforme. Parece que elas foram produzidas em série só para servir aos seus “patrões”. Nem olhamos para os seus rostos. Acho isto muito triste.
- Do que você está falando?
- De você, de meu pai, de mim mesma, enfim. Nós não olhamos realmente para um empregado ou serviçal. Não importa se a pessoa tem sentimentos, família ou um rosto. Não o culpo, não. É assim que é. Só agora vejo isto e sinto na própria pele.
- De que, diabos, está falando? – disse exasperado.
Foi então que Carolina levantou os cabelos atrás da cabeça e disse, olhando para baixo:
- “Desculpe, senhor, mas a porta não estava trancada...”
O rosto dele anuviou-se.
- Você é... Não acredito... Você é a camareira de hoje de manhã?? – ele não podia acreditar que Carolina e a camareira fossem a mesma pessoa.
- Pois é... A vida tem destas coisas.
- Mas como é possível? Como você está neste desfile, vestida assim? Você pegou “emprestado” de alguém? – perguntou em voz baixa, olhando para os lados.
- Realmente, é mais fácil pensar que eu roubei alguma hóspede do que pensar que eu possa estar apenas fazendo uma pesquisa sobre comportamento humano, ou quem sabe tentando sobreviver fora do jugo financeiro familiar? – ela não conseguia esconder sua indignação com a pretensa acusação dele.
- E em qual destes modelos você se encaixa? – perguntou, começando a se interessar por aquela jovem linda e determinada, que tentava lhe dar uma lição.
- Não sei se vale a pena lhe contar – respondeu, encarando-o desafiadoramente.
Ele sorriu e resolveu aceitar a provocação.
- Quem me garante que você não está tentando me intimidar para evitar que eu fale com o seu gerente e descubra que você cometeu algum deslize?
- Você tem toda a liberdade para fazer o que quiser – agora ela estava realmente furiosa.
Ele a olhava intensamente, cada vez mais admirado com o jeito provocativo da garota. Então, resolveu acabar com aquela arrogância toda.
- Olha, vamos parar com isto. Que tal você me dizer quem é e começarmos a conversar direito?
- Quem começou isto foi você, quando me convidou para tomar um café.
- Você é sempre assim? Ou está se fazendo prá cima de mim? Eu a convidei porque a achei uma mulher interessante, que eu achava já ter visto em algum lugar e quis ser gentil. Só isso. Não esperava ter que receber lições de moral de uma camareira.
- Viu o seu preconceito? Viu?
Gerard teve vontade de levantar-se e deixar Carolina falando sozinha, mas algo mais forte o impediu, forçando-o a respirar fundo e suplicar:
- Olhe, aqui entre nós... Eu adoro todas as camareiras de hotéis. Na verdade eu a reconheci de cara e... Quanto ao café? Era uma cantada sim. Adoro transar com camareiras. Está satisfeita? – falou rispidamente, ficando com expressão bastante séria ao terminar a frase, olhando-a fixamente.
Após quase um minuto interminável de olhares circunspectos de ambas as partes, os risos explodiram sobre a mesa, chamando a atenção dos fregueses a sua volta.
- Desculpe... Eu às vezes encarno a antiburguesa, defensora dos fracos e oprimidos, e me deixo levar muito longe na indignação – Conseguiu dizer quando começou a diminuir a vontade de rir.
- Eu só acho que você está sendo muito dura comigo. Coloque-se no meu lugar, mal tendo acordado, saindo do banho, só enrolado numa toalha e dar de cara com uma estranha mexendo em minhas coisas. Eu também fui surpreendido.
- Já pedi desculpas...Você tem razão ...
- Que tal se começarmos tudo de novo? – pediu ele, humildemente.
- Desde “o meu nome é Gerard, mas pode me chamar de Gerry”? – ela sorriu.
- Acho que podemos pular esta fase de apresentações – disse retribuindo o sorriso.
- Bom... – ela olhou o relógio de pulso, espantando-se com a hora – Infelizmente vou ter de ir embora. Tenho uma aula agora e já estou ficando atrasada. Acho que vamos ter de deixar esta conversa para outra hora.
Deu mais uma bebericada em sua taça de café e foi pegando sua bolsa para sair.
- Não... Espere! Vamos combinar um novo encontro, então.
- Você já sabe onde eu trabalho. Procure-me se realmente quiser continuar esta conversa – olhou-o com doçura e continuou – Eu confesso que não ficaria chateada de encontrá-lo novamente.
Deixou-o sem ação, com um sorriso amarelo nos lábios, enquanto a via sumir no movimento da rua. Que tipo de garota era aquela, que trabalhava como camareira pela manhã, à tarde estava vestida com roupas de grife e tinha aulas no final da tarde? E ainda por cima era linda...
Gostaram deste início? Desta vez vou deixar vocês na curiosidade e postar um pouco mais amanhã. Quem sabe se como uma novela, não aumento a minha audiência? Hihihi!
Por favor, comentem. Estimulem a sua amiga aqui a continuar... ou não, com este blog.
Beijos!
quarta-feira, 27 de maio de 2009
O Sabor do Amor
Oi, prá quem estiver me lendo hoje. Sei que ando em falta com meu blog. Coisas de quem trabalha, cuida de casa, marido e dos filhos. Acho que a maioria sabe o que é isto, ou faz uma vaga idéia. Também andei numa fase pouco inspirada para escrever. Por isso tenho colocado meus antigos textos, que grande parte de minhas amigas já conhecem. Além da falta de inspiração, como já falei antes, existe o fator tempo. Mas prometo que logo logo vou começar a colocar novidades por aqui...Espero. Por hoje, só prá não cair no esquecimento total, vou colocar o meu primeiro conto de amor, onde começou esta mania de escrever histórias de amor com pitadas de pimenta. Prá variar, o personagem masculino é "vocêssabemquem"...rsrsrs.
Beijos!
O Sabor do Amor
Lá estava eu, Laura, a caminho daquela agência de empregos famosa em Nova York, para tentar colocação como cozinheira em algum apartamento chique da Big Aple. Brasileira, filha de uma carioca e de um americano, graças ao meu passaporte americano consegui escapar daquela vida sem perspectiva no Brasil. Infelizmente nada aconteceu como eu havia planejado. Com um diploma de advogada nas mãos, nada consegui profissionalmente. O mercado de trabalho difícil, cercada por colegas inescrupulosos, desilusões amorosas acumulando-se... Nada mais me prendia àquele lugar. Começaria do zero, onde ninguém me conhecesse. Quem sabe algo de bom pudesse acontecer? Graças ao amor pela culinária, adquirido desde cedo vendo minha mãe dedicar-se aos seus quitutes, resolvi colocar estas habilidades em prática na nova profissão. Provavelmente a maioria de meus conhecidos ia dizer: "Coitada! Não conseguiu vencer na carreira e foi ser empregadinha nos Estados Unidos. Que decadência!". Talvez, mas é um modo de recomeçar.
Cheguei no horário combinado com a secretária da agência. Fui recebida com um grande sorriso e um efusivo parabéns, que eu achei meio desproporcionais para a ocasião. Logo, fui encaminhada para a sala da dona da agência, onde fui informada de que começaria a trabalhar no apartamento de um ator escocês, chamado Arthur McCain. Ele estava à procura de uma cozinheira e quando soube que havia uma brasileira para a função, nem quis olhar outros currículos. Portanto, o cargo era meu e deveria iniciar no dia seguinte.
Nunca havia ouvido falar deste ator. Não era muito chegada em cinema. Na agência me disseram que ele havia feito muito sucesso com um filme sobre guerreiros espartanos. Já fiquei imaginando a figura. Algum tipo cheio de si, com músculos saltando para todo o lado, querendo uma cozinheira exótica para mostrar aos amigos. Enfim, alguém insuportável, que provavelmente nem saberia distinguir carreteiro de risoto. Bem, desde que pagassem em dia, estes detalhes não me importavam. Ainda bem que eu não precisaria dormir no emprego. Talvez, com o bom salário que ele estava oferecendo, eu pudesse alugar um apartamento melhor do que a peça onde estava morando desde que chegara há um mês.
Depois de uma boa noite de sono, levantei cedo, coloquei meu melhor vestido e prendi o cabelo em um rabo de cavalo. Ao olhar no espelho, o conjunto era agradável: herdara de minha mãe o corpo roliço, boas medidas, os cabelos escuros, levemente ondulados. De meu pai, a pele mais clara e os olhos azuis. É, até que eu não era feia. Naquela manhã, particularmente, estava me sentindo muito bem. "Vamos lá, enfrentar a fera".
Fui até o endereço. Era um prédio de apartamentos antigo, mas muito chique, próximo ao Central Park. De cara, já fiquei sabendo que havia uma entrada para os empregados. O que fazer? Era isso que eu era, não é mesmo? Lá me fui para o elevador dos fundos. Subi até o 9º andar e toquei a campainha. Fui atendida por uma senhora, que se apresentou como Dolores, provavelmente mexicana, muito simpática, que me fez entrar e pediu que eu esperasse, pois o secretário do Mr. McCain estava a minha espera para falar dos detalhes da minha contratação. Enquanto aguardava, comecei a admirar o que seria o meu local de trabalho. A cozinha era linda, com eletrodomésticos todos brancos, com uma bancada de mármore negro ao centro, onde eu poderia me divertir, preparando meus melhores pratos. Ainda não imaginava as outras utilidades daquela bancada. O chão era todo quadriculado, como um tabuleiro de xadrez, com lajotas pretas e brancas. Parecia coisa de revista. Ele deve ter gastado uma fortuna só com esta cozinha. Imagina o resto da casa! Estava louca para conhecer. Pelo menos o decorador tinha bom gosto. Duvidava que tivesse havido algum palpite do morador.
Depois de esperar mais de 45 minutos, o tal secretário apareceu, apresentando-se como Mr. Anthony. Era um tipo meio afetado, que falava de com sotaque britânico.
_ Bem, senhorita... Laura. É isso mesmo? - nem pediu desculpas pela demora, o grosso - Quero que a senhorita saiba que Mr. MacCain é uma pessoa muito ocupada, que não deve ser incomodado com assuntos banais. Ele, neste momento se encontra filmando em Londres, mas deve retornar dentro de três dias. Ele anda cansado de ter que comer em restaurantes ou em casas de amigos, por isso ele a está contratando. O que queremos é o trivial, sem grandes requintes. Uma comida caseira, conforme ele solicitou. Ele gostou de saber que a senhorita é brasileira, pois ele admira muito a culinária do seu país. Espero que a senhorita esteja preparada para tal função. Pode preparar uma lista do que vai precisar e mandaremos alguém comprar.
Aí, tive de interrompê-lo:
_ Eu gostaria de fazer as compras eu mesma, pois é importante escolher produtos de qualidade. Não gostaria de delegar esta função a alguém que não conhece nada de culinária.
Parece que o Mr. Anthony gostou de meu interesse e aceitou meu pedido. Combinamos que eu teria um cartão de débito, claro que teria um limite de despesas, mas que eu teria liberdade para fazer as compras ao meu modo. A minha semana teria 6 dias com uma folga semanal. Provavelmente no domingo. O salário seria aquele acordado com a agência.
- Mais alguma dúvida, senhorita Laura?
- Não, Mr. Anthony. Está tudo claríssimo. Assim que o Mr MacCain chegar, estarei à sua inteira disposição. Espero que ele goste de meus quitutes.
- Também espero, Srta. , para o seu próprio bem.
Nossa, que coisa mais assustadora para se dizer. Será que ele era tão exigente, este Mr. MacCain? Teria que aguardar ainda três dias para conhecer o meu patrão. Já sentia um pouco de ansiedade. Calma, Laura. Não pode ser tão terrível.
No dia seguinte, fui às compras. Pedi para entregar no prédio do Mr. MacCain. Enquanto aguardava a entrega, pedi à Dolores para conhecer o resto do apartamento.
Era lindo. Parecia um sonho. Muito bem decorado, com peças de antiquário, misturado a peças modernas. Muito aconchegante. O quarto principal era de cinema. Só podia, não?
Brincadeira. A cama era um convite. Kingsize, com um dossel maravilhoso, todo de madeira entalhada, envelhecida, com tapetes, cortinas e edredon com cores quentes. Quem fez a decoração estava pensando nas loucuras que poderiam ser feitas naquela “alcova”. Será que o meu patrão saberia como fazer uso de tudo aquilo ou ele seria um tipo afetado e sem graça como o seu secretário? Laura, pára de pensar bobagem. Tão cedo eu não queria saber de nada disso, depois de ter conhecido tantos canalhas, acho que tinha ficado vacinada contra este tipo de coisa. Paixão era algo distante para mim, no momento. Queria tocar minha vida sem atrapalhações. Talvez um dia, muito distante.
No meu segundo dia de trabalho, resolvi fazer alguns congelados, que poderiam facilitar as coisas, no caso de Mr. MacCain pedir alguma refeição fora de hora. Deixaria algumas coisas já encaminhadas para esperar a chegada dele no dia seguinte. Comecei a preparar algumas quiches, que poderiam servir como acompanhamento ou como lanche. Estava distraída, trabalhando na bancada, cantarolando e rebolando (me sentia muito bem cozinhando), quando ouvi um barulho atrás de mim. Pensei que fosse Dolores e pedi que ela me alcançasse a manteiga que estava na geladeira ao seu lado. Ouvi seus passos, a porta abrindo e fechando. Já estava agradecendo com um grande sorriso, quando vi uma grande mão masculina segurando o pacote de manteiga. Virei rapidamente, assustada com aquela presença estranha, quando me deparei com um homem alto, - ele devia ter 1,90m, pelo menos - cabelos ligeiramente grisalhos, que iluminavam o seu rosto, olhos azuis esverdeados profundos, que pareciam ver a minha alma e mais alguma coisa, e uma boca de tirar o fôlego. Soltei um tipo de grunhido, pois não conseguia encontrar a voz. Ele só me olhava como se estivesse se divertindo com o meu estado, com um meio sorriso irônico. Quando consegui me refazer um pouco, consegui perguntar quem era ele e o que estava fazendo na minha cozinha. Ele largou a manteiga sobre a mesa e disse:
- “Eu é que deveria perguntar o que uma mulher linda e desconhecida está fazendo na “minha” cozinha”.
Depois de alguns segundos, caiu a ficha. Seria ele o Mr. MacCain?? Não era possível! Eu estava perdida. Tinha sido pega cantando, rebolando e, ainda por cima sendo grosseira com ele, no primeiro contato. Adeus emprego. Todos meus planos iam por água abaixo. Fiquei aguardando um sonoro "Goodbye, miss". Mas, ele caiu na risada. Fiquei indignada!
- Se você pudesse se olhar no espelho agora saberia por que estou rindo. Parece que você viu uma assombração. Desculpe estar rindo de você. Deixe me apresentar: Arthur.
Arthur???, pensei.
- Mr. MacCain??? - disse.
- Por favor! Não me chame de Mr. MacCain. Sinto-me com 300 anos de idade. Isso é coisa daquele meu secretário . Me chame de Arthur, por favor. Então você é a nova cozinheira? _ _ Sim - disse eu com a voz meio trêmula - O Mr. Anthony falou que o senhor - e ele me olhou de forma irônica de novo - quer dizer, você, chegaria só amanhã.
- É, mas as filmagens terminaram mais cedo e eu resolvi antecipar a viagem de volta. Fui recompensado, pois acabei tendo uma surpresa muito boa.
Seu olhar parecia cobrir todo o meu corpo, tirando cada peça , uma por uma, até eu me sentir completamente nua. Devo ter ficado vermelha, pois ele deu mais um sorrisinho sarcástico e falou:
- Seja bem vinda ao meu humilde lar. Acho que vamos ser grandes amigos. Vou descansar um pouco, pois a viagem durou mais de 15 horas, com espera em aeroporto e tudo o mais. Peça para a Dolores me acordar em torno de 19 h, ou você mesma pode fazer isto, se quiser. Vou jantar em casa hoje, portanto, mãos à obra, querida.
- O Sr., sorry, você tem algum pedido especial?
- Me surpreenda, ahn... Qual é o seu nome? Perdão por não ter perguntado antes.
- Laura.
- Então, Laura, você escolhe o que vou comer, ok? Até mais.
Assim que ele saiu do meu campo de visão, parecia que o chão estava se abrindo abaixo de mim. Aquele homem era de perder o fôlego e, eu trabalhava para ele. Ouvi uma risadinha vindo do outro canto da cozinha. Era Dolores!
- E aí, minha linda, conheceu o patrão? Parecia que você ia desmaiar a qualquer minuto. Não deixa ele reparar, porque senão você está perdida.
- Como assim?? - perguntei.
- Um hombre como este não deixa uma mulher bonita como você passar incólume.
- Dolores, por favor, não me assusta! É o meu primeiro emprego por aqui e você fica me pondo minhocas na cabeça. Estou vacinada contra homens deste tipo. Comigo ele não vai conseguir nada. Ele que vá posar de galã para as deusas de Hollywood.
- Está certo , então. Não está mais aqui quem falou. Na verdade, ele é um amor de pessoa. Você vai descobrir isto logo, logo. Mas cuide bem do seu coraçãozinho. Não quero vê-la machucada, minha rica.
Resolvi não pensar mais nisso e fui tocar minha cozinha para preparar o jantar para o Mr. MacCain. Dei o recado dele para Dolores e fui pensar no cardápio para logo mais.
O jantar já estava quase pronto quando me dei conta de que eram 19 h e a Dolores ainda não havia ido chamar Arthur. Lembrei-a do fato e ela me pediu o favor de acordá-lo, pois ela estava muito ocupada com seu serviço. Fiquei chateada de ter que entrar no quarto, mas não havia alternativa. Bati na porta, mas não obtive resposta. Esperei um pouco e resolvi entrar. O quarto estava na penumbra. Era Verão, por isso ainda entravam alguns raios de sol através das cortinas. Quando olhei para a cama pude ver os contornos de Arthur. Ele estava completamente nu, virado de bruços, agarrado ao travesseiro. Era possível ver o contorno de seus ombros fortes, os músculos dos braços, bem torneados, o torso largo, que terminava numa onda suave em direção às nádegas, arredondadas, firmes. Como o corpo de um homem podia ser tão belo. Saí do meu devaneio quando ele se mexeu e falou com voz rouca:
- É você, Dolores?
Não conseguia responder. Estava paralisada. O que ele ia pensar ao me ver ali parada vendo-o naqueles "trajes"? Quando notei que ele ia levantar-se, saí quase correndo, mas antes ainda pude perceber o esboçar de um sorriso. Acho que ele percebera que era eu. Cretino! Ainda por cima ria de mim e da situação constrangedora em que me meti. Homens!! Voltei para a cozinha, aonde cheguei ofegante e pálida, depois de passar do rubor à incandescência. Dolores perguntou algo, mas antes que eu pudesse entender a pergunta e responder, ele apareceu na porta trajando um robe de seda verde escuro, que realçava ainda mais os seus olhos.
- Da próxima vez, bata na porta, por favor.
- Mas, eu bati - oops, eu havia sido flagrada. Que furo! Ele me olhou com, aquele sorrisinho irritante, como que dizendo "Te peguei!" Ai, que ódio!
- O jantar já está pronto?
- Quase.
- Então vou tomar um banho agora. Você pode me esperar?
- C-claro!
- Ótimo!
Tão logo ele se virou, Dolores disse que já tinha acabado seu serviço e que seus netos a estavam esperando.
- Como?Você vai me deixar aqui, sozinha com este maníaco?
- Querida, ele não é um maníaco. Você é que tem de se controlar. Vai dar tudo certo, está bem? Um ótimo final de semana para você!
- O que?? Amanhã você não vem?
- É a minha folga , meu bem. A sua é domingo. Não podemos tirar folga no mesmo dia, esqueceu? Não se preocupe. Vai dar tudo certo.
Virou-se e foi arrumar suas coisas para sair e me deixar a mercê daquele... Oh, Deus! O que eu faço??
Depois de meia hora de pânico, comecei a me acalmar, pensando porque a demora neste banho. Após 1 hora e quase perda total do meu jantar, resolvi entrar na sala e ver onde ele estava. Talvez estivesse esperando ser chamado. A mesa já estava posta na sala de jantar. Quando estava saindo da cozinha, me choquei com ele, que vinha entrando. Como quase caí para trás, ele me segurou pela cintura e me puxou contra o seu corpo. Senti o chão faltar sob meus pés. Ele me agarrou com mais firmeza e perguntou:
- Você está bem?? Desculpe, mas não vi que você estava entrando na sala. Eu a machuquei? - disse ele, realmente preocupado.
- Não, imagina. Foi só o susto.
- Puxa, não sabia que já andava assustando menininhas por aí. Dever ser a idade chegando.
- Não foi isso que eu quis dizer! Ah! Deixa prá lá. Pode me soltar, por favor?
Ela o empurrou, tocando em seus braços e sentiu seus músculos retesados, sem falar no perfume que aquele homem exalava por cada poro. Isto não podia estar acontecendo. Eu não vou cair em tentação, não!
Depois de alguns segundos, ele me soltou com delicadeza e pediu desculpas, novamente.
Parecia ter ficado surpreso com a minha reação de repúdio ao seu contato. Provavelmente, pensou que eu me largaria em seus braços e ...
- Vi que a mesa foi colocada na sala de jantar. Eu gostaria de comer na cozinha, se você não se importar. Não gosto de jantar sozinho.
- Mas??
- Algum problema?
- Claro que não. Vou colocar a mesa aqui.
- Você já jantou?
- Não, eu costumo jantar mais tarde, em casa.
- Tem alguém te esperando? Namorado, marido...??
- N-não!
Porque eu não calava a minha boca. Caí em outra armadilha. O que ele tinha a ver com a minha vida pessoal?
- Então, janta comigo?
- Não, obrigada pelo convite, mas estou sem fome.
- Mas, ao menos, pode me fazer companhia? Ainda não tivemos chance de nos conhecer. Vamos conversar um pouco? - disse ele com um olhar tão terno e suplicante, que eu não tive como resistir.
- Está bem. O que você quer saber? Chegou a ler o meu currículo?
- Acho que você deve ser muito mais do que o que está escrito em algumas folhas de papel, não?
- A minha vida não tem nada de interessante, ao contrário da sua.
- Como você veio parar aqui, como cozinheira? Você não parece uma pessoa humilde.
Com aquela conversa mansa, acabei contando que tinha feito Direito no RJ. Quando ele soube disto, vi um brilho naqueles olhos verdes.
- Sério?? Que coincidência! Eu também, lá em Glasgow!
A partir daí, nossa conversa começou a fluir de uma maneira tal, que parecia que já nos conhecíamos há muito tempo. Muitas coisas, sentimentos e decepções, tínhamos em comum. Quase chorei quando ele me contou sobre o seu pai, que ele acabou perdendo poucos anos após seu reencontro, a luta para mudar sua vida e afastar-se da bebida. Eu fui percebendo uma pessoa diferente daquela que eu tinha imaginado. Uma pessoa sensível, determinada e muito amorosa.
Quando vimos, já haviam se passado quase duas horas e estávamos rindo de nossas experiências. De repente, parecia que o mundo tinha parado e não havia mais ninguém. Nossos olhares se cruzaram e um calor foi tomando conta de mim. Ele tocou na minha mão, que estava próxima à dele, e uma onda de eletricidade percorreu meu corpo.
- Parece que temos muito em comum, Laura. Além de linda você também é uma pessoa maravilhosa.
Ele foi se aproximando, aos poucos, me hipnotizando com aqueles olhos. Ah! Aqueles olhos... Quando me dei conta a sua boca estava muito próxima da minha. Tentei ir para trás, mas senti seus braços me envolvendo, fortes, mas muito docemente, até que seus lábios tocaram os meus, suavemente.
Meu corpo reagiu como nunca. Senti que flutuava. Senti seu abraço forte e a pressão sobre os lábios aumentou. Senti sua língua penetrando minha boca. Aí, não conseguia mais resistir. Comecei a abraçá-lo, também, como se quisesse fundir nossos corpos. Suas carícias passaram da minha nuca, descendo pelas minhas costas, chegando ás nádegas. Todo o meu corpo reagia como se fosse uma usina nuclear a ponto de explodir. Ele começou a desabotoar minha blusa, com cuidado, sempre me olhando com uma paixão que eu nunca tinha visto nos olhos de nenhum outro homem. Todo meu corpo se contraía de prazer. Comecei a abrir o zíper do moleton que ele vestia, até vislumbrar aquele peito másculo, o abdômen de músculos bem definidos. Comecei a beijá-lo, desde o pescoço, descendo aos poucos em direção ao ventre. Ele gemia de prazer. Num rompante, ele jogou tudo que estava sobre bancada no chão. Nem o barulho de pratos quebrando nos tirou daquele êxtase. Segurou-me nas nádegas, me colocando sobre a bancada fria. Podia sentir sua ereção e vibrava ao imaginar ele me penetrando. As carícias continuavam cada vez mais intensas. Ao longe ouvi uma campainha, insistente e irritante. Senti ele se afastar, parecendo irado com aquela interrupção.
- Droga! - ele disse - Vou ter de atender a porta, senão ela vai ser derrubada a qualquer instante.
Lançou-me um olhar muito terno, como se pedindo perdão por ter interrompido aquele momento. Vi que ele estava meio sem jeito, ainda com o rosto afogueado, mas pediu-me que me arrumasse. Custei um pouco para me refazer de tudo que tinha acontecido, um momento de loucura maravilhoso, que havia sido cortado daquele jeito. Não sabia se estava triste ou se agradecia por não ter ido adiante. Afinal havíamos nos conhecido naquele dia. As coisas estavam acontecendo rápido demais.
Ele se recompôs após alguns minutos. A campainha continuava insistentemente a tocar. Pensei "quem será este maluco?"
Pediu-me que esperasse e que não fosse embora. Entrou na sala e foi abrir a porta da entrada.
- Oi, meu amor! Soube que tinhas voltado de Londres hoje e resolvi vir até aqui para conversarmos um pouco.
Era uma voz de mulher, espalhafatosa, vulgar. Seria a namorada dele? Meu sangue começou a ferver.
- E precisava tocar a campainha daquele jeito! Olha, Roxane! Tem que aprender a ter mais educação. Eu podia estar dormindo, podia não estar em casa.
- Eu sabia que você estava em casa. O seu porteiro disse que seu carro estava na garagem, por isso subi. Não vai me convidar para entrar, Sr. Educado??
- Claro, entre - disse ele em voz baixa.
Naquele momento, não resisti e olhei para dentro da sala, na direção deles, e vi uma morena, com uma blusa vermelha, muito decotada, dando um beijo na boca de Arthur. Aquilo me fez sentir traída. O ciúme parecia corroer meu peito como ácido, queimando, até levar lágrimas aos meus olhos.
- Laura!!
Ele havia me visto. Mas saí correndo para os fundos, consegui pegar minha bolsa e alcancei a porta de serviço rapidamente. Ainda o ouvi gritando meu nome, mas ele não veio atrás de mim. Ficou com aquela louca. Deviam se merecer! Uma onda de ódio substituiu tudo de bom que eu havia sentido antes. Não conseguia parar de chorar. Peguei o primeiro táxi livre que passou e fui para casa, sentindo como se a morte estivesse me seguindo. Sentia raiva de mim mesma por ter sido tão estúpida por ter cedido ao charme dele. Acreditei que ele pudesse ser diferente dos outros. Mas, como sempre, fora enganada!
Cheguei em casa e me atirei na cama já quase sem forças de tanto me maldizer.
No meio da madrugada, já um pouco mais calma, depois de pensar em não voltar nunca mais naquele apartamento, consegui raciocinar melhor. Não, eu não deixaria de ir trabalhar no dia seguinte. Afinal, ainda era o meu emprego. Talvez até pudesse processá-lo por abuso sexual. Aqui nos EUA isto era muito comum. Ora! Que idéia mais absurda, Laura. Eu nunca teria coragem de fazer isto, principalmente com ele. Apesar de tudo, por mais que eu negasse, acho que estava apaixonada. Parecia impossível. Nunca acreditei em paixão fulminante, mas era o que estava acontecendo comigo. Pena que a ilusão de ser correspondida tinha durado tão pouco. Um dia!!! Não dava para acreditar como eu tinha me entregado tão fácil. Ele devia estar dando risada com aquela bruxa até agora, com pena da pobre empregadinha. Mas eu ia dar a volta por cima. Ia me fazer de louca e continuaria meu trabalho como se nada tivesse acontecido. Oh! Deus! Será que eu conseguiria?
No dia seguinte, depois de tomar um banho, fiz uma maquiagem leve, que pudesse esconder as olheiras da noite não dormida, coloquei uma calça jeans e uma blusa branca, para dar a impressão de "tudo bem". Será que eu enganava alguém assim?
Peguei meu metrô e fui ver se ainda tinha um emprego. Fui obrigada a tocar a campainha da entrada de serviço, pois não haviam me dado uma cópia da chave. E eu quase já tinha me entregue para o patrão... Pára de pensar assim sua, débil mental!
Toquei por três vezes, rezando para que a porta não se abrisse e eu desse de cara com ele. Quando a porta foi aberta, quem estava a minha frente era o Mr. Anthony.
- Bom dia, Srta Laura. Algum problema? Está um pouco atrasada.
- Bom dia, Mr Anthony, e desculpe pelo atraso, mas não tive uma boa noite.
- Parece que só eu acordei bem hoje. Mr. MacCain também acordou com uma cara péssima. Deve ser a troca de fuso horário.
- Ele está? - peguntei com voz quase inaudível.
- O quê? Ah! Sim...Quer dizer, não. Ele teve de ir a um encontro com um produtor, para discutir a participação em um filme. Talvez não volte para almoçar, mas eu estarei morrendo de fome. Recebi elogios à sua comida e quero provar também. Não lembro se comentei antes, mas no dia da folga da Sra. Dolores, a Srta. fica encarregada de arrumar o quarto do Mr. MacCain, e de dar alguma ajeitada na casa. Algum problema com isto?
- Não, é claro! Posso começar imediatamente.
- Ok! Mãos à obra, então.
Larguei minha bolsa e fui dar uma olhada no resto da casa. Parecia tudo tão arrumado como sempre. Sem sinais de orgias sexuais pelo caminho. Por falar nisso, a louça quebrada na noite anterior havia desaparecido e a cozinha estava impecável. Duvido que tivesse sido o Mr. Anthony que houvesse se dado a este trabalho, muito menos a maluca escandalosa da Roxane...Urgh!!
Entrei no quarto e também não havia sinal de nada. Será que ele não tinha transado com ela? Sobre a mesa de cabeceira estava um aparelho celular. Olhei para os lados e , como não havia ninguém olhando, resolvi bisbilhotar e ver as ligações recebidas e discadas. Poucos segundos depois senti braços musculosos me abraçando por trás, como querendo me prender para evitar minha fuga.
- Que bom que você achou o meu celular. E que bom que o esqueci para poder voltar e te ver assim tão curiosa.
Fiquei sem palavras. De novo, pega em flagrante. Só consegui dizer:
- Perdão - secamente e tentei me desvencilhar daqueles braços tão confortantes. Tentei me virar para fugir daquele olhar, mas só consegui ficar mais próxima dele, agora, de frente.
- Porque você fugiu daquela maneira ontem à noite? Eu pedi que me esperasse.
O seu rosto e o calor que exalava da sua boca me acariciavam os cabelos e a testa. Comecei a sentir o peso diminuir. Estava fraquejando de novo.
- Achei que você estava precisando de privacidade com a sua namorada.
- Ela não é minha namorada! Sua tolinha. Por isso saiu daquele jeito, chorando feito criança?
- Eu não estava chorando.
- Ah! Estava sim, porque dava para ouvir os seus soluços de longe. Não tinha motivo algum para isso.
- Eu sei o que vi. Vocês se beijando!
- Você quer dizer “ela me beijando”. A Roxane não passa de uma velha amiga, muito maluca, que vive querendo falar dos seus próprios problemas, sem levar em conta se o ouvinte está ou não interessado. Quando ela se deu conta que estava atrapalhando, foi embora logo em seguida. Ela não é má pessoa.
- Não sei se dá para acreditar em você, depois do que aconteceu.
- Olha, eu estou atrasado para o meu compromisso. Me espere, por favor, para a gente conversar. À tarde, depois do almoço devo estar de volta. Combinado?
- Acho que sim.
- Olha prá mim.
Quando ergui meus olhos, ele colou seus lábios contra os meus e todas as minhas forças de defesa caíram no mesmo instante. Ele era irresistível!
Assim que ele saiu, tentei me recompor. Arrumei o quarto e voltei para cozinha, onde tentei me concentrar no almoço de Mr. Anthony. Este, continuava por lá, largando as “penas” ao telefone. Ao menos, cozinhar era uma coisa que me fazia muito bem. Ali eu conseguia descarregar as tensões.
A manhã passou sem mais sobressaltos. Era um dia muito quente. Este verão em NY estava prometendo. Servi o almoço para o secretário em torno de 12 h, pois ele disse que teria um compromisso no início da tarde. Depois de ouvir altos elogios para a minha salada de camarões e o suflê de queijo, ele saiu. Arrumei a cozinha e comecei a ficar ansiosa com a volta de Arthur. Ele disse que voltaria depois do almoço com o produtor, mas já eram 14 h, e nada. O sono começou a incomodar. Eu não dormira nada naquela noite passada. Por fim, não resisti ao ar mais fresco na sala principal e resolvi sentar em uma das amplas poltronas confortáveis que haviam por ali. Acabei pegando no sono.
Pareciam ter passado poucos minutos, onde tive sonhos terríveis onde a tal Roxane aparecia acariciando e beijando o Arthur na minha frente e os dois rindo de mim. Horrível. Acordei assustada. Estava deitada na cama dele, só de calcinha e sutiã. Quando virei o rosto, vi que Arthur estava deitado ao meu lado, vestindo só uma cueca branca, de olhos fechados, como se estivesse dormindo. Levei um susto. Como eu tinha ido parar ali? Será que eu ainda estava sonhando? Sem pensar mais, fiz uma tentativa para levantar, mas imediatamente senti aquela mão me agarrando com força, mas gentilmente, me puxando de volta para a cama.
- Aonde você vai? Fica aqui do meu lado. Estou adorando te ver assim, tão linda e frágil.
- Como eu vim parar aqui?
-Quando eu cheguei em casa, você estava dormindo tão tranqüila, mas desconfortável, lá na sala, que pensei em trazê-la para cá. Eu também estava com sono, pois passei uma noite péssima. Aliás, por sua causa. Assim, pensei que poderíamos dormir juntos.
- Mas precisava tirar minha roupa e ficar só de cueca??
- Olha, com o calor que está fazendo, dormir de calça jeans e suada, não é nada confortável. Eu, você já sabe que não gosto de dormir vestido. Fiz muito em ficar de cueca. Mas, se quiser, posso tirar ela agora mesmo - disse ele com aquele ar sarcástico e um sorriso de menino travesso.
- N-não - disse eu, sentindo o rubor subindo à face.
- Você está com medo de mim?
- Não, estou com medo de mim e do que estou sentindo.
- Olha, também acho que as coisas entre nós estão acontecendo muito rápidas. Isto nunca me aconteceu antes. Está sendo uma loucura. Uma loucura deliciosa.
- Arthur, eu...
- Eu sei que precisamos nos conhecer melhor, por isso pensei que a gente podia sair para dançar hoje à noite. O que você acha?
Aquela situação era completamente absurda. Nós dois deitados na mesma cama, quase pelados e conversando. Comecei a ficar excitada, o que não era nada bom. Ele acariciou meu rosto e , como se tivesse lido meus pensamentos, falou:
- Vou tomar um banho frio. Está muito quente. Não quer vir junto?
Aquela pergunta fez meu coração disparar e uma corrente de eletricidade disparou por todo meu corpo. Aquele sorriso malicioso nos seus lábios. Eu tinha de resistir... Será?
- Está bem. Não vou forçar a situação. Fique a vontade, mas pense no meu convite...Em dançar... O outro convite também está de pé.
Ele se aproximou, deu um beijo muito doce no meu rosto e eu tive de me conter para não pular nos seus braços.
Levantou-se e foi tirando a única peça de roupa que cobria aquele corpo lindo e viril. Foi para o banheiro e ligou o chuveiro. Em alguns segundo a minha "usina nuclear" estava novamente prestes a entrar em colapso. Laura, o que ele vai pensar de você? Controle-se! Sabe do que mais? Controlar o quê? Estou louca por ele, nunca mais vou ter um homem como este na minha frente, não sou nenhuma menininha inocente. O que estou fazendo deitada aqui? Azar se nada der certo, se eu for sofrer mais tarde, se o mundo acabar... Exploda-se!
Levantei da cama e, ainda vacilante, cheguei até a porta do banheiro e fiquei espiando. Ele me viu.
- Venha! - disse ele me estendendo aquele braço magnífico.
Cheguei mais perto e ele me puxou para dentro da banheira, estilo romano, sobre a qual o chuveiro jorrava uma água deliciosamente gelada, e começou a me beijar. Suas mãos passaram a percorrer todo meu corpo e, sem pressa, foi tirando minha roupa íntima. Aí, perdi a noção de onde estava. Só sentia a presença daquele corpo rijo, forte, suas mãos em meus seios, que logo foram substituídas pelos lábios. Ah! Eu poderia morrer naquele momento. Ele me virou de costas e passou a me acariciar os seios e o ventre. Ondas de prazer, contrações... Eu nunca tinha sentido nada igual.
Ele continuava na ânsia de conhecer cada milímetro do meu corpo. De repente, ele me virou novamente e, me levantou pelas nádegas até o seu quadril, fazendo com que eu enlaçasse sua cintura com minhas pernas. Eu já estava completamente enlouquecida, quando o senti me penetrando, com força, quase selvagem. Um misto de dor e prazer foi tomando conta de mim. Agarrei-me em seu pescoço e passei a gemer, quase a gritar. As sensações que vieram depois são indescritíveis. Fomos ao orgasmo juntos. Perdi a noção de tudo. Depois disso, uma paz e um relaxamento tal foi tomando conta de mim, que fiquei com medo de cair. Mas, ele continuava me segurando. Foi afrouxando aos poucos aquele abraço e me colocando suavemente no chão. A água continuava correndo, como um bálsamo por nossos corpos exaustos. Então, ele me beijou. O beijo mais doce do mundo.
- Agora podemos tomar o nosso banho. Quer que eu passe o sabonete em você?
Depois daquele banho demorado, surgiu a dúvida de como eu ia vestida para a balada com ele.
- Querida, nós estamos em NY. Aqui nós podemos comprar o que quisermos, a hora que quisermos.
- Mas, eu tenho roupa apropriada... Só que em casa.
- E onde é a sua casa?
Aí, fiquei com vergonha de dizer que era no subúrbio e que eu levava pelo menos 30 minutos de metrô para chegar lá. Acho que ele sentiu que eu havia ficado sem jeito e disse que não tinha problema nenhum. Já estava decidido. Eu ia ganhar uma roupa nova para dançar!
Pegou o telefone e fez algumas ligações, enquanto eu preparava uma omelete para nós, pois estávamos famintos. Em menos de 30 minutos, recebemos a visita de uma jovem senhora, chamada Emmy, que tinha uma loja na 5ª Avenida. Ela levou uma mala com várias peças, sendo que uma delas era um vestido verde, maravilhoso, com um grande decote na frente, uma faixa mais larga na cintura e uma saia plissada, o que dava um movimento lindo ao vestido. Como era a peça mais cara, fiquei com vergonha de escolhê-lo. Novamente, ele leu meus pensamentos e resolveu que aquela era a roupa ideal para o que queríamos. Fui experimentar e ele caiu como uma luva em mim. Quando surgi na sala, Arthur deu um grande sorriso de aprovação. Logo dispensou a mulher, com um "gordo" cheque e voltou-se para mim.
- Laura, você está tão deslumbrante que já estou quase desistindo de sair - disse. Aproximou-se, foi me envolvendo com o seu abraço, aqueles olhos incendiados pelo desejo e começou a me beijar. Consegui afastá-lo, com alguma dificuldade, pois eu também já estava quase caindo em tentação e disse:
- Arthur, acho melhor a gente sair. Se continuarmos deste jeito, logo não vai sobrar nada de nós. Você mesmo tinha dito que precisávamos de um tempo para nos conhecer melhor, lembra? Além do mais, estou precisando sair e dar uma arejada. Desde que vim para esta cidade, não saí nenhuma vez. Acho que vai ser fascinante conhecer a noite de NY com você.
Já eram 23 horas quando ele parou o seu carro em frente ao night club "Gypsy Tea", na 33W. O manobrista abriu minha porta, ajudando-me a sair e logo em seguida pegou as chaves com Arthur . Passamos por uma enorme fila e chegamos à porta de entrada, onde um monstruoso e carrancudo porteiro vigiava a entrada. Ao ver meu acompanhante, abriu-se em gentilezas e nos fez entrar, para desespero da "massa" que ficou para trás. Lá dentro, a música vibrava em alto volume. A decoração era em tons de roxo e laranja, com muitos neons. Atordoante! Comecei a pensar se teria sido boa idéia vir até aqui para nos conhecermos melhor. Ali não era um local muito apropriado para se manter um diálogo íntimo. De qualquer forma, já havia reparado que Arthur adorava a noite. Havia me apaixonado por um noctívago como eu. Sempre adorei sair à noite e dançar até não agüentar mais. Nos últimos tempos, a busca por trabalho, amores frustrados e a ida para os EUA, tinham abafado este meu lado.
Logo, comecei a sentir um certo desconforto devido aos olhares invejosos para mim e de sedução para ele, principalmente das mulheres presentes. Fui em frente, como se não fosse comigo. Arthur também me pareceu um pouco acanhado com este clima. Mas, ia distribuindo cumprimentos e sorrisos para todos.
Eu não imaginava que ele era tão conhecido assim. Acho que só eu era o "bicho do mato".
Assim que sentamos e fazíamos os pedidos de duas Cocas bem geladas, duas mulheres muito maquiadas e bem arrumadas, praticamente se jogaram sobre a mesa, com sorrisos encantadores. Falaram algo no ouvido dele. Logo em seguida surgiram, Deus sabe de onde, guardanapos de papel e caneta, que imediatamente foram colocados na frente dele para que os autografassem. Parecia que eu era invisível. Elas tentavam seduzi-lo na minha frente. Que ódio!
Quando finalmente, depois de sermos "atacados" por mais quatro mulheres e dois homens (!), fomos para a pista de dança. Aí, senti que éramos só nós dois. Ele me olhava dentro dos olhos, de um jeito que me derretia toda. Sempre que a música permitia, ele dava um jeito de me enlaçar e colar-me junto ao seu corpo. Estava me divertindo muito.
Paramos um pouco, para descansar e beber um refrigerante, quando vi Roxane aproximando-se da nossa mesa. Logo atrás, vinham dois casais. Foram chegando e cumprimentando efusivamente. Notei que as mulheres me ignoraram e os homens quase me comeram com os olhos. Não gostei daquela sensação. Roxane se jogava sobre Arthur de forma exagerada. Quando dei por mim, eles estavam conversando animadamente, como se eu não estivesse ali. De repente, ouvi Roxane me apresentando para os demais, como a nova cozinheira do Mr. MacCain. Todos caíram na risada! Para mim, foi o estopim. Porque ele não havia nos apresentado? Será que estava com vergonha de mim? Senti as lágrimas brotando e resolvi sair dali. Não fugi, para não dar o gosto de fazer um escândalo. Saí andando em direção ao toalete feminino, sem olhar para trás. Antes de chegar lá, duas mãos me agarraram com firmeza e fui obrigada a encarar aqueles olhos verdes.
- Onde você vai? - me perguntou.
- Vou ao toalete, não está vendo?
- E estas lágrimas?
- Deve ser a fumaça de cigarro. Odeio cigarro! - disse eu, exatamente para magoá-lo, pois este era um vício do qual ele ainda não conseguira se libertar.
- Não seja boba! Venha aqui! Vou te apresentar ao pessoal.
- A Roxane já fez este favor. Não ouviu? Acho que está na hora de me retirar. Aliás, já deve ser domingo e estou iniciando a minha folga de domingo.
- Laura, não me faça perder a paciência. Já te falei que a Roxane não é boa de cabeça!
- Me parece que ela sabe muito bem como humilhar alguém - disse eu, fazendo força para engolir o choro e a vergonha que sentia naquele momento. Porque ele não me defendera daquela megera?
- Eu vou com você. Ainda temos muito que conversar.
Dizendo isto, ele me segurou gentilmente pelo braço e começou a caminhar em direção ao grupo de amigos. Entrei em pânico. Não queria ser exposta mais uma vez, nem ficar frente a frente com aquela Roxane. Mas, não tive como escapar.
- E aí, Arthur!! Vamos nos divertir então? - perguntou um dos homens.
- Infelizmente, não. Estamos um pouco cansados e vamos embora. Voltei aqui para corrigir uma grave falha minha, que foi não apresentar a minha noiva, a Srta Laura - disse ele com um sorriso. Notei um desconforto neles, mas principalmente na Roxane, que parecia ter engolido um sapo venenoso.
- Como assim, noiva? Você não nos falou nada antes! Que história é esta?
Comecei a recuperar o meu humor, minha auto-estima e a confiança naquele homem, por quem estava perdidamente apaixonada.
- Queríamos manter tudo em segredo. Sabe como é o nosso meio. Cheio de paparazzis e curiosos. Nos conhecemos quando estive no Brasil, no início deste ano, e ficamos muito apaixonados. Não é mesmo Laura?
- É mesmo, Arthur - falei com a cara mais feliz do mundo.
- Bem, pessoal, foi um prazer rever vocês, mas vamos aproveitar nossa noite de uma maneira mais interessante. Até mais! Vamos, meu amor.
Dizendo isto, passou seu braço direito sobre meus ombros, enquanto eu o abraçava na cintura, e saímos. Íntimamente, eu dava pulos de alegria, só de lembrar a cara da Roxane.
Deixamos o Gypsy Tea e, enquanto esperávamos o carro, não consegui parar de olhar para ele, aquele homem poderoso, que parecia um rei, tão lindo, elegante e gentil, que tinha, num instante, feito com que eu esquecesse de toda a vergonha pela qual tinha passado.
- Se não parar de me olhar deste jeito agora, vou ser obrigado a fazer amor com você aqui mesmo - falou, com aquele sorriso maroto de sempre.
- Arthur, eu não sei o que dizer ou fazer para te agradecer o que aconteceu lá dentro. Claro, que sei que a estória de noiva foi uma desculpa, mas você conseguiu me fazer muito feliz e confiante.
- Quem disse que aquilo foi estória? Eu nunca falei tão sério na minha vida. Aliás, eu nunca estive tão apaixonado.
Neste instante, o carro chegou. Ele abriu a porta para eu entrar e foi para o volante.
- Então, futura Mrs. MacCain, vamos para casa?
- Com certeza, meu amor!
Nos beijamos e partimos para mais uma noite de amor, das muitas que se seguiriam a partir daquela.
Hoje, faz um ano que estamos juntos. Já consigo conviver com os constantes avanços das fãs e de colegas de trabalho, dominando o ciúme. Sei que ele é meu e de ninguém mais. E como dizia o nosso poetinha: "Que seja eterno enquanto dure..."
FIM
Isto é que é amor-relâmpago, não? Já pensaram se fosse assim na vida real?... Que maravilha! Mas não acho que seja impossível. Difícil é achar alguém que nos cause esta paixão à primeira vista e que corresponda igualmente. Mas não custa sonhar...
Se alguma de vocês já tiver tido uma experiência semelhante, comente e conte. Quem sabe isto não dá um romance?
Beijos!
O Sabor do Amor
Lá estava eu, Laura, a caminho daquela agência de empregos famosa em Nova York, para tentar colocação como cozinheira em algum apartamento chique da Big Aple. Brasileira, filha de uma carioca e de um americano, graças ao meu passaporte americano consegui escapar daquela vida sem perspectiva no Brasil. Infelizmente nada aconteceu como eu havia planejado. Com um diploma de advogada nas mãos, nada consegui profissionalmente. O mercado de trabalho difícil, cercada por colegas inescrupulosos, desilusões amorosas acumulando-se... Nada mais me prendia àquele lugar. Começaria do zero, onde ninguém me conhecesse. Quem sabe algo de bom pudesse acontecer? Graças ao amor pela culinária, adquirido desde cedo vendo minha mãe dedicar-se aos seus quitutes, resolvi colocar estas habilidades em prática na nova profissão. Provavelmente a maioria de meus conhecidos ia dizer: "Coitada! Não conseguiu vencer na carreira e foi ser empregadinha nos Estados Unidos. Que decadência!". Talvez, mas é um modo de recomeçar.
Cheguei no horário combinado com a secretária da agência. Fui recebida com um grande sorriso e um efusivo parabéns, que eu achei meio desproporcionais para a ocasião. Logo, fui encaminhada para a sala da dona da agência, onde fui informada de que começaria a trabalhar no apartamento de um ator escocês, chamado Arthur McCain. Ele estava à procura de uma cozinheira e quando soube que havia uma brasileira para a função, nem quis olhar outros currículos. Portanto, o cargo era meu e deveria iniciar no dia seguinte.
Nunca havia ouvido falar deste ator. Não era muito chegada em cinema. Na agência me disseram que ele havia feito muito sucesso com um filme sobre guerreiros espartanos. Já fiquei imaginando a figura. Algum tipo cheio de si, com músculos saltando para todo o lado, querendo uma cozinheira exótica para mostrar aos amigos. Enfim, alguém insuportável, que provavelmente nem saberia distinguir carreteiro de risoto. Bem, desde que pagassem em dia, estes detalhes não me importavam. Ainda bem que eu não precisaria dormir no emprego. Talvez, com o bom salário que ele estava oferecendo, eu pudesse alugar um apartamento melhor do que a peça onde estava morando desde que chegara há um mês.
Depois de uma boa noite de sono, levantei cedo, coloquei meu melhor vestido e prendi o cabelo em um rabo de cavalo. Ao olhar no espelho, o conjunto era agradável: herdara de minha mãe o corpo roliço, boas medidas, os cabelos escuros, levemente ondulados. De meu pai, a pele mais clara e os olhos azuis. É, até que eu não era feia. Naquela manhã, particularmente, estava me sentindo muito bem. "Vamos lá, enfrentar a fera".
Fui até o endereço. Era um prédio de apartamentos antigo, mas muito chique, próximo ao Central Park. De cara, já fiquei sabendo que havia uma entrada para os empregados. O que fazer? Era isso que eu era, não é mesmo? Lá me fui para o elevador dos fundos. Subi até o 9º andar e toquei a campainha. Fui atendida por uma senhora, que se apresentou como Dolores, provavelmente mexicana, muito simpática, que me fez entrar e pediu que eu esperasse, pois o secretário do Mr. McCain estava a minha espera para falar dos detalhes da minha contratação. Enquanto aguardava, comecei a admirar o que seria o meu local de trabalho. A cozinha era linda, com eletrodomésticos todos brancos, com uma bancada de mármore negro ao centro, onde eu poderia me divertir, preparando meus melhores pratos. Ainda não imaginava as outras utilidades daquela bancada. O chão era todo quadriculado, como um tabuleiro de xadrez, com lajotas pretas e brancas. Parecia coisa de revista. Ele deve ter gastado uma fortuna só com esta cozinha. Imagina o resto da casa! Estava louca para conhecer. Pelo menos o decorador tinha bom gosto. Duvidava que tivesse havido algum palpite do morador.
Depois de esperar mais de 45 minutos, o tal secretário apareceu, apresentando-se como Mr. Anthony. Era um tipo meio afetado, que falava de com sotaque britânico.
_ Bem, senhorita... Laura. É isso mesmo? - nem pediu desculpas pela demora, o grosso - Quero que a senhorita saiba que Mr. MacCain é uma pessoa muito ocupada, que não deve ser incomodado com assuntos banais. Ele, neste momento se encontra filmando em Londres, mas deve retornar dentro de três dias. Ele anda cansado de ter que comer em restaurantes ou em casas de amigos, por isso ele a está contratando. O que queremos é o trivial, sem grandes requintes. Uma comida caseira, conforme ele solicitou. Ele gostou de saber que a senhorita é brasileira, pois ele admira muito a culinária do seu país. Espero que a senhorita esteja preparada para tal função. Pode preparar uma lista do que vai precisar e mandaremos alguém comprar.
Aí, tive de interrompê-lo:
_ Eu gostaria de fazer as compras eu mesma, pois é importante escolher produtos de qualidade. Não gostaria de delegar esta função a alguém que não conhece nada de culinária.
Parece que o Mr. Anthony gostou de meu interesse e aceitou meu pedido. Combinamos que eu teria um cartão de débito, claro que teria um limite de despesas, mas que eu teria liberdade para fazer as compras ao meu modo. A minha semana teria 6 dias com uma folga semanal. Provavelmente no domingo. O salário seria aquele acordado com a agência.
- Mais alguma dúvida, senhorita Laura?
- Não, Mr. Anthony. Está tudo claríssimo. Assim que o Mr MacCain chegar, estarei à sua inteira disposição. Espero que ele goste de meus quitutes.
- Também espero, Srta. , para o seu próprio bem.
Nossa, que coisa mais assustadora para se dizer. Será que ele era tão exigente, este Mr. MacCain? Teria que aguardar ainda três dias para conhecer o meu patrão. Já sentia um pouco de ansiedade. Calma, Laura. Não pode ser tão terrível.
No dia seguinte, fui às compras. Pedi para entregar no prédio do Mr. MacCain. Enquanto aguardava a entrega, pedi à Dolores para conhecer o resto do apartamento.
Era lindo. Parecia um sonho. Muito bem decorado, com peças de antiquário, misturado a peças modernas. Muito aconchegante. O quarto principal era de cinema. Só podia, não?
Brincadeira. A cama era um convite. Kingsize, com um dossel maravilhoso, todo de madeira entalhada, envelhecida, com tapetes, cortinas e edredon com cores quentes. Quem fez a decoração estava pensando nas loucuras que poderiam ser feitas naquela “alcova”. Será que o meu patrão saberia como fazer uso de tudo aquilo ou ele seria um tipo afetado e sem graça como o seu secretário? Laura, pára de pensar bobagem. Tão cedo eu não queria saber de nada disso, depois de ter conhecido tantos canalhas, acho que tinha ficado vacinada contra este tipo de coisa. Paixão era algo distante para mim, no momento. Queria tocar minha vida sem atrapalhações. Talvez um dia, muito distante.
No meu segundo dia de trabalho, resolvi fazer alguns congelados, que poderiam facilitar as coisas, no caso de Mr. MacCain pedir alguma refeição fora de hora. Deixaria algumas coisas já encaminhadas para esperar a chegada dele no dia seguinte. Comecei a preparar algumas quiches, que poderiam servir como acompanhamento ou como lanche. Estava distraída, trabalhando na bancada, cantarolando e rebolando (me sentia muito bem cozinhando), quando ouvi um barulho atrás de mim. Pensei que fosse Dolores e pedi que ela me alcançasse a manteiga que estava na geladeira ao seu lado. Ouvi seus passos, a porta abrindo e fechando. Já estava agradecendo com um grande sorriso, quando vi uma grande mão masculina segurando o pacote de manteiga. Virei rapidamente, assustada com aquela presença estranha, quando me deparei com um homem alto, - ele devia ter 1,90m, pelo menos - cabelos ligeiramente grisalhos, que iluminavam o seu rosto, olhos azuis esverdeados profundos, que pareciam ver a minha alma e mais alguma coisa, e uma boca de tirar o fôlego. Soltei um tipo de grunhido, pois não conseguia encontrar a voz. Ele só me olhava como se estivesse se divertindo com o meu estado, com um meio sorriso irônico. Quando consegui me refazer um pouco, consegui perguntar quem era ele e o que estava fazendo na minha cozinha. Ele largou a manteiga sobre a mesa e disse:
- “Eu é que deveria perguntar o que uma mulher linda e desconhecida está fazendo na “minha” cozinha”.
Depois de alguns segundos, caiu a ficha. Seria ele o Mr. MacCain?? Não era possível! Eu estava perdida. Tinha sido pega cantando, rebolando e, ainda por cima sendo grosseira com ele, no primeiro contato. Adeus emprego. Todos meus planos iam por água abaixo. Fiquei aguardando um sonoro "Goodbye, miss". Mas, ele caiu na risada. Fiquei indignada!
- Se você pudesse se olhar no espelho agora saberia por que estou rindo. Parece que você viu uma assombração. Desculpe estar rindo de você. Deixe me apresentar: Arthur.
Arthur???, pensei.
- Mr. MacCain??? - disse.
- Por favor! Não me chame de Mr. MacCain. Sinto-me com 300 anos de idade. Isso é coisa daquele meu secretário . Me chame de Arthur, por favor. Então você é a nova cozinheira? _ _ Sim - disse eu com a voz meio trêmula - O Mr. Anthony falou que o senhor - e ele me olhou de forma irônica de novo - quer dizer, você, chegaria só amanhã.
- É, mas as filmagens terminaram mais cedo e eu resolvi antecipar a viagem de volta. Fui recompensado, pois acabei tendo uma surpresa muito boa.
Seu olhar parecia cobrir todo o meu corpo, tirando cada peça , uma por uma, até eu me sentir completamente nua. Devo ter ficado vermelha, pois ele deu mais um sorrisinho sarcástico e falou:
- Seja bem vinda ao meu humilde lar. Acho que vamos ser grandes amigos. Vou descansar um pouco, pois a viagem durou mais de 15 horas, com espera em aeroporto e tudo o mais. Peça para a Dolores me acordar em torno de 19 h, ou você mesma pode fazer isto, se quiser. Vou jantar em casa hoje, portanto, mãos à obra, querida.
- O Sr., sorry, você tem algum pedido especial?
- Me surpreenda, ahn... Qual é o seu nome? Perdão por não ter perguntado antes.
- Laura.
- Então, Laura, você escolhe o que vou comer, ok? Até mais.
Assim que ele saiu do meu campo de visão, parecia que o chão estava se abrindo abaixo de mim. Aquele homem era de perder o fôlego e, eu trabalhava para ele. Ouvi uma risadinha vindo do outro canto da cozinha. Era Dolores!
- E aí, minha linda, conheceu o patrão? Parecia que você ia desmaiar a qualquer minuto. Não deixa ele reparar, porque senão você está perdida.
- Como assim?? - perguntei.
- Um hombre como este não deixa uma mulher bonita como você passar incólume.
- Dolores, por favor, não me assusta! É o meu primeiro emprego por aqui e você fica me pondo minhocas na cabeça. Estou vacinada contra homens deste tipo. Comigo ele não vai conseguir nada. Ele que vá posar de galã para as deusas de Hollywood.
- Está certo , então. Não está mais aqui quem falou. Na verdade, ele é um amor de pessoa. Você vai descobrir isto logo, logo. Mas cuide bem do seu coraçãozinho. Não quero vê-la machucada, minha rica.
Resolvi não pensar mais nisso e fui tocar minha cozinha para preparar o jantar para o Mr. MacCain. Dei o recado dele para Dolores e fui pensar no cardápio para logo mais.
O jantar já estava quase pronto quando me dei conta de que eram 19 h e a Dolores ainda não havia ido chamar Arthur. Lembrei-a do fato e ela me pediu o favor de acordá-lo, pois ela estava muito ocupada com seu serviço. Fiquei chateada de ter que entrar no quarto, mas não havia alternativa. Bati na porta, mas não obtive resposta. Esperei um pouco e resolvi entrar. O quarto estava na penumbra. Era Verão, por isso ainda entravam alguns raios de sol através das cortinas. Quando olhei para a cama pude ver os contornos de Arthur. Ele estava completamente nu, virado de bruços, agarrado ao travesseiro. Era possível ver o contorno de seus ombros fortes, os músculos dos braços, bem torneados, o torso largo, que terminava numa onda suave em direção às nádegas, arredondadas, firmes. Como o corpo de um homem podia ser tão belo. Saí do meu devaneio quando ele se mexeu e falou com voz rouca:
- É você, Dolores?
Não conseguia responder. Estava paralisada. O que ele ia pensar ao me ver ali parada vendo-o naqueles "trajes"? Quando notei que ele ia levantar-se, saí quase correndo, mas antes ainda pude perceber o esboçar de um sorriso. Acho que ele percebera que era eu. Cretino! Ainda por cima ria de mim e da situação constrangedora em que me meti. Homens!! Voltei para a cozinha, aonde cheguei ofegante e pálida, depois de passar do rubor à incandescência. Dolores perguntou algo, mas antes que eu pudesse entender a pergunta e responder, ele apareceu na porta trajando um robe de seda verde escuro, que realçava ainda mais os seus olhos.
- Da próxima vez, bata na porta, por favor.
- Mas, eu bati - oops, eu havia sido flagrada. Que furo! Ele me olhou com, aquele sorrisinho irritante, como que dizendo "Te peguei!" Ai, que ódio!
- O jantar já está pronto?
- Quase.
- Então vou tomar um banho agora. Você pode me esperar?
- C-claro!
- Ótimo!
Tão logo ele se virou, Dolores disse que já tinha acabado seu serviço e que seus netos a estavam esperando.
- Como?Você vai me deixar aqui, sozinha com este maníaco?
- Querida, ele não é um maníaco. Você é que tem de se controlar. Vai dar tudo certo, está bem? Um ótimo final de semana para você!
- O que?? Amanhã você não vem?
- É a minha folga , meu bem. A sua é domingo. Não podemos tirar folga no mesmo dia, esqueceu? Não se preocupe. Vai dar tudo certo.
Virou-se e foi arrumar suas coisas para sair e me deixar a mercê daquele... Oh, Deus! O que eu faço??
Depois de meia hora de pânico, comecei a me acalmar, pensando porque a demora neste banho. Após 1 hora e quase perda total do meu jantar, resolvi entrar na sala e ver onde ele estava. Talvez estivesse esperando ser chamado. A mesa já estava posta na sala de jantar. Quando estava saindo da cozinha, me choquei com ele, que vinha entrando. Como quase caí para trás, ele me segurou pela cintura e me puxou contra o seu corpo. Senti o chão faltar sob meus pés. Ele me agarrou com mais firmeza e perguntou:
- Você está bem?? Desculpe, mas não vi que você estava entrando na sala. Eu a machuquei? - disse ele, realmente preocupado.
- Não, imagina. Foi só o susto.
- Puxa, não sabia que já andava assustando menininhas por aí. Dever ser a idade chegando.
- Não foi isso que eu quis dizer! Ah! Deixa prá lá. Pode me soltar, por favor?
Ela o empurrou, tocando em seus braços e sentiu seus músculos retesados, sem falar no perfume que aquele homem exalava por cada poro. Isto não podia estar acontecendo. Eu não vou cair em tentação, não!
Depois de alguns segundos, ele me soltou com delicadeza e pediu desculpas, novamente.
Parecia ter ficado surpreso com a minha reação de repúdio ao seu contato. Provavelmente, pensou que eu me largaria em seus braços e ...
- Vi que a mesa foi colocada na sala de jantar. Eu gostaria de comer na cozinha, se você não se importar. Não gosto de jantar sozinho.
- Mas??
- Algum problema?
- Claro que não. Vou colocar a mesa aqui.
- Você já jantou?
- Não, eu costumo jantar mais tarde, em casa.
- Tem alguém te esperando? Namorado, marido...??
- N-não!
Porque eu não calava a minha boca. Caí em outra armadilha. O que ele tinha a ver com a minha vida pessoal?
- Então, janta comigo?
- Não, obrigada pelo convite, mas estou sem fome.
- Mas, ao menos, pode me fazer companhia? Ainda não tivemos chance de nos conhecer. Vamos conversar um pouco? - disse ele com um olhar tão terno e suplicante, que eu não tive como resistir.
- Está bem. O que você quer saber? Chegou a ler o meu currículo?
- Acho que você deve ser muito mais do que o que está escrito em algumas folhas de papel, não?
- A minha vida não tem nada de interessante, ao contrário da sua.
- Como você veio parar aqui, como cozinheira? Você não parece uma pessoa humilde.
Com aquela conversa mansa, acabei contando que tinha feito Direito no RJ. Quando ele soube disto, vi um brilho naqueles olhos verdes.
- Sério?? Que coincidência! Eu também, lá em Glasgow!
A partir daí, nossa conversa começou a fluir de uma maneira tal, que parecia que já nos conhecíamos há muito tempo. Muitas coisas, sentimentos e decepções, tínhamos em comum. Quase chorei quando ele me contou sobre o seu pai, que ele acabou perdendo poucos anos após seu reencontro, a luta para mudar sua vida e afastar-se da bebida. Eu fui percebendo uma pessoa diferente daquela que eu tinha imaginado. Uma pessoa sensível, determinada e muito amorosa.
Quando vimos, já haviam se passado quase duas horas e estávamos rindo de nossas experiências. De repente, parecia que o mundo tinha parado e não havia mais ninguém. Nossos olhares se cruzaram e um calor foi tomando conta de mim. Ele tocou na minha mão, que estava próxima à dele, e uma onda de eletricidade percorreu meu corpo.
- Parece que temos muito em comum, Laura. Além de linda você também é uma pessoa maravilhosa.
Ele foi se aproximando, aos poucos, me hipnotizando com aqueles olhos. Ah! Aqueles olhos... Quando me dei conta a sua boca estava muito próxima da minha. Tentei ir para trás, mas senti seus braços me envolvendo, fortes, mas muito docemente, até que seus lábios tocaram os meus, suavemente.
Meu corpo reagiu como nunca. Senti que flutuava. Senti seu abraço forte e a pressão sobre os lábios aumentou. Senti sua língua penetrando minha boca. Aí, não conseguia mais resistir. Comecei a abraçá-lo, também, como se quisesse fundir nossos corpos. Suas carícias passaram da minha nuca, descendo pelas minhas costas, chegando ás nádegas. Todo o meu corpo reagia como se fosse uma usina nuclear a ponto de explodir. Ele começou a desabotoar minha blusa, com cuidado, sempre me olhando com uma paixão que eu nunca tinha visto nos olhos de nenhum outro homem. Todo meu corpo se contraía de prazer. Comecei a abrir o zíper do moleton que ele vestia, até vislumbrar aquele peito másculo, o abdômen de músculos bem definidos. Comecei a beijá-lo, desde o pescoço, descendo aos poucos em direção ao ventre. Ele gemia de prazer. Num rompante, ele jogou tudo que estava sobre bancada no chão. Nem o barulho de pratos quebrando nos tirou daquele êxtase. Segurou-me nas nádegas, me colocando sobre a bancada fria. Podia sentir sua ereção e vibrava ao imaginar ele me penetrando. As carícias continuavam cada vez mais intensas. Ao longe ouvi uma campainha, insistente e irritante. Senti ele se afastar, parecendo irado com aquela interrupção.
- Droga! - ele disse - Vou ter de atender a porta, senão ela vai ser derrubada a qualquer instante.
Lançou-me um olhar muito terno, como se pedindo perdão por ter interrompido aquele momento. Vi que ele estava meio sem jeito, ainda com o rosto afogueado, mas pediu-me que me arrumasse. Custei um pouco para me refazer de tudo que tinha acontecido, um momento de loucura maravilhoso, que havia sido cortado daquele jeito. Não sabia se estava triste ou se agradecia por não ter ido adiante. Afinal havíamos nos conhecido naquele dia. As coisas estavam acontecendo rápido demais.
Ele se recompôs após alguns minutos. A campainha continuava insistentemente a tocar. Pensei "quem será este maluco?"
Pediu-me que esperasse e que não fosse embora. Entrou na sala e foi abrir a porta da entrada.
- Oi, meu amor! Soube que tinhas voltado de Londres hoje e resolvi vir até aqui para conversarmos um pouco.
Era uma voz de mulher, espalhafatosa, vulgar. Seria a namorada dele? Meu sangue começou a ferver.
- E precisava tocar a campainha daquele jeito! Olha, Roxane! Tem que aprender a ter mais educação. Eu podia estar dormindo, podia não estar em casa.
- Eu sabia que você estava em casa. O seu porteiro disse que seu carro estava na garagem, por isso subi. Não vai me convidar para entrar, Sr. Educado??
- Claro, entre - disse ele em voz baixa.
Naquele momento, não resisti e olhei para dentro da sala, na direção deles, e vi uma morena, com uma blusa vermelha, muito decotada, dando um beijo na boca de Arthur. Aquilo me fez sentir traída. O ciúme parecia corroer meu peito como ácido, queimando, até levar lágrimas aos meus olhos.
- Laura!!
Ele havia me visto. Mas saí correndo para os fundos, consegui pegar minha bolsa e alcancei a porta de serviço rapidamente. Ainda o ouvi gritando meu nome, mas ele não veio atrás de mim. Ficou com aquela louca. Deviam se merecer! Uma onda de ódio substituiu tudo de bom que eu havia sentido antes. Não conseguia parar de chorar. Peguei o primeiro táxi livre que passou e fui para casa, sentindo como se a morte estivesse me seguindo. Sentia raiva de mim mesma por ter sido tão estúpida por ter cedido ao charme dele. Acreditei que ele pudesse ser diferente dos outros. Mas, como sempre, fora enganada!
Cheguei em casa e me atirei na cama já quase sem forças de tanto me maldizer.
No meio da madrugada, já um pouco mais calma, depois de pensar em não voltar nunca mais naquele apartamento, consegui raciocinar melhor. Não, eu não deixaria de ir trabalhar no dia seguinte. Afinal, ainda era o meu emprego. Talvez até pudesse processá-lo por abuso sexual. Aqui nos EUA isto era muito comum. Ora! Que idéia mais absurda, Laura. Eu nunca teria coragem de fazer isto, principalmente com ele. Apesar de tudo, por mais que eu negasse, acho que estava apaixonada. Parecia impossível. Nunca acreditei em paixão fulminante, mas era o que estava acontecendo comigo. Pena que a ilusão de ser correspondida tinha durado tão pouco. Um dia!!! Não dava para acreditar como eu tinha me entregado tão fácil. Ele devia estar dando risada com aquela bruxa até agora, com pena da pobre empregadinha. Mas eu ia dar a volta por cima. Ia me fazer de louca e continuaria meu trabalho como se nada tivesse acontecido. Oh! Deus! Será que eu conseguiria?
No dia seguinte, depois de tomar um banho, fiz uma maquiagem leve, que pudesse esconder as olheiras da noite não dormida, coloquei uma calça jeans e uma blusa branca, para dar a impressão de "tudo bem". Será que eu enganava alguém assim?
Peguei meu metrô e fui ver se ainda tinha um emprego. Fui obrigada a tocar a campainha da entrada de serviço, pois não haviam me dado uma cópia da chave. E eu quase já tinha me entregue para o patrão... Pára de pensar assim sua, débil mental!
Toquei por três vezes, rezando para que a porta não se abrisse e eu desse de cara com ele. Quando a porta foi aberta, quem estava a minha frente era o Mr. Anthony.
- Bom dia, Srta Laura. Algum problema? Está um pouco atrasada.
- Bom dia, Mr Anthony, e desculpe pelo atraso, mas não tive uma boa noite.
- Parece que só eu acordei bem hoje. Mr. MacCain também acordou com uma cara péssima. Deve ser a troca de fuso horário.
- Ele está? - peguntei com voz quase inaudível.
- O quê? Ah! Sim...Quer dizer, não. Ele teve de ir a um encontro com um produtor, para discutir a participação em um filme. Talvez não volte para almoçar, mas eu estarei morrendo de fome. Recebi elogios à sua comida e quero provar também. Não lembro se comentei antes, mas no dia da folga da Sra. Dolores, a Srta. fica encarregada de arrumar o quarto do Mr. MacCain, e de dar alguma ajeitada na casa. Algum problema com isto?
- Não, é claro! Posso começar imediatamente.
- Ok! Mãos à obra, então.
Larguei minha bolsa e fui dar uma olhada no resto da casa. Parecia tudo tão arrumado como sempre. Sem sinais de orgias sexuais pelo caminho. Por falar nisso, a louça quebrada na noite anterior havia desaparecido e a cozinha estava impecável. Duvido que tivesse sido o Mr. Anthony que houvesse se dado a este trabalho, muito menos a maluca escandalosa da Roxane...Urgh!!
Entrei no quarto e também não havia sinal de nada. Será que ele não tinha transado com ela? Sobre a mesa de cabeceira estava um aparelho celular. Olhei para os lados e , como não havia ninguém olhando, resolvi bisbilhotar e ver as ligações recebidas e discadas. Poucos segundos depois senti braços musculosos me abraçando por trás, como querendo me prender para evitar minha fuga.
- Que bom que você achou o meu celular. E que bom que o esqueci para poder voltar e te ver assim tão curiosa.
Fiquei sem palavras. De novo, pega em flagrante. Só consegui dizer:
- Perdão - secamente e tentei me desvencilhar daqueles braços tão confortantes. Tentei me virar para fugir daquele olhar, mas só consegui ficar mais próxima dele, agora, de frente.
- Porque você fugiu daquela maneira ontem à noite? Eu pedi que me esperasse.
O seu rosto e o calor que exalava da sua boca me acariciavam os cabelos e a testa. Comecei a sentir o peso diminuir. Estava fraquejando de novo.
- Achei que você estava precisando de privacidade com a sua namorada.
- Ela não é minha namorada! Sua tolinha. Por isso saiu daquele jeito, chorando feito criança?
- Eu não estava chorando.
- Ah! Estava sim, porque dava para ouvir os seus soluços de longe. Não tinha motivo algum para isso.
- Eu sei o que vi. Vocês se beijando!
- Você quer dizer “ela me beijando”. A Roxane não passa de uma velha amiga, muito maluca, que vive querendo falar dos seus próprios problemas, sem levar em conta se o ouvinte está ou não interessado. Quando ela se deu conta que estava atrapalhando, foi embora logo em seguida. Ela não é má pessoa.
- Não sei se dá para acreditar em você, depois do que aconteceu.
- Olha, eu estou atrasado para o meu compromisso. Me espere, por favor, para a gente conversar. À tarde, depois do almoço devo estar de volta. Combinado?
- Acho que sim.
- Olha prá mim.
Quando ergui meus olhos, ele colou seus lábios contra os meus e todas as minhas forças de defesa caíram no mesmo instante. Ele era irresistível!
Assim que ele saiu, tentei me recompor. Arrumei o quarto e voltei para cozinha, onde tentei me concentrar no almoço de Mr. Anthony. Este, continuava por lá, largando as “penas” ao telefone. Ao menos, cozinhar era uma coisa que me fazia muito bem. Ali eu conseguia descarregar as tensões.
A manhã passou sem mais sobressaltos. Era um dia muito quente. Este verão em NY estava prometendo. Servi o almoço para o secretário em torno de 12 h, pois ele disse que teria um compromisso no início da tarde. Depois de ouvir altos elogios para a minha salada de camarões e o suflê de queijo, ele saiu. Arrumei a cozinha e comecei a ficar ansiosa com a volta de Arthur. Ele disse que voltaria depois do almoço com o produtor, mas já eram 14 h, e nada. O sono começou a incomodar. Eu não dormira nada naquela noite passada. Por fim, não resisti ao ar mais fresco na sala principal e resolvi sentar em uma das amplas poltronas confortáveis que haviam por ali. Acabei pegando no sono.
Pareciam ter passado poucos minutos, onde tive sonhos terríveis onde a tal Roxane aparecia acariciando e beijando o Arthur na minha frente e os dois rindo de mim. Horrível. Acordei assustada. Estava deitada na cama dele, só de calcinha e sutiã. Quando virei o rosto, vi que Arthur estava deitado ao meu lado, vestindo só uma cueca branca, de olhos fechados, como se estivesse dormindo. Levei um susto. Como eu tinha ido parar ali? Será que eu ainda estava sonhando? Sem pensar mais, fiz uma tentativa para levantar, mas imediatamente senti aquela mão me agarrando com força, mas gentilmente, me puxando de volta para a cama.
- Aonde você vai? Fica aqui do meu lado. Estou adorando te ver assim, tão linda e frágil.
- Como eu vim parar aqui?
-Quando eu cheguei em casa, você estava dormindo tão tranqüila, mas desconfortável, lá na sala, que pensei em trazê-la para cá. Eu também estava com sono, pois passei uma noite péssima. Aliás, por sua causa. Assim, pensei que poderíamos dormir juntos.
- Mas precisava tirar minha roupa e ficar só de cueca??
- Olha, com o calor que está fazendo, dormir de calça jeans e suada, não é nada confortável. Eu, você já sabe que não gosto de dormir vestido. Fiz muito em ficar de cueca. Mas, se quiser, posso tirar ela agora mesmo - disse ele com aquele ar sarcástico e um sorriso de menino travesso.
- N-não - disse eu, sentindo o rubor subindo à face.
- Você está com medo de mim?
- Não, estou com medo de mim e do que estou sentindo.
- Olha, também acho que as coisas entre nós estão acontecendo muito rápidas. Isto nunca me aconteceu antes. Está sendo uma loucura. Uma loucura deliciosa.
- Arthur, eu...
- Eu sei que precisamos nos conhecer melhor, por isso pensei que a gente podia sair para dançar hoje à noite. O que você acha?
Aquela situação era completamente absurda. Nós dois deitados na mesma cama, quase pelados e conversando. Comecei a ficar excitada, o que não era nada bom. Ele acariciou meu rosto e , como se tivesse lido meus pensamentos, falou:
- Vou tomar um banho frio. Está muito quente. Não quer vir junto?
Aquela pergunta fez meu coração disparar e uma corrente de eletricidade disparou por todo meu corpo. Aquele sorriso malicioso nos seus lábios. Eu tinha de resistir... Será?
- Está bem. Não vou forçar a situação. Fique a vontade, mas pense no meu convite...Em dançar... O outro convite também está de pé.
Ele se aproximou, deu um beijo muito doce no meu rosto e eu tive de me conter para não pular nos seus braços.
Levantou-se e foi tirando a única peça de roupa que cobria aquele corpo lindo e viril. Foi para o banheiro e ligou o chuveiro. Em alguns segundo a minha "usina nuclear" estava novamente prestes a entrar em colapso. Laura, o que ele vai pensar de você? Controle-se! Sabe do que mais? Controlar o quê? Estou louca por ele, nunca mais vou ter um homem como este na minha frente, não sou nenhuma menininha inocente. O que estou fazendo deitada aqui? Azar se nada der certo, se eu for sofrer mais tarde, se o mundo acabar... Exploda-se!
Levantei da cama e, ainda vacilante, cheguei até a porta do banheiro e fiquei espiando. Ele me viu.
- Venha! - disse ele me estendendo aquele braço magnífico.
Cheguei mais perto e ele me puxou para dentro da banheira, estilo romano, sobre a qual o chuveiro jorrava uma água deliciosamente gelada, e começou a me beijar. Suas mãos passaram a percorrer todo meu corpo e, sem pressa, foi tirando minha roupa íntima. Aí, perdi a noção de onde estava. Só sentia a presença daquele corpo rijo, forte, suas mãos em meus seios, que logo foram substituídas pelos lábios. Ah! Eu poderia morrer naquele momento. Ele me virou de costas e passou a me acariciar os seios e o ventre. Ondas de prazer, contrações... Eu nunca tinha sentido nada igual.
Ele continuava na ânsia de conhecer cada milímetro do meu corpo. De repente, ele me virou novamente e, me levantou pelas nádegas até o seu quadril, fazendo com que eu enlaçasse sua cintura com minhas pernas. Eu já estava completamente enlouquecida, quando o senti me penetrando, com força, quase selvagem. Um misto de dor e prazer foi tomando conta de mim. Agarrei-me em seu pescoço e passei a gemer, quase a gritar. As sensações que vieram depois são indescritíveis. Fomos ao orgasmo juntos. Perdi a noção de tudo. Depois disso, uma paz e um relaxamento tal foi tomando conta de mim, que fiquei com medo de cair. Mas, ele continuava me segurando. Foi afrouxando aos poucos aquele abraço e me colocando suavemente no chão. A água continuava correndo, como um bálsamo por nossos corpos exaustos. Então, ele me beijou. O beijo mais doce do mundo.
- Agora podemos tomar o nosso banho. Quer que eu passe o sabonete em você?
Depois daquele banho demorado, surgiu a dúvida de como eu ia vestida para a balada com ele.
- Querida, nós estamos em NY. Aqui nós podemos comprar o que quisermos, a hora que quisermos.
- Mas, eu tenho roupa apropriada... Só que em casa.
- E onde é a sua casa?
Aí, fiquei com vergonha de dizer que era no subúrbio e que eu levava pelo menos 30 minutos de metrô para chegar lá. Acho que ele sentiu que eu havia ficado sem jeito e disse que não tinha problema nenhum. Já estava decidido. Eu ia ganhar uma roupa nova para dançar!
Pegou o telefone e fez algumas ligações, enquanto eu preparava uma omelete para nós, pois estávamos famintos. Em menos de 30 minutos, recebemos a visita de uma jovem senhora, chamada Emmy, que tinha uma loja na 5ª Avenida. Ela levou uma mala com várias peças, sendo que uma delas era um vestido verde, maravilhoso, com um grande decote na frente, uma faixa mais larga na cintura e uma saia plissada, o que dava um movimento lindo ao vestido. Como era a peça mais cara, fiquei com vergonha de escolhê-lo. Novamente, ele leu meus pensamentos e resolveu que aquela era a roupa ideal para o que queríamos. Fui experimentar e ele caiu como uma luva em mim. Quando surgi na sala, Arthur deu um grande sorriso de aprovação. Logo dispensou a mulher, com um "gordo" cheque e voltou-se para mim.
- Laura, você está tão deslumbrante que já estou quase desistindo de sair - disse. Aproximou-se, foi me envolvendo com o seu abraço, aqueles olhos incendiados pelo desejo e começou a me beijar. Consegui afastá-lo, com alguma dificuldade, pois eu também já estava quase caindo em tentação e disse:
- Arthur, acho melhor a gente sair. Se continuarmos deste jeito, logo não vai sobrar nada de nós. Você mesmo tinha dito que precisávamos de um tempo para nos conhecer melhor, lembra? Além do mais, estou precisando sair e dar uma arejada. Desde que vim para esta cidade, não saí nenhuma vez. Acho que vai ser fascinante conhecer a noite de NY com você.
Já eram 23 horas quando ele parou o seu carro em frente ao night club "Gypsy Tea", na 33W. O manobrista abriu minha porta, ajudando-me a sair e logo em seguida pegou as chaves com Arthur . Passamos por uma enorme fila e chegamos à porta de entrada, onde um monstruoso e carrancudo porteiro vigiava a entrada. Ao ver meu acompanhante, abriu-se em gentilezas e nos fez entrar, para desespero da "massa" que ficou para trás. Lá dentro, a música vibrava em alto volume. A decoração era em tons de roxo e laranja, com muitos neons. Atordoante! Comecei a pensar se teria sido boa idéia vir até aqui para nos conhecermos melhor. Ali não era um local muito apropriado para se manter um diálogo íntimo. De qualquer forma, já havia reparado que Arthur adorava a noite. Havia me apaixonado por um noctívago como eu. Sempre adorei sair à noite e dançar até não agüentar mais. Nos últimos tempos, a busca por trabalho, amores frustrados e a ida para os EUA, tinham abafado este meu lado.
Logo, comecei a sentir um certo desconforto devido aos olhares invejosos para mim e de sedução para ele, principalmente das mulheres presentes. Fui em frente, como se não fosse comigo. Arthur também me pareceu um pouco acanhado com este clima. Mas, ia distribuindo cumprimentos e sorrisos para todos.
Eu não imaginava que ele era tão conhecido assim. Acho que só eu era o "bicho do mato".
Assim que sentamos e fazíamos os pedidos de duas Cocas bem geladas, duas mulheres muito maquiadas e bem arrumadas, praticamente se jogaram sobre a mesa, com sorrisos encantadores. Falaram algo no ouvido dele. Logo em seguida surgiram, Deus sabe de onde, guardanapos de papel e caneta, que imediatamente foram colocados na frente dele para que os autografassem. Parecia que eu era invisível. Elas tentavam seduzi-lo na minha frente. Que ódio!
Quando finalmente, depois de sermos "atacados" por mais quatro mulheres e dois homens (!), fomos para a pista de dança. Aí, senti que éramos só nós dois. Ele me olhava dentro dos olhos, de um jeito que me derretia toda. Sempre que a música permitia, ele dava um jeito de me enlaçar e colar-me junto ao seu corpo. Estava me divertindo muito.
Paramos um pouco, para descansar e beber um refrigerante, quando vi Roxane aproximando-se da nossa mesa. Logo atrás, vinham dois casais. Foram chegando e cumprimentando efusivamente. Notei que as mulheres me ignoraram e os homens quase me comeram com os olhos. Não gostei daquela sensação. Roxane se jogava sobre Arthur de forma exagerada. Quando dei por mim, eles estavam conversando animadamente, como se eu não estivesse ali. De repente, ouvi Roxane me apresentando para os demais, como a nova cozinheira do Mr. MacCain. Todos caíram na risada! Para mim, foi o estopim. Porque ele não havia nos apresentado? Será que estava com vergonha de mim? Senti as lágrimas brotando e resolvi sair dali. Não fugi, para não dar o gosto de fazer um escândalo. Saí andando em direção ao toalete feminino, sem olhar para trás. Antes de chegar lá, duas mãos me agarraram com firmeza e fui obrigada a encarar aqueles olhos verdes.
- Onde você vai? - me perguntou.
- Vou ao toalete, não está vendo?
- E estas lágrimas?
- Deve ser a fumaça de cigarro. Odeio cigarro! - disse eu, exatamente para magoá-lo, pois este era um vício do qual ele ainda não conseguira se libertar.
- Não seja boba! Venha aqui! Vou te apresentar ao pessoal.
- A Roxane já fez este favor. Não ouviu? Acho que está na hora de me retirar. Aliás, já deve ser domingo e estou iniciando a minha folga de domingo.
- Laura, não me faça perder a paciência. Já te falei que a Roxane não é boa de cabeça!
- Me parece que ela sabe muito bem como humilhar alguém - disse eu, fazendo força para engolir o choro e a vergonha que sentia naquele momento. Porque ele não me defendera daquela megera?
- Eu vou com você. Ainda temos muito que conversar.
Dizendo isto, ele me segurou gentilmente pelo braço e começou a caminhar em direção ao grupo de amigos. Entrei em pânico. Não queria ser exposta mais uma vez, nem ficar frente a frente com aquela Roxane. Mas, não tive como escapar.
- E aí, Arthur!! Vamos nos divertir então? - perguntou um dos homens.
- Infelizmente, não. Estamos um pouco cansados e vamos embora. Voltei aqui para corrigir uma grave falha minha, que foi não apresentar a minha noiva, a Srta Laura - disse ele com um sorriso. Notei um desconforto neles, mas principalmente na Roxane, que parecia ter engolido um sapo venenoso.
- Como assim, noiva? Você não nos falou nada antes! Que história é esta?
Comecei a recuperar o meu humor, minha auto-estima e a confiança naquele homem, por quem estava perdidamente apaixonada.
- Queríamos manter tudo em segredo. Sabe como é o nosso meio. Cheio de paparazzis e curiosos. Nos conhecemos quando estive no Brasil, no início deste ano, e ficamos muito apaixonados. Não é mesmo Laura?
- É mesmo, Arthur - falei com a cara mais feliz do mundo.
- Bem, pessoal, foi um prazer rever vocês, mas vamos aproveitar nossa noite de uma maneira mais interessante. Até mais! Vamos, meu amor.
Dizendo isto, passou seu braço direito sobre meus ombros, enquanto eu o abraçava na cintura, e saímos. Íntimamente, eu dava pulos de alegria, só de lembrar a cara da Roxane.
Deixamos o Gypsy Tea e, enquanto esperávamos o carro, não consegui parar de olhar para ele, aquele homem poderoso, que parecia um rei, tão lindo, elegante e gentil, que tinha, num instante, feito com que eu esquecesse de toda a vergonha pela qual tinha passado.
- Se não parar de me olhar deste jeito agora, vou ser obrigado a fazer amor com você aqui mesmo - falou, com aquele sorriso maroto de sempre.
- Arthur, eu não sei o que dizer ou fazer para te agradecer o que aconteceu lá dentro. Claro, que sei que a estória de noiva foi uma desculpa, mas você conseguiu me fazer muito feliz e confiante.
- Quem disse que aquilo foi estória? Eu nunca falei tão sério na minha vida. Aliás, eu nunca estive tão apaixonado.
Neste instante, o carro chegou. Ele abriu a porta para eu entrar e foi para o volante.
- Então, futura Mrs. MacCain, vamos para casa?
- Com certeza, meu amor!
Nos beijamos e partimos para mais uma noite de amor, das muitas que se seguiriam a partir daquela.
Hoje, faz um ano que estamos juntos. Já consigo conviver com os constantes avanços das fãs e de colegas de trabalho, dominando o ciúme. Sei que ele é meu e de ninguém mais. E como dizia o nosso poetinha: "Que seja eterno enquanto dure..."
FIM
Isto é que é amor-relâmpago, não? Já pensaram se fosse assim na vida real?... Que maravilha! Mas não acho que seja impossível. Difícil é achar alguém que nos cause esta paixão à primeira vista e que corresponda igualmente. Mas não custa sonhar...
Se alguma de vocês já tiver tido uma experiência semelhante, comente e conte. Quem sabe isto não dá um romance?
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