sexta-feira, 27 de julho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XV

by Kodama e Fantin

Encontrei-a no salão principal a minha espera. Dispensei Angus e me aproximei dela curioso para saber o que tinha a me dizer. Tão logo sentiu minha presença, ergueu a cabeça e me olhou altivamente. Ainda assim podia perceber o receio em seus olhos e um ligeiro tremor percorrendo seu corpo. Lutava contra a tentação de agarrá-la e fazê-la minha de uma vez por todas.
- Então... Queria falar comigo? Pensei que não me tolerasse e que não fosse querer me ver nunca mais a sós, depois do nosso último encontro na torre e de sua fuga inesperada.
Ela desviou o olhar e deu alguns passos para longe de mim.
- Fiquei assustada...
- Assustada? Ou arrependida?
- Eu não vim para falar sobre nosso último encontro, Kyle.
Ela realmente parecia perturbada.
- Então,  diga qual o motivo desta... "reunião"?
Tentei nova aproximação, mas ela esquivou-se mais uma vez.
Fiquei em silencio, aguardando sua  resposta.
- Estou preocupada com... esses ataques. Hoje eu pude ter uma ideia do que eles são capazes.  Nunca pensei que pudesse ter tanto medo.
Sua sinceridade me comoveu.
- Eles não tinham a intenção de matá-la; apenas assustá-la e deixá-la viva para me contar.
- E quanto a Dominic? Não fosse por Yesalel, ele teria morrido.
- Talvez eles soubessem que Dom teria ajuda. Tudo é possível.
Um novo mal estar me atingiu e ela, infelizmente, o percebeu mais uma vez.
- Há quanto tempo...  não se alimenta? – disse preocupada.
- Você me alimentou por último... Tem medo que eu tente me matar novamente? – respondi irritado.
- Você tem que estar preparado para enfrentar esses demônios...
- Por que quer me ajudar? Será a sua boa ação do dia? Tem medo que eu procure Leonora ou ... está com ciúmes de que eu procure outra mulher para me saciar? – Ela estremeceu e logo se mostrou indignada.
- Ciúmes? De onde tirou essa? Óbvio que não quero que procure Leonora para saciar seu apetite nem quero ver outra pobre humana sofrer em suas mãos... Mesmo sabendo que isso é algo involuntário de sua parte. – terminou por dizer, atenuando um pouco a força das palavras.
Não me contive e a cerquei.
- Até hoje não ouvi queixa de nenhuma das "pobres humanas ". Pelo contrário, elas pareceram bem satisfeitas. –  disse em tom baixo junto ao seu ouvido.
Observei sua respiração paralisar à minha proximidade.
- Não seja vulgar...
- Quer experimentar e julgar por si mesma?  – perguntei sarcástico.
Vê-la confusa e tímida atiçava ainda mais meu lado animal. Precisava saber até onde ela iria antes de se oferecer em "sacrifício".
Sua mão descansou sobre meu peito, pressionando-o, numa vã tentativa de me afastar, enquanto seus olhos fugiam dos meus. Um calor abrasador partiu daquele toque e espalhou-se por meu corpo.
- Por que insiste em ser desagradável?
- Foi apenas uma proposta. – declarei com  um falso sorriso.
- Por que continua com esse joguinho? Sei que você  não é assim.
Seu olhar direto me desarmou.
- Você não precisa se preocupar por mim. Vou continuar vivendo como sempre vivi até hoje. 
- Não existe outra maneira de conseguir o... sangue?
Soltei-a e me afastei cabisbaixo.
- No início, eu me recusei a matar para conseguir alimento, como Angus me orientara. Tentei beber sangue de animais, obtê-lo através de sangrias em humanos hipnotizados... Nada acalmava minha fome. Certa noite, pensei em sair a caça e matar um ser humano. Foi quando uma mulher surgiu, inexplicavelmente, aos portões do castelo. Convidada a entrar  por Angus, que viu nela minha primeira vítima, ficou a minha espera como se soubesse que poderia me servir. Ela era jovem e muito bela e, apesar de não querer, meus novos instintos me levaram a cortejá-la e seduzi-la. Durante o ato sexual, enquanto ela gozava, a mordi,  a despeito do receio de acabar com sua vida. No entanto,  percebi que ela não precisava morrer e que, depois de saciado, eu tinha o poder de cicatrizar suas feridas e fazê-la esquecer do momento final do ato. Apenas o prazer alcançado era mantido em sua memória e minha verdadeira natureza permanecia ignorada. 
Dei um sorriso de escárnio e  me virei para olhar sua expressão de nojo depois de meu relato. Porém, onde pensei que veria piedade e repulsa, encontrei conivência e ternura. Foi a vez dela se aproximar e tocar meu rosto.
 – Talvez tenha sido uma maneira que o Senhor encontrou para não cometer atrocidades através de seu anjo caído. – explicou.
Fechei os olhos, inebriado pelo carinho de seus dedos finos a contornar minha face.
- As primeiras rugas já estão aparecendo... Por que resiste tanto a minha ajuda? – continuou.
- Por que não é só o seu sangue que eu quero. – Abri os olhos e segurei seu queixo delicado. – Eu quero você por inteiro. – declarei antes de cobrir-lhe a boca com um beijo nada doce.
- O que pensa que está fazendo? – disse, quando nossos lábios se afastaram, com uma voz muito doce e fraca demais para parecer ser contra o que estava acontecendo. – Está usando algum tipo de controle mental sobre mim, Kyle?
- Nenhum tipo de controle, minha querida. Você está aqui por sua livre e espontânea vontade e eu vou  lhe mostrar como eu costumo saciar minha sede. Hoje não precisará cortar seu pulso.
- Não quero que me mostre nada, Kyle Sinclair ou Elyk, seja lá quem for! – esperneou ruborizada, tentando afastar-me sem a força que eu sabia que ela era capaz de ter se realmente tivesse a intenção de me manter longe.
- Então, diga que não me quer... – sussurrei em seu ouvido.
- Você ama Leonora... Por que está fazendo isso comigo? – disse em  tom  lacrimoso.
- Eu não amo Leonora... De onde tirou essa ideia? Se não quiser que eu continue,  não use outra fêmea como escudo. Basta dizer que me odeia e eu me afastarei para sempre.
Vi seus olhos dourados pousando sobre os meus, tornando mais difícil cumprir o que acabara de propor.
- Eu não odeio você...
Eu podia ouvir o descompasso acelerado de seu coração próximo à inércia do meu, quando seus braços envolveram  meu pescoço.
- Ariel... – Afundei naquele abraço tão esperado,  mergulhei o rosto entre os seus cabelos, aspirei seu perfume  e tive uma sensação de paz  há muito esquecida.
Voltei-me para beijar-lhe a boca e a vi de olhos fechados e lábios entreabertos, pronta para me receber.  Elevei-a do chão e senti seus braços apertarem-se ainda mais sobre mim.
- Acho que precisaremos de mais privacidade para continuar essa conversa...
- Aonde pensa que vai me levar? – perguntou com ar maroto.
Mal tive tempo de responder e nos materializamos em meus aposentos.
Diante da minha surpresa, ela falou ternamente:
- Você pensou... Eu apenas segui seu desejo... Além disso, não podemos demorar muito ou  logo ficará fraco demais.
- Ainda tenho tempo de sobra e força suficiente para não decepcioná-la...
- Assim espero...
O desejo explodiu entre nós. Enovelados um ao outro, caímos sobre a cama. Entre carinhos ansiosos, nossas vestes desapareceram. O mundo e tudo o que pudesse haver  ao nosso redor, deixou de existir. Ariel explorava meu corpo com volúpia e me permitia degustá-la ávido. Suas formas delicadas eram delineadas pelas palmas de minhas mãos enquanto, de sua boca, eu ouvia gemidos e suspiros deliciosos. O êxtase estava muito próximo, quando a senti estremecer e  regozijar-se entre meus braços. Vi suas fulgurantes asas se abrirem e não pude resistir mais. Penetrei-a profundamente e inundei-a com meu orgasmo. Senti as infames presas crescerem em minha boca e tive medo de assustá-la. No entanto, num ato de extrema confiança, ela jogou a cabeça para o lado, oferecendo sua jugular a minha sede. Não ouvi lamento, nem observei dor em sua face ao perfurar a pele alva e fina. Consternado, deliciei-me com a doçura de seu néctar até saciar minha infeliz necessidade. Quis me afastar, após lamber o ferimento que provocara,  mas fui detido por seu abraço.
- Eu o decepcionei?
- Não gostei de feri-la dessa maneira e imaginei que não me quisesse mais por perto.
- Você não me feriu... E não quero que se afaste... A não ser que não me queira mais, agora que está saciado.
Indignado com suas palavras, deitei-me sobre ela e pressionei seu corpo sob o meu, mostrando fisicamente que meu desejo por ela ainda não se extinguira.
- Ainda tem dúvidas?
- Nenhuma... – respondeu com um meio sorriso, enquanto me tocava, rijo entre suas coxas.
Não precisava de nenhuma outra sinalização para voltar a acariciá-la e tomá-la novamente. Dessa vez,  eu a possuiria com calma, estendendo o prazer ao máximo, saboreando cada ínfimo momento. Ali, ao seu lado, um sentimento muito forte renascia em mim e, apesar disso me assustar,  não o podia negar. Queria apenas viver mais uma vez o que um dia me fora negado.

(continua...)

Espero que tenham gostado do encontro entre a Ariel e o Kyle. Sei que o capítulo ficou mais curtinho, mas talvez tenha uma complementação mais tarde. Só não queria deixar de postar hoje, início do final de semana.  Um grande beijo para minhas comentaristas da semana, Nadja e Aline, e a todos que vieram ler a continuação desse romance.
Não posso deixar de comentar aqui, também, algo que está acontecendo há várias semanas e, falha minha, ainda não comentei. É sobre o empenho da Carolina Lopes, do Blog Cantinho da Carolina, que, desde o mes de Junho está promovendo o sorteio de livro O Corsário Apaixonado.  Quero aproveitar para convidar os leitores do blog que ainda não estão participando que corram ao Cantinho e participem (é só clicar na frase sublinhada, acima). O sorteio será no dia 4 de Agosto, portanto ainda dá tempo de concorrer. E mesmo que não ganhem, terá valido a pena conhecer o Cantinho da Carolina, que está sempre recheado de novidades literárias.O meu eterno agradecimento a essa querida blogueira e amiga.
Termino aqui a minha postagem semanal, enviando todo o meu carinho e o desejo de um ótimo fim de semana.
Beijos!! 



sábado, 21 de julho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XIV

by Kodama e Fantin

Estava pronta para acompanhar Dominic ao jornal, quando Nathanael surgiu com um chamado telepático.
- Ariel, o chefe quer falar com você.
- O quê? Agora? O que ele quer? Por que não entrou em contato direto comigo?
- Não sei lhe dizer. Parece ser importante.
- Fique de olho naqueles dois, por favor,  – falei referindo-me a Dominic e a Leonora.  – enquanto vou a Central dos Guardiões.
- Não! Ele quer vê-la nas colunas de Calton Hill.

Colunas de Calton Hill


Calton Hill era uma das colinas em pleno centro de Edimburgo, de onde se podia ter uma bela vista panorâmica da cidade. A acrópole ou as colunas, às quais Nathanael se referira, são na verdade um monumento inacabado - originalmente chamado de "Monumento Nacional". Iniciado em 1816, um ano após a derrota de Napoleão em Waterloo, ele foi concebido para ser uma réplica do Parthenon, em Atenas, como um memorial para aqueles que morreram nas Guerras Napoleônicas. O que será que Samuel queria falar comigo para escolher um local tão inusitado, quando tínhamos locais mais reservados em nossa própria dimensão? Intrigada, me despedi de Dominic. Havia se passado mais de uma semana da viagem à Praga e nenhum outro imprevisto ocorrera até então. Aparentemente Damian e Kyle estavam unidos e atentos em relação à segurança de Dominic e de Leonora, mas mesmo assim eu ainda me preocupava, pois sabia que o outro lado não desistiria tão fácil de uma empreitada que já durava quase mil anos. Além de tudo isso, outra apreensão tirava meu sossego. Alimentar Kyle. Desde nosso último encontro no jardim de Cathella, não havíamos ficado a sós novamente. Sabia que mais cedo ou mais tarde ele começaria a sofrer com a falta de alimento e, só de pensar que ele teria que seduzir uma mulher para conseguir sangue, minhas vísceras ameaçavam enovelar-se. Já andava zonza de tanto pensar em como poderia oferecer-me como "refeição", sem parecer oferecida ou... Apaixonada... Seria isso? Teria Samuel descoberto meus sentimentos por Kyle e queria me repreender? Antes que ele me fizesse qualquer censura, eu inverteria o jogo. Ele escondia alguma coisa e eu precisava saber o que era. Talvez eu conseguisse espremer o meu velho chefe e esclarecer um pouco do mistério que girava em torno da história de Kyle.
As imensas colunas surgiram a minha frente, impávidas contra o tempo, erguendo seu olhar sobre a capital da Escócia. A vista impressionante era admirada por uns poucos turistas  naquele  momento. Os minutos se passavam e eu a espera de um chamado ou de uma discreta aparição do meu superior. Quando tentei entrar em contato com Samuel, estranhamente, não consegui. O mesmo aconteceu quando tentei me desmaterializar e ir até a sede dos Guardiões para tirar satisfações. Era como se um campo de força impedisse meu deslocamento ou o de minhas ondas cerebrais. Só então percebi que aquilo poderia ser uma espécie de armadilha. Repentinamente, uma nuvem escura cobriu a área de Calton Hill. Não havia mais sinal algum de humanos, até que uma sombra escura tomou forma cerca de uns duzentos metros de distancia de onde eu estava. Logo, outra sombra a seguia... E outra, e mais outra... As sombras começaram a tomar forma. A pior forma possível. Agora não tinha mais dúvidas sobre quem armara aquilo. Eles pareciam pertencer à minha espécie, porém suas asas eram negras e pequenos chifres apontavam entre os cabelos negros e desgrenhados. À medida que se aproximavam  pude ver melhor seus rostos e expressões. Uma sensação de medo insano tomou conta de meu ser quando notei as presas brancas sobressaindo-se de suas bocas. Eram vampiros!!
Queria correr, gritar, mas não conseguia. O pânico tomava conta de mim. Sentia como se estivesse presa a uma teia, pronta para ser massacrada e incapaz de fugir. Abri minhas asas e cobri meu corpo com elas. Fechei os olhos e esperei. Esperei pelo fim...





Combinara com Elliot, meu editor no Tribune, a entrega das laudas da minha última reportagem semanal a respeito de Sinclair. Estava atrasado e meu chefe estava indignado, pois o artigo deveria ser publicado no dia seguinte. Apesar de tudo que estava acontecendo eu tinha um compromisso com o jornal, além de esse ser o meu ganha-pão. Elliot estava plenamente satisfeito com meu trabalho e  isso já me garantira um emprego fixo naquele jornal.
Leonora já tinha saído para ir à aula. Terminei de tomar meu café e saí para pegar minha scooter no pátio interno do nosso prédio. Mal saíra do beco e acelerava para me dirigir ao centro quando um homem bem vestido surgiu a minha frente obrigando-me a dar uma tremenda freada. Por pouco não perco o controle da motocicleta e vou de encontro ao  muro na lateral da rua. Para meu espanto, o desgraçado sorria. Parecia achar graça de quase ter sido atropelado.
- Bela moto, meu jovem! – Saudou-me o estranho de feições exóticas e sotaque provavelmente originário dos Balcãs, pois lembrava muito o modo de falar de um amigo albanês.  –  E que freios, não?
- O senhor está bem?
- Estou ótimo! – respondeu encarando-me com aquele sorriso fake no rosto anguloso.
- O senhor me perdoe. Estou com pressa. Não devia estar correndo tanto...
- Siga em frente... Por favor...
Dizendo isso, saiu lentamente da frente da scooter,  sempre me olhando. Aquela presença parecia exalar um mau agouro, por isso dei um aceno com a cabeça e acelerei para longe do homem.
Como se estivesse sendo acompanhado por uma sombra, aquele sorriso diabólico não deixava minha mente. Por duas vezes, no percurso, esses pensamentos me distraíram  e, por um triz, não  me jogaram contra os automóveis  que trafegavam a minha volta.
Quando entrei na The Moud,  a avenida que liga o Centro Histórico ao novo centro, precisei frear um pouco devido ao aclive presente. Entretanto o freio não respondeu e a moto continuou acelerando, caindo rapidamente na direção da movimentada Princes Street . Por uma fração de segundos vi o meu fim na porta de um grande caminhão de uma rede de lojas da cidade que atravessava exatamente naquela hora a rua logo abaixo. Apertando desesperadamente o freio, sem resposta alguma, fechei os olhos e pensei em Yesalel. Senti meu corpo voar  e ouvi o som do choque de ferragens ao longe. Logo veio a sensação da queda. Uma queda estranhamente lenta e que acabou amortecida  por algo macio em minhas costas. Tive medo de abrir os olhos e verificar que morrera. Porém, as vozes começaram a surgir a minha volta, preocupadas, curiosas e surpresas.
- Você está bem?
- É um milagre!
- Olhem só o estado em que ficou a scooter!
Certo de que no céu não ouviria esse tipo de comentários, elevei as pálpebras lentamente e vi uma dezena de rostos os mais variados pairando sobre mim.
- Alguém chamou a ambulância?
- Não é preciso... – falei, fazendo um pouco de esforço para me levantar do solo gramado onde caira. Aos poucos fui verificando que não tinha nada quebrado ou ferido.
- A polícia já está aí! – gritou alguém.
- Está bem, filho? – perguntou a voz conhecida. Vi o belo e preocupado rosto de Yesalel.
- Yesalel? O que está fazendo aqui?
- Ouvi o seu chamado e consegui chegar a tempo...
Afinal, descobri que era bom ter um anjo como namorada.
- É melhor que a ambulância chegue logo! Ele está delirando! – gritou alguém.




Por que eu não conseguia controlar aquele desejo insano? Só podia ser a fome mais uma vez a me atormentar.  Ariel conseguira aquecer meu coração morto e sua simples presença me provocava sensações semelhantes as que eu tivera com Cathella. Sentimentos que eu considerava extintos para sempre, voltavam a me atordoar e a me fazer desejar alguém novamente. A atração física era evidente entre nós. Inegavelmente seu corpo reagia ao meu...  Podia sentir seu desejo aflorar a cada encontro,  mas isso não significava a possibilidade de qualquer outro tipo de sentimento...
- Senhor... – Era a voz de Angus a me fazer voltar à realidade dentro de meu gabinete em Malachy.
- O que foi?
- Os demônios estão de volta, senhor?
- Por que pergunta, Angus?
- Por que sinto a presença deles rondando o castelo mais uma vez.
- Você está certo... Eles estão de volta.
- Se eu puder ajudá-lo, senhor, pode contar comigo.
- Muito obrigado, Angus. Você tem sido um amigo fiel ao longo desses penosos anos.
- Tenho uma dívida com o senhor.
- Você sabe que não há dívida alguma e que é livre para fazer o que quiser.
- O senhor é muito generoso...
Nesse instante, o telefone tocou.
Angus rapidamente atendeu a extensão que havia ao lado da entrada do jardim. Depois de algumas poucas palavras,  me chamou.
- É o senhor Damian.
Preocupado, corri para atendê-lo.
- Acho que eles atacaram  novamente, El... Kyle.
- Leonora?!
- Não. Dominic. Graças a Yesalel, ele foi salvo da morte.
- Onde ele está?
- Num serviço de emergência. Estou aqui com ele.
- Me dê o endereço que estou indo para aí. 
- Melhor não. Ele está bem agora.
- Mas como aconteceu?
- Ele perdeu os freios enquanto andava em sua moto... Ele já está sendo liberado pelo médico. Vou levá-lo para casa agora. Encontre-nos lá.
Os acidentes tinham recomeçado. Era sempre assim. Que falta de imaginação!
Segui para o apartamento dos MacTrevor. 




- Kolchak! Foi ele! A descrição do homem que o abordou corresponde exatamente a dele.
Se eu tivesse a minha espada... Se eu ainda fosse um ... – pensei alto. O gosto amargo da maldição que me foi imputada me fez calar.
Dessa vez Dominic saíra ileso. Sabia que aquele tinha sido apenas mais um sinal. O prazo ainda não terminara. Mesmo que eu acabasse com a existência de Kolchak certamente seu mestre enviaria outro de seus comandados para continuar me ameaçando. O que eu não conseguia entender era o porquê de tal insistência. Por que eu? Já demonstrara inúmeras vezes que não aceitaria me unir aquele bando de demônios. Mesmo depois de tudo que eu sofrera por causa de minha sina imposta pelo Divino, não poderia encarar o Outro Lado com bons olhos. Jamais poderia seguir ordens que pudessem prejudicar a vida humana além do que já ocorria. Era visível o avanço do Mal sobre a humanidade a cada ano. Não seria eu um auxiliar para aquele bando de demônios rancorosos conseguirem dominar os homens completamente.
Ariel apareceu com seus grandes olhos aflitos junto a Dominic. Ela parecia apavorada.
Ao vê-la, pude sentir que Damian controlou-se para não esbravejar e pedir uma explicação para sua ausência junto ao filho, devido a presença de Leonora na sala, mas seu olhar inquisidor foi suficiente para fazê-la corar. Protetoramente, coloquei-me ao seu lado.
- Ela não tem culpa, pai...
- Culpa de que? Eu não tenho nada a ver com isso!  - saltou Leonora ao ouvir a afirmação de Dominic, pensando que ele se referira a ela.
- Ele não está falando de você, querida. – tranquilizou-a o pai.
- Então, de quem ele está falando?
- Da minha mecânica. –  respondeu.
- Desde quando você leva a moto para uma mulher  consertar? – perguntou  maliciosa.
- Acho melhor você ir fazer as suas coisas, Leonora. Eu estou bem. Por favor... Deixe-nos a sós. – impacientou-se Dominic.
Assim que Leonora deu as costas, após um muxoxo,  percebi que Ariel tremia.
- O que aconteceu, Ariel? – perguntei abraçando-a e, felizmente, não sendo rechaçado.
- Eles me atacaram... – disse ela balbuciando, como se estivesse sob o efeito de uma droga.
- Quem?
- Vampiros... Eles surgiram em bando... Quando pensei que estava tudo acabado... Eles desapareceram como por encanto. – continuava falando reticente e com olhar vítreo.
- Como?? – perguntei surpreso.
Só então ela me olhou e pareceu voltar à lucidez, pois me empurrou assustada. Apesar dessa reação, segurei-a e exigi que ela explicasse o que acontecera. Ela começou a chorar e acabou por afundar a cabeça em meu peito,  parecendo exausta e perdida. De repente, levantou a cabeça e olhou ao seu redor.
- Por que estão todos aqui? O que aconteceu? – indagou, olhando na direção de Dominic.
- Primeiro, conte o que houve com você.  Por que deixou Dominic sozinho? – Quis saber Damian.
- Nathanael disse que nosso superior, Samuel, queria falar comigo. Achei estranho, principalmente ao saber o local que ele escolhera para esse encontro...
- E o que aconteceu? – perguntei.
- Fui até Calton Hill e esperei que ele aparecesse.  – Sua voz era tremula. – Foi quando aqueles demônios surgiram do nada. Por um momento,  pensei ter visto um grande clarão, como se um raio tivesse cortado os céus... Mas, como estava de olhos fechados, pode ter sido apenas minha imaginação. Então, eles desapareceram da mesma forma que haviam surgido.
- O que acha disso, Kyle? – quis saber Damian.
- Acho que foi mais um aviso. – respondi.
- Mas por que eu fui o alvo dessa vez? – perguntou Ariel confusa.
- Não foi você... Foi Dominic. – afirmei.
- O quê? Dom foi atacado?
- Sim... Era para parecer um acidente de moto, provocado por uma falha nos freios.
- E...?
- O tal Kolchak falou comigo antes do acidente, fazendo-se passar por um pedestre distraído. Yesalel surgiu no último momento e me salvou... – completou Dominic, que até então permanecera calado. – Alguém armou para afastá-la de mi, Ariel.
- Nathanael? Não pode ser... – disse ela pesarosa.
- Ele anda meio estranho ultimamente. Você mesma reclamou que ele tem se afastado de Leonora com muita frequência. – lembrou Dominic.
- Ele pode ter sido enganado também... – defendeu Ariel.
- O importante é que nada de ruim aconteceu a qualquer um de vocês dois. – proferiu Damian.
- Tem de haver uma maneira de acabar com isso de uma vez por todas. – disse irritado.
Já cansara dos ardis  que aquele maldito lançava mão para  obrigar meu recrutamento em seu exército. Ameaçar Ariel com vampiros! Tentar matar Dominic! Nunca antes ele fora tão incisivo. O que havia de diferente dos séculos anteriores?
- Que eu saiba existe um prazo para acabar com tudo isso e ele se encerra em duas semanas. É certo? – Damian tentava  racionalizar o que não tinha razão.
- Sim... – respondi. – Se é que podermos confiar na palavra de Kolchak.
- Então... Temos apenas que resistir mais um pouco e ficarmos atentos às armadilhas. Pode ser que tenhamos um traidor próximo a nós...
Senti uma leve tontura,  que tentei esconder dos demais. Ariel me olhou como se tivesse percebido alguma coisa.
- Preciso ir agora. – Não queria que mais alguém percebesse minha infame necessidade.
- Eu também tenho um assunto importante para tratar. -  disse Damian.
- E Leonora?  - perguntei. Senti Ariel retesar os músculos e fiquei curioso com tal reação.
- Farei com que fique em casa.  Também ficarei de olho em Nathanael  – Damian olhou ao redor. –  que, por sinal, está novamente desaparecido.
 - Posso ficar aqui, com Dom? – A voz de Yesalel surgiu muito timidamente de um canto da sala fazendo que todos se virassem para ela.
- Depois do que aconteceu hoje,  por mim, você não sai do lado de Dominic nunca mais. – Assim que formulou tal desejo, Damian olhou para Ariel. – Espero que não se chateie com minhas palavras,  Ariel. Todos nós sabemos quem estamos enfrentando e que quanto mais ajuda nós tivermos, melhor.
- Eu entendo...
Soltei Ariel. Pensei ter notado certa relutância da parte dela.
- Preciso conversar com você. – Ela sussurrou para mim quando segurou meu braço, retardando meu afastamento.
- Há mais alguma coisa que tenha acontecido e não quis dizer?
- Não... Não é sobre... Isto é... – Então ela conseguiu me encarar  e dizer o que a preocupava. – É sobre você. Sei que está... precisando de ajuda.
- Vou para Malachy... Quer ir junto?
- Eu o encontro lá. – convidou-se,  lindamente tímida.
Imbecilmente, quase senti meu coração inerte disparar com a iminência de nosso encontro. Parti  logo depois de ver Ariel desmaterializando-se.


(continua...)



Finalmente, depois de três infindáveis semanas, consegui voltar a escrever a continuação de nosso romance. Graças a Deus e aos bons fluídos emitidos pelos amigos, a situação de minha mãe estabilizou-se e ela se encontra em franca recuperação. Ainda há muito trabalho pela frente, mas o astral encontra-se mais elevado e confiante. Gostaria de agradecer por todas as palavras gentis e de consolo que recebi de todas as formas e que, sem dúvida, foram fortes motivadores para manter a esperança de que tudo iria melhorar e seguir em frente. Muito obrigada pelo carinho das minhas comentaristas amadas: Dioceli, Rapha, Aline ( a minha querida co-autora), Léia, Lucy e Nadja. Amo voces!
Esperamos voltar ao ritmo de postagem de antes e poder contar, sem longos intervalos, a história do nosso vampiro escocês.
Apesar de já ter passado da meia noite, ainda dá tempo de desejar um FELIZ DIA DO AMIGO a todos os frequentadores desse blog.
Todo o meu amor para voces!
Beijos!!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ausência

Oi, meus amigos queridos e leitores do blog,
Venho hoje aqui, pois me sinto na obrigação de dar uma satisfação a respeito da minha ausência e falta nas postagens do atual romance. Como já havia dito anteriormente, estou com alguns sérios problemas de saúde em minha família. O familiar é a minha mãe e, como responsável, tenho estado muito ocupada em seu tratamento e nas complicações, devido a sua  idade avançada, que tem ocorrido ultimamente. Sei que entenderão meus motivos e gostaria que soubessem que tenho sentido uma grande falta de escrever e dar continuação a esse romance que iniciei em conjunto com a minha querida Aline Kodama. Gostaria também de agradecer às amigas que, sabendo das minhas dificuldades, enviaram seu carinho e suas orações. Muitíssimo obrigada!
Espero que tudo se resolva em breve, da melhor e mais feliz maneira possível, e que eu possa retornar e dar continuidade a história do Kyle e da Ariel.
Um grande beijo a todos!


domingo, 24 de junho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XIII

by Kodama e Fantin

Sentia-me estranhamente nervoso, provavelmente pelo encontro inusitado com meu antigo amigo e companheiro de incontáveis batalhas. Perguntava-me o que teria feito ele para ser expulso da dimensão superior. A última vez que o vi foi no dia da morte de Cath. Depois de minha maldição, nunca mais havia visto qualquer um dos nossos guerreiros...
Ouvi a porta da catedral ranger nas velhas dobradiças. Junto ao magnífico órgão, onde já tivera a oportunidade de ouvir vários concertos de música celta, permaneci sentado, aguardando Damian.
Estranhava a falta de Ariel, que forjara aquele encontro.  Ela parecia realmente empenhada em ajudar os MacTrevor. Gostaria de pensar que seu interesse não fosse apenas pelos irmãos, mas não podia me dar esse luxo. Eu precisava tirá-la de minha cabeça. Talvez eu devesse procurar um bom analista nesse século para analisar essa minha tendência para me apaixonar por mulheres impossíveis. Quase consegui rir desse pensamento quando percebi alguém sentar-se ao  meu lado. Não precisei olhar para certificar-me sobre a identidade do visitante. Ele continuou sem dizer palavra alguma. Sua ansiedade era quase tão palpável quanto a minha.  Decidi tomar a iniciativa e romper o silêncio.
- É uma pena termos que nos encontrar aqui, pois acho que ambos estamos precisando de uma bebida bem forte.
- Tornou-se sarcástico ao longo dos séculos? – perguntou sem sorrir.
- E você virou um pregador aborrecido?
Era visível a irritação de Damian.
- É melhor irmos direto ao assunto. Dependendo do rumo dessa conversa, poderemos relembrar os velhos tempos ou ... – aspirou o ar frio e exalou a amarga ameaça  – ... Posso te matar.
- Aborrecido e violento... Bem, pelo menos isso não mudou muito... – ironizei, quebrando a tensão imposta por ele. – Não vai precisar me matar, Damian.  Sei que o faria sem pestanejar. Se tivesse motivos. – disse, virando-me de frente para ele e encarando-o sem qualquer sinal de sarcasmo. – Eu jamais faria mal a seus filhos, principalmente à Leonora.
Damian levou alguns instantes para falar.  Certamente tentava digerir a ideia de estar conversando com um vampiro, que tinha sido seu amigo, e ponderando sobre a possibilidade confiar nele ou não.
- Ariel tentou me tranquilizar quanto a isso...
- Ora, isso é uma surpresa... – paralisei a fala ao notar uma lágrima deslizar solitária na face do pastor.
Seguiu-se um suspiro entristecido.
- Pelos Céus, Elyk! O que Ele fez a você? Por quê?
- É a pergunta que me fiz por algumas centenas de anos, mas que agora já não tem mais importância.
Damian sufocou a dor em seu peito e olhou para cima, na direção da abóboda feita de arcos perfeitos e continuou.
- Eu não pude suportar ou aceitar a sua punição e pedi para ser exilado e servir na Terra. Ele acabou cedendo ao meu pedido, certamente por entender que eu não poderia mais corresponder às Suas expectativas como guerreiro celestial.  Assim, tornei-me um anjo caído, pouco tempo depois da sua expulsão.
- Por que não me procurou? – perguntei comovido.
- Tinha medo do que encontraria. Medo de ter que destruí-lo. Por isso abandonei a Escócia e passei a percorrer o mundo, procurando entender os homens, seus conceitos e conhecer o livre-arbítrio humano. Caí em pecado e cometi crimes incontáveis durante um longo tempo. Poderia ter sucumbido nessa busca não fosse minha estrutura angélica. Participei das Cruzadas, das obras jesuíticas no Novo Mundo e trabalhei na resistência contra os nazistas na Grande Guerra. Amei muito, mas  sofri em igual intensidade,  a cada amada que via envelhecer e morrer em meus braços, ao ver meus filhos e netos perecerem da mesma forma... – Nesse momento sua voz embargou, mas logo voltou a narrar sua jornada. – Com a alma apaziguada, retornei a Escócia. Acompanhei sua trajetória como banqueiro, as notícias de suas falsas  mortes e seus ressurgimentos  como jovem herdeiro.  Conheci a mãe de meus filhos e me apaixonei mais uma vez. Alicia era descendente do clã MacTrevor para onde levamos os sobreviventes da chacina naquele dia infeliz. Quando Leonora nasceu foi uma grande alegria, mas à medida que ela crescia, meus temores me atormentavam. A cada dia ela mais se parecia com a sua Cathella, fosse por  uma armação genética ou  desígnio divino.  Passei a temer que ela o encontrasse. O destino encarregou Dominic de fazer isso tornar-se realidade.
- Às vezes tenho a sensação de fazer parte de um grande jogo... – pensei alto, mas logo voltei à lógica. – Ariel lhe contou a situação em que nos encontramos?
- Sim. O que podemos fazer?
- Kolchak me deu um prazo que expira em exatos vinte e cinco dias. Entretanto, conhecendo-o como conheço, tenho certeza que ele tentará dar mostras do seu poder antes desse prazo para forçar minha definição. Temos que ficar atentos. É um alívio saber que você estará por perto. Temo que Ariel não tenha poder suficiente para proteger Dominic e muito menos Nathanael, aquele anjo que mais parece saído de  uma propaganda de Natal, para proteger Leonora.
- Então,  temos uma aliança? – indagou Damian estendendo-me a mão.
- É um prazer ter você de volta ao meu  lado, Damian. – respondi agarrando firmemente a mão estendida.
- Igualmente, Elyk. – comemorou devolvendo o aperto com força, como nos velhos tempos.



- Por que não vai esfriar a cabeça em um dos jardins de repouso dos Guardiões? – perguntou Dominic, angustiado com a minha agitação. 
Se arrependimento matasse, eu estaria morta e, pior, sem saber como tinha sido a conversa entre aqueles dois. Só esperava que eles não decidissem resolver diferenças ao velho estilo dos guerreiros. De repente, a sugestão de Dominic me pareceu atraente... Porém, o jardim em que pensei não era exatamente aquele para onde ele estava me mandando.
- Tem certeza que ficarão bem? – perguntei enquanto dava uma espiada em Leonora, que dormia feito um querubim, em sua cama, depois do forte sedativo que lhe foi dado por Dominic. Desde o ataque que sofrera, não tinha conseguido pregar o olho.
- Vá esfriar a cabeça e volte depois. O Nathanael está aqui conosco... Está? – interrogou em voz alta com a intenção de certificar-se de sua afirmação.
- Estou! – exclamou Nathanael irritado, da cabeceira de Leonora.
- Bem... Já que é assim, com licença. Fui!
Materializei-me entre as  urzes perfumadas do jardim de inverno em Malachy. Desde a primeira vez em que estivera ali, senti uma atração irresistível por aquele lugar. Talvez o motivo fosse o amor que estivera envolvido na construção daquele santuário. Eu podia senti-lo em cada pedra, em cada grão de terra e em cada raiz plantada. Quase sentia inveja da mulher que inspirara Kyle a construir algo tão belo e delicado.
- A invasora de propriedade privada voltou a atacar ...
Tive um sobressalto ao ouvir a voz grave e cálida de Kyle. Voltei-me e o vi de pé, com os  braços cruzados sobre o peito, relaxadamente apoiado no umbral da porta, com aquele sorriso de escárnio costumeiro.  Irritada por ter sido pega de surpresa, mais uma vez, engoli em seco e fiz o meu pedido de desculpas esfarrapadas.
- Sinto muito ter invadido o seu santuário, mas ele me impressionou muito na última vez que estive aqui. Eu estava ansiosa para saber o resultado do seu encontro com Damian, por isso vim para cá para ficar a sua espera. Já estou de saída. Podemos conversar outra hora, em outro local.
No instante em que procurava encontrar organização mental para a desmaterialização, Kyle me alcançou num simples passo e me segurou pelo braço. A organização foi para o espaço.
- Não quero que vá embora! – exclamou assustando-me. – Fique... Por favor. Você combina com esse jardim ... Gosto de vê-la aqui.
Senti meu coração bombear tão rápido que pensei que ele poderia ouvir as batidas alucinadas que desencadeara.
- Não devia ter vindo aqui – disse, desviando do seu olhar que insistia em focar-me.
- Me alegra que alguma coisa nesse castelo a emocione... – disse em um tom de voz mais baixo.
Sua mão abrandou a força sobre meu braço e seus dedos deslizaram em minha pele, provocando um arrepio, que foi impossível de não ser notado por ele. Tão logo isso ocorreu, Kyle retirou a mão abruptamente  e baixou os olhos.
- Sinto que lhe cause tamanha repulsa...
- O quê? Não... Não sinto repulsa por você... – Eu precisava desesperadamente travar  minha língua nesse momento, mas... – Pelo contrário.
Os olhos verdes pousaram sobre mim novamente, com curiosidade.
- Pelo contrário?
- Sim... Quer dizer... Eu não lhe quero mal... Você já provou que eu estava errada pensando mal de você, isto é... – Eu não conseguia encontrar uma explicação razoável para o que eu acabara de dizer. E ele se aproximou um pouco mais, a ponto de eu sentir o seu cheiro... Aquele cheiro que me inebriava.
- Por que se arrepiou quando a toquei?
- Talvez esteja um pouco frio aqui...
- Os anjos não tem problemas com a temperatura externa. Esquece que fui um anjo?
Agora ele estava tão próximo que era possível sentir sua respiração em minha testa. Em meus olhos... Na ponta de meu nariz... Sobre meus lábios... Oh, Santos Terrestres... O que ele estava fazendo? Foi o último pensamento que consegui eliminar. Sua boca tomou a minha com tal  ternura que  paralisou qualquer reação de recuo. Ele saboreava minha boca como se eu fosse o mais doce dos néctares. Senti sua respiração acelerar e logo os braços fortes me envolveram e forçaram nossa união. Independentes de minha vontade, minhas mãos subiram lentas e tremulas pelo seu corpo, até alcançarem suas espáduas, quando o imitei puxando-o ainda mais contra meu peito, como se isso fosse possível. O beijo tornou-se mais intenso. Sua língua torturava a minha, acarinhando, sugando, misturando-se em mim. Perdi a noção de tempo e espaço, suspirei e tive uma sensação de dèjá vu, o que era totalmente sem sentido, pois eu nunca fora beijada daquela maneira por anjo ou homem algum. Então suas mãos ganharam vida sobre meu corpo, pressionando, palpando, moldando... Oh... Aquele era o verdadeiro paraíso...  Sua boca abandonou finalmente a minha deixando um vazio momentâneo, que logo foi preenchido pelos beijos suaves em meu rosto, descendo por meu colo... Seus dedos trabalhavam disseminando prazer, descendo a alça de minha veste... Ofeguei quando a língua ágil brincou em meus seios. Ouvi o seu gemido e sua voz rouca me chamando ao longe... Ariel... Estranho nome...
- Elyk... – gemi, respondendo.
Com a sensação de estar caindo no vácuo e um frio de morte avançando sobre minha alma, Kyle se afastou.
-  A sua voz... Por que me chamou de Elyk?
A pergunta me arrancou definitivamente da onda de volúpia em que me encontrava.
Assustada com minhas emoções e incerta sobre o rumo a tomar, fugi do jardim que ele erguera para Cathella e de seus braços, envergonhada por imaginar que ele, um dia, talvez  pudesse me amar como a ela.

(continua...)

Mais uma vez peço desculpas pelo atraso na postagem, mas há cerca de dez dias estou enfrentando problemas de saúde na família e isso tem me tomado bastante tempo, além de roubar um bocado da inspiração que preciso para escrever.
Um beijo grande para as nossas queridas comentaristas (Nadja, Vanessa e Dioceli) da  semana, incluindo a Cacá, que comentou em uma das minhas primeiras postagens, Um Amor na Montanhas, e as boas-vindas aos novos seguidores, que agora enfeitam a barra lateral do blog com seus rostos e me deixam muito feliz por saber que a sementinha que plantei há tres anos continua florescendo.
Um abraço muito afetuoso e beijos para todos!
Até a próxima postagem!






sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XII

by Kodama e Fantin


O ensolarado dia seguinte ao baile parecia ter sido encomendado especialmente para fazer os sobreviventes esquecerem o que acontecera à noite. Sentindo-se responsável pelo ataque que Leonora sofrera, Kyle encerrou seus compromissos sociais e profissionais mais cedo e levou-a, juntamente comigo, para um passeio a pé pela cidade antiga de Praga, o bairro Malá Strana, onde tivemos a oportunidade de conhecer o castelo de Hradcany, entre outros belíssimos pontos turísticos. Era evidente o desconsolo de minha irmã, que apenas em raros momentos mostrara um tênue sorriso. Eu ainda estava preocupado com o que Ariel ficara de me contar a respeito de Kyle, mas que, após os acontecimentos atordoantes do baile, acabou por protelar. Por sinal, ela estava com uma cara horrível desde o início daquela manhã. Ao perguntar a causa, me arrependi instantaneamente, tal o mau humor  que acompanhou a resposta.
- Estou ótima! – grunhiu.
Era  óbvio que alguma coisa estava acontecendo entre ela e Kyle. No entanto, certamente eu teria que esperar que minha amiga de asas recuperasse seu bom humor e pudesse me esclarecer tudo.
Ao fim do passeio, após o almoço em um agradável bistrô no centro histórico, quando retornamos ao hotel, Kyle revelou que antecipara nosso retorno para o final da tarde e pediu que nos preparássemos. Deu como desculpa alguns problemas em seus negócios a resolver em Edimburgo, mas eu sabia que a real causa era o infeliz incidente da noite anterior. Notei o quão preocupado ele ficara. Diversas vezes, durante a manhã, o percebera olhando de maneira preocupada, ora para Leonora ora para mim.
Deixei minha irmã em seu quarto, atarefada em arrumar as malas e – surpresa! - sem reclamar. Ariel sumira desde o início do almoço, mas assim que fechei a porta de minha suíte, ouvi sua voz.
- Precisamos conversar, Dom.
- Já não era sem tempo. Desde ontem que você está muito estranha... O que está acontecendo?
- Eu nem sei como começar...
- É tão ruim assim?
- Descobri que Kyle é uma espécie de anjo caído.
- O quê? Uma espécie...?
- Ele foi amaldiçoado por Deus a viver na Terra como um ser das sombras.
- Ser das sombras...? O que quer dizer com isso, Ariel?
- ... Kyle é um vampiro.
- Como? – minha voz estava embargada com o susto.
- É uma história longa... Por punição divina ele foi condenado a viver na Terra como um vampiro, seduzindo e alimentando-se de mulheres para sobreviver.
Já tinha ouvido histórias a respeito desses seres, mas saber que conhecia um de verdade... Imediatamente pensei em Leonora e um arrepio me percorreu ao imaginar se ela não corria perigo. Tentei afastar esse pensamento terrível... Kyle não seria capaz...
- E por que ele foi punido? O que ele fez?
- Apaixonou-se por uma mulher.
- Só isso?
- Também achei algo extremo, mas não podemos julgar os atos Dele.
Meus pensamentos de aflição logo se transferiram para outra pessoa.
- Está pensando em Yesalel? – perguntou ao ver minha expressão.
- Sim. Certamente Ele sabe do que acontece entre nós, tanto que a proibiu de continuar como minha protetora.
- Talvez Ele tenha se tornado mais tolerante...
- E o que mais a preocupa? Não acredito que Kyle possa nos machucar... Acha que Leonora corre algum risco?
- Aí é que está... Leonora, segundo ele, é igual à mulher por quem era apaixonado. Entretanto, não creio que ela corra risco algum. Ele gosta de vocês e não quer que nada de mal lhes aconteça. Ontem ele tentou  provar isso.
- Como assim? – perguntei mais aliviado com a opinião de Ariel, que ia de encontro a minha intuição.
- Kyle tentou se destruir ontem à noite. Deixou de se alimentar e pretendia morrer, deixando você como seu único herdeiro. 
- O que você está dizendo? Mas porque ele tentou fazer isso?
- O Filho das Trevas quer que Kyle se torne um deles. Há séculos tenta levá-lo para o lado do Mal e costuma ameaçar  pessoas com quem ele tenha algum envolvimento afetivo para forçá-lo. Até agora não teve êxito, mas parece  que o miserável encontrou algo que pode mudara situação.
- Como assim?  -  perguntei, apesar de imaginar qual seria a resposta.
- É o que você está pensando... Ele está usando Leonora e você para chantagear Kyle.
- Oh, meu Deus!
 - O que aconteceu à Leonora ontem não foi ao acaso.
Isso era totalmente aterrorizante. Imaginar que estávamos à mercê de forças malignas contra as quais não podíamos ter qualquer controle era terrível.
Levei alguns momentos para me recuperar e voltei a falar.
- E o que nós podemos fazer?
- Ainda não sei como lutar contra isso, como protegê-los... Terei que buscar ajuda de meus superiores.
-  Mas, se Kyle é um anjo caído, talvez o seu pedido de ajuda não seja bem-vindo.
- Algo terá que ser feito. Não posso deixar vocês ou Kyle ficarem a mercê daquele monstro. – Era evidente o horror de Ariel, no tom de voz e na expressão do seu rosto.
- Você está apaixonada por ele?
- Claro que não! – exclamou  indignada, como se estivesse tentando convencer-se a si mesma.
- Está bem... Não vou discutir isso. Não é da minha conta. Desculpe. – falei compreensivo, pois eu também enfrentara uma confusão de sentimentos quando descobri meu amor por Yesalel. Não era nada fácil amar um anjo. Imaginei como seria para Ariel estar  amando alguém como Kyle, principalmente agora que sabia quem ele era realmente.
Não voltamos a nos falar até a chegada em Edimburgo. Aliás, não a vi nem senti mais até terminar a viagem.



Depois de fazer um resumo de tudo a Nathanael, pedi que ele reforçasse seus cuidados com Leonora. No íntimo, sabia que Kyle, agora recuperado de sua "privação alimentar", também protegeria os irmãos MacTrevor. Por isso, depois de conversar com Dom, decidi ir atrás de Samuel e esclarecer minhas dúvidas e indignação. Materializei-me nos portais da Central dos Guardiões. Respirei fundo, tomei coragem e entrei determinada a enfrentar a "fera".
- Olá, Ariel – soou a voz de tenor tão logo entrei em sua sala – Eu já a esperava...
- Então sabe por que estou aqui. Pode começar a falar e explicar-se sobre o que está acontecendo!
- Olhe o respeito com seu superior! – disse não muito convincente. – Não pense que vou permitir que me fale dessa maneira.
- Você não me respeitou quando escondeu a verdade de mim, lançando-me no meio de uma tremenda confusão.
- Foram Ordens Superiores. Apenas cumpri meu dever... Por mim, você não teria sido eleita para essa missão. Acredite em mim. – terminou por dizer... E havia muita sinceridade em seu olhar.
A única pergunta que eu conseguia ouvir reverberando em minha cabeça era: POR QUÊ?
- Por que não disse que conhecia Kyle, ou melhor, Elyk?
- Se trata de uma nova batalha contra o Mal, Ariel. Não mudaria em nada você saber que eu o conhecia ou saber quem ele era mil anos atrás.
- Claro que mudaria! Eu não teria perdido tempo acreditando que ele era o Mal!
- Isso não impediu que você gostasse dele... – disse em voz baixa.
Será que eu tinha algum tipo de sinalizador na testa dizendo que eu amava Kyle Sinclair ou eu era o anjo mais transparente da face dos céus?
- O que eu preciso saber é como proteger meu humano e sua irmã...
- E Elyk. – completou Samuel.
- Sim... Ele também está em perigo. Não creio que o Criador queira que ele cruze definitivamente para o outro lado.
- Obviamente que não. Elyk resistiu bravamente por um longo tempo  e provou continuar fiel ao Nosso Criador, apesar de tudo. Infelizmente, ele terá que vencer essa batalha sem a intervenção superior.
- Como?
- Com a sua ajuda ou de quem mais estiver disposto a ajudar... Na Terra.
- É só isso que pode me dizer?
- Dois conselhos mais... O demônio pode estar nos locais mais improváveis. Cuidado! Desconfie de todos a sua volta. E, Ariel... Você é mais poderosa do que pensa.
- Regras de Autoajuda? Numa hora dessas? Nenhum exército de Arcanjos na manga só para dar uma mãozinha? – disse mais irritada do que deveria estar, pois afinal, como Sam havia dito, Ele era o responsável pelo modo de condução desse caso. Contudo, acabei por exclamar – Poupe-me de seus conselhos.
- Lembrará deles na hora certa, Ariel.
- Uma última pergunta, Samuel...
- Sim?
- Sendo um anjo guerreiro, deveria estar em um nível superior, junto ao Criador. Por que ficou aqui como chefe de departamento? É essa a causa de seu eterno mau humor?
Notei a face de Samuel mudar de cor e anuviar-se. Atingira seu ponto fraco, com toda a certeza. Cheguei a desejar não ter sido tão maliciosa, mas às vezes certos sentimentos humanos, indesejáveis em um anjo, se apoderavam de mim. Eu não conseguia esconder a raiva que sentia por Samuel, mesmo sabendo que ele não era o único responsável pelo que estava acontecendo. Nem eu mesma entendia o que estava sentindo.
- Desculpe... – falei arrependida. – Não deveria ter tocado nesse assunto.  Às vezes perco o controle da língua.
- Talvez esse seja o seu lado mais atraente... Um dia talvez eu lhe conte a minha história, mas no momento... Gostaria que você voltasse ao seu trabalho imediatamente. – terminou por dizer secamente.
Ele voltara a ser o velho e bom Samuel, meu chefe. Sumi dali como ele desejava. Fui encontrar Dom. Ele estava desembarcando no aeroporto de Edimburgo, juntamente com Leonora e Kyle. Angus, em sua habitual elegância e discrição, como todo bom mordomo britânico, já os esperava, junto à pista de pouso, com um lindo Rolls-Royce Silver Wraith. Para minha surpresa, Leonora permaneceu calada a maior parte do percurso para casa. Aparentemente, o incidente da noite anterior provocara um tipo de  amadurecimento na menina de dezessete anos.  Kyle também estava calado, sentado do lado esquerdo de Angus, com seu rosto másculo indecifrável e o olhar vago na paisagem enevoada que corria através da janela do carro. Tinha quase certeza que ele sabia de minha conversa com Dominique sobre sua história. Era certo que teríamos que falar a respeito de como combater os demônios. Eu estava perdida. Eles podiam usar dos mais baixos meios para forçar Kyle a converter-se e ninguém melhor que ele próprio, que os enfrentava há quase mil anos, para montar um esquema de proteção aos dois irmãos e a ele próprio. O que eu ainda não entendia era o porquê de eu ter sido escolhida para participar dessa missão. Logo eu que sempre tive problemas em conduzir minhas tarefas, com minhas atitudes mais humanas que angelicais. As dúvidas rondavam minha mente, quando o carro estacionou diante do prédio onde moravam os MacTrevor.
Kyle fez questão de acompanhá-los até o apartamento. Leonora continuava muito estranha e Nathanael havia sumido. Aliás, ele vinha se ausentando com muita frequência ultimamente. Ou ele estava ficando preguiçoso ou eu o estava assustando com a minha preocupação extrema. Desde o início, eu meio que assumira a proteção de Leonora , como se os irmãos formassem um pacote único. De qualquer maneira, ele tinha suas responsabilidades. Principalmente agora, eu precisaria dele para criar uma proteção especial contra aqueles tipos infernais. Esperava contar com Yesalel também. Qualquer ajuda seria bem vinda. Se até agora ela não havia sido advertida é porque talvez ela fizesse parte de algum plano divino.
Ao entrarmos na pequena sala da casa de Dom, uma surpresa de quase dois metros de altura, cabeça raspada e dois enormes olhos cinzas muito claros nos aguardava.
- Pai!? – exclamou Dom.
Damian abriu os braços e aconchegou com facilidade Leonora e Dom, que não conseguiam esconder a saudade e a admiração pelo homem que os trouxera ao mundo.
Assim abraçado aos filhos, seu olhar logo encontrou o de Kyle e toda a alegria, que antes brilhava pelo reencontro familiar, cessou imediatamente, dando lugar a um misto de tristeza e temor.
- Quando chegou? Por que não nos avisou? – falou Dom.
- Cheguei hoje. Estão bem?  - perguntou olhando diretamente para Leonora, como se soubesse do ocorrido em Praga.
- Estamos... – respondeu Dom, enquanto Leonora derramava algumas lágrimas. – Pai, quero apresentar-lhe um amigo. Kyle Sinclair.
Esse permanecia imóvel como uma estátua e seu rosto inabalado.
- Kyle... Sinclair. – repetiu o nome dito pelo filho.
- Damian... – finalmente Kyle reagiu, fazendo uma pequena reverencia com a cabeça, como se conhecesse.
- Mas... Eu não disse o nome dele... – surpreendeu-se Dom.
- Não é necessário, meu filho. Conheci Ely... quero dizer, o senhor Kyle Sinclair há muitos anos.
- Como?
- Você saberá ... Logo... O mais importante agora é que voltei, pois pressenti que estavam em perigo...  E agora tenho certeza disso. – falou olhando diretamente para o banqueiro.
- Eu não teria tanta certeza da fonte do perigo, meu caro. – redarguiu Kyle.
-  Que tal terem uma conversa reservada?
Os dois  antigos anjos guerreiros voltaram seus olhares para mim. Apenas Leonora não entendeu porque eles olhavam um canto vazio logo atrás de seu irmão.
- Meu nome é Ariel, Damian. Sou a nova protetora de seu filho e estou precisando de toda a ajuda possível para ter absoluto sucesso em minha função. Existe um lugar aqui em Edimburgo onde poderemos estar seguros. Que tal uma reunião amigável e elucidativa?
Com a concordância de ambos, foi marcado um encontro para o dia seguinte, na Catedral de Edimburgo.

(continua...)


Oi, meus caríssimos leitores!
Desculpem por demorar a postar hoje, mas foi por motivos alheios a minha vontade.
Espero que tenham gostado do capítulo e que deixem seu comentário.
Quero deixar o meu agradecimento especial, como sempre, para a Leia, a Nadja, a Vanessa e a Dioceli, minha amigas muito queridas, que sempre vem deixar o seu estímulo e carinho aqui no blog.
Amo voces!
Um beijo cheio de afeto, meu e da Aline, para todos! Até a próxima semana!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XI

by Kodama e Fantin

Apesar de já me sentir recuperada pela perda de sangue, eu não conseguia me mover, paralisada que estava depois de ouvir o relato de Kyle.
- Então... Você é um anjo caído? – perguntei estupefata.
- Uma péssima companhia para você...
- Adotou o nome Sinclair em homenagem à sua... – Não consegui completar a frase por algum motivo.
- E Kyle, que obviamente é o inverso de meu antigo nome. Kyle Sinclair... Eu poderia ter sido mais criativo, não acha? – indagou parecendo divertir-se com o fato. – Na verdade, acabei por escolher esse nome em meados do século XIII, quando iniciei minha carreira como banqueiro. Como descobri que era importante o registro das transações comerciais, precisei adquirir um nome real.
- Por que está brincando com isso? Não há nada de engraçado na sua história...
- O tempo desgastou meus sentimentos e aplacou meu ódio e o desejo de vingança. Hoje vejo que nada disso é importante. Quem realmente me importava pereceu e, mesmo que eu soubesse o porquê ou quem provocou sua morte, isso não a traria de volta.
Senti  uma grande necessidade de consolar aquele homem-vampiro-anjo, ou fosse lá o que ele fosse. Queria abraçá-lo e beijá-lo, até que sua dor desaparecesse e ele substituísse Cathela em seu coração...
- Pensei que ela havia voltado para mim quando conheci Leonora. – ele continuou.
- Leonora?
- Ela é exatamente igual à Cath. Pelo menos, fisicamente... Acredito que algum sobrevivente dos Sinclair foi levado ao clã dos MacTrevor e a hereditariedade, depois de todos esses séculos,  tornou Leonora fenotipicamente igual á minha Cath.
Então... Ele já tinha uma substituta em seu coração... E não era eu...
- Por que queria se matar? – perguntei para evitar pensar em mais bobagens ilusionistas.
- Kolchak me procurou mais uma vez e ameaçou a vida de Dominic e de Leonora caso eu não me una a ele e a toda a corja de Lúcifer.
- Como? – Tive um sobressalto.
- Nas últimas visitas que ele me fez, conseguiu determinar  pessoas com quem eu estava afetivamente envolvido e torná-las vítimas para me chantagear. Na primeira vez, conseguiu me enganar, colocando um de seus lacaios fingindo ser amigo. Quando descobri, o pobre condenado baixou aos níveis mais baixos do Inferno. Nos séculos seguintes, passou a escolher entre humanos por quem eu tinha alguma empatia.
- Dom seria o escolhido neste século? – perguntei, apesar de já saber a resposta.
- É o que tudo indica...
- Eu fui enviada para proteger Dom de alguma coisa maligna. Até pouco tempo imaginava que fosse você o Mal a ser afastado dele. Agora sei que não é você o perigo... Pelo menos... É o que tudo indica. - tentei brincar... Mas ele não sorriu.
A partir daí resolvi calar-me. Ainda não tinha certeza se realmente podia confiar em Kyle; mesmo depois de tudo que ele me contara. Tinha medo de ser enganada por meu coração... Também precisava falar com Samuel a respeito de seu passado e por que ele escondera informações tão importantes. O quebra-cabeça parecia mais confuso ainda. Minha cabeça começou a doer muito. Talvez a descoberta sobre Elyk, sobre meus sentimentos em relação a ele, dos sentimentos dele para com Leonora... Eu precisava sair dali...
- Ariel! – exclamou Kyle angustiado, provavelmente preocupado com a minha expressão de dor e por ter fechado os olhos. – Você está bem?
- Estou bem. – respondi secamente, abrindo os olhos e tentando fugir do seu olhar. Tinha medo que descobrisse o que realmente eu sentia por ele. Era algo inadmissível... – Tenho que sair.
Tentei levantar-me, mas sua mão, agora dotada de nova energia, agarrou-me pelo braço, evitando que eu fugisse.
- Você não me parece muito bem. – falou com aparente preocupação, algo que atribuí à minha fértil imaginação e ao desejo de que aquilo fosse real.
- Quer fazer o favor de me largar? – quase gritei. Precisava desesperadamente escapar daquele quarto,  da minha ridícula fantasia e... daquele olhar.
Ele recuou visivelmente aborrecido.
- Pode ir. Já cumpriu sua boa ação do dia e conseguiu todas as informações sobre mim. Ganhou seu dia, não? – disse irritado.
Afinal, voltara a ser o vampiro de sempre.
- Pode ter certeza que sim.
- Seu protegido não precisa temer nada de mim... Nem você...
O modo como ele falou as duas últimas palavras me deixaram tão atordoada, que me desmaterializei imediatamente, deixando-o cabisbaixo, sentado à cama.
Com um pouco de esforço, mentalizei Dom e o localizei ainda na Ópera de Praga. Que festa mais comprida! Isso que o homenageado já nem estava mais lá. Aliás, por pouco não faria mais parte desse mundo... Ainda não decidira se deveria contar a história de Sinclair para o meu protegido ou procurar Samuel e espremê-lo contra a parede até ele falar tudo que sabia sobre esse enredo mal explicado.



- Então,  pensou que se livraria de nós acabando com sua vida? – A voz de Kolchak era inconfundível. Irritante e inconveniente.
- O que está fazendo aqui? Nosso encontro não era para daqui um mês? – perguntei aborrecido com a invasão do demônio.
- Quero lembrar que o suicídio pode levá-lo até nós...
- Para um morto-vivo não existe esse termo suicídio, portanto eu não iria a lugar algum.
- Caro Kyle... Espero que não tente mais esse tipo de subterfúgio, caso contrário seus queridos amigos, Dominique e Leonora o acompanharão de qualquer maneira a lugar algum... Meu chefe não ficou nada contente com o que você fez...
- Suma daqui!
- Antes, gostaria de falar sobre a inocente Ariel, que tão corajosamente o salvou, mesmo sendo você quem é. Sem querer ela nos foi útil, alimentando-o. Diria que é um ser muito especial...
Kyle sentiu como se lava quente ameaçasse sair de seu peito, mas segurou a explosão e manteve o olhar o mais impassível que pode, para não dar motivos a Kolchak para perseguir a protetora de Dom. Ele não podia demonstrar seus sentimentos ou ela se tornaria o foco de atenção daqueles monstros.
- Ela me odeia. Fez aquilo porque é um anjo, uma pobre domínio, que não poderia ver nem um cão morrer em sua frente, sem tentar ajudá-lo.
- Pode ser, mas vou ficar de olho nela... Em vocês...  – disse, apontou o dedo ameaçadoramente para mim e desapareceu.
Teria a festa terminado? Peguei o telefone sobre a mesa de cabeceira ao lado da cama e liguei para a recepção. Uma sensação nada agradável tomou conta de mim.
- Boa noite. Poderia me informar se Dominique MacTrevor e sua irmã já retornaram ao hotel?... Ainda não?... Obrigado. – encerrei a ligação preocupado.



A sirene do carro policial já fora desligada e os convidados começavam a retirar-se, passado o interesse pelo infeliz ocorrido. O culpado ainda encontrava-se na sala reservada sendo interrogado pelo policial em serviço naquela noite, enquanto Leonora descansava num sofá do salão principal, rodeada pelos braços de seu irmão, ainda com expressão de medo e vergonha pelo que acontecera. Instintivamente, procurei Nathanael com um pedido telepático, mas ele surpreendentemente não respondeu. Então fui direto para Dom tentar saber o que acontecera em minha ausência.
Ao  ver-me, lançou um olhar cansado e ao mesmo tempo aliviado. Com movimentos labiais, disse que falaria comigo depois. Também consegui entender que Leonora estava bem. Apenas assustada. Foi então que Nathanael surgiu ao meu lado.
- Onde você estava e o que aconteceu aqui? – perguntei exaltada.
- Eu estava procurando por você para dar um apoio ao seu protegido! Você agora resolveu ser babá de banqueiro?
- Achei que estava tudo bem. Pensei que você pudesse dar conta do recado sozinho.
- Cada um tem a sua responsabilidade...
- E pelo jeito você não deu conta da sua!
Nathanael fechou o cenho e não respondeu.
- O que aconteceu? Pode me dizer, senhor Nathanael?
- Leonora foi atacada por um dos rapazes com quem estava flertando.
- Como assim, atacada?
- Felizmente não aconteceu nada grave, mas ele tentou violentá-la em uma das salas de música do prédio.
- Oh, Santo Deus! Como você deixou isso acontecer?
- Não aconteceu nada, pois eu interferi; caso contrário ela teria perdido sua virgindade hoje!
- Está bem... Desculpe... Fiquei nervosa com tudo isso e culpada por não estar presente para ajudá-lo. Você agiu corretamente.
Um policial a paisana aproximou-se do casal de irmãos e disse algumas palavras. Num segundo eu estava ao lado de Dom para ouvir o que ele dizia.
- Gostaríamos que a senhorita desse um pequeno depoimento. É possível?
- Posso acompanhá-la? – perguntou Dominique.
- Não! Eu prefiro ir sozinha... Por favor. – rogou ela remoída em vergonha.
- Tem certeza que quer falar com ele a sós? – indagou protetor.
- Tenho... Eu ficarei com vergonha de você se estiver junto, entende? – explicou docemente.
- Entendo... Mas se mudar de ideia, me chame, certo? – falou aconchegando as mãos da irmã entre as suas e depositando um beijo sobre o dorso de uma delas.
- Certo. – respondeu com um sorriso tímido nos lábios, para logo olhar para o investigador que aguardava pacientemente a sua frente e dizer, subitamente amadurecida. – Estou pronta.
- Pode ser aqui mesmo. São apenas poucas perguntas para estabelecer a queixa contra aquele safado. Ele não tem ficha ou histórico algum no departamento. – esclareceu o homem em um inglês com forte sotaque.
- Então, eu vou ficar logo ali. – disse Dom apontando para uma janela alguns metros adiante, distante o suficiente para dar a reserva necessária para não ouvir  o que Leonora conversaria com o policial.
Foi a deixa para que eu me aproximasse de Dom e soubesse o que acontecera com detalhes.
- O que houve, Dom?
- Um dos rapazes com que Leonora dançou, num momento em que me distraí,  levou-a até uma sala isolada e tentou... Você sabe... Por sorte, Nathanael me avisou e eu pude chegar a tempo antes que acontecesse algo mais sério. – Só então percebi o rosto de Dom machucado e um inchaço sob o olho direito.
- Você lutou com ele?
- Sim... Por que acha que chamaram a polícia? Quando vi o que estava acontecendo, enlouqueci e me joguei sobre o miserável. Acho que o mataria se não tivessem me tirado de cima dele. Acho que esse nunca mais vai tentar forçar outra garota a fazer o que ele quer.
- Oh, Dom... E eu não estava aqui...
- Não se culpe... E Kyle, como está?
- Agora está bem, mas... Mais tarde teremos que conversar sobre ele.
- Algum problema sério?
- Mais tarde... Agora temos que dar atenção a Leonora.
Meu olhar foi desviado para a entrada principal onde uma figura imponente, minha conhecida, entrava  ameaçadoramente. Como ele soubera do que estava acontecendo?
Porém, ao invés de ir em nossa direção ou na de Leonora, encaminhou-se para a sala onde o aprendiz de violentador estava detido.
- Fique com a Leonora, que vou ver o que está acontecendo.
Imediatamente me encaminhei à sala reservada.
- O senhor não tem permissão para entrar aqui. – dizia o homem de farda para Kyle.
Este olhou o homem seriamente aborrecido.
- Eu sou responsável pela jovem que foi agredida e, portanto, tenho direito de falar com essa... besta.
- Certamente, senhor. Aguardarei ali fora.
Ele usara algum tipo de poder mental sobre o pobre humano. Fiz menção de me retirar, pois não queria ser testemunha de qualquer violência, mas fui segura pela voz firme e grave de Kyle.
- Fique! Quero que veja isso.
- Não pretendo ver ninguém ser massacrado.
Ele riu, e tornou a virar-se para o infeliz, que estava algemado e sentado na borda do assento de uma poltrona de veludo, num dos cantos da saleta. Fuzilou-o com o olhar, provocando uma expressão aterradora na face do jovem.
- Olhe, não sei quem você é, mas precisa acreditar que não sei o que aconteceu. Achei ela linda e apenas queria beijá-la... Normal... Mas então algo se apoderou de mim e... Não sei o que aconteceu! Foi como se algo primitivo tivesse tomado conta de ... – Sua fala foi interrompida e seu corpo se enrijeceu, fazendo-o atirar a cabeça para trás e revirar os olhos até que apenas o branco das escleróticas ficasse visível. Seu rosto, parecendo uma máscara  distorcida, voltou-se na direção de Kyle, que não aparentava surpresa alguma com o que estava acontecendo.
- Isso foi apenas um aviso, Elyk... – disse com uma voz gutural, liberando uma gargalhada assustadora ao final.
- Quanta honra receber o próprio Lúcifer, ao invés do seu lacaio.  – disse sarcástico. – Parece que consegui irritá-lo mesmo.
- Que bom que ainda conserva seu senso de humor... Logo não o terá. – ameaçou e calou-se, liberando sua vítima.
O jovem, livre de sua possessão, amoleceu o corpo e desabou desleixadamente sobre a poltrona, desacordado.
Materializei-me. Devia estar com aparência de morta,  pois Kyle clamou meu nome até que eu me fixasse em seu olhos.
- Fale comigo, Ariel...Está bem?
- Estou... – sussurrei.
- Entende agora o que eu lhe falei lá no hotel?
- Sim... Mas por que ele fez isso com Leonora?
- Ele não gostou da minha tentativa de abandonar o jogo.
- Para você é apenas um jogo?
- Maldição! É apenas uma maneira de falar, mulher!
- Eu não sou uma mulher...
De repente, vi aqueles olhos ardentes sobre mim mais uma vez. Era assim que ele manifestava seu desprezo por mim? Fazendo-me sentir perdida? Deixei de pensar quando senti meus lábios sucumbirem violentamente sob os dele. Uma vertigem tomou conta de mim e, graças às mãos que me seguravam nada gentilmente, não fui ao solo. Senti um estranho vazio quando ele se afastou e me olhou transtornado.
- Ainda acha que não é uma mulher?
Senti meus olhos umedecerem e só pensava em me afastar daquele macho que provocava meus sentimentos e me fazia sentir tolamente estranha.
Mesmo que eu conseguisse achar minha voz para responder ao seu questionamento, não teria mais sua atenção, pois o rapaz já começava a recuperar a consciência e olhava assustado para Kyle, pois a mim ele não podia ver, pois acabara de desmaterializar-me. Fugi para perto de Dom, com a desculpa de saber como estava Leonora e tentar voltar a um estado próximo ao normal.

(continua...)


Olá! Atendendo a pedidos (não é, Léia?...rsrsrs) estou postando esse capítulo um pouco mais cedo. Espero que tenham gostado.
Mais uma vez agradeço às minhas top comentaristas, Nadja e Léia, e à visita das queridas Daniele, do blog Chá, Biscoitos e um Livro, e Pri, do blog Entre Fatos e Livros. 
O meu muito obrigada também àqueles que vieram até aqui, leram, gostaram ou não, e não deixaram seu comentário. Espero que continuem voltando e divulgando o blog... ou não.
Desejo a todos um excelente feriado. Curtam ao máximo esse dia (ou dias, para quem terá a chance de fazer feriadão)!
Deixo voces aqui, pois temos muito trabalho a frente para dar continuidade ao romance do Kyle e da Ariel...
Até a próxima sexta! Beijos!!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo X

by Kodama e Fantin

Era o início do ano de 1012, em plena guerra do exército de Deus contra as forças de Lúcifer. Poucos humanos privilegiados sabiam da existência dessa luta enquanto a maioria vivia apenas o terror dos ataques dos demônios e a dádiva de, algumas vezes, escaparem com vida, graças às ações de seus protetores celestiais incógnitos. A Escócia era uma terra de ninguém, dividida entre diversos clãs que tentavam viver em paz dentro dos limites de suas terras, protegendo-as de usurpadores. Numa região às margens do Rio Clyde, vivia o clã dos Sinclair. A aldeia onde viviam passou a sofrer constantes ataques de uma horda de vampiros que se estabelecera no castelo de Malachy, próximo à área onde hoje fica Edimburgo. Anjos guerreiros foram designados para proteger o líder do clã e sua família. O anjo de nome Elyk ficou encarregado de ser o protetor de Cathela, a filha mais jovem do Chief. Sem saber, com sua beleza e inocência, a donzela foi cativando o coração do anjo guerreiro. Aquele que fazia tremer seus oponentes pela força e habilidade na arte da guerra, arrojando demônios para as profundezas do Inferno, acabara sendo vencido por uma humana de natureza afetuosa e temperamento vivaz, que nem ao menos sabia ter encantado tal ser enviado dos Céus para protegê-la. Elyk lutou de todas as maneiras contra esse sentimento proibido pelo Criador. Até que um dia não resistiu e acabou materializando-se para que pudesse tocar sua amada protegida. Fez isso enquanto ela dormia, mas, como se percebesse sua presença, a jovem acabou acordando e o viu. A princípio pensou que ainda sonhava e que a visão não era real. Contudo, o toque de seus dedos no rosto de Elyk desencadeou uma onda de desejo no infeliz anjo, precipitando um beijo no rosto de Cathela. Foi então que ela se deu por conta de que o ser celestial a sua frente não era uma ilusão ou um simples sonho. Ele era real. A despeito dos frequentes embates contra os vampiros do leste, Elyk passou a materializar-se com maior assiduidade, apesar dele saber da proibição divina. Logo Cathela também estava enamorada perdidamente por seu protetor. Um dos companheiros de Elyk descobriu o romance e aconselhou-o a deixar em paz a jovem. Chegou a propor que trocassem de lugar. Ele faria a proteção de Cathela e Elyk pediria para ser transferido para outro posto. Porém, o coração o impediu de ouvir o amigo.
Elyk provocou a ira do Senhor. Chamado e repreendido, foi obrigado a deixar de ser o protetor de Cathela e terminantemente proibido de vê-la ou seria punido com severidade.
Com o passar das semanas, a saudade de Cath crescia em seu peito, envenenando a noção de obediência devida ao seu superior. Não resistindo mais a falta de sua amada, procurou-a em uma manhã que a viu sozinha. Angustiada com sua ausência, Cath suplicou que ele nunca mais a abandonasse. Passaram a se encontrar diariamente, sempre que Cath estava só. Ela não conhecia seu novo guardião. Disse que podia sentir sua presença, mas jamais o vira. Às vezes podia ouvi-lo na forma de um sussurro ou de um suspiro e até como um vulto ao seu redor, mas nunca vira seu rosto. Apesar de saber que ele existia para sua proteção, havia algo na sua presença que incomodava. Não sabia explicar, pois era apenas uma sensação. Elyk jurou a ela que procuraria o Criador e rogaria que o tornasse mortal para que pudessem viver suas vidas em comunhão, fazendo florescer e frutificar seu amor. Neste dia, em que decidiu fazer a escolha pela humanidade, o desejo falou mais alto que nunca e Cath entregou a ele sua inocência e seu corpo. Amaram-se intensamente, de uma maneira tal que Elyk jamais pudera imaginar que fosse possível. Queria aquela mulher por todos os dias de sua existência e até que a morte os levasse de volta ao Criador. Eles haviam sido feitos um para o outro. Tinha certeza que sua súplica e o amor que transbordava por todos seus poros seriam capazes de mudar a opinião Dele.
Quando Elyk finalmente tomou coragem para falar com o Pai, recebeu um chamado de última hora. O sol já havia se posto. A aldeia dos Sinclair estava sofrendo um ataque violento dos vampiros do Leste. Aparentemente todos os guardiões locais haviam sido convocados para uma falsa reunião, que os afastou da aldeia, propiciando totalmente a ação dos demônios. Quando lá chegaram, encontraram destruição quase total. Os corpos dos aldeões massacrados encontravam-se dilacerados por toda a parte. Desesperado, Elyk procurou inutilmente por Cathela até que encontrou seu pai agonizante. Chegou a tempo de ouvir suas palavras antes do último suspiro. Materializando-se para amparar o velho Chief, esperava que ele pudesse ajudá-lo a encontrar Cath.
- Eles a levaram... Elyk... – a voz era apenas um fio quase inaudível e surpreendeu Elyk, pois ele não imaginava que o velho o conhecesse.
- Por que diz o meu nome?
Os olhos quase vítreos adquiriram um brilho de indignação e revolta ao encarar o anjo.
- Você... Você nos traiu... Quem é você, seu miserável?... – As poucas forças que ainda lhe restavam fluíram para seu braço que se ergueu no ar tentando atingir o rosto do anjo, que não conseguia entender o motivo daquela revolta.
Com o esforço, soltou um gemido alto e todo o ar restante em seus pulmões foi eliminado definitivamente. O braço erguido tombou para trás e os olhos permaneceram paralisados na face de Elyk.
- Parece que o seu nome foi citado pelos vampiros como o organizador deste massacre – disse um de seus companheiros.
- Como? Acham que fui eu que facilitei este ataque? Isso é um absurdo! – Levantou-se e encarou os demais anjos que o olhavam desconfiados. – Não vou perder meu tempo com invencionices de demônios. Não sei o porquê de meu nome ter saído da boca daqueles "chupadores de sangue", mas sei que preciso encontrar Cathela e vingar a morte de sua família. Saiam da minha frente, se não quiserem terminar essa missão. Vou ao castelo acabar com estes assassinos de uma vez por todas.
Todos se entreolharam. Diante do quadro de holocausto vigente na aldeia, decidiram ficar e ajudar os poucos sobreviventes.
Elyk desmaterializou-se e surgiu diante do castelo. Junto ao enorme portão, Samuel, o companheiro que o aconselhara a deixar Cathela, já o esperava. Em sua magnífica armadura prateada, estava munido de sua espada e pronto para o combate. No entanto, sua expressão não era amistosa quando olhou para Elyk.
- O que está fazendo aqui? Veio completar sua obra? Vai comemorar com seus novos amigos?
- Sobre o que você está falando? Vim para salvar Cathela e acabar de vez com estes demônios!
- Então por que eles dizem que você facilitou o ataque à aldeia? Resolveu mostrar ao Criador que não ficou satisfeito com seus desígnios?
- Você realmente acredita nisso, Samuel?
- Não o reconheço mais Elyk... Depois que se apaixonou por Cathela, passou a ir contra todas as leis celestiais.
Um grito desesperado ecoou do alto de uma das torres.
- Cath! – reconheceu Elyk – Saia da minha frente ou me ajude. Depois resolvemos nossas diferenças.
- Eu vou salvá-la – informou Samuel imperioso.
Sem prestar mais atenção, angustiado com a situação de Cath, Elyk voou para a torre, perseguido por Samuel, que tentava passar a sua frente, retardando-o. Infelizmente, quando estavam a meio caminho para o alto, dois vampiros surgiram para atacá-los. Foi quando o corpo de Cathela surgiu em queda livre rumo às pedras no solo. Elyk ainda pode sentir suas vibrações e seu último pensamento dirigido a ele. Ela saltara para não entregar-se ao chefe do clã dos vampiros.
Simultaneamente, Elyk e Samuel gritaram o nome da jovem, mortificados com a visão de sua morte inevitável. Tomado por uma fúria insana, Elyk se livrou das garras do monstro que o segurava, jogando-o contra o paredão do castelo, e desceu até onde o Cath permanecia imóvel. Samuel da mesma forma se livrou de seu algoz e voou para o alto da torre. Instantes depois, a cabeça de um vampiro ganhava o espaço, num floreio macabro, terminando por cair próximo à Cathela. Abraçando-a, Elyk buscava um resto do calor que sentira na véspera, quando a encontrara pela última vez. Não conseguiu chorar, pois a visão do semblante demoníaco na face decapitada do assassino caído pouco adiante deles, reacendeu novamente o ódio pela raça de sugadores. Abreviando a despedida de seu amor, lançou-se como anjo vingador insaciável contra a horda de vampiros que começava a surgir de todos os lados. Como um louco avançou com a espada em punho literalmente ceifando a vida dos "cães" de caninos afiados que ousavam desafiá-lo. Alguns de seus companheiros retardatários, que finalmente decidiram ir atrás dele, surgiram a tempo de assistir a tragédia em seu momento crucial. Passaram  a combater os vampiros que ainda restavam, ao lado de Elyk.  Samuel não estava entre eles.
O clã dos senhores do castelo de Malachy foi totalmente destruído naquela noite. Os sobreviventes foram obrigados a enfrentar a luz da manhã e viraram pó, juntamente com os restos de seus mortos.
Banhado pelo sangue impuro, Elyk voltou até onde Cathela repousava em seu sono perene. Sua expressão era de serenidade e pareceria estar apenas dormindo, não fosse a palidez mortal e a falta dos movimentos respiratórios. Caído de joelhos ao seu lado, elevou-a nos braços e chorou afinal, como nunca havia feito antes. Perguntava aos céus por que o Criador permitira sua morte. Não conseguia pensar em nada, envolto na revolta que estraçalhava seu coração, quando uma forte luz vinda dentre as nuvens apontou para ele como uma lança acusadora.
- Elyk! – chamou a voz tonitruante – Você traiu minha confiança, me desobedecendo e usando sua espada em uma vingança pessoal.... Por isso estou aqui... Para que receba sua pena pelo crime cometido.
- Eu vinguei a morte de seus filhos... Não traí ninguém. Minha única culpa foi tê-Lo desobedecido pela segunda vez, por amor a uma humana. Acabei de receber minha pena por tal crime ao perdê-la para sempre.
- Por que, Elyk? Eras um de meus preferidos... – A Voz demonstrava grande pesar, mas logo se tornou dura como o aço – A partir de hoje, viverás no limbo como aqueles que acabastes de matar, testemunhas da tua desobediência, se alimentando de humanas como essa em seus braços, a quem condenastes a morte, até o final dos tempos.
- Se essa é a Sua vontade... Agora pouco me importa o que fizeres de mim. Estou morto por dentro de qualquer maneira.
Tomada pela ira divina, a luz tornou-se tão forte a ponto de cegar todos os presentes. Trovões ressoaram nos céus como se fossem lamentos, e o dia, que a pouco raiara, voltou a ser noite. Uma dor excruciante cruzou através do corpo de Elyk, obrigando-o a soltar Cathela e cair no chão contorcendo-se em agonia extrema. Suas asas enegreceram, desintegrando-se no ar em milhares de partículas qual fuligem. Presas grandes e afiadas surgiram em sua boca e um frio polar dominou sua alma e seu coração.
Quando tudo terminou e apenas restou a escuridão, uma chuva fina e o cheiro carbonizado a sua volta, permaneceu ali, paralisado, ao lado do corpo de Cathela, confuso, sem entender nada do que acontecera. Apesar de tudo, custava a acreditar que seu Pai o renegara tão definitivamente. Alguns minutos se passaram. Antes que pudesse continuar com suas indagações silenciosas, percebeu uma sensação de queimadura na pele e os olhos arderam. Era o renascer do dia que se anunciava por detrás do céu encoberto. Talvez se ficasse mais tempo e o sol se libertasse das nuvens cinzentas, pudesse por um fim a sua existência. Porém, quando menos esperava, um manto foi jogado sobre seu corpo e mãos fortes o levantaram do chão, levando-o para o interior do castelo. Reclamou, pensando que fosse um de seus irmãos guerreiros, mas em seguida soube que não.
- O senhor está bem?
- Quem é você? Por que me trouxe para cá?
- Meu nome é Angus, senhor. Eu era escravo destes vampiros. Eles me mantinham cativo há mais de cem anos e o senhor me libertou. Serei eternamente grato, servindo-o como servia a eles. – disse o servo morto-vivo.
- Pode deixar-me aqui a minha própria sorte. Você está livre. Segue o teu caminho e eu seguirei o meu.
- Senhor... Não tenho mais como recuperar minha vida. Todos meus entes queridos estão mortos. A eternidade é minha dádiva e minha prisão. Peço que me deixe servi-lo, Sei o que aconteceu. Talvez possa ajudá-lo a encontrar aquele que se fez passar por vós.
Elyk, apesar de enfraquecido, sentiu uma nova onda de indignação e ódio encher seu peito. A imperiosa necessidade de sobreviver para descobrir o verdadeiro responsável pela morte de sua adorada Cath e aplacar a injustiça cometida contra ele, despontou e tomou lugar em sua nova essência. Alguém os tinha enganado e atraído para longe dos Sinclair e ainda tinha se feito passar por ele, tornando-o um traidor diante de seus companheiros. Não acreditava que Seu Pai pudesse crer nisso, devido a Sua Onipresença e Onipotência, mas já não estava certo de nada, depois do julgamento e punição extrema por que passara.
Ao fim daquele dia de pesadelo, em que assumiu o reino e a fortuna dos vampiros de Malachy, lançou-se até o local em que o corpo de Cathela deveria permanecer sem um enterro digno. Lá chegando, verificou que ela sumira. Enquanto a dor o dilacerava mais uma vez, Samuel surgiu a sua frente. Dessa vez, em atitude mais condescendente, dirigiu-se à Elyk.
- Eu já cuidei do corpo de Cath. Ela estará em paz...
- Deve estar feliz agora. Fui punido como desejava.– Uma espécie de negra e intensa revolta envolveu o espírito do ex-anjo guerreiro que já não confiava em mais ninguém. Um estranho desejo por vingança e por sangue era só o que carregava em seu peito. Não tinha mais amigos, não tinha mais um Pai ou quem quer que fosse para compartilhar seus pensamentos. Estava só e a única energia que o mantinha vivo era o ódio e o desejo de vingança.
- Nunca desejei o seu mal, meu amigo...
- Amigo? Horas atrás você me acusou de traição, acreditando em mentiras a meu respeito!
- Sinto muito ter acreditado nessa mentira... Fiquei revoltado, pois também gostava muito de Cath...
- Melhor ir embora daqui. Já fez o seu discurso de bom anjo. Agora, suma-se!
- Sinto muito, Elyk...
- Esse não é mais o meu nome. Já que não sou mais merecedor de estar ao lado de Quem nos criou, também não sou digno de carregar o nome que Ele me deu.
Samuel o olhou pela última vez frente a frente e desapareceu como uma sombra na noite.
Após esses acontecimentos, não demorou muito para que ele fosse procurado pelo lado sombrio da dimensão celestial. Um enviado de Lúcifer apresentou-se. Seu nome era Kolchak. Sua proposta era simples. Amaldiçoado por seu Criador ele não tinha escolha a não ser a de juntar-se ao exército de seu amo. Entretanto, o antigo guerreiro das forças divinas, apesar de todo o sofrimento, já aceitara a punição de Deus, considerando-se culpado por seu destino. Jamais aceitaria unir-se à oposição de tudo por que lutara enquanto anjo. Expulsou o demônio, assim como o faria em cada um dos séculos seguintes em que Kolchak o procuraria, sempre com a mesma proposta.
A partir desse dia, nascia Kyle Sinclair. Um anjo caído, uma alma perdida, um vampiro torturado em busca de uma vingança que nunca alcançaria.

(continua...)

O que acharam? Que injustiça com o pobre do Elyk, não? Aguardem a próxima semana...rsrsrs
Gostaram do novo visual do blog?
Agradeço mais uma vez às minhas queridíssimas Léia, Nadja e  Lucy por seus comentários, que eu amei, como sempre. Voces são uns amores!
Um hiper beijo carinhoso para todos!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo IX

by Kodama e Fantin

O que estava havendo comigo? Perguntei a mim mesmo, olhando para o vazio a minha frente, embriagado por aquele perfume, mistura de flores e mel, e completamente excitado. Certamente a “fome” estava alterando o funcionamento de meu cérebro. Tinha que parar de pensar naquela bisbilhoteira enervante e tratar de me arrumar para a inauguração de logo mais. Eu tinha pouco mais de seis horas para conseguir uma “fonte”, caso contrário os efeitos da falta de alimento se tornariam facilmente visíveis. No momento apenas um leve cansaço me dominava e, para um observador mais atento, eu passaria por alguém que não dormiu muito bem na noite anterior.
Cheguei ao saguão onde Dominic e sua abelhuda acompanhante, em seu “modo fantasma”, me aguardavam. Ela evitava me olhar, o que era uma novidade. Teria ficado tão apavorada com o que acontecera? Talvez eu fosse realmente desagradável a ela. Anjos nunca se deram muito bem com vampiros. Apesar dela ainda não ter percebido minha verdadeira natureza, os instintos ainda prevaleciam. E os meus, no momento, me atraíam irresistivelmente para ela. Enquanto entrávamos na limusine que nos levaria a filial do banco, fiquei lembrando o gosto de sua boca. Só de pensar nisso, meu corpo reagiu imediatamente e precisei fechar o sobretudo sobre a cintura para não deixar Dominic ou ela perceberem meu estado.
Durante a aborrecida procissão de discursos, inclusive o meu, passei em revista com os olhos algumas das fêmeas que estavam por ali. A maioria estava acompanhada. A minoria tinha idade tão avançada que não resistiria à minha “companhia”. O que eu menos precisava em Praga era ter que me livrar de um corpo ou dar explicações sobre a “morte acidental” de uma idosa em meu leito. O jeito seria tentar uma conquista durante o baile de logo mais. Nunca tinha me sentido tão estranho ao pensar nesse tipo de problema. A cada mulher que avaliava, a imagem de Ariel vinha a minha cabeça. Isso já estava se tornando enervante. Aqueles olhos dourados não me saíam da cabeça. Ela seria a última fêmea com quem gastaria um milésimo de meu tempo, principalmente levando em consideração a sua origem. Apesar de todos os contras, o seu rosto me parecia a cada instante que passava mais e mais perturbador. O fato de saber que ela estava por perto tornava a fraqueza, que me afogava aos poucos, desprezível. Seu aroma impregnava meus sentidos e tirava minha atenção de tudo o mais que me rodeava.
Finalmente a inauguração se deu por encerrada e partimos para a Ópera Estatal de Praga, que abriria suas portas suntuosas para o baile de gala em minha homenagem. Dominic parecia pouco a vontade em seu smoking alugado e com a ausência da irmã caçula que ainda não chegara. Ariel continuava tentando disfarçar seu desconforto com minha presença e eu não conseguia determinar a mulher que me alimentaria nas próximas horas.
Mal havia começado o serviço de coquetel no amplo salão, quando Leonora chegou acompanhada pelo motorista que tinha sido contratado para levá-la até lá. Ela estava deslumbrante, mas também parecia sentir-se desconfortável, principalmente quando os homens presentes cravaram seus olhares nela. Percebi o erro cometido ao convidá-la para esse tipo de baile. Ela era jovem e inexperiente demais...  Dominic correu para recepcioná-la, seguido por Ariel.


Kyle Sinclair


                                            

 “Definitivamente esse não é um ambiente adequado para Leonora”, comentei com Nathanael, sem que Dominic pudesse ouvir. Não queria discutir com ele mais uma vez. Eu devia parecer a “velha tia solteirona da família” fazendo aquele tipo de comentário, mas era a sensação que eu tinha ao notar os olhares de cobiça entre os homens da festa, inclusive de Kyle, por mais que ele tentasse disfarçar. Ou seria apenas impressão minha...Ciúmes... Ciúmes?? De onde saiu esse pensamento descabido? Devia ser o ambiente requintado, a beleza das vestimentas das mulheres e a elegância dos homens. Jamais tinha participado de algo tão luxuoso. Meus resguardados anteriores em geral pertenciam a classes inferiores da sociedade humana. Normalmente os anjos mais novos tinham esse tipo de indicação. Apenas os anjos mais antigos tinham o privilégio de acompanharem pessoas da realeza ou das camadas mais altas da civilização. O mais próximo que eu já chegara de uma festa como aquela tinha sido no ano terrestre de 1733, quando cuidava de um rapaz que era auxiliar na cozinha de um poderoso barão francês. Pude vislumbrar algumas reuniões entre a realeza. Pena que o meu protegido sucumbiu muito jovem numa epidemia de varíola... Voltando à realidade, surpreendi-me quando vi Kyle fugindo da companhia de Leonora, que viera toda sorridente até ele, sendo sutilmente rechaçada. Dominic lhe disse algumas palavras de consolo, que ela facilmente assimilou, logo voltando sua atenção para dois rapazes tchecos que pareciam bem mais interessados nela do que Kyle. Bem, Nathanael teria trabalho pela frente cuidando de sua menina. Dominic estava começando a se sentir mais a vontade e acabara de entabular conversa com uma jovem agradável, que eu já notara demonstrar interesse por ele. Agora eu podia aproveitar meu tempo para cuidar dos movimentos do senhor Sinclair. Onde ele havia se metido? Estava bem perto há poucos segundos atrás...                                                                                       
Finalmente o achei fazendo a corte a uma nojenta de nariz empinado que tinha acabado de chegar desacompanhada. Jogava todo o seu charme sobre ela e isso, inexplicavelmente estava me deixando mal-humorada. Chamei discretamente o anjo da guarda dela a um canto e dei a ficha de Kyle. Prontamente meu colega deu um jeito de afastar a moçoila dele. Olhei na direção do grande conquistador, pronta para ser fulminada pelo seu olhar, mas, ao invés disso, ele apenas lançou um débil sorriso, demonstrando que sabia de minha parcela de culpa na rejeição sofrida. Ele me pareceu tão fraco e frágil que transformou meu júbilo em tristeza. O que estaria acontecendo? Comecei a ficar preocupada por ele. Buscava uma explicação para essa mudança de atitude.
Ouvi os acordes da orquestra que já estava pronta para iniciar a música que comandaria as danças da noite. Kyle aproximou-se de Dominic, pediu licença para dançar com Leonora e dirigiu-se a ela, depois de liberado. Mostrando as fileiras de dentes brancos e perfeitos, ela aceitou o convite e se colocou entre os braços de seu anfitrião. O som da valsa fluiu dentre os instrumentos de corda, suave e arrebatador. Fiquei surpresa a ver como Leonora estava dançando e percebi que Dominic reagiu igualmente. Ela parecia hipnotizada pela música e flutuava muda nos braços de Kyle. Ele continuava com sua expressão entristecida, mas os olhos pareciam mais claros e brilhantes ao estudar o rosto de sua parceira. Algo estava acontecendo, era o que minha intuição insistia em dizer, mas eu não compreendia. Ao terminar a música, Kyle beijou respeitosamente a mão de Leonora e levou-a até Dominic.
- Eu não estou me sentindo muito bem Dominic. Vou para o hotel.
Leonora fez uma cara péssima e choramingou:
- Mas nós mal acabamos de chegar...
- Cale-se, Leonora! – ordenou, preocupado com o aspecto de Kyle. – O que está sentindo? Talvez precise ver um médico. Não parece realmente bem.
- Não se preocupe comigo, Dominic. É apenas uma indisposição. Podem continuar a se divertir. Fiquem até a hora que desejarem. Mandarei o motorista de volta para ficar a disposição de vocês.
- Tem certeza que ficará bem? – perguntou Dominic.
- Fique tranquilo, amigo. Amanhã nos falamos.
Voltou-se para a saída, sem olhar para mim o que me deixou mais incomodada.
Em menos de um minuto Leonora já esquecera do ocorrido, convidada para dançar por um dos jovens com quem estava flertando desde antes do início do baile.
- Dominic – sussurrei.
- Já sei. Pode ir atrás dele. Acho que Nathanael terá mais trabalho essa noite cuidando de Nora que você cuidando de mim.
- Quem disse a você que quero ir atrás dele? É uma sorte que tenha ido embora.
- Ariel... Eu já conheço você o suficiente para saber que ficou no mínimo inquieta com a atitude de Kyle. Cuide dele como cuidaria de mim. Ele não possui ninguém para protegê-lo.
- O quê? – fingi desconhecimento a respeito do que ele tentava sugerir e disfarcei a surpresa com o desprendimento de Dom emprestando seu anjo da guarda, eu, para outra pessoa. Como se isso fosse corriqueiro.
- Não sei bem por que, mas algo me diz que o problema não é só uma simples indisposição como ele quis aparentar.
- E você acha que é assim... Ir me emprestando para qualquer um?
- Ele não é qualquer um, Ariel, e você sabe disso muito bem.
- Está bem. Já que você insiste, eu vou atrás dele – Pelo menos Dom não precisava saber de minha resolução em seguir Kyle ante de seu pedido.
E assim foi. Materializei-me na suíte de Kyle, mas permaneci na minha forma célica, lembrando o que acontecera da última vez. Ele não estava ali. Fui até o terraço. Lá a enorme e alinhada figura, ainda vestindo seu caríssimo smoking, contemplava as luzes da cidade, enfrentando o frio de vários graus negativos. O que se passava em sua mente naquele instante? Fiquei admirando-o em silêncio.
- Veio me fazer companhia, Ariel? – sobressaltei-me com a voz rouca. Ele continuou em sua contemplação – Dominic a obrigou a vir?
- Ninguém me obriga a nada. Vim por vontade própria. Não nego que Dominic me fez um pedido para estar aqui, mas eu viria de qualquer jeito.
Levei um susto quando ele se virou, encarando-me. Parecia ter envelhecido uns dez anos.
- O que está acontecendo? Está doente?
- Por que quer saber? Logo não terá que se preocupar comigo. Ficará livre de minha figura asquerosa e descansará em saber que Dominic e sua irmã estão livres da péssima companhia que represento.
- O quê? O que está dizendo? – entrei em pânico ao imaginar que ele estava pensando em suicídio.
- Cansei de lutar contra o destino. Não quero prejudicar mais ninguém.
- Por que está falando assim? Que destino é esse contra o qual tem lutado? Prejudicar quem? Pare de se fazer de vítima e me explique.
- Sei que me odeia, Ariel. Não é suficiente saber que não estarei nesse mundo amanhã para contentar-se?
- Contentar-me? – Agora meu coração parecia um tambor sem controle em meu peito. Assumi minha forma humana e me aproximei dele. – Eu não o odeio, Kyle. Nem desejo o seu “desaparecimento”. – disse em tom mais ameno.
 - Os anjos também odeiam... Sei disso. Não precisa bancar a boazinha comigo... Há quase mil anos o seu Superior me transformou no que sou hoje. Depois Dele ter feito seu trabalho, tenho lutado para permanecer sobre a tênue linha que separa o Bem do Mal...
- O que quer dizer com isso? ....
- Ainda não percebeu o que sou, Ariel?
Eu não sabia o que dizer. Senti meu corpo tremer. Não conseguia articular palavra alguma. No fundo, temia o que viria a seguir. Então ele continuou.
- Cansei de viver no limiar entre duas espécies, sendo obrigado a seduzir para sobreviver. Hoje quando tive Leonora em meus braços conclui que não existe mais sentido em continuar vivendo dessa maneira. Dizem que a dor provocada pela falta de alimento até a desintegração total é terrível, mas não deve chegar aos pés do que tenho vivido nos últimos séculos
- Eu não estou entendendo... – A mágoa e o tormento na voz daquele homem, que até então parecia tão forte e imune às emoções humanas, demonstrava uma enorme desilusão e uma repentina fragilidade, que fizeram meu coração bater mais rápido. Só conseguia pensar em descobrir  uma maneira de ajudá-lo.
- Estou falando da maldição que o Seu Divino Superior lançou sobre mim e que me tornou o que sou. Isso! – E mostrou os caninos que subitamente alongaram-se mostrando a sua legítima casta. Retrocedi alguns passos, horrorizada com a revelação, mas logo o horror transformou-se em pena e a vontade de ampará-lo voltou imperiosa.
- Não tema, Ariel. Não pretendo lhe fazer mal. Não o farei a mais ninguém. – Rugas tomavam conta de seu rosto bonito e másculo e a dor era visível em seus gestos e em sua postura.
- Não tenho medo. Só não posso deixá-lo ficar assim... Você precisa de sangue e isso é evidente... – Pensei alguns instantes sobre minhas próximas palavras e terminei por dizê-las sem vacilo – Alimente-se de mim.
Os olhos de Kyle brilharam ao ouvir aquela declaração.
- A maldição diz que eu só posso beber de mulheres seduzidas por mim. Até nisso eles foram cruéis. Preciso cativá-las, mesmo não as querendo, possuí-las e só então beber de seu sangue. Como vê, não pode me alimentar, minha cara, já que me odeia e jamais teria qualquer sentimento por mim que não fosse nojo. Mas não se preocupe, pois minha decisão foi tomada. Diga a Dominic que o determinei como meu herdeiro, já que não possuo ninguém para quem deixar meus bens terrenos.
- Olhe, já estou ficando cansada dessa conversa. Vamos sair desse frio e voltar para dentro. Não me agrada a ideia de ver qualquer pessoa morrendo de inanição na minha frente... Muito menos um idoso como você. – Minha garganta estava seca e com muito custo consegui fazer alguma ironia da situação em que nos encontrávamos. Um sentimento totalmente imprevisto tomava conta de mim. Algo que jamais esperei sentir por alguém... Eu descobria que aquele homem, ou vampiro que fosse, era mais importante do que jamais imaginara. Eu não o odiava. Eu o... amava. – Nem pense em sair desse mundo, senhor Kyle Sinclair. Venha! – Acerquei-me e o circundei com minhas asas, fechando-as sobre ele de maneira a desmaterializá-lo juntamente comigo. Tomamos forma no andar abaixo.
Ajudei-o a deitar na cama. Ele estava ofegante, mas antes que me afastasse, sua mão tocou meu rosto.
- Por que está fazendo isso? – perguntou ele com súbita ternura.
- Já disse que não gosto de ver ninguém morrer na minha frente. – respondi desviando o rosto. Não queria que ele percebesse meus sentimentos por ele. Além disso, eu precisava agir rapidamente para salvá-lo. Tentei forçá-lo a cravar os dentes em meu punho, mas ele já não tinha forças para tal, além de parecer resistente. Ele queria morrer!
Corri ao banheiro e peguei um dos copos de vidro que lá estavam e o bati com força no mármore da bancada, estilhaçando-o. Com um dos cacos, fiz um corte profundo em meu punho e voltei ao quarto. Coloquei o pulso sangrante junto a sua boca.
- Beba, por favor...  Beba.
Ele sorriu tristemente, balançando a cabeça.
- Não vai adiantar, meu bem. Você nem ao menos gosta de mim.
- Experimente... Por favor. – implorei mais uma vez, sentindo lágrimas turvarem meus olhos. Não saberia dizer se foi o tom de desespero em minha voz ou se meu choro, mas ele cedeu ao meu pedido e passou a sugar meu pulso. A princípio debilmente, mas depois, à medida que suas forças retornavam, passou a sugar com força, sem tirar os olhos dos meus, enlaçando-me com o profundo verde de seus olhos. Era nítida a melhora dele. Todo o processo de envelhecimento rapidamente retrocedeu e todo o viço de antes retornou. Ao contrário de mim, que pouco a pouco fui enfraquecendo enquanto uma irresistível e agradável sonolência foi tomando conta de minha consciência.

- Ariel... Ariel... Fale comigo, por favor – Sua voz parecia vir de muito longe. Meu corpo pareceu flutuar por um momento. Num esforço para romper o torpor vi que Kyle havia me deitado em sua cama e me olhava num misto de preocupação e... desejo. Sentia seus dedos acariciando as raízes de meus cabelos e o contorno de meu rosto. A sensação era tão boa como um voo sobre os jardins do Éden.
- Você está bem? – disse com a voz enfraquecida.
- Sim... Graças a você. – respondeu ele sentando-se em uma cadeira que acabara de colocar ao lado da cama.
- Vai parar de pensar naquela bobagem de desaparecer e me contar sobre a maldita maldição da qual me falou a pouco?
- Este linguajar não é apropriado para uma boa anja como você. – comentou com um meio sorriso, segurando minha mão.
- Não sei mais o que é apropriado ou não. Só sei que quero conhecê-lo melhor e desvendar os mistérios que me trouxeram até aqui.
- Tem certeza que quer ouvir minha história? Ela é bastante longa e você ainda está muito fraca.
- Então essa é a hora exata para me contar.
- Pois bem... Já que insiste.


(continua...)

Olá! Parece que finalmente o nosso charmoso vampiro vai revelar o seu segredo para a nossa confusa Ariel. Gostaram? Na próxima sexta teremos mais...rsrsrs.
Agradeço mais uma vez às minhas queridas top comentaristas, Nadja e Léia, por seus comentários aqui no blog. Igualmente agradeço aos amigos César Farias, Carolina Lopes, Junior Menezes, Raphaela e Francilangela, que tão carinhosamente deixaram seu comentário lá no site da Aped Editora. 
Muito obrigada, mais uma vez, a todos vocês! 
Até a próxima sexta!Beijos!