segunda-feira, 13 de julho de 2009

Um Amor no Deserto - Capítulo VII



Sentia-se como nova após aquele banho, num dos chuveiros montados especialmente para os competidores. Apesar das súplicas de Chloe para que voltasse para Londres imediatamente, sentia-se animada com a perspectiva de continuar seu trabalho. Além disso, faziam parte do roteiro do rally duas das cidades que Daren havia citado quando descreveu sua trajetória. Bamako e Siguiri. Certamente ela chegaria lá antes dele, considerando a velocidade do camelo que o estava levando até os limites do deserto, se comparada à velocidade do helicóptero que a deixaria em Ségou. Pelo menos conheceria os locais por onde ele passaria em breve e sentir-se-ia um pouco mais próxima dele. Retomaria a corrida logo mais, no início da tarde. Já verificara sua moto e vira que ela estava realmente em condições.
Depois de vestir roupas limpas, antes do almoço, num momento em que estava só, resolveu ler a mensagem de Daren e abrir o presente.
“Amy,
Infelizmente não temos floriculturas ou joalherias ao nosso dispor aqui nestas dunas, por isso deixo algo que tem grande valor estimativo para mim, pois me foi dado por meu avô paterno. Ele servirá para que se lembre de mim durante esta longa ausência e conserve na memória as horas idílicas que passamos juntos. Com amor,
Daren”

Com os olhos marejados, soltou um suspiro e pegou o pacote entregue por Aisha. Abriu-o com cuidado e descobriu a corrente que ele costumava usar no pescoço e que a deixara curiosa quanto ao significado do símbolo pendente nela. Segundo ele próprio, aquele era um colar tamit, típico do artesanato tuareg, feito em prata, formado por um círculo representando a lua, no qual estava pendurado um losango, cujas arestas significavam quatro direções. A lua e as quatro direções representavam a preferência dos tuaregues de viajarem à noite, seguindo a orientação dos astros. Uma lágrima escapou-lhe, rolando lentamente por sua face. Colocou o colar e dobrou cuidadosamente o bilhete de Daren, guardando-o em sua mochila, junto com seu bloco de anotações.
- Amy... – Chloe entrou naquele momento em sua barraca – O que houve? Está chorando?
- Não foi nada, Chloe. Só um cisco que entrou no meu olho – respondeu, tentando desviar o olhar da irmã.
- Tristeza agora tem outro nome?... Amy, o que aconteceu nestes dias em que você ficou naquela aldeia tuaregue?
- Mana, isto é uma longa história, que, espero, ainda não tenha tido seu fim.
- Tem a ver com este colar em seu pescoço? – perguntou, apontando para a jóia, percebida naquele instante, adornando o colo de Amy.
- Uma outra hora, com calma, conto o que me aconteceu. Agora, vou voltar para a corrida.
- Vai mesmo continuar com esta loucura?
- É o meu trabalho, Chloe. Além do mais, não vou mais andar pelo deserto. Como a maioria dos competidores estão mais para o sul de Mali, combinei com o Irving que eles me levarão de helicóptero até Ségou e de lá continuo sozinha, pelas estradas existentes ali. Passo por Bamako, continuo através de Guiné, até entrar no Senegal e chegar a Dakar. Fique tranquila. Não vou me expor a mais riscos. Minha meta agora é apenas descrever as paragens por onde os corredores estão passando. Preciso terminar o trabalho que comecei. Prometi ao Jason.
Antes que Chloe pudesse argumentar mais um pouco, ouviram a voz de Jason a chamar por Amy.
- Já está pronta? O seu almoço já está servido.
- Já estou indo, Jason.
Olhou para Chloe, retribuindo, com um sorriso confortador, a expressão desolada da irmã.
- Vou aproveitar a carona do helicóptero. Tenho que voltar para Londres o mais rápido possível. Você sabe como é. Não posso me ausentar por muito tempo, senão as vendas do jornal caem – disse o editor, com um sorriso zombeteiro.
- Obrigada por toda esta atenção, Jason.
- Você sabe que é a minha repórter predileta, não sabe? – disse segurando a mão de Amy.
- E você é um grande sedutor mentiroso – retorquiu Amy.
- Eu não estou mentindo, Amy – falou sério, olhando-a mais profundamente.
Amy retribuiu com um sorriso tímido e retirou a mão, que ele continuava segurando firmemente, fugindo da tentativa de sedução de Jason.
Depois do almoço, Amy despediu-se de Chloe, que prometeu esperá-la em Dakar. Com sua moto já colocada dentro do helicóptero de grande porte, maior que aquele que a resgatara pela manhã, partiu para seu próximo destino.
Foi deixada próxima à cidade de Ségou. Despediu-se de Jason e de Irving, que lhe desejaram boa sorte, e seguiu viagem pela estrada de terra, acompanhando os concorrentes que por ali passavam, a caminho de Bamako. Apesar de saber que era pouco provável que Daren já estivesse na cidade, por todo o percurso esteve atenta a todos os carros com passageiros a procura dele. Após uma parada de poucas horas na capital de Mali, seguiu para Guiné. Como todo bom estado africano, Guiné enfrentava mais uma crise política. Há dois anos, o coronel Lansana Conté assumira o governo e vários grupos oposicionistas criavam focos de revolta no país. Esperava que os voluntários do MSF não estivessem na mira destes revolucionários. Em geral, havia certo respeito pelo pessoal da saúde que prestava serviços à comunidade carente, mas nunca se podia ter certeza disso. Apesar de tudo, ficou deslumbrada com a variedade de paisagens por onde passava durante o dia. Florestas com lindas cachoeiras, grandes extensões de pastagens, as montanhas e a savana. O povo a surpreendeu com a alegria em meio à adversidade e à pobreza. Nos diversos povoados por onde passava via mulheres cantando, com suas roupas coloridas, carregando trouxas ou cestos com mantimentos na cabeça, crianças brincando ou jogando bola nas ruas poeirentas, sem calçamento, com esgotos a céu aberto, casas precárias, muitas vezes sem telhado, com calçadas semi-destruídas, quando estas existiam.
Com freqüência emocionava-se ao lembrar que Daren trabalharia como voluntário naquele país, levando seus conhecimentos médicos, numa tentativa de ajudar aquelas pessoas tão abandonados à própria sorte.
Depois da parada habitual para descanso, alimentação e reabastecimento da moto, Amy seguiu para a última etapa que seria entrar no Senegal e chegar à Dakar. Pesarosa, partiu de Guiné sem ter visto seu amor. Agora deveria pensar em seu trabalho. Jason aguardava a elaboração final do diário para começar a sua publicação no British News ao final do rally. Manter-se-ia o mais ocupada possível nos próximos meses, dedicando-se exaustivamente ao trabalho no jornal. Imaginava que dessa maneira o tempo passaria mais rápido.
No dia 22 de Janeiro os primeiros concorrentes chegaram à Dakar. Obviamente que Amy foi uma das últimas, mas sua chegada foi muito festejada por sua irmã e, à distância, por sua mãe e por Jason.
Normalmente o final da competição era cercado de muita festa e alegria, porém, naquele fatídico ano, o clima de tristeza era predominante, mesmo entre os vencedores em suas categorias.
O corpo de Thierry Sabine seria cremado e suas cinzas jogadas nas areias do deserto, sua grande paixão. Para alívio de muitos, a organização passaria a contar com um novo comandante, não menos importante que Thierry. Seu pai, Gilbert Sabine, que não permitiria que o sonho de seu filho morresse com ele.

As férias de Amy chegavam ao fim. Antes de partir de volta para a Inglaterra, tentou um contato com o MSF, na esperança de poder mandar alguma mensagem para Daren. Porém, não souberam informar-lhe se ele já chegara a Seguiri ou para onde ele seria designado. Poderia ter esta informação dentro de uma semana. Com um sentimento de vazio e perda em seu coração, entrou no avião da British Airlines no dia 24 de Janeiro.
Neste mesmo dia, Daren recebeu a determinação de que fora designado a trabalhar junto à população de Faranah, uma cidade no centro do país, próxima ao Parque Nacional do Alto Niger. Lá seriam acomodados em uma casa antiga, onde funcionaria o ambulatório. Seriam uma equipe composta por dois médicos, dois enfermeiros e uma assistente social. Teriam muito trabalho pela frente. Seriam levados no dia seguinte por uma das vans do MSF, juntamente com medicações e alguns alimentos. O resto seguiria mais tarde, quando eles já estivessem acomodados no futuro posto.
Apesar de animado com o trabalho que o aguardava, seu pensamento com freqüência voltava-se para Amy. Já teria ela sido levada de volta para casa? Teria encontrado a irmã bem? Estas e outras indagações ainda iriam acompanhá-lo por muitos dias. Esperava poder mandar uma carta para Amy assim que chegasse à Faranah e soubesse das condições do correio local.

Na sua volta à Londres, Amy, sem esperar o término do seu período de férias, jogou-se sobre o trabalho de edição de seu diário. Chegou a citar o nome de Aisha e os fatos pitorescos ocorridos no acampamento tuaregue, como o nascimento da pequena Malak e a festa da véspera de sua partida. Obviamente nem uma palavra sobre Daren foi dita ou escrita. Jason ficou muito satisfeito com a repercussão que a publicação do diário de Amy estava obtendo. Recebera muitos elogios por este trabalho. Ela, por sua vez, não parecia muito excitada com esta recepção por parte do editor e do publico. Continuava usando seu presente junto ao corpo como maneira de lembrar-se de Daren. Não era raro pegar-se a sonhar acordada com o oásis e lembrar do acordo que fizera com ele. Esperava que ele também lembrasse.
Chloe sentia a irmã diferente. Já não parecia mais a mesma mulher intrépida e teimosa de antes. Sentia-a mais dispersiva, talvez um pouco mais madura. Já tinha conhecido outras mulheres com aquela expressão sonhadora no rosto.


- Chloe! Que surpresa! O que está fazendo aqui? – exclamou Amy ao receber a irmã em seu apartamento, em Nothing Hill, num sábado pela manhã.
- Desculpe ter vindo sem avisar, – desculpou-se, já entrando sala adentro - mas é que ando preocupada com você, desde que voltou daquela corrida maluca.
- Por quê? Eu estou muito bem. Não há com o que se preocupar – disse Amy, enquanto fechava a porta atrás de si.
- Você ainda não me contou o que aconteceu naquele deserto – falando isso, sentou-se no confortável sofá da sala de Amy, com cara de quem não sairia dali enquanto não soubesse todos os detalhes daquele período – Sabe que até o Jason anda preocupado? Acha que você não está mais tão satisfeita com seu trabalho na redação.
- Nossa, mas de onde vocês tiraram toda esta aflição?
- Ele também tem notado você distante...
- Por que ele não falou diretamente comigo? Ele se queixou sobre o meu trabalho?
- Não! Mas é que você está diferente de alguma maneira, desde que voltou da África.
Amy sentou-se na poltrona em frente ao sofá, pensativa.
- Chloe, eu tenho feito um grande esforço para me dedicar exclusivamente ao meu trabalho no jornal, mas sei que às vezes fico distraída...
- Quem é ele? Eu aposto que tem mais alguém nesta história.
- Como você adivinhou?
- Este olhar insosso, perdido no nada... Conheço muito bem.
- E você acha isso ruim?
- Sim, se a pessoa em questão for um selvagem do deserto. Quem mais poderia ser vivendo naquele fim do mundo?
- É um homem maravilhoso, adorável, encantador... – falava com expressão embevecida ao lembrar de Daren.
- Está apaixonada mesmo. Quem diria... Quem foi a fera que conseguiu domá-la?
Amy levantou-se e atravessou o espaço entre ela e Chloe, sentando-se ao seu lado e abraçando-a carinhosamente.
- O nome dele é Daren e não é um selvagem. Ele é neto de um tuaregue, mas nasceu na Inglaterra e mora aqui. É médico e está trabalhando em Guiné, neste momento. Assim que ele voltar de lá, vamos ficar juntos – seus olhos brilhavam, perdidos nas lembranças, ao falar dele – Ah, Chloe... Eu estou realmente apaixonada. Acho que encontrei o homem da minha vida.
- Querida, cuidado. Não se engane. Quanto tempo vocês ficaram juntos? Dois, três dias? Provavelmente ele nem vai mais lembrar de você quando voltar.
- Por que você está falando desse jeito? Só porque você ainda não encontrou ninguém depois do que o Leo fez? – ela ficara irritada com a amargura da outra.
Chloe ficou muito séria, de repente, e Amy percebeu que tinha falado demais. Lembrou do que acontecera com o noivo da irmã há três anos atrás. Ela fora abandonada na porta de uma igreja e nunca mais recuperara a confiança nos homens.
- Desculpe, Chloe, não queria dizer isso... Você não conheceu Daren. Ele é diferente dos outros... Está vendo isto? – perguntou mostrando o colar tamit, que jamais tirava do pescoço – foi um presente que seu avô lhe deu, e que ele me deixou para que eu lembrasse dele na sua ausência.
Chloe engoliu em seco, deu um suspiro e voltou a falar.
- Sei que não sou a melhor pessoa para aconselhar sobre estes assuntos, mas a minha única preocupação é com você. Não quero que se magoe, Amy. Toque a sua vida em frente e não crie ilusões a respeito deste homem... Ele já entrou em contato com você depois que se separaram?
- Não... Mas imagino que não seja muito fácil conseguir comunicação onde ele está.
- Estamos em 1986, Amy... – começou sua crítica, mas resolveu calar-se, notando o olhar apreensivo de sua irmã – Está bem. Me desculpe. Talvez ele não tenha tido tempo de escrever ou ligar. Você disse que ele é médico?
- É. Ele está trabalhando para os Médicos Sem Fronteira, numa cidade do interior, chamada Faranah, segundo me informaram na minha última tentativa de obter informações. Mandei uma carta para ele na semana passada, mas até agora não obtive resposta. Mas tenho certeza que ele vai responder assim que puder.
- Está bem, Amy. Talvez eu esteja sendo pessimista demais. Pelo modo como você fala dele, imagino que ele deva ser um bom rapaz... – resolveu ceder na sua resistência e sorrir amigavelmente – Posso contar isso para o Jason?
- Ainda não entendo por que ele não se dirigiu diretamente a mim, mas não vejo problema algum em que ele saiba. Talvez até ajude a fazer com que ele pare de me incomodar com suas cantadas.
- Sempre suspeitei que o Jason tinha uma quedinha por você.
- Jason tem uma quedinha por todas as mulheres do mundo. Não sou a única. Se duvidar, você também entra no páreo.
- Deus me livre. Já tomei a minha dose cavalar de vacina contra cafajestes.
- Chloe... Desculpe por ter falado no Leo.
- Não se preocupe. Reconheço que ele me deixou mais descrente a respeito dos homens. Mas eu estou trabalhando isto com o meu analista. Pode deixar que ainda me curo desta doença.
Abraçaram-se e continuaram a conversar sobre outros assuntos.




Reconheço que este não foi um capítulo apimentado como os outros, mas ele servirá de base para as próximas emoções. Deixo com vocês um vídeo muito interessante que descobri mostrando fotos de Guiné e que serviram para as descriçoes que faço no texto acima. Um grande beijo a todas e muito obrigada por todo o estímulo que tenho recebido.


sexta-feira, 10 de julho de 2009

Um Amor no Deserto - Capítulo VI




Seguiram para o acampamento tuaregue. Ela o acompanhou na visita à recém-nascida e sua mãe. Após verificar que estavam ambas bem e saudáveis, saíram da tenda, e puderam ver ao longe a chegada de uma caravana ao oásis, provavelmente para abastecer-se de água e provisões.
- Será que eles sabem de alguma notícia a respeito do incidente com o helicóptero? – perguntou Amy ansiosa.
- Eu vou até lá para falar com eles – antecipou-se Daren.
- Vou junto com você.
- Melhor não.
- Por que não? Ainda está com medo que eu fuja? – falou rindo.
- Está bem. Vamos, então – dando-se por vencido.
No fundo, queria protegê-la de uma má notícia.
Foram até os homens que, no momento, desmontavam de seus camelos. Descobriram que três deles eram franceses que estavam aventurando-se numa viagem através do deserto, desde o Marrocos até a Costa do Marfim. Casualmente, ao serem questionados a respeito de notícias sobre o rally Paris-Dakar, disseram ter ouvido falar sobre o acidente com o helicóptero na altura da fronteira sudeste de Mali-Niger, não muito longe dali. Haviam encontrado alguns participantes desistentes da prova muito abatidos com a morte de Thierry Sabine. Ele e mais quatro pessoas tinham perdido a vida, devido a uma tempestade de areia que os surpreendeu em pleno vôo.
Amy sentiu suas pernas fraquejarem ao ouvir o relato do viajante francês. Daren segurou-a, enlaçando-a pela cintura, com medo que ela pudesse cair ao chão, dependendo do que estavam por ouvir.
- Vocês sabem o nome dos outros que acompanhavam Sabine? – perguntou Daren receoso.
-Parece que além do piloto e de um técnico de rádio, estavam um cantor e uma jornalista.
- Não! – exclamou Amy, já perdendo as esperanças e entrando em desespero.
- Sabem o nome desta jornalista? Ela era inglesa? – Daren insistiu no questionamento, ainda esperando que houvesse algum engano.
Depois de pensar um pouco, o rapaz respondeu fazendo um esforço de memória:
- Ela era francesa como nós. Seu nome era...Nadi...Non... Nathaly. Oui! Nathaly Odent. Este era o nome dela.
- Oh, graças! – Amy só faltou beijar o francês de tão agradecida pela informação redentora – Daren, ela está viva!
- Non, a jornalista morreu, mademoiselle – replicou, surpreso com a reação da inglesa, achando que ela enlouquecera.
Daren explicou-lhe rapidamente o que estava acontecendo, num francês quase sem sotaque, explicando o porquê da alegria de Amy. Agradeceu pelas informações e desejou-lhes uma boa viagem.
Abraçado a Amy, voltaram para a aldeia, vibrando com a boa nova.
- Sei que devia estar triste pela morte de Thierry. Ele era uma pessoa especial. Imagino como deve estar o astral do pessoal que participa do rally. Foi ele que planejou tudo isto. Como vai ser daqui para frente? Quem vai assumir este evento tão importante? – disse Amy, sentindo-se subitamente mal por estar sendo tão egoísta, pensando só em Chloe.
- Não se preocupe com isso agora. Certamente alguém vai continuar com esta realização. Há muitos interesses em jogo. O que importa agora é que a sua irmã está viva e você vai reencontrá-la em muito breve. Que tal descansar um pouco e preparar-se para a festa de hoje à noite?
- Vocês são bem festeiros por aqui, não? Têm festas todas as noites.
- Por que não? Não existe nenhum outro tipo de diversão por aqui. Por que não dançar e cantar para espantar a tristeza? O deserto pode ser bastante depressivo se não houver estas manifestações depois de um dia de trabalho, para afastar os espíritos maléficos.
- Não estou me queixando, não. Acho ótimas estas reuniões junto ao fogo e a alegria dos participantes.
- E hoje temos dois excelentes motivos para festejar: o nascimento de Malak e o “renascimento” da sua irmã.
Ele a acompanhou até sua tenda e quando fez menção de despedir-se, Amy, enlaçou-o pelo pescoço com seus braços e perguntou:
- O que você vai fazer agora? Não quer descansar aqui na minha tenda, nobre Daren? – olhou-o sedutoramente.
- A senhorita anda muito impetuosa – censurou-a divertido – Tenho que descansar um pouco, pois o sono antes do nosso almoço não foi suficiente, e eu quero estar em plena forma para a noite...
Evitou falar que teria de arrumar suas coisas para a viagem do dia seguinte, para não incomodá-la.
- Bem, este é um bom motivo para que eu o libere de minha companhia. Tem mesmo certeza que não quer descansar aqui? – ainda o tentou mais uma vez.
Ele apenas devolveu um sorriso e depositou um beijo carinhoso sobre seus lábios.
- Eu a encontro aqui ao anoitecer. Espere por mim.
- Vamos a algum restaurante chique? – brincou.
- Quase isso... – respondeu com um ar de mistério.
Despediu-se, deixando Amy imaginando a noite que estava por vir, na entrada de sua tenda. Sentia-se plenamente feliz, agora, sabendo que sua irmã estava bem.
Aisha apareceu pouco depois, levando uma roupa limpa para Amy, que segundo pode entender, tinha sido a pedido de Daren. Também era uma túnica branca, como a que vestira desde sua chegada, mas esta possuía alguns detalhes bordados à mão. Era simples, mas muito bonita. E limpa, o que era o melhor de tudo. Depois de fazer sua higiene, Amy vestiu-se para o jantar. Colocou um véu sobre a cabeça, sem cobrir o rosto, como era hábito entre as mulheres tuaregues, e ficou esperando por seu anfitrião na porta de sua “morada”.
Daren chegou elegantíssimo, com uma espécie de manto e um turbante com véu brancos, deixando entrever que trajava um jeans e uma camisa verde clara sob a roupa típica. Ele estava irresistível.
Sem falar palavra alguma, empurrou-a com delicadeza para dentro da tenda, descobriu o rosto e pousou o olhar de profundo verde sobre os olhos de Amy.
- Estava com saudades... – dizendo isto em voz baixa e rouca, aproximou-se ainda mais e segurou o rosto dela com as mãos grandes e bem feitas e selou seus lábios com a boca ansiosa por sentir seu gosto.
Ainda recuperando-se do ato impetuoso de Daren, ela conseguiu dizer, com os olhos semicerrados:
- Se este é apenas o início da nossa última noite juntos aqui neste deserto, fico pensando se vou sobreviver a ela...
Com um sorriso fechado, mas extremamente charmoso, retorquiu:
- Não só vai sobreviver, como vai lembrá-la por muito tempo...
- Isto é uma ameaça?
- Totalmente... – murmurou e voltou a beijá-la com ardor.
Refeitos daquela onda de desejo, seguiram de mãos dadas rumo a uma grande barraca armada no centro do acampamento. Chegando ali, encontraram o que seria a família da pequena Malak e mais alguns convidados. Um jantar especial havia sido arranjado para festejar o nascimento do seu mais novo membro. Pratos raros de se ver por ali, como o cuscus de sêmola acompanhando um assado de cordeiro, estavam presentes à mesa. Daren parecia ser o convidado de honra. Era também a sua despedida dos primos distantes. Amy não tinha tido coragem de perguntar como e a que horas ele partiria de lá no dia seguinte. Após o banquete festivo, tiveram início as danças e cantos, desta vez sobre tapetes finamente tecidos. A canção nas vozes estridentes das mulheres incitava os homens a dançarem. Por mais que Amy tentasse imitar os sons produzidos por aquelas mulheres a sua volta, não conseguia ser bem sucedida. Por isso resolvera apenas manter-se sorrindo, batendo palmas e acompanhando o ritmo da música. Já Daren foi convidado a participar da dança guerreira que era protagonizada pelos ágeis tuaregues. Desenvolto e totalmente à vontade, acompanhava todos os passos do balé masculino empunhando uma espada de lâmina curva. Aos poucos, as mulheres casadas foram também juntar-se aos maridos.
Já passava das dez horas da noite, quando Daren começou a despedir-se dos amigos e convidou Amy a sair dali. Antes, ela pediu que ele transmitisse o seu agradecimento pela acolhida durante o período em que estivera ali, em especial a Aisha, que também estava presente, e que a servira tão carinhosamente. Acreditava que também partiria no dia seguinte.
Saíram e foram caminhar um pouco, respirando a brisa fresca que transitava na noite clara, iluminada apenas pelas estrelas e pela lua, que mais parecia um grande escudo prateado suspenso nos céus do Sahara.
Apesar de toda a alegria que os rodeara até ali, sentiam o coração apertado pela sombra da separação iminente.
- Você vai mesmo partir amanhã? – falou Amy, rompendo o silêncio entre eles.
- Sim. Vou ter de partir pela manhã, com um grupo que vai até Gao, e de lá pegar uma ou várias conduções até Siguiri, em Guiné. De lá saberei para qual região serei designado.
Os olhos de Amy encheram-se de lágrimas. Não conseguia mais conter a tristeza de ter que despedir-se de Daren tão cedo. A sensação de um nó em sua garganta impediu-a de perguntar mais detalhes. Ele notou sua reação e abraçou-a ternamente, confortando-a com o calor de seu corpo.
- Amy, vai ser por pouco tempo. O que eu pensava ser impossível, já não me parece tão difícil. Cada momento passado a seu lado me faz ter mais certeza que quero lutar para estar junto a você novamente.
- Eu vou esperar. Não importa quanto tempo. Assim que voltar de Guiné, me procure. Vou deixar meu endereço e telefones – falou entre lágrimas silenciosas.
A angústia daquele momento, de repente transformou-se em desejo intenso. Daren sorvia cada lágrima de Amy com um toque suave de lábios em sua face. De olhos fechados, ela se deixava abandonar àquele carinho prazeroso. Logo ela sentiu-se erguida no ar, sendo carregada por ele no caminho até a sua tenda. Lá chegando, ele a colocou de pé a sua frente, tirou o turbante e seu manto e começou a despi-la devagar, sem deixar de mirá-la profundamente, hipnotizando-a com o verde brilho de seu olhar. Tão logo a tinha nua diante de si, começou a abrir os botões de sua camisa, no que foi impedido por ela, que assumiu esta ação, roubando uma expressão de discreto regozijo de Daren. Com a mesma calma que ele, despiu-o, para logo em seguida começar a roçar o peito amplo e forte com os lábios, arrancando-lhe gemidos contidos de prazer. Do tórax, Amy foi abaixando-se, tocando, com a boca e a língua, o abdômen rijo, sem deixar de acariciá-lo em suas costas e nádegas, com as mãos. Resistindo à vontade de possuí-la, levantou-a delicadamente até onde pudesse cruzar seus olhares e a beijou
. Cingida na cintura, pelo abraço dele, Amy inclinou levemente a cabeça, para permitir que os lábios de Daren percorressem o caminho da linha de seu pescoço, descendo até os seios macios e arredondados, de mamilos túrgidos, que logo foram degustados por uma boca voraz. Entre suspiros e gemidos, Daren a conduziu com cuidado até o solo, sobre os tapetes espalhados na areia, que serviam de cama naquela tenda. Em poucos minutos, incendiados pelo anseio de possuir e ser possuída, entregaram-se à luxúria das carícias cada vez mais íntimas, até Amy ser penetrada com vigor e levada ao êxtase completo quase que simultaneamente com seu par.
Naquela noite de despedida amaram-se incansavelmente, como se isso pudesse evitar a separação no dia seguinte. Desejavam que a escuridão no deserto se tornasse eterna e que o novo amanhecer não chegasse até eles.
Mas o novo dia chegou e encontrou o casal de amantes exaurido, mas satisfeito. Daren foi o primeiro a acordar e pôs-se a admirar o semblante sereno de Amy, o movimento da respiração provocando um ondular suave de seu peito... Se pudesse voltar atrás... Mas não. Tinha um compromisso com a organização e com ele próprio, pois há muito tempo desejava fazer parte daquela equipe de médicos e levar assistência aos mais necessitados. Também ganharia em experiência profissional e pessoal. Precisava acreditar nisso. Agora, mais do que nunca.
Amy começou a despertar e logo seu olhar procurou pelo de Daren, que continuava deitado ao seu lado.
- Já amanheceu? – perguntou temerosa.
- Já.
- Me abraça... – suplicou, aconchegando-se junto a ele.
Enquanto tentavam enganar o andar do tempo, ouviram uma voz próxima à tenda.
- Daren!! – soou a voz de Aisha como um grito abafado.
Amy não entendeu as palavras seguintes, pois eram ditas em tamashek, mas imaginou que não era uma notícia muito agradável para o momento.
Daren levantou-se rapidamente e começou a vestir-se. Amy seguiu-o, colocando suas roupas também, adivinhando o que Aisha havia dito.
- Meu bem, acho que chegou a hora, infelizmente. O grupo que falei já está pronto para partir. Terei de ir agora.
Um peso qual chumbo caiu sobre o peito de Amy, que respirou fundo e tentou não fazer nenhum escândalo.
- Posso acompanhar você até lá?
- Claro que pode. Vamos... – disse, ajudando-a a terminar de vestir-se.
Aisha ainda estava à entrada da tenda, aguardando-os.
- Bonjour, Aisha – cumprimentou Amy, sem muito entusiasmo.
- Bonjour! – disse a garota com um grande sorriso.
Em língua tuaregue, Daren pediu a Aisha que avisasse aos homens que o aguardavam que logo estaria com eles. A moça saiu correndo prestativa.
Logo chegaram à tenda onde Daren lavou-se na bacia com água limpa que ali estava e trocou-se, colocando vestes mais simples, apropriadas para a jornada que tinha pela frente. Toda esta movimentação era observada por Amy, calada e circunspecta. De repente, ela lembrou alguma coisa e falou:
- Daren, eu ainda não sei o seu nome completo, por incrível que pareça. Para o caso de eu querer saber notícias suas com o MSF...
- Lógico! Que falta de educação a minha. O meu nome completo é Thomas Daren Watson.
- Dr. Thomas Daren Watson... Gostei. E o sobrenome de seu pai?
- Meu pai não queria que houvesse qualquer tipo de preconceito para com os filhos. Ele já tinha passado por experiências negativas antes. Só Daren lembra a África, onde ele nasceu, por ser um nome nigeriano.
- Bem, agora que já fui apresentada ao senhor, posso lhe dar um beijo? – falou com a voz tremula, tentando evitar a dor que estava sentindo.
- Amy – disse ele virando-se para ela e abraçando-a com força – Vai passar rápido. Prometo que logo voltaremos a ficar juntos.
- Melhor não prometer nada. Tenho medo de promessas...
Ele inclinou-se sobre ela e a beijou com ternura.
- Não esqueça do nosso oásis – murmurou Amy.
- Não esquecerei, querida... Agora tenho de ir – sua voz também estava embargada pela emoção. Sentia-se como que perdendo uma parte de si. Com tristeza, pegou sua mala, colocou a mochila às costas e deu a mão para Amy. Dali saíram para encontrar a caravana que o levaria para Bamako, capital de Mali.
Antes de separarem-se e subir em seu camelo, Daren deu um último beijo apaixonado em Amy, que ainda fazia um esforço sobre-humano para conter as lágrimas. Não queria fazer papel de chorona na frente de todos. Aisha, que estava ao seu lado, pareceu compreender o que estava acontecendo e passou o braço sobre os ombros de sua hóspede, tentando consolá-la.
Perderam a conta de quanto tempo ficaram paradas olhando a caravana desaparecer no horizonte, atrás das dunas ensolaradas. Amy sentia-se paralisada, como se a vida estivesse esvaindo-se de seu corpo. Foi Aisha que a fez voltar à realidade, puxando-a pelo braço e levando-a para um passeio pelos arredores, falando muito, palavras em francês e outras em dialeto, não entendidas por Amy, mas que serviam para ocupar um pouco a sua mente.
Quando voltavam para a tenda, ouviu-se o som de um motor ao longe. Logo surgiu um grande helicóptero no ar, indo na direção do oásis. Amy e Aisha correram para o local de pouso. Lá estava a enorme máquina pousando, espalhando grande quantidade de areia aos ventos. Quando finalmente estava em terra firme, Amy identificou o símbolo do Rally Paris-Dakar marcando as ferragens do aparelho. A porta se abriu e um dos organizadores conhecido por Amy saiu, seguido por...Chloe.
- Chloe!! – gritou Amy, já correndo em sua direção. A princípio, Chloe não a reconheceu devido aos trajes tuaregues. Só quando estavam muito próximas, ela pode identificar quem a estava chamando tão desesperadamente.
- Amy!! Graças a Deus! Você está bem! – exclamou alto, abrindo os braços para acolher sua irmã.
Entre risos e choros, abraçaram-se efusivamente.
- Amy, nós quase morremos de preocupação quando você sumiu. O que aconteceu? Como veio parar aqui?
- E eu, quando soube do acidente com o helicóptero, quase enlouqueci pensando que a perdera...
No meio de toda esta emoção, fez-se ouvir uma voz grave e alegre:
- Então a nossa jornalista mais audaciosa está bem e pronta para voltar à ativa!
Era Jason, seu editor, que não fora percebido ao descer atrás de Chloe.
- Jason, o que você está fazendo aqui? – perguntou Amy surpresa com a inesperada presença.
- Quando soube do seu desaparecimento e do acidente com Thierry, tomei o primeiro avião e voei para cá imediatamente – disse, aproximando-se e abraçando-a calorosamente – Você nos deixou muito preocupados.
- Querida, que tal pegar suas coisas e dar o fora daqui? Temos que ligar para mamãe em Londres e avisá-la que está tudo bem agora. Ela queria ter vindo mas não deixei.
- Na verdade não tenho nada comigo. Minha mochila com cantil e bloco de anotações ficaram na moto, que está perdida a alguns quilômetros daqui.
- Já acharam a sua moto – interrompeu Irving, o organizador que ainda não tivera chance de falar com a participante do rally – Ela já foi recolhida, bem como seus pertences, e está a sua espera em Akabar. É um prazer tê-la de volta, Amy – cumprimentou-a com um beijo na face.
- Então posso voltar à corrida. Estou muito defasada do resto dos corredores?
- Amy, você não é louca de voltar para a corrida agora – censurou-a Chloe.
- Esta é a minha garota! – exclamou Jason.
- Na verdade, a corrida foi paralisada e só hoje reiniciou o deslocamento dos participantes. Como você está apenas participando sem competir, nada impede que volte ao rally. Tem certeza que quer mesmo isso? – questionou-a Irving.
- Claro que tenho. Ainda não completei meu trabalho para o jornal.
- Dona Amy, você não vai fazer isto. Quer matar nossa mãe do coração?
- A próxima fase é em Guiné, certo? – certificou-se Amy para Irving.
- Sim.
- Então, vamos pegar minha moto. Ela está em condições?
- Sem dúvida, moça. Pronta e a sua espera – confirmou Jason animadamente, para aflição de Chloe.
- Vocês podem me esperar mais alguns minutos? Preciso despedir-me de algumas pessoas – dizendo isto, pegou na mão de Aisha que continuava ao seu lado sem dizer palavra e sem entender nada do que era dito – Esta é minha amiga Aisha. Foi ela quem cuidou de mim enquanto estive aqui. Eu já volto. Me esperem, por favor.
Virou-se, sob o olhar admirado de seus amigos, e saiu de volta para a aldeia, de mãos dadas com a jovem tuaregue. Conseguiu fazê-la entender que partiria no helicóptero em alguns minutos e que queria dar uma última olhada em sua tenda.
Antes de lá chegar, despediu-se de algumas pessoas, entre elas, a pequena Malak e sua família. Já em sua tenda, relembrando os momentos passados à noite, mal notou quando Aisha retirou um pequeno embrulho e um envelope de seu bolso. Quando Amy foi abraçá-la, recebeu o presente. Apesar de não ter conhecido a letra de Daren, percebeu, pelo modo como o envelope estava subscritado, que ele tinha deixado uma mensagem para ela.
Abraçou a nova amiga afetuosamente e disse algumas palavras em francês para que ela pudesse entender o quanto estava grata por tudo que tinha feito por ela. Decidiu abrir o presente e o envelope quando estivesse a sós. Trocou sua túnica pela bermuda e camiseta que vestia quando foi encontrada por Daren, agradeceu mais uma vez à Aisha e despediu-se, deixando a jovem acenando-lhe, parada, na entrada da barraca, com um largo sorriso, de dentes alvos.
Correu ao encontro do helicóptero, onde todos a esperavam ansiosos para retornar à base em Akabar. Em poucos minutos, o aparelho fez girar suas poderosas hélices, mais uma vez levantando as areias do deserto como uma tempestade encomendada, levando Amy e suas lembranças para longe.







Não fiquem tristes com esta separação. Muita água ainda vai rolar nestas areias. Se tiverem um pouquinho de paciência, logo o 7º capítulo sai com novas emoções...rsrsrs
Um grande beijo para todas!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Um Amor no Deserto - Capítulo V




Amy foi despertada pelos raios de sol que insistiam em penetrar através das aberturas na lona de sua tenda. Sentia-se leve. Espreguiçou-se e levou seu primeiro pensamento para Daren e a noite maravilhosa que tivera com ele. Mal podia esperar para vê-lo novamente. Não queria pensar em mais nada. Mas não pode evitar o pensamento seguinte, que a fez entristecer. A possibilidade de ter perdido sua irmã e a culpa que sentiria se isto fosse confirmado... Tentou desviar-se deste pensamento trágico. Logo saberia de fato o que ocorrera. Neste instante chegou a nativa que costumava servi-la. Ainda não perguntara o seu nome. Depois de algumas mímicas, conseguiu saber. O nome dela era Aisha. Fora ela que na noite anterior lhe dera o empurrão para ir ao encontro de Daren. Em um francês meio atrapalhado, Aisha conseguiu dizer que era da família de Aziz, pai de Daren, e, portanto, sua prima distante. Amy perguntou-lhe sobre o primo, mas ela não conseguiu expressar-se. Com dificuldade conseguiu que a garota a levasse até a tenda dele, quando viu, com tristeza, que ele não estava lá. Ao ser perguntada novamente sobre o paradeiro do primo, Aisha ficou rindo envergonhada, com a mão sobre a boca, como parecia ser costume entra as jovens solteiras de lá. Ele tinha prometido passar o dia com ela e, agora, desaparecia. Estaria fugindo? Eles tinham tão pouco tempo juntos...
Resolveu ficar ali esperando que ele aparecesse, apesar dos pedidos de Aisha, que insistia em que ela fosse para fora. Como visse que Amy não arredaria pé dali, saiu correndo e desapareceu no meio do movimento do pequeno povoado de lonas e panos. Começou a andar pelo modesto espaço onde ele dormia e tinha suas coisas pessoais pelo chão, amontoadas pelos cantos do abrigo. A mala de couro pequena, uma mochila cáqui, o seu cantil de água, algumas roupas jogadas sobre um arremedo de poltrona e, sobre uma mesinha baixa, a provável urna funerária que teria contido as cinzas de seu pai. Os pensamentos de morte logo voltaram a atormentá-la. Resolveu sentar-se na “poltrona”, que nada mais era que um grande saco de couro, provavelmente de camelo, cheio de areia, mas surpreendentemente confortável. Abraçou-se às roupas que estavam sobre ela, e que ainda tinham o cheiro de seu dono, e ficou revendo mentalmente tudo que lhe acontecera desde o momento em que acordara naquele acampamento e fora surpreendida pelo olhar preocupado de Daren até a noite de pura fantasia que vivera com ele algumas horas antes.
- O que você está fazendo aí? – a voz grave e alegre tirou-a de suas lembranças, fazendo-a estremecer – Eu estava lhe procurando.
Aproximou-se e ajoelhou-se diante dela, envolvendo-a pelos quadris com os braços. Tinha uma expressão cansada, mas satisfeita e feliz. Ela retribuiu o carinho passando os braços em torno de seu pescoço e aproximando-o de seu rosto.
- Estava com saudades... Por onde você andava? Pensei que tinha me abandonado – disse, fazendo um beicinho tristonho.
Dando-lhe um beijo suave sobre os lábios arrebitados, Daren perguntou-lhe alegremente:
- Quer saber o que eu estava fazendo?
- Se você quiser me contar...
- Na verdade, pouco depois que a deixei, fui passar a noite com outras duas mulheres.
- O quê? ... – exclamou furiosa, levantando-se imediatamente, quase o jogando ao chão – E você tem coragem de me dizer isto, rindo deste jeito. O que você está pensando? Vocês não são monogâmicos?
- E desde quando sou casado com você? – perguntou ironicamente, levantando-se e colocando-se junto a Amy.
Ela estava irritada com o olhar mordaz que ele lhe apresentava, sem tirar aquele sorriso aberto do rosto. Foi quando ele a pegou pela mão, puxando-a e forçando-a a acompanhá-lo.
- Onde você está me levando, seu berbere disfarçado.
- Você vai conhecer com quem eu terminei minha noite.
E dizendo isso, passou a praticamente arrastá-la até uma tenda distante alguns metros dali, onde havia uma certa movimentação de mulheres que festejavam algum acontecimento. Ao ver Daren aproximando-se, uma das mulheres mais idosas veio cumprimentá-lo efusivamente. Depois disso, entrou na barraca.
- Você pode me dizer o que significa isto? – perguntou Amy em voz baixa.
- Esta é uma das cerimônias mais importantes entre os tuaregues. Ocorre logo após o nascimento de uma criança... – ele calou-se no momento em que a velha senhora saía com um recém nascido envolto em panos brancos. Ela aproximou-se de Amy e mostrou-lhe o bebê com orgulho. Falou algumas palavras para Daren e foi ao encontro das outras mulheres que começavam a entoar um cântico alegre. Começaram a dar voltas em torno da tenda, sem parar de cantar e, ao fim de alguns minutos, a que parecia ser a líder delas, sacou uma faca, de cabo trabalhado em ferro, e enterrou-a na areia, em frente à entrada da tenda. A velha com a criança gritou um nome – Malak – e continuaram a cantar e emitir sons agudos feitos através de movimentos produzidos pela língua, como trinados.
Sorrindo, Daren disse algumas palavras em tamashek, fez uma reverência e despediu-se. Pegou Amy pelo braço e saiu andando na direção de sua tenda.
- Daren, o que aconteceu? – perguntou, já imaginando o que tinha ocorrido durante a noite.
- Ontem, pouco depois de eu chegar aqui, uma daquelas mulheres que você viu veio a minha procura. A filha estava em trabalho de parto, mas não estava evoluindo como o esperado. O bebê estava mal posicionado. Por sorte, consegui posicioná-lo e uma menina nasceu antes do raiar do dia. Satisfeita?
- E o que era aquela movimentação toda, de contornar a tenda com a pequenina nos braços? E a faca?
- Aquela senhora era a avó da menina e a faca enterrada na areia representa o fim da ameaça de morte à mãe e à recém-nascida pelos maus espíritos. A avó escolhe o nome da neta. Neste caso, Malak, que significa anjo. O que mais você quer saber?
Amy sentiu-se envergonhada por ter pensado mal dele. De cabeça baixa e um sorriso amarelo nos lábios, falou:
- Desculpe por ter pensado mal de você... Eu sou uma completa idiota...
Ele parou de caminhar e a fez virar-se, encarando-a com carinho.
- Amy... Você não tem nada de idiota... É só um pouquinho ciumenta... E eu gostei desta demonstração. É sinal que você sente alguma coisa por mim – disse, puxando-a contra si.
- Você ainda tem dúvidas sobre isso, depois de ontem?
Quando Daren ia beijá-la, deu-se conta que estavam em plena luz do dia, sendo observados por algumas das garotas mais curiosas da tribo. Apenas sorriu e convidou-a:
- Quer dar um passeio comigo?
- Mas você deve estar exausto. Ainda não dormiu...
- Estou acostumado a fazer plantões. O sono só vai chegar no início da tarde. Quero lhe mostrar um lugar aqui perto.
- Já que você insiste...
- Então, espere eu me lavar e já saímos. É melhor você colocar o seu turbante para proteger o rosto do sol e da areia. Está bem?
- Está ótimo.
Ela seguiu o seu conselho. Quando voltou, ele já a esperava junto ao camelo, seu conhecido, que se encontrava deitado no chão, aguardando para que eles pudessem subir em sua “rahla” (sela). Podia-se notar que ele havia se lavado e trocado de roupa. Exalava um perfume suave e másculo. Vestia uma túnica índigo com detalhes em branco e um turbante de um azul mais escuro, que o deixou com o aspecto de um príncipe árabe, como aqueles dos contos das Mil e Uma Noites. Amy conteve o suspiro que tentava escapar de seu peito. Não queria deixá-lo muito convencido.
Ele ajudou-a a subir e sentar-se entre as corcovas de sua montaria e acomodou-se atrás dela, como quando do último “passeio” que haviam feito juntos pelo deserto. A um toque dos calcanhares de Daren e um som de estalar de língua no céu da boca, o animal começou a galopar. Agora entendia como ele a tinha alcançado tão rápido durante a perseguição ao seu cavalo. Depois de mais ou menos 30 minutos de cavalgada, chegaram a um pequeno e lindo oásis, bem menor que aquele que os tinha acolhido durante a noite.
- Este é o seu oásis particular? – perguntou encantada com o lugar.
- Quase... Gostou?
- Se tivesse uma linha de ônibus passando por aqui, um supermercado, uma agência de correio ou linha telefônica, eu seria capaz de passar o resto dos meus dias aqui.
Ele soltou mais uma de suas gargalhadas gostosas e apertou-a contra si. Deu-lhe um beijo no pescoço e forçou o camelo a baixar-se. Desceu primeiro e agarrou-a pela cintura, para ajudá-la a desmontar. Assim que a colocou no chão, abraçou-a e beijou-a apaixonadamente.
“E agora? O que vai ser de mim sem ela?”, pensou.
- Você é algum tipo de feiticeira? – disse.
Ela sorriu e respondeu:
- Só se eu tiver o poder de fazê-lo mudar de ideia e levá-lo de volta à Inglaterra junto comigo – disse brincando.
Percebeu que a sua brincadeira não tinha sido muito feliz ao ver a expressão de Daren anuviar-se e vê-lo afastar-se dela.
- Desculpe, querido. Eu não queria chateá-lo. Saiu sem querer...
Daren caminhou até a beira do pequeno reservatório natural de água, entre alguns coqueiros e a vegetação rasteira, e sentou-se, mantendo um olhar pensativo e tristonho.
Amy ajoelhou-se ao seu lado e passou os braços em torno de seus ombros. Chegou os lábios perto de seu ouvido e sussurrou:
- Nada de tristeza... Só quero que me diga uma coisa...
Ele a olhou com expressão séria e triste.
- Dá para tomar banho neste laguinho? – ela perguntou com cara de boba.
Ele não resistiu e foi obrigado a abrir um grande sorriso.
- Você e suas perguntas fora de hora...
- Pois eu acho que elas são feitas na hora certa e sempre lhe fazem dar o melhor sorriso do mundo. Portanto, minhas perguntas cumprem a sua finalidade, pois eu adoro lhe ver sorrindo.
- Amy...
Mal acabou de dizer este nome, Daren a fez cair em seus braços, trazendo-a para junto de seu corpo e seduzindo-a com mais um beijo ardente.
Assim, aconchegada em seus braços, Amy ficou a sentir a brisa quente e suave em seu rosto e a ouvir as batidas compassadas do coração de Daren.
- Respondendo a sua pergunta... Não tomamos banhos nestas águas. Elas são importantes para abastecer as caravanas que passam por aqui. Tem que ser preservadas.
- Ahhh, que pena...
O sorriso desapareceu novamente dos lábios de Daren e ele voltou a falar seriamente.
- Amy, você tem razão... Nós precisamos conversar a respeito do que está acontecendo conosco. Não quero que você pense que isto é só uma aventura para mim. Eu gostaria de ter resistido e não ir tão longe nesta relação. Gostaria de voltar a encontrá-la quando eu retornar de Guiné. Não tenho certeza de quanto tempo ficarei. Acredito que em seis meses eu deva estar de volta à Londres. Se você ainda lembrar de mim, quem sabe...
- Se eu lembrar de você? Por quem você me julga? Uma desmiolada, sem sentimentos?
- Não quis dizer isso... Quis dizer que você é uma mulher linda, jovem, interessante e, que seis meses é muito tempo para se ficar afastado logo no início de um relacionamento. Não teremos muito tempo para nos conhecermos melhor.
- Daren, – ela o interrompeu – o que tenho sentido nestas últimas horas é algo inesperado e totalmente novo. Não sei o que vai acontecer daqui para frente, mas a impressão que tenho agora é a de que encontrei alguém que me faz sentir completa. Sei que precisamos de um tempo maior para nos conhecermos, mas quase posso prever que conhecê-lo melhor só vai confirmar o que sinto. Dói demais pensar que não vou vê-lo nunca mais.
Ele estreitou o seu abraço em torno de Amy e disse:
- Também tenho esta mesma sensação, Amy, por isso evito pensar no futuro próximo.
Após alguns instantes de silêncio sufocante, ela resolveu indagar:
- Daren, esta mulher com quem você está compromissado... Tenho certeza que ela vai entender se realmente resolvermos ficar juntos.
- As coisas não são assim tão fáceis.
- Mas elas são fáceis sim. Basta apenas querermos. Só depende de nós.
Amy olhou carinhosamente para ele e seu ar preocupado e cansado, e continuou:
- Você está exausto, não? – olhou para os lados e viu uma atraente sombra sob uma tamareira.
Levantou-se rapidamente, para surpresa de Daren, e dirigiu-se para lá, onde se sentou, encostando-se no tronco cilíndrico, o mais confortavelmente possível. Acenou com a mão direita, chamando-o:
- Vem cá, vem... – e bateu com a outra mão no chão ao seu lado.
Atendendo ao seu comando com um sorriso esmaecido, Daren seguiu a sua orientação e sentou-se ao lado dela.
- Agora deite sua cabeça no meu colo e descanse um pouco. Está tão bom ficar aqui. Parece que estamos numa espécie de vácuo no tempo. Aqui nada pode nos afetar. Todas as coisas ruins estão do lado de lá e não podem chegar aqui.
Ele apenas a ouvia, deliciando-se com o som de sua voz.
- Vamos combinar uma coisa? – ela perguntou.
- O que você quiser... – respondeu inebriado com aquele momento íntimo.
- Nos próximos meses este vai ser o nosso esconderijo. Quando eu quiser te encontrar, vou lembrar deste momento. Vou saber que você também está pensando em mim, lembrando deste dia, neste oásis.
Ele sorriu, achando graça da idéia pueril de Amy, mas, ainda assim, disse:
- Está combinado então. Esta lembrança vai ser o nosso refúgio nas horas difíceis e de saudade.
Suas pálpebras tornavam-se pesadas e a imagem de Amy, bem como sua voz, foram tornando-se cada vez mais distantes.
Uma aragem tépida soprou no rosto de Amy. Ela aconchegou-o em seus braços, sobre suas coxas e começou a acariciar-lhe a cabeça, passando os dedos da mão entre os fartos cabelos ondulados, roubando-lhe um suspiro de prazer do peito. Ele adormeceu com um tênue sorriso nos lábios, sob o olhar afetuoso de Amy, que deixou escapar uma lágrima furtiva.
“Dorme, meu amor, dorme...”, pensou ela, enquanto continuava com suas carícias.
Logo Amy também foi vencida pelo cansaço, provocado pelas poucas horas de sono da noite anterior.
Algum tempo depois de terem adormecido, o sol foi mudando a posição de sua incidência e seus raios começaram a importunar o casal em seu repouso sob a palmeira.
Daren foi o primeiro a acordar. Estava com a boca seca e um certo desconforto no corpo pela posição em que se encontrava, mas não pode deixar de admirar a beleza adormecida de Amy. Levantou-se com cuidado e viu que já eram quase duas horas da tarde. Sentiu a fome e a sede intensa começando a incomodar.
Amy já começava a espreguiçar-se, quando se deu conta que seu companheiro já estava de pé ao seu lado, oferecendo-lhe um cantil com água, com aspecto mais descansado e jovial. Assim que ela saciou sua sede, aceitou a mão oferecida por ele para ajudá-la a levantar-se. Tão logo conseguiu colocar-se de pé, foi aliciada de encontro ao corpo de Daren, por seus braços poderosos.
- Está com fome? – perguntou, abraçando-a e inclinando a cabeça de forma a ficar mais próximo daqueles lábios que tanto lhe davam prazer.
- Estou... Você trouxe algum lanche surpresa para nós? – murmurou de volta para ele, com olhar curioso.
- Um tuaregue está sempre preparado para tudo... – respondeu sorridente.
Antes de soltá-la, deu-lhe um beijo. Para surpresa de Amy, ele começou a subir na tamareira, que estava carregada de frutos, com grande agilidade, tendo as pernas enroscadas no tronco e os braços a forçar sua subida até os grandes cachos de tâmaras maduras. Retirou uma pequena faca de algum bolso camuflado entre suas vestes e, com ela, cortou um cacho, que caiu aos pés de Amy.
Logo ele estava ao seu lado.
- Se diz que um beduíno resiste três dias de marcha com uma tâmara, sabia? –

afirmou – “No primeiro dia come a pele, no segundo dia o fruto e no terceiro o caroço”. Sendo assim, temos um banquete a nossa disposição.
As frutas pareciam realmente muito apetitosas com seu aspecto de “dedo de luz”, que era o real siginificado da palavra tâmara, devido ao seu formato e transparência.
Ele foi até o seu camelo e pegou uma sacola de couro, de onde tirou alguns pães, duas canecas para água e uma espécie de toalha colorida.
- Pelo que vejo o senhor já tinha tudo planejado... – falou Amy, em falso tom de crítica, achando tudo aquilo encantador da parte dele.
- Não posso negar que pretendia ficar isolado com você aqui, por isso vim preparado para fazer uma refeição leve. Não temos muita opções nesta região. Talvez um bom vinho pudesse ser mais conveniente para acompanhar este almoço do que água, mas ... Você já experimentou tâmaras frescas?
- Sim, mas nunca diretamente do pé. Devem estar uma delícia... Deixe que eu estendo a toalha, enquanto você pega a água – disse, no momento em que pegava a toalha das mãos dele, prestativa.
Sentaram-se à beira da fonte natural, tentando proteger-se do sol na pouca sombra que agora se apresentava àquela hora da tarde, e passaram a degustar as saborosas frutas agridoces juntamente com o pão de massa fina.
Logo que sentiram-se satisfeitos, Daren começou a recolher tudo e propôs que retornassem às tendas.
- Mas já? – indagou tristonha – Está tão bom aqui, com você ao meu lado, neste refúgio adorável.
- Eu sei, meu bem, mas preciso ver as minhas novas pacientes. Prometo que a noite vai ser apenas nossa.
Dizendo isso, aproximou-se dela e, ajudando-a a levantar-se, mais uma vez a abraçou. Com um intenso e caloroso olhar, aproximou seus lábios dos dela e sussurrou muito próximo:
- Quero que a noite de hoje seja inesquecível, para guardá-la na memória por todo o período em que estaremos separados.
Amy sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
- Daren... – murmurou quase sem forças, quando sentiu sua boca sendo invadida por ele, na forma de um beijo arrebatado.
Deixou escapar um longo suspiro, e pensando que, se ele quisesse possuí-la ali, naquele momento, não faria nenhuma objeção.
Antes que a razão sucumbisse sob o desejo, Daren a pegou nos braços e levou-a até sua condução, colocando-a sentada sobre o rahla.
Amy estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem.







Demorei um pouquinho, mas consegui postar mais esta continuação do nosso romance entre Daren e Amy. Espero que gostem. Tenho adorado os comentários de minhas amigas. Se estiverem tendo alguma dificuldade em comentar naquele espaço, por favor, me digam. Posso tentar colocar um sistema melhor para tal. Por enquanto, digo até breve.
Beijinhos!!

domingo, 5 de julho de 2009

Um Amor no Deserto - Capítulo IV





Em menos de uma hora estavam de volta ao acampamento. Amy voltou à sua terapia de hidratação oral. Notou que não a deixavam sozinha agora nem por um instante. Sempre tinha alguém junto a ela. Já estava entardecendo quando Daren apareceu em sua tenda.
- Está se sentindo melhor?
- Sim.
- Não tenho boas notícias para lhe dar.
- Como assim?
- O mensageiro enviado ontem acabou de voltar.
- Mas isso é ótimo – falou animada com a perspectiva de um resgate iminente.
- Ele conseguiu avisar sua equipe que você está aqui e bem. Mas...
- Mas?...
- O seu resgate pode demorar alguns dias.
- Por quê?
- Parece que houve um acidente fatal com o helicóptero que fazia o monitoramento nesta etapa da corrida.
O rosto de Amy contraiu-se numa expressão de desespero, lembrando de Chloe.
- Você sabe o nome dos ocupantes?
- Não. Mas parece que eles vão paralisar a corrida por 48 horas. O que houve?
Lágrimas brotaram timidamente dos olhos de Amy.
- Calma... Não sabia que estava tão desesperada para sair daqui. Você vai poder partir em dois dias. Não vai precisar ficar sofrendo aqui – falou visivelmente chateado com a reação de Amy.
- Não é isso – respondeu ela, com a voz quase inaudível.
Ele se aproximou preocupado, principalmente porque ela não respondera agressivamente a sua afirmação. Abaixou-se e sentou à sua frente, tentando entender o que estava acontecendo.
- Preciso saber quem estava neste helicóptero... Talvez minha irmã estivesse nele... – ela não conseguia desgrudar o olhar de um ponto fixo no chão e algumas poucas lágrimas já corriam lentamente por sua face.
- Como assim, sua irmã? Ela também está no rally?
- Ela é jornalista como eu e estava fazendo a cobertura para a revista em que trabalha. Mas na verdade, ela veio para cá para me acompanhar. Ela é apenas quatro anos mais velha do que eu, mas sempre se sentiu responsável por mim. Na última vez que a vi ela me disse que ia acompanhar a corrida no helicóptero de Thierry Sabine. E agora... Se houver acontecido alguma coisa com ela...
A expressão de medo e angústia estampada no rosto de Amy sensibilizaram Daren, que aproximou-se ainda mais. Tirou o véu de seu turbante, deixando o rosto descoberto, e passou um braço sobre os ombros dela.
- Não pense no pior, Amy. Vários helicópteros fazem o rastreamento dos participantes. Pelo menos dois ou três, que eu saiba.
Ela parecia não ouvir o que ele dizia e continuava a dar vazão a seus pensamentos mais terríveis.
- Eu não devia ter insistido nesta loucura. Ela e minha mãe não queriam que eu viesse, mas eu não as ouvi... Se alguma coisa tiver acontecido a ela, não vou me perdoar nunca.
Ele segurou o queixo dela com delicadeza e obrigou-a a olhar em seus olhos.
- Amy, pare de se culpar por algo que nem sabe se aconteceu. Logo teremos mais notícias e tudo vai se esclarecer da melhor forma possível.
Ela finalmente prestava atenção em Daren e sentiu sinceridade e cumplicidade naquele olhar de verde profundo.
- Você não me odeia? – perguntou inesperadamente, arrancando um breve sorriso dele.
- Não, claro que não. De onde você tirou essa ideia?
- Você estava querendo me bater algumas horas atrás e quase me deixou sozinha no meio do nada... – dizia como se fosse uma criança magoada.
- Amy... – ele não conseguia dizer mais nada. O desejo de beijar aqueles lábios ainda molhados pelas lágrimas tornou-se imperativo.
Ambos pareciam hipnotizados um pelo outro. Uma atração mútua e inexplicável os aproximou, até que suas bocas se encontraram suavemente, com cuidado, como se saboreassem o mais delicioso dos néctares pela primeira vez.
Quando se separaram, Amy abriu os olhos e viu Daren com olhar preocupado, dizendo:
- Desculpe... Eu não devia ter feito isto... Me perdoe.
Levantou-se abruptamente e saiu rapidamente da tenda.
Amy ainda sorvia a emoção daquele beijo. Estava surpresa com sua própria reação ao toque daqueles lábios do tuaregue. Nunca experimentara tal encanto. Pensou se ele tinha experimentado o mesmo que ela. Talvez não. Talvez ele não tivesse gostado, por isso fugira arrependido do que fizera. Se bem que a sensação que tinha era de que ele tinha correspondido plena e satisfatoriamente ao seu beijo.
Rezou para que ele estivesse certo em relação ao acidente. Sentia necessidade de falar com ele. Queria conhecê-lo melhor. Teria pelo menos 48 horas para saber quem era aquele homem misterioso.

A noite chegou e Daren não voltou para vê-la. Procurou seguir o conselho dele e não pensar o pior a respeito de Chloe. Após o minguado jantar, a jovem que a serviu convidou-a para juntar-se a eles em torno da grande fogueira no meio do acampamento. Ela foi levada pela mão da tuaregue e convidada a sentar-se junto às outras mulheres aparentemente solteiras da tribo. Estranhamente, nenhuma delas usava véu, como a maioria das muçulmanas. Isto deixava Amy curiosa desde a sua chegada naquele lugar. Elas pareciam liderar as reuniões noturnas. Também notou que alguns homens tinham ao seu lado uma só mulher. Sempre soube que a religião muçulmana permitia a poligamia. Precisava falar com Daren a este respeito. Seria uma bela desculpa para iniciar uma conversa, se assim ele permitisse. Quando começava a achar interessante este pensamento, viu a figura altiva dele surgir atrás das chamas. Seus olhares se encontraram e ele fez uma reverência com a cabeça, cumprimentando-a formalmente. Algumas mulheres que estavam junto a ela também notaram a presença dele e começaram a rir, cobrindo a boca com as mãos, como se adivinhassem que alguma coisa estava acontecendo entre os dois. A mulher que a levara até ali chegou a dar um leve empurrão em Amy, como se dissesse que ela devia ir ao encontro dele.
Sorrindo, Amy criou coragem e levantou-se, caminhando lentamente na direção dele, que permanecia parado, de braços cruzados, apenas os lindos olhos aparentes, observando-a atentamente.
Ela chegou até ele e postou-se ao seu lado, fingindo que continuava a ver e ouvir os cantos e danças tribais à sua frente. Como ele não dissesse nada, obrigou-se a tomar a iniciativa e falar:
- Por que você fugiu hoje à tarde?
- Eu não fugi. Apenas lembrei que tinha um compromisso.
- Ah... Imagino o seu compromisso... Foi dar banho no seu camelo? – perguntou ironicamente.
- Este tipo de comentário não merece nem resposta – disse irritado.
- Desculpe, Daren. Estava brincando... Olha, acho que precisamos conversar. Eu tenho pensado muito em você, principalmente depois de hoje à tarde.
- O que aconteceu hoje à tarde foi um ato de fraqueza, que não deve se repetir mais – ele continuava sem encará-la.
- Por quê? Foi tão ruim assim para você? – indagou indignada e quase gritou – Quer fazer o favor de olhar para mim quando falo?
Repentinamente, ele a pegou pelo braço e a levou para longe da agitação em torno da fogueira.
- Não faça escândalo!
- Não faço, se você começar a conversar comigo direito. Você acha que tem o direito de sair por aí beijando as mulheres, mexer com a cabeça delas e depois fazer que não está nem aí?... E solte o meu braço, porque você está me machucando.
Só então ela notou que ele a estava levando na direção do oásis que ficava bem próximo. Também notou que era uma linda noite de lua cheia. Podia ver os contornos das grandes dunas ao longe, num jogo de luz e sombras refletido sob um céu azul escuro cravejado por estrelas. Aquela noite, naquele lugar era pura poesia. Mas ao invés de ter alguém romântico ao seu lado, parecia que Daren queria acabar com ela e qualquer esperança de algum diálogo amigável.
Ele a largou e subiu uma pequena elevação arenosa, que rodeava a laguna onde as mulheres buscavam água durante o dia, e sentou-se. Amy seguiu-o.
- Se você não quiser falar sobre aquele beijo, tudo bem. Vamos só conversar. Eu acho que não fui uma boa hóspede até agora. Tenho agido infantilmente, reconheço. A notícia do acidente me fez repensar em algumas atitudes minhas...
Ele continuava em silêncio, olhando o horizonte.
- Posso perguntar uma coisa?
Ele a olhou de lado.
- Por que só os homens tuaregues cobrem o rosto e as mulheres não? Não devia ser o contrário?
Ele descobriu seu rosto e riu alto.
- É isso que você quer me perguntar?
- Entre outras coisas, sim... Pelo menos você sorriu de novo. Achei que ia ficar carrancudo para sempre – disse rindo também.
- Amy... Está bem. Vamos conversar. O que mais você quer saber?
- Tudo a respeito da cultura de vocês
- Por que este interesse agora?
- Já que vou ser obrigada a ficar parada por aqui, quero ao menos saber sobre quem me acolheu... Saber um pouco de você... – respondeu, sendo que a última frase foi dita quase sem voz – Apenas interesse jornalístico...
Ele voltou a olhar para as dunas adiante deles.
- Os tuaregues são um povo nômade muito antigo. Não seguem as leis muçulmanas tão rigidamente. Como você observou, os homens são quem usam o “véu” e não as mulheres. Este véu os protege contra os maus espíritos. As mulheres tem mais liberdade, inclusive para escolherem o futuro esposo. É uma sociedade monogâmica. No passado ficaram com fama de assaltantes de caravanas no deserto, pois não tinham condições de conseguir a sobrevivência de outra maneira. Mas sempre lutaram para conseguir ser uma nação, constituir um estado legítimo. O que mais você quer saber? – terminou olhando para ela, sem imaginar o quanto ela o achava sedutor naquele momento.
- Você fala sobre “eles” como se não fosse um deles. Você me disse, outro dia, que essa era uma história que me contaria mais tarde. Bem, tenho dois dias pela frente, sem nada para fazer. Pode começar – exigiu arrogantemente.
- Acho que não vale à pena contar-lhe a minha história – tornou a olhar para o infinito.
- Quem pode definir o valor dela sou eu...
- Você sabe ser insistente, não?
- Eu diria que não desisto facilmente daquilo que eu quero.
Ele sorriu e disse:
- Eu sei muito bem disso...
- Então? – estava muito curiosa.
- Eu sou o que chamariam de mestiço. Meu avô era tuaregue. Ele fazia parte da casta nobre, os ihaggaren. Conseguiu juntar uma certa fortuna de maneiras não muito lícitas, devo reconhecer, mas suas intenções eram boas. Cansado das dificuldades de sobrevivência neste deserto, mudou-se para Rabat, no Marrocos, onde montou um pequeno comércio de tecidos e casou-se com uma francesa. Como seu negócio prosperava, anos mais tarde, mandou seu primogênito, com apenas 12 anos, estudar na Inglaterra, para que ele pudesse ter um futuro melhor. Meu pai formou-se em Medicina e estabeleceu-se numa cidade no interior do condado de Bedfordshire. Lá conheceu minha mãe. Desta união nasci eu e mais duas irmãs. Satisfeita?
- Ainda não – olhou-o pensativa e continuou seu questionário - Você então foi criado na Inglaterra?
- Sim.
-E o que você faz aqui agora?
Ela notou uma sombra de tristeza velando seu olhar.
- No dia em que a encontrei eu tinha acabado de espalhar as cinzas de meu pai nas areias do deserto. Foi um de seus últimos pedidos.
Ela ficou sem saber o que dizer, até que conseguiu murmurar:
- Sinto muito, Daren.
- Não precisa ficar sem jeito. Ele morreu há dois meses e só agora é que pude realizar esta viagem e cumprir o seu desejo. Apesar de viver na Inglaterra, ele costumava vir até aqui visitar os parentes com meu avô. Mesmo depois que este faleceu, ele nunca deixou de visitar os primos. Eles tinham um grande amor por este lugar.
- E você?
- Eu, o quê?
-Você também ama esta terra?
- Aprendi a gostar e a conhecê-la. Meu pai sempre me trazia junto em suas visitas. Por isso conheço bem a região.
- Então você vai voltar para a Inglaterra, agora que cumpriu sua obrigação.
- Não. Tenho outra missão a cumprir aqui na África e não sei quando volto.
- Outra missão? Você é militar?
- Não – ele riu mais uma vez - Sou médico, como meu pai. Acabei de me alistar na organização Medicin sans Frontieres ( Médicos Sem Fronteiras) e não tenho data para voltar. Vou para Guiné em dois dias. Eles têm uma unidade por lá há dois anos e estão precisando muito de ajuda por lá.
Ela o ouvia e, a cada palavra sua, sua admiração aumentava ainda mais.
- Quer dizer que não vamos nos ver por muito tempo?
- Talvez nunca mais, Amy... Por isso acho que foi um erro a minha aproximação de hoje à tarde – então ele virou-se e a olhou com tristeza – Não quero manter falsas esperanças de poder vê-la novamente.
- Por quê? Quando você voltar à Inglaterra poderemos nos encontrar e...
- Não, Amy... Existem outros impedimentos...
- Você é casado? – ela insistia.
- Não, mas tenho um compromisso assumido a pedido de meu pai.
- Como assim?
- Um grande amigo de meu pai tem uma filha com a qual mantenho um relacionamento há alguns meses. Como meu pai fazia muito gosto num casamento entre nós, antes de sua morte, ele me fez prometer que casaria e cuidaria dela.
- E você a ama?
- Achava que sim, mas agora...
- Agora?
Ele se aproximou e seu olhar disse o que as palavras não conseguiam mais. Acabou por tirar o turbante que ainda protegia sua cabeça, deixando-a ver os cabelos castanho-escuros ondulados e revoltos.
Amy, atraída como um imã, por aqueles olhos de esmeralda e pela boca sensual, levou a mão ao rosto de Daren, acariciando-o na linha do maxilar com a mão, fazendo-o fechar os olhos ao experimentar o carinho inesperado dela.
- Amy, não me tente...
- Me beija... Por favor... Me beija... – disse ela com seus lábios já muito próximos da boca de Daren, de olhos já fechados.
Foi então que se sentiu enlaçada pelo abraço já conhecido. O sabor de seu beijo, experimentado à tarde, invadiu-a fremente. Suas mãos experientes logo abriram a túnica que a cobria, deliciando-se num passeio em seus seios. Ele a devorava com olhos, mãos e boca, roubando-lhe gemidos e suspiros. A visão das estrelas no céu aveludado, os efeitos provocados pelos beijos e toque de Daren e a maciez das areias sob seus corpos levaram Amy numa viagem de sensações estonteantes. Ela sentia-se como a flutuar. Jamais passara por experiência igual antes. Queria senti-lo por completo e para isso começou a tentar desvencilhá-lo das roupas. Descobriu que ele nada vestia por baixo, o que a deixou ainda mais excitada. Livres de suas túnicas puderam dar melhor vazão aos seus desejos. Daren explorava cada centímetro do corpo de Amy. Ao tocá-la em seu sexo, ouviu-a gemer ainda mais alto. Ela, por sua vez, acariciava-o com as mãos espalmadas, sentindo cada músculo retesado dele, em seus braços, costas e nádegas. Amaram-se com paixão e desespero até que, satisfeitos, deixaram-se descansar abraçados. O medo de se perderem um do outro agora era inevitável. Depois de saborearem o prazer deste encontro, ficaria ainda mais difícil uma separação tão prematura. Ficaram em silêncio, tentando afugentar os maus pensamentos, apenas aproveitando o momento de bem-estar que tomava conta de seu íntimo.
Depois de alguns minutos, Daren sentou-se ao seu lado e ficou a fitá-la com expressão séria.
- O que foi? – perguntou Amy, embevecida com a visão da silhueta de Daren contra o firmamento estrelado.
- Quero guardar a imagem de você assim... Linda, nua e toda minha, para sempre. Ela vai me dar forças para prosseguir a minha jornada.
- Daren, nós vamos dar um jeito de nos vermos de novo. Não podemos deixar que isto acabe assim. O que sinto por você é muito forte. Nunca senti por ninguém o que estou sentindo agora.
- Ah, Amy... – sussurrou, abaixando-se para abraçá-la – Não vamos falar sobre isto agora. É penoso demais. Vamos aproveitar o tempo que ainda resta antes de nos separarmos e deixar que o destino faça o que tiver de ser feito.
- Você acredita em destino?
- Estou querendo acreditar, pois aí talvez possamos ter alguma esperança.
- Então eu vou acreditar também... Me beija, vai...

- Que tal um banho? – perguntou ele, assim que conseguiram separar-se, após outro longo beijo.
- Você está brincando? Faço qualquer coisa por uma boa ducha.
- Qualquer coisa? – perguntou maliciosamente.
- Qualquer... – respondeu Amy, sedutoramente.
- Então, coloque sua roupa e venha comigo – ele seguiu o próprio conselho, também vestindo sua túnica, colocando seu turbante e oferecendo a mão para que ela o acompanhasse.
Curiosa, seguiu-o através do silêncio do oásis até uma pequena construção de madeira.
- O que é isso?
- Uma invenção de meu pai. Ele construiu uma espécie de bomba manual que drena água do poço artesiano que fornece água potável para a aldeia. Uma ducha improvisada para levar algum conforto aos moradores. Porém, o pessoal daqui acaba pegando a água em baldes para levar para as tendas. Não estão acostumados a tomar banho de chuveiro. Preferem as bacias...
- E você? O que prefere? – disse, aproximando-se dele e acariciando seu pescoço com uma das mãos, tentando-o.
- Venha cá que eu vou te dizer o que eu prefiro – rindo, pegou-a pelos quadris, jogou-a sobre os ombros e carregou-a para dentro do galpão.
Lá, colocou-a no chão, bem junto a si, abraçou-a e, olhando-a intensamente, aproximou-se de seus lábios e beijou-a com paixão.
- Vou ensinar a você como se toma banho no deserto...
- É mesmo? – indagou sorridente.
Ele passou a despi-la, lentamente. Colocou-a sob o cano de água e bombeou uma pequena quantidade, molhando-a. Tirou uma espécie de sabonete líquido, de perfume suave, de um discreto armário e começou a espalhar por todo o corpo de Amy, provocando-lhe uma agradável sensação.
- Quer fazer o mesmo por mim? – perguntou – Precisamos economizar a água, por isso é adequado tomarmos banho juntos... Não acha?
- Com toda a certeza – respondeu excitada.
Daren então bombeou mais intensamente e um jato frio e forte caiu sobre seus corpos incendiados de desejo. Não resistindo mais, Amy enlaçou suas pernas em trono do quadril de Daren, encaixando-se perfeitamente sobre o membro ereto e potente que já a aguardava ansioso. A partir daí, amaram-se uma vez mais.
Após o êxtase, ficaram abraçados, como que imantados um ao outro, de pé, indiferentes ao ambiente modesto que os cercava e às más condições do banho improvisado.
Terminaram de tomar sua ducha...
A lua crescente já ia alta quando decidiram que era hora de voltarem para o acampamento. Daren teve o cuidado de deixá-la em sua tenda antes, apesar de Amy não querer separar-se dele ainda.
- Posso lhe fazer outra pergunta indiscreta?
Ele sorriu ao ver a expressão marota em seu rosto e respondeu:
- Pode.
- De onde saiu aquele sabonete?
- Ele é meu, Amy – cuidando para não soltar uma gargalhada alta, que certamente acordaria todos os tuaregues a sua volta – Eu o deixo lá para minha higiene. Além de nós, ninguém tem este hábito de banhos diários. Como pode ver, o sabonete não é comunitário... – disse balançando a cabeça, divertido – Você não existe...
Mais uma vez olhou-a com ternura, envolvendo-a em seus braços, e murmurou pesaroso:
- A cada minuto fica mais difícil pensar na separação.
- Isto não precisa acontecer, Daren. Vamos dar um jeito...
- Prometo que amanhã vamos ficar juntos o dia todo – disse num sussurrar, junto ao seu ouvido, fazendo-a estremecer – Não quero que você fique mal falada por aí.
Com um toque suave de lábios, despediram-se.






Volto o mais breve possível com o 5º capítulo. Aguardem! Beijos a todas!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Um Amor no Deserto






Capítulo III


O dia amanheceu e logo o sol já fustigava sem dó as areias que cercavam o acampamento. As mulheres já buscavam água num oásis perto dali e alguns homens alimentavam os animais ou trabalhavam como ferreiros, fazendo artefatos para o trabalho doméstico ou para venda nas cidades próximas.
Amy acordou sentindo muito calor. Sentiu que as forças haviam voltado ao seu corpo. Estava muito animada com a perspectiva de voltar à corrida. Olhou a sua volta, apoiada em seus cotovelos. Resolveu levantar-se, quando viu Daren entrar em sua tenda.
- Bom dia, nobre Daren.
- Vejo que acordou alegre esta manhã.
- Muito – dizendo isto, levantou-se rapidamente do chão.
Quando se colocava de pé, sentiu uma tontura e, não fosse o abraço firme e instantâneo de Daren, teria caído ao solo.
- Você tem que ir com calma. Tem que levantar-se devagar, pois ainda está em recuperação – comentou ele.
- Obrigada – disse, ainda agarrada a ele e podendo sentir a musculatura rija e forte de seus braços, através das roupas.
- Posso soltá-la agora?
- Acho que sim – sorriu – Já me sinto forte o suficiente para ir até o posto avançado do Paris-Dakar, que não deve estar longe daqui.
- Você ainda não está em estado de sair novamente para o deserto. Espere pela equipe de resgate aqui. Pedi a um dos nossos levar uma mensagem até a cidade mais próxima, avisando que você está aqui.
- Mas o posto avançado não deve estar longe. Eu posso perfeitamente ir a cavalo até lá e voltar o mais breve possível para a prova. Não posso perder muito tempo. Por favor, você pode me ajudar?
- O posto que você fala está a mais de 100 quilômetros daqui. Um cavalo não aguentaria. Estamos com risco de tempestades de areia. Não posso arriscar nossas vidas por um desejo bobo.
- Não é um desejo bobo. Tenho um compromisso com o jornal para o qual trabalho. Não estou na corrida para competir. Estou a trabalho.
- Mesmo assim. É perigoso e não posso permitir que você saia daqui nas condições em que está.
- Eu estou me sentindo muito bem – falou acintosamente.
- Mas ontem você estava praticamente morta, não fosse eu encontrá-la – sua voz já apresentava irritação.
- Eu serei eternamente grata a você por ter salvo a minha vida, mas agora eu preciso voltar ao meu trabalho.
- Não!
Ela estremeceu diante da negativa veemente de Daren. Estava inconformada e percebeu que não conseguiria nenhuma ajuda com ele. Se pudesse falar o idioma deles, talvez conseguisse um condução guiada por uma pequena soma de dinheiro.
- É melhor você voltar para sua cama e continuar a beber o soro.
Ela não respondeu nada. Apenas ficou a encará-lo com olhar arrogante. Ele apenas balançou a cabeça, convencido de que estava diante de uma cabeça dura. Teria de vigiá-la, pois sentia que ela era capaz de fazer alguma loucura. Depois daquele embate silencioso entre duas vontades férreas, Daren deu as costas à Amy, que começou a procurar onde ficavam os cavalos. Só via camelos. Procurou por sua mochila e não a achou. Se ao menos tivesse sua bússola ficaria mais fácil. Será que ele a deixara junto com a moto quando a resgatou? Provavelmente. Não tinha importância. Seguiria através da posição do sol. Enquanto tentava arquitetar um plano de fuga, uma das mulheres entrou com o que seria o seu desjejum. Tentou comunicar-se com ela para saber exatamente onde estava. Pediu algo onde pudesse escrever e um lápis. Fez um mapa grosseiro da região da fronteira, do que lembrava ter estudado para a viagem, e o nome de algumas das cidades vizinhas. Mostrou-o à mulher, que identificou que estavam próximos a uma cidade chamada In Talak, que ficava a cerca de 120 quilômetros do posto do Paris-Dakar, próximo à Akabar, na fronteira entre Mali e Niger, ao sul. Ela havia se desviado um pouco mais que o previsto de sua rota, pois encontrava-se mais ao norte do que imaginava. Mas agora que sabia sua localização, com um curto trajeto a percorrer, não teria problemas. Levaria um bom estoque de água e algum alimento. Em pouco menos de três horas, com uma boa montaria, poderia chegar ao seu destino. Quando perguntou como conseguir um cavalo, a mulher fez cara de espanto ao entender a mímica de Amy. Balançou a cabeça negativamente e saiu correndo. Esperava que ela não batesse com a língua nos dentes e contasse tudo à Daren. Estava decidida. Pegaria um cavalo e correria até Akabar.
Improvisou uma pequena mochila com um dos panos que lhe servira de lençol e lá colocou o seu café-da-manhã. Com o pano que restou, teve o cuidado de fazer um turbante, para que ninguém a reconhecesse Para sua sorte, alguém esquecera na sua tenda uma espécie de bolsa de couro usada para transportar água, cheia de água. Colocou tudo sob a túnica e, furtivamente, saiu da tenda à procura do cercado onde deviam amarrar os cavalos. Logo achou o que procurava. Era um belo puro-sangue castanho, de aparência descansada, pronto para enfrentar algumas horas de calor. Agradeceu à sua mãe que sempre insistiu em que ela frequentasse aulas de equitação. Nunca fora das melhores alunas, mas seria suficiente para que ela montasse razoavelmente bem naquela situação. Com cuidado, olhando para todos os lados, colocou seus mantimentos sobre ele, desamarrou o animal, e montou-o rapidamente. No início, ele estranhou seu cavaleiro e tentou empinar, mas Amy foi mais eficaz e conseguiu domá-lo. Assim, tendo o cuidado de verificar a posição do sol, seguiu para o sul, na provável direção de Akabar. Entretanto, o relinchar alto do equino despertou a atenção de um dos habitantes. Daren. Quando ele viu Amy partir rumo ao deserto, imediatamente correu na direção de seu camelo e iniciou a perseguição a ela. Seu último pensamento foi: “Ela é maluca!”.
Quando ela o viu, riu para si mesma, pensando: “Que idiota. Pensar que vai me alcançar naquele camelo pangaré. Coitado!”
Ela tivera sorte e pegara o animal mais rápido do povoado. Infelizmente, Amy esqueceu-se de um detalhe. Os cavalos no deserto são usados apenas para lazer e corridas de curta distância, em competições. Os camelos é que são moldados para grandes percursos, pois resistem mais ao calor. Assim, depois de alguns quilômetros, seu puro-sangue começou a cansar. Foi quando Daren conseguiu alcançá-la. Ele passou a frente dela, forçando-a a parar.
- Eu vou denunciá-lo por seqüestro! – gritou ela ensandecida.
- E eu a você por roubo. Você é louca? Isto é suicídio – replicou ele, desmontando, pegando as rédeas das mãos dela e puxando-a para baixo.
Ela acabou por cair sobre ele e, com as mãos cerradas batia contra o peito dele, furiosa por estar sendo impedida de realizar seu brilhante plano.
- Me solte, seu bárbaro prepotente – gritava Amy, raivosa por estar sendo imobilizada junto ao corpo dele, debatendo-se inutilmente.
- Você deve estar querendo dizer berbere – disse ele, rindo e caçoando dela, o que a deixou mais indignada.
A estas alturas, a parte do turbante que cobria o rosto de Daren caiu, deixando Amy ver o rosto dele em sua totalidade. Ele tinha a pele bronzeada pelo sol, traços másculos, com uma barba curta, com bigode arredondado, que lhe dava um ar de herói épico. Após breves segundos de admiração, ela notou que a expressão dele endureceu. Ele estava a olhar para alguma coisa atrás dela. Imediatamente, ele levantou-se e a jogou sobre seus ombros, levando-a até o camelo, que se deitou no chão a um comando de voz. Quando Amy pensava em começar a debater-se e a reclamar da violência dele, viu uma grande coluna de areia movendo-se na direção deles.
- Feche a boca e os olhos – foram as últimas ordens dele para Amy, que o obedeceu estarrecida diante da tempestade que se aproximava.
Ainda pode vê-lo cobrir os olhos do camelo e colocar o véu sobre a face. Abriu o manto de suas vestes, colocando Amy junto a seu peito, fechando o tecido rústico sobre o rosto dela. Ficaram assim abraçados durante uns 10 minutos, atirados ao chão, protegidos parcialmente pelo corpanzil da montaria de Daren. Sentiam o vento forte açoitando-os e a areia penetrando as tramas do tecido de suas roupas. Amy podia ouvir o ritmo acelerado do coração de Daren. Não fosse pelo animal que os protegera, teriam sido levados e enterrados vivos.
Quando sentiu que não corriam mais perigo, Daren afrouxou o seu abraço sobre Amy e perguntou, enquanto buscava ver o seu rosto:
- Você está bem?
- Sim. Acho que sim.
Com algum esforço, ele conseguiu levantar-se, lutando contra a areia acumulada sobre suas pernas e ajudando Amy a erguer-se.
- E agora? Acredita em mim?
Ela ainda tentava tirar o pó denso que se depositara sobre seu rosto e suas roupas. Seu cavalo desaparecera, bem como sua mochila improvisada e sua água.
- Bem, agora que a tempestade passou, posso prosseguir. Muito obrigada por sua ajuda.
Ele não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Ela era o cúmulo da teimosia em pessoa.
- Não é possível que você ainda queira enfrentar esta região sozinha. Não notou que o seu cavalo se foi? O único caminho que podemos fazer é o de volta para onde estávamos, dando-nos por contentes de não ter acontecido coisa pior.
- Olhe, nós estamos perto do seu acampamento. Vai ser fácil você voltar para lá a pé. Empreste-me o camelo. Posso pagar muito bem por ele. Prometo que mando o dinheiro assim que chegar ao posto de checagem em Akabar.
Ela resistia em dar-se por vencida.
- Você está louca se pensa que vou lhe dar o meu camelo para que leve adiante esta sua ideia absurda de seguir sozinha por este deserto.
- Está bem. Eu posso ser louca, mas não tanto – lançou-lhe um olhar sedutor e continuou – Que tal você ser o meu guia?
- Não! – gritou mais uma vez, extremamente irritado com a teimosia de Amy.
- Então eu vou a pé sozinha. Você vai ser responsável pela minha morte. Mas se eu conseguir chegar até a civilização, pode ter certeza que vou processá-lo por manter-me presa, contra a minha vontade, para depois me abandonar só e desamparada neste deserto.
Com essas palavras tentava sensibilizá-lo. Achava que ele não teria coragem de deixá-la ali, sozinha.
- Definitivamente, você não regula bem da cabeça – disse balançando a cabeça – Estou voltando agora para a minha tenda. Se quiser vir comigo, ótimo! Caso contrário, tenha um bom dia.
Ela não acreditava que ele a estava deixando daquele jeito. Ficou observando-o incrédula, enquanto ele calmamente montava seu camelo e, depois de um último olhar indagador, fez o animal levantar-se sem dificuldades e partir dali.
Não demorou nem dois minutos, ela começou a correr atrás de Daren, gritando seu nome. Quando sua voz o alcançou, ele abriu um sorriso de vitória e, ao mesmo tempo de alívio. Afinal, ela não era tão doida assim. Imediatamente, ele estacionou seu camelo e ficou esperando que ela se aproximasse, sem virar-se para olhá-la.
- Está bem! Está satisfeito? Eu me rendo! – disse quase sem fôlego - Mas assim que chegarmos...
- Quando chegarmos vamos ter uma outra conversa – disse irritado, do alto de sua sela.
- Quem você pensa que é para me tratar deste jeito?
- Alguém que conhece a região e sabe que alguém como você não vai sobreviver por muito tempo, se continuar não respeitando os perigos que existem aqui. Pare de se comportar feito uma criança mimada ou vou ter de lhe dar umas palmadas.
Esta última frase dele a fez corar, num misto de raiva e vergonha. Nem conseguiu responder, pois lhe faltaram as palavras, tal sua indignação pela forma como ele a estava tratando.
Como ela continuasse parada no meio do nada, com expressão indignada, procurando por uma resposta desaforada, ele falou:
- Se quiser seguir comigo, vamos logo. Não tenho todo o tempo do mundo.
- Grandes compromissos você deve ter por lá, tratando de camelos ou jogando charme para aquelas coitadas que passam o dia indo e vindo do oásis para buscar água.
Ele não pode deixar de dar uma gargalhada diante daquele comentário infantil.
- Vá rindo, vá! Aliás, pode ir andando. Eu me recuso a subir neste monstrengo com você. Posso perfeitamente seguir a pé atrás de vocês.
-Você é quem sabe...
Logo em seguida, com um estalar de língua, Daren pôs seu camelo a movimentar-se lentamente.
Em silêncio, Amy começou a segui-lo. Ela sabia que ele não estava totalmente errado. Para falar a verdade, pensando bem, ele tinha toda a razão. Ela passara dos limites esta vez, pondo em risco a vida deles. Mas ela não diria nada. Não estava acostumada a ceder em suas vontades. Daria um outro jeito quando chegassem ao seu destino.
Eram poucos quilômetros que os separavam do acampamento tuaregue, mas o sol do meio dia e a falta de água, pois Amy recusava a água oferecida por Daren, começou a provocar seus efeitos. Em determinado trecho, Amy caiu e viu ele afastando-se. Acabou por chamar seu nome, pensando se ele seria capaz de ouvi-la e deixá-la para trás sem nem ao menos olhá-la.
No segundo chamado, ele voltou-se para o lugar onde ela estava caída, e depois de um pequeno instante de aparente dúvida, começou a caminhar na sua direção. Pensou se ela não estaria simulando um desmaio para chamar sua atenção?
Ao chegar ao seu lado, desmontou e foi verificar o estado de Amy. Verificou que ela já apresentava novamente sinais de uma desidratação leve. Pegou seu cantil e deu-lhe de beber.
- Quando a senhorita vai entender que não foi feita para este clima? – perguntou enquanto a ajudava a sentar-se.
- Quando o senhor parar de querer bancar o meu pai – falou com voz fraca.
- Talvez o seu pai não tenha lhe dado educação suficiente.
Alguns segundos se passaram antes que ela falasse algo.
- Talvez ele não tenha tido tempo para isso, pois está morto – a voz agora, além de fraca, dava sinais de grande tristeza, o que comoveu Daren.
Ficaram em silêncio depois disso. Tão logo ela terminou de beber mais um gole, ele a ergueu no colo e colocou-a sobre a sela entre as duas corcovas, sentada à sua frente, segurando-a firmemente pela cintura com uma das mãos enquanto com a outra puxava os arreios. Ela sentia-se tão fraca que não conseguiu contrapor-se a ele. Partiram de volta ao acampamento tuaregue. Daren sorriu ao sentir que Amy finalmente descansava a cabeça sobre seu peito, acabando por acomodar-se junto ao seu corpo. Esperava que ela adquirisse um pouco de juízo depois dos últimos acontecimentos.




Esta foto mostra o que seria uma tempestade de areia no deserto. Dá para ter uma ideia do estrago que ela pode fazer, não?


Este capítulo foi maior, não, Carel? Gostou?
Não sei se conseguirei postar amanhã, pois vou viajar e não sei se terei acesso à internet no lugar para onde vou...Voces sabem como é o deserto, não?...rsrsrs
Assim, não fiquem tristinhas se eu só voltar a postar a continuação domingo à noite. Vou fazer o possível para voltar o mais breve possível. Beijos a todas!!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Um Amor no Deserto



Capítulo II
Ele acabara de cumprir o seu prometido. O último desejo de alguém que tinha dedicado sua vida ao trabalho e à família. Finalmente estava unido aos elementos da natureza, no lugar que tanto amava. Montou seu camelo e seguiu na direção das tendas de seus primos que o abrigavam desde sua chegada a Mali. Foi quando viu alguma coisa caída sobre as areias, ao longe. Curioso, resolveu investigar. Ao chegar mais perto viu a silhueta de uma pessoa. Acelerou o cavalgar. Logo pode identificar o corpo de uma mulher, vestida apenas com uma bermuda curta, uma camiseta de algodão, com um boné vermelho, que foi o que chamara sua atenção, sobre o rosto. Desceu de sua montaria rapidamente e foi verificar se estava viva. Devia estar a algumas horas ali, sob o sol. Um exame rápido mostrou que ainda estava viva, apesar de muito desidratada. Pegou um cantil de água que trazia junto a si e, começou a molhar-lhe os lábios com cuidado, colocando-a junto a si. Passou a gotejar algumas gotas do líquido precioso dentro de sua boca. Ela ainda não reagia. Talvez precisasse hidratação intravenosa, mas isto seria impossível naquela região. O hospital mais próximo ficava a mais de 100 quilômetros dali. De repente, ouviu um gemido tímido. Logo um par de olhos azuis embaçados o olhava sem entender o que estava acontecendo.
- Você pode me ouvir? – falou em inglês perfeito.
Ela não tinha forças para responder.
- Você fala inglês? – perguntou novamente.
Ela assentiu com um movimento leve da cabeça.
- Então tente tomar um pouco de água... Aos poucos, para não engasgar...
A voz grave e ao mesmo tempo suave tinham um efeito tranquilizador sobre ela. Amy tentava seguir o conselho daquele estranho, do qual só podia ver os olhos. Não conseguia raciocinar muito bem. Estava com muito sono...
Ela perdera a consciência mais uma vez. Ele precisava levá-la para a aldeia a poucos quilômetros dali. Levantou-a nos braços, sem muito esforço e colocou-a atravessada sobre sela, de bruços. Assegurou-se de que ela não cairia e partiu. Faltava pouco para o sol se pôr.
Chegando, foi auxiliado por algumas mulheres da tribo. Ele explicou o que acontecera e determinou o que deveria ser feito. Ela foi levada para uma das tendas para ser lavada e hidratada oralmente. Duas horas depois, foi ver como estava sua resgatada. Encontrou-a deitada, vestindo uma espécie de túnica ampla, de cor branca, típica das tuaregues, com os cabelos curtos, louros e desgrenhados, a pele ligeiramente avermelhada e de olhos fechados. Sentou-se ao seu lado, no chão da tenda, sobre o modesto tapete feito à mão. Ficou observando-a, analisando seus traços delicados e imaginando o que ela estaria fazendo naquele lugar onde viviam os “abandonados por Deus”, como os próprios tuaregues se autodenominavam. Não resistiu e passou a mão suavemente pela curva de seu maxilar, num carinho que a fez abrir os olhos lentamente. Eles agora já tinham um brilho normal e o olhavam indiscretos. Ele afastou sua mão imediatamente.
- Onde eu estou? Que lugar é esse?
- Você está num acampamento tuaregue na fronteira de Mali com Niger. Eu a encontrei quase morta a alguns quilômetros daqui.
- Tuaregue? Você é um tuaregue? Como fala a minha língua?
- Esta é uma longa história, que poderei contar-lhe em outra hora – falando isso, pegou uma caneca com água que estava numa mesa baixa, próxima a eles, e ofereceu – Beba isto. Você tem de beber pequenas quantidades por mais algumas horas, até conseguir hidratar-se completamente. Você devia ter sido levada para um hospital, mas tive medo que não resistisse à viagem. Vejo que tem um organismo resistente.
- Argh! Esta água tem sal! – exclamou fazendo uma careta feia – O que tem aqui?
- É uma espécie de soro reidratante oral. É apenas água com um pouco de sal e açúcar para hidratar mais rapidamente.
- Como você sabe isso?
- Sabedoria tuaregue. Beba! – ordenou ele com um brilho nos olhos. Amy imaginou que ele estava sorrindo.
- Você nunca tira este turbante azul?
- Geralmente, apenas para dormir. É uma tradição entre nós. Afasta os maus espíritos.
- Nunca ouvi falar que houvesse tuaregues de olhos verdes.
- Acho que sou uma espécie de mutante.
Ela gargalhou diante do comentário sarcástico dele.
- Nem imaginei que um morador do deserto tivesse tão bom humor.
- Os moradores do deserto têm muitos outros segredos que você desconhece.
- Sério? Será que poderei desvendá-los?
Mais uma vez seus olhos iluminaram-se diante da pergunta maliciosa dela.
- Beba a sua água salgada. Volto mais tarde para vê-la – ordenou ríspidamente.
Após este comando, levantou-se, pronto para retirar-se da tenda.
- Posso ao menos saber o seu nome?
- Só se você disser o seu.
- O meu é Amy. Amy McGarvey.
- Pode me chamar de Daren.
Depois de dizer seu nome, virou-se e saiu do local, deixando Amy de boca entreaberta, querendo continuar o diálogo e saber mais sobre aquele seu estranho salvador. Ele era alto, de andar elegante e sua pele parecia alva, apesar de estar bronzeada. Imaginava como seria o seu rosto, enquanto fazia uma nova cara de nojo ao beber mais um gole daquela água salobra. Prefiria não pensar muito a respeito de onde ela teria saído e que mãos a teriam preparado.
Tinha que sair dali. Talvez pudesse pegar um cavalo emprestado e ir até o posto avançado do rally. Não devia estar muito longe, já que estava na fronteira. Pediria a Daren para ajudá-la. Ele talvez fosse o único que falava o seu idioma. Ainda sentia-se fraca, mas tinha certeza que mais um dia seria o suficiente para poder encontrar a equipe organizadora, recuperar sua moto e retomar a corrida.
Daren não voltou naquela noite. Com algum esforço e lutando contra uma tontura, ela conseguiu levantar-se de seu leito no chão, caminhar até a entrada de seu abrigo e observar o acampamento à sua volta. Podia ver as outras tendas, semelhantes à dela. Algumas cabras estavam reunidas numa espécie de cercado. As mulheres estavam junto à fogueira e entoavam cantos na língua tamacheque ou num dos dialetos tuaregues, enquanto os homens batiam palmas, dançavam e sorriam. Tudo era muito simples. Daren não parecia estar entre aquelas pessoas. Ele não parecia pertencer àquela comunidade. Tinha um porte altivo, falava como se estivesse acostumado a dar ordens. Talvez ele fosse o chefe deles. Já tinha ouvido falar que os tuaregues dividiam-se em várias castas sociais e que a mais nobre, que acumulava as maiores riquezas, era a dos guerreiros. Eles eram chamados de “Senhores do Deserto” antigamente. Eram eles que controlavam as rotas das caravanas no deserto e lutavam com grande agilidade sobre seus camelos. Talvez Daren fosse um descendente deles.
Enquanto observava a reunião noturna, uma das mulheres, muito sorridente e falante, veio ao seu encontro, trazendo o que deveria ser o seu jantar e um copo com ... chá de menta. Quente! Pelo menos era melhor que a água salobra. Apesar de não entender nada do que ela dizia, agradeceu a hospitalidade em inglês, recebendo mais um sorriso e um aceno de boa noite.
Depois de comer uma espécie de papa, feita de leite de cabra e algum tipo de cereal, acabou deitando-se e pegando no sono enquanto ainda tinha esperanças que Daren voltasse para vê-la.





Bem, agora que já conheceram o Daren, volto amanhã. Deixo mais um vídeo, mostrando um pouquinho deste povo simpático e misterioso que abrigou nossa amiga Amy.
Beijos!