segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Confusões de um Viúvo - Capítulo XI

Postagem Cancelada

Espero que a leitura deste novo capítulo tenha recompensado pela demora em ser postado. É, minhas caras amigas, não tem sido fácil achar tempo para escrever. Como disse lá nos recadinhos, adoraria ter todo o tempo livre para poder me dedicar exclusivamente a esta minha paixão. Entretanto, como a maioria de vocês, que trabalha, estuda e/ou tem uma família prá zelar, sabem, o cotidiano não é fácil. Ainda bem que minhas leitoras são compreensivas e entendem minhas dificuldades. Além de tudo, esta semana também reservei algumas horas para me dedicar à diagramação de um dos livros que escrevi. Como sabem, existe o interesse de uma editora em publicar, mas por enquanto estou em modo de espera em relação ao romance "Um Amor no Deserto", que havia sido escolhido pela maioria como o primeiro a ser publicado. Enquanto aguardo o retorno, resolvi fazer uma tentativa de publicar eu mesma. Por isso iniciei um processo de revisão e diagramação do romance "Na Rede do Pescador" e vou procurar uma gráfica que me faça alguns exemplares. Assim que tiver os resultados desta minha empreitada, colocarei aqui no blog o anúncio de venda do meu primeiro livro. Aguardem! ( que marketing, hein?... kkkkkkk).
Beijos no coração de todas!








terça-feira, 12 de outubro de 2010

Confusões de um Viúvo - Capítulo X



Postagem cancelada
Ufa! Finalmente consegui terminar o décimo capítulo. Agradeço a paciência de vocês. Infelizmente, esta semana foi muito difícil para mim. Além da falta de tempo, que foi ainda maior que o normal, já que fiquei sem a minha ajudante em casa, recebi uma notícia muito triste. A morte inesperada de uma pessoa muito querida, que conheci recentemente. Ficou o gosto amargo de ter perdido prematuramente alguém que teria sido uma boa amiga... Um beijo, Ligia, onde quer que estejas, minha querida.
Espero não demorar tanto para a próxima postagem.
Beijos!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Confusões de um Viúvo - Capítulo IX



Canela - RS


Aldeia do Papai Noel

Casa do Papai Noel
Mini-Mundo
Castelos no Mini-Mundo

<><><> 
Chocolates

Fabricação dos bombons


Ana

Miguel




Confesso que é mais fácil escrever dramas e contos policiais que uma estória bem humorada e leve. Como devem saber, ou não, estou experimentando escrever algo diferente do que tinha escrito até agora. É uma delícia, mas me deixa mais insegura do que o habitual. Espero que estejam gostando.
A propósito, já tenho um pré-enredo para o próximo romance, mas gostaria de saber a opinião de minhas leitoras. Assim como a Cris sugeriu uma estória envolvendo um pai e seus filhos, qual a sugestão de vocês? Escolham um tema. Colocarei as idéias em um banco e quem sabe no futuro não possa transformar em romance? Vou adorar saber o que se passa nas mentes aí do outro lado do monitor e quais suas fantasias. Vocês já conhecem as minhas...rsrsrs.Se tiverem vergonha, podem deixar o comentário como anônimo ou mandar para o meu e-mail (juro manter sigilo absoluto).
Beijinhos!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Confusões de um Viúvo - Capítulo VIII



Pórtico de Gramado

Postagem cancelada


Consegui manter a marca de um capítulo por semana. Gostaria de ter os capítulos prontos mais cedo, mas o tempo não tem sido meu amigo e minhas atividades extrablogueiras andam me dando bastante trabalho...rsrsrs. Mas não desanimem que a estória continua. Nunca deixei de terminar o que comecei.
Muito beijos a todas(os)!!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Confusões de um Viúvo - Capítulo VII

Postagem cancelada

Bem, finalmente parece que estes dois vão se entender. Vamos esperar pelos próximos capítulos...
Beijinhos!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Confusões de um Viúvo - Capítulo VI



Miguel acabara de sair do foro. A temperatura começava a cair rapidamente, as árvores despiam-se de suas folhas, atacadas pelo vento, e uma chuva fininha começava a açoitar as ruas de Porto Alegre. Dirigiu-se para o bairro Bom Fim. Pensou em convidar um ou dois amigos para fazer um happyhour em algum dos inúmeros barzinhos que havia na área. Foi quando viu uma loura deslumbrante parada na calçada, vestindo uma roupa leve, inadequada para a mudança climática, encolhida pelo frio, fazendo sinal para tentar conseguir um táxi livre, o que era impossível naquele horário. Ela pareceu mancar levemente ao movimentar-se. Diminuiu a velocidade e aproximou-se lentamente de onde ela estava. Conseguiu ver melhor o seu rosto. Animadíssimo, estacionou diante dela, abrindo o vidro elétrico do lado oposto ao seu. Notou que ela imediatamente fechou a expressão e evitou olhá-lo.
- Moça, acho que está precisando de uma carona! – disse sorridente, esticando-se todo sobre o banco para poder encará-la.
Ela fingiu que não ouviu e caminhou em direção contrária ao fluxo de onde ele estava obrigando-o a dar ré. Por sorte, não vinha nenhum outro veículo, e ele pode segui-la por alguns instantes.
- Bruna! Não reconhece mais os amigos? – gritou quando cansou de divertir-se com a cara amarrada dela e o movimento de carros na rua reiniciou.
Ao ouvir seu nome, ela abaixou-se para ver melhor o sujeito que a importunava.
- Miguel? – indagou surpresa – É você?
- Quem mais ia dar em cima de uma mulher sozinha, desamparada, no meio da chuva, à procura de um táxi? Entra aqui ou vai morrer congelada, guria!
Ela sorriu ao reconhecer o antigo colega de faculdade e aceitou o oferecimento imediatamente. Realmente já estava congelada até os ossos, pois o frio viera repentinamente, e ela não estava preparada. Esquecera como o clima no Sul era excêntrico. Além disso, seu tornozelo ainda reclamava.
- Miguel, há quanto tempo... O que faz por aqui? – disse enquanto se abraçavam e trocavam beijos na face.
- Eu que pergunto. Você não tinha ido morar na Alemanha para dedicar-se à carreira de bailarina?
- Ah, essa é uma longa história... – respondeu suspirando melancólica – Mas, me conta de você. Já é um advogado famoso?
- Diga uma coisa. Tem tempo agora ou tem de voltar para casa para atender o marido e os filhos?
Ela começou a rir e respondeu:
- Felizmente ou infelizmente, não tenho este problema.
- Então, que tal uma saída para comemorar o nosso reencontro? Ia ligar para um amigo para fazer um happyhour, mas agora que a encontrei, não preciso mais procurar.
- Não estou arrumada, Miguel. Vai passar vergonha comigo.
- Você está linda, como sempre. Vou passar é trabalho evitando o assédio dos outros caras. Topas?
- Topo! – respondeu num piscar de olhos. Seria bom para mudar o rumo de seus pensamentos que não paravam de seguir a imagem de Leonardo e seus encontros frustrantes.
- Ótimo! Tenho uma jaqueta sobressalente aqui no carro. É melhor vesti-la ou vai se resfriar – disse enquanto estendia o braço para o banco de trás e pegava o abrigo.
Miguel
Sentaram-se numa das mesas de canto do Bar do Pedrinho, famoso no bairro, pediram um chope para cada um e uma porção de sanduíche aberto.
- Agora que já contei a minha brilhante trajetória no mundo dos bacharéis, quero saber de você. Desde a sua ida para a Alemanha, que estou curioso – inquiriu Miguel, que contara, durante o percurso até o bar, como conseguira tornar-se sócio num dos escritórios de advocacia mais concorridos da cidade.
- Bom, se prometer não bocejar, eu conto.
- Sou todo ouvidos – sorriu incentivando-a.
- O início foi um pouco difícil por causa da língua, apesar de eu ter feito um curso de alemão por dois anos. Porém, nada foi motivo para me desmotivar da dança. Passei a frequentar um grupo conhecido de Berlim e logo estava me apresentando com eles. Fiquei muito amiga do coreógrafo. Foi maravilhoso e tudo corria muito bem. Tinha uma boa renda mensal, ótimas amizades e fazia o que eu mais amava na vida, que era dançar. Contudo, há cerca de 1 ano, quando estava saindo do teatro onde tínhamos acabado de ensaiar a coreografia para a próxima apresentação, fui atropelada por uma bicicleta sem freio. Acredita? Acho que eu estava distraída, pensando nos passos que devia melhorar ou, sei lá o que mais, quando ele surgiu do nada. Com o choque, caí torcendo o tornozelo. Senti o osso se quebrar. Fiz uma fratura exposta de tíbia. Levei meses em tratamento e fazendo fisioterapia. Depois de tudo, recebi a notícia que acabou com todos os meus planos e sonhos. Eu não poderia mais dançar profissionalmente. Quase morri ao saber. Passado o desespero, com a ajuda de amigos alemães e alguns daqui, consegui me reerguer e começar a fazer novos planos para a minha nova situação. Não podia mais acompanhar o meu grupo, mas poderia dar aulas de dança ou fazer outro tipo de atividade dentro do balé, como ser coreógrafa – Olhou firme para Miguel que ouvia comovido o seu relato e perguntou – Se estiver sendo muito chata, me avisa, que eu paro. Está bem?
- Não, Bruna. O que é isso? Estou pasmo com tudo que você está me contando. Por isso notei que estava mancando hoje...
- É... Não costumo mancar, mas é que hoje resolvi me exceder num solo e acabei tendo dor. Acho que forcei demais o tornozelo.
- Está melhor agora?
- Estou sim. Até amanhã já estarei bem.
- Então continua... Por que e quando voltou ao Brasil e o que anda fazendo agora?
- Pois é. Pensei em permanecer lá, mas as oportunidades de trabalho diminuíram drásticamente. Então, uma grande amiga minha, também bailarina, me ligou dizendo que a academia onde ela dava aulas, estava a venda. Fiquei animada com a possibilidade de voltar para casa. Começava a ficar deprimida demais em Berlim. Consegui juntar um bom dinheiro no período em que trabalhei lá e graças ao seguro-saúde, que todos os bailarinos do nosso grupo tinham, não precisei desembolsar muito pelos tratamentos que recebi. Pesei os prós e os contras e acabei por tornar-me uma proprietária de escola de balé. Isto tudo aconteceu há cerca de 2 meses. E aqui estou eu.
- E, numa boa mesmo? Está feliz?
- Acho que sim. Desisti de me fazer de vítima e encarar a realidade. Na academia vou continuar em contato com o que mais gosto de fazer. Se tudo falhar, vou pedir emprego para algum famoso advogado amigo – disse dando uma piscadela para ele.
- Quem me dera... Famoso – disse, soltando uma gargalhada, escondendo a tristeza e a pena que sentia de sua amiga por tudo que ela sofrera – Tenho certeza que tudo vai dar certo com a sua academia. É importante fazer o que se gosta.
- E você? Ainda solteiro? O que há com estas gaúchas que ainda não conseguiram laçar um advogado charmoso como você?
- Acho que elas fizeram escola com uma certa colega minha...
- Ah, Miguel, não vai começar a flertar comigo agora – desdenhou rindo – Prefiro mantê-lo só como amigo.
- É uma pena, mas fazer o quê? – suspirou e retribuiu o sorriso mais palidamente. – Mudando de assunto, pois já vi que não tenho a mínima chance, como sempre. Onde você está morando? Com seus pais?
- Não. Aluguei um apartamento no mesmo prédio em que meu irmão mora. Meu pai faleceu há dois anos. E minha mãe... A gente se fala muito pouco. Você lembra como ela foi contra a minha ida para a Alemanha? Pois é. Desde lá, ficamos meio que de mal. Com a minha volta, estamos começando a nos reaproximar.
- Mas sabe quem eu vi estes dias? – falou depois de uma breve pausa, novamente mudando o rumo da conversa, pois percebeu que o assunto de família não era muito agradável para Bruna – O Janjão. Lembra dele?
- Não brinca! Como ele está? – indagou curiosa a respeito de um dos mais polêmicos colegas da turma.
Passaram a conversar sobre os tempos de faculdade e riram lembrando professores, amigos e figuras hilárias daquela época.


- Papai...
- O que foi Marina?
- Por que tu estás triste hoje?
- Não estou triste.
- Foi porque a Tati falou da mamãe?
- Não, meu amor... É melhor fechar os olhinhos e dormir. Amanhã temos que acordar cedo.
- Não sonhei mais com a mamãe... – continuou.
Engolindo em seco e sentindo uma imensa ternura, Leonardo aproximou-se da filha na penumbra do quarto.
- E você está chateada com isso? – perguntou, sentando-se na cama junto a Marina e acariciando sua cabecinha.
- Não... Acha que ela está lá em cima ensinando os anjinhos?
Ele sorriu e concordou.
- Tenho certeza disso, querida...
- A Tati pensa que ela pode voltar... Não pode né, papai?
- Não, não pode, meu bem – disse notando que os olhinhos esverdeados já estavam quase fechando.
- Tá bom... – disse com a voz mais enrolada – Te amo, papai...
- Também te amo muito, Marina... – declarou emocionado.
- Boa noite... – desejou num sussurro, de olhos fechados.
- Boa noite, meu anjo – despediu-se beijando sua testa suavemente.
Beijou Tati, que se encontrava agarrada a sua boneca de pano predileta e adormecida há um bom tempo, arrumou o edredom sobre ela e saiu silenciosamente do quarto cor-de-rosa.
Pensativo, foi para a cozinha, pegou um cálice e serviu-se de um pouco do vinho tinto que tinha aberto no dia anterior. Dirigiu-se para a sala, colocou um CD de jazz e sentou-se para ouvi-lo em sua poltrona predileta. As feridas pela perda de Cris estavam praticamente fechadas. Tati e Marina pareciam conformadas e tranquilas em relação a isso. Olhou em torno de si e notou que o silêncio na casa já não o perturbava tanto. A sensação de que Cris apareceria a qualquer momento com um sorriso nos lábios, indo na sua direção para beijá-lo ou com uma palavra de carinho para as filhas, desaparecera. Pelo menos não sentia mais o coração ser dilacerado ao perceber que isso nunca mais aconteceria. Não pode evitar novamente a imagem de Bruna e seu desconforto diante da descoberta de sua viuvez no final de tarde. Será que ela pensava que ele ainda era casado? Seria esse o motivo para repudiá-lo tanto? Bobagem. Ela tinha namorado. Era melhor parar de fazer suposições. Além do mais, que mulher solteira e linda como ela pensaria em relacionar-se com um homem com duas filhas pequenas... Para passatempo? É melhor parar de pensar bobagens! E voltou sua atenção para o som do trompete que o envolvia e ao prazer de degustar o delicioso vinho.


A manhã chegou acinzentada, fria e úmida. Finalmente o Outono se revelava.
- Leo! – chamou sua secretária – Tem uma moça aqui querendo falar com você. O nome dela é Vera. Posso mandá-la entrar?
- Pode – disse olhando o relógio e imaginando que seria a nova babá arranjada por D. Celina.
Pouco depois entrou uma mulher de vinte e poucos anos, de rosto redondo, cabelos e olhos castanho-escuros, vestindo um jeans e um blazer de lã, de olhar desafiador, parecendo mais velha que sua idade devido à maquiagem pesada que usava.
- Bom dia. Vim a pedido de D. Celina. É o senhor Leonardo?
- Sim – disse Leonardo – Bom dia. Quer se sentar aqui, por favor? – Indicou a cadeira mais próxima à sua mesa de trabalho.
Toda empertigada sentou-se e o encarou soberba.
- Fui encaminhada por D. Celina para conversar a respeito do emprego de babá.
- Sim, claro... A senhorita tem alguma experiência com crianças? Tem referências?
- Bem, confesso que nunca trabalhei como babá, mas sou formada em Pedagogia e acho que estou apta a cuidar de suas filhas. Também posso ajudar na cozinha.
Ele ficou espantado ao saber que a mulher era graduada em Pedagogia e estava candidatando-se a um emprego de babá. Onde esse mundo vai parar?
- Como é mesmo o seu nome? – perguntou, tentando ganhar tempo para pensar em como dispensá-la.
- Vera. Gostaria de saber qual o meu horário, pois pretendo iniciar uma pós-graduação à noite. Não poderei trabalhar nos finais de semana, a não ser que seja combinado com duas semanas de antecedência – disparou seus empecilhos.
Vera aparentava ser um poço de antipatia e Leonardo duvidou que seria diferente com as meninas.
- Por que está querendo este emprego, tendo uma formação de nível superior?
Sem querer tocou num ponto nevrálgico da pobre jovem. Pensou que Vera fosse ter uma síncope, pois empalideceu e arregalou os olhos. Engoliu em seco e iniciou sua resposta.
- Infelizmente o mercado de trabalho está difícil, como você deve saber e eu ainda não tive oportunidade devido à falta de experiência. Realizei alguns concursos, entreguei meu currículo em vários locais, fiz entrevistas, mas até agora não consegui nada. Quando D. Celina falou com minha mãe se conhecia alguma babá, ela pensou em mim. Pediu que eu o procurasse. Acho que ela não me aguenta mais em casa sem trabalhar. Você precisa me ajudar – sua voz começou a tremer demonstrando seu desespero.
- Olha, Vera, acho que este emprego não é adequado para você... Afinal uma pessoa formada em Pedagogia merece algo do seu nível – Ela agora estava soluçando – Se procurar melhor, tenho certeza que encontrará uma ocupação mais adequada aos seus conhecimentos do que a que tenho a lhe oferecer. Será que ela é bipolar?Ou maníaco-depressiva?Ou está só desesperada? Não queria uma pessoa assim cuidando de suas filhas, por mais pena que tivesse dela e da situação em que se encontrava – Por favor, não chore... Preciso lembrar de esganar a D. Celina quando a encontrar na próxima vez...
- Concordo com você. Nem gosto tanto assim de crianças, mas como minha mãe insistiu... Preciso muito de um emprego – fungou o nariz – Quem sabe de secretária, aqui no seu escritório?
Uma pedagoga que não gosta de crianças?...
- Não, Vera. Infelizmente já estamos com o quadro completo... Sinto muito não poder ajudá-la, mas é que eu realmente acho que você vai acabar descontente trabalhando em algo fora da sua área, em um emprego subalterno.
As lágrimas vertiam soltas. Quanto mais ele pedia que ela se acalmasse, mais alto ficava o choro, chamando a atenção de seus funcionários e de um cliente que acabara de entrar. Todos o olhavam de soslaio. Deviam estar pensando as piores barbaridades a seu respeito. Podia até imaginar... Melhor não. Chamou a secretária e pediu que ela trouxesse um copo d’água para a senhorita, colocando o dedo indicador na lateral da cabeça e rodopiando o dedo rapidamente, sem que Vera percebesse, indicando o quadro de insanidade mental de sua visitante.
Menos de um minuto depois, recebia o copo com água e uma caixa de lenços de papel. Agradeceu à funcionária por sua eficiência e iniciativa.
- Você já tentou uma agência de empregos? – indagou ao entregar-lhe o copo. Deveria ter pedido um sedativo também.
- Não... – respondeu com um brilho alucinado no olhar.
- Então... Quem sabe você tenta? Tem ótimas agências na cidade – Disse liberando um discreto suspiro de alívio. Parece que estava conseguindo acalmá-la. Entregou-lhe os lenços de papel.
- É... Talvez...
- Quem deve saber indicar é a D. Celina. Tenho certeza que ela vai lhe dar o nome das melhores – vingou-se rebatendo o fardo para sua querida sogra. Aliás, ex-sogra.
A mulher inspirou profundamente e, no instante seguinte, secou as lágrimas, assoou o nariz com estardalhaço e voltou a ter o olhar altivo de antes.
- Desculpe ter tirado o seu tempo - levantou-se.
Olhou-o como se nada tivesse acontecido, agradeceu e saiu, deixando-o pasmo com as mudanças bruscas de humor de sua ex-futura babá, mas ao mesmo tempo aliviado por ter se livrado dela.

Tendo conseguido encerrar suas atividades mais cedo naquela sexta, resolveu dar uma passada em uma das grandes livrarias da cidade para procurar um livro de culinária fácil. Já não tinha esperanças de conseguir alguém que cozinhasse para sua família, assumiria mais esta função. Talvez acabasse descobrindo uma habilidade desconhecida.
Entrou e logo foi perguntando, meio sem jeito, a um dos funcionários onde era a seção de arte culinária. O rapaz indicou o segundo andar, mostrando uma estante estrategicamente escondida e muito conveniente a ele. Não queria que alguém das suas relações o visse buscando este tipo de literatura. Dirigiu-se até lá e começou a remexer nos livros à procura de algo adequado às suas intenções de cozinheiro iniciante. Tinha dois volumes seguros na mão, quando notou que estava sendo observado por alguém. Ao virar-se para o lado, deu de cara com dois grandes e doces olhos azuis a cuidá-lo. Surpreendeu-se ao ser pego em flagrante e deixou cair os livros com grande estardalhaço, atraindo para o alto da livraria a atenção da maioria dos presentes.
- Esta cidade é realmente pequena, não é mesmo? – reconheceu Bruna, segurando-se para não rir da atrapalhação de Leonardo ao vê-la, buscando recolher rapidamente os livros que deixara cair, escondendo-os sob o braço. Será que ele é tímido mesmo?
- Oi... O que está fazendo aqui? – perguntou incisivo ainda atrapalhado com o flagrante e, principalmente por ter sido Bruna a autora deste.
- Procurava CDs de música para a escola – explicou, apontando para sessão bem próxima a eles.
Ela chegou mais perto de onde ele estava, ficando sob seu nariz, bisbilhotando a carreira de obras impressas a sua frente.
- Culinária... Interessante. Achei que era arquiteto – Virou-se bruscamente, provocando-o. Estavam muito próximos um do outro. Mais uma vez sentiu-se próxima a uma combustão espontânea. Apesar de ser alta, ele a ultrapassava em quase uns vinte centímetros. Deve ter quase 1.90 m de altura.
- E sou – respondeu sem desviar um milímetro de onde estava, desistindo de fugir do olhar instigante da bailarina – Algum problema com homens na cozinha?
- Nenhum – respondeu corando levemente, repreendendo-se por estar se insinuando tanto para ele. Virou-se mais uma vez para a estante, fingindo estar lendo os títulos a sua frente – A maioria dos grandes chefs são homens.
Era difícil resistir àquele perfume que ela usava, levemente adocicado. Instintivamente abaixou-se um pouco para senti-lo nos cabelos dourados, que se encontravam soltos, caindo em cascata sobre os ombros. Então ela virou o rosto repentinamente, permitindo que seus lábios quase se roçassem tal a proximidade em que se encontravam. A forte atração que ocorrera no dia anterior na escola voltou intensa. Esquecido de onde estava Leonardo não precisou de muito esforço para puxar Bruna pela cintura, contra seu corpo e beijá-la, degustando seus lábios. Por sua vez, depois de passada a surpresa, ela o envolveu com os braços em sua nuca, ficando na ponta dos pés para moldar-se melhor ao corpo dele. Por um momento ele pensou em soltá-la, temendo estar indo muito rápido, mas ela o reteve e voltou a beijá-lo, sendo plenamente correspondida. Com os lábios entreabertos, permitiu que a língua quente e úmida invadisse sua boca, desvendasse seu sabor e saciasse sua sede. Grudada nele, percebeu a pulsante ereção, sob a fina calça de lã, pressionando seu baixo ventre, provocando-a. Sentiu a calcinha molhada devido ao incontrolável desejo. Arqueou o corpo reflexamente para trás, jogando os quadris para frente, exigindo maior contato. Tiveram dificuldade em ouvir o exagerado pigarrear e um “com licença” seco. Apenas na repetição, acabaram por separar-se e voltaram à realidade. Leonardo a soltou e ela desfez o laço em torno do seu pescoço, dando passagem para uma senhora baixinha, de óculos, espremida dentro num conjunto xadrez de saia e blazer, com ar de censura. Intimidados, ofegantes e de olhos baixos, tentavam recompor-se. Quando os olhares se cruzaram novamente, Leonardo deu um meio sorriso e falou em voz baixa e rouca:
- Desculpe... Eu... – parou com seu pedido de desculpas ao notar que a senhora que os interrompera parecia mais interessada neles do que em sua procura cultural – Que tal irmos tomar um café lá embaixo?
- Já achou o livro que procurava? – indagou sorrindo, procurando naturalidade, como se fosse possível depois do que tinha acontecido.
- Não... Na verdade, nem sei como procurar – Agora ela vai pensar que eu sou um completo idiota! O que me deu de beijá-la daquela maneira?... Como ela é linda...
- Que tipo de livro de culinária estava procurando? – perguntou simulando curiosidade.
- Algum para iniciantes... – pigarreou e olhou para a estante, fugindo do olhar de Bruna.
- Ah, então o ideal é este aqui – declarou enquanto tirava da estante um volume e pensava em como ele ficava bonitinho quando sem jeito – Se você quer aprender sobre como cozinhar comida saudável, este é a melhor escolha.
Ele pegou o livro entre as mãos, folheou um pouco. Era da autoria de um jovem chef inglês. Parecia interessante.
- Obrigado...
- É para você mesmo?
- Não... – mentiu sem conseguir encará-la – É um presente.
- Certo... – concordou apesar de desconfiar que ele estivesse envergonhado de dizer que queria aprender a cozinhar – Que tal aquele café agora? – convidou com a intenção de poderem conversar mais tranquilamente, já que a senhora cheirando a perfume rançoso continuava ao lado deles fingindo ler um livro sobre preparo de massas.
Ele olhou seu relógio de pulso conferindo o horário e disse:
- Infelizmente não posso me demorar muito – subitamente ficou ansioso – Tenho que buscar as minhas filhas na escola.
Decepcionada com a aparente fuga, não se deixou vencer. Será que ele não gostou do beijo? Não foi esta a minha impressão, mas...
- Onde é a escola delas?
- É no Bom Samaritano, perto do Planetário.
- Que ótimo! Eu moro ali pertinho, na Rua Santana – falou animada diante do olhar perplexo dele – Poderia me dar uma carona? Afinal continuo sem meu carro... Está se saindo um grande cara-de-pau, D. Bruna.
- Por falar nisso – O que eu faço agora? – Não recebi o orçamento ainda.
- Não se preocupe. Neste final de semana eu mando. A oficina só vai aprontar o carro na segunda ou na terça.
- Ah... Certo.
- E então? Vai me dar uma carona ou não? – Por que ele está em dúvida, Cristo?
- Você se importa se eu pegar as meninas antes? – Diante da expressão de dúvida dela, explicou – Antes de deixá-la em casa, é claro. Isto é... Você vai comigo pegar as duas?
- Claro! – exclamou radiante, ao entender o convite mais que satisfatório – Vou adorar – terminou de responder com o melhor sorriso do mundo.
- Então, vamos. Elas devem estar saindo da aulinha de informática daqui a pouco.
- Vamos lá.
O que eu estou fazendo?O que ele vai pensar de mim?Que vontade de beijá-lo de novo...

Esbarraram-se quando resolveram sair do corredor onde estavam. Bruna quase caiu contra a estante ao seu lado. Encabulado, Leonardo pediu desculpas e segurou-a delicadamente no antebraço, maldizendo-se intimamente por estar tão nervoso e estabanado. Fez um gesto polido apontando o caminho e deixou-a seguir a sua frente.
Bruna, pare de parecer uma adolescente num primeiro encontro. Até ontem vocês se odiavam. Agora, só porque soube que era viúvo...
Esquecido de que carregava um livro na mão, fez soar o alarme quando passou pela porta da livraria. Ao dar-se conta que não pagara pelo artigo, desculpou-se com o fiscal da saída e dirigiu-se quase correndo ao caixa, seguido por Bruna, que segurava o riso para não deixá-lo ainda mais embaraçado. Já bastava ter que enfrentar os olhares desconfiados de metade dos frequentadores da loja, como se eles fossem Bonnie e Clyde.




(continua...) 







Mais uma postagem feita! Vou fazer o possível para manter o ritmo de postagem dos capítulos seguintes, mas tenho medo de atrasar um pouco, pois ando com certa dificuldade de tempo. Além disso, daqui em diante tenho muito pouco escrito. Adorei cada comentário feito pelas minhas assíduas leitoras ( Nadja, Aline, Cris, Dena), a quem eu amo demais. Nem tenho como agradecer tanto carinho de vocês. Vocês me deixam muito feliz.
Muitos beijos!

domingo, 5 de setembro de 2010

Confusões de um Viúvo - Capítulo V

Somente naquela manhã levara o carro, para desamassar a lataria, no mecânico recomendado por Álvaro. Infelizmente, como todo o bom profissional, ele estava abarrotado de serviço e alertou-a que só poderia entregar o carro pronto na próxima segunda à tarde. Como não conhecia nenhuma outra oficina que executasse aquele tipo de serviço, decidiu por deixá-lo ali mesmo. Teria que conformar-se em ficar sem carro nos dias seguintes. Agora, de posse do valor a ser pago pelo conserto, teria que enfrentar de novo o senhor Leonardo Barth para entregar-lhe a nota. Durante o percurso da lotação que a levaria para a academia, foi imaginando mentalmente como seria este encontro. Sendo uma quinta, ele certamente levaria as filhas ao balé. Pediria à recepcionista que o mandasse à sua sala para entregar-lhe pessoalmente? Tinha medo da sua reação. Ele parecia alterar-se com facilidade. Ela também, pelo menos na presença dele. Talvez não fosse uma boa idéia fazer isto pessoalmente. Claro! Deixaria a nota na recepção... Não. No dia seguinte já estariam comentando que ele pagava as contas dela e que deveriam ser amantes. Sabia como este tipo de fofoca se espalhava. Não queria saber de mais confusões para o seu lado. E se colocasse na mochila de sua filha com um bilhete? Não. A mulher dele poderia achar e pensar coisas erradas. Duvidava que ele tivesse contado o que acontecera para a esposa. Será?
A lotação chegou à esquina em que Bruna deveria descer. Suas dúvidas tiveram que esperar o troco do motorista e sua descida do veículo, para só então continuar. Quem sabe via e-mail? Provavelmente ele teria um. Teria que verificar a ficha das meninas. Isis com certeza devia solicitar os e-mails dos pais na ficha de cadastro. Esta talvez fosse a melhor maneira... E se a mulher dele tivesse acesso ao e-mail dele? Nossa! Entrou na escola ainda indecisa sobre como faria a sua cobrança. Relutava em encontrá-lo de novo. Tinha medo de suas próprias reações. Se ao menos pudesse tirá-lo da cabeça... Resolveu que se entregaria ao trabalho, vendo a papelada da sua nova aquisição. Sua advogada combinara de visitá-la no final da manhã. Esperava estar liberada destas burocracias, para dedicar-se ao mais importante. A dança. Torcia para que já houvesse alunas para preencher as vagas na nova turma de dança contemporânea que ela iniciaria. O plano era começar já na próxima semana. Ensaiaria alguns passos naquela tarde, assim que tivesse uma folga. Sentia-se um pouco melhor do resfriado adquirido no domingo. Ao pensar nisso, não pode evitar a lembrança da visão de Leonardo sem camisa salvando-a das águas turvas do lago. Sacudiu a cabeça para espantar estes “maus pensamentos”. Entrou na academia, cumprimentando alegremente as recepcionistas e algumas alunas que por ali se encontravam. Agora era uma mulher de negócios. Quem diria que o destino faria isso a ela... Sentiu uma pontada no tornozelo esquerdo. Lembrou de sua mãe que costumava dizer que este tipo de cicatriz doía quando se anunciava chuva. Tomara que isto, se fosse verdade, só acontecesse à noite, quando estivesse no aconchego de seu "lar doce lar". Não queria ter uma recaída da gripe por causa de um banho de chuva.


Deve ter mandado consertar, pensou Leonardo ao notar a ausência de um certo carro amassado estacionado diante da escolinha. Enquanto deixava Tati em sua sala, questionava se devia procurar Bruna novamente para pedir o orçamento de seu carro ou se esperava que ela se manifestasse. A dúvida ainda persistia depois de beijar Marina e deixá-la na companhia de suas coleguinhas de turma e de Ana, a professora. Foi procurar um lugar discreto para sentar, relaxar e esperar a saída das aulas. Não estava com vontade de conversar. Por sorte, Cláudia não costumava ficar à espera de Fabiana. Deixava a menina lá e só voltava na hora do término. Segundo ela, aproveitava aquele período para dar suas voltas de dona de casa ou ir à manicure.
Os corredores apresentavam-se calmos naquele horário. Poucas turmas e todas em atividade dentro de suas respectivas salas. Então, ouviu uma música diferente das que costumava ouvir por ali. Aproximou-se da sala de onde fluía o som. A voz era a de Lenine, um de seus cantores preferidos, cantando a música “Cambaio”, da peça homônima de Chico Buarque. Assistira àquela peça no teatro há alguns anos e ficara fascinado com a versatilidade dos atores e a animação do palco. Não resistiu e olhou, através da porta aberta, a figura esguia, que dançava com as pálpebras cerradas, entregue totalmente ao ritmo musical. Era Bruna. Vestia uma malha preta, de mangas curtas, e uma calça larga, de tecido fino, da mesma cor. Seu primeiro ímpeto, ao reconhecê-la, foi sair dali, mas os movimentos harmoniosos e sensuais daquele corpo o fixaram ao chão. Ela movia-se como uma pena ao vento, mudando o rumo conforme os acordes, num balanço de quadris, pernas e braços, mexendo a cabeça, rodopiando em torno de si mesma, voluptuosamente, às vezes leve e languida, outras, rápida e vigorosa. Perdeu a conta de quanto tempo ficou a observá-la sem ser notado. Envolvido pela visão sedutora e pela música vibrante, não percebeu quando Bruna fez uma careta de dor. O encanto foi quebrado quando ela perdeu o equilíbrio e foi ao chão, em meio a um gemido alto. Lá ficou, sentada, segurando seu tornozelo esquerdo, com a cabeça baixa. Leonardo instintivamente correu até ela, aflito em saber o que acontecera e se ela estava machucada. Provavelmente torcera o pé e precisava de socorro.
- Você está bem?
Ela parecia soluçar. Quando a voz dele chegou aos seus ouvidos, silenciou instantaneamente e olhou para cima, encontrando o brilho angustiado daqueles verdes olhos. Seu rosto estava banhado por lágrimas, que imediatamente ela começou a secar com o dorso da mão livre, enquanto a outra persistia segurando o tornozelo afetado.
- O que está fazendo aqui? – perguntou num misto de surpresa e vergonha.
- Eu... Eu estava olhando você dançar – entregou-se – Você estava tão... Você dança tão bem, que... – interrompeu os elogios, temendo mostrar sua admiração em demasia – Machucou-se? Está doendo? – disse ajoelhando-se para se certificar da gravidade doferimento.
- Não... – ele estava tão próximo, que podia sentir o delicioso cheiro da sua colônia e ver os fios dourados da barba que sombreavam o rosto másculo e emolduravam a atraente boca. Notou a ruga de preocupação entre as sobrancelhas retas e espessas – Não foi nada...
- Me deixe dar uma olhada – pediu, esticando a mão para examiná-la.
- Não! – negou rechaçando-o amedrontada, tentando afugentar o desejo por ele – Já disse que não foi nada.
- Então por que está chorando? – falou docemente, sem importar-se com a rudeza dela – Pode ter torcido ou quebrado. Não tenha medo. Tenho alguma experiência com este tipo de lesão dos tempos em que eu jogava futebol.
- Não... – tentou normalizar o tom de voz, arrependendo-se de sua grosseria diante da apreensão dele. Ele parecia realmente preocupado com ela – É um ferimento antigo que, dependendo dos movimentos que faço, dói... Só isso.
- Consegue ficar de pé? Eu a ajudo... – seu olhar cruzou com o dela, transfixando-o.
Podia sentir a respiração quente e ofegante dele muito próxima de seu rosto. A atração tornava-se forte e incontrolável, quando ela decidiu rompê-la, graças a um fio de consciência que a alertou. Não podia deixar-se levar por estas sensações que aqueciam seu corpo e a tornavam indefesa. Ele é casado! , soou seu alarme.
- Eu já disse que não foi nada. Pode deixar – disse desviando o rosto e procurando um apoio no chão para poder levantar-se.
Sem importar-se com as negativas, Leonardo segurou-a pelo braço para ajudá-la a erguer-se. Quando conseguiu ficar de pé, sentiu a mão dele escorregar por sua cintura, enquanto a outra apoiava seu antebraço. Estremeceu.
- Que tal sentar-se naquela cadeira, enquanto peço para trazerem um pouco de gelo? – seus dedos pareciam pegar fogo ao senti-la sob aquela malha firmemente aderida ao corpo e ao tocar a pele acetinada de seu braço.
- Olha, você é muito gentil, mas pode deixar. Eu me viro sozinha. Já estou acostumada com esta dor – lutava contra sua vontade de ficar aninhada entre aqueles braços fortes e confortáveis que já a tinham salvo dias antes.
- Você ainda está com dor. Por que é tão teimosa? É tão difícil assim aceitar a minha ajuda? – Sentiu-o retesar-se visivelmente magoado – Não se preocupe. Vou embora assim que a deixar na cadeira. Prometo que não vou incomodá-la mais – disse mais secamente.
Foi o que fez. Colocou-a sentada o mais comodamente possível e saiu dizendo um amargo até logo. O pedido para que ficasse ficou preso entre as cordas vocais de Bruna.
Quando cruzava a porta, sob o olhar tristonho da bailarina, quase deu um encontrão em Sandra, a mãe da amiguinha de Tati.
- Oi! – saudou-o com sua voz estridente e um sorriso arreganhado – Estava procurando por você. A Tati estava perguntando pelo pai. A aula delas já está acabando.
Atônito com o encontro inesperado agradeceu num muxoxo e passou reto pela mulher.
- Não há de quê – disse chateada com a falta de simpatia dele e já esticando o pescoço para ver com quem ele estava na sala de onde saiu – Oi, tudo bem? – Aconteceu alguma coisa? – perguntou enxerida.
- Nada. Só machuquei meu tornozelo quando dançava. Já está tudo bem, obrigada.
- Está bem, então. Vou lá buscar a Fernanda, minha filha... Tchau.
Será que está acontecendo alguma coisa entre esses dois? Tem mulheres que não dão mole. Aposto que estava se fazendo de vítima para atraí-lo... – pensou Sandra, maliciando a situação. – Pois tem concorrente, meu bem...

Os versos da música de Chico não deixavam a sua mente, bem como as imagens de Bruna flutuando no salão.
“Eu quero moça que me deixe perdido
Procuro moça que me deixe pasmado
Essa moça zoando na minha idéia
Eu quero moça que me deixe zarolho
Procuro moça que me deixe cambaio
Me fervendo na veia”...
Foi despertado pela voz miúda de Tati.
- Papai! Onde você tava? – exclamou jogando-se em seus braços, quando o viu em meio às mães de suas colegas. Estava preocupada, pois o pai sempre a espreitava durante as aulas. Precisava de mais atenção do que Marina. Ficava ansiosa se não o via de vez em quando a sorrir na porta da sala, incentivando-a.
- Eu... Fui ao banheiro, querida – explicou com um pálido sorriso – Mas já estou aqui. Vamos lá pegar a mana?
- Vou dar tchau prá “fessora”, papai...
- Professora, Tati. Professora – falou pausadamente, corrigindo-a e dando-lhe um beijo na testa.
- Tá bom, tá bom... – e saiu esvoaçante, agitando os bracinhos.
Sandra aproximou-se dele e comentou:
- Você foi comunicado sobre a nova dona da academia?
- O quê? – indagou confuso – Ah, sim... É a Bruna.
- Já a conhecia? – sondou curiosa, apertando os olhos argutos.
- Não... – O que essa mulher está querendo? pensou arqueando as sobrancelhas – Fiquei sabendo na última terça-feira.
- Pensei que já a conhecia... Vocês estavam conversando agora há pouco...
Mas que tipa intrometida...
- Tati, vamos anjinho – voltou a atenção para a filha que retornava e deixando Sandra a falar sozinha – A Marina já deve estar saindo.
- Por favor, não fique chateado. – Notou o aborrecimento dele – É que estou curiosa a respeito dela... Só isso – disse arrependida de seu comentário anterior. Tinha que ter cuidado com o que falava para não assustá-lo.
- Não estou chateado. Apenas tenho que ir – sorriu debilmente – A gente se fala outra hora, tá? Até mais. – Despediu-se e pegou a mão de Tati, fugindo do interrogatório, deixando Sandra amolada por ter sido ignorada tão sutilmente.

Quando chegou à sala de aula de Marina, lançou um último olhar para o local onde havia deixado Bruna. Ela ainda estava lá e provavelmente com dor. Gostaria de saber que tipo de ferimento era aquele que a impedia de dançar livremente. Decidiu falar com Ana e pedir que fosse ver a colega. Para isso, aguardou a saída das alunas, deixando Marina e Tati a brincar no corredor, onde podia mantê-las sob sua vista.
- Oi, Ana!
Ana
- Oi, Leonardo! Tudo bem? Algum problema?
- Não... É que estou preocupado com a Bruna, a nova diretora aqui da escola. Ela caiu enquanto dançava ainda há pouco e não permitiu que eu a ajudasse. Será que você podia dar uma olhada nela?
- A Bruna caiu? Ai, meu Deus! Onde ela está?
- Na última sala deste corredor.
- Muito obrigada. Vou lá ver o que aconteceu – disse antes de sair correndo na direção que ele indicara.
- Papai! Não vamos embora? – gritou Marina, vendo o pai meio que perdido entre ir ou ficar, alertando-o.
- Claro, filha. Já vamos sim. – respondeu, obrigando-se a sair do lugar.
Um último olhar para onde estava Bruna o tranquilizou, pois viu Ana e ela saindo de braços dados. Seus olhares ainda se cruzaram rapidamente antes dele atender ao puxão recebido de Marina, forçando-o a caminhar.

- Andou exagerando nos passos, Bruna? – perguntou Ana à amiga.
- Nada demais. Só me desequilibrei e caí de mau jeito – tentou amenizar sua imprudência.
- Amiga, você sabe...
- É, eu sei... Mas é tão difícil... Eu ainda me pergunto por que isto aconteceu logo comigo? É tão injusto...
- Eu só imagino... De qualquer forma, você tem que ter cuidado, pois se continuar insistindo pode piorar a lesão e conseguir uma proibição até para ensinar.
- Tem razão, Ana. Ainda mais agora que consegui esta oportunidade de ter uma escola de balé só minha. E graças a você.
- Que nada. Só a apresentei para a Isis. Nada mais. Vocês é que se entenderam bem – sorriu abertamente e conduziu Bruna para a área da direção – Que tal uma bolsa de água quente neste pezinho, hein? Por falar em quente, o que é que o pai da Tati, aquele pedaço de mau caminho, estava fazendo por perto quando você caiu?
- O pai da Tati? - indagou pensativa e logo enrubesceu – Ah! O Leonardo... Ele apenas me viu cair.
- Ah, o Leonardo... – imitou-a – Tá bom... Ele veio todo preocupado me pedir para socorrer você.
- Mostra que é um homem educado e prestativo – falou intimamente satisfeita com a preocupação dele, mesmo depois do que acontecera.
- Ele parecia um pouco mais que isso... – continuou provocativa.
- Pára com isso, Ana. Aonde quer chegar com estas insinuações bobas? – criticou-a – Ele é casado e pai de duas alunas. Só isso.
- Está bem. Não está mais aqui quem falou, mas você está enganada quanto a ele ser... – interrompeu o assunto quando viu a senhora responsável pela limpeza aproximar-se, antes de entrarem na sala de Bruna – Oi! A senhora poderia nos conseguir uma bolsa de água quente, por favor?
- Acho que vi uma lá na despensa. A senhora se machucou, D. Bruna?
- Só dei um mau jeito – simplificou a explicação para a funcionária.
- Já volto com a bolsa. Esperem só um momento.
- Obrigada – agradeceram quase ao mesmo tempo, Bruna e Ana.
Foi quando Ana conseguiu acomodar Bruna em sua cadeira e pensava em retomar o assunto Leonardo, que o próprio surgiu no umbral da porta com Tati e Marina pela mão. Por um momento ele pareceu não saber o que dizer, mostrando-se reticente e ansioso. Já se maldizia por não ter ido embora quando teve oportunidade. Poderia ligar no dia seguinte e perguntar se ela estava bem. Contudo agora era tarde. Já estava frente a frente com Bruna e com um pretexto na ponta da língua...
- Oi... Está melhor? – perguntou dirigindo-se a Ana.
- Vamos colocar uma bolsa de água quente e logo ela vai estar bem – respondeu Ana, já que Bruna parecia estar ocupada demais olhando para ele atônita.
- Ela tá dodói, fessora? – perguntou Tati, lançando um olhar tristonho para Bruna que estava com o pé apoiado numa baqueta.
- Só um machucadinho à toa, meu bem. Ela já, já vai ficar bem – Ana tranquilizou-a.
- Eu posso ver? – continuou curiosa.
- Tati, comporte-se – ralhou baixo, seu pai.
- Pode , anjinho, pode ver sim. Vem cá – convidou-a Bruna, recuperando a voz e acenando-lhe – Pode ver que não tem nada de mal aqui – disse mostrando o tornozelo sob a meia de balé.
Tati se desprendeu da mão de Leonardo e correu para Bruna. Marina seguiu-a curiosa, para constrangimento do pai.
- Meninas, por favor...
- Não, pode deixar. É melhor verem que está tudo bem... – disse Bruna, olhando para ele reprovadoramente – Viram? Só preciso descansar um pouco e logo vou estar nova em folha. Se me derem um beijinho, melhoro mais rápido ainda.
Marina e Tati sorriram e imediatamente a beijaram na face, uma de cada lado, emocionando Bruna.
- Na verdade – interrompeu Leonardo desconcertado com a cena de carinho – vim aqui por causa do carro. Você não disse quanto foi o conserto e... – disse ele explicando a sua presença ali. Este era o seu pretexto para vê-la e certificar-se que estava melhor.
Ana olhou surpresa para Leonardo e depois para Bruna, mas evitou fazer qualquer comentário.
-Acho que não é uma boa hora para se falar nisso. Você tem fax? Ou e-mail? Posso mandar para você o orçamento e depois acertamos tudo – disse sentindo-se estranhamente constrangida. Ele voltou só por isso...
- Tem razão... Me desculpe... – era a vez de ele ficar sem jeito, remexendo nervosamente no bolso do casaco e tirando sua carteira, de onde sacou um cartão e entregou a ela. – Este é o meu cartão. Aí tem o endereço, telefone e e-mail do meu escritório... Bom, Marina e Tati, vamos embora para deixar a professora descansar.
- A minha mãe também fez um dodói... – falou Tati inesperadamente.
- Tati, vamos – falou Leonardo, antecipando dolorosamente o que a filha diria a seguir.
- Mas ela ficou boa, não ficou? – perguntou Bruna inocentemente.
- Acho que não... O papai do céu levou ela e não trouxe mais.
Bruna olhou atarantada para Leonardo e depois desconsolada para a pequena, que a mirava com tristeza nos olhinhos cor de mel. Estava sem chão. Completamente sem graça. Não sabia o que dizer. Ele é viúvo? Elas não têm mãe? Meu Deus! Que estúpida que fui! Pobrezinhas!
Leonardo foi o primeiro a quebrar o silêncio insuportável que se fez após o comentário de Tati.
- É melhor nós irmos embora. Vamos, meninas! Já incomodamos demais as professoras aqui – ordenou às filhas evitando olhar para Bruna.
- Ah, papai...
- Vamos agora! – falou mais enérgico, sem alterar muito a voz.
- Eu... – Bruna queria desculpar-se de alguma forma pelo mal entendido – Desculpe... Eu não sabia... – Sentia-se muito mal com a situação criada.
- Não se preocupe... Não tinha obrigação de saber... – tranquilizou-a – Boa noite e desculpem qualquer coisa.
Recolheu as filhas e saiu rapidamente da vista das duas mulheres.
Assim que se viram sozinhas de novo, Bruna fulminou Ana.
- Por que você não me falou que ele era viúvo? Fiquei numa saia justa daquelas e, ainda por cima... Você viu a carinha da pequenininha? Tadinha... – sentiu vontade de chorar ao lembrar a expressão de Tati.
- Pensei que você soubesse. Ia justamente falar sobre isso quando ele apareceu na porta.
- E eu pensando mal dele este tempo todo... – pensou alto.
- Por que pensando mal? O que está acontecendo? – Queria saber o motivo de Bruna ter ficado tão aborrecida – E que história é esta do carro?... Não me diz que foi ele que...?
- Foi, Ana, foi.
- Por que não me contou?
- Não sei. Acho que esqueci ou não achei relevante ou achei que tinha falado e não falei... Não sei. Isso não vem ao caso agora.
- Aqui está a bolsa quente, D. Bruna – disse a faxineira ao entrar na sala, interrompendo-as – Precisa de mais alguma coisa?
- Não, muito obrigada – respondeu Bruna aliviada com a intromissão da mulher. Colocou a bolsa de borracha avermelhada sobre o tornozelo que estava em repouso sobre a banqueta de madeira.
Ana resolveu não voltar a interpelar a amiga sobre o ocorrido, já que aquilo parecia incomodá-la. Além do mais estava atrasada. Deixaria a conversa para depois.
- Melhor eu ir. Tenho que dar minha última aula e sair correndo. Fiquei de passar na casa da minha mãe assim que terminasse aqui.
- Tá bom, Ana. Pode ir. Já estou bem.
- Amiga... Se precisar conversar, me liga mais tarde.
- Obrigada, Ana. A gente conversa em outra hora.
Ana saiu. A cabeça de Bruna rodava, lembrando da maneira como tratara Leonardo em todas vezes em que se encontraram. Agora percebia que estava furiosa consigo mesma, por sentir-se atraída por um homem casado e achar que ele era um safado por parecer estar interessado nela. Que loucura... Começou a lembrar da noite no restaurante, quando ele desviou o olhar timidamente ao vê-la sorrir para ele. Devia estar com amigos, apenas. Passou a vê-lo apenas como um pai solitário dedicado às filhas, levando-as para passear. Mesmo preocupado com a segurança delas, atirou-se ao lago para salvá-la. Está certo que tinha havido o acidente no supermercado, mas os dois foram culpados. E ele tinha sido grosseiro com ela. Em compensação, hoje, ele tinha demonstrado tanta preocupação e cuidados, quando a viu cair... Lembrou seu olhar... Aqueles olhos... A forte atração mútua na hora em que ele a ajudou a levantar-se. Eu devo estar imaginando coisas... Menos o que estou sentindo agora.

(continua...)




Desculpem ter demorado tanto com esta postagem, mas como expliquei no mural dos recados, viajei na sexta-feira, antes de postar o capítulo. Levei o computador comigo, mas não tive tempo de abrí-lo para entrar na internet. Espero que gostem da continuação. Muito obrigada às minhas amigas queridas que não deixam de comentar minhas postagens. Minhas boas-vindas à Taty, minha amiga de longa data e tb escritora.
Um beijo a todas vocês!

domingo, 29 de agosto de 2010

Confusões de um Viúvo - Capítulo IV


Pelo menos a dor de cabeça passara e a febre não o incomodara mais. Restara apenas um leve desconforto muscular. Depois de deixar Marina e Tati na escola, levaria o carro para trocar o farol quebrado. Ao pensar nisso, a imagem de Bruna mais uma vez o atacou. O carro dela tinha sido mais prejudicado, pois a lataria fora comprometida. Talvez devesse pedir desculpas, além de pagar o conserto. Ele tinha de reconhecer que sua pressa em sair do mercado tinha contribuído para o acidente. Sacudiu a cabeça e foi para o banheiro resmungando, lutando para livrar-se da imagem da professora.

Leonardo
Naquela terça, Leonardo chegou ao balé decidido a falar com a diretora a respeito da mudança sem comunicação prévia. Entregou Tati em sua sala e deixou Marina sentada na sala de aula, à espera da professora, com outras colegas. Dirigiu-se até a sala da direção. Bateu à porta e entrou ao ser convidado por uma voz feminina. Para sua surpresa, quem se encontrava sentada na mesa, onde deveria estar a responsável pela escola, era Bruna. Ela levantou o rosto para ver quem entrara e expressou imediatamente sua surpresa, que logo lhe pareceu não ser das mais agradáveis.
Bruna
Estava encantadoramente natural, quase sem maquiagem, com os cílios longos e espessos levemente realçados por rímel e um batom claro, que tornava seus lábios cheios ainda mais tentadores.
- Veio para acertar o conserto do meu carro? – perguntou sarcástica, tentando conter a súbita disparada dos batimentos em seu peito.
- Na verdade, eu esperava encontrar a diretora. Preciso conversar com ela.
- A meu respeito? – continuou ironizando.
- Posso voltar mais tarde – Ignorou-a. – A que horas posso encontrá-la?
- Talvez seja melhor falar comigo.
- Tem que ser com ela. Volto depois. Com licença. – Já estava voltando-se para a porta, quando a ouviu espirrar.
- Saúde! – não conseguiu evitar a expressão de praxe.
- Muito obrigada – agradeceu enquanto pegava um lenço de papel da caixa que estava a sua frente – Só para esclarecê-lo – continuou esfregando discretamente o lenço no nariz – Eu sou a diretora.
- Como? – exclamou surpreso.
- É o que estou dizendo. Qual é o assunto? – indagou séria.
- Mas... Eu conheço a diretora. Falei com ela não fazem dois meses, aqui nesta mesma sala.
- Sinto muito lhe comunicar que assumi na semana passada o cargo, pois acabo de comprar esta academia – disse, sem conseguir encará-lo – Infelizmente não houve tempo de avisar aos alunos oficialmente. De qualquer maneira, a Isis vai continuar me ajudando na direção por algum tempo. No momento ela está em férias e só volta no próximo mês. Como vê, senhor... Como é mesmo o seu nome? – perguntou, franzindo as sobrancelhas entre os olhos e olhando-o com desdém.
- Leonardo. Leonardo Barth... E o seu é? – redarguiu no mesmo tom irritante.
- Bruna. Bruna Scalzzi – respondeu fuzilando-o com seus expressivos olhos azuis cintilantes – Pode me dizer agora qual é o assunto que o traz aqui?
Leonardo piscou involuntariamente os olhos enquanto tentava lembrar-se do motivo que o levara até ali.
- Eh... É a respeito da troca de professora na turma da minha filha, Marina.
- Não houve troca alguma... – revirou sua memória – Ah! Já sei a que se refere. Na última aula de quinta, eu apenas substitui a Ana, pois ela precisava ir ao médico. Se o senhor for até lá agora, verá que ela já está com a turma de sua filha. Mais algum problema?
- A senhorita é sempre assim tão pedante? – não pode evitar lançar a pergunta que estava arranhando seu ego e sua garganta.
- Não. Só quando falo com encrenqueiros – lançou a resposta, ofendida.
O sangue imediatamente subiu à cabeça de Leonardo. Sua vontade era dizer alguns desaforos àquela bailarina de araque, mas não faria um escândalo dentro da escola de suas filhas. Quem ela pensa que é?
- Em virtude da sua falta de educação, é melhor eu me retirar. Boa tarde – acabou por preferir abandonar o campo de batalha.
- O senhor me ofendeu primeiro! – exclamou ela, arrependida de tê-lo chamado com o termo insultuoso.
Como ele continuasse no seu movimento de abrir a porta para sair, ela continuou:
- Desculpe! Por favor, eu não devia ter falado assim. – engoliu em seco o orgulho, afinal ela era diretora de uma escola e não podia dar-se ao luxo de tratar mal seus clientes, mesmo que eles merecessem.
Ele parou onde estava e, sem olhar para ela, falou:
- Não se preocupe. Já estou me acostumando... Além disso, já resolvi a minha dúvida. Até logo – e fechou a porta atrás de si, deixando-a com cara de boba.
- Eu e a minha boca grande! – recriminou-se – Agora vou perder as alunas... E o pai...

Pisava duro e arfava como se tivesse subido um lance de escadas em disparada. Leonardo seguia pelo corredor, cego pela fúria. Não era muito fácil tirá-lo do sério. Costumava ser calmo e enfrentar discussões como aquela sem alterar-se. No entanto, a tal Bruna tinha a capacidade de arrancá-lo do seu prumo. Talvez devesse levar em consideração que seus últimos encontros não tinham sido lá muito favorecidos pela sorte e colocar-se no lugar dela. O fato de tomar um banho forçado no lago da Redenção e ter o carro amassado num estacionamento não devia ser muito fácil de enfrentar para uma mulher provavelmente acostumada com a leveza do balé e uma vida tranquila de filhinha de papai, que era o que ela parecia ser. Certamente entre ser dona de boutique ou sócia numa escolinha de dança, optara pela última opção, para dar algum sentido a sua vida inútil de dondoca. Pelo menos era isso que ele preferia pensar a seu respeito, tornando-a menos atraente aos seus olhos.
- Ei, Leo! Não me ouviu chamar? – soou a voz de Cláudia, acordando-o de seu transe.
- Hein?... Ah! Oi, Cláudia. Tudo bem?
- Distraído... O que houve? Está com uma cara péssima. Algum problema com as meninas?
- Não... Problemas de trabalho. Nada muito importante... – mentiu.
- Olha, eu queria pedir desculpas por sábado à noite.
- Por quê?
- Por causa da Denise. Sabe, o Fabrício não me avisou nada. Era para ser só um jantar a três, mas sem eu saber ele convidou a irmã. Não que ela seja má pessoa, mas não foi este o intuito do meu convite. Eu queria realmente que você saísse um pouco da rotina e relaxasse.
- Não se preocupe, Cláudia. Gostei muito de ter saído com vocês.
Dessa maneira, ficaram batendo papo até a hora do encerramento das aulas das filhas, sem perceberem que alguém os espionava.
Será que me enganei de mulher? Será que esta é a esposa dele? Ela também estava no jantar, mas pensei que era casada com o gordinho... – refletiu Bruna – É melhor parar com isso! Pareço uma idiota olhando para eles desse jeito. Toma jeito, sua estúpida! – e tratou de voltar para sua sala, tentando tirar Leonardo Barth da cabeça.


- Papai, será que a gente pode ir no Mac? – sugeriu Marina ao entrar no carro.
- No Mac? Em plena terça-feira, Marina? Não acho que seja uma boa...
- Ah, papi, vamos! – exclamou Tati, evidentemente animada para o programa inusitado num fastfood.
Sabia que não era o ideal, mas estava desanimado demais para contrapor-se aos rostinhos iluminados que o observavam atentamente, aguardando o seu sim.
- Bem... Em vista de não ter nada melhor em casa, acho que podemos quebrar esta regra hoje. Só hoje! – acabou por dizer sorrindo, diante dos gritinhos de satisfação de sua pequena dupla.
Seguiram para o shopping mais próximo. Por sorte ainda não havia muita gente aguardando na frente dos caixas. Ainda era cedo para jantar para a maioria das pessoas. Leonardo acabou por tranquilizar-se com sua resolução. Seria bom sair da um pouco da rotina. Solicitaram os lanches, escolheram os brinquedos oferecidos como brinde e, assim que se sentaram à mesa, Tati olhou-o e disse:
- Preciso fazer xixi...
Contraindo a testa e se maldizendo por ter esquecido de levá-las ao banheiro antes de sentar para a refeição fora de casa, tornou a olhar as bandejas à sua frente e a face aflita de Tati.
- Não dá para segurar um pouco, filha? – tentou.
- Não dá, papai... Tô muito apertada...
Começou a recolher os hambúrgueres, fritas, caixas e brindes, que os acompanhavam, colocando tudo sobre uma bandeja. A partir daí, encaminhou-se para o banheiro feminino, já antecipando as dificuldades que teria de enfrentar.
- Marina, tu entras com a tua irmã e a ajuda, tá bom? O pai fica aqui na porta esperando por vocês.
- Tá bom, papai – disse compenetrada e adquirindo os ares de irmã mais velha. – Vem, Tati, vem com a mana – comandou dando a mão para a caçula.
Parado na porta, segurando os lanches, observava ansioso o movimento de entrada e saída das mulheres, esperando que o toalete esvaziasse, caso as meninas precisassem dele. E isso não tardou a acontecer.
- Pai! Pai! A Tati fez cocô!
E agora, droga! Como vou fazer?
Desesperado, olhava a sua volta, quando viu uma auxiliar da limpeza do estabelecimento aproximar-se.
- Por favor, a senhora trabalha aqui?
- Sim – respondeu ela com o sorriso mais cativante do mundo – Precisa de alguma coisa?
- Na verdade, sim. Minhas filhas pequenas estão neste banheiro e eu preciso entrar para ajudá-las.
Neste instante, a voz de Marina se fez ouvir de novo.
- Papai!!! Tu tem que limpar a Tati!
A mulher fez uma cara péssima e foi logo tirando o corpo fora.
- Eu não posso ajudá-lo nisso.
- Não estou pedindo que a senhora limpe a minha filha. Só gostaria que entrasse ali e verificasse se o banheiro está vazio, para que eu possa entrar.
- No banheiro feminino o senhor não pode entrar – falou como se não entendesse a gravidade de sua situação – Onde está a mãe delas? – indagou olhando para os lados.
- Elas não têm mãe... – falou irritado – Olhe, eu lhe dou uma gorjeta se fizer este favor para mim. É só ver se a área está liberada e impedir que mais alguém entre até eu poder ajudar minha filha.
Como se tivesse ouvido uma palavra mágica, a funcionária enfim cedeu ao seu rogo.
- Espere aqui um pouco. Já volto – disse entrando no sanitário, para logo em seguida retornar e informar – Está vazio. Pode entrar que eu cuido para que ninguém entre.
- Muito obrigado – agradeceu secamente e entregou-lhe a bandeja – Pode segurar um pouco? É o jantar delas.
- Está bem – obrigou-se a aceitar, esperando que a gorjeta valesse a pena.
Ele entrou rapidamente, aproveitando o pouco tempo que certamente teria, e logo viu Marina a sacudir os braços, mostrando a localização de Tati numa das cabines.
- Pronto. O pai já está aqui – acalmou-as – Marina, se tiver vontade também, aproveite e seja rápida. Eu não posso ficar muito tempo, pois é proibida a entrada de homens aqui.
- Tá bem, papai. Vou fazer xixi.
Terminado seu trabalho, com duas crianças perfeitamente aliviadas de suas necessidades, separou uma nota de dez reais e saiu. Felizmente a auxiliar continuava ali na entrada, com cara de poucos amigos, mas ainda segurando a bandeja e impedindo a entrada de duas adolescentes que olharam para ele com cara de espanto, antes de iniciarem as risadinhas e correrem para dentro do lavatório.
- Muito obrigada pela sua gentileza, senhora – agradeceu entregando a gorjeta.
- Não tem de quê – falou áspera. Pegou o dinheiro, entregou a bandeja e sumiu pelo corredor afora.
- É, já não se encontra mais pessoas solícitas como antigamente – suspirou enquanto se encaminhava de volta para a praça de alimentação.
- Que que é solista, papai? – perguntou Tati.
- S-o-l-í-c-i-t-a, minha filha... É o mesmo que prestativa.
- Que que é pestitiva? – tornou a perguntar, com dificuldades para pronunciar as palavras desconhecidas.
- P-r-e-s-t-a-t-i-v-a, Tati. Simplificando, é uma pessoa educada, querida. Que tal sentarmos naquela mesa? – mudou de assunto, antes que Tati resolvesse continuar seu inquérito, apontando para uma das mesas junto à parede, com um banco estofado fixo de cada lado, compondo o reservado.
Afinal, conseguiram usufruir de sua comida fria e dos refrigerantes sem gás, que foi o que restou de todo aquele buchicho. Felizmente, as duas principais interessadas não pareciam preocupar-se com isso, o que fez Leonardo sorrir vendo-as deliciar-se com seus sanduíches e brinquedos ganhos no pedido. Lembrou das primeiras vezes que este tipo de incidente tinha ocorrido. Um caos... Quase morrera de vergonha, na primeira vez, quando se viu obrigada a pedir para uma senhora, que entrava no banheiro, para ajudar Marina. Pior tinha sido o dia em que outra mulher olhara para ele com cara de nojo por verificar que não seria apenas urina a limpar. Depois de tantos reveses, aprendera que a melhor maneira era buscar ajuda com algum funcionário local. Alguns se mostravam mais simpáticos e diligentes, enquanto que outros agiam como a funcionária de agora. Para estes últimos instituíra o pagamento de propina, que raramente falhava.

Depois de colocar as filhas a dormir, foi verificar se tinha algum recado na secretária eletrônica. Apesar de usar o celular, sempre alguém deixava uma ou outra mensagem. Surpreendentemente, a primeira era de Airton, seu sócio. Ele não costumava ligar para o seu telefone fixo. Instintivamente olhou para o visor de seu celular e viu que tinha várias chamadas não atendidas, provavelmente no horário em que estavam no shopping. O segundo era de sua sogra, D. Celina, que falou sem parar até a ligação ser interrompida por ter ultrapassado o tempo máximo de gravação de mensagens. Ela queria marcar um horário para mandar uma moça conversar com ele a respeito do trabalho de babá. Imediatamente seu sensor para problemas soou. Como ela conseguiu arranjar alguém tão rápido?

Aírton em Canela

- Alô! Airton?
- Oi, meu velho! Tudo bom?
- Tudo! Recebi o seu recado. Como vão as obras por aí?
- Acho que vamos conseguir entregar no prazo, se tudo continuar no ritmo em que está. Gostaria que você desse uma chegada para ver pessoalmente a construção e discutir alguns detalhes. Que tal um passeio a serra neste final de semana? Acho que a Marina e a Tati vão gostar de mudar de ares também.
- Não é uma má idéia... – pensou por segundos e decidiu – Está bem. Estarei aí no sábado pela manhã. E, Airton?
- O que foi?
- Obrigado por estar fazendo este trabalho praticamente sozinho. Eu gostaria de estar auxiliando mais, mas...
- Leo, pare de se desculpar. Estou adorando estas férias forçadas aqui. Gosto deste lugar. Não há engarrafamentos, as pessoas são agradáveis e trabalhadoras e inexiste poluição de qualquer tipo. O cheiro mais desagradável que sinto de vez em quando é o do esterco de cavalos, que ainda atravessam a cidade – gracejou – E o escritório? Muito trabalho?
- Felizmente, isto não falta – falou, ainda sorrindo com a observação de Aírton sobre Canela. – Estamos com vários projetos novos. Tem idéia de quando poderá vir à Porto Alegre? Também gostaria de discutir com você alguns destes projetos.
- Olha, do jeito que a coisa está indo, acho que poderei estar aí na próxima semana. Talvez até volte com vocês. O nosso mestre-de-obras é muito bom e de confiança. Não terei problemas em deixá-lo como responsável por alguns dias. – Fez uma pequena pausa e continuou – E você, cara? Tirando os negócios, como vai indo com... A vida?
- Bom você falar nisso. Graças a uma conversa que você teve com a Cláudia e o marido dela, tive que enfrentar um jantar e um encontro às escuras.
- Que conversa? – perguntou tentando lembrar o encontro a que Leo se referia – Ah! Lembrei! Eles estiveram aqui há umas vinte dias. Mas o que eles fizeram para acabar com a sua solidão? – indagou sorrindo.
- Nem te conto. Melhor pessoalmente... Só para resumir, o Fabrício tentou me empurrar a irmã solteirona, que é a cara dele.
O outro explodiu numa gargalhada do outro lado da linha.
- Não brinca! Mas ela deve ser linda!
- Vou apresentá-la quando vieres prá cá. Tenho certeza que vocês se darão muito bem... – ameaçou, tentando não rir junto com o amigo.
- Mas falando sério, Leo. Continua no celibato?
- Melhor a gente falar pessoalmente no fim de semana – respondeu evasivamente.
- Opa! Tem alguém a vista? Não brinca que é a irmã do Fabrício...
- Claro que não. Não tem ninguém.
- Puxa! E eu achando que você tinha saído do limbo... Então, tá! Até o sábado, então. Se cuida!
- Até, Aírton! Um abraço!
- Outro!
A ligação foi finalizada, deixando Leo a refletir sobre a conversa. Depois de ter completado nove meses de luto, Aírton começou a estimulá-lo a sair e conhecer outras mulheres. Não conseguia imaginar o amigo sem ninguém. Sabia o quanto ele amava a esposa, mas ela tinha partido. Leo precisava voltar à vida e isto, para Aírton, significava namorar e... Transar. Neste ponto, pensava como seu irmão, Miguel. No entanto, a presença suave de Cris ainda o envolvia. Ela fora tirada de sua vida de forma tão súbita que era difícil de assimilar sua ausência definitiva. Ainda a tinha viva na memória, nos cantos do apartamento, nos olhos de Tati, no sorriso de Marina... Nestes meses todos, se dedicara como um doido à sua família e ao seu trabalho, esquecendo de qualquer outra distração. Sentia falta de sexo, mas não o imaginava sem Cris. Realmente não sentia atração por outras mulheres... Pelo menos até agora...
Pigarreou e lembrou-se que tinha outro telefonema a retornar, embora sua vontade fosse simplesmente “esquecer” que ouvira o recado de D. Celina. Quem sabe depois de comer alguma coisa? Não. Era melhor não adiar o problema e evitar uma indigestão.
Pegou o telefone e teclou o número tão conhecido.

D. Celina
- Alô?
- Alô, D. Celina. Sou eu, Leonardo. Ouvi o seu recado e...
- Ah! Leonardo! Que bom que me ligou. Já tenho uma moça para ajudá-lo com as crianças. Quando ela pode procurá-lo para tratar o emprego?
- Não sei D. Celina. Na verdade, não sei se...
- Leonardo, você precisa de ajuda sim. As meninas precisam do cuidado de uma mulher. Esta gosta de crianças, sabe cozinhar, lavar, passar e, ainda por cima, tem bom nível cultural – enumerou as características da esposa ideal para a maioria dos homens, fazendo Leo se perguntar se ela era casada, contraindo a boca num sorriso irônico.
- Está bem, D. Celina. Que tal ela me procurar no escritório na sexta-feira, pela manhã? Digamos, às dez horas?
- Ótimo, meu filho – ela só o chamava assim quando conseguia impor sua vontade sobre ele, o que era raro – Ligarei para ela e darei o seu endereço. Qual é mesmo? – Ela nunca lembrava ou fazia questão de esquecer a rua e o número de seu trabalho, apesar dele estar localizado há apenas duas quadras da sua casa.
Endereço anotado e despedidas feitas, Leonardo foi tratar de tomar um banho e comer alguma coisa antes de se deitar, porém o medo do que enfrentaria com esta “maravilhosa babá” passou a assombrá-lo.

(continua...)



Estão gostando? Espero que sim. Leo está começando a ficar interessado em Bruna, saindo do luto prolongado. Dá prá imaginar um viúvo como este sozinho? (rsrsrs)
Aguardem os próximos capítulos...
Beijinhos!