sábado, 12 de junho de 2010

Coração Atormentado - Capítulo XII - Fechando o cerco




Ângela acordou cedo. Pretendia trocar de quarto para evitar as fofocas de Zica e Clara. Olhou para Diego, que parecia dormir tranquilamente ao seu lado. Deu-lhe um beijo suave na face e, quando fazia menção de levantar-se da cama, uma mão forte a segurou, puxando-a de volta.
- Onde pensa que vai? – murmurou rouco.
- Vou para o outro quarto me vestir, antes que alguma curiosa, que já deve ter descoberto o meu carro lá embaixo, venha averiguar onde estou dormindo. A Zica e a Clara já devem ter voltado da sua folga e logo estarão em atividade pela casa.
- Fica mais um pouquinho, vai... – suplicou abraçando-a.
- Que tal uns pães de queijo quentinhos no café da manhã? Lembrei do presente da Tia Lourdes. Antes que a massa estrague naquele porta-malas, podemos dar um destino mais interessante para ela. O que acha?
- Bem, agora você me convenceu. Entre você e os pães de queijo... Hummm. Tem razão. Os pães de queijo! – ironizou.
- Seu bobo... – sorriu e deu-lhe um beliscão de leve no braço.
- Ai! Está bem. Está liberada... Por enquanto.
Beijaram-se rapidamente e logo Ângela, já vestida, saía sorrateiramente do quarto, fechando a porta atrás de si.
Deu uma ligeira desarrumada na suíte de Ágata, para parecer que tinha dormido ali, e desceu. Na cozinha, conversavam as duas empregadas.
- Bom dia, Ângela. Passou a noite aqui? Houve algum problema? – perguntou Clara.
- Na verdade, houve – disse, para pasmo das mulheres.
Contou em rápidas palavras o que acontecera com Cláudia, sem mencionar a suspeita de tentativa de suicídio. Falou com se tudo não tivesse passado de um acidente.
- Você deve estar cansada. Teve que cuidar do Diego todo o fim de semana e ainda continuar na segunda... – disse Clara com certo veneno disfarçado.
- Pois é... Mas optei por manter os dias que combinei com Lino. Ele ficou com as terças, quintas e sábados. Apenas o domingo é rodiziado. Portanto, no próximo estarei de folga. Além do mais, o Lino está com seu pai aqui em BH e precisava dar uma atenção a ele. – explicou – Bem, agora que já esclareci a curiosidade de vocês, quero saber se a Zica não se importa de ligar o forno para preparar uns pães de queijo.
- Pão de queijo? Que estória é essa, gente? – sobressaltou-se Zica.
- Vou até o carro buscar a massa. Minha tia, que mora num sítio, deu de presente. Como não voltei para casa, vou ter de fazê-los aqui mesmo. Vocês gostam?
- Uai! É claro que sim! – exclamou Clara animada.
- Então, vou buscar. Tem massa suficiente para o café da manhã de todos na casa.
Enquanto os pães assavam, Clara estranhava a ausência de Marcelo pedindo seu café, apressado por estar atrasado.
- Talvez ele tenha resolvido ficar em casa hoje. Foi uma noite um tanto agitada.
- É, imagino que sim... Deve ter sido um susto e tanto para ele. – falou maldosamente Clara, provavelmente por já ter percebido o envolvimento dos dois.
- Para todos nós, Clara.



Já passava das 09h30min e Marcelo ainda não tivera coragem de sair de seu quarto. Passara grande parte da noite acordado, pensando sobre sua relação com Cláudia e em tudo que acontecera nas últimas horas. Pensou no amor que nutria por Ágata, mas que, durante os cinco anos em que estiveram juntos, nunca sentir a mesma reciprocidade. Talvez fosse este o motivo que o atraíra para Cláudia. Nas últimas semanas, ela lhe dera mais atenção e carinho do que recebera nos últimos anos de sua esposa. Sabia que era uma garota mimada, acostumada a luxos e aparentemente fútil, mas, a sua maneira, era encantadora, inteligente e muito afetuosa, quando lhe davam oportunidade para demonstrar estas qualidades. Divagando sobre estas questões, foi interrompido por Clara, que bateu na porta de seu quarto para avisar que Glória estava lá, preocupada com a sua ausência na fábrica. Agradeceu e foi para o banheiro, onde tomou uma rápida ducha e vestiu-se. Ficou imaginando se Ângela já teria conseguido falar com o hospital a respeito do estado de Cláudia. De qualquer maneira pretendia visitá-la, ou, pelo menos, ficar próximo a ela e tentar saber sobre a evolução do seu quadro.
Encontrou Ângela perto do telefone ao descer, como se tivesse acabado de desligar.
- Bom dia. Já soube alguma coisa a respeito de Cláudia ou alguém ligou? – perguntou apreensivo.
- Acabei de falar com Nair e ela me deu boas notícias.
- Ah! Sim? – animou-se.
- A TC mostrou apenas um pequeno coágulo, que deve ser reabsorvido em poucos dias, sem necessidade de abordagem cirúrgica. Ela já superficializou o coma e o médico acha que logo ela deve recobrar a consciência. Até já saiu do respirador.
- É sério? – rebateu alegremente incrédulo – Mas que notícias ótimas! Nem sei como lhe agradecer, Ângela.
Tão feliz estava que acabou por abraçar a enfermeira e dar-lhe um beijo na face.
- Não tem o que agradecer. Também fiquei feliz por saber que Cláudia está fora de perigo – falou, ainda surpresa com a reação inusitada do padrasto de Diego.
- Você tem sido um anjo desde que veio para esta casa. Sei que não tenho demonstrado o meu agradecimento pelo que fez com Diego. Ele melhorou muito o seu estado de espírito, voltando a ser o mesmo rapaz alegre de antes. Agora, demonstrando sua preocupação com Cláudia e... Afinal... Muito obrigado.
Neste momento notou a presença de Glória que entrava na sala, vinda do jardim de inverno, onde mantinha uma conversa com Diego. Ele não teria sua sessão diária de fisioterapia naquela manhã. Carlos ligara ainda cedo para avisar que, devido a um problema com seu carro, não poderia ir.
- Olá, Glória. Bom dia!
- Vejo que já melhorou do seu mal-estar – disse lançando um olhar desconfiado para ambos.
- Tive boas notícias. Pretendo ir ao escritório à tarde.
- O Diego acabou de me contar o que aconteceu. Ela está bem?
- Parece que sim.
-Vocês brigaram durante a viagem? Foi tentativa de suicídio? – disparou mordaz, sem parecer importar-se com a presença da enfermeira na sala.
Por algum motivo, Marcelo, chocado com a agressividade de Glória em suas perguntas, resolveu não levar o assunto muito adiante e negou qualquer problema.
- Não. Correu tudo bem. Acho que foi apenas um acidente.
- Diego me disse que pretende voltar a trabalhar na fábrica. Você já sabia?
- Ele me disse qualquer coisa a respeito ontem, mas não lembro exatamente o quê – referindo-se, intimamente, ao seu estado alcoolizado
- É... Parece que logo ele não vai precisar mais dos seus cuidados, Ângela.
- Fico muito feliz por ele.
- O que há com você hoje, Glória? Está diferente... Parece que acordou de pé esquerdo. Teve um fim de semana ruim? – observou Marcelo, notando o mau humor da secretária.
- Talvez eu não tenha dormido muito bem – sorriu inesperadamente – Estou sendo chata, é? Eu também tenho os meus dias ruins, gente.
Todos sorriram e o ar tornou-se um pouco mais leve.
- Acho que está na hora de ir – continuou – Vou me despedir de Diego e voltar para a fábrica. Espero por você à tarde. Quero que veja uns documentos que precisam ser assinados.
- Já está indo, Glória? – perguntou Diego, que acabava de entrar.
- Sim, meu querido. Tenho de voltar para o trabalho.
- Logo você vai poder folgar um pouco mais. Pretendo voltar à empresa na próxima semana. Poderei trabalhar pelo menos um turno, para começar.
- Acho que você podia descansar um pouco mais. Não há necessidade de voltar tão cedo. Ainda precisa de cuidados...
- A Ângela poderá me acompanhar no início para o caso de eu precisar de ajuda. – disse sorrindo, na direção dela, sem notar a expressão preocupada de Glória.
- Sem dúvida – afirmou ela, retribuindo o sorriso – Ainda precisa continuar com o trabalho físico para não perder a tonicidade muscular, já que há uma esperança de...
- Já que... O quê? – inquiriu Glória.
- É... Agora já me sinto melhor para falar sobre isto, por incrível que pareça – interrompeu Diego.
- Sobre o quê, Diego? – foi a vez de Marcelo refazer a pergunta.
- É que Ângela acha que eu tenho chances de voltar a andar.
Marcelo e Glória dirigiram seus olhares reprovadores para a enfermeira.
- Surpreende-me que você possa ter colocado esta idéia na cabeça de Diego. – falou Marcelo – Acho que você deveria ter mais cuidado ao dar um diagnóstico destes, já que o neurologista tirou nossas esperanças.
- E onde está este neurologista? – replicou ela, ao sentir a hostilidade dos rostos a sua frente. – Na verdade, eu pretendia lhe falar a respeito disso esta semana. Eu conversei com o Dr. Medeiros, que tratou de Diego e realizou a intervenção cirúrgica em sua coluna.
- Ele não tem o direito de dar nenhum palpite agora, depois de ter abandonado o caso do meu enteado da maneira que abandonou.
- Eu gostaria de lhe falar em particular, se possível, a respeito deste fato. – insistiu Ângela.
Marcelo olhou a sua volta e viu os olhos interessados de Clara e de Glória, e decidiu que aquele não era um assunto para ser comentado no meio da sala, diante de empregados. Apesar de Glória ser praticamente íntima, não deixava de ser uma funcionária dos Bernazzi.
- Por favor, Marcelo. Ouça a Ângela. Talvez seja importante. Eu confio nela... Muito – afirmou, aproximando-se dela, pegando em sua mão e apertando-a entre as suas.
- Não acredito que vocês possam estar dando ouvidos a esta mocinha intrometida – bradou Glória – Ela é só uma enfermeira. – revelando-se preconceituosa como nunca.
- A senhora também é só uma secretária e, no entanto, está conseguindo auxiliar na gestão de uma empresa, pelo que sei – disparou Ângela, surpresa com o ataque de Glória e com sua própria presteza em responder.
- É melhor pararmos esta discussão aqui. Glória, por favor, é melhor você voltar ao trabalho. À tarde, estarei lá para conversarmos – disse Marcelo tentando apaziguar a revolta excessiva da sua assistente.
Por um momento, um brilho desconhecido se fez ver nos olhos de Glória, diante de sua desafiante, mas logo em seguida, sorriu calidamente e continuou como se nada a tivesse aborrecido.
- Talvez eu tenha exagerado... Desculpe-me, Ângela. Como disse antes, não estou nos meus melhores dias.
- Não se preocupe, Glória. Eu entendo.
- Vou indo, então. Espero por você no escritório, Marcelo. Até!
Despediu-se e sumiu através da porta da frente, que foi cerrada por Clara.
Com um suspiro, Marcelo virou-se para Diego e Ângela, que continuavam juntos.
- Que tal me explicar a sua teoria lá no gabinete?
Os três encaminharam-se, então, até ampla biblioteca localizada ao lado da sala de estar, separada por uma grande porta envidraçada, de vidro fosco, em madeira escura. Suas paredes eram cobertas por estantes de livros que iam até o teto, decorada com móveis de mogno escuro e estofados de couro. Diante da escrivaninha, digna de qualquer renomado antiquário, havia duas enormes poltronas, no mesmo estilo inglês dos demais móveis. Marcelo apontou uma delas para que Ângela sentasse, enquanto Diego estacionou a cadeira ao seu lado.
- Não considero uma teoria, Sr. Marcelo, mas uma constatação. Ao longo deste período em que venho acompanhando o Diego, percebi que faltam, no seu quadro clínico, vários sinais de sequela de lesão medular. Desde o início, questionei o Lino sobre a orientação do neurologista, que deu o diagnóstico final, e fui informada que ele desapareceu. Surpresa com o fato, fui conversar com o Dr. Medeiros. Primeiro fiquei admirada quando ele me disse que foi dispensado pela família e não o contrário, como tinha sido dito.
- Como assim? Ele mandou uma nota para pagamento de seus honorários e disse que não cuidaria mais do caso do Diego.
- Disse para quem? – perguntou Diego.
- Para a minha secretária.
- Glória?
- Não. Minha secretária na minha empresa.
- Talvez tenha que averiguar com ela como foi que isto ocorreu. Mas não acha estranho ele ter contatado a sua empresa e não a nossa? - conjeturou Diego.
- Vou verificar isto – anuiu Marcelo.
- Em segundo lugar, ele me deu um diagnóstico totalmente oposto ao que nos foi informado. Conforme o Dr. Medeiros, a lesão de Diego era mínima e conforme o andamento da fisioterapia ele poderia andar novamente.
- E por que ele ainda não está andando até agora?
- Ele aventou a hipótese de paraplegia psicogênica, mas precisaria examiná-lo para dizer com precisão o que está acontecendo.
- Uma o quê?
- Paraplegia psicogênica, Marcelo – falou Diego impaciente – Quem indicou este segundo neuro e onde ele está?
- Foi o próprio Dr. Medeiros, quando mandou a nota cobrando seus serviços.
- Ele diz que não indicou ninguém e que nunca ouviu falar deste colega. Aliás, Lino andou investigando sobre o nome deste médico no Conselho Regional de Medicina mineiro e não encontrou ninguém inscrito lá com este nome – acabou por dizer tudo, apesar da orientação de Lino.
- Não é possível... – Marcelo estava perplexo diante das descobertas de Ângela e Lino.
- Pretendo marcar um horário com o Dr. Medeiros – disse Diego – Ainda esta semana.
- Claro... Estou pensando no que pode ter acontecido. Que falha de comunicação foi esta que provocou toda esta confusão. E se aquele neuro que o examinou no hospital e deu a sua alta não era médico, quem era ele e quem o contratou para mentir?
- Será que eu posso dar uma sugestão? – perguntou Ângela.
- Claro que sim.
- Que acham de entrar em contato com o investigador que está cuidando do caso da Cláudia e de D. Ágata?
- É uma ótima idéia! – exclamou Diego.
- Eu achei aquele sujeito meio esquisito, mas talvez ele possa descobrir o paradeiro e a identidade deste neurologista fantasma, já que é da polícia e se intitula investigador. – disse Marcelo – Vou ligar para ele agora mesmo. Ele me deu um cartão na primeira vez em que esteve aqui. Deixe-me ver – E começou a revirar uma das gavetas – Ah! Está aqui.
Pegou o telefone sobre a escrivaninha e discou para o número que devia ser o da delegacia. Ao atenderem, identificou-se e pediu para falar com Romildo Corrêa Após alguns instantes, o homem o atendeu. Marcelo rapidamente explicou o caso para o detetive, que agradeceu e disse que assim que descobrisse alguma coisa, entraria em contato. Desligou, diante do olhar desiludido de Marcelo.
- Acho que não vamos conseguir nada com ele... Ficou de ligar se descobrir algo.
- Temos que dar um voto de confiança a ele – consolou-o Diego.
- Já é quase meio dia - constatou Marcelo ao olhar seu relógio de pulso. – Vou almoçar com vocês e, depois, irei ao hospital tentar ver a Cláudia, antes de ir para a fábrica.
- Vou ligar para o consultório do Dr. Medeiros e marcar uma consulta – avisou Ângela.
Separaram-se, enfim, cada qual com seus planos naquele final de manhã.



Em meio àquele trânsito caótico, seus pensamentos agitavam-se entre o fracasso de sua tentativa em eliminar Cláudia, a intromissão da enfermeira, que até então parecera tão inofensiva e a volta de Diego para a fábrica. De repente, tudo resolvera dar errado. Mas não se deixaria abater. Ainda podia resolver tudo. Ainda poderia ter tudo que almejava. Tinha certeza disso. Bruscamente, mudou a direção do carro. Precisava agir rapidamente se quisesse recuperar o controle da situação.



Oi, para todos!! Antes de mais nada, gostaria de felicitar a todos os enamorados pelo seu dia. FELIZ DIA DOS NAMORADOS!
Pois é... Acho que finalmente a estória já dá sinais bem evidentes de quem é o assassino. Este deve ser o penúltimo capítulo, a não ser que algum dos personagens resolva se revoltar e mudar tudo...rsrsrs. Também queria renovar meus agradecimentos às meninas Nadja, Cris, Lucy e Ly, sempre me incentivando, e a todas que vêm a este meu cantinho especial me prestigiar.
Beijos!!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Coração Atormentado - Capítulo XI - Mais uma vítima...

Sozinha, Cláudia chegou de táxi ao prédio onde morava. Eram 17 horas do domingo. Estava irritada. Já não tinha certeza se Marcelo realmente a queria ou amava. Tivera uma discussão com ele, devido a sua relutância em contar para Diego sobre o relacionamento dos dois. Seu ex-noivo já deixara bem claro que não a queria mais. Não compreendia porque Marcelo ainda sentia-se mal em assumi-la. Maldizia-se por ter continuado com aquele noivado, apesar de já não amar Diego. Por pressão de sua família, por comodismo ou para continuar próxima de Marcelo, acabara por ceder ao pedido e noivara. Nos últimos meses já não conseguia tirar o futuro “sogro” da cabeça. Cada vez que o via, seu coração disparava. Pretendia romper com Diego antes de seu aniversário, pois achava que ele esperava a festa para marcar a data do casamento. Infelizmente, aconteceu aquele trágico acidente. Ver o noivo entre a vida e a morte e, depois, preso a uma cadeira de rodas, só tornava mais difícil dizer a verdade. Obviamente, todos pensariam que a causa era a sua paralisia, principalmente ele próprio. Porém, o fato era que, desde que conhecera Marcelo, sentira uma inexplicável atração por ele. Mas havia Ágata, de quem ela gostava muito. Por este motivo, tentara negar seus sentimentos. Mas quando tudo aconteceu, e Marcelo inesperadamente enviuvou, não conseguiu permanecer discreta. Ele estava frágil e passando por uma hora extremamente dolorosa. Não resistiu e, apesar de sentir-se a pior das mulheres por conta disso, acabou por apoiá-lo mais que o esperado, aproximando-se pouco a pouco e envolvendo-o com palavras carinhosas de consolo e fazendo-lhe companhia sempre que possível. Não conseguia mais pensar no que era certo ou errado. Sabia que seria julgada e execrada por muitas pessoas por suas atitudes, mas pouco importava. Ter Marcelo ao seu lado era a única coisa importante. Tinha muita pena de Diego e ainda sofria com a culpa pela morte de Ágata. O fato de desejar o seu marido e, em seus pensamentos mais egoístas, considerá-la um empecilho para sua felicidade, já era suficiente para sentir-se moralmente culpada por sua morte.
Lembrava da surpresa e da indignação de Marcelo quando lhe declarou seus sentimentos. Diego ainda estava na UTI. Chegou a pensar que ficara com raiva dela, mas aos poucos ele foi se modificando, tratando-a com mais carinho, correspondendo aos olhares sedutores e até arriscando algumas carícias. Continuou a respeitá-la, apesar de todas suas tentativas de seduzi-lo. Finalmente ele aceitara passar com ela o fim de semana. Tudo tinha sido perfeito, além de suas expectativas. Porém, quando ela voltou ao assunto de assumirem-se como um casal, Marcelo mais uma vez mostrou-se ambíguo. Agora, já não tinha tanta certeza se ele realmente gostava dela ou se tinha sido apenas uma fantasia sua. Quando entrou no apartamento, assediada por estas incertezas, sentiu um perfume familiar no ar. Colocou as malas para dentro e, ao fechar a porta, sofreu uma pancada violenta na parte de trás da cabeça que a fez perder os sentidos.

Antes de partirem de Casa Branca, Diego teve a grata surpresa de, na hora das despedidas, ser abordado por Isabel, que o abraçou e pediu desculpas por seu comportamento deplorável. Desejou-lhe felicidades e pediu que ele cuidasse bem de sua única filha. Gabriel prometeu que visitaria a irmã em Belo Horizonte na próxima semana. Passariam por sua cidade natal antes de dar início às suas férias. De lá, viajariam para o Rio de Janeiro e, depois, para o Nordeste. Queria mostrar algumas das belezas do Brasil para Nancy antes de voltarem para Chicago. Lourdes, como não podia deixar de ser, arrumou uma grande caixa contendo algumas de suas compotas e geléias, juntamente com uma porção considerável de massa de pão de queijo, para que Ângela pudesse fazê-los em casa e degustá-los quentinhos no seu próximo café. “De preferência, na companhia do Diego”, sussurrou ao seu ouvido, no momento em que entregou o presente. Acomodaram-se no carro e pegaram a estrada pouco antes das cinco horas da tarde.
O riso de Ângela e Diego calou-se quando entraram na mansão da Cidade Jardim e encontraram Marcelo sentado numa das poltronas da sala, segurando um copo de uísque, com aspecto de deprimido.
- Oi, Marcelo! – Diego saudou-o, estranhando ver o padrasto naquele estado – Aconteceu algum problema? Como foi de viagem?
- Ah! Olá, Diego! – respondeu, sem levantar-se, com voz levemente arrastada – Não se preocupe. Nada que não seja solucionável...
Notando que Marcelo não parecia muito bem naquele final de tarde, Ângela sugeriu a Diego:
- Talvez fosse melhor eu ir embora para que vocês possam conversar. Ele não parece muito bem – murmurou com discrição, lançando um olhar para Marcelo, que continuava sentado e indiferente a presença deles.
- Tem certeza que não quer ficar aqui esta noite? – sugeriu Diego.
- Tenho sim. Preciso ir para casa, desfazer a mala e estudar um pouco para minha tese. Além disso, não quero desencadear mais boatos... – respondeu desculpando-se – Vou levar a sua maleta lá para cima e arrumar suas coisas. Quando terminar, volto para me despedir. Fiquem à vontade.
- Não saia sem se despedir.
- Claro que não – disse, beijando-o no rosto.
- Obrigado... – agradeceu enquanto pegava sua mão e a tocava com os lábios.
Assim que viu Ângela subindo as escadas, virou sua cadeira na direção de Marcelo, dirigindo-a até colocar-se ao seu lado.
- Marcelo, acho que precisamos conversar.
- Se é sobre os negócios, fique tranquilo que está tudo sobre controle. Com a Glória a me ajudar, não temos tido problemas. Esperamos que você volte logo para a empresa, mas só quando estiver sentindo-se seguro disso.
- Obrigado, Marcelo. Provavelmente estarei de volta muito breve. Mas não é sobre isso que quero falar com você.
- Não? Ah... E sobre o que é?
- É sobre você. Notei que tem me evitado há alguns dias e...
- É impressão sua – afirmou sem olhar para Diego, remexendo-se na poltrona.
- O que está acontecendo?
- Nada. Por quê? – indagou, mantendo os olhos vidrados no copo em sua mão.
- Você não costuma beber. Agora, chego em casa e encontro você nesse estado. O que há?
Depois de uma pausa para pensar em suas próximas palavras, Marcelo respondeu.
- Diego, na verdade, eu preciso lhe contar uma coisa. Algo que não posso mais esconder de você – respondeu titubeante – Só espero que não me odeie por isso.
- Tem alguma coisa a ver com o acidente? – perguntou temeroso, pois desde que tivera aquela conversa com Ângela sobre a inocência de José, muitas dúvidas passavam-lhe pela mente. Dúvidas e suspeitas terríveis.
- Com o acidente? Não... Por que teria a ver? Não... – continuou com a fala arrastada – Você sabe como eu era apaixonado por sua mãe, apesar de ela não corresponder da mesma forma que eu. Seu pai sempre esteve presente entre nós.
- Eu sei, Marcelo, eu sei... – disse melancólico – Mas você nunca ficou dessa maneira, por este motivo, enquanto ela era viva. É algum tipo de culpa tardia? – insinuou.
Marcelo não parecia entender as insinuações de Diego, pois continuava na mesma posição, atirado sobre a poltrona e com expressão entorpecida.
- Não... É que queria que você entendesse porque eu me deixei levar... – continuava reticente em seu discurso – Depois que ela morreu, no período em que você estava mal no hospital... – a voz tornou-se embargada – ... Eu passava por um período terrível, pois acabara de perder a mulher que amava e via você, a quem sempre quis muito bem, entre a vida e a morte. Naquelas horas difíceis, em que eu estava sem chão, uma pessoa foi importante, me apoiando e me mostrando que a vida continuava e...
- Esta pessoa por acaso foi a Cláudia? – perguntou secamente.
Marcelo pareceu curado da bebedeira instantaneamente.
- Como soube? – perguntou sobressaltado, ajeitando-se na poltrona.
- Marcelo, não sou nenhum ingênuo. Desde que voltei para casa reparo os olhares dela para você e a coincidência de sua presença, sempre em casa, quando ela me visita. Já imaginava algo entre vocês, mas não queria acreditar.
Marcelo levantou-se e caminhou discretamente cambaleante até o meio da sala. Quando se virou para Diego, apresentava os olhos marejados.
- Diego, você sabe como eu amava a sua mãe, não sabe? – tornou a repetir. O álcool ainda embaralhava suas idéias.
- Sei disso, Marcelo. Vocês estão tendo um caso?
Quanto à ex-noiva, já tinha percebido, mesmo antes do acidente, que ela já não gostava dele como antigamente. A relação vinha tornando-se mais fria e sentia que o noivado tinha sido um erro. Só não conseguia crer que suas atenções haviam se voltado para seu padrasto.
- Não! Quer dizer... Perdoe-me, Diego, mas... Sei que agimos muito mal – disse por fim resignado, pois não conseguia perdoar a si mesmo por seus atos.
- Não me interessa o que aconteceu entre vocês. Quero que me diga apenas uma coisa. Vocês têm algo a ver com a morte de minha mãe?
A expressão de espanto e indignação, ao ouvir a pergunta pronunciada por Diego, estampou-se no rosto de Marcelo.
- Pelo amor de Deus, Diego! Não pode estar pensando que Cláudia ou eu seriamos capazes de uma coisa destas! Eu amava demais a sua mãe. Além do mais, Cláudia aproximou-se de mim só após a morte de Ágata. Jamais tive nada com ela até vocês romperem o noivado na semana passada.
- Não me importa o que está acontecendo entre vocês – repetiu – Só preciso que você me convença que não teve nada a ver com o acidente – Diego estava tenso e ressentido, mas tentava controlar-se.
- Nunca traí sua mãe – afirmou com voz inesperadamente firme e sincera – E muito menos tramaria sua morte para ficar com outra mulher, se é isso que quer saber. Cláudia aproximou-se de mim após o acidente, quando você estava no hospital. Nunca houve nenhum tipo de relação entre nós, que não fosse o socialmente cordial, antes disso. Precisa acreditar em mim, por favor!
Marcelo demonstrava todo o seu desespero, diante daquela acusação, na voz e na expressão dilacerada de seu rosto. Diego aprendera a gostar de Marcelo como um grande amigo e conselheiro e não conseguia imaginá-lo cometendo um crime hediondo como aquele.
- Eu acredito, Marcelo – disse finalmente.
- Tenho me sentido o maior dos canalhas por achar que fui o responsável pelo rompimento de vocês. – confessou depois de alguns instantes de silêncio.
- Não se culpe. O nosso relacionamento já não estava bem antes. Eu tentava me enganar, mas no fundo sabia que não duraria.
- Gostaria que soubesse que terminamos tudo, hoje pela manhã, antes de voltarmos de Salvador – falou com tristeza indisfarçável.
Nesse instante, o telefone tocou. Ângela, que descia as escadas e estava mais próxima do aparador onde soava o aparelho, atendeu.
- Residência dos Bernazzi, boa noite... Sim... Como? Um minuto, por favor – pediu e, colocando a mão sobre o bocal, invocou – Diego, é o pai de Cláudia ao telefone. Quer falar com você ou com Marcelo. Parece que ela foi hospitalizada e não está bem.
- O quê? – exclamou Marcelo, andando em passos rápidos até onde estava Ângela e tirando o aparelho de sua mão – Deixe que eu atendo.
À medida que Nicolas, o pai de Cláudia, contava o ocorrido, Marcelo empalidecia, até que despediu-se dizendo que já estava a caminho do hospital.
- O que houve, Marcelo? – perguntou Diego, preocupado.
- Cláudia. Parece que ela tentou o suicídio.
- O quê??
- Os vizinhos sentiram cheiro de gás vindo do apartamento dela e arrombaram a porta... Preciso ir até lá saber o que houve e ver como ela está.
- Eu vou com você – disse Diego.
- O Luis está aí? – perguntou Ângela, diante do estado semi-alcoolizado de Marcelo.
- Não. Eu o dispensei assim que chegamos do aeroporto, pois eu não pretendia sair novamente.
- Neste caso, é melhor que eu leve vocês. Não posso permitir que o senhor dirija nas condições em que se encontra.
- Obrigado, Ângela – agradeceu Marcelo – Mas eu estou melhor e...
- De jeito nenhum. Não queremos que aconteça mais um acidente por aqui. – proferiu Ângela com firmeza – Vamos. O meu carro está estacionado na entrada da garagem.
Marcelo ajudou a colocar a cadeira de Diego no porta-malas do automóvel e em seguida estavam a caminho do hospital. Era a segunda vez, em menos de sete dias, que Ângela se deslocava ao Hospital Joaquim Xavier.
Quando chegaram, Cláudia já tinha sido transferida da emergência para a UTI, onde estava em ventilação mecânica, recebendo oxigênio e tendo o coração monitorado pelo risco de infarto. Sua intoxicação havia sido grave e poderia ter causado a sua morte se os vizinhos não tivessem suspeitado do vazamento de gás e arrombado o apartamento a tempo.
Os pais de Cláudia aguardavam por notícias na sala de espera da UTI.
- O que aconteceu? – perguntou Marcelo aflito e cheio de culpa, após os cumprimentos de praxe.
- Não sabemos ao certo. Parece que ela tentou se matar – respondeu a mãe chorosa – Por que a minha filha faria uma coisa destas? Ela parecia bem. Foi passar o fim de semana com umas amigas e... Acontece isso?
- Marta, ainda não é certo que tenha sido isto que aconteceu – interferiu Nicolas, que parecia um pouco mais controlado – A polícia foi alertada pelos paramédicos e eles estão investigando. Já conversaram conosco por alto. Disseram que ela traumatizou a cabeça e que isto pode ter sido na queda, quando desmaiou devido ao gás, ou pode ter sido agredida por alguém. Talvez até um assaltante. Temos que ver se falta algo de valor no apartamento... Enfim – revelou a voz trêmula, que tentava manter-se firme até aquele momento – O que importa agora é saber se ela vai ficar bem. O médico nos falou que há risco de vida...
Antes que Marcelo ou Diego confortassem o pobre senhor, um estranho homem carrancudo entrou no recinto. Ele era moreno, de estatura mediana, aparentando 50 anos, cabelos escassos e despenteados, nariz grande e vestia um terno surrado. Seu aspecto era de quem tinha acabado de acordar.
- Boa noite – cumprimentou os presentes com uma voz melodiosa, que nada tinha a ver com sua aparência - Quem são os familiares de Claúdia Gutierrez?
- Somos nós – respondeu o casal quase ao mesmo tempo.
- Perdoem a minha presença neste momento de aflição, mas eu gostaria de fazer-lhes algumas perguntas em particular. É possível?
- Mas quem é o senhor?
- Eu o conheço... O senhor não é o policial que está investigando o caso de minha mulher? – interrompeu Marcelo.
- Boa noite, senhor. Tem boa memória... Meu nome é Romildo Corrêa e sou o mesmo investigador do caso de D. Ágata, sim.

Romildo Corrêa

- Nós somos os pais de Cláudia, senhor Corrêa.
- Ah, que bom. Por favor, podem me seguir? Consegui uma sala privativa onde podemos conversar. Com licença? – dirigiu-se aos demais, com um meneio de cabeça, sendo, logo então, seguido pelo casal angustiado.
Enquanto o investigador Corrêa desaparecia com os pais de Cláudia, Ângela tentava falar com Nair, sua amiga e enfermeira-chefe da UTI, para saber sobre o real estado da ex-noiva de Diego. Logo a recepcionista entrou em contato com Nair e pediu que Ângela entrasse na unidade.
- Vou tentar conseguir mais informações sobre ela e já volto – disse tentando apaziguar os ânimos de Marcelo e Diego.
- Obrigado – disse o primeiro extremamente agradecido.
Entrou e seguiu diretamente para a sala da colega e amiga, onde estivera poucos dias antes.
- Ângela! O que a trás de novo aqui? A estas horas de um domingo? Espero que ninguém da sua família...
- Oi, Nair! Não, ninguém da minha família, graças a Deus. É a respeito da moça que acabou de internar, Cláudia Gutierrez. Ela é ex-noiva do meu paciente, Diego Bernazzi. Como ela está?
- De novo esta família? Coitados... – pensou alto. – Na verdade, ela não está muito bem. Vão encaminhá-la para uma tomografia de urgência agora. Suspeitam que possa haver uma hemorragia cerebral por causa da pancada que levou na cabeça. Ela está comatosa. O neurologista que a avaliou ainda não sabe se é pelo TCE(traumatismo crânio-encefálico), pela intoxicação por gás ou por ambos motivos. Acho que só amanhã teremos mais informações. A princípio o estado dela inspira muitos cuidados.
- Parece que a polícia está investigando. Sabe de alguma coisa?
- Não. A única coisa é que as visitas estão proibidas, tanto por ordem do médico intensivista que está cuidando dela, como por ordem judicial. Sinto não poder dar notícias mais agradáveis a você ou à família.
- Muito obrigada, Nair, mais uma vez.
- Ligue para mim amanhã. Talvez já tenha melhores novidades, está bem?
- Está bem. Ligarei, sim.
- Vou indo, pois acabou de trocar o plantão e tenho que dar umas instruções para a nova equipe noturna. A gente se fala. Até amanhã.
- Até, Nair.
Despediram-se e Ângela foi até o box onde Cláudia aguardava para ser removida para a realização do exame. A visão de qualquer pessoa intubada e ligada a um aparelho de respiração artificial sempre era terrível. Era melhor mesmo que ninguém na sala de espera a visse naquele estado lastimável. Intimamente rezou para que a jovem conseguisse sobreviver sem sequelas daquele infortúnio.
Quando saiu da UTI, encontrou apenas três pessoas na sala de espera. Aproximou-se deles e perguntou por Marcelo.
- Ele quis falar com o investigador. Depois explico. E Cláudia? Conseguiu saber alguma coisa? – perguntou sob os olhares ansiosos dos pais dela.
- Não muita coisa. Ela vai fazer uma tomografia agora. Só amanhã teremos idéia do que aconteceu. Ela está inconsciente e não sabem dizer se é por causa da batida na cabeça ou pelo gás. A enfermeira-chefe é minha amiga e amanhã falarei novamente com ela para obter mais informações. Desculpem não poder oferecer melhores notícias...
- De qualquer forma, muito obrigado pelo seu interesse. – agradeceu Nicolas.

Enquanto isso, Marcelo mantinha sua conversa com o investigador Corrêa. Remoído pela culpa, acabou revelando ao detetive o seu relacionamento conturbado com Cláudia e do sentimento de responsabilidade pelo que tinha acontecido a ela, imaginando que tivesse sido uma tentativa de suicídio.
- Nós discutimos e eu acabei dizendo que talvez fosse melhor acabarmos com tudo, antes que começássemos algo mais sério. Agora, sinto que errei e, se ela morrer, jamais me perdoarei.
- Sinto muito ainda não poder dizer com certeza a causa deste incidente, mas creio que logo esclareceremos. Agradeço muito por sua informação. Será muito útil em nossa investigação.
- Espero que esta investigação tenha melhor sorte que no caso de Ágata – disparou irritado com o aparente desleixo e desmotivação do homem.
Corrêa olhou Marcelo de alto a baixo, contraindo os lábios finos no canto direito da boca e semicerrando as pálpebras.
- Mais alguém sabia deste... “affair” de vocês? O senhor Bernazzi,...? – indagou intrigado.
- Não. Só contei ao Diego sobre nós hoje, pouco antes de nos avisarem que ela estava hospitalizada.
- Tem certeza disto? – reiterou.
- Sim... Isto é – refletiu – Eu contei para a secretária da empresa Bernazzi, Glória, antes de viajar, na sexta-feira. Ela descobriu as passagens em nossos nomes e veio me cobrar uma posição.
- Ela tem tanta intimidade assim? – redarguiu curioso.
- Ela é quase da família, senhor Corrêa. Mas não vejo no que isto possa ter relação.
- É. O senhor tem razão. Este fato não deve ter importância no caso – disse baixando os olhos para a caderneta onde fazia suas anotações. – O senhor gostaria de me contar mais alguma coisa que considere importante?
- Não... Acho que já lhe disse tudo... – respondeu inseguro – Só gostaria que me esclarecesse uma coisa.
- Pois não?
- Por que o senhor está tão interessado no que aconteceu a Cláudia, já que isto não deve ter relação com o assassinato de Ágata?
- O senhor acha que não há relação? Pois eu já não teria tanta certeza assim.
“Este homem deve ter visto muitos seriados americanos de detetives e está tentando achar ligações que não existem. Não conseguiu nem descobrir ainda quem foi que provocou o acidente de Ágata.”, pensou desiludido com as investigações que vinham sendo feitas.
- Só espero que o senhor não desista de investigar o caso de minha mulher, que continua insolúvel.
- Não se preocupe, senhor Marcelo. O caso da senhora Bernazzi continua sendo minha prioridade – afirmou com um sorriso enigmático nos lábios – Boa noite, senhor.
- Boa noite.
Marcelo voltou à sala de espera e mostrou-se desanimado com as notícias que Ângela tinha conseguido.
- É melhor irmos embora – sugeriu Diego.
- Diego, meu filho – interviu Marta – Cláudia me contou que rompeu com você. Só queria lhe dizer que fiquei muito triste, pois gosto imensamente de você, assim como admirava sua mãe também. Não sei o que deu nesta menina...
- Não se preocupe com isso agora, D. Marta. Está tudo bem. Este rompimento foi uma atitude ajuizada e uma resolução de nós dois.
Ângela notou o retraimento de Marcelo diante deste diálogo. Talvez não estivesse errada em suas suspeitas, afinal.
Despediram-se e retornaram para casa. No caminho, Marcelo agradeceu a gentileza de Ângela levando-os ao hospital e conseguindo informações sobre Cláudia. Queria ter ficado na porta da UTI aguardando notícias, mas a presença dos pais o inibiu, principalmente depois de ouvir o último comentário a respeito do rompimento com Diego. Dessa maneira, recolheu-se ao seu quarto, dando apenas um “boa noite” antes de sumir degraus acima.
- Você está bem? – perguntou Ângela, receosa que o abatimento de Diego naquele momento fosse motivado por ainda nutrir algo além de uma amizade por Cláudia.
- Ainda não tenho certeza do que estou sentindo – disse referindo-se principalmente às revelações de Marcelo – Foram muitas informações desagradáveis para uma só noite.
- “Informações”? Quais foram as outras?
- Na conversa que tive com Marcelo antes do telefonema, ele me revelou que tem mantido um envolvimento com Cláudia desde quando eu estava internado, após o acidente. Neste fim de semana viajaram juntos, mas acabaram brigando. Agora ele está sentindo-se responsável pelo que aconteceu a ela.
- Eu já imaginava que isso pudesse estar acontecendo, mas não tinha certeza. Como você se sente em relação a isto?
- Desconfortável... Tinha visto alguma coisa entre eles?
- Nada além de olhares e cochichos nos cantos da casa.
- Eu também já percebera algumas evidências, mas as negava.
- Então... É melhor que eu vá agora. Você precisa descansar.
- Eu não estou cansado... Por que não fica aqui esta noite? Por favor... – rogou de um jeito que ela não poderia negar.
- Tem certeza que quer que eu fique? – queria ouvi-lo pedir de novo.
- Por que duvida disto? Ainda não percebeu que eu a amo e que não me agrada nem um pouco a idéia de ficar longe de você?
Um arrepio percorreu o corpo de Ângela ao ouvir a inesperada declaração, que colocava por terra todas suas dúvidas em relação a Diego.
- Tinha medo que você ainda sentisse alguma coisa por Claúdia.
- Sinto sim. Pena, remorso, algum afeto pelo que tivemos no início do namoro... – enquanto falava aproximava-se dela devagar. – Mais alguma coisa? Acho que não... – respondeu a si mesmo – Estou triste pelo que aconteceu a ela. Espero que se recupere e fique com quem ela realmente ama... – disse, enlaçando Ângela pela cintura, abraçando-a, colocando a cabeça de encontro ao seu ventre e finalizando sua frase – Assim como eu.
- Diego, meu amor... – segurou seu rosto entre as mãos e possuiu seus lábios com ternura.
- O que a gente ainda está fazendo aqui em baixo? – perguntou ele com voz rouca – Preciso de você esta noite, mais do que nunca...
Sem responder, Ângela, com um sorriso lascivo, acompanhou-o até o elevador.

Chegando ao quarto, despiu-o lentamente, abusando dele com o olhar, admirando seu corpo perfeito que a incendiava de desejo. Com um rápido movimento, Diego foi para a cama onde ficou sentado observando-a, ansioso por tê-la em seus braços. Como queria, naquele momento, ter suas pernas de volta. Às vezes quase tinha a certeza que sairia andando, mas alguma coisa o impedia. Podia sentir sua musculatura vibrando, a sensibilidade a flor da pele, o calor e o toque das mãos, tudo a espera de um comando seu para voltar a movimentar-se, mas acabava por se manter estático. Estes pensamentos foram interrompidos pela imagem de Ângela a se despir sensualmente a sua frente, torturando-o. Mais uma vez pode sentir-se vivo e potente, pronto para viver mais uma deliciosa aventura através do corpo de sua amada.


Espero que tenham gostado deste capítulo. Acho que agora as coisas devem começar a esclarecer-se melhor, com a entrada do investigador Corrêa. Que acharam dele e de seu aparecimento na estória? Volto muito breve, se tudo der certo. Mais uma vez o meu muito obrigada às demonstrações de carinho e preocupação. Agora está tudo bem.
Beijos à todas!!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Coração Atormentado - Capítulo X - Fim de semana

A hora do almoço foi uma festa. A mesa guarnecida por pratos típicos da culinária mineira encheu os olhos e satisfez o apetite dos convivas, principalmente de Gabriel que há mais de três anos não provava da comida de sua terra. Nancy pareceu aprovar os novos sabores. De qualquer maneira, apesar das perguntas dela sobre os ingredientes dos quitutes, Gabriel e sua família resolveram não revelar alguns, especialmente o principal componente do saboroso molho pardo que acompanhava a galinha de que ela tanto gostara. Na hora do cafezinho, foram todos para o avarandado nos fundos da casa, de onde se descortinava uma linda visão dos campos e colinas que rodeavam a propriedade.
Durante uma brecha na animada conversa entre os irmãos e a tia, Isabel inesperadamente lançou uma pergunta a Diego.
- O que causou a sua paralisia, Diego?
Ângela olhou-a pasma, não acreditando que sua mãe pudesse ter feito uma pergunta como esta, numa hora tão inconveniente, na frente de todos. Mas para sua admiração, Diego respondeu tranquilamente.
- Foi um acidente de carro.
- Você estava dirigindo? – continuou sua sindicância educada, mas maldosa, tentando insinuar que ele seria o culpado por seu estado atual.
- Sim – respondeu secamente.
- Este trânsito de BH está cada vez pior. O que mais se vê nos jornais de lá são as notícias sobre acidentes automobilísticos – comentou – Os motoristas não respeitam mais as leis, os limites de velocidade...
Diego não falou nada, mas percebia-se o grande mal estar provocado por Isabel e seus comentários.
- Há cinco anos tivemos um grande amigo que ficou paraplégico também, mas foi devido a um acidente durante um mergulho em piscina – continuou ferina. – Ângela deve ter lhe contado. Ou não?
- Sim, senhora. Foi o noivo dela, Tomás, não? – rebateu – Infelizmente, ele não soube lidar muito bem com sua lesão, pelo que ela me contou – continuou, agora com certa irritação na voz.
- Mãe, não é hora para falar sobre isto. – Ângela achou por bem intervir na desagradável conversa.
- Não vejo por que não. O Diego não parece estar chateado com o assunto.
- Mas eu estou, mãe – disse com tom de voz já alterado.
- Que tal uma sesta? Não há nada melhor que uma soneca depois do almoço. Preparei umas coisinhas gostosas para servir mais tarde no lanche. – interferiu Lourdes – Assim vocês descansam um pouco e depois vêm fazer uma boquinha.
- Deste jeito vamos voltar para Chicago com dez quilos a mais, Tia Lourdes – partiu Gabriel em auxílio da tia, ajudando-a amenizar o clima, que se tornava cada vez tenso no avarandado.
- Se me dão licença...
Isabel, aborrecida com a interrupção, levantou e saiu.
- Diego, espero que não a leve a mal. Ela ficou um pouco amarga depois da morte do meu irmão, sabe? Às vezes, faz coisas para magoar as pessoas e nem se dá conta disso. Mas no fundo é uma boa mulher, não é Ângela? – partiu Lourdes em defesa da cunhada.
- Mas hoje ela está se superando – resmungou Ângela, levando a mão à perna de Diego, que estava ao seu lado e pressionando-a para confortá-lo.
- Não se preocupe comigo. Eu entendo a sua mãe – falou compreensivo, em voz baixa, curvando-se na direção de Ângela, de forma que só ela o ouvisse.
- Mas então, o que acham do meu conselho? – voltou a falar Lourdes.
- Acho que vamos seguir a sua sugestão, tia. Lá em Chicago nunca temos uma oportunidade como esta. Até mais tarde a todos. – disse levantando-se – Let´s go, Nancy! – invocou a noiva para acompanhá-lo, puxando-a pela mão. Ela o seguiu sem compreender muito bem o que estava acontecendo, mas foi sorrindo.
Em alguns instantes, Diego e Ângela estavam sozinhos na varanda.
- Não sei o que deu nela para agir desta forma.
- Ângela, eu a entendo perfeitamente. Ela já se deu conta que existe uma ligação entre nós, além da relação enfermeira-paciente. Qual a mãe que vai querer um namorado paralítico para a filha, ainda mais quando esta já teve uma péssima experiência anterior semelhante?
- Mas é totalmente diferente. Você não é como o Tomás...
- Fico feliz em saber disso – falou num murmúrio, acariciando o rosto de Ângela – Confesso que ainda tinha medo que você estivesse nos confundindo e que me visse apenas como o Tomás que você está conseguindo salvar.
- Não vou mentir – disse surpreendida com aquela declaração – Quando o conheci cheguei a pensar nisso, mas depois, conhecendo-o melhor, entendi que vocês eram completamente distintos. Apesar de eu ter amado muito meu noivo, descobri que ele foi fraco, egoísta e... – Baixou os olhos para esconder as lágrimas– Talvez não me amasse tanto quanto eu pensava. Infelizmente ou felizmente, descobri isto de uma maneira nada agradável.
- Ângela... Você ainda o ama? – perguntou Diego em voz baixa, preocupado com a reação dela.
- Não! – exclamou limpando o rosto e abrindo um sorriso franco – Eu estou chorando por mim, pois só agora, depois de tantos anos consegui dizer o que eu escondia de mim mesma, me obrigando a carregar toda a culpa pela morte dele. Apenas ele foi o responsável, como você falou hoje aqui nesta sala. Só espero que ele tenha encontrado paz na escolha que fez.
Quando terminou seu desabafo, continuou olhando para Diego com ternura e disse:
- Agora, convença-se disso: Eu estou apaixonada por você, não por um fantasma – Deu-lhe um beijo e completou – Convencido?
- Não sei... – disse com ar dissimulado – Talvez eu precise de mais provas para me convencer...
- Que tal irmos para nossa casinha? Posso provar tudo que você quiser lá... – convidou-o de forma sensual.
- Vamos ver quem chega primeiro? – desafiou-a de brincadeira.
Atravessaram o gramado rindo, sem se darem conta que alguém tinha escutado seu diálogo e os observava pela janela da cozinha. Assim que entraram no anexo, Isabel fechou os olhos e suspirou. Parece que sua filha estava finalmente redescobrindo a vida, atendendo às suas preces dos últimos anos. Porém, temia que ela viesse a sofrer mais uma vez. Diego aparentava ser um bom rapaz e não parecia ter nenhuma predisposição ao suicídio. Mas que tipo de relação poderia ter com Ângela, preso a uma cadeira de rodas? Por mais que todos falassem sobre a reabilitação destas pessoas, achava impossível um relacionamento saudável entre um paraplégico e uma mulher normal.
- Pensando nas besteiras que disse há pouco? – soou a familiar voz, interrompendo seus pensamentos.
- Vê se me deixa em paz, Lourdes.
- Você não queria tanto que a Ângela voltasse a ser feliz? Por que está reagindo desta maneira, agredindo o pobre do rapaz.
- Eu não o agredi. Apenas fiz uma pergunta...
- Queria saber como ele ficou aleijado? Isto é pergunta que se faça? Onde está a sua educação? Perguntasse para sua filha ou para ele mesmo, numa hora em que estivessem a sós.
Quando Isabel se virou para olhar a cunhada, mostrou os olhos vermelhos.
- Você estava chorando? Por quê? Vem cá, boba – chamou-a abrandando o tom da fala, abrindo os braços para consolar a amiga de longos anos. – Agora me diga o que se passa nesta cabeça dura?
- Ah, Lourdes, porque ela tinha que gostar dum moço assim? – queixou-se, achegando-se no abraço oferecido.
- Assim como, mulher? Um homem lindo daqueles. Quem me dera.
- Lourdes, você pare de brincar. Isto é sério.
- Eu estou falando sério. Além disso, nós é que estamos imaginando que existe alguma coisa entre os dois. A Ângela o apresentou só como amigo.
- Ela está apaixonada por ele. Eu a ouvi se declarando para ele.
- Mas que maravilha! Que ótima notícia! Finalmente depois de todos estes anos... Achei que a minha sobrinha predileta ia ficar para titia, como eu.
- Você não toma jeito, mesmo.
- Quem não toma jeito é você. Essa sua mania de se meter na vida dos filhos já levou o Gabriel para longe daqui. Quer perder a Ângela também?
- Quem disse que o Gabriel foi para os Estados Unidos fugindo de mim?
- Uai, só você que não se deu conta disso.
- Lourdes, ele falou alguma coisa com você?
- Não, mas qualquer um, que acompanhasse as discussões de vocês, antes da decisão dele de ir para o exterior fazer uma pós e ficar por lá, poderia entender a disposição dele.
Isabel dispensou o abraço da cunhada e voltou a olhar pela janela, com dolorosa expressão de dúvida.
- Eu só quero o melhor para eles... – revelou – Nestas horas sinto falta do Laerte. Ele conseguia entender melhor as crianças que eu.
Lourdes a abraçou carinhosamente por trás e consolou-a:
- Você é uma mãe maravilhosa, Isabel, mas tem que aprender a aceitar as escolhas deles e deixá-los ser felizes a maneira deles. Não à sua.
- Ai, como eu queria que fosse fácil assim.
- Mas é fácil. Olhe as carinhas de felicidade deles e não tente colocar defeito nos motivos. Por exemplo, porque não tenta conversar com a sua futura nora? A pobre da “gringuinha” parece andar em cima de ovos cada vez que você está no ambiente.
- Mas ela nem fala a nossa língua. O Gabriel bem que podia ter arranjado uma brasileira para casar.
- Olha aí o que eu disse!
- Está bom, está bom! Ela até que parece ser boazinha, mas é tão sem graça... – objetou.
- Parece que o Gabriel não pensa assim. Provavelmente lá nos Estados Unidos, ela não deve parecer tão sem graça assim, caso contrário não teria pegado o teu filho. Quantas namoradas ele teve? Montes! Com quem ele vai casar? Com a Nancy, que você acha sem graça. Ponha-se no lugar dela, pobrezinha. Vem para um país considerado exótico lá fora, sem falar ou entender quase nada da língua, fica na casa da futura sogra, que nunca foi muito calorosa com ela. Deve estar se sentindo totalmente perdida. E você não está ajudando a melhorar esta situação... O carinho não precisa de palavras, Isabel.
- Está bem, Lourdes! Você já me convenceu. Vou tentar seguir os seus conselhos, Dona Sabe-tudo – disse resignada.
- Então, em vez de ficar aí matutando bobagens, que tal vir me ajudar a fazer uma baba de moça para a sobremesa de amanhã?
- Mas você só pensa em comida?
- E tem coisa melhor para se pensar na nossa idade? - indagou, conseguindo arrancar um sorriso da cunhada. – Venha! Vamos para a cozinha, sua ranzinza!
Abraçadas, seguiram para o reduto das panelas.



- E então, seu preguiçoso, vamos lá... Tem uma mesa de café nos esperando lá na casa grande - sussurrou junto ao ouvido de Diego.
Era o meio da tarde. Depois do amor, sentiam-se ainda relaxados e sonolentos.
- Sinceramente, eu preferia ficar aqui abraçadinho a você. Será que a sua tia vai ficar muito chateada se a gente não aparecer por lá agora? – perguntou, enquanto puxava Ângela para mais perto, abraçando seu corpo nu.
- Acho que não... – deu-se por vencida facilmente, se aconchegando mais a ele, fechando os olhos e aproveitando a intimidade e o calor de seu corpo, relembrando os momentos de prazer que tinham passado juntos, naquela tarde deliciosa.



Ali perto, diante da mesa preparada para o café, coberta por acompanhamentos como bolo de fubá, biscoitos de queijo, rosquinhas de polvilho e as mais variadas geléias e compotas de frutas, sentadas uma em frente à outra, Isabel e Lourdes esperavam por seus convidados, que ainda não tinham aparecido.
- Acho que a sua sugestão da sesta foi aceita e tão bem aproveitada que provavelmente tomaremos nosso café sozinhas – observou Isabel, ironicamente, diante da cara de desiludida de Lourdes.
- Era de esperar que dois casais jovens e cheios de energia prefeririam sua própria companhia a um café cheio de calorias, com a mãe e a tia velhas – concordou a amiga com um sorriso amarelo, lembrando o trabalho todo que tivera para preparar aquelas guloseimas – Então, o que estamos esperando? Eu não fiz isto tudo para ficar olhando.
Isabel começou a rir diante da expressão de Lourdes e logo foi seguida por esta, que desatou numa gargalhada. Quando conseguiram parar, passaram a desfrutar das delícias desprezadas pelos jovens.



Após o jantar, Nancy parecia sentir-se mais a vontade, participando ativamente da conversa com Gabriel e Diego, que fizera questão de falar em inglês para deixá-la mais à vontade. Isabel observava-os atentamente, quando Ângela aproximou-se.
- Mãe. Precisamos conversar.
- Eu sei, minha filha. Já levei um sermão e tanto da sua tia. Me perdoe. Eu passei dos limites com aquele moço.
- Diego, mãe. O nome dele é Diego e ele é uma pessoa muito especial para mim.
- Eu já percebi isso e sei que vocês estão... juntos. Ouvi, sem querer, a conversa entre vocês hoje à tarde.
- Pois é... – disse pensativa – Vamos dar uma caminhada lá fora?
- Vamos sim.
Saíram de braços dados. Ângela acenou para Diego, que retornou o gesto, entendendo que ela estava para ter uma conversa em particular com a mãe, provavelmente sobre os dois.
Passou-se algum tempo. Quando voltaram, ambas apresentavam os olhos vermelhos, mas estavam abraçadas, sorrindo e totalmente reconciliadas, para alívio de Diego. Depois disso, Isabel ressurgiu mais afável. Chegou a fazer demonstrações de carinho a uma Nancy agradavelmente surpresa com a aproximação da futura sogra, que até falou algumas palavras em inglês tiradas do fundo do baú.



Casa Branca amanheceu envolta em neblina naquele domingo, mas isso não foi empecilho para que Gabriel e Ângela fizessem planos para aproveitar o lago artificial e relembrar os dias de sua infância e adolescência, quando iam para o sítio e divertiam-se nadando em meio aquela natureza toda. Sabiam, por experiência, que a névoa logo daria espaço a mais um dia ensolarado e quente. Depois do desjejum, onde foram praticamente obrigados a provar de cada uma das iguarias abandonadas na tarde anterior, sob o olhar atento e curioso de Lourdes, a espera dos óbvios louvores, partiram para trocar-se e aproveitar as próximas horas junto a Ângela e Diego, que depois do almoço teriam que voltar à Belo Horizonte.


 Lago do Sítio em Casa Branca

Como esperado, em torno de 10 horas, o céu abriu-se em um azul límpido, sem nuvens, adornado pelo sol resplandescente, para satisfação de todos.
Apesar da disposição de Gabriel e de Ângela em ajudar Diego a entrar no lago, este preferiu ficar apenas observando de sua cadeira a diversão deles, sem demonstrar nenhum tipo de ressentimento por não poder aproveitar da mesma forma que os demais. Logo, ele ria das brincadeiras entre os irmãos e Nancy, que viraram crianças dentro da água gelada do lago. Bastou-lhe ver a felicidade de Ângela, que de vez em quando lançava olhares afetuosos em sua direção, voltando a ser menina junto ao irmão que não via há tanto tempo. Ao vê-la assim, passou a ter certeza de que ela era tudo que sempre desejara. Não havia mais dúvidas de que amaria aquela mulher por toda a vida.



Enquanto o domingo de Ângela e Diego no sítio fechava o fim de semana de forma mais agradável e tranquila, não muito longe dali, diante de um álbum de fotografias, alguém admirava fotos do passado, pensando em como manter protegida sua família. Não deixaria ninguém atrapalhar seus planos. O próximo empecilho estava para ser removido. O primeiro e mais importante já fora eliminado. “Ágata deixara de ser digna. Ameaçara separar-se... Suportou por muitos anos sua presença e aguentou sua traição, mas chegara a hora de excluí-la. Só não contava com a presença de Diego na hora do acidente. Mas até nisso o destino se revelara ao seu lado, aproximando-os ainda mais. Agora faltava pouco para alcançar seus objetivos. Entretanto, aquela “dondoca” mimada, traidora e falsa, tentava abalar tudo que construíra. Se ela tivesse continuado com Diego, tudo estaria perfeito. Por sorte, ela se revelara antes do casamento. Agora ele estaria protegido... Não permitiria que ninguém mais o magoasse”. Deu um longo suspiro, fechou o álbum e voltou a rever seus passos para as próximas horas. Uma mente perturbada e confusa preparava-se para atacar mais um inocente.




Mais um capítulo postado. Espero que tenham gostado. O mistério ainda continua. Vocês já sabem quem é o assassino? Se alguém já souber, não comente, por favor...rsrsrs. Vamos tentar manter o suspense até o fim. Mais uma vez agradeço aos comentários carinhosos e à preocupação com a saúde da minha filha. Graças à Deus ela já está bem, se recuperando de uma infecção que nos preocupou bastante.
Aguardem o próximo capítulo. Sempre tenho a esperança de conseguir postar em menos de uma semana, mas já não prometo. Agradeço a paciência das minhas leitoras. Beijos à todas!