terça-feira, 23 de junho de 2009

DOCE ENGANO - PARTE FINAL



- Não é possível! Mais rótulos danificados?
- Não, senhorita. Eles não foram danificados. Eles desapareceram – disse o novo funcionário, Francesco, contratado para auxiliar Genaro, já no meio da manhã.
- Como assim, desapareceram?
- Como estou lhe dizendo. Pela nota da gráfica foram mandados 20 rolos com 100 rótulos cada um, mas só encontrei 15 rolos.
- Será que não houve algum engano da gráfica. Será que eles não mandaram apenas 15 rolos.
- Não, senhorita. Eu tomei a liberdade e liguei para eles notificando o problema e eles disseram que não houve erro algum. A remessa foi conferida pelo Genaro, segundo o empregado da gráfica.
- E onde está ele?
- Saiu muito cedo. Disse que tinha de resolver uns problemas pessoais.
- Sem me avisar?
- Parece que ele falou com Don Pippo pedindo permissão para sair.
Enquanto eu tentava imaginar o que estava acontecendo, o telefone tocou.
- Agrícola Giusti, bom dia!
- Giulia! É você? – disse a voz rouca e calorosa do outro lado da linha.
- Alex! Onde você está?
- Estou em Roma. Don Pippo lhe deu o meu recado?
- Sim! Estava preocupada com a sua partida inesperada, até você ligar.
- Como você soube que eu viajei? – percebi que tinha sido pega em flagrante.
- Bem, eu liguei para o seu hotel, pois você não apareceu aqui como tinha combinado, e eles me informaram sobre a viagem.
- Só imagino o que não ficou pensando de mal a meu respeito.
- Nem queira imaginar. Afinal, o que houve para ter de sair tão repentinamente?
- Desculpe, querida – ao ouvir aquela palavra, amoleci – Fui chamado com urgência. Não tive como avisá-la. Não posso falar nada pelo telefone, mas creia, foi por um bom motivo. Só depois de estar acomodado por aqui é que pude ligar.
- Está desculpado. Estou com saudades...
- Eu também. Olhe, vou ter de desligar. Dentro de dois dias estarei aí. Cuide-se.
- Vou esperar. Um beijo!
Ouvi o click do outro lado e por alguns instantes esqueci minhas preocupações com a questão dos rótulos. Dei um longo suspiro e fui à procura de Francesco, que saíra discretamente, ao ver que o telefonema era de cunho pessoal.
Fui informada por ele que, apesar dos rótulos sumidos, haveria o suficiente pra rotular as garrafas para o carregamento.
Repensei sobre o fato e fui à procura de Don Pippo para conversar sobre o incidente. Achava que já era hora de contar-lhe o que estava acontecendo.

- Vovô, precisamos conversar.
- O que houve, Giulia? Você está tão séria.
- É verdade que o senhor dispensou o Genaro hoje pela manhã?
- Sim. Por quê?
Imediatamente passei a contar-lhe tudo o que tinha acontecido, desde a madrugada há dois dias até o desaparecimento dos rótulos na vinícola.
- Você acha que Genaro está envolvido com esta questão dos rótulos? Mas ele não pode ser um ladrão. Eu o conheço há anos. Não posso acreditar que ele tenha feito isso. E por qual motivo?
- É isto que quero esclarecer com ele quando voltar.
- Vamos com calma, Giulia. O Genaro é uma boa pessoa. Tenho certeza de que ele não tem nada a ver com isso.
- Tomara, vovô. Tomara...
O dia transcorreu normalmente. Terminei minhas tarefas, sempre alerta para a volta de nosso funcionário, o que não aconteceu.
Durante o jantar, Don Pippo estava de cenho franzido, visivelmente preocupado com o desaparecimento de Genaro.
- Ele nunca sumiu assim antes. O que terá acontecido?
- Ele não tem família? Amigos em Arezzo ou em Siena? – perguntei.
- A mulher o abandonou há muitos anos. Por isso morava aqui na Agrícola. Não tinha filhos ou outros parentes vivos. Amigos? Não sei. Nunca me falava sobre isto.
- Bom, então só nos resta esperar por notícias.
Tentamos manter nossa rotina. Depois do jantar, fomos ver um pouco de televisão. No fundo esperava que Alex ligasse novamente. Como ele não ligou, resolvi ir dormir mais cedo, pois pretendia retomar minhas caminhadas no início da manhã. Durante a noite, qualquer barulho era motivo para acordar-me. Não conseguia aprofundar o sono.
Mesmo cansada, levantei-me ao raiar do dia e preparei-me para meu passeio habitual. Cruzei com Don Pippo no corredor. Também estava com cara de cansado. A noite também não tinha sido muito boa para ele. Apenas nos despedimos, deixando conversas para mais tarde, no escritório. Talvez encontrasse Genaro mais tarde e esclareceríamos tudo.

Só o canto de alguns pássaros e o som de meus passos abafados, de encontro ao chão do acostamento, podiam ser ouvidos naquela estrada, àquela hora. Já estava andando há cerca de 40 minutos, quando ouvi o som de um motor aproximando-se por trás de mim. Sorri, lembrando da primeira vez que vira Alex, naquela mesma rodovia. Instintivamente, virei-me na direção do veículo que se aproximava. Na mesma hora, ouvi a aceleração do motor e o ruído dos pneus queimando o asfalto. Ainda pude perceber o carro saindo da pista de onde estava para lançar-se sobre mim. Só tive tempo de jogar-me sobre uns arbustos próximos ao acostamento. Cheguei a sentir o deslocamento de ar, provocado pelo automóvel, roçando meu corpo, ao desviar-se no último instante. Caí, soltando um grunhido de dor ao sentir os galhos espinhentos machucando minha pele através do abrigo leve que estava vestindo. Não consegui ver a placa do carro. Tampouco consegui definir qual a marca, devido a minha velha dificuldade em gravar este tipo de coisa. Só lembro que era de cor escura. Preto ou marinho? Levantei com dificuldade, sentindo dor no quadril esquerdo, por ter caído de mau jeito. Limpei a roupa com as mãos, ajeitei o cabelo e fiquei de pé, parada por alguns instantes, tentando recuperar o fôlego e a calma. Estava tremendo de raiva e de medo. Aquele motorista obviamente havia tentado matar-me. Não tinha sido uma brincadeira, com certeza. Pena eu não ter conseguido ver o condutor. Os vidros deviam ter aquela película protetora que escurecia a visão para dentro do carro.
Ainda assustada, peguei uma trilha fora da estrada, que me levaria até a vinícola, cortando caminho por dentro de propriedades vizinhas. Temia que o motorista voltasse para terminar o trabalho não concluído. Apesar das dores e algumas escoriações, segui em passos rápidos até chegar a nossa casa.

- O que aconteceu, Giulia? – gritou Agostina assustada ao me ver.
- Foi um pequeno incidente na estrada. Não se preocupe, Agostina – menti, pois não queria que ela ficasse atarantada com o fato. Tampouco saísse espalhando aos quatro ventos o ocorrido.
Entrei em casa, com ela correndo atrás de mim para verificar se não estava ferida, diante dos rasgões na roupa. Consegui tranquilizá-la e chegar ao meu quarto, sozinha. Tranquei a porta e respirei fundo, tentando colocar as idéias em ordem. A imagem de Tomasino insistia em voltar a minha mente. Tinha quase certeza de que fora ele o motorista homicida. Só não tinha como provar. Talvez não devesse contar para vovô. Certamente ele ficaria nervoso e, sabe-se lá qual seria a sua reação. Tinha medo que ele acabasse cedendo às propostas daquele bandido e vendesse a Agrícola Giusti. Isto não podia acontecer. Talvez Alex pudesse me ajudar quando voltasse. Será que podia contar com ele? Com estes pensamentos atordoando minha mente, entrei no banho. Estava confusa. Não sabia o que fazer. Quanto mais pensava, mais dúvidas surgiam na minha cabeça. Desde que Alex aparecera por ali, coisas ruins começaram a acontecer. Seriam coincidências? Será que ele era quem realmente dizia ser? Será que vovô o conhecia tão bem assim? Não! Ele não tinha nada a ver com tudo isso. Estava querendo ajudar, como ele mesmo havia dito. Meu coração não podia se enganar tanto assim. Não com ele... Melhor me vestir e ir trabalhar. Se eu não aparecer por lá, Don Pippo vai desconfiar.
Antes de sair, fui pedir a Agostina que ela não contasse nada para o meu avô sobre o meu susto da manhã. Ela compreendeu quando eu disse que não queria preocupá-lo à toa e que temia pela sua saúde.

- Bom dia! O que houve para chegar mais tarde hoje? Fez mais “Cooper” do que devia? - saudou-me vovô, bem-humorado, assim que me viu entrando no escritório.
- Bom dia! Acho que me perdi no tempo.
- Aposto que estava pensando em alguém que deve retornar hoje.
- Também...
- O que houve, bambina? Você não está muito bem – falou, aproximando-se de mim, com olhar mais sério – Aconteceu alguma coisa?
- Não, claro que não – menti – Estou preocupada com o roubo dos rótulos. Genaro já apareceu? – tentei mudar o assunto. Nunca consegui enganar meu avô por muito tempo. Ele tinha o dom de me desarmar. Evitava o seu olhar.
- Não. Ele não apareceu ainda. Já estava pensando em ligar para a polícia e saber se sabem de alguma coisa.
- Polícia? Por que diretamente com eles? Porque não os hospitais ou a ex-mulher? O senhor também acha que ele pode estar envolvido com o tal Tomasino?
- Não, minha filha! Pensei que ele pudesse ter sofrido algum acidente e a polícia seria o meio mais rápido de saber . Melhor que ficar procurando em vários hospitais. A ex-mulher eu nem conheço – falou com certa impaciência – Você continua desconfiada dele, não?
- Antes fosse só dele.
- Como assim. Está desconfiando de quem mais?
- O senhor conhece o Alex há quanto tempo?
- Não, não! Desconfiada do Alex? Giulia, você andou bebendo? Pare com isto. Já está virando mania de perseguição. Alex é meu amigo. Eu o conheço há muitos anos.
- Assim como conhece Genaro?
- Não! Chega! Não vou mais falar. Acho melhor você ir para casa descansar. Esta sua caminhada de hoje não lhe fez bem. Eu já tinha dito que elas não fazem bem para sua saúde.
Dizendo isto, saiu a passos largos para fora do escritório, muito irritado com nossa conversa. Neste momento, o telefone tocou. Era Alex.
- Giulia? Estou ligando para avisar que só vou poder estar aí no início da noite. Está tudo bem?
- Oi, Alex. Sim, está tudo bem.
- Você está com uma voz estranha. O que aconteceu? – mais um para reconhecer quando eu estava mal.
- Nada. Nós conversamos quando você chegar. Não se preocupe. São problemas da vinícola. Volta logo, tá?
- Giulia, tem alguma coisa a ver com aquele sujeito que queria comprar a Agrícola?
- Não – menti mais uma vez naquele dia. Estava virando uma mentirosa contumaz.
- Logo estarei aí. Estou com saudades...
- Eu também... Estou te esperando.
- Até mais, então.
- Tchau!
Sentia meu coração apertado. Eu devia estar ficando louca mesmo. Alex não tinha nada a ver com aquilo tudo. Vovô tinha razão. Minha sanidade mental estava sendo afetada por todos estes acontecimentos.
No meio da tarde, o telefone tocou novamente no escritório. Atendi na esperança que fosse Alex dizendo que chegara mais cedo. Porém a voz do outro lado soou fria e pesarosa.
- É da Agrícola Giusti?
- Sim. Pois não? Em que posso ajudá-lo?
- Gostaria de falar com o responsável, o senhor Pippo Giusti. Ele está?
- No momento não. Algum problema? Eu sou a gerente da Agrícola e neta de Don Pippo.
- Bem, gostaria de informar que encontramos um provável empregado desta vinícola, hoje no final da manhã, nas proximidades de Florença.
- Ah! Genaro? Estávamos preocupados com o seu desaparecimento desde ontem. Ele está bem?
- Infelizmente, nós o encontramos morto, senhorita. Demoramos a avisar pois estávamos com dificuldades para identificá-lo e obter mais dados. Conseguimos o seu endereço e telefone na carteira dele, que estava jogada longe do corpo.
Eu estava estarrecida. Não conseguia encontrar as palavras para responder ao policial.
- Morto???
- Sinto muito. O corpo está aguardando a necropsia e a identificação de familiares ou patrões para confirmar sua identidade. Gostaríamos que o Sr. Giusti viesse até Florença, no necrotério municipal, para podermos proceder a liberação do cadáver.
- C-claro. Eu vou avisar meu avô.
Larguei o telefone automaticamente no gancho, sentindo o estômago começando a embrulhar. Corri para o banheiro e vomitei o pouco de café que havia tomado naquela manhã.

Depois de recuperada do mal estar e do susto inicial, comecei a pensar em como dar a notícia para o meu avô. Enquanto pensava na melhor maneira, ele entrou em minha sala.
- Alguma notícia? Ouvi o telefone tocar a pouco. Eu estava aqui por perto.
- Tenho sim, vovô. Sente-se aqui, por favor.
- O que aconteceu? Você está com uma cara péssima – falou, enquanto sentava-se na cadeira a minha frente.
- O telefonema foi da polícia de Florença. Eles encontraram Genaro.
- A polícia? Como assim... O que aconteceu, Giulia? Algum acidente?
- Eles não deram detalhes. Não sei o que aconteceu. A verdade é que eles o encontraram morto, nas proximidades de Florença.
A expressão de surpresa transformou-se numa máscara de pesar. Sabia do afeto que Don Pippo tinha por Genaro. Eles tornaram-se muito amigos, principalmente no período em que eu estava fora, estudando hotelaria. Com a minha volta, Genaro afastara-se um pouco. Sempre tive a impressão de que ele não gostava muito de mim. Nunca dera motivos para isto. Achava aquela sensação muito estranha.
Voltei a romper o silencio reinante, onde só o som distante dos trabalhadores da vinícola podia ser ouvido.
- Eles ligaram para pedir que o senhor vá até Florença para identificação do corpo. Podemos ir até lá amanhã de manhã.
- Claro, minha querida. Claro... – levantou-se da cadeira, cabisbaixo, parecendo ter um grande peso sobre as costas – Vou lá para casa para repousar um pouco. Você cuida de tudo aqui?
- Lógico, vovô! Vá descansar. Logo termino meu trabalho aqui e vou para casa também. O Francesco está desempenhando muito bem as suas funções. Qualquer coisa, peço ajuda a ele.
Don Pippo saiu arrastando os pés, parecendo realmente arrasado. De repente vi como meu avô estava envelhecido. Senti uma grande tristeza por ele.
Meus pensamentos se voltaram para Alex. Só podia contar com ele. Tinha de deixar minhas dúvidas para trás e confiar nele de uma vez por todas. Estava com medo e me sentindo muito sozinha.

Logo que terminei meu trabalho, despedi-me dos poucos funcionários que ainda estavam trabalhando e segui para casa. Sentia-me sem forças e triste. Foi quando ouvi o ronco de um motor. Olhei e vi o Porsche preto estacionando diante de nossa casa. Não pude conter o ímpeto e aumentei a velocidade de meus passos ao ver a figura de Alex descendo do carro. Quando dei por mim, estava correndo feito uma louca para os seus braços, que já estavam abertos a minha espera. Não pensava em mais nada. Não tinha dúvidas ou suspeitas e me envergonhava das que tinha tido. Senti seus braços em torno de meu corpo, como um abrigo contra todos os meus medos e aflições. Ao olhar dentro daqueles olhos azulados nada tinha mais importancia. Só ansiava por seus beijos e pelo seu carinho.
- Alex! Que bom que você chegou.
- Giulia! – falou surpreso com a recepção tão calorosa. Só notou minha aflição quando viu as lágrimas surgirem em meus olhos – O que houve? Isto tudo é saudade de mim? O que aconteceu? Você está tremendo!
Dizendo isto, aproximou seus lábios dos meus e deu-me um longo beijo, até sentir que eu começava a relaxar. Olhou-me intensamente, como se quisesse penetrar em minha alma, envolveu-me num abraço carinhoso e disse:
- Venha, vamos entrar.

- Agora, sente-se aqui e me conte o que está acontecendo. Não gostei da sua voz no último telefonema. E agora, encontro você neste estado.
Enquanto eu procurava as melhores palavras para contar-lhe os últimos acontecimentos, Don Pippo apareceu.
- Que bom que você está de volta. Espero que tenha algo de novo para me dizer a respeito daquele nosso assunto.
- No momento, estou preocupado em saber o que andou acontecendo por aqui. Encontrei Giulia muito nervosa. Ela ia me contar o motivo neste instante.
- Sobre que assunto o senhor está falando, vovô?
- Ela deve estar assim por causa da morte do Genaro.
- Como?
- Pois é. Aquele meu funcionário de muitos anos. A polícia de Florença ligou hoje para avisar que o encontraram morto nas proximidades da cidade. Ele estava desaparecido há quase dois dias.
- Mas qual foi a causa da morte?
- Amanhã saberemos mais detalhes. Tenho que ir até lá para fazer a identificação do corpo.
- O senhor não respondeu a minha pergunta, vovô. Qual é o assunto entre vocês que eu não posso saber?
- Não precisa mais haver segredos. Eu vou lhe contar tudo com calma. Antes quero saber o que mais houve por aqui.
Então, ele ouviu atentamente sobre o desaparecimento dos rótulos e das minhas suspeitas sobre Genaro e seu envolvimento com Tomasino e o encontro entre nós três. Eu apenas ocultei a tentativa de assassinato que tinha sofrido por causa de meu avô.
- Bem, Giulia. Você provavelmente tem razão em suas suspeitas. Eu vim para Arezzo por aqueles motivos que você já sabia e por um outro que deve ser mantido em sigilo. Como você já está descobrindo por si só parte desta trama, vou abrir o jogo com você. Eu estou trabalhando junto à polícia italiana, como voluntário, para tentar descobrir e combater uma quadrilha que está agindo no negócio dos vinhos. Eles iniciaram sua ação há cerca de um ano. Eles engarrafam vinhos de baixa qualidade e rotulam como se fossem vinhos finíssimos. Vendiam uma garrafa, que não sairia mais que dois dólares, por preços acima de cem. Com isso lucravam nas vendas em torno de quinhentos por cento. Começaram com a venda em bares da periferia de Roma, passando a atuar nas casas noturnas e ampliando para outras cidades vizinhas. Hoje, depois de vários meses, existe uma rede que age em toda a Itália e, possivelmente com idéias de expandir-se para o exterior.
- Mas porque você se envolveu com isto?
- Porque em médio prazo os negócios de minha empresa acabarão por ser prejudicados pela ação destes marginais. Eles agora estão querendo ir mais longe, comprando as pequenas vinícolas reconhecidamente produtoras de excelentes vinhos, para terem estes nomes como fachada.
- E este Tomasino... Então ele é o chefe da quadrilha?
- Não. Ele é o braço direito do chefe, Rocco.
- Se sabem quem eles são, porque não os prendem logo?
- Porque a polícia precisa de provas. Até agora eles não têm como provar a adulteração. Estão tentando fechar o cerco e tentar pegá-los em alguma contravenção.
- E o envolvimento do Genaro? – perguntou vovô – Ele trabalhava para mim há muitos anos. Não acredito no seu envolvimento.
- Don Pippo, por algum motivo, Genaro estava trabalhando para eles. Rocco costuma “contratar” alguém de dentro das vinícolas para roubar os rótulos, por chantagem ou pagamento. Por isso fica difícil pegá-los. Eles não mandam simplesmente imprimir estes rótulos exatamente para não serem pegos. Só os donos de vinícolas podem ter autorização para imprimir os rótulos nas gráficas. Seria suspeito alguém de fora do negócio imprimir este tipo de rótulo. Agora, sendo donos das vinícolas, será mais fácil.
- Meu Deus, que horror. Então eles são bandidos mesmo – disse meu avô.
- Infelizmente. Eu fui chamado a Roma pela polícia. Eles queriam me informar do andamento das investigações e saber se eu tinha alguma novidade.
- E agora, o que faremos. Estamos lidando com um assassino!
- Vou reportar á polícia central o que aconteceu e aguardar. Acho que em breve poderemos colocar as mãos em cima destes marginais.
- Porque você não me contou antes, Alex? Eu já estava até desconfiando de você.
- Bem, agora que tudo já foi esclarecido, que tal colocar uma roupa bem bonita e sair para jantar comigo? – disse-me com um brilho de desejo no olhar, que me deixou excitada – O senhor quer jantar conosco, Don Pippo?
- Não, meu filho, não. Sei muito bem quando estou sobrando. Só quero que vocês dois se cuidem com este bandido que está à solta por aí.
- E, então, Dona Giulia? O que está esperando?
Com um sorriso daqueles, nada mais me incomodava.
- Vou tomar um banho e já volto. Você me espera?
- Claro, querida. Não vou arredar o pé daqui enquanto você não voltar para sairmos. Vou ficar conversando com seu avô.

Tomei meu banho o mais rápido possível. Coloquei um conjunto de saia e blusa de seda, prendi os cabelos num coque baixo, uma maquiagem leve e um toque de perfume. Desci ao encontro dele. Depois das despedidas de meu avô, entramos no carro e partimos em direção á Arezzo. Não tínhamos rodado nem um quilometro, quando Alex desacelerou e parou no acostamento. Virou-se para mim e disse, com os olhos brilhando:
- Não aguentava mais de saudade de você. Vem cá... – suas mãos me puxaram ao seu encontro, já deslizando por minhas costas, acariciando-me. Senti sua boca pressionando com força meus lábios e a sua língua invadindo-me. Imediatamente reagi. Também estava saudosa de seu toque, do seu abraço e de seus beijos. Depois de mais algumas carícias intensas, decidimos de comum acordo que ali não era o lugar mais apropriado para matar aquela saudade, inclusive por falta de espaço e segurança.
- Vamos para o hotel. Estou precisando de um banho. Fui direto para a Agrícola assim que cheguei. Depois saímos para o nosso jantar, está bem?
- Está bem... – falei, ajeitando minha blusa, que já estava sendo levantada, quando a razão foi mais forte que a paixão. Não via a hora de estar junto a ele, plenamente.
Em não mais que 10 minutos, chegamos à frente do hotel, onde descemos e o carro foi entregue para o manobrista. Rapidamente, Alex pegou as chaves do seu apartamento e subimos ansiosos. O desejo de estarmos juntos era muito grande. Quando nos vimos no elevador vazio, nos agarramos, famintos um pelo outro, sem nos preocupar se alguém poderia entrar ou não. Sua boca passeava em meu pescoço, descendo pelos seios, enquanto as mãos não tinham descanso através de meus cabelos, minhas costas e nádegas. Quando finalmente o elevador chegou ao 3º andar, fomos direto para o apartamento. Lá, avidamente, nos despimos e nos jogamos um nos braços do outro para saciarmos aquele apetite voraz que tinha tomado conta de nós. Nunca tinha sentido nada igual na minha vida. O desejo de misturar-me e perder-me dentro de alguém, com loucura. Fizemos amor ali mesmo, no chão da saleta do apartamento. Depois desta perda temporária de sanidade, ficamos deitados, abandonados e abraçados, rindo daquela situação delirante pela qual tínhamos passado.
- Já pensou se a porta do elevador se abrisse e entrasse uma destas velhinhas pudicas? – disse isso e comecei a rir sem poder parar, acompanhada pelo riso de Alex.
- E se entrasse um padre? – outra gargalhada – teríamos uma sessão de exorcismo dentro do elevador – falava, sem parar de rir.
E assim, ficamos alguns minutos extravasando o humor imaginando situações constrangedoras as mais diversas possíveis. Quando conseguimos nos acalmar, Alex ajudou-me a levantar e só então notou as escoriações recentes em minhas pernas e a mancha roxa em meu quadril.
- O que aconteceu aqui?
- Primeiro, vamos tomar um banho e nos vestir. Eu conto depois.
Não preciso dizer que, durante o banho, uma nova onda de desejo tomou conta de nós, desta vez menos ansiosa, mas não menos prazerosa. As mãos ensaboadas multiplicavam-se em carícias, cada vez mais íntimas. O barulho da água corrente abafava nossos gemidos. A sensação da ducha quente chicoteando nossa pele só fazia aumentar a nossa sofreguidão em busca do prazer máximo. Quando senti novamente a invasão de Alex, potente e incandescente, pensei que poderia morrer naquele momento e não me importaria, tamanho o prazer que sentia. Logo, pude ouvi-lo gemer alto, também, em sua satisfação total.

- Estou morrendo de fome. E você? – perguntou-me Alex, lançando um olhar malicioso.
- Eu também. É melhor a gente sair logo para jantar antes que resolvamos matar a fome de outra maneira – disse isso, enquanto terminava de vestir minha blusa.
- Está bem. Eu estou brincando. Além do mais, a senhorita não me contou como foi ficou com este hematoma e estas marcas nas pernas. Andou encontrando algum ex-namorado?
- Não, Alex. Isto foi uma coisa muito séria que me aconteceu.
- Desculpe, meu bem. Não queria te magoar. O que foi que houve?
- Alguém tentou me matar enquanto eu fazia minha caminhada matinal.
- Como?Quando?? – ele mudara completamente a expressão de relaxamento para sobressalto.
Aí, contei com detalhes o que tinha acontecido durante o início da manhã.
- Isto explica o seu nervosismo. Estava achando que a sua reação tinha sido desproporcional ao que tinha acontecido. O seu avô ficou sabendo disto?
- Não! Eu não quis incomodá-lo. Fiquei com medo que ele tomasse alguma atitude precipitada.
- Fez bem. Não duvido que ele ficasse assustado se soubesse que você correu perigo de vida. Assim como eu. Não queria que você estivesse envolvida nesta história toda. Só espero que consigamos prender logo estes miseráveis – dizendo isso, envolveu-me em seu abraço caloroso e confortável.
- Não posso imaginar te perder – fitou-me com aqueles olhos profundamente azuis que tinham o poder de me fazer esquecer quaisquer problemas, aproximou os seus lábios dos meus e depositou um beijo suave em minha boca.

Fomos jantar num pequeno bistrô, próximo ao hotel, que servia uma comida francesa deliciosa. Tentamos conversar sobre outros assuntos, mas acabávamos voltando ao assunto da vinícola.
- Giulia, uma coisa que você falou hoje, deixou-me preocupado, mas deixei para comentar mais tarde.
- O que foi?
- Você disse que teve um momento em que desconfiou de mim. Por quê?
- Ah! Eu estava desesperada. Tinha acabado de sofrer um atentado e me sentia sozinha, perdida e triste. Foi uma bobagem do momento mesmo.
- O que você pensou?
- Que você pudesse estar ligado a Tomasino. Fiquei com medo que pudesse estar ligado de alguma forma às coisas ruins que estavam acontecendo. Mas isso foi um delírio horrível da minha parte. Perdoa-me por eu ter pensado isso de você.
- Não há o que perdoar. Só preciso saber se confia em mim. Confia? – senti meu corpo arrepiar ao ver tanta sinceridade e sedução em seu olhar.
- Claro que confio – dizendo isso, não resisti e acariciei seu rosto com a palma de minha mão. Ele respondeu prendendo minha mão, beijando-a terna e prolongadamente, enquanto seus olhos fitavam-me sérios e profundamente.
Depois de pedir a conta, apesar da vontade de retornar ao hotel com ele, pedi que me levasse para casa.
- Por quê? Seria tão bom se pudesse passar a noite comigo – falou com aquele olhar suplicante que me deixava à deriva.
- Ai, querido... É que amanhã tenho de acompanhar Don Pippo até Florença. Lembra? Não posso deixá-lo ir sozinho.
- É, você tem razão...
- Mas, assim que eu voltar, ligo para você. Certo? Ai, não me olha assim, que eu perco a razão.
- É mesmo? Então vem cá e me dá um beijo – falando isso, puxou-me contra si e deu-me um beijo arrebatador, de tirar o fôlego.
Pediu ao manobrista do hotel que trouxesse seu carro e, logo depois, seguimos para a vinícola.
Depois de uma despedida muito “calorosa”, entrei em casa ainda meio tonta, sem saber onde acabava o efeito do álcool ingerido no jantar e onde começava o desejo não satisfeito por completo, como causas da tontura.

No dia seguinte, Don Pippo e eu tomamos café bem cedo. Fui até o escritório para dar algumas determinações a Francesco e outros empregados e partimos no carro de meu avô, mais novo e mais potente, que usávamos para estas viagens mais longas, por motivos óbvios. Pelo menos tinha certeza de que não ficaria na estrada por problemas mecânicos.
Chegamos e nos vimos despejados naquele transito tumultuado da capital da Toscana. Um excesso de pedestres, motonetas e carros dos mais diversos tamanhos e procedências em total desarmonia e xingamentos para todos os lados. Um inferno para alguém que vinha da região dos vinhedos como nós. Depois de mais de um ano longe daquele tumulto, já não lembrava mais como aquilo podia ser desgastante. A vez em que estivera com Alex, à noite, não contava, pois não lembrava nem como tinha chegado e saído do restaurante, tal meu estado nervoso ao chegar e total euforia alcoólica ao sair.
Depois de várias voltas e pedidos de informações, conseguimos chegar ao endereço do necrotério da polícia, onde perdemos mais um bom tempo para conseguirmos um lugar para estacionar.
- Bom dia – cumprimentei o policial que se encontrava na recepção – Viemos para o reconhecimento de um funcionário nosso que foi encontrado... Morto – Sentia dificuldade em encontrar as palavras certas.
- Qual o nome?
Vendo a minha dúvida de qual nome gostaria de ouvir, falou:
- O nome do morto?
- Ah, sim! Desculpe! O nome dele era Genaro Botti.
- Deixe-me ver... Sim. O investigador do caso está esperando pelas pessoas que vem fazer o reconhecimento. Aguardem um momento, por favor.
- Pois não.
Don Pippo ainda não dissera uma palavra. Senti que ele estava muito abalado com tudo aquilo. Depois de uns dez minutos, um homem alto, muito magro, de cabelo alourado e olhos castanho-claros, apresentou-se a nós como o investigador Bruno Polleti e pediu-nos que o acompanhasse. Pela primeira vez, desde que saímos de casa, ouvi a voz de vovô:
- Qual foi a causa da morte?
- Segundo o laudo do legista ele foi estrangulado. Provavelmente foi assassinado em outro local e “desovado” próximo à entrada da capital. As aparências levam a pensar em seqüestro e latrocínio. Quando viram que não passava de um pobre coitado, deram um fim a ele.
- Que horror! – disse eu, não me contento com o relato frio e horripilante do senhor Poletti.
- Por favor, queiram me seguir.
Pegamos um elevador, que nos levou ao subsolo do prédio. Seguimos por um corredor frio, sem janelas, iluminado por tremulas lâmpadas fosforescentes, que davam um aspecto ainda mais lúgubre ao lugar. Um forte cheiro de formol começou a irritar minhas narinas e a fazer meus olhos lacrimejarem. Chegamos a uma grande porta dupla, onde se via a placa anunciando que ali era o Departamento de Identificação. Havia uma ante-sala mobiliada com um sofá de três lugares e duas cadeiras bastante desconfortáveis, de aspecto decadente. Havia também uma pequena escrivaninha com gavetas e uma cadeira estofada de couro já em decomposição. O cheiro parecia ainda mais forte por ali. O investigador dirigiu-se ao meu avô, sentando-se à escrivaninha:
- O seu nome, por favor?
- Pippo Giusti.
- O que o senhor era da vítima?
- Patrão e amigo.
- Qual a sua empresa?
- Agrícola Giusti, na estrada entre Siena e Arezzo.
- E a senhorita?
- Sou neta do senhor Giusti.
- Seu nome, por favor?
- Giulia Malfati Giusti.
- A senhorita também vai querer identificar o corpo?
Por uns momentos, pensei se teria forças para ver Genaro naquela situação. Decidi que entraria junto com meu avô, caso ele precisasse de mim, mas evitaria olhar o corpo.
- É possível eu entrar junto com ele só para acompanhá-lo?
- Claro, senhorita. Precisamos apenas de uma pessoa que possa identificar o cadáver com certeza.
Após preencher mais alguns dados nas folhas que tinha pegado em uma das gavetas da mesa, pediu-nos para acompanhá-lo, mais uma vez. Entramos numa sala com três mesas de necrópsia de aço inox, que por sorte estavam vazias, e fomos até os fundos onde havia um grande armário, também de inox, composto por vários gavetões. Ele abriu um deles e expôs um corpo, coberto por um lençol. Não quis olhar. Fiquei apenas segurando no braço de vovô, tentando desviar o olhar daquela cena chocante. Tremia só de pensar no que teria nos outros gavetões.
- Pobre Genaro!
- O senhor tem certeza que é ele mesmo?
- Claro que tenho. Não há dúvida alguma.
- Muito obrigado, senhor Giusti – falando isto, cobriu novamente o corpo com o lençol e nos acompanhou até a saída. Já na ante-sala, aguardava uma mulher de cabelos grisalhos, aparentando cerca de 50 – 60 anos, vestida modestamente. Ao ver Don Pippo, deu um sorriso animado.
- Don Pippo! O senhor lembra de mim?
- Claro! É Lina o seu nome, não?
- Sim! Vim ver o corpo de meu marido. Pobre coitado. Logo agora que pensava em melhorar de vida, acontece isto.
- Como assim, melhorar de vida?
- Por favor, senhores – ouviu-se a voz irritante do senhor Poletti – Este não é o lugar para conversas particulares. A senhora pode me acompanhar para a identificação, por favor?
- O senhor pode me esperar para continuarmos nossa conversa, senhor Giusti?
- Mas é lógico. Nós a aguardamos aqui.
Em poucos minutos, pudemos ouvir o choro da ex-senhora Botti. Estava feita mais uma identificação positiva de Genaro.

- Vovô, o senhor não tinha dito que o Genaro era separado? Que história é essa de que ela é mulher dele. Esta é outra ou é a ex?
- Eu a conhecia como ex-esposa. O que me deixou curioso foi o que ela falou a respeito dele melhorar de vida. Que eu saiba, ele não havia ganhado nenhuma loteria.
- Será que isto pode ter relação com o que está acontecendo?
- Vamos aguardar...
Em poucos minutos, a porta abriu-se e de lá saiu a senhora Lina de olhos vermelhos e inchados.
- Logo agora que estávamos voltando a ficar juntos. Porque isto tinha de acontecer? – ainda soluçava, quando o senhor Poletti alcançou-nos as folhas de ocorrência que deveríamos assinar. Devia estar louco para livrar-se da escandalosa senhora Botti e voltar a sua rotina policial.
Depois de tudo assinado, soubemos que logo que o corpo fosse liberado seríamos informados para podermos providenciar o enterro.
Don Pippo tranquilizou Lina de que as despesas correriam por conta da vinícola e que ela não se preocupasse com isso. Dessa forma, com expressão mais sossegada, Lina aceitou resignadamente a oferta e o braço de Don Pippo para sairmos daquele ambiente mórbido e malcheiroso.
Nem acreditei quando senti o ar frio daquela manhã penetrando em meus pulmões. Mesmo o poluído ar de Florença parecia ter-se tornado uma aragem perfumada em comparação com o ar irrespirável do morgue.
- Que tal almoçarmos juntos? – falou meu avô, com jeito galante – Acho que precisamos conversar, Lina.
- Claro! Eu adoraria! – não gostei da maneira sedutora com que ela olhou para ele. Que mulherzinha! Acabara de reconhecer o corpo do marido e já estava se jogando pra cima de outro.
- Desculpe, mas não apresentei minha neta, Giulia, para você.
- Ah, sim. Genaro costumava falar muito dela.
- Sim? – falei, achando estranha a entonação usada por ela para expressar-se.
- Giulia, minha querida, quem sabe você nos leva a algum lugar tranqüilo, com uma boa comida? Você conhece a cidade melhor que eu.
- Então, vamos até o estacionamento pegar o carro. Conheço uma cantina ótima não muito longe daqui.
- Ótimo! Então, vamos.

Já acomodados no restaurante escolhido por mim, numa mesa discreta, fizemos nossos pedidos e conversamos enquanto aguardávamos a refeição.
- Mas, Lina, me conte uma coisa. Genaro e você não estavam separados?
- Pois é, Don Pippo. Estávamos. Mas há alguns meses ele me procurou, pedindo perdão, dizendo que ainda me amava e que estava em vias de fazer um grande negócio. Passamos a nos ver regularmente. Sabe como é... Namorando de novo.
- Grande negócio? Ele falou o que era?
- Parece que pretendia fazer parte de uma organização que industrializava vinhos.
- Sabe o nome desta indústria?
- Não, senhor.
- Ele não me falou nada. Nunca demonstrou estar insatisfeito com seu trabalho ou com seu salário.
- É, mas ele estava. Se o senhor e a senhorita me permitem, Genaro esperava que o senhor o colocasse de gerente na Agrícola. Mas quando sua neta voltou do seu curso, ele viu seus planos irem por água a baixo.
- O quê? – disse surpreso – Mas eu nunca falei nada neste sentido. De onde ele tirou esta idéia?
- Parece que certa vez o senhor falou qualquer coisa sobre ele ser seu braço direito, que precisava de alguém para ajudar na gerencia. Ele pensou que era a 1ª escolha.
_ Por isso eu sempre tinha a sensação de que ele não gostava de mim – falei.
_ Ele tinha horror de você. Desculpe estar lhe dizendo isto, minha filha. Mas agora que ele morreu, isto não tem muita importância, não?
- Claro que não. Mas isto pode explicar muitas coisas.
- O que é que você está pensando, Giulia? – perguntou meu avô.
- Talvez ele tenha sido procurado por Tomasino para “ajudar” com os rótulos e com isso poder ganhar dinheiro ou participação nos lucros da “empresa” do senhor Rocco. Lembra do que Alex nos contou?
- Ah, ele falou num destes nomes que a senhorita citou. Como é mesmo?
- Tomasino? Rocco?
- O primeiro! Sim! Tomasino.
Não sei por que, mas suspirei aliviada.
- Então foi isto que aconteceu.
- Dizem que ele foi morto por algum ladrão, mas eu não acredito nisso. Ele andava muito ansioso por causa deste Tomasino.
- Por favor, nos conte. O que ele dizia?
- Dois dias antes de sua morte, ele me procurou dizendo que estava com medo deste homem. Achava que ia desistir daquele negócio, pois estava ficando muito arriscado. Eu não entendi muito bem. Não quis me intrometer. Esta era uma das causa maiores de nossas brigas no passado. Por isso não perguntei detalhes. Depois disso, não o vi novamente. Vocês têm ideia do que pode ter acontecido? Quem é este homem que ele temia tanto? Será que foi ele que matou o meu Genaro?
- Não sabemos, Lina. A polícia já está investigando. Assim que soubermos de alguma coisa mais concreta lhe avisaremos. Fique tranquila.
Terminado o almoço, deixamos a senhora Lina em casa e resolvemos voltar para casa, pois já estávamos no meio da tarde e em pouco tempo ficaria noite. Eu não gostava de dirigir no “lusco-fusco” ou na escuridão da estrada.
Depois de mais ou menos uma hora, deixei vovô na Agrícola e resolvi tomar um banho, me arrumar e fazer uma surpresa para Alex em seu hotel. Não demorei mais que quarenta minutos e já estava de volta a estrada, desta vez com a minha velha Fiorino. Chegando em Arezzo, não tive coragem de entregar minha condução ao manobrista do hotel. Resolvi estacionar numa rua de trás, com vergonha daquele meu ferro-velho. Entrei na recepção e passei direto, em direção aos elevadores. Desci no 3º andar e, ao chegar em frente ao número 38, notei a porta entreaberta e o som de vozes masculinas discutindo lá dentro. Para meu espanto e horror, além da voz de Alex, pude ouvir e reconhecer a segunda pessoa que falava. Era Tomasino! Aproximei-me da abertura, tentando escutar o que eles diziam.
- Rocco foi bem claro na última vez que falamos. Você tem que ter mais cuidado com suas ações. Até agora a polícia não tem como provar nada contra nós. Eu estou fazendo a minha parte, conquistando a simpatia do velho e de sua neta.
Ao ouvir aquela frase, dita por Alex, senti minha cabeça girar e por pouco não caio para dentro da saleta, onde no dia anterior tínhamos feito amor. Minha vontade era chorar, gritar e bater nele. Não podia ser verdade o que eu estava ouvindo. Devia ser algum tipo de alucinação ou pesadelo, do qual eu acordaria em breve. Mas as vozes continuavam a discussão.
- Quem é você para me dizer o que fazer. Conheço Rocco há muito mais tempo que você. Fomos criados juntos nas ruas de Nápoles. Começamos este negócio juntos. Você apareceu agora e já vem querendo me dar ordens. Eu não sou tão ingênuo quanto Rocco. Não confio nem um pouco em você. Até agora só deu uma de “galã” para cima da garota e de herói para o velho, mas não conseguiu nada.
- É o que você pensa. Olhe isto aqui e depois me diga o que acha.
- A escritura da Agrícola! – exclamou Tomasino alguns segundos depois.
Não podia ser. Vovô não faria isto! Não era possível. Ele devia estar falando de outras pessoas.
- Agora acredita em mim?
- Ora! Finalmente algo de concreto. Com esta já são três escrituras que conseguimos. Mas ainda acho que aquela mocinha, a Giulia, pode ser uma “pedra no nosso sapato”.
- Será que você não ouviu o que eu disse? Se você matar mais alguém vai começar a levantar muitas suspeitas.
Ele falava tão friamente a meu respeito. Como eu podia ter me enganado tanto com ele. Como ele podia ser tão falso. De repente, me sentia suja, enojada. Sem querer, esbarrei na porta, que se abriu um pouco mais, produzindo um ranger que chamou a atenção dos dois. Tentei fugir, mas senti uma mão me puxando violentamente para dentro do apartamento e fechando a porta com um estrondo. Fui arremessada contra uma parede e caí ao chão tonta com a força do impacto sofrido.
- Giulia! – ouvi a voz de Alex, espantado por me ver.
- Ora, a sua namoradinha resolveu lhe fazer uma surpresa, pelo visto. Mas quem acabou surpreendida foi ela. Agora, infelizmente vou ter de terminar o que iniciei um dia atrás.
- Deixe-a em paz! Nós podemos dar outro jeito. Eu falo com ela. Lembre do que Rocco disse – Alex parecia aflito.
- Ora, deixe Rocco fora disto! Ele não está aqui para decidir qualquer coisa! Não sabe o que está acontecendo! Eu posso acabar com ela sem deixar pistas como fiz com aquele imbecil do Genaro, quando ele quis dar para trás, ameaçando me denunciar.
Senti duas mãos erguendo-me do chão com delicadeza. Bem diferente daquela que tinha me lançado para dentro do quarto.
- Você está bem, Giulia?
Só então percebi Alex tentando abraçar-me. Imediatamente reagi com asco, tentando empurrá-lo para longe de mim.
- Largue-me! Seu falso! Como pode me enganar desta maneira? – eu gritava e comecei a chorar desesperadamente, tentando bater nele.
- Acalme-se, Giulia. Vamos conversar – sua voz tentava me transmitir calma e doçura. Como podia ser tão cínico e ainda tentar me enganar com fala mansa, depois de tudo que eu tinha ouvido – Ouça-me. Confie em mim...
Apesar do desespero que me consumia, ao ouvir aquelas palavras e sentir aquele olhar suplicante, meu coração voltou a pulsar e meu choro conseguiu acalmar-se. Será??...
Não tive tempo de pensar em mais nada. Percebi Tomasino avançando rapidamente sobre Alex, por trás, e dando-lhe uma coronhada de revolver na cabeça. Ele desabou sobre mim, no mesmo instante.
- Alex! – gritei, segurando a vontade de tomá-lo em meus braços. Um filete de sangue escorreu por sua testa.
- Bem, minha querida. Afinal você vai poder partir deste mundo para o outro bem acompanhada. Que bom, não? – disse isto e verificou a pulsação de Alex.
- Ainda está vivo. Infelizmente vou ter de esperar ele acordar para não precisar carregá-lo até o seu carro. Você veio de carro, não veio?
Eu só consegui despejar ódio, através do olhar, por aquele ser monstruoso.
- Estou falando com você, mocinha! – dizendo isto, desferiu uma violenta bofetada que me deixou tonta mais uma vez - Responda quando eu falar com você!
Senti o gosto de sangue na boca. As palavras não conseguiam ser articuladas.
- Está bem... Nós temos todo o tempo do mundo. Vamos esperar anoitecer e despachar vocês dois para o purgatório. Não tenho pressa.
Pegou minha bolsa e esvaziou-a sobre a mesa de centro. Enquanto revirava o conteúdo, provavelmente em busca de minhas chaves, esforcei-me para sair debaixo do peso do corpo de Alex sobre minhas pernas, para tentar chegar à porta. Passei a pensar numa só coisa. Fugir dali. Infelizmente, ele notou meus movimentos e, lentamente, encarando-me com olhar maldoso, dirigiu-se até a entrada, girando a chave na fechadura e guardando-a no bolso de seu paletó.
- Nem ouse pensar em escapar, queridinha. Você só vai sair daqui quando eu permitir. Junto comigo – dizendo isto, sacudiu as chaves da minha camioneta diante de meus olhos.
Alguns minutos depois, Alex começou a gemer baixinho e a movimentar as mãos em direção a cabeça. Logo percebeu que estava caído sobre mim e tentou levantar-se. Nesta tentativa, foi chutado por Tomasino, voltando a cair e emitindo um urro de dor.
- Muito bem. Agora que o “belo adormecido” acordou, vamos combinar algumas coisinhas.
Estava sentado numa poltrona, olhando diretamente para nós, com sua arma em punho.
Vamos sair deste quarto como bons amigos. A “princesa” vai comigo e você vem logo atrás. Não tente bancar o herói, senão verá a cabecinha de sua queridinha ser estourada.
- Porque você acha que eu estou preocupado com ela? Posso muito bem fugir e avisar ao Rocco que você enlouqueceu.
- Mas você não fará isso.
- Tem certeza disso?
Tomasino lançou um sorriso irônico, levantou-se da cama e veio em nossa direção. Pegou-me pelo braço e puxou-me contra ele.
- Bem, se não está interessado nela não vai se importar se eu me divertir um pouco antes de matá-la – dizendo isso, começou a apertar-me contra si, passando aquelas mãos asquerosas no meu corpo, para logo em seguida tentar beijar-me. Comecei a lutar contra ele, quando ouvi a voz de Alex gritando:
- Solte-a, seu animal! Não ouse tocar nela ou eu mato você! – ele estava furioso e desesperado. Quando se preparava para pular em cima de Tomasino, este colocou a arma apontada sob meu queixo.
- Se você der mais um passo, acabo com ela aqui mesmo
Alex não teve alternativa, senão segurar-se. Tomasino começou a rir.
- Não disse? Você está caidinho por ela... Fique com ela!
Fui novamente jogada, desta vez nos braços de Alex, que me acolheu no mesmo instante, carinhosamente. Eu não sabia mais o que pensar. Apesar de tudo que tinha ouvido ele dizer, continuava sentindo-me protegida em seu abraço.
- Agora, vamos fazer o que eu disse. Agora! – gritou Tomasino.
Neste momento, ouviu-se um estrondo vindo da entrada do apartamento. A porta foi arrombada e dois homens, apontando armas para nosso algoz, surgiram.
- Polícia! Largue esta arma!
Pego de surpresa, a primeira reação do assassino foi mirar a arma em nós. Antes que eu pudesse ter qualquer reação, fui jogada ao chão por Alex e ouvi o som de dois tiros. Ficamos caídos sobre o tapete da saleta por alguns instantes. Meu maior medo era de que Alex pudesse ter sido atingido. Foi quando ouvi a sua voz rouca em meu ouvido:
- Acabou, Giulia. Acabou... Você está bem, meu amor?
Consegui abrir os olhos e ver o seu rosto manchado de sangue, olhando-me cheio de preocupação.
- Vocês estão bem? Sr. Sheridan? Desculpe o atraso – perguntou um dos policiais que invadiram o apartamento.
- Conseguiram gravar tudo? – perguntou Alex.
- Sim. Já temos as provas de que precisávamos.
- Ótimo.
- Giulia, porque você não telefonou antes de vir para cá? Não queria que você fosse envolvida nisso tudo. Fale comigo, por favor.
Eu ainda estava em estado de choque. Não conseguia falar. Olhava para o corpanzil de Tomasino, caído no chão , sobre o tapete sujo de sangue.
Ouvi a voz de Alex, novamente:
- Vocês me dão licença? Ela não está se sentindo muito bem – depois desta frase, fui erguida do chão e segura no colo por Alex, que me levou para o quarto, deitou-me na cama e voltou-se para fechar a porta. Antes, ainda pude ouvir a voz de um dos policiais dizendo:
- Um médico foi chamado para atendê-los e já está a caminho!
- Giulia, fale comigo – pediu, depois de fechar a porta e voltar para o meu lado.
- As coisas horríveis que você disse... A escritura... Você e Tomasino juntos... Os tiros – eu não conseguia expressar o que sentia e comecei a chorar convulsivamente.
Sentei-me na beira da cama e tentava empurrar Alex para longe de mim, mas ele insistia em me abraçar.
- Meu bem, foi tudo uma farsa para poder pegar estes bandidos. Eu não podia falar nada para você, pois tinha medo de envolvê-la ainda mais. Não pensei que você pudesse chegar aqui de surpresa como chegou.
Aos poucos fui me acalmando e conseguindo entender o que ele queria me dizer.
- Quando eu soube da existência desta quadrilha aqui na Itália, resolvi oferecer-me como voluntário para ajudar a pegá-los. Uma das maneiras foi me infiltrando na quadrilha. Com os conhecimentos que tenho, cheguei até o chefe deles, Rocco. Consegui pegar a confiança dele, dizendo que era funcionário de uma empresa do ramo e que estava insatisfeito financeiramente e que gostaria de ajudar. Contei que conhecia muito bem o pessoal da Toscana e ele interessou-se por meus serviços. Tomasino sempre desconfiou de mim, mas não conseguia provar nada. Faz seis meses que estamos trabalhando nisso. Apenas o seu avô sabia de tudo, pois o conheço de longa data e sabia que ele poderia ajudar.
- Alex... Porque não colocaram um policial para fazer este trabalho? Por que você?
- Porque eu os convenci que seria mais fácil para mim, que não tinha nenhuma ligação com a polícia, era estrangeiro e sem motivos aparentes para denunciá-los. Além do mais, eu tinha muito interesse em terminar com a quadrilha. Na verdade, eu sou proprietário da Calvine. Quando vi meus interesses ameaçados, resolvi tomar uma atitude.
- Você é dono da Calvine??
- Sim.
- Porque você mentiu sobre isto também?
- Fazia parte do disfarce.
- Vovô sabia disto também?
- Sim, também.
- Eu devia ficar furiosa com vocês por me deixarem fazer papel de boba.
- Foi para o seu bem, minha bobinha.
- E a escritura?
- Ontem, enquanto você se preparava para sairmos, convenci o seu avô a me dar uma cópia da escritura da Agrícola, pois já estava combinado este encontro com Tomasino aqui no hotel, hoje. A polícia colocou escutas por todo o lado para que pudéssemos gravar a “confissão” dele. Era a única maneira de pegá-los. Rocco já está preso com o seu bando. Na minha ida à Roma, tive um encontro com ele e uma conversa semelhante foi gravada. Depois de vários encontros, ele relaxou a segurança e dispensou seus capangas de me revistarem. Assim, depois de ter certeza que não descobririam um microfone em minha roupa, consegui a confissão dele. Só faltava pegar o seu sócio.
- Alex... Jura que acabou?
- Juro, meu amor... Juro... - falando isto, aproximou seu rosto do meu, começando por beijar minha testa, descendo aos olhos, a face e por fim a boca, que já esperava ansiosa por seu beijo. Antes de perdermos a noção de onde estávamos, ouvimos batidas na porta e fomos interrompidos. O médico havia chegado para avaliar nosso estado.
Alex precisou levar tres pontos na cabeça. Eu recebi um analgésico para as dores no corpo, mas dispensei os calmantes sugeridos, pois agora só me bastava ter Alex ao meu lado e a certeza de que ele estava bem, para ficar tranquila.
Depois de medicados, fomos dispensados. Mais tarde, provavelmente no dia seguinte, teríamos que dar nossos depoimentos.
Outro apartamento foi liberado para Alex, pela gerencia do hotel.
- Precisamos ligar para Don Pippo. Eu saí sem dizer nada, pois ele tinha ido a vinícola. Apenas deixei recado com Agostina de que viria para cá. Se ele sabia do seu encontro desta tarde, deve estar preocupado conosco.
- Deixe que eu ligo para ele, agora.
Depois de contar rapidamente o que tinha acontecido e tranquilizar meu avô, Alex conseguiu convencê-lo de que seria melhor eu ficar em Arezzo, naquela noite. Quando desligou o telefone, olhou-me com aquele brilho nos olhos azulados, tão meu conhecido.
- Quem disse que eu quero ficar aqui com você? – disse, fingindo-me de indignada com a resolução tomada por ele.
- EU disse... – falou sorrindo e já avançando sobre mim, na tentativa de agarrar-me.
- Você está ferido e não pode fazer esforços – já não conseguia evitar a vontade de rir vendo a maneira como ele tentava me pegar enquanto eu insistia em escapulir de suas mãos.
- O meu ferimento é na cabeça. Daí para baixo está tudo em perfeito estado, tirando alguns hematomas... Você não quer testar?
Finalmente deixei ele me prender no seu abraço.
- Bem, já que não tem outra maneira, vamos partir para os testes...
- Você quer começar por onde? – perguntou-me sedutoramente, com uma expressão safada – Sou todo seu...
A partir daí, comecei por tirar sua camisa, lentamente, testando com beijos cada pedacinho daquele corpo sarado e bronzeado, me deliciando com a visão do contorno de seus músculos e fazendo-o gemer a cada carícia. Ele era uma pista de provas deliciosa, eu diria.
Logo, minhas mãos chegaram às suas calças, que foram eliminadas assim como a camisa. Pude ver a grande mancha vermelha em seu abdômen, provocada pelo chute que Tomasino lhe dera. Cobri-a de beijos, como se isso pudesse anestesiar a sua dor. A última peça íntima foi retirada e todo o seu desejo mostrava-se na íntegra, pulsante e ereto. Não resistindo mais a tantos “testes”, foi a sua vez de despir-me. Em poucos segundos estávamos na cama, nos entregando um ao outro, em carícias cada vez mais intensas e arrebatadoras. Queria me perder naquele homem e em seu olhar, seu mar, sem data para voltar. Talvez para sempre.

FIM


Viram? Não sou tão malvada assim. Postei a parte final hoje, atendendo a apelos de fãs...Não é, Carel? Hihihi! Agora não sei quando volto, mas não devo demorar. Vou deixar só uma fotinho do herói do meu novo romance para que vocês possam começar a sonhar com ele. Beijinhos à todas!!


segunda-feira, 22 de junho de 2009

DOCE ENGANO - PARTE II

Não conseguia abrir os olhos. Ouvia os sons da casa ao longe, mas não conseguia identificá-los. Minha cabeça parecia estar enorme e pesada. A boca seca e a língua grossa. Que sensações horríveis. Nunca mais ia beber um cálice de vinho. Aos poucos minha memória foi voltando. Olhei para minha mesa de cabeceira e vi um copo de água coberto por um guardanapo branco e dois comprimidos ao seu lado. Sorri ao lembrar vovô falando que ia deixar analgésicos para eu tomar pela manhã. Pelo menos eu lembrava detalhes como este. Afinal eu não ficara tão bêbada quanto parecia. Tomei as drágeas e sequei o copo. Estava com muita sede. Então me lembrei de Alex e de seus beijos antes de partir. Senti o corpo amolecer ao recordar o seu toque, o seu abraço e a pressão de seus lábios contra os meus. Ele tinha prometido vir à tarde. Oh, meu Deus! Que horas seriam? Quanto tempo eu ficara dormindo?
Neste instante entrou Agostina, dando bom dia alegremente, trazendo uma bandeja com um copo de suco de laranja.
- E então, a minha dorminhoca como está?
- Bom dia, Agostina. Que horas são?
- Quase hora do almoço. Trouxe este suco para animá-la um pouquinho e abrir o apetite.
- Não, acho que só vou tomar o suco. Não vou conseguir almoçar.
- Mas hoje é sábado. Você já não almoça durante a semana. Hoje é dia de almoçar. Você vai ficar muito fraca se continuar assim.
- Ai, Agostina, por favor! Eu estou com uma terrível dor de cabeça. Talvez eu coma alguma coisa mais tarde.
- Seu avô está lá embaixo. Pediu para avisá-la que quer conversar, assim que estiver em condições.
- Ai, o sermão vai ser hoje.
- Melhor você tomar um banho, arrumar-se e descer para falar com ele. Parece que está meio preocupado. Ficou muito nervoso depois que um homem veio até aqui hoje cedo. Ele já tinha estado aqui há dois dias.
- Como ele era, Agostina?
- Um sujeito baixo, troncudo, cabelos pretos, rosto redondo, com cara de poucos amigos – suspirei aliviada ao ouvir que a descrição não fechava em nada com a figura de Alex. Ele me dissera a verdade.
- Está certo, Agostina. Vou me aprontar e já desço para falar com Don Pippo.
Assim que ela deu as costas, levantei-me o mais rápido que a dor na cabeça permitia e fui para o banho. Quem seria este homem misterioso e o que ele estava fazendo para deixar vovô tão preocupado?

- Até que enfim, acordou! Tomou o analgésico que deixei na sua mesinha? – falou sorrindo.
- Tomei sim, obrigada. A Agostina me disse que queria falar comigo. Também preciso falar com o senhor.
- Vamos dar uma volta antes do almoço?
- Claro. Só deixe pegar meus óculos escuros. Não vou resistir toda esta luz nos meus olhos.
Saímos a caminhar em direção às oliveiras, tão logo me protegi contra os raios de sol.
- Então, você começa primeiro. Desde quando você conhece o Alex?
- Ah, eu o conheci na estrada há dois dias. Ele me pediu informações. Mais tarde nos encontramos de novo, durante o temporal de quinta-feira. Foi ele quem me trouxe para casa quando a Fiorino ficou sem gasolina, na estrada. Acabou me convidando para jantar e me trouxe em casa depois, como o senhor mesmo pode ver ontem á noite.
- É, eu vi muito bem – falou querendo parecer aborrecido, mas já mostrando os olhinhos brilhando – Estou brincando, Gigi. Fico contente que esteja saindo com alguém e que este alguém seja o Alex. Ele é um ótimo rapaz.
- Sério? O senhor já o conhecia? Eu nunca tinha ouvido falar dele, só da empresa para a qual ele trabalha.
- Empresa que ele trabalha?... Ah, sim – pareceu que ele tinha ficado com alguma dúvida, mas logo voltou a falar de Alex, confirmando tudo que ele me havia contado.
Minha dor de cabeça parecia ter desaparecido como por encanto. Sentia-me radiante depois das palavras de meu avô. Podia confiar em Alex, finalmente. Aí, lembrei do outro visitante.
- Vovô, o que o senhor queria realmente conversar comigo? A Agostina contou que esteve um homem aqui, pela manhã, que o deixou nervoso. Quem era?
- A Agostina não tinha nada que falar por mim – sua expressão ficou anuviada e as rugas da grande testa ficaram mais evidentes – Este homem é o tal que veio visitar-nos na tarde de quinta-feira. Diz ser de uma empresa que está interessada em comprar as pequenas vinícolas da região para industrializar a produção do chianti. É possível um absurdo destes?
Eu já havia dito que não aceitava nenhum tipo de proposta deste tipo, mas o sujeito é teimoso e parece não aceitar um não. O nome dele é Tomasino. Aliás, não quero que você chegue perto deste tipo, Giulia. Se ele tentar se aproximar de você, fuja. Fale comigo! Você entendeu? Diga que sim.
- S-sim, entendi. Mas ele pode ser perigoso?
- Talvez. Não sei. Mas não gostei do jeito dele. Só isso. Você sabe que você é o meu tesouro, não sabe, bambina? – falou isso e abraçou-me carinhosamente, enquanto voltávamos na direção de casa – Vamos almoçar? Agostina disse que ia preparar o seu prato predileto: lasanha de berinjela. Ela prometeu que ia fazer separado para mim, colocando massa. Não sei como você pode gostar de lasanha sem massa. Para mim, isto não é lasanha – antes que eu pudesse defender minhas teorias, ele adiantou-se e falou – Já sei! É mais saudável, não engorda, etc... Este mundo está perdido!
Continuamos caminhando, dando risada de nossas diferenças. Parece que eu não teria alternativa a não ser almoçar.
- O Alex ficou de vir hoje à tarde para conversar com o senhor.
- Só comigo? - falou, com um sorrisinho irônico.
- Comigo também. Mas ele ficou preocupado quando eu contei sobre o outro homem que o visitou.
- Vai ser bom. Tenho de conversar mesmo com ele. Não vai ficar chateada se for em particular?
- Não. Tem mais alguma coisa que eu não saiba? Vocês estão escondendo algo de mim?
- Não. São apenas negócios, nada de mais. Estou morrendo de fome! Você não está?
- Nada como mudar de assunto. Mas tudo bem. Eu respeito os seus segredinhos com o Alex. Esta conversa até já está me dando fome. Vamos!

Passei a tarde tentando me distrair, lendo um livro, caminhando, indo até o escritório revendo algumas contas, mas nada conseguia tirar aquela ansiedade do meu peito. Alex não tinha dito exatamente a que horas viria. Já estava a ponto de pegar o carro e ir até Arezzo, quando vi o seu conversível preto apontando nos portões da propriedade. Segurei a vontade de correr até ele. Não podia dar este gostinho de vitória para ele. Não podia ser tão fácil. Assim, fui avisar vovô da sua chegada e fiquei aguardando que ele estacionasse o Porsche e viesse até nós.
- Boa tarde! Don Pippo... Giulia...
- Boa tarde, Alex! Vamos entrando! Por aqui! – gritou meu avô.
Passou por mim sem tirar os olhos, me devorando com o olhar, deixando-me excitada como se tivesse sido despida na porta de casa. Fomos para a sala de estar. Sentei numa poltrona, de frente para o sofá onde ele acomodou-se confortavelmente.
- Pois é, Don Pippo, vim aqui para esclarecermos algumas dúvidas da sua neta a meu respeito – fez questão de dar ênfase na palavra neta como para me lembrar o que eu havia ocultado dele.
- Ela me contou. Mas já conversamos e tudo já foi esclarecido. Não é, Giulia?
- Claro. Não existem mais desconfianças – tentava não olhar para os seus olhos com medo de perder o controle e me jogar sobre ele ali mesmo. Ele estava mais lindo que nunca, numa calça caqui e uma camiseta verde oliva, grudada ao corpo, que o deixava mais sensual do que nunca.
- Alex, lembra quando lhe falei sobre o homem que havia estado aqui depois de você? Parece que ele voltou e ameaçou Don Pippo – falei, tentando dissimular o que eu estava sentindo com a sua presença ali, mas também para pedir ajuda.
- Ameaçou?
- Não. Não foi bem uma ameaça. Pelo menos não deixou nada claro. É o modo como ele fala, sabe. Muito desagradável - respondeu Don Pippo.
- O senhor já sabe se ele já visitou seus vizinhos?
- Parece que sim. Alguns ele conseguiu atemorizar e, estes, estão pensando em vender. Acham que já estão muito velhos para tocar o negócio e não tem herdeiros interessados em manter o negócio em família.
- O senhor pode me dar o nome destas pessoas? Vou tentar reverter esta situação.
- Como? – perguntei surpresa com o interesse dele naquele assunto.
- A minha empresa, como eu já havia lhe dito, tem interesse em manter a produção do chianti do modo tradicional. Não queremos que haja a industrialização, nem que para isto tenhamos que comprar as vinícolas e continuar o negócio.
- Que ótima notícia, Alex! - vibrou meu avô – Precisamos conversar um pouco mais. Giulia, por favor, querida, você pode nos dar licença? Tenho que falar em particular com Alex.
- Giulia, espero que não tenha esquecido do meu convite para logo mais. Lembra?
- Claro que lembro.
- Porque você não vai se arrumar e nos encontramos daqui a pouco para sair? – a sua voz rouca e mansa me hipnotizava. Deixava-me sem ação. Só consegui dizer que sim e nada mais. Nenhuma contestação.
- Então, com licença – aquele sorriso dançando em seus lábios e os olhos azuis me seguindo... Eu quase flutuava enquanto subia em direção ao meu quarto, apesar de estar curiosa para saber o que eles tanto tinham que conversar em particular. Tentaria descobrir alguma coisa, mais tarde, com Alex.
Naquela noite, resolvi colocar uma roupa mais sexy do que a da noite anterior. Como íamos dançar, coloquei meu vestido vermelho, de musselina, esvoaçante, próprio para dançar, com um generoso decote nas costas. Havia sido comprado nos tempos em que morava em Florença e muito pouco usado. Resolvi prender o cabelo. Quando terminei a arrumação, olhei-me no espelho e pensei se não estava parecendo muito “vamp”. Achei que tinha exagerado. Vestida daquele jeito eu o estaria provocando para outras coisas mais além de dançar. No fundo, era exatamente o que eu queria mesmo. Mas não podia ser tão clara. O que ele pensaria de mim? Que hipocrisia, não, dona Giulia? Depois de muito olhar, resolvi diminuir um pouco a maquiagem e soltar o cabelo. Coloquei apenas um conjunto de colar e brincos de cristais Swarovski, muito delicado, que tinha sido de minha mãe. Pus o meu perfume predileto e saí do quarto. Havia se passado quase duas horas.
Desci as escadas, ouvindo as risadas de vovô e de Alex, vindas da sala. Quando surgi na sala, notei a expressão embasbacada de Alex.
- Pelo menos valeu esperar todo este tempo. Você está linda!
- Alex, lembre-se de que ela é minha neta, ouviu? – olhou para mim preocupado, aproximou-se e disse, quase sussurrando em meu ouvido – Está linda, mas precisava deste decote todo?
- Ah, Don Pippo. Nós vamos dançar e este vestido é apropriado para isso.
- No meu tempo, este vestido seria apropriado para outros fins.
- Don Pippo, não se preocupe. Eu trarei a Giulia sã e salva no final da noite.
- Assim eu espero. E não me dê aquele seu vinho da Califórnia para ela. Não a quero bêbada do jeito que ela chegou ontem.
- Vovô, eu não fiquei bêbada. Só um pouco mais alegre.
- Está bem, está bem! Dêem o fora daqui antes que eu não permita esta sem-vergonhice.
Alex deu-me sua mão e saímos.
- Vou ser obrigado a passar no hotel e vestir uma roupa mais adequada para sair com você.
- Não, você está bem.
- Estou bem para comer um sanduíche na lanchonete mais próxima.
- Se você for sentir-se melhor, vamos.
Quando ele foi abrir a porta do carro para eu entrar, deu um jeito de me escorar contra a lataria, prendendo-me contra o seu corpo. Suas mãos agarraram minha cintura e logo estava sentindo o gosto de seus lábios mais uma vez. Quase perdi o fôlego. Lembrei que meu avô poderia estar olhando e o afastei o mais rápido possível.
- Alex, vovô pode estar olhando!
- Desculpe, mas é que não resisti. Estava com vontade de beijá-la desde que cheguei aqui. E agora, com você vestida desse jeito, sou capaz de fazer amor aqui mesmo.
- Alex! – exclamei, deixando escapar um riso nervoso – Acho que quem vai trocar de roupa sou eu. Vou voltar para casa e vestir a roupa de ontem.
- De jeito nenhum! Vamos! Entre logo no carro! – disse, sorrindo e empurrando-me delicadamente.
Durante a curta viagem até Arezzo, não pude resistir e perguntei a respeito da conversa em particular dos dois.
- Nós só conversamos sobre negócios. Peguei o endereço dos dois produtores que estão dispostos a vender suas vinícolas. Você demorou tanto que até já entrei em contato telefônico com eles e acertei uma visita.
- O que mais?
- Nada mais. Falei sobre as possibilidades de aumentar a produção de uvas por metro quadrado. O que mais? – lançou um olhar pensativo, como se quisesse lembrar-se de mais alguma coisa.
- Tenho certeza de que vocês estão escondendo algo de mim. Estou muito preocupada com este homem misterioso que visitou a vinícola. Don Pippo não é de assustar-se facilmente.
- Neste ponto, já estamos tomando providencias. Não se preocupe. O seu avô me disse que já lhe pediu para manter-se afastada dele, não? Obedeça-o, ok? Pode ser perigoso mesmo – ele agora falava sério e apresentava uma charmosa ruguinha no meio da testa, entre as sobrancelhas.
- Eu estou começando a ficar com medo. Sinto que tem mais coisas aí do que vocês estão dizendo.
Ele continuava muito sério. Parecia tentar encontrar as palavras certas para me tranquilizar, até que falou:
- O que eu posso te dizer, Giulia, é que não sabemos até que ponto estas pessoas podem chegar para conseguirem o que querem. Até tudo estar resolvido, todo cuidado é pouco. Não fale com ninguém sobre isto. Se tiver qualquer dúvida ou temor, fale comigo. Não importa a hora, está bem?
- Está bem.
- Olhe, já estamos chegando – ele estacionou diante do hotel e, enquanto o manobrista levava o carro, pegou-me pelo braço e entramos no saguão. Pediu sua chave:
- Apartamento 38, por favor.
Assim que as pegou, olhou-me daquele jeito que me fazia estremecer toda e disse:
- Vamos? Eu me arrumo rápido e saímos.
- Não. Eu espero por você aqui no saguão – falei, sem conseguir encará-lo.
Levantei os olhos quando ouvi a sua risada.
- Eu não gostaria de deixá-la aqui sozinha, sob os olhares de todos estes italianos indo e vindo por aqui.
- Acho que é mais seguro aqui do que com você lá.
- Você que sabe – falou assim e deu de ombros – Não saia daqui, então. Logo estou de volta – deu-me um beijo rápido e inesperado na boca e saiu caminhando em direção aos elevadores.
Procurei uma poltrona confortável para sentar-me e fiquei observando o movimento das pessoas que entrava e saíam do hotel. Adorava fazer isto. Sempre se encontravam tipos interessantes e engraçados, vindos do mundo todo.
Enquanto seguia na minha diversão, subitamente notei que estava sendo observada intensamente por um homem. Fiquei tensa ao perceber que a descrição de Agostina batia exatamente com o aspecto dele. Gelei ao ver que estava começando a caminhar na minha direção.
- E então? Demorei? – a voz de Alex foi como um bálsamo sobre minha sensação de terror - O que houve? Você está pálida!
- Não olhe agora, mas o tal homem, Tomasino, está aqui.
- Onde?!
- Ele estava aqui, agora a pouco, me olhando, quando você apareceu – tentei achar aquela figura sombria no saguão, mas não o vi mais – Ele desapareceu. Pouco antes de você chegar. Pensei que ele viria falar comigo. Estava apavorada.
- Calma. Vamos sair daqui.
Intrigado, me perguntou:
- Mas você já o conhecia? Achei que ele falara apenas com Don Pippo.
- A Agostina, que trabalha em nossa casa, o viu e deu-me a sua descrição. Tenho certeza que era ele.
Só então notei a elegância de Alex. Ele havia trocado sua roupa esportiva por um belo terno marinho, com uma camisa branca por baixo, aberta até o terceiro botão, o que deixava vislumbrar parte de seu peito e alguns pelos grisalhos. Ele também parecia estar com péssimas intenções.
- Você está muito elegante.
- Para poder acompanhá-la, não podia estar vestido de outra forma – falou extremamente sedutor.
Pediu o carro e logo estávamos a caminho de uma casa noturna muito conhecida em Arezzo. Lá já nos aguardava, em um local mais discreto, uma mesa finamente decorada para o jantar, com um grande balde de gelo e uma garrafa de champagne “Veuve Clicquot”.
- Achei que podíamos jantar tranquilamente antes de cairmos na dança. O que acha?
- Maravilhoso! – realmente, eu estava adorando cada detalhe, principalmente por ter sido ele que tivera estes cuidados - Se você está tentando me impressionar com tudo isto... Está conseguindo.
Ele mostrou um sorriso de vitória adorável. Senti que estava ficando irremediavelmente apaixonada por aquele homem.
Os assuntos desagradáveis foram esquecidos durante o jantar. Ele me contou sobre seus estudos na faculdade, sobre suas viagens e fatos pitorescos. Quis saber mais sobre minha família, sobre meus pais e minha avó. Demos boas risadas. Várias vezes ele pegou em minha mão, acariciando-a. Sentia que podia afogar-me naqueles dois oceanos azuis que cintilavam diante de mim. Não teria ninguém que pudesse me resgatar.
- Vamos para a pista dançar? – perguntou-me assim que terminamos a sobremesa e a última taça de champagne.
- Sem dúvida! - Sentia-me leve, mas não tonta como na noite anterior.
Já havia alguns casais dançando animadamente. O DJ era excelente..
Alex dançava muito bem. Logo começaram as músicas lentas. Aí, não tive como escapar do seu abraço. Aquela proximidade... Sentir o calor do seu hálito no meu rosto, em meus cabelos. A pressão de suas mãos sobre o meu corpo. Ondas de desejo percorriam todos os meus sentidos. Quando nossos olhares se cruzavam sentia faíscas saltando no ar, confundindo-se com a iluminação cintilante do salão. Depois da segunda dança, o ouvi dizendo baixinho no meu ouvido, provocando um arrepio no pescoço:
- Vamos embora? Preciso ficar sozinho com você – sua voz estava mais rouca que o normal e seu olhar era de súplica.
- Para onde você quer ir? – tinha medo da resposta, mas ao mesmo tempo, ansiava por segui-lo e me deixar abandonar completamente em seus braços.
- Para o hotel – dizendo isto, beijou-me o pescoço, deslizando os lábios até o ombro, arrancando-me um gemido.
- Vamos...
Pegamos o carro e partimos rapidamente para o hotel de Alex. Sabia que aquilo era uma loucura. Afinal, eu o conhecia há pouco mais de três dias. Mas não me importava com mais nada. Eu estava louca por ele.
Subimos até o terceiro andar, impacientes, aos beijos, sofregamente. Quando a porta finalmente se abriu, corremos até o número 38.
O desejo tomou conta de nós completamente. Quando dei por mim, já estava sem a parte de cima do vestido. As alças haviam sido baixadas com grande habilidade, e aquelas mãos fortes e macias acariciavam meus seios e minhas costas com impaciência. Afastei-o um pouco para poder tirar o seu casaco e começar a desabotoar sua camisa. Logo, pude ver seu tórax esplêndido, os braços magníficos, que me puxavam ao seu encontro, e a boca que procurava meus lábios avidamente. Fomos andando, desta maneira, agarrados, até o quarto. Lá, fui jogada na cama e pude ver Alex tirando suas calças agilmente, colocando a mostra seu sexo latejante e ansioso por mim sob sua roupa íntima. Terminou por despir-me e lançou-se em mais carinhos. Agora, não só com as mãos, mas também com os lábios e com a língua, que passeava por todos meus contornos, deixando seu rastro úmido, marcando minha pele, arrancando gemidos intermináveis. Minhas mãos agarravam-se em seus cabelos, puxando-o contra mim. Já não aguentava mais. Precisava dele dentro de mim, com urgência. Senti-o deitando-se sobre meus quadris, encaixando-se em minha pelve e penetrando-me, como fogo ardendo. Eu queria queimar e ser queimada. Ele cavalgava, quase com fúria, levando-me ao prazer total. Logo, ele também gemia alto, satisfazendo seus sentidos e chegando ao orgasmo. Quando os movimentos tornaram-se mais lentos, deitou-se sobre mim, ainda arquejando, dizendo meu nome em voz baixa e chamando-me de seu amor. Eu chegara ao paraíso e lá continuava, ao ouvir aquelas palavras. Deixamos-nos ficar assim,. Exaustos, por algum tempo. As palavras não eram necessárias. Estávamos completos.
Não tinha noção de quanto tempo ficamos ali deitados, lado a lado, pernas e corpos entrelaçados. Abri meus olhos e vi que Alex ainda estava dormindo. Observei as linhas de seu rosto, suas marcas de expressão, os sulcos de sua testa, o cabelo levemente prateado, aquele perfume amadeirado misturado ao cheiro de seu suor. Tive vontade de acariciá-lo, mas medo de acordá-lo. Vontade de começar tudo de novo. Acabei não resistindo e passei a conduzir minha mão por seu peito, sentindo os movimentos de sua respiração, os pelos do tórax. Eu poderia ficar por horas a adorá-lo em seu sono. O desejo voltava aos poucos, fazendo com que minhas mãos descessem ao seu abdômen, em direção ao púbis. Foi quando seus olhos abriram-se e um lindo sorriso iluminou a penumbra do quarto.
- Está tentando abusar de mim?
- Só um pouquinho...
Ele virou-se um pouco mais e puxou-me contra si, acariciando-me as costas e já procurando por meus beijos. Os gemidos de prazer reiniciaram-se e mais uma vez nos amamos loucamente.

- Alex, vou ter de sair. Tenho que voltar para casa. Está muito tarde.
- Não... Vamos passar a noite juntos – falou ainda sonolento.
- Eu adoraria ficar, mas o meu avô... Ele vai ficar preocupado.
- Ele sabe que você está comigo. Deixe de ser boba. Ele é italiano. Vai entender.
- Ele é italiano e eu, sua neta. Ele poderia entender isto com outras mulheres, não comigo, sua bambina. Capice? Olha, eu pego um táxi. Não se preocupe.
- Como não me preocupar, com aquele Tomasino a solta por aí? – ele parecia um pouco irritado – Eu a levo. Podemos ao menos tomar um banho juntos? Ou a bambina não pode?
- A bambina é italiana. Pode sim. Quero!
- As italianas são realmente quentes como dizem, então?
- Falando por mim, pode-se dizer que sim – falei, rindo das suas insinuações.
- Uau! Pelo jeito vou me dar bem – e mostrou um sorriso mais que safado.
- Acho que já estamos nos dando muito bem, não acha? – não resisti e dei-lhe um beijo bem molhado.
Levantamos e fomos direto para o chuveiro.
Pode-se dizer que foi o melhor banho da minha vida, pelo menos até aquele momento. Ansiava pelos próximos.
Quando terminamos de nos arrumar, saímos para pegar a estrada. Eram quase três horas da manhã. A estrada estava deserta. Ele estava visivelmente cansado. Tive vontade de convidá-lo para ficar e dormir em meu quarto, mas não teria como explicar a sua presença no café da manhã.
- Pronto! Chegamos. Vemos-nos amanhã? Quer dizer, hoje, durante o dia?
- Desculpe ter feito você dirigir a esta hora para me trazer. Estou me sentindo mal por isso.
- Não precisa sentir-se mal. Você tem razão. O seu avô não ia gostar muito desta situação. Eu estou bem. Passo aqui amanhã á tarde, ok? Vá dormir. Quero-a refeita para amanhã – e olhou-me insinuante.
- Alex!
- Não diga que não quer mais?
- Claro que quero. Muito mais...
Beijamos-nos mais uma vez e, com dificuldade, consegui deixá-lo partir.
Entrei em casa, na ponta dos pés para não fazer barulho. Tirei os sapatos de salto alto para poder subir as escadas. Fiquei surpresa por não ver Don Pippo a minha espera na sala. Será que ele tinha tanta confiança assim em Alex?
Fechei a porta de meu quarto e fui abrir a janela para respirar um pouco do ar noturno e relembrar os belos momentos que acabara de viver. Ao fazer isto, vi uma luz ao longe, vinda do prédio da vinícola. Fiquei curiosa e mantive-me a espreita para ver alguma movimentação por lá. Será que vovô cansara de esperar por mim em casa e fora dar uma volta até as adegas? Passaram-se alguns minutos e a luz apagou-se. Continuei na janela escondida na escuridão do quarto, um pouco atrás das cortinas, desconfiada de tudo aquilo. Foi quando vi Genaro esgueirando-se pela noite, muito suspeitamente, carregando duas sacolas, indo em direção ao dormitório dos funcionários que moravam na vinícola. O que estaria ele fazendo lá, àquela hora? O que teria dentro das sacolas? Muito estranho. Depois que ele sumiu de minha vista, vesti minha camisola e fui dormir, ainda intrigada com o que vira. Peguei logo no sono, desejando que a tarde chegasse logo para encontrar o meu amor de novo.

Mais uma vez, acordei muito tarde. Mas afinal, era fim de semana. Um fim de semana muito agitado. Será que ele tinha chegado bem ao hotel? Ele estava tão cansado quando saiu. Resolvi levantar-me logo, antes que alguém aparecesse no quarto.
Vovô estava na sala, tomando seu cálice de vinho.
- Bom dia, dona Giulia. Nem vou perguntar a que horas a senhorita chegou para não ser inconveniente. Desisti de esperá-la.
“Ele havia me esperado, então”, pensei.
- Tive uma ótima noite. Acabamos jantando e indo dançar depois. Não vimos o tempo passar.
- Imagino que não...
- Bem, vou comer alguma coisa e dar uma volta. O senhor já almoçou?
- Não. Estava esperando por você. Além do mais, a Agostina ainda não terminou de preparar.
- Então almoço com o senhor. Vou tomar um suco e ir até ao escritório dar uma olhada nuns papéis – disse isso e segui em direção á cozinha. Dei bom dia para Agostina, que me olhou com aquele seu ar maternal preocupado, balançando a cabeça , como se eu fosse um caso perdido.
- Não me diga que não vai almoçar.
- Vou até fazer um aperitivo antes do almoço, está bem? – realmente hoje eu estava com fome.
Peguei uma maçã, que estava mais a mão, dei um “ciao!” e segui para a rua. Estava curiosa com o que tinha acontecido durante a madrugada. Queria ver se descobria o que Genaro estava fazendo àquelas horas na vinícola.
Verifiquei o escritório, andei pelos pavilhões que guardavam os diversos estágios da produção de nosso vinho e as adegas. Contudo, não pude achar nada diferente. Não queria falar com vovô para não deixá-lo preocupado. Provavelmente não fosse nada. Talvez ele tivesse perdido o sono e resolvido beber uma taça de vinho direto das pipas.
Minha surpresa foi maior quando, ao voltar de minha visita, deparei-me com o tal Tomasino, dentro de seu carro, estacionado nos portões da propriedade, conversando com Genaro. Resolvi ir até lá e saber o que estava acontecendo. Achei a cena muito suspeita.
- Bom dia, signorina! – gritou Genaro ainda de longe, ao me ver em passos firmes, aproximando-me deles.
- O que este senhor deseja, Genaro?
Neste momento, o sujeito abriu a porta do automóvel e saiu para cumprimentar-me. A sua aparência era de arrepiar. Lembrava um daqueles capangas do cinema, tipo os de “O Poderoso Chefão”. Lançou-me um sorriso armado e frio e falou:
- Bom dia, senhorita Giulia. Parece que estamos nos encontrando com freqüência ultimamente.
- Acho que não o conheço, senhor...
- Tomasino, a seu dispor. Realmente, não fomos apresentados formalmente, mas creio que a senhorita lembra-se de ter me visto num certo hotel, ontem á noite. Não lembra?
Sua voz parecia vinda de alguma catacumba. Tudo nele era sinistro.
- Não. Não estou lembrada – menti, encarando–o e tentando manter a calma.
- Pois creio que ainda vamos nos ver várias outras vezes, o que para mim será um prazer.
- Não creio. Se o senhor é quem eu penso que é, gostaria que não aparecesse mais por aqui. Acredito que meu avô já lhe disse isso. Estou apenas reforçando o desejo dele. E você, Genaro, não tem nada que ficar conversando com este “senhor”. Deve apenas barrar a sua entrada em nossa vinícola.
Vi o rosto de Genaro empalidecer, enquanto olhava o tal Tomasino com olhos aterrorizados, para depois ficar cabisbaixo e dizer:
- Sim, signorina.
- Vejo que a senhorita é muito segura de si e autoritária. Mas as coisas mudam, senhorita. Nada é imutável. Às vezes podemos perder o controle da situação, ficando em condição muito frágil.
- Por acaso o senhor está me ameaçando?
Ele lançou outro sorriso enigmático através daqueles olhos cinzentos e gelados.
- Tenha um bom dia, Giulia – falando isto, deu-me as costas, entrou em seu carro e, após um sutil cumprimento de cabeça para Genaro, deu a partida e saiu de ré, até pegar a estrada novamente.
- Que homem asqueroso! Genaro, ele está proibido de entrar aqui. Entendeu?
- Mas, senhorita, ele pode ser perigoso.
Mais um que pensava no perigo que aquele homem representava, sem ele ter feito nada.
- Mais um motivo para não deixá-lo entrar. Capice??
- Sim, senhorita.
Eu estava furiosa com os dois. Minha desconfiança sobre Genaro só aumentou depois deste incidente. Voltei para casa, tentando acalmar-me. Sentia todas as fibras de meu corpo retesadas e tremulas. Eu não costumava perder a calma daquela maneira, mas aquele homem me deixara extremamente exasperada e, ao mesmo tempo, amedrontada.

- O que houve, Giulia? O que aconteceu lá no portão? Eu vi o carro “daquele” homem partindo e você praticamente gritando com o Genaro. O que ele queria?
- Nada, Don Pippo. Não se preocupe. Acho que não vamos mais ver aquele sujeito por aqui.
- Me conte o que aconteceu, Giulia. Por favor!
Relatei os fatos e o meu diálogo com o “pústula”. Apenas ocultei as minhas desconfianças para com o nosso funcionário.
- Você não devia ter falado com ele. Porque não me chamou? Eu já havia dito para não se aproximar dele.
- Eu não sou mais nenhuma criança. Além do mais, esta propriedade também é minha. Tenho obrigação de defendê-la. Jurei para minha avó que ficaria ao seu lado para isso. Apenas agi como proprietária, defendendo nossos interesses.
- Está bem, minha filha. Não precisa ficar assim. Sei que agiu com a melhor das intenções, mas não sabemos com quem estamos lidando. Todo o cuidado é pouco.
- Acho que o senhor está me escondendo algo. Porque este medo deste homem? Ele não é apenas um funcionário de multinacional? Está certo que ele tem um aspecto sombrio, mas só isso não é motivo para tanto receio. O que o senhor e o Alex estão escondendo de mim?
- Nada! Não estamos escondendo nada - estava visivelmente nervoso, com gotas de suor a brotarem da testa calva, sendo que o tempo não estava exatamente quente – Olhe, vamos almoçar. A Agostina avisou que já está tudo pronto. Não vamos mais falar deste assunto. Está bem?
- Está bem – fiquei preocupada com o estado em que ele ficou e resolvi não tocar mais naquilo, por enquanto. Pretendia ter uma conversa com Alex, mais tarde. Achava que ele sabia mais do que queria aparentar – Vamos ver o que a Agostina preparou de gostoso para hoje.
Abracei-o carinhosamente e seguimos rumo ao almoço.

Mais uma tarde que passava muito lentamente. Lenta demais para o meu gosto. Nada de Alex aparecer. Nem o seu número de celular eu tinha. Poderia ligar para o hotel em Arezzo e tentar falar com ele, mas não queria ser chata. Achava horrível aquelas mulheres que grudam no homem feito goma de mascar. Talvez estivesse com algum problema. E se tivesse acontecido alguma coisa, ontem á noite, quando voltava para o hotel?
Acabei ligando para o hotel e perguntando por ele na recepção. Qual não foi minha surpresa ao saber que ele tinha viajado para Roma. Apesar de não ter fechado a conta, dizendo que voltaria logo, fiquei magoada por ele não ter me avisado. Talvez eu não significasse nada para ele, afinal. Será que eu tinha me enganado tanto assim? Não era possível. A vontade de chorar tornou-se presente até a noite. Fui tomar um banho antes do jantar. Quando saí, já resolvida a esquecer aquilo tudo e ir dormir sem jantar, vovô me chamou:
- Gigi, o Alex ligou, mas você estava no banho.
- O quê? Ele liga exatamente na hora em que não posso atender? Porque o senhor não me chamou? Eu aflita sem notícias e ele liga só agora?O que ele está pensando?
- Se você se acalmar, vou transmitir o recado que ele deixou.
- Qual o recado?
- Que sente muito, mas teve de viajar com urgência para Roma, para resolver negócios da empresa. Espera retornar em três dias, no máximo.
- Como assim, resolver negócios num domingo? Ele acha que me engana? – aquela altura eu já estava quase histérica.
- Posso continuar? Acho que vai querer ouvir o final do recado. Ou não?
Percebi que estava sendo muito imatura comportando-me daquele jeito. Dei um longo suspiro e falei mais calma:
- Desculpe, vovô. Qual o final do recado?
- Ele mandou dizer vai tentar ligar de novo. Que está com saudades. Pediu para que eu cuidasse de você. Imagina! Ele me mandando cuidar de minha neta! O que ele está pensando? – falou sorrindo e dando uma piscadela de olho para mim – Gostou? Ou ainda vai continuar tendo um chilique?
- Ah! Vovô... Acho que estou ficando apaixonada.
- Isto é bom, mas vá com calma. Cuidado com este coraçãozinho.
Apesar de estar mais aliviada com as notícias, ainda me perguntava por que ele não ligara antes de partir? Porque tanta pressa assim? Por razões de trabalho? Achava aquilo muito estranho.
Acabei por fazer companhia para o meu avô durante o jantar, apesar de mal tocar na comida.
- Ainda está preocupada?
- Não. Só estou sem apetite – não queria retomar a discussão anterior e deixá-lo perturbado como antes.
Naquela noite, fui deitar cedo, sob os olhares perscrutadores de Don Pippo. O sono, porém, demorou a chegar. Por isso acabei perdendo a hora na manhã seguinte . Não houve tempo para minha caminhada habitual da manhã. Mal tive tempo para tomar um café. Tinha muito trabalho pela frente. Hoje seria o dia de rotular e encaixotar os vinhos e azeites engarrafados no sábado. Tinha de preparar as notas fiscais necessárias para despachar as caixas com vinhos e azeites para os nossos principais compradores, inclusive para a Calvine, onde Alex trabalhava, no dia seguinte. Enfim, ficaria ocupada o suficiente para não pensar nos últimos acontecimentos do final de semana.

Muitas emoções ainda a caminho... Aguardem a continuação... Amanhã tem mais!
Beijinhos!!

domingo, 21 de junho de 2009

Final de domingo...

Olá!! Não sei por que não consigo ficar longe deste meu cantinho. Já notaram que ando colocando todo o meu "repertório" antigo, enquanto não termino a minha nova criação. Assim, vou postar um pequeno romance, passado na Toscana, terra que já inspirou muitos outros romances e filmes do gênero. Espero que gostem. Um ótimo final de domingo e um tranquilo reinício de semana para todas. Beijos!!


DOCE ENGANO



A brisa zangada forçava as árvores a curvarem-se a minha passagem. Podia ouvir o murmúrio da natureza a saudar-me enquanto caminhava por aquela estrada deserta. Adorava caminhar por ali, àquela hora da manhã, quando o movimento de carros ainda era distante. Dali podia-se avistar as videiras de “sangiovese” e as oliveiras, harmoniosamente plantadas numa grande extensão de terra, quase a perder de vista. Faltavam três meses para a colheita das uvas começar. Era a época que mais trazia recordações de minha infância. Alegres lembranças. As danças, as mulheres de pés descalços a pisotear as uvas dentro dos tonéis, as palmas, a música, meus avôs sorrindo. Ultimamente a colheita vinha perdendo o matiz de antigamente. A industrialização na produção dos vinhos avançava dia a dia, descolorindo os tons do passado. A máquina substituía o homem. Alguns poucos, como meu avô, ainda resistiam. Por quanto tempo? Depois que vovó morrera, ele andava estranho, mais tristonho. Parecia cansado. Ele mudara muito no período que fiquei em Florença, para estudar hotelaria. Foram três anos afastada, que não mudaram muita coisa. No fim das contas, tanto estudo que não frutificara em nada até agora. Acabara voltando para a agrovila de meu avô, gerenciando a vinícola - se é que seguir as ordens de alguém significava gerenciar. Nenhuma de minhas idéias era aceita por ele. Tentara incrementar o negócio sugerindo que se fizesse uma pousada junto à vinícola, mas não fora feliz com meu ouvinte. Fazer o que? Estava cumprindo a promessa que fizera a minha avó, antes dela falecer, que cuidaria dele e lutaria ao seu lado para manter as suas amadas videiras e a produção de seu delicioso vinho artesanal. Isto sem falar da produção de azeite de oliva, que era mais uma atividade vinculada à vinícola.
Perdida nestes pensamentos, não prestei atenção quando um carro esporte, preto, conversível passou por mim. Só o percebi, quando ele parou e começou a dar ré. Nunca fui de reparar em automóveis, mas aquele chamava a atenção. Devia ser bem caro. Resolvi parar a minha caminhada e esperar que o motorista pedisse a sua informação. Devia ser algum turista perdido. Isto era muito comum naquela região. Daí pensar em como seria rentável uma pequena pousada por ali.
Quando o carro chegou mais perto, pude ver melhor o rosto do seu ocupante. Era um belo exemplar masculino. Tinha cabelos castanhos claros, mas com aparência jovem – no máximo 35 anos -, lindos olhos azuis, como pude verificar quando ele tirou os óculos de sol, uma boca bem desenhada, dentes perfeitos , com uma barba rente a um rosto másculo e bronzeado, que parecia ter saído das capas de uma Vogue de moda masculina. Cheguei a engolir em seco, quando ouvi a voz que vinha com todo aquele “layout”. Ela era muito sensual, principalmente perguntando:
- Bon giorno, signorina!
- Bom giorno.
- A senhorita fala inglês?
- Sim.
- Ah, que bom! Poderia informar-me se estou muito longe de Arezzo? – seus olhos brilhavam e o sorriso era estonteante. Será que ele era modelo de alguma agencia a passeio ou procurando pelas locações onde o esperavam para fotografar?
- Não, senhor. Basta seguir por esta estrada mais 10 quilômetros. Vai encontrar uma placa indicando uma estrada à esquerda, que dará em Arezzo em mais sete quilômetros. Não é difícil.
- A senhorita mora por aqui? – senti o seu olhar penetrando no meu, o que me fez estremecer e dar sinal de alerta. Era um total estranho e eu estava numa estrada deserta sem ninguém que pudesse me socorrer. Claro que este era um medo absurdo, pois ele não tinha cara de quem fosse estuprador ou bandido. De qualquer forma, tinha de manter distancia. Ele era perigosamente charmoso. Certamente um playboy.
- Pode seguir as minhas indicações que o senhor chegará onde quer. Tenha um bom dia. Adeus! – dizendo isto, segui em passos rápidos pela estrada afora, deixando-o com cara de bobo diante de meu adeus repentino, cortando completamente nosso curto relacionamento.
Logo, ouvi o seu carro em baixa aceleração a seguir-me, ficando lado a lado na estrada, a fitar-me com olhar divertido, achando graça do modo como eu o evitava.
- Não precisa ter medo de mim, signorina. Prometo que não lhe farei mal. Estava apenas tentando contatar com alguém da região. Não conheço nada por aqui e achei que seria bom ter quem me orientasse.
- Tenho certeza de que encontrará bons guias turísticos em Arezzo.
- Tenho certeza que nenhum será tão agradável de olhar como a signorina.
Não consegui responder ao galanteio, tão nervosa fiquei.
- Posso lhe oferecer uma carona?
- Não, obrigada
- Mora aqui por perto?
Como eu não o olhasse mais e seguisse com meus passos rápidos e firmes, como se estivesse surda e cega, ele falou uma última vez:
- Bem, já que é assim... Bon giorno e arrivederce!
Acelerou a marcha e saiu em alta velocidade pela estrada, levantando um pouco de poeira que veio direto em meu rosto. “Mal educado! Ainda sai me jogando pó. Idiota!”
Continuei meu exercício matinal, ainda tentando imaginar quem seria aquela figura. O que estaria fazendo por ali. Turismo? Pelo jeito era americano. Eles achavam que eram os donos do mundo. Convencido. E assim, durante os últimos trinta minutos de caminhada não consegui parar de pensar um instante sequer naquele forasteiro.
“Melhor tomar um banho e começar meu trabalho”. Já podia ver a pouca distancia a nossa casa. Ela ficava no alto de uma colina, com suas paredes de pedra, estilo rústico, com dois andares, uma construção simples e típica da região. Entre os muros baixos de pedra, tinha sido construída uma piscina nos anos 70, que era muito agradável de ficar nos dias quentes. A vista do segundo piso era entorpecedora. Podia-se ver a propriedade em quase toda a sua extensão, bem como o prédio da vinícola a mais ou menos 500 metros dali. Com boa vontade, na linha do horizonte podiam-se visualizar alguns dos prédios e torres de Arezzo. “Será que ele já tinha conseguido achar um guia? Ou um hotel para ficar?”
- Bom dia, Giulia! – gritou a auxiliar doméstica de meu avô há 20 anos, enquanto estendia algumas roupas no varal da propriedade.
- Bom dia, Agostina – respondi, com um aceno de mão, já em direção a porta da entrada. Subi correndo as escadas para o meu quarto. Vovô já devia estar na vinícola. Costumava acordar antes de o dia amanhecer e tomar o seu “café” junto às pipas de madeira abarrotadas de vinho em maturação. Agostina já deixava pão fresco esperando sobre a sua mesa, para que ele pudesse comê-lo junto com a sua taça de chianti matinal. Segundo ele, este era o segredo da longevidade. Depois da morte da vovó, ele nunca mais fizera este comentário, mas continuava a manter o seu ritual.
Após o banho, vesti uma roupa mais leve - calça de linho cru e uma camiseta de manga curta, cor cereja, com decote em V - pois o calor já começava a surgir junto com os últimos dias da primavera. Desci para tomar o meu café, com tudo que tinha direito: pão, queijo, salame, manteiga e um delicioso café expresso. Tudo feito pelas mãos mágicas de Agostina. Não existia um desjejum melhor. Claro que, depois de tudo isto, não podia pensar em almoço, caso contrário acabaria como as “mamas” da terrinha... Uma legítima matrona. Esperava que tivesse herdado os genes da família de meu pai, que tinham a constituição mais elegante. Provavelmente, porque descendiam de franceses. As francesas sempre tiveram a sorte de serem mais esbeltas que as italianas. Agostina, por exemplo, era uma típica italiana. Apesar de tudo, era muito ágil e nunca parecia estar cansada. Passava o dia trabalhando e cantando.
Terminei de ler as últimas notícias no jornal local e encerrei minha refeição principal do dia. Depois de uma visita rápida ao banheiro para escovar os dentes e retocar o batom, parti em direção a vinícola, encontrar com meu chefe.

- Bom dia, Don Pippo! – saudei-o, para logo estalar um beijo na sua testa careca. Olhou-me com seus olhinhos verdes arguidores e respondeu:
- Continua fazendo o “Cooper”? Isto não deve fazer bem para a saúde. Ao invés de vir aqui beber um bom vinho ainda em jejum, não. Vai se cansar por estas estradas cheias de ladeiras.
Ele devia ser a última pessoa na face da terra que ainda lembrava-se do nome do homem que ficara famoso por promover exercícios aeróbicos, como forma de melhorar o sistema cardiovascular, há “séculos” atrás. Tive que rir daquele comentário, o que não o deixou muito satisfeito.
- Vovô, deixa de ser antiquado. O vinho pode fazer bem para a saúde, mas os exercícios são reconhecidamente muito benéficos ao nosso corpo. Nos mantém em forma, física e mentalmente. Mas não vamos recomeçar esta discussão de novo, certo? Alguma novidade?
- Está bem, bambina. Nada de novo. Teremos alguns visitantes na cantina da vinícola, para degustações.
- Ah, isso é bom. Movimentar um pouco este lugar sempre é bom.
- Você tem se sentido muito só desde que veio para cá, não é, Giulia? Talvez você devesse ter continuado em Florença, conseguido um bom emprego e levar uma vida junto às pessoas da sua idade. Sei que teve boas ofertas e recusou para vir se enfiar nesta vila com um velho ranzinza como eu.
- Não fale uma bobagem destas, Don Pippo. Eu adoro tudo isto aqui e “isto” inclui o velho ranzinza – falei, dando-lhe um abraço e um beijo estalado na bochecha vermelha.
- Você é um amor, minha querida. Mas é jovem e precisa conviver com outros jovens. Não quero que fique solteirona por minha causa. Mais um birrento aqui vai ser demais de aguentar.
- Não se preocupe. Se eu começar a ficar birrenta, vou embora e o deixo em paz. Combinado?
- Gigi, Gigi... – repetia o meu apelido de criança, quando viviam correndo atrás de mim pelas videiras, onde costumava perder-me, inebriada pelo cheiro das uvas, na época da colheita, fascinada pelas cores das folhas, em tons de vermelho, amarelo e alaranjado, e o espectro que era lançado no solo e no ar quando o sol as refletia.
- Bem, vamos ao trabalho, Don Pippo. Vou para o escritório verificar os extratos bancários e colocar em dia a burocracia. Depois vou dar uma olhada em como anda o trabalho do pessoal. Lancei um beijo no ar em sua direção e saí rumo aos meus afazeres.
Na verdade, passei o resto da manhã tentando arranjar uma desculpa para ir a Arezzo. Ainda não conseguira tirar o rosto daquele homem da cabeça. Por mais que eu tentasse esquecer, o seu sorriso voltava a rondar minha memória. Finalmente consegui inventar um pretexto para ir ao banco, conversar com o nosso gerente, sobre nossos investimentos.
Logo no início da tarde, coloquei um vestido de algodão, com estampa floral, em tons de amarelo, branco e vermelho, com um belo decote, que valorizava meu busto. Fiz uma maquiagem leve e prendi os cabelos para trás. Gostei do resultado ao olhar a imagem refletida no espelho. Peguei as chaves do carro e saí lépida e sorridente rumo a Arezzo. Será que eu o veria de novo?
No caminho, enquanto tentava imaginar qual o assunto que teria a comentar com o nosso gerente de contas, observei um carro vindo na direção contrária. Qual não foi minha surpresa ao verificar que era o mesmo carro esportivo que havia visto pela manhã, só que com a cobertura fechada. E... Sim! Ele estava ao volante! Ai, meu Deus! Que azar! Será que ele já estava indo embora? Não é possível que já tenha conhecido a cidade e já esteja indo para outras paragens! O infeliz passou tão rápido, que nem me viu... Fazer o que? Agora que estou aqui, o negócio é ir em frente, entrar no banco alegremente, conversar com Antonio, o gerente, e voltar para a vinícola.
E assim foi. Quando saí do banco, trinta minutos depois, – não conseguia acreditar que tinha ficado este tempo todo aguentando as cantadas e as piadas do Antonio – o tempo estava “carregado”. Nuvens escuras adornavam os céus e alguns relâmpagos já podiam ser vistos clareando os céus por trás das torres de Arezzo. Já no início da estrada, a chuva começou a cair forte. Cerca de cinco quilômetros depois, o carro começou a engasgar, dar solavancos, até parar completamente. “Não acredito! É muito azar! Não devia ter saído de casa hoje.” Resolvi verificar o que tinha acontecido. Já devia ter trocado aquele automóvel logo que voltara de Florença. Ele já tinha dado problemas antes, mas tinha saído a pouco tempo de uma revisão completa. Não entendia o que poderia estar havendo. Resolvi enfrentar a chuva intensa e sair para verificar o motor. Não que entendesse muito de mecânica, mas quem sabe não encontrava algum cabo solto ou sabe-se lá o que?
Em poucos segundos, estava encharcada, vestido colado ao corpo, o cabelo totalmente desgrenhado, em frente ao motor, sem encontrar nada que me levasse a melhorar aquela situação. Foi quando ouvi uma buzina bem atrás de mim. Quase me enfiei por debaixo do carro, quando vi quem estava disposto a ajudar-me. Ele. Logo ele. Agora que estava parecendo um pinto molhado, completamente horrível, ele reaparecia. A onda de azar parecia um tsunami. Não parava de crescer.
- Ora, ora... Quem está aqui - lá vinha ele com o seu sorriso, agora mais sarcástico do que nunca, tirando proveito da situação para ficar gozando do meu drama – Está precisando de ajuda?
- Não, obrigada. Não precisa se preocupar, pois já pedi ajuda pelo celular. Devem estar a caminho – menti descaradamente.
- O que aconteceu? O motor pifou? Não é a gasolina que acabou?
Como eu não tinha pensado naquilo antes? Fazia algum tempo que não enchia o tanque. Também não costumava sair muito de carro, mas era uma possibilidade. Será? Ai, que vergonha se for isto. Não, mas não vou dar esta chance a ele.
- Não, não é a gasolina. Já verifiquei.
- Tem certeza? Deixe-me olhar – e foi saindo do seu carro, enfrentando a torrente, que parecia ficar cada vez maior, para ficar parado ao meu lado olhando as engrenagens da minha “carroça”.
- Não! Não, por favor. Não acredita em mim?
- Está bem. Mas não pode ficar aqui, sozinha, com esta chuva toda. Venha! Eu lhe dou carona e depois o socorro lhe avisa para onde levaram o carro.
- Não se preocupe. Eles já devem estar chegando.
- Olha, quem sabe se a gente entra dentro do meu carro para conversarmos, caso contrário vamos nos afogar aqui nesta estrada debaixo desta tormenta toda.
Estávamos os dois ensopados.
- Está bem.
Logo após minha permissão, fui agarrada pelo braço e colocada dentro do Porsche preto.
- Porque não entramos no meu carro? – perguntei, preocupada em ficar em terreno inimigo.
- Porque o seu vai ser levado daqui, em pouco tempo, segundo você, e não quero tomar mais um banho de graça. Está explicado?
Achei que ele estava começando a ficar um pouco zangado. Seria por causa do estofamento de couro preto que acabara de ficar totalmente molhado ou seria porque eu não era a única “desabada” por ali? Cheguei a sentir uma peninha dele. Ao contrário de mim, ele continuava tão sedutor quanto antes, com aquela camisa colada ao tórax, realçando os braços fortes e o abdômen sarado. O rosto adornado por partículas de água estava particularmente sexy. E a boca... Ai... A boca.
- Você está me ouvindo ou o barulho da chuva a deixou em transe?
- D-desculpe. O que você falou?
- Enquanto esperamos, podíamos ao menos nos apresentar. O meu nome é Alex Sheridan. E o seu? Se é que está disposta a se apresentar agora?
- Giulia... Giulia Malfati.
- Muito prazer, Giulia. Quem sabe você liga de novo para o socorro e avisa que não estará aqui quando chegarem?
- Acho que não é necessário. È melhor eu voltar para lá – falei apontando para a minha Fiorino velha – e esperar o reboque.
- Então, ao menos ligue para saber quanto tempo ainda vão demorar.
Diante da insistência dele, resolvi abrir a bolsa e procurar o celular, pensando numa maneira de sair daquele impasse. O maremoto de azar continuava. Não conseguia achar o celular. Eu esquecera o celular em casa. E agora??? O que eu diria a ele?
Ele notou o meu desespero e perguntou:
- Será que você não o deixou dentro do carro? Olhe, use o meu aparelho. Sabe o número do socorro? – falou já me alcançando o seu celular.
Aí não aguentei mais o emaranhado de mentiras que eu estava criando e me enrolando cada vez mais, e obriguei-me a contar a verdade.
- Sr. Sheridan. Por favor. Na verdade, eu não trouxe meu celular.
- Mas você disse que havia ligado para o auto-socorro – de repente ele parou de falar e me olhou de uma maneira zombeteira – Então você mentiu para mim? Por quê?
Eu não sabia onde me meter, tal a saia justa que acabara de vestir. Devo ter ficado corada com todas as cores das videiras no verão, de uma só vez.
- Não sei. Desculpe-me. Olhe, o senhor pode seguir o seu caminho, que dou um jeito. Vou esperar passar a chuva e vou a pé para casa. Não fica longe daqui – e pensei nos 15 quilômetros que teria de percorrer de salto alto e quase desanimei.
- Giulia, primeiro pare de me chamar de senhor e, em segundo lugar, deixe de ser infantil e me deixe levá-la até sua casa. A não ser que não queira que eu saiba onde mora. Eu também preciso me secar. Também podemos ir até o meu hotel e você liga de lá para o seu marido ou namorado pegá-la. É outra opção.
- Não! De jeito nenhum – pense Giulia, pense rápido. O que eu poderia fazer agora. Teria de ceder e deixá-lo me levar até a vinícola – Está bem. A vinícola onde trabalho fica a 15 quilômetros daqui. Eu mostro o caminho. A propósito, não tenho nem marido nem namorado - Porque eu tinha dito aquilo?? Idiota! Pelo menos eu manteria um pouco de respeito com esta mentira. Percebi que os olhos dele estavam focados em outro local que não o meu rosto. Era sobre meu decote, que estava mais generoso. Parece que o aguaceiro havia encolhido o vestido e as curvas de meus seios, molhados de chuva, estavam mais salientes.
- Bom saber. Então tenho uma chance com a signorina?
- Chance? Que chance? Senti um calor subindo pelo meu corpo e localizando-se na face.
Ele apenas sorriu. Um sorriso que me pareceu diabólico. Deu a partida no carro e saímos pela estrada.
- Por acaso você trabalha na Agricola Giusti?
- Como você sabe?
- Eu estava voltando de lá agora.
Meu queixo quase caiu, pensando que, se tivesse ficado por lá, o veria de qualquer maneira, evitando toda esta situação ridícula.
- Sério?
- Sim. Então você trabalha para o Don Pippo Giusti.
- Ele mesmo.
- Não deve ser fácil. Ele é um “cabeça dura”, não?
Não gostei do modo como ele falou de meu avô, apesar de não estar falando nenhuma inverdade.
- Não. É uma pessoa muito dócil e bom patrão – disse, “dourando” um pouco meu comentário – E você? Está aqui a passeio?
- Sim e não.
- Como assim?
- Na verdade estou conhecendo a região por força de meu trabalho. Sou funcionário de uma multinacional do vinho e estou visitando os pequenos proprietários das vinícolas da região para fazer uma proposta para aumentar a produção e...
- Multinacional? Americana? Porque vocês insistem em industrializar tudo que existe. Saiba que um vinho de qualidade tem de ser feito da maneira tradicional, por pessoas, não por máquinas.
Ele estava surpreso com a minha reação
- Será que eu posso terminar de falar?
- Acho melhor encerrarmos esta conversa. Tenho certeza que Don Pippo já lhe disse que não concorda com sua proposta – eu estava indignada com o caráter de sua visita.
- Pois vou lhe dizer que ele concordou em pensar – dizendo isto, dissipou a expressão pasmada para voltar ao sorriso de antes.
- Está rindo de que agora? – eu continuava indignada.
- Estou pensando que você fica ainda mais bonita quando está zangada.
- Você deve se achar o máximo, andando por aí neste carrão, viajando provavelmente com tudo pago pela sua multinacional, comprando pobres vinicultores ignorantes, no seu conceito, achando que as italianas vão desmaiar aos seus pés só porque é americano.
- Não, eu não penso assim. Se você ao menos deixasse eu falar, seria mais fácil de me entender.
Olhei para ele e comecei a achar que estava pegando muito pesado. Seu rosto estava sério, agora, e olhava diretamente para a estrada. Resolvi não falar mais nada e permaneci muda até a hora em que ele atravessou os portões da propriedade de meu avô.
- Por favor, pode me deixar em frente aquela casa?
Ele não respondeu. Simplesmente foi na direção indicada por mim e estacionou. Esperou que eu abrisse a porta, descesse e dissesse:
- Obrigada. Sinto se o que falei não o agradou, mas é o que penso.
- Talvez pudéssemos conversar melhor sobre tudo isto, em outra hora, outro local?
- C-como assim? – porque ele insistia em falar tão docemente, me olhando com aquele jeito de cachorro molhado e escorraçado?
- Que tal jantarmos juntos, amanhã? Eu a pego aqui, amanhã, às 19 horas.
Enquanto eu ainda estava chocada com o convite, pensando numa maneira de explicar que não poderia e inventar um motivo para tal, vi-o fechando a porta do automóvel e dizer:
- Cuide-se! Até amanhã, às 19 horas. Arrivederce! – e saiu calmamente pelo mesmo caminho que viera, deixando-me boquiaberta com o que acabara de acontecer. Que cara mais convencido. Ele nem me deu chance de responder se aceitava ou não... Eu estava pasma.
- Bambina!! Venha já para dentro de casa. Vai pegar uma pneumonia se continuar nesta chuva. – gritou Agostina, aflita com o meu estado.
Logo, ela estava ao meu lado com um enorme guarda sol fazendo-me entrar no interior da casa.
- Vai já tomar um banho quente. O que aconteceu com o seu carro?
Aí me lembrei da Fiorino, que havia deixado abandonada no acostamento, há 15 quilômetros dali.
- Agostina, por favor. Peça para o Genaro ir até a estrada para Arezzo e rebocar a minha camioneta. Acho que fiquei sem gasolina no caminho.
Genaro era o nosso faz tudo por ali. Trabalhava com meu avô há alguns anos.
- Ah, por isso aquele moço lhe deu carona?
- É... Por isso.
- Pode deixar que eu providencie tudo. Agora suba logo, antes que tenha de ficar de cama.
Resolvi encher minha banheira de água quente e relaxar um pouco num banho de espuma. Assim que o banho estava pronto, tirei minhas roupas e mergulhei naquela nuvem perfumada. “Ahhh, que delícia”, pensei. Logo a seguir, meus pensamentos saíram da banheira para perderem-se naquele longo caminho entre Arezzo e a vinícola, a bordo do Porsche preto. Fechei os olhos e comecei a lembrar de cada contorno do seu rosto. Às vezes tentava relutar contra aquele devaneio, pensando que ele não devia prestar, que era mais um americano metido à besta, que vinha para descaracterizar o trabalho de centenas de pessoas. Ao mesmo tempo, pensava que ele estava apenas cumprindo ordens. Talvez ele pensasse diferente de seus patrões. Ele devia precisar do emprego. Coitado, nem tinha dado chance para ele se explicar. Ele devia me achar uma italiana muito maluca e escandalosa, como aquelas que eles costumavam retratar no cinema.
A espuma já estava praticamente ausente, quando me dei conta que estava quase na hora do jantar. Minhas mãos estavam completamente murchas e água já começara a esfriar.
Mas a lembrança de Alex continuava fervilhando em minha cabeça.
Preparei-me para descer e encontrar vovô na sala de jantar.
- Olá, Don Pippo! – saudei-o alegremente.
- Olá, Gigi! Você desapareceu durante a tarde. O que aconteceu? O Genaro disse que teve de buscar a Fiorino na estrada. Esqueceu de colocar gasolina de novo?
- È, parece que sim.
- A Agostina me contou que um homem veio trazê-la até em casa. Alguém conhecido?
- Mais ou menos.
- Como assim?
- Ele havia falado comigo pela manhã pedindo informações, enquanto eu estava fazendo a minha caminhada.
- Ah, sim. Isto o torna um velho conhecido?
- Não exatamente, mas... Vovô, você conversou com ele esta tarde. Ele me disse que esteve aqui, logo depois que eu saí. Ele trabalha para uma multinacional de vinhos.
- Várias pessoas estiveram aqui esta tarde, enquanto você se perdia pela estrada. Mas, acho que sei de quem está falando. Cuidado com este homem. Não me parece uma pessoa confiável. Só faltei enxotá-lo daqui. Veio com uma proposta de compra da minha propriedade. Eles pretendem industrializar toda a produção. Já imaginou isto? Acho que ele vai voltar. Tenho de falar com nossos vizinhos para que não baixem a guarda para esta multinacional. O que vai ser do nosso chianti e da produção de azeite de oliva?
- Eu sabia... Isto mesmo, Don Pippo, vamos resistir. Eles não podem ter tudo que querem. Tem coisas que eles não podem comprar.
E pensar que eu aceitara sair para jantar com ele. Mas eu deixaria bem clara a minha posição. Provavelmente o convite foi interesseiro. Soube que eu era gerente da vinícola e resolveu me convidar para um jantar para me convencer a vencer a resistência de meu patrão. No fundo, eu estava chateada, muito chateada, por pensar que aquele jantar havia sido friamente calculado. Era uma pena, realmente uma pena. Ele era tão charmoso, elegante e tinha aquele olhar... Pare de pensar nele, Giulia. Amanhã vamos esclarecer bem as coisas. Ele não perde por esperar. Não sabe com quem está se metendo.

Tive uma noite um pouco agitada. O sono não queria me fazer companhia. Depois de muitas horas rolando de um lado para o outro na cama, o cansaço foi vitorioso.
Acordei com dificuldade. Não tive nem coragem de ir fazer o meu “Cooper”, como dizia vovô. Além do mais, o tempo continuava feioso. A chuva amainara um pouco, mas ainda era presente.
Pela manhã, fui verificar como ia o andamento do engarrafamento do azeite e o do vinho da safra de dois anos atrás. Sempre havia movimento por lá. Raramente ficava-se sem atividade alguma. Isto foi muito bom naquele dia, em que a cada hora passada minha ansiedade aumentava, pois se aproximava a hora de encontrar-me com Alex Sheridan. Ficara preocupada, novamente, com o excesso de rótulos que continuava a ser extraviado. Já falara com a gráfica responsável - a segunda em um ano - mas ninguém conseguia explicar aquele problema.
No meio da tarde, o tempo esfriou um pouco e as nuvens começaram a bater em retirada, deixando que o sol voltasse com força e brilho. Às cinco da tarde encerrei meu expediente e fui para casa começar minha arrumação. Decidi que ia vestir-me como uma administradora. Afinal seria uma reunião de negócios, não? Coloquei um tailleur marinho, de corte acinturado, muito elegante. Prendi os cabelos num coque na nuca. Só faltava um par de óculos para dar o ar formal que necessitava para o encontro. Certamente ele ficaria surpreso. Com isto, pretendia mantê-lo a distancia. Ele não conseguiria me seduzir com aquela fala mansa e aqueles olhos azuis... Não! Com certeza que não!
Enquanto dava os últimos retoques na minha maquiagem, ouvi Agostina bater a minha porta, me chamando:
- Tem um moço aí perguntando por você! Diz que se chama Alex!
- Obrigada, Agostina! Diga que já estou descendo!
Olhei no espelho pela última vez para ver o resultado final do meu disfarce de executiva. Parecia agradável, mas pouco sexy. Esperava que ele pensasse assim também.
Desci as escadas e logo pude vê-lo, de pé no hall de entrada, esperando por mim. Virou-se, assim que ouviu o barulho de meus passos. Parecia surpreso com meu visual. Não tinha certeza se a surpresa tinha sido ruim ou boa. O certo é que se abriu num sorriso intrigado e disse:
- Boa noite! – e seguiu-me sem desgrudar os olhos de mim, até que eu chegasse a sua altura. Não fez nenhum comentário sobre minha aparência – Vamos?
- Boa noite. Podemos ir. Boa noite, Agostina – falei, torcendo que ela não falasse a palavra avô. Graças aos céus, ela contentou-se em dizer apenas boa noite, sem esconder o queixo caído. Ainda bem que vovô tinha saído para dar uma volta antes do jantar. Certamente para escolher um bom vinho e não para exercitar-se, obviamente. Resolvi contar-lhe sobre este encontro só depois, para não deixá-lo preocupado.
Ele abriu a porta do carro, educadamente, sem dizer palavra alguma.
- Obrigada – agradeci, secamente.
Entrou e deu a partida. Só então pude ouvir aquela voz meio rouca e musical.
- Não tinha uma roupa, digamos, mais conveniente para um jantar à noite? Parece que vai participar de uma negociação entre empresários. Não que não esteja muito atraente com este visual, mas eu imaginava outra coisa.
- Mas não é este o intuito deste jantar? Um esclarecimento de suas intenções para com a vinícola de Don Pippo e uma negociação?
- Não são bem estes os assuntos que pretendia conversar durante o jantar, mas se você acha este assunto agradável e estimulante, não vou querer desapontá-la.
O carro iniciou seu percurso.
- Mas este não é o caminho para Arezzo. Onde você está me levando?
- Surpresa.
- Eu não gosto de surpresas. Para onde estamos indo?
- Logo verá.
Em seguida pegou um desvio que levava para um campo de pouso próximo. No horizonte, onde os últimos raios de sol inundavam de vermelho as poucas nuvens remanescentes, pude ver a silhueta de um helicóptero.
- O que significa isto?
- Isto significa que vamos jantar em Florença. Prefiro os restaurantes de lá. De carro perderíamos um hora para ir e outra para voltar. Além do mais, não gosto de dirigir à noite, principalmente depois de beber um bom vinho.
- Mas, mas...
- Não se preocupe. Vou deixá-la sã e salva em casa, no final da noite.
Ajudou-me a descer do carro. Eu estava começando a entrar em pânico. Além do nervosismo natural por estar ali ao lado dele, sendo levada para outra cidade para um jantar, eu morria de medo de voar em qualquer coisa que fosse. Imagine num helicóptero!
Quando chegamos próximos a porta, quase paralisei. Mas eu não podia deixar que ele percebesse este meu medo.
- Você está com medo? – Ele lia pensamentos também.
- Imagine. De maneira alguma.
Colocando um pé depois do outro, com a ajuda das mãos de Alex, consegui entrar e sentar-me. Meu corpo parecia que ia começar a petrificar. Colocamos os cintos de segurança.
- Giulia, por acaso você tem medo de voar?
- Não, por quê? – menti.
- Porque você está pálida como um papel e dura como uma pedra. Se quiser segurar minha mão, esteja à vontade. O vôo de helicóptero é muito seguro. Já viajei diversas vezes assim, sem problema algum.
Neste momento, os motores começaram a entrar em funcionamento. O barulho tornou-se ensurdecedor. À medida que o aparelho elevava-se no ar, o meu pavor foi tornando-se mais aparente. Quando chegou à altura desejada e começou a deslocar-se em frente, rumo a Florença, senti a sua mão forte segurando a minha e o seu braço em torno de meus ombros.
- Relaxe, Giulia. Perdoe-me. Se soubesse que você tinha este medo, não teria escolhido este meio de transporte – falava com real sentimento de culpa na voz. Aquele pedido de desculpa teve um efeito calmante sobre mim. Consegui virar a cabeça e dar de encontro com aqueles olhos claros cheios de preocupação.
- Já está passando. Não se preocupe – e por incrível que pareça, era verdade. Sentia-me segura por aquela mão e aquele abraço confortável.
- Já, já chegaremos. O vôo não demora mais do que 15 minutos. Tudo bem?
- Tudo bem – respondi, tentando esboçar um sorriso.
Durante o resto do percurso não trocamos mais nenhuma palavra.
Aterrissamos no Aeroporto Vespucci, onde nos aguardava uma linda Ferrari vermelha.
Já recuperada de minha crise de pânico, desvencilhei-me do seu abraço e soltei sua mão.
Lembrei da minha intenção de ser o mais formal possível. Não podia dar liberdades para ele. Aquele incidente no helicóptero não estava previsto, mas já passara. Tinha de manter meu intuito original. Agora o meu medo era de não conseguir resistir aos encantos dele. Tinha sido tão delicado e protetor comigo naquele momento de crise. Fez-me sentir tão bem...
- Pelo jeito já está sentindo-se melhor – falou ao notar a minha rejeição ao seu cuidado.
- Já. Já estou bem, obrigada.
Acomodei-me no automóvel, ao seu lado e seguimos para o nosso jantar.
- Guilia, porque você não relaxa um pouco. Não precisa ficar tão na defensiva comigo. Quero apenas conversar e conhecê-la melhor. Tem algum mal nisso? - sentia sinceridade na sua voz. Talvez se eu baixasse um pouquinho a guarda.
- Está bem, Alex. Desculpe. É que não consigo aceitar os motivos da sua visita à nossa terra. A história de industrializar as vinícolas. Não é justo.
- Mas eu já disse que não quero industrializar nada. Falei que queria orientar no aumento de produção. A minha empresa produz vinhos artesanais na Califórnia e na França. Mas também trabalhamos com importação, principalmente aqui da Itália. Uma das vinícolas que trabalha conosco é a de Don Pippo. Você sendo a gerente deve saber disso. Trabalho com a empresa Calvine. Queremos incrementar a produção e com isso importar um volume maior. Não nego que também produzimos vinhos industrializados, mas ainda prefiro os métodos artesanais, que sem dúvida torna o vinho de qualidade superior.
Eu estava abismada com tudo que ele estava falando e comecei a ficar envergonhada por meu comportamento até ali. E ele notou isto.
- Espero que, agora que você ouviu sobre minhas intenções, possa relaxar um pouco e manter uma conversação mais informal.
- Alex, se tudo que você está dizendo é verdade, gostaria que me desculpasse, pois acho que houve um grande mal entendido por aqui.
- Como assim?
- Quando falei com Don Pippo sobre você ontem à noite, ele me preveniu contra você. Ou pelo menos pensei que era você. Ele me disse que havia estado por lá, à tarde, um funcionário de multinacional com intenções de comprar a vinícola e instalar uma indústria. Inclusive, pediu-me para ter cuidado com esta pessoa, que ele achava não ser muito confiável.
- Deve ter sido outra pessoa. Quando saí de lá estava chegando outro automóvel. Ele não disse o nome?
- Não, não disse. Estranho ele só ter citado este outro homem e não ter falado em você.
- Talvez porque eu tenha pedido sigilo.
- Por quê? – aquela história parecia estar mal contada. Eu não conseguia entender por que.
- Estamos chegando. Vamos continuar esta conversa durante o jantar. Não quero que você fique pensando mal de mim.
- Está bem.
Por mais que eu tivesse dúvidas ainda, não conseguia imaginá-lo fazendo qualquer tipo de maldade ou de engodo. Alex parou o carro diante da Enoteca Pinchiorri, um dos restaurantes mais famosos da Itália. Só aceitavam reservas com muita antecedência. Como ele havia conseguido tão facilmente? Sempre tivera curiosidade de conhecer aquele lugar e agora, conheceria acompanhada por ele. Comecei a maldizer-me por estar tão mal vestida para aquela ocasião. Se tivesse o deixado falar no dia anterior sobre o propósito de sua visita, nada disso teria acontecido.
Alex entregou a Ferrari para o recepcionista e deu-me o braço para entrarmos. Lá dentro fomos recepcionados pelo próprio dono, o senhor Giorgio Pinchorri, que parecia conhecer Alex há muito tempo.
O lugar era lindíssimo. Fiquei boquiaberta com a decoração, de extremo bom gosto e requinte, onde prevalecia o rosa antigo, nas cadeiras e nas toalhas das mesas. Quadros de pintores renascentistas emolduravam as paredes, sem falar nas pratarias, talheres, candelabros sobre as mesas e grandes vasos repletos de rosas do mesmo tom do ambiente. Muito romântico, também... Fomos levados para uma mesa colocada discretamente em uma das salas – eles tinham pelo menos tres ambientes diferentes – num canto, sob um lindo quadro que retratava uma paisagem da Toscana. As velas, no candelabro de prata, já estavam acesas.
- Você parece ser um funcionário muito bem quisto dentro da sua empresa, para ter todas estas facilidades e luxos.
- É, não posso me queixar – falou com um meio sorriso.
Enquanto o maitre nos atendia e escolhíamos algumas das iguarias e vinho do menu, sentia o seu olhar a analisar-me, de vez em quando. A cada vez, sentia meus joelhos enfraquecerem e o rubor indo e vindo. Assim que terminamos de escolher, novamente a sós, tentei voltar ao assunto da vinícola.
-Alex, tudo que você falou antes é verdade, não é?
- Você ainda duvida. Podemos falar com Don Pippo quando voltarmos. Ele vai confirmar o que digo.
- Mas, então quem será este outro homem. Agora fiquei preocupada.
- Não se preocupe. Como falei, o seu patrão não tem intenção nenhuma em vender a vinícola, pelo que eu senti na sua conversa de ontem. Mesmo que tivesse eu daria um jeito de dissuadi-lo, pois não tenho nenhum interesse em perder um dos meus principais fornecedores – falando isso, olhou-me docemente e disse: - Giulia, que tal esquecer este assunto e falarmos sobre você. Eu já contei um pouco de mim, mas não sei quase nada a seu respeito, a não ser que é gerente da Vinícola Giusti.
- O que você quer saber?
- Como foi parar lá?
Estava na dúvida se continuava a esconder o meu parentesco com o senhor Giusti, mas resolvi manter assim até conversar com vovô.
- Bem, na verdade, me formei em Hotelaria, aqui em Florença, na escola Aurélio Saffi. Morei aqui por três anos. Quando terminei, não consegui nenhuma boa proposta. Por isso segui para a zona das vinícolas, com meu currículo debaixo do braço. Don Pippo acabara de perder sua esposa e estava precisando de ajuda para gerenciar sua propriedade. Assim, consegui meu emprego. Satisfeito?
- Você tem certeza que não está me escondendo nada? - lá vinha ele com aquele sorrisinho irônico, me olhando daquele jeito intimidador.
- Porque eu estaria escondendo alguma coisa? – com essa devo ter ruborizado até a alma.
- Acho difícil não ter conseguido uma posição, aqui mesmo em Florença ou em outro centro turístico, com a quantidade de hotéis que existem na Itália. Porque se “esconder” no interior?
- Talvez o meu currículo não fosse bom o suficiente?
- Duvido. Você não leva jeito para ser uma má aluna.
Neste momento, o garçom chegou com o vinho. Para minha surpresa, não era um vinho italiano. Nem mesmo europeu. Era californiano.
- Vou lhe apresentar um de nossos produtos. Espero que goste. Não chega aos pés do chianti de Don Pippo, mas é um bom vinho. Depois de provar este podemos pedir outro melhor, a sua escolha.
Depois de ele provar de seu cálice e aprovar, o garçom serviu-nos. Então, ele propôs um brinde:
- À paz entre nós?
Ele era irresistível.
- À paz!
O vinho era muito bom. Parecia ser de um teor alcoólico maior que os nossos. Tinha que me cuidar, pois não costumava beber, apesar de conhecer e viver naquele meio.
A partir de nosso brinde, a conversa começou a fluir melhor, apesar de sempre ter a sensação de que nem tudo era dito. Parecia haver alguns segredos subliminares. Talvez eu estivesse me sentindo culpada por não ter contado que era neta de Don Pippo. Mas o que ele estaria me escondendo?
- Afinal, temos histórias parecidas. Acabamos nos formando e assumindo funções em áreas da vinicultura.
- Com a diferença que você teve bem mais sorte do que eu. O seu emprego deve ser muito interessante. Viagens pelo mundo, carros luxuosos e helicópteros à disposição.
- Vai achar que estou mentindo, mas às vezes isto cansa um pouco. È um trabalho que me mantém afastado de muitas coisas e de pessoas. Às vezes me sinto muito solitário por causa disso. É muito difícil, por exemplo, manter um relacionamento com estas viagens constantes. Senti seus olhos transpassarem-me. Tive vontade de dizer-lhe que eu também estava solitária e me jogar de cabeça naqueles lagos azulados que me olhavam intensamente.
- Mas, você não deve ter dificuldade em conseguir companhia. Você é agradável, charmoso, inteligente.
- De relacionamentos superficiais já cansei. Falo de uma coisa mais sólida, se é que você me entende – falou isso, pegando em minha mão que estava sobre a mesa e fazendo com que meu corpo todo estremecesse.
Onde ele estava querendo me levar com aquela conversa? O que queria que eu respondesse? O álcool começava a fazer o seu efeito. Já não sentia as pernas e estava começando a pensar em besteiras. Resolvi mudar de assunto.
- A comida daqui é maravilhosa, não? – falei, tirando a mão do seu alcance.
Ele sorriu, divertindo-se com a minha saída pela tangente.
- É. Que bom que você gostou da minha escolha.
- Nunca pensei em entrar aqui um dia. Sei que as reservas têm de ser feitas com muita antecedência. Como você conseguiu?
- O Giorgio é meu velho conhecido. Nós fazemos negócios para abastecer a sua enoteca há algum tempo. Falei que queria trazer uma amiga para conhecer e a reserva foi feita imediatamente.
- Giulia, você ainda está com medo de mim?
- Medo? Não... Por quê?
- Você continua tensa. Mudou de assunto agora, quando eu falei sobre relacionamentos. Você deve ter notado que estou atraído por você desde que nos conhecemos. Ou não?
Quase desmaiei com aquela afirmação tão direta. Não sabia o que fazer. Um homem como ele me falando uma coisa dessas parecia um sonho. Ainda tinha dúvidas quanto a ele. Não podia me deixar levar. Sentia-me andando em terreno desconhecido, com medo de perder-me e não saber voltar depois.
- Alex, acho muito cedo para falarmos sobre estas coisas. Nós mal nos conhecemos. Acho que ainda temos muito a conversar. Podemos ser amigos. Depois... Não sei. Além do mais, estou meio tonta com o excesso de vinho. Não estou acostumada a beber. Não quero fazer ou falar nenhuma bobagem. Está bem? – disse, oferecendo o meu melhor sorriso. Não queria ofendê-lo.
- Está bem. Eu entendo você. Talvez eu esteja sendo precipitado. Então... Amigos?
- Sim. Amigos – e ofereci minha mão novamente, que foi suavemente acariciada por ele.
Antes que me derretesse, falei:
- Vou ter de ir ao toalete. Podemos voltar para casa depois?
- Você não quer sair para dançar um pouco? – falou com olhar suplicante, que quase arrancou um sim da minha garganta.
- Não. Hoje não. Talvez outro dia. Tudo bem?
- Ok!
- Com licença, então.
Ao me levantar, desequilibrei um pouco, fazendo-o levantar-se rapidamente com o intuito de ajudar-me. Mas consegui readquirir o controle das pernas, agradecer a preocupação e sair respirando fundo, tentando não dar vexame no caminho.
Já no toalete, espirrei um pouco de água sobre o rosto para reanimar-me. Que vergonha. Quase bêbada. O que ele ia pensar? Fiz o que tinha de fazer, lavei minhas mãos, retoquei o batom e respirei fundo mais uma vez, antes de voltar para o salão.
Ele já me aguardava para sair. Segurou meu braço e seguimos juntos para a saída, onde o carro já nos aguardava.
- Nós vamos voltar de carro para casa?
- Sim, mas não neste. Vamos até o Aeroporto. Lá nos aguarda uma mini-van, com um motorista, que nos levará. A não ser que você prefira voltar de helicóptero.
- Não! Prefiro a estrada, por favor!
- Eu estava brincando.
Ajudou-me a entrar no carro e partimos pela noite, em direção ao Vespucci. A brisa da noite me fez bem. O torpor parecia diminuído. Trocamos umas poucas palavras bobas durante o trajeto. Lá chegando, fui apresentada a Pietro, nosso motorista. Acomodamos-nos no banco traseiro da van e fomos em direção à auto-estrada para Arezzo. Só o ronco suave do motor chegava até meus ouvidos. O tremor leve provocado pelo deslizamento dos pneus na rodovia começou a tornar-se hipnótico. Fechei os olhos e não pensei em mais nada. Não soube dizer quanto tempo fiquei adormecida. Só sei que fui acordada por aquela voz rouca e sexy, dizendo em meu ouvido:
- Giulia, acorde. Já chegamos.
Quando consegui abrir os olhos, notei que estava totalmente aconchegada nos braços dele, com os cabelos soltos e sem o casaco do tailleur. A blusa branca estava com os três primeiros botões abertos, deixando entrever meus seios.
- O que aconteceu? Porque estou sem meu casaco? – estava meio surpresa, meio dormindo.
- Não aconteceu nada. Você pediu para tirar o casaco, que a estava incomodando e abriu os botões porque estava sentindo-se sufocada. Juro que não fiz nada, se é o que está pensando – falou, com aquele sorriso divertido.
- Você me acha muito boba, não?
- De jeito nenhum. Eu a acho adorável com este jeito desconfiado de ser.
- Ah, Alex, me perdoe. Acho que bebi demais. Você não vai querer sair comigo nunca mais.
- Pois saiba que amanhã venho falar com Don Pippo, para esclarecermos aquela sua dúvida. Depois você já está convocada para irmos dançar.
- Como? – de novo ele me pegava de surpresa e me deixava sem ação.
- Não se preocupe. Será ali em Arezzo mesmo. Conheço um local muito bom.
Antes que eu pudesse dizer não, ajudou-me a sair da van e levou-me até a porta de casa.
- A princesa está em casa - dizendo isto, abaixou-se um pouco, aproximando seus lábios do meu rosto e depositou um beijo suave. Logo, foi desviando-se e outro beijo foi dado mais próximo a minha boca. Eu estava perdida no seu olhar, que continuava a fitar-me intensamente, quando senti seus lábios quentes e macios tocarem os meus, com uma pressão cada vez mais intensa. Quando dei por mim, estava com a boca entreaberta, solicitando urgente por seus lábios e sua língua, abraçando-o e puxando sua cabeça de encontro a mim. Ele respondeu imediatamente e seus braços envolveram-me, acariciando-me as costas e os cabelos. Tive a sensação de flutuar e imaginei – ou não? – ouvir sinos de uma igreja tocando ao longe.
- Giulia! - ouvi aquela voz distante, mas não era a mesma que me acordara a poucos instantes. Parecia que tudo rodava a minha volta.
- Vovô?
- Avô?! – exclamou Alex.
- O que está acontecendo aí? Giulia!
- Oh, meu Deus! - afastei-me do abraço de Alex, olhando-o assustada. Não sabia bem se pela presença súbita de Don Pippo ou por ter sido pega numa mentira.
- Você é neta de Don Pippo?
- Alex, é melhor você ir. Depois eu explico. Amanhã nos falamos, está bem? Eu não estou me sentindo muito bem.
- Apesar de tudo, eu estou me sentindo muito bem. Pode ter certeza que estarei aqui amanhã. E não esqueça o nosso compromisso para a noite.
Antes de deixar-me, ainda beijou-me mais uma vez. Menos veementemente, é claro.
- Boa noite, Don Pippo – saiu acenando para meu avô que estava parado na porta, com cara de irritado. Entrou na van, dono de um largo sorriso e partiu na companhia de Pietro.
- Dona Giulia! O que significa isto tudo?
- Ah, vovô. Significa que eu tive uma grande noite. Talvez uma das melhores da minha vida.
- Você está ligeiramente bêbada, não está? Reconheço este hálito de vinho californiano de longe. Ele por acaso tentou embebedá-la?
- Não. Bebi por livre e espontânea vontade. E foi ótimo! – eu me sentia andar flutuando e com uma vontade de rir. Ao olhar para o rosto brabo de meu avô, comecei a gargalhar. Realmente eu estava definitivamente leve e solta. Seria só o efeito do vinho? Não era só isso não. O gosto daqueles beijos ainda estava em minha boca e era de um sabor extraordinário.
- Melhor você tomar um banho e ir dormir. Sua sorte é que amanhã é sábado. Estará dispensada de trabalhar pela manhã. Vou deixar preparados uns analgésicos para tomar ao acordar. Vai precisar. O único vinho que não dá dor de cabeça na ressaca é o meu.
Novamente não consegui evitar o riso. Dava graças por não ter precisado ouvir um sermão maior.
Consegui chegar ao meu quarto agarrando-me no corrimão, sem parar de rir. Estava menos alcoolizada do que parecia. Estava embriagada de felicidade e o nome do vinho era Alex Sheridan. Mal consegui tirar a roupa e atirei-me sobre a cama.
Continua amanhã...