sábado, 18 de agosto de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XVII

by Kodama e Fantin


Kolchak não me procurara mais. O prazo terminaria em dois dias. Sentia-me de mãos atadas, aguardando o bote final. Apesar disso, sentia-me animado e capaz de reagir a qualquer ataque daqueles demônios. Meus sentimentos por Ariel eram a causa dessa mudança. Eu não podia mais negar, que após tantos anos de solidão e crença de que jamais amaria outra pessoa, aquele anjo  apossara-se do que restava de meu coração insensível e trouxera vida onde só havia cinzas. O mais estranho era eu não sentir aquilo como uma substituição. Minha impressão, por mais loucura que pudesse parecer,  era que Cath estava de volta. Seus gestos, suas expressões, seus carinhos eram por demais semelhantes. No início, sentia-me culpado por pensar numa estando com a outra, mas com o passar das noites, decidi imaginar que, talvez, após tanto tempo, Ele havia se compadecido de mim e enviado aquele anjo para amenizar meu sofrimento.  Um anjo muito especial... Por outro lado, o medo de que Kolchak e seu mestre viessem a desconfiar dessa relação aumentava a cada dia.  Esse pensamento me torturava cada vez que Ariel não estava sob minha vista. Já não sabia mais o que pensar. Não aguentaria perder o meu amor mais uma vez.
Já era início da noite quando terminei meu trabalho no escritório e pedi a Angus que me levasse para Malachy.  Notei que ele tomara um caminho diferente do habitual e que estávamos há duas quadras do novo edifício dos MacTrevor.  Inesperadamente, vi Leonora,  ladeada por dois rapazes de boa aparência, vestidos elegantemente.  Conversavam animadamente. Ela parecia encantada com a companhia deles.  Poderiam ser colegas de turma, mas algo chamou minha atenção. Seus olhos. Talvez eu estivesse um pouco neurastênico com a história de Kolchak, mas pude perceber uma dose de maldade em suas expressões. Nathanael a estava acompanhando e não estava com cara de melhores amigos.
- Angus! Pare aqui, por favor.
- Não posso estacionar aqui, senhor.
- Não me importa. Pare! Vou descer!
Quando o carro finalmente parou, em meio a buzinas e palavras de indignação dos outros motoristas, notei os olhares dos dois jovens fixos em mim. Não havia surpresa ou temor, apenas malícia, como se eles estivessem a minha espera. Todos meus sentidos ficaram alerta e corri na sua direção. Foi quando percebi a mão de um deles mover-se sob o casaco de lã e o brilho de uma adaga surgir. Ele queria demonstrar que era uma ameaça real.  Leonora foi puxada abruptamente para uma ruela escura pelo outro. De alguma maneira eles conseguiram afastar Nathanael e correr com ela jogada sobre os ombros de um deles. Os gritos de pavor da jovem MacTrevor ecoavam em meus ouvidos. Nathanael desapareceu de meu campo de visão. Ainda podia ouvir o choro no labirinto de ruas antigas a minha frente quando uma nuvem escura surgiu e Kolchak materializou-se.
- Onde vai com tanta pressa? Alguém pegou sua queridinha?
- Suas brincadeiras já estão me irritando, Kolchak.
- As brincadeiras já estão no fim, Kyle Sinclair. Depende de você que elas não se tornem fatais. Você é o único que pode parar com isso antes que algumas vidas importantes para você  sejam ceifadas. Venha comigo e assuma o seu lugar ao lado do nosso Mestre.
- Para onde você a levou?
- Ainda não chegou a hora, mas a manteremos...
Ele não chegou a terminar sua frase, pois um clarão muito forte tomou conta do quarteirão inteiro, como se uma caixa de força tivesse explodido, assustando-o.
Atrás dele, surgindo em meio à penumbra, em pleno ar, Nathanael segurava Leonora desmaiada em seus braços.
- Parece que seu teatrinho acabou. – disse ao babaca.
A expressão de contrariedade de Kolchak era evidente, mas logo mostrou o seu sorriso de escárnio mais uma vez. Devia ser difícil  para o demônio dar o braço a torcer.
- Este foi mais um aviso. Talvez o último.
Dito isso, desapareceu.
- Como ela está? – perguntei a Nathanael.
- Não está ferida. Desmaiou antes que eu os alcançasse.
- Você liquidou os dois?
- O que você acha?
- Uma grata surpresa. No meu tempo, os guardiões não tinham tanto poder.
- Ando treinando para mudar de nível. Do modo como o mundo terreno vai,  anjos guardiões estão sendo treinados para serem guerreiros.
- Essa é a causa das queixas da Ariel?
- Em parte, sim.
- Por que não disse a ela?
- Porque não devo satisfações dos meus atos a ninguém.
- De qualquer forma, obrigado.
- Apenas cumpri o meu dever.
Pela forma como ele carregava Leonora cuidadosamente junto ao corpo, eu diria que sua atitude era mais que um simples dever, mas calei-me, agradecido pela ajuda inestimável.
Uma buzina solitária chamou minha atenção. Era Angus que me aguardava junto à calçada, dentro do carro.
- Posso lhes dar uma carona? – perguntei.
- Sem dúvida. Não seria bom assustar Dominic materializando-me dentro do  apartamento com ela nos braços.

O telefone tocou.
- Alô? – atendeu Dominic. – Como? A essa hora?... Tudo bem... Não há problema. Já estou indo.
- O que houve? – perguntou Yesalel preocupada, pois não conseguira entender o que a voz do outro lado dizia.
- Era o Elliot, meu editor. Quer que eu o encontre lá no Tribune. Parece que surgiu um problema com um dos outros jornalistas e ele precisa que eu ajude a fechar a edição matutina.
- Muito estranho...
- O quê? O Elliot? Ele é meio estranho mesmo...
- Não quis dizer isso. Estranho eu não conseguir ouvir o que ele estava falando.
- Ainda bem. Já lhe disse que você se intromete demais nas minhas coisas?
- Seu bobo!
- Acalmem-se, crianças! – disse entediada. – Eu vou com você, Dom.
- Eu também vou. – disse Yesalel.
- Por favor, meninas. Não briguem por mim. – interferiu Dominic com cara de gostoso.
- Só porque tem duas guardiãs agora está se achando. – brinquei.
- É como eu digo... É chato ser gostoso.
- Aproveite enquanto pode. Não sei por quanto tempo mais eu poderei ficar aqui. Logo devo ser indicada para outro humano.
Na mesma hora a expressão de Dominic se nublou em tristeza, enquanto Yesalel fechava os olhos, arrependida de ter feito tal comentário.
- Estou preocupado com  a Nora. Já era tempo de ter voltado de seu curso. – falou enquanto pegava seu casaco.
- Nathanael está com ela. – afirmou Yesalel.
- Ainda não sabemos ao certo se podemos confiar nele. – disse com leve desapontamento.
- Eu não tenho dúvidas. Ele jamais faria mal para Leonora.
- Como pode ter tanta certeza assim? – perguntei curiosa.
- Por que eu já o vi velando o sono dela.
- E?
- Lembrei-me de quando eu velava o sono de Dom... – respondeu olhando amorosamente para ele.
- Você não está dizendo que...? – perguntei estupefata.
- Ainda bem que a Nora não pode vê-lo. – suspirou aliviado Dominic.
- Por enquanto.
- Como assim, por enquanto? – indagou.
- Alguns membros desse clã passam a ver seus guardiões após os dezoito anos.
- Tá brincando! Só o que me faltava ter um cunhado anjo.
- Algum problema com a nossa raça? – perguntou Yesalel se fazendo de ofendida.
- Nenhum, minha santinha. – respondeu dando-lhe um beijo rápido na bochecha. – Já decidiram quem vai comigo ou vão tirar no palitinho?
- Eu fico para esperar por Leonora. Se eles não chegarem logo, irei atrás deles. – Eu também estava preocupada com a demora
- Ok, então. Até mais.
Ao vê-los saindo juntos, logo meu pensamento voejou para Kyle. Tínhamos combinado um novo encontro em Malachy. Estava imaginando se ele já estaria a caminho de casa, quando senti uma presença sinistra dentro do apartamento. Voltei-me e assustei-me ao perceber que não estava só. O homem descrito por Dominic no dia de seu acidente estava parado no meio da sala de estar  me encarando com um sorriso obsceno. Minha primeira reação foi fugir dali o mais rápido possível. Algo naquela figura me causava arrepios de pânico.
- Bela Ariel... Finalmente nos encontramos pessoalmente.
- Se é quem eu estou pensando, não tenho nenhum prazer em conhecê-lo.
- Você tem sido um obstáculo aos meus objetivos, sabia?
- Não sei sobre o que você está falando.
- Você foi enviada apenas para desviar o foco de Kyle e diminuir a força de nossa barganha. Seu Criador, como vocês o chamam, tentou nos enganar, mas só fez aumentar nossas chances de sucesso.
- O que quer dizer com isso?
- Agora não importa. E não tente se desmaterializar,  minha querida. De qualquer maneira não conseguiria... Tenho algum poder sobre essa sua capacidade. Lembra de nossa pequena demonstração lá em Calton Hill?
Eu estava a ponto de perder o controle devido ao medo intenso que me invadia. Ele começou a avançar sobre mim e eu estava paralisada, exatamente como no encontro que ele acabara de citar.
- Nós vamos dar um passeio, minha doce  Ariel.
- De nada vai adiantar  usar esse tipo de estratégia com Kyle. Ele jamais se passará para o seu lado.
- É o que veremos, além disso, pouco me importa  a sua opinião. Deixaremos uma lembrança para o seu amante que certamente tirará qualquer dúvida quanto ao lado que ele deve escolher.
Amante!? Como ele pode saber? Mal tive tempo de objetar. Ele avançou sobre mim ferozmente, desta vez mostrando a forma vampírica em que eu o conhecera um milênio atrás.  Naquele instante, a verdade ficou mais que clara do que nunca e não tive mais dúvidas sobre a minha origem.  Kolchak jogou-me no chão de bruços aproveitando-se da minha inabilidade temporária de sair da forma sólida. A dor que senti foi indescritível e meu grito foi abafado pela mão asquerosa sobre minha boca. Desmaiei ao perceber o que ele fizera.

(continua...)


Mais uma semana que se foi e mais um capítulo que nos aproxima do final dessa história de amor meio angelical e meio vampírica. Beijos muito carinhosos para as minhas comentaristas do último post, Nadja, Leia e Dioceli, que sempre fazem a minha alegria e me incentivam para a próxima postagem.
Queria deixar um beijo e um abraço especial para a minha parceira nessa história, a Aline, que, para quem não sabe, foi a criadora da Ariel e do Dominic.

Muuuuuuito obrigada a todos que continuam me visitando, lendo essas loucuras que escrevo e comprando meus livros. Amo voces!
Até a próxima postagem!




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XVI

by Kodama e Fantin


(continuação do capítulo XV...)

Enquanto isso, num luxuoso apartamento no centro da cidade...
- Então,  meu amigo, tem certeza disso que está me dizendo? – perguntou Kolchak.
- Não sou seu amigo. – respondi aborrecido.
- Ora, ora... Ainda guarda algum rancor contra sua situação?
- Não, senhor. – menti.
- Não importa. Graças à sua informação poderemos alcançar mais facilmente nosso objetivo.
- Se já não precisa mais de meus serviços, devo voltar.
- Será bem recompensado.
- Tenho certeza disso..., senhor.
- Você tem sido muito útil aos nossos objetivos.
- É só isso, senhor? – disse servilmente como ele certamente desejava.
- Pode ir. Mantenha-se alerta e use o telefone que lhe dei para avisar sobre qualquer mudança  nos planos de nosso futuro aliado, o senhor Sinclair.
A gargalhada mórbida ainda ecoava em meus ouvidos depois de eu já estar afastado quilômetros daquele maldito lugar.




Capítulo XVI


Eu caminhava através de pequenas ruelas de terra, entre cabanas simples feitas de barro e palha. Crianças corriam e brincavam, mulheres faziam suas tarefas domésticas sorriam  a minha passagem. Homens de rústicos  kilts conversavam, enquanto cuidavam da manutenção de suas armas ou das próprias residências, consertando paredes ou janelas. Era uma sensação estranha e ao mesmo tempo muito familiar. Eu conhecia realmente cada uma daquelas pessoas e me sentia em casa. Então, de repente, uma sombra negra cobriu o sol e começaram os gritos. Minha felicidade perdeu-se  entre as expressões de pavor nos rostos conhecidos. Tentei fugir, voltar para casa, procurar alguma segurança que subitamente me fora arrancada. Senti a escuridão me cercar, quando garras seguraram meus braços e prenderam meu corpo, elevando-me ao céu escuro. Apenas um nome veio a minha mente e o grito que se achava preso em minha garganta fechada pelo pânico libertou-se do espasmo:
- ELYK!!!!!!!!



- Ariel! Ariel!
Acordei banhada em suor frio, apavorada com as imagens que ainda eram vívidas diante de meus olhos. Lutava contra os braços que insistiam em me abraçar com força e agitava as pernas numa tentativa de libertar-me daquele pesadelo.
- Acorde! Acorde, Ariel! – Identifiquei a voz conhecida.
Aos poucos fui me acalmando e senti meu rosto ser direcionado até encontrar um par de olhos verdes penetrantes e perplexos. Finalmente parei de lutar e comecei a relaxar naquele abraço confortante.
- O que houve? Você está bem?
- Era tão real...
- Você chamou meu verdadeiro nome... de novo.
- O quê?
- Chamou por Elyk.
- Eu estou com medo...
- Foi apenas um pesadelo... – disse ele tentando me consolar, colando seu corpo mais fortemente ao meu.
- Pareceu mais que um simples pesadelo... Era quase como uma... horrível  lembrança.
- Lembrança? Tem a ver com o ataque que sofreu ontem?
- Não... – neguei ainda confusa com os sentimentos e sensações que começavam a aflorar em uma memória até então perdida.
Olhei mais uma vez dentro de seu olhar inquiridor e preocupado e decidi que não deveria assustá-lo com minhas incertezas.
- Talvez... – continuei, cedendo as suas suspeitas e encobrindo a angustiante verdade. – Não sei... É melhor eu ir embora.
- Tem certeza que está bem? – Ele continuava me segurando entre seus braços, sem intenção de soltar-me tão cedo. – Está escondendo alguma coisa de mim... Por que?
- Não estou escondendo nada. – desviei os olhos para os pés da cama. – Preciso ir, cuidar de Dominic, além de ficar de olho em Nathanael. Hoje vou pegar aquele safado e dar uma prensa nele.
- Agora está falando como a Ariel que eu conheço. – disse sorrindo.
- Como eu estava falando antes? – Queria bater com a cabeça na parede depois de lançar essa pergunta idiota no ar.
Notei certa tristeza cobrir sua expressão e soube imediatamente o que ele pensou. Não esperei por sua resposta, se é que ele teria coragem de falar. Não queria lhe dar a chance de pensar demais naquele assunto ou deixá-lo sentir-se culpado por estar pensando em seu antigo amor depois do que acontecera entre nós. Eu precisava esclarecer a mente e conversar  seriamente com Samuel sobre minhas suspeitas antes de falar sobre isso com... Elyk. De repente, esse nome soava muito melhor em meus ouvidos e cordas vocais do que Kyle.
- Você estava  apavorada e isso não é comum na Ariel que conheço –  Segurou meu queixo e beijou meus lábios suavemente. Ele se saíra muito bem da saia justa.
- Eu o amo... – Aquilo saiu tão naturalmente que o pegou de surpresa.
- Há tanto tempo não ouço uma declaração como essa...
- Mentiroso! Aposto que centenas de mulheres devem ter dito isso ao longo destes séculos.
Ele tornou-se sério, apesar da minha tentativa de troçar como meio de defesa.
- Nenhuma falou de maneira tão terna e verdadeira como você.
O modo como ele me olhou naquele instante me fez arrepiar. No fundo, eu ansiava ouvir a mesma declaração de sua boca, mas sabia que ele ainda se encontrava preso ao seu passado, ao seu amor e que seria pedir demais um  eu te amo também. De uma maneira ou de outra, não fiquei chateada, pois podia sentir seus sentimentos por mim, sem necessidade de palavras ditas ou escritas.
- Bem, essa é a hora em que me retiro.
Levantei-me apressadamente, sacudi aas asas e vesti meus trajes o mais rapidamente possível.
- Ariel... – Ele levantou e caminhou em minha direção, completamente nu, numa visão que me fez estremecer, reacendendo mais uma vez  meu desejo. Céus! Era atraente demais ver aqueles músculos em funcionamento só pelo simples movimento de caminhar.
- Que tal se vestir? Andar por aí desse jeito vai acabar com meu senso de responsabilidade para o resto da vida.
Ele sorriu sensualmente e me abraçou mais uma vez. Senti o corpo amolecer  e todo o bom senso desaparecer da cabeça.
- Tenha cuidado...
- Não se preocupe. Terei.
- Não quero que Kolchak perceba que existe alguém mais importante para mim e por quem eu seria capaz de ...
- Ssshhhh... – Cobri seus lábios com um beijo para calar seus medos e esconder meu sorriso de satisfação pela demonstração de carinho. – Ele não vai saber. E nós, vamos pegá-lo.
- Assim eu espero.
Resistindo a tentação que parecia não querer me largar, afastei-o de mim e me desmaterializei. Precisava encontrar Nathanael.



Nathanael
- Eu não lhe dei recado algum, Ariel. Desde quando Samuel manda recados para seus subordinados através de outros? Você foi enganada por alguém se passando por mim.
- Não é possível! Eu ouvi claramente a sua voz em minha mente dizendo que Samuel queria um encontro em Calton Hill.
- Sinto muito que isso tenha acontecido com você, mas é claro que esses demônios querem prejudicá-la e colocá-la contra mim.
- Se eles têm esse poder de fazer-se passar por um de nós, estamos perdidos.
- Talvez seja algo relacionado a você. Eu sempre a achei meio diferente mesmo. – disse Nathanael com aquele seu jeito sarcástico e peculiar de senhor sabe-tudo.
- O que está querendo dizer? Que tenho a cabeça fraca? – Ele sempre conseguia me tirar do sério. Logo agora que eu começava a acreditar que ele mudara e que poderia nos ajudar.
- Já que pergunta, acho sim. Basta ver  o que anda fazendo em suas horas de folga. – disse isso me lançando um olhar de repreensão cheio de sarcasmo, referindo-se provavelmente ao meu encontro com Kyle... Espere aí! Como ele poderia saber?
- Não sei a que está se referindo.
- Não sabe mesmo, santinha?
- Não sei e também não lhe interessa o que faço além de meu trabalho.
- Está bem. Não se fala mais nisso. – afirmou com aparente resignação.
- Você está tentando mudar de assunto. Estávamos falando de uma possível mudança de lado por sua parte e não sobre mim.
- Já disse que não fui eu quem a chamou.
- Você anda muito estranho ultimamente, Nathanael.
- Eu diria o mesmo de você, minha cara. E o motivo do seu comportamento estranho tem nome.
- E qual é o nome do seu? – Estava indignada com suas indiretas.
- Sinto que esteja pensando mal de mim... Cuidado, garota,  pois  pode  haver "outros" que saibam o que está acontecendo. Isso os colocaria em vantagem.
Nisso ele tinha toda a razão. Eles poderiam me usar contra Kyle e conseguir seu intento.

No entanto, nada articulei e dei de ombros. Apesar de tudo, não conseguia acreditar que ele fosse um traidor.
E ele se foi.




Dominic, agora empregado e com um salário fixo, decidiu alugar um apartamento maior, apesar de simples, onde pudesse alojar confortavelmente sua tríade familiar. Não precisaria dormir mais na sala e Damian teria um quarto só para ele quando viesse visitá-los. Preferia continuar com seus planos anteriores às ameaças de Kolchak e não pensar muito no assunto. Yesalel agora era presença constante na nova residência. Parecia mais segura e sem medo de reprimendas por assumir seu amor por Dominic, principalmente depois que salvara sua vida. Sentia que sua presença ali , ao lado dele, era uma espécie de reforço contra os ataques do exército de Lúcifer..
A cada dia terminado sem incidentes era um alívio para todos nós.  No entanto, passei a notar que o mundo a nossa volta parecia estar mais endiabrado que o normal. Catástrofes e acidentes inexplicáveis aconteciam com mais frequência, a violência urbana era corriqueira, como se o poder do Mal se tornasse a cada instante mais forte. 
O prazo dado por Kolchak à Kyle estava passando rapidamente. Damian viajara novamente, sem dar explicação plausível alguma, dizendo que logo estaria de volta. Procurei falar com Samuel, mas ele aparentemente não queria falar comigo. Os flashs em minha memória continuavam a acontecer, mesmo acordada, reunindo as peças de um terrível quebra-cabeça, deixando-me mais agoniada e cheia de questionamentos a cada dia. Minhas tentativas de evitar  Kyle,  por medo de deixar  transparecer minhas descobertas e atrair a atenção de quem não devia, vinham se mostrando infrutíferas e nos encontrávamos quase todas as noites.  No íntimo, sabia que além do Criador, apenas Samuel poderia confirmar minha suspeita e explicar o por quê do que estava acontecendo.


(continua...)


Boa noite, meus queridos!
Alguns devem ter notado que demorei a postar (pelo menos espero que sim...rsrsrs!). Graças a Deus e ao meu maridinho muito amado, consegui escapar por cinco dias abençoados da loucura em que anda a minha vida. Assim, isolada de tudo,com acesso a internet reduzidíssimo e sem celular, pude me dedicar a difícil e deliciosa arte do não fazer nada.... Ou quase nada, pois, obviamente, separei várias horas para o meu lazer predileto: escrever. Com isso, o nosso romance conseguiu algumas várias páginas a mais, quase chegando ao seu fim.
Hoje quero agradecer às minhas comentaristas muito amadas: a Cris, uma grande amiga, gaúcha de coração baiano e que me acompanha desde o início dessa mania de escrever; a minha parceira muito querida, Aline; a doce Carolina, do Blog Cantinho da Carolina, que tem feito um trabalho maravilhoso de divulgação do Corsário e do blog Romances ao Vento; a Dioceli, uma pessoa encantadora e futura mamãe(PARABÉNS!!!!!); e as minhas anjinhas de plantão, Léia e Nadja.
Também quero dar os parabéns para a Camila Oliveira da Silva, sorteada com o livro O Corsário Apaixonado (promoção do Cantinho da Carolina, que citei na última postagem).
Antes de encerrar, queria compartilhar com todos os leitores desse blog um fato que ocorreu nessa semana e que me deixou super feliz: a estréia do  Confusões de Um Viúvo no site da Livraria Cultura, cujo link está lá no alto da página, ao clicar a capa do livro. Quero deixar aqui o meu sincero e profundo agradecimento à APEDEditora.
Este romance agora tem página lá no Facebook (aprendi contigo, Léia ;) ).
Mais uma nota importante: A minha grande e querida amiga,  Tânia, acaba de estrear a coluna SEXTA ENVENENADA no blog As Envenenadas pela Maçã, onde ela fala sobre os seus personagens masculinos preferidos nos romances que  . Adivinhem que está na última postagem feita hoje? O Daren, de Um Amor no Deserto. Além disso, a Tânia prestou uma homenagem belíssima e emocionante aos meus romances, ao blog e a mim, tanto na sua coluna envenenada como no seu outro blog  GBTBS. Vale a pena conferir! Já me rasguei em agradecimentos e emoção e ainda acho que não foi nem nunca será suficiente. Beijos, Tânia amada!
Bem, acho que não esqueci de nada... Ah!Gostaram do Nathanael, meninas? Uma gracinha, não? :)
Desejo a todos um fim de semana danado de bom!
Beijinhos!!




sexta-feira, 27 de julho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XV

by Kodama e Fantin

Encontrei-a no salão principal a minha espera. Dispensei Angus e me aproximei dela curioso para saber o que tinha a me dizer. Tão logo sentiu minha presença, ergueu a cabeça e me olhou altivamente. Ainda assim podia perceber o receio em seus olhos e um ligeiro tremor percorrendo seu corpo. Lutava contra a tentação de agarrá-la e fazê-la minha de uma vez por todas.
- Então... Queria falar comigo? Pensei que não me tolerasse e que não fosse querer me ver nunca mais a sós, depois do nosso último encontro na torre e de sua fuga inesperada.
Ela desviou o olhar e deu alguns passos para longe de mim.
- Fiquei assustada...
- Assustada? Ou arrependida?
- Eu não vim para falar sobre nosso último encontro, Kyle.
Ela realmente parecia perturbada.
- Então,  diga qual o motivo desta... "reunião"?
Tentei nova aproximação, mas ela esquivou-se mais uma vez.
Fiquei em silencio, aguardando sua  resposta.
- Estou preocupada com... esses ataques. Hoje eu pude ter uma ideia do que eles são capazes.  Nunca pensei que pudesse ter tanto medo.
Sua sinceridade me comoveu.
- Eles não tinham a intenção de matá-la; apenas assustá-la e deixá-la viva para me contar.
- E quanto a Dominic? Não fosse por Yesalel, ele teria morrido.
- Talvez eles soubessem que Dom teria ajuda. Tudo é possível.
Um novo mal estar me atingiu e ela, infelizmente, o percebeu mais uma vez.
- Há quanto tempo...  não se alimenta? – disse preocupada.
- Você me alimentou por último... Tem medo que eu tente me matar novamente? – respondi irritado.
- Você tem que estar preparado para enfrentar esses demônios...
- Por que quer me ajudar? Será a sua boa ação do dia? Tem medo que eu procure Leonora ou ... está com ciúmes de que eu procure outra mulher para me saciar? – Ela estremeceu e logo se mostrou indignada.
- Ciúmes? De onde tirou essa? Óbvio que não quero que procure Leonora para saciar seu apetite nem quero ver outra pobre humana sofrer em suas mãos... Mesmo sabendo que isso é algo involuntário de sua parte. – terminou por dizer, atenuando um pouco a força das palavras.
Não me contive e a cerquei.
- Até hoje não ouvi queixa de nenhuma das "pobres humanas ". Pelo contrário, elas pareceram bem satisfeitas. –  disse em tom baixo junto ao seu ouvido.
Observei sua respiração paralisar à minha proximidade.
- Não seja vulgar...
- Quer experimentar e julgar por si mesma?  – perguntei sarcástico.
Vê-la confusa e tímida atiçava ainda mais meu lado animal. Precisava saber até onde ela iria antes de se oferecer em "sacrifício".
Sua mão descansou sobre meu peito, pressionando-o, numa vã tentativa de me afastar, enquanto seus olhos fugiam dos meus. Um calor abrasador partiu daquele toque e espalhou-se por meu corpo.
- Por que insiste em ser desagradável?
- Foi apenas uma proposta. – declarei com  um falso sorriso.
- Por que continua com esse joguinho? Sei que você  não é assim.
Seu olhar direto me desarmou.
- Você não precisa se preocupar por mim. Vou continuar vivendo como sempre vivi até hoje. 
- Não existe outra maneira de conseguir o... sangue?
Soltei-a e me afastei cabisbaixo.
- No início, eu me recusei a matar para conseguir alimento, como Angus me orientara. Tentei beber sangue de animais, obtê-lo através de sangrias em humanos hipnotizados... Nada acalmava minha fome. Certa noite, pensei em sair a caça e matar um ser humano. Foi quando uma mulher surgiu, inexplicavelmente, aos portões do castelo. Convidada a entrar  por Angus, que viu nela minha primeira vítima, ficou a minha espera como se soubesse que poderia me servir. Ela era jovem e muito bela e, apesar de não querer, meus novos instintos me levaram a cortejá-la e seduzi-la. Durante o ato sexual, enquanto ela gozava, a mordi,  a despeito do receio de acabar com sua vida. No entanto,  percebi que ela não precisava morrer e que, depois de saciado, eu tinha o poder de cicatrizar suas feridas e fazê-la esquecer do momento final do ato. Apenas o prazer alcançado era mantido em sua memória e minha verdadeira natureza permanecia ignorada. 
Dei um sorriso de escárnio e  me virei para olhar sua expressão de nojo depois de meu relato. Porém, onde pensei que veria piedade e repulsa, encontrei conivência e ternura. Foi a vez dela se aproximar e tocar meu rosto.
 – Talvez tenha sido uma maneira que o Senhor encontrou para não cometer atrocidades através de seu anjo caído. – explicou.
Fechei os olhos, inebriado pelo carinho de seus dedos finos a contornar minha face.
- As primeiras rugas já estão aparecendo... Por que resiste tanto a minha ajuda? – continuou.
- Por que não é só o seu sangue que eu quero. – Abri os olhos e segurei seu queixo delicado. – Eu quero você por inteiro. – declarei antes de cobrir-lhe a boca com um beijo nada doce.
- O que pensa que está fazendo? – disse, quando nossos lábios se afastaram, com uma voz muito doce e fraca demais para parecer ser contra o que estava acontecendo. – Está usando algum tipo de controle mental sobre mim, Kyle?
- Nenhum tipo de controle, minha querida. Você está aqui por sua livre e espontânea vontade e eu vou  lhe mostrar como eu costumo saciar minha sede. Hoje não precisará cortar seu pulso.
- Não quero que me mostre nada, Kyle Sinclair ou Elyk, seja lá quem for! – esperneou ruborizada, tentando afastar-me sem a força que eu sabia que ela era capaz de ter se realmente tivesse a intenção de me manter longe.
- Então, diga que não me quer... – sussurrei em seu ouvido.
- Você ama Leonora... Por que está fazendo isso comigo? – disse em  tom  lacrimoso.
- Eu não amo Leonora... De onde tirou essa ideia? Se não quiser que eu continue,  não use outra fêmea como escudo. Basta dizer que me odeia e eu me afastarei para sempre.
Vi seus olhos dourados pousando sobre os meus, tornando mais difícil cumprir o que acabara de propor.
- Eu não odeio você...
Eu podia ouvir o descompasso acelerado de seu coração próximo à inércia do meu, quando seus braços envolveram  meu pescoço.
- Ariel... – Afundei naquele abraço tão esperado,  mergulhei o rosto entre os seus cabelos, aspirei seu perfume  e tive uma sensação de paz  há muito esquecida.
Voltei-me para beijar-lhe a boca e a vi de olhos fechados e lábios entreabertos, pronta para me receber.  Elevei-a do chão e senti seus braços apertarem-se ainda mais sobre mim.
- Acho que precisaremos de mais privacidade para continuar essa conversa...
- Aonde pensa que vai me levar? – perguntou com ar maroto.
Mal tive tempo de responder e nos materializamos em meus aposentos.
Diante da minha surpresa, ela falou ternamente:
- Você pensou... Eu apenas segui seu desejo... Além disso, não podemos demorar muito ou  logo ficará fraco demais.
- Ainda tenho tempo de sobra e força suficiente para não decepcioná-la...
- Assim espero...
O desejo explodiu entre nós. Enovelados um ao outro, caímos sobre a cama. Entre carinhos ansiosos, nossas vestes desapareceram. O mundo e tudo o que pudesse haver  ao nosso redor, deixou de existir. Ariel explorava meu corpo com volúpia e me permitia degustá-la ávido. Suas formas delicadas eram delineadas pelas palmas de minhas mãos enquanto, de sua boca, eu ouvia gemidos e suspiros deliciosos. O êxtase estava muito próximo, quando a senti estremecer e  regozijar-se entre meus braços. Vi suas fulgurantes asas se abrirem e não pude resistir mais. Penetrei-a profundamente e inundei-a com meu orgasmo. Senti as infames presas crescerem em minha boca e tive medo de assustá-la. No entanto, num ato de extrema confiança, ela jogou a cabeça para o lado, oferecendo sua jugular a minha sede. Não ouvi lamento, nem observei dor em sua face ao perfurar a pele alva e fina. Consternado, deliciei-me com a doçura de seu néctar até saciar minha infeliz necessidade. Quis me afastar, após lamber o ferimento que provocara,  mas fui detido por seu abraço.
- Eu o decepcionei?
- Não gostei de feri-la dessa maneira e imaginei que não me quisesse mais por perto.
- Você não me feriu... E não quero que se afaste... A não ser que não me queira mais, agora que está saciado.
Indignado com suas palavras, deitei-me sobre ela e pressionei seu corpo sob o meu, mostrando fisicamente que meu desejo por ela ainda não se extinguira.
- Ainda tem dúvidas?
- Nenhuma... – respondeu com um meio sorriso, enquanto me tocava, rijo entre suas coxas.
Não precisava de nenhuma outra sinalização para voltar a acariciá-la e tomá-la novamente. Dessa vez,  eu a possuiria com calma, estendendo o prazer ao máximo, saboreando cada ínfimo momento. Ali, ao seu lado, um sentimento muito forte renascia em mim e, apesar disso me assustar,  não o podia negar. Queria apenas viver mais uma vez o que um dia me fora negado.

(continua...)

Espero que tenham gostado do encontro entre a Ariel e o Kyle. Sei que o capítulo ficou mais curtinho, mas talvez tenha uma complementação mais tarde. Só não queria deixar de postar hoje, início do final de semana.  Um grande beijo para minhas comentaristas da semana, Nadja e Aline, e a todos que vieram ler a continuação desse romance.
Não posso deixar de comentar aqui, também, algo que está acontecendo há várias semanas e, falha minha, ainda não comentei. É sobre o empenho da Carolina Lopes, do Blog Cantinho da Carolina, que, desde o mes de Junho está promovendo o sorteio de livro O Corsário Apaixonado.  Quero aproveitar para convidar os leitores do blog que ainda não estão participando que corram ao Cantinho e participem (é só clicar na frase sublinhada, acima). O sorteio será no dia 4 de Agosto, portanto ainda dá tempo de concorrer. E mesmo que não ganhem, terá valido a pena conhecer o Cantinho da Carolina, que está sempre recheado de novidades literárias.O meu eterno agradecimento a essa querida blogueira e amiga.
Termino aqui a minha postagem semanal, enviando todo o meu carinho e o desejo de um ótimo fim de semana.
Beijos!! 



sábado, 21 de julho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XIV

by Kodama e Fantin

Estava pronta para acompanhar Dominic ao jornal, quando Nathanael surgiu com um chamado telepático.
- Ariel, o chefe quer falar com você.
- O quê? Agora? O que ele quer? Por que não entrou em contato direto comigo?
- Não sei lhe dizer. Parece ser importante.
- Fique de olho naqueles dois, por favor,  – falei referindo-me a Dominic e a Leonora.  – enquanto vou a Central dos Guardiões.
- Não! Ele quer vê-la nas colunas de Calton Hill.

Colunas de Calton Hill


Calton Hill era uma das colinas em pleno centro de Edimburgo, de onde se podia ter uma bela vista panorâmica da cidade. A acrópole ou as colunas, às quais Nathanael se referira, são na verdade um monumento inacabado - originalmente chamado de "Monumento Nacional". Iniciado em 1816, um ano após a derrota de Napoleão em Waterloo, ele foi concebido para ser uma réplica do Parthenon, em Atenas, como um memorial para aqueles que morreram nas Guerras Napoleônicas. O que será que Samuel queria falar comigo para escolher um local tão inusitado, quando tínhamos locais mais reservados em nossa própria dimensão? Intrigada, me despedi de Dominic. Havia se passado mais de uma semana da viagem à Praga e nenhum outro imprevisto ocorrera até então. Aparentemente Damian e Kyle estavam unidos e atentos em relação à segurança de Dominic e de Leonora, mas mesmo assim eu ainda me preocupava, pois sabia que o outro lado não desistiria tão fácil de uma empreitada que já durava quase mil anos. Além de tudo isso, outra apreensão tirava meu sossego. Alimentar Kyle. Desde nosso último encontro no jardim de Cathella, não havíamos ficado a sós novamente. Sabia que mais cedo ou mais tarde ele começaria a sofrer com a falta de alimento e, só de pensar que ele teria que seduzir uma mulher para conseguir sangue, minhas vísceras ameaçavam enovelar-se. Já andava zonza de tanto pensar em como poderia oferecer-me como "refeição", sem parecer oferecida ou... Apaixonada... Seria isso? Teria Samuel descoberto meus sentimentos por Kyle e queria me repreender? Antes que ele me fizesse qualquer censura, eu inverteria o jogo. Ele escondia alguma coisa e eu precisava saber o que era. Talvez eu conseguisse espremer o meu velho chefe e esclarecer um pouco do mistério que girava em torno da história de Kyle.
As imensas colunas surgiram a minha frente, impávidas contra o tempo, erguendo seu olhar sobre a capital da Escócia. A vista impressionante era admirada por uns poucos turistas  naquele  momento. Os minutos se passavam e eu a espera de um chamado ou de uma discreta aparição do meu superior. Quando tentei entrar em contato com Samuel, estranhamente, não consegui. O mesmo aconteceu quando tentei me desmaterializar e ir até a sede dos Guardiões para tirar satisfações. Era como se um campo de força impedisse meu deslocamento ou o de minhas ondas cerebrais. Só então percebi que aquilo poderia ser uma espécie de armadilha. Repentinamente, uma nuvem escura cobriu a área de Calton Hill. Não havia mais sinal algum de humanos, até que uma sombra escura tomou forma cerca de uns duzentos metros de distancia de onde eu estava. Logo, outra sombra a seguia... E outra, e mais outra... As sombras começaram a tomar forma. A pior forma possível. Agora não tinha mais dúvidas sobre quem armara aquilo. Eles pareciam pertencer à minha espécie, porém suas asas eram negras e pequenos chifres apontavam entre os cabelos negros e desgrenhados. À medida que se aproximavam  pude ver melhor seus rostos e expressões. Uma sensação de medo insano tomou conta de meu ser quando notei as presas brancas sobressaindo-se de suas bocas. Eram vampiros!!
Queria correr, gritar, mas não conseguia. O pânico tomava conta de mim. Sentia como se estivesse presa a uma teia, pronta para ser massacrada e incapaz de fugir. Abri minhas asas e cobri meu corpo com elas. Fechei os olhos e esperei. Esperei pelo fim...





Combinara com Elliot, meu editor no Tribune, a entrega das laudas da minha última reportagem semanal a respeito de Sinclair. Estava atrasado e meu chefe estava indignado, pois o artigo deveria ser publicado no dia seguinte. Apesar de tudo que estava acontecendo eu tinha um compromisso com o jornal, além de esse ser o meu ganha-pão. Elliot estava plenamente satisfeito com meu trabalho e  isso já me garantira um emprego fixo naquele jornal.
Leonora já tinha saído para ir à aula. Terminei de tomar meu café e saí para pegar minha scooter no pátio interno do nosso prédio. Mal saíra do beco e acelerava para me dirigir ao centro quando um homem bem vestido surgiu a minha frente obrigando-me a dar uma tremenda freada. Por pouco não perco o controle da motocicleta e vou de encontro ao  muro na lateral da rua. Para meu espanto, o desgraçado sorria. Parecia achar graça de quase ter sido atropelado.
- Bela moto, meu jovem! – Saudou-me o estranho de feições exóticas e sotaque provavelmente originário dos Balcãs, pois lembrava muito o modo de falar de um amigo albanês.  –  E que freios, não?
- O senhor está bem?
- Estou ótimo! – respondeu encarando-me com aquele sorriso fake no rosto anguloso.
- O senhor me perdoe. Estou com pressa. Não devia estar correndo tanto...
- Siga em frente... Por favor...
Dizendo isso, saiu lentamente da frente da scooter,  sempre me olhando. Aquela presença parecia exalar um mau agouro, por isso dei um aceno com a cabeça e acelerei para longe do homem.
Como se estivesse sendo acompanhado por uma sombra, aquele sorriso diabólico não deixava minha mente. Por duas vezes, no percurso, esses pensamentos me distraíram  e, por um triz, não  me jogaram contra os automóveis  que trafegavam a minha volta.
Quando entrei na The Moud,  a avenida que liga o Centro Histórico ao novo centro, precisei frear um pouco devido ao aclive presente. Entretanto o freio não respondeu e a moto continuou acelerando, caindo rapidamente na direção da movimentada Princes Street . Por uma fração de segundos vi o meu fim na porta de um grande caminhão de uma rede de lojas da cidade que atravessava exatamente naquela hora a rua logo abaixo. Apertando desesperadamente o freio, sem resposta alguma, fechei os olhos e pensei em Yesalel. Senti meu corpo voar  e ouvi o som do choque de ferragens ao longe. Logo veio a sensação da queda. Uma queda estranhamente lenta e que acabou amortecida  por algo macio em minhas costas. Tive medo de abrir os olhos e verificar que morrera. Porém, as vozes começaram a surgir a minha volta, preocupadas, curiosas e surpresas.
- Você está bem?
- É um milagre!
- Olhem só o estado em que ficou a scooter!
Certo de que no céu não ouviria esse tipo de comentários, elevei as pálpebras lentamente e vi uma dezena de rostos os mais variados pairando sobre mim.
- Alguém chamou a ambulância?
- Não é preciso... – falei, fazendo um pouco de esforço para me levantar do solo gramado onde caira. Aos poucos fui verificando que não tinha nada quebrado ou ferido.
- A polícia já está aí! – gritou alguém.
- Está bem, filho? – perguntou a voz conhecida. Vi o belo e preocupado rosto de Yesalel.
- Yesalel? O que está fazendo aqui?
- Ouvi o seu chamado e consegui chegar a tempo...
Afinal, descobri que era bom ter um anjo como namorada.
- É melhor que a ambulância chegue logo! Ele está delirando! – gritou alguém.




Por que eu não conseguia controlar aquele desejo insano? Só podia ser a fome mais uma vez a me atormentar.  Ariel conseguira aquecer meu coração morto e sua simples presença me provocava sensações semelhantes as que eu tivera com Cathella. Sentimentos que eu considerava extintos para sempre, voltavam a me atordoar e a me fazer desejar alguém novamente. A atração física era evidente entre nós. Inegavelmente seu corpo reagia ao meu...  Podia sentir seu desejo aflorar a cada encontro,  mas isso não significava a possibilidade de qualquer outro tipo de sentimento...
- Senhor... – Era a voz de Angus a me fazer voltar à realidade dentro de meu gabinete em Malachy.
- O que foi?
- Os demônios estão de volta, senhor?
- Por que pergunta, Angus?
- Por que sinto a presença deles rondando o castelo mais uma vez.
- Você está certo... Eles estão de volta.
- Se eu puder ajudá-lo, senhor, pode contar comigo.
- Muito obrigado, Angus. Você tem sido um amigo fiel ao longo desses penosos anos.
- Tenho uma dívida com o senhor.
- Você sabe que não há dívida alguma e que é livre para fazer o que quiser.
- O senhor é muito generoso...
Nesse instante, o telefone tocou.
Angus rapidamente atendeu a extensão que havia ao lado da entrada do jardim. Depois de algumas poucas palavras,  me chamou.
- É o senhor Damian.
Preocupado, corri para atendê-lo.
- Acho que eles atacaram  novamente, El... Kyle.
- Leonora?!
- Não. Dominic. Graças a Yesalel, ele foi salvo da morte.
- Onde ele está?
- Num serviço de emergência. Estou aqui com ele.
- Me dê o endereço que estou indo para aí. 
- Melhor não. Ele está bem agora.
- Mas como aconteceu?
- Ele perdeu os freios enquanto andava em sua moto... Ele já está sendo liberado pelo médico. Vou levá-lo para casa agora. Encontre-nos lá.
Os acidentes tinham recomeçado. Era sempre assim. Que falta de imaginação!
Segui para o apartamento dos MacTrevor. 




- Kolchak! Foi ele! A descrição do homem que o abordou corresponde exatamente a dele.
Se eu tivesse a minha espada... Se eu ainda fosse um ... – pensei alto. O gosto amargo da maldição que me foi imputada me fez calar.
Dessa vez Dominic saíra ileso. Sabia que aquele tinha sido apenas mais um sinal. O prazo ainda não terminara. Mesmo que eu acabasse com a existência de Kolchak certamente seu mestre enviaria outro de seus comandados para continuar me ameaçando. O que eu não conseguia entender era o porquê de tal insistência. Por que eu? Já demonstrara inúmeras vezes que não aceitaria me unir aquele bando de demônios. Mesmo depois de tudo que eu sofrera por causa de minha sina imposta pelo Divino, não poderia encarar o Outro Lado com bons olhos. Jamais poderia seguir ordens que pudessem prejudicar a vida humana além do que já ocorria. Era visível o avanço do Mal sobre a humanidade a cada ano. Não seria eu um auxiliar para aquele bando de demônios rancorosos conseguirem dominar os homens completamente.
Ariel apareceu com seus grandes olhos aflitos junto a Dominic. Ela parecia apavorada.
Ao vê-la, pude sentir que Damian controlou-se para não esbravejar e pedir uma explicação para sua ausência junto ao filho, devido a presença de Leonora na sala, mas seu olhar inquisidor foi suficiente para fazê-la corar. Protetoramente, coloquei-me ao seu lado.
- Ela não tem culpa, pai...
- Culpa de que? Eu não tenho nada a ver com isso!  - saltou Leonora ao ouvir a afirmação de Dominic, pensando que ele se referira a ela.
- Ele não está falando de você, querida. – tranquilizou-a o pai.
- Então, de quem ele está falando?
- Da minha mecânica. –  respondeu.
- Desde quando você leva a moto para uma mulher  consertar? – perguntou  maliciosa.
- Acho melhor você ir fazer as suas coisas, Leonora. Eu estou bem. Por favor... Deixe-nos a sós. – impacientou-se Dominic.
Assim que Leonora deu as costas, após um muxoxo,  percebi que Ariel tremia.
- O que aconteceu, Ariel? – perguntei abraçando-a e, felizmente, não sendo rechaçado.
- Eles me atacaram... – disse ela balbuciando, como se estivesse sob o efeito de uma droga.
- Quem?
- Vampiros... Eles surgiram em bando... Quando pensei que estava tudo acabado... Eles desapareceram como por encanto. – continuava falando reticente e com olhar vítreo.
- Como?? – perguntei surpreso.
Só então ela me olhou e pareceu voltar à lucidez, pois me empurrou assustada. Apesar dessa reação, segurei-a e exigi que ela explicasse o que acontecera. Ela começou a chorar e acabou por afundar a cabeça em meu peito,  parecendo exausta e perdida. De repente, levantou a cabeça e olhou ao seu redor.
- Por que estão todos aqui? O que aconteceu? – indagou, olhando na direção de Dominic.
- Primeiro, conte o que houve com você.  Por que deixou Dominic sozinho? – Quis saber Damian.
- Nathanael disse que nosso superior, Samuel, queria falar comigo. Achei estranho, principalmente ao saber o local que ele escolhera para esse encontro...
- E o que aconteceu? – perguntei.
- Fui até Calton Hill e esperei que ele aparecesse.  – Sua voz era tremula. – Foi quando aqueles demônios surgiram do nada. Por um momento,  pensei ter visto um grande clarão, como se um raio tivesse cortado os céus... Mas, como estava de olhos fechados, pode ter sido apenas minha imaginação. Então, eles desapareceram da mesma forma que haviam surgido.
- O que acha disso, Kyle? – quis saber Damian.
- Acho que foi mais um aviso. – respondi.
- Mas por que eu fui o alvo dessa vez? – perguntou Ariel confusa.
- Não foi você... Foi Dominic. – afirmei.
- O quê? Dom foi atacado?
- Sim... Era para parecer um acidente de moto, provocado por uma falha nos freios.
- E...?
- O tal Kolchak falou comigo antes do acidente, fazendo-se passar por um pedestre distraído. Yesalel surgiu no último momento e me salvou... – completou Dominic, que até então permanecera calado. – Alguém armou para afastá-la de mi, Ariel.
- Nathanael? Não pode ser... – disse ela pesarosa.
- Ele anda meio estranho ultimamente. Você mesma reclamou que ele tem se afastado de Leonora com muita frequência. – lembrou Dominic.
- Ele pode ter sido enganado também... – defendeu Ariel.
- O importante é que nada de ruim aconteceu a qualquer um de vocês dois. – proferiu Damian.
- Tem de haver uma maneira de acabar com isso de uma vez por todas. – disse irritado.
Já cansara dos ardis  que aquele maldito lançava mão para  obrigar meu recrutamento em seu exército. Ameaçar Ariel com vampiros! Tentar matar Dominic! Nunca antes ele fora tão incisivo. O que havia de diferente dos séculos anteriores?
- Que eu saiba existe um prazo para acabar com tudo isso e ele se encerra em duas semanas. É certo? – Damian tentava  racionalizar o que não tinha razão.
- Sim... – respondi. – Se é que podermos confiar na palavra de Kolchak.
- Então... Temos apenas que resistir mais um pouco e ficarmos atentos às armadilhas. Pode ser que tenhamos um traidor próximo a nós...
Senti uma leve tontura,  que tentei esconder dos demais. Ariel me olhou como se tivesse percebido alguma coisa.
- Preciso ir agora. – Não queria que mais alguém percebesse minha infame necessidade.
- Eu também tenho um assunto importante para tratar. -  disse Damian.
- E Leonora?  - perguntei. Senti Ariel retesar os músculos e fiquei curioso com tal reação.
- Farei com que fique em casa.  Também ficarei de olho em Nathanael  – Damian olhou ao redor. –  que, por sinal, está novamente desaparecido.
 - Posso ficar aqui, com Dom? – A voz de Yesalel surgiu muito timidamente de um canto da sala fazendo que todos se virassem para ela.
- Depois do que aconteceu hoje,  por mim, você não sai do lado de Dominic nunca mais. – Assim que formulou tal desejo, Damian olhou para Ariel. – Espero que não se chateie com minhas palavras,  Ariel. Todos nós sabemos quem estamos enfrentando e que quanto mais ajuda nós tivermos, melhor.
- Eu entendo...
Soltei Ariel. Pensei ter notado certa relutância da parte dela.
- Preciso conversar com você. – Ela sussurrou para mim quando segurou meu braço, retardando meu afastamento.
- Há mais alguma coisa que tenha acontecido e não quis dizer?
- Não... Não é sobre... Isto é... – Então ela conseguiu me encarar  e dizer o que a preocupava. – É sobre você. Sei que está... precisando de ajuda.
- Vou para Malachy... Quer ir junto?
- Eu o encontro lá. – convidou-se,  lindamente tímida.
Imbecilmente, quase senti meu coração inerte disparar com a iminência de nosso encontro. Parti  logo depois de ver Ariel desmaterializando-se.


(continua...)



Finalmente, depois de três infindáveis semanas, consegui voltar a escrever a continuação de nosso romance. Graças a Deus e aos bons fluídos emitidos pelos amigos, a situação de minha mãe estabilizou-se e ela se encontra em franca recuperação. Ainda há muito trabalho pela frente, mas o astral encontra-se mais elevado e confiante. Gostaria de agradecer por todas as palavras gentis e de consolo que recebi de todas as formas e que, sem dúvida, foram fortes motivadores para manter a esperança de que tudo iria melhorar e seguir em frente. Muito obrigada pelo carinho das minhas comentaristas amadas: Dioceli, Rapha, Aline ( a minha querida co-autora), Léia, Lucy e Nadja. Amo voces!
Esperamos voltar ao ritmo de postagem de antes e poder contar, sem longos intervalos, a história do nosso vampiro escocês.
Apesar de já ter passado da meia noite, ainda dá tempo de desejar um FELIZ DIA DO AMIGO a todos os frequentadores desse blog.
Todo o meu amor para voces!
Beijos!!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ausência

Oi, meus amigos queridos e leitores do blog,
Venho hoje aqui, pois me sinto na obrigação de dar uma satisfação a respeito da minha ausência e falta nas postagens do atual romance. Como já havia dito anteriormente, estou com alguns sérios problemas de saúde em minha família. O familiar é a minha mãe e, como responsável, tenho estado muito ocupada em seu tratamento e nas complicações, devido a sua  idade avançada, que tem ocorrido ultimamente. Sei que entenderão meus motivos e gostaria que soubessem que tenho sentido uma grande falta de escrever e dar continuação a esse romance que iniciei em conjunto com a minha querida Aline Kodama. Gostaria também de agradecer às amigas que, sabendo das minhas dificuldades, enviaram seu carinho e suas orações. Muitíssimo obrigada!
Espero que tudo se resolva em breve, da melhor e mais feliz maneira possível, e que eu possa retornar e dar continuidade a história do Kyle e da Ariel.
Um grande beijo a todos!


domingo, 24 de junho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XIII

by Kodama e Fantin

Sentia-me estranhamente nervoso, provavelmente pelo encontro inusitado com meu antigo amigo e companheiro de incontáveis batalhas. Perguntava-me o que teria feito ele para ser expulso da dimensão superior. A última vez que o vi foi no dia da morte de Cath. Depois de minha maldição, nunca mais havia visto qualquer um dos nossos guerreiros...
Ouvi a porta da catedral ranger nas velhas dobradiças. Junto ao magnífico órgão, onde já tivera a oportunidade de ouvir vários concertos de música celta, permaneci sentado, aguardando Damian.
Estranhava a falta de Ariel, que forjara aquele encontro.  Ela parecia realmente empenhada em ajudar os MacTrevor. Gostaria de pensar que seu interesse não fosse apenas pelos irmãos, mas não podia me dar esse luxo. Eu precisava tirá-la de minha cabeça. Talvez eu devesse procurar um bom analista nesse século para analisar essa minha tendência para me apaixonar por mulheres impossíveis. Quase consegui rir desse pensamento quando percebi alguém sentar-se ao  meu lado. Não precisei olhar para certificar-me sobre a identidade do visitante. Ele continuou sem dizer palavra alguma. Sua ansiedade era quase tão palpável quanto a minha.  Decidi tomar a iniciativa e romper o silêncio.
- É uma pena termos que nos encontrar aqui, pois acho que ambos estamos precisando de uma bebida bem forte.
- Tornou-se sarcástico ao longo dos séculos? – perguntou sem sorrir.
- E você virou um pregador aborrecido?
Era visível a irritação de Damian.
- É melhor irmos direto ao assunto. Dependendo do rumo dessa conversa, poderemos relembrar os velhos tempos ou ... – aspirou o ar frio e exalou a amarga ameaça  – ... Posso te matar.
- Aborrecido e violento... Bem, pelo menos isso não mudou muito... – ironizei, quebrando a tensão imposta por ele. – Não vai precisar me matar, Damian.  Sei que o faria sem pestanejar. Se tivesse motivos. – disse, virando-me de frente para ele e encarando-o sem qualquer sinal de sarcasmo. – Eu jamais faria mal a seus filhos, principalmente à Leonora.
Damian levou alguns instantes para falar.  Certamente tentava digerir a ideia de estar conversando com um vampiro, que tinha sido seu amigo, e ponderando sobre a possibilidade confiar nele ou não.
- Ariel tentou me tranquilizar quanto a isso...
- Ora, isso é uma surpresa... – paralisei a fala ao notar uma lágrima deslizar solitária na face do pastor.
Seguiu-se um suspiro entristecido.
- Pelos Céus, Elyk! O que Ele fez a você? Por quê?
- É a pergunta que me fiz por algumas centenas de anos, mas que agora já não tem mais importância.
Damian sufocou a dor em seu peito e olhou para cima, na direção da abóboda feita de arcos perfeitos e continuou.
- Eu não pude suportar ou aceitar a sua punição e pedi para ser exilado e servir na Terra. Ele acabou cedendo ao meu pedido, certamente por entender que eu não poderia mais corresponder às Suas expectativas como guerreiro celestial.  Assim, tornei-me um anjo caído, pouco tempo depois da sua expulsão.
- Por que não me procurou? – perguntei comovido.
- Tinha medo do que encontraria. Medo de ter que destruí-lo. Por isso abandonei a Escócia e passei a percorrer o mundo, procurando entender os homens, seus conceitos e conhecer o livre-arbítrio humano. Caí em pecado e cometi crimes incontáveis durante um longo tempo. Poderia ter sucumbido nessa busca não fosse minha estrutura angélica. Participei das Cruzadas, das obras jesuíticas no Novo Mundo e trabalhei na resistência contra os nazistas na Grande Guerra. Amei muito, mas  sofri em igual intensidade,  a cada amada que via envelhecer e morrer em meus braços, ao ver meus filhos e netos perecerem da mesma forma... – Nesse momento sua voz embargou, mas logo voltou a narrar sua jornada. – Com a alma apaziguada, retornei a Escócia. Acompanhei sua trajetória como banqueiro, as notícias de suas falsas  mortes e seus ressurgimentos  como jovem herdeiro.  Conheci a mãe de meus filhos e me apaixonei mais uma vez. Alicia era descendente do clã MacTrevor para onde levamos os sobreviventes da chacina naquele dia infeliz. Quando Leonora nasceu foi uma grande alegria, mas à medida que ela crescia, meus temores me atormentavam. A cada dia ela mais se parecia com a sua Cathella, fosse por  uma armação genética ou  desígnio divino.  Passei a temer que ela o encontrasse. O destino encarregou Dominic de fazer isso tornar-se realidade.
- Às vezes tenho a sensação de fazer parte de um grande jogo... – pensei alto, mas logo voltei à lógica. – Ariel lhe contou a situação em que nos encontramos?
- Sim. O que podemos fazer?
- Kolchak me deu um prazo que expira em exatos vinte e cinco dias. Entretanto, conhecendo-o como conheço, tenho certeza que ele tentará dar mostras do seu poder antes desse prazo para forçar minha definição. Temos que ficar atentos. É um alívio saber que você estará por perto. Temo que Ariel não tenha poder suficiente para proteger Dominic e muito menos Nathanael, aquele anjo que mais parece saído de  uma propaganda de Natal, para proteger Leonora.
- Então,  temos uma aliança? – indagou Damian estendendo-me a mão.
- É um prazer ter você de volta ao meu  lado, Damian. – respondi agarrando firmemente a mão estendida.
- Igualmente, Elyk. – comemorou devolvendo o aperto com força, como nos velhos tempos.



- Por que não vai esfriar a cabeça em um dos jardins de repouso dos Guardiões? – perguntou Dominic, angustiado com a minha agitação. 
Se arrependimento matasse, eu estaria morta e, pior, sem saber como tinha sido a conversa entre aqueles dois. Só esperava que eles não decidissem resolver diferenças ao velho estilo dos guerreiros. De repente, a sugestão de Dominic me pareceu atraente... Porém, o jardim em que pensei não era exatamente aquele para onde ele estava me mandando.
- Tem certeza que ficarão bem? – perguntei enquanto dava uma espiada em Leonora, que dormia feito um querubim, em sua cama, depois do forte sedativo que lhe foi dado por Dominic. Desde o ataque que sofrera, não tinha conseguido pregar o olho.
- Vá esfriar a cabeça e volte depois. O Nathanael está aqui conosco... Está? – interrogou em voz alta com a intenção de certificar-se de sua afirmação.
- Estou! – exclamou Nathanael irritado, da cabeceira de Leonora.
- Bem... Já que é assim, com licença. Fui!
Materializei-me entre as  urzes perfumadas do jardim de inverno em Malachy. Desde a primeira vez em que estivera ali, senti uma atração irresistível por aquele lugar. Talvez o motivo fosse o amor que estivera envolvido na construção daquele santuário. Eu podia senti-lo em cada pedra, em cada grão de terra e em cada raiz plantada. Quase sentia inveja da mulher que inspirara Kyle a construir algo tão belo e delicado.
- A invasora de propriedade privada voltou a atacar ...
Tive um sobressalto ao ouvir a voz grave e cálida de Kyle. Voltei-me e o vi de pé, com os  braços cruzados sobre o peito, relaxadamente apoiado no umbral da porta, com aquele sorriso de escárnio costumeiro.  Irritada por ter sido pega de surpresa, mais uma vez, engoli em seco e fiz o meu pedido de desculpas esfarrapadas.
- Sinto muito ter invadido o seu santuário, mas ele me impressionou muito na última vez que estive aqui. Eu estava ansiosa para saber o resultado do seu encontro com Damian, por isso vim para cá para ficar a sua espera. Já estou de saída. Podemos conversar outra hora, em outro local.
No instante em que procurava encontrar organização mental para a desmaterialização, Kyle me alcançou num simples passo e me segurou pelo braço. A organização foi para o espaço.
- Não quero que vá embora! – exclamou assustando-me. – Fique... Por favor. Você combina com esse jardim ... Gosto de vê-la aqui.
Senti meu coração bombear tão rápido que pensei que ele poderia ouvir as batidas alucinadas que desencadeara.
- Não devia ter vindo aqui – disse, desviando do seu olhar que insistia em focar-me.
- Me alegra que alguma coisa nesse castelo a emocione... – disse em um tom de voz mais baixo.
Sua mão abrandou a força sobre meu braço e seus dedos deslizaram em minha pele, provocando um arrepio, que foi impossível de não ser notado por ele. Tão logo isso ocorreu, Kyle retirou a mão abruptamente  e baixou os olhos.
- Sinto que lhe cause tamanha repulsa...
- O quê? Não... Não sinto repulsa por você... – Eu precisava desesperadamente travar  minha língua nesse momento, mas... – Pelo contrário.
Os olhos verdes pousaram sobre mim novamente, com curiosidade.
- Pelo contrário?
- Sim... Quer dizer... Eu não lhe quero mal... Você já provou que eu estava errada pensando mal de você, isto é... – Eu não conseguia encontrar uma explicação razoável para o que eu acabara de dizer. E ele se aproximou um pouco mais, a ponto de eu sentir o seu cheiro... Aquele cheiro que me inebriava.
- Por que se arrepiou quando a toquei?
- Talvez esteja um pouco frio aqui...
- Os anjos não tem problemas com a temperatura externa. Esquece que fui um anjo?
Agora ele estava tão próximo que era possível sentir sua respiração em minha testa. Em meus olhos... Na ponta de meu nariz... Sobre meus lábios... Oh, Santos Terrestres... O que ele estava fazendo? Foi o último pensamento que consegui eliminar. Sua boca tomou a minha com tal  ternura que  paralisou qualquer reação de recuo. Ele saboreava minha boca como se eu fosse o mais doce dos néctares. Senti sua respiração acelerar e logo os braços fortes me envolveram e forçaram nossa união. Independentes de minha vontade, minhas mãos subiram lentas e tremulas pelo seu corpo, até alcançarem suas espáduas, quando o imitei puxando-o ainda mais contra meu peito, como se isso fosse possível. O beijo tornou-se mais intenso. Sua língua torturava a minha, acarinhando, sugando, misturando-se em mim. Perdi a noção de tempo e espaço, suspirei e tive uma sensação de dèjá vu, o que era totalmente sem sentido, pois eu nunca fora beijada daquela maneira por anjo ou homem algum. Então suas mãos ganharam vida sobre meu corpo, pressionando, palpando, moldando... Oh... Aquele era o verdadeiro paraíso...  Sua boca abandonou finalmente a minha deixando um vazio momentâneo, que logo foi preenchido pelos beijos suaves em meu rosto, descendo por meu colo... Seus dedos trabalhavam disseminando prazer, descendo a alça de minha veste... Ofeguei quando a língua ágil brincou em meus seios. Ouvi o seu gemido e sua voz rouca me chamando ao longe... Ariel... Estranho nome...
- Elyk... – gemi, respondendo.
Com a sensação de estar caindo no vácuo e um frio de morte avançando sobre minha alma, Kyle se afastou.
-  A sua voz... Por que me chamou de Elyk?
A pergunta me arrancou definitivamente da onda de volúpia em que me encontrava.
Assustada com minhas emoções e incerta sobre o rumo a tomar, fugi do jardim que ele erguera para Cathella e de seus braços, envergonhada por imaginar que ele, um dia, talvez  pudesse me amar como a ela.

(continua...)

Mais uma vez peço desculpas pelo atraso na postagem, mas há cerca de dez dias estou enfrentando problemas de saúde na família e isso tem me tomado bastante tempo, além de roubar um bocado da inspiração que preciso para escrever.
Um beijo grande para as nossas queridas comentaristas (Nadja, Vanessa e Dioceli) da  semana, incluindo a Cacá, que comentou em uma das minhas primeiras postagens, Um Amor na Montanhas, e as boas-vindas aos novos seguidores, que agora enfeitam a barra lateral do blog com seus rostos e me deixam muito feliz por saber que a sementinha que plantei há tres anos continua florescendo.
Um abraço muito afetuoso e beijos para todos!
Até a próxima postagem!






sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XII

by Kodama e Fantin


O ensolarado dia seguinte ao baile parecia ter sido encomendado especialmente para fazer os sobreviventes esquecerem o que acontecera à noite. Sentindo-se responsável pelo ataque que Leonora sofrera, Kyle encerrou seus compromissos sociais e profissionais mais cedo e levou-a, juntamente comigo, para um passeio a pé pela cidade antiga de Praga, o bairro Malá Strana, onde tivemos a oportunidade de conhecer o castelo de Hradcany, entre outros belíssimos pontos turísticos. Era evidente o desconsolo de minha irmã, que apenas em raros momentos mostrara um tênue sorriso. Eu ainda estava preocupado com o que Ariel ficara de me contar a respeito de Kyle, mas que, após os acontecimentos atordoantes do baile, acabou por protelar. Por sinal, ela estava com uma cara horrível desde o início daquela manhã. Ao perguntar a causa, me arrependi instantaneamente, tal o mau humor  que acompanhou a resposta.
- Estou ótima! – grunhiu.
Era  óbvio que alguma coisa estava acontecendo entre ela e Kyle. No entanto, certamente eu teria que esperar que minha amiga de asas recuperasse seu bom humor e pudesse me esclarecer tudo.
Ao fim do passeio, após o almoço em um agradável bistrô no centro histórico, quando retornamos ao hotel, Kyle revelou que antecipara nosso retorno para o final da tarde e pediu que nos preparássemos. Deu como desculpa alguns problemas em seus negócios a resolver em Edimburgo, mas eu sabia que a real causa era o infeliz incidente da noite anterior. Notei o quão preocupado ele ficara. Diversas vezes, durante a manhã, o percebera olhando de maneira preocupada, ora para Leonora ora para mim.
Deixei minha irmã em seu quarto, atarefada em arrumar as malas e – surpresa! - sem reclamar. Ariel sumira desde o início do almoço, mas assim que fechei a porta de minha suíte, ouvi sua voz.
- Precisamos conversar, Dom.
- Já não era sem tempo. Desde ontem que você está muito estranha... O que está acontecendo?
- Eu nem sei como começar...
- É tão ruim assim?
- Descobri que Kyle é uma espécie de anjo caído.
- O quê? Uma espécie...?
- Ele foi amaldiçoado por Deus a viver na Terra como um ser das sombras.
- Ser das sombras...? O que quer dizer com isso, Ariel?
- ... Kyle é um vampiro.
- Como? – minha voz estava embargada com o susto.
- É uma história longa... Por punição divina ele foi condenado a viver na Terra como um vampiro, seduzindo e alimentando-se de mulheres para sobreviver.
Já tinha ouvido histórias a respeito desses seres, mas saber que conhecia um de verdade... Imediatamente pensei em Leonora e um arrepio me percorreu ao imaginar se ela não corria perigo. Tentei afastar esse pensamento terrível... Kyle não seria capaz...
- E por que ele foi punido? O que ele fez?
- Apaixonou-se por uma mulher.
- Só isso?
- Também achei algo extremo, mas não podemos julgar os atos Dele.
Meus pensamentos de aflição logo se transferiram para outra pessoa.
- Está pensando em Yesalel? – perguntou ao ver minha expressão.
- Sim. Certamente Ele sabe do que acontece entre nós, tanto que a proibiu de continuar como minha protetora.
- Talvez Ele tenha se tornado mais tolerante...
- E o que mais a preocupa? Não acredito que Kyle possa nos machucar... Acha que Leonora corre algum risco?
- Aí é que está... Leonora, segundo ele, é igual à mulher por quem era apaixonado. Entretanto, não creio que ela corra risco algum. Ele gosta de vocês e não quer que nada de mal lhes aconteça. Ontem ele tentou  provar isso.
- Como assim? – perguntei mais aliviado com a opinião de Ariel, que ia de encontro a minha intuição.
- Kyle tentou se destruir ontem à noite. Deixou de se alimentar e pretendia morrer, deixando você como seu único herdeiro. 
- O que você está dizendo? Mas porque ele tentou fazer isso?
- O Filho das Trevas quer que Kyle se torne um deles. Há séculos tenta levá-lo para o lado do Mal e costuma ameaçar  pessoas com quem ele tenha algum envolvimento afetivo para forçá-lo. Até agora não teve êxito, mas parece  que o miserável encontrou algo que pode mudara situação.
- Como assim?  -  perguntei, apesar de imaginar qual seria a resposta.
- É o que você está pensando... Ele está usando Leonora e você para chantagear Kyle.
- Oh, meu Deus!
 - O que aconteceu à Leonora ontem não foi ao acaso.
Isso era totalmente aterrorizante. Imaginar que estávamos à mercê de forças malignas contra as quais não podíamos ter qualquer controle era terrível.
Levei alguns momentos para me recuperar e voltei a falar.
- E o que nós podemos fazer?
- Ainda não sei como lutar contra isso, como protegê-los... Terei que buscar ajuda de meus superiores.
-  Mas, se Kyle é um anjo caído, talvez o seu pedido de ajuda não seja bem-vindo.
- Algo terá que ser feito. Não posso deixar vocês ou Kyle ficarem a mercê daquele monstro. – Era evidente o horror de Ariel, no tom de voz e na expressão do seu rosto.
- Você está apaixonada por ele?
- Claro que não! – exclamou  indignada, como se estivesse tentando convencer-se a si mesma.
- Está bem... Não vou discutir isso. Não é da minha conta. Desculpe. – falei compreensivo, pois eu também enfrentara uma confusão de sentimentos quando descobri meu amor por Yesalel. Não era nada fácil amar um anjo. Imaginei como seria para Ariel estar  amando alguém como Kyle, principalmente agora que sabia quem ele era realmente.
Não voltamos a nos falar até a chegada em Edimburgo. Aliás, não a vi nem senti mais até terminar a viagem.



Depois de fazer um resumo de tudo a Nathanael, pedi que ele reforçasse seus cuidados com Leonora. No íntimo, sabia que Kyle, agora recuperado de sua "privação alimentar", também protegeria os irmãos MacTrevor. Por isso, depois de conversar com Dom, decidi ir atrás de Samuel e esclarecer minhas dúvidas e indignação. Materializei-me nos portais da Central dos Guardiões. Respirei fundo, tomei coragem e entrei determinada a enfrentar a "fera".
- Olá, Ariel – soou a voz de tenor tão logo entrei em sua sala – Eu já a esperava...
- Então sabe por que estou aqui. Pode começar a falar e explicar-se sobre o que está acontecendo!
- Olhe o respeito com seu superior! – disse não muito convincente. – Não pense que vou permitir que me fale dessa maneira.
- Você não me respeitou quando escondeu a verdade de mim, lançando-me no meio de uma tremenda confusão.
- Foram Ordens Superiores. Apenas cumpri meu dever... Por mim, você não teria sido eleita para essa missão. Acredite em mim. – terminou por dizer... E havia muita sinceridade em seu olhar.
A única pergunta que eu conseguia ouvir reverberando em minha cabeça era: POR QUÊ?
- Por que não disse que conhecia Kyle, ou melhor, Elyk?
- Se trata de uma nova batalha contra o Mal, Ariel. Não mudaria em nada você saber que eu o conhecia ou saber quem ele era mil anos atrás.
- Claro que mudaria! Eu não teria perdido tempo acreditando que ele era o Mal!
- Isso não impediu que você gostasse dele... – disse em voz baixa.
Será que eu tinha algum tipo de sinalizador na testa dizendo que eu amava Kyle Sinclair ou eu era o anjo mais transparente da face dos céus?
- O que eu preciso saber é como proteger meu humano e sua irmã...
- E Elyk. – completou Samuel.
- Sim... Ele também está em perigo. Não creio que o Criador queira que ele cruze definitivamente para o outro lado.
- Obviamente que não. Elyk resistiu bravamente por um longo tempo  e provou continuar fiel ao Nosso Criador, apesar de tudo. Infelizmente, ele terá que vencer essa batalha sem a intervenção superior.
- Como?
- Com a sua ajuda ou de quem mais estiver disposto a ajudar... Na Terra.
- É só isso que pode me dizer?
- Dois conselhos mais... O demônio pode estar nos locais mais improváveis. Cuidado! Desconfie de todos a sua volta. E, Ariel... Você é mais poderosa do que pensa.
- Regras de Autoajuda? Numa hora dessas? Nenhum exército de Arcanjos na manga só para dar uma mãozinha? – disse mais irritada do que deveria estar, pois afinal, como Sam havia dito, Ele era o responsável pelo modo de condução desse caso. Contudo, acabei por exclamar – Poupe-me de seus conselhos.
- Lembrará deles na hora certa, Ariel.
- Uma última pergunta, Samuel...
- Sim?
- Sendo um anjo guerreiro, deveria estar em um nível superior, junto ao Criador. Por que ficou aqui como chefe de departamento? É essa a causa de seu eterno mau humor?
Notei a face de Samuel mudar de cor e anuviar-se. Atingira seu ponto fraco, com toda a certeza. Cheguei a desejar não ter sido tão maliciosa, mas às vezes certos sentimentos humanos, indesejáveis em um anjo, se apoderavam de mim. Eu não conseguia esconder a raiva que sentia por Samuel, mesmo sabendo que ele não era o único responsável pelo que estava acontecendo. Nem eu mesma entendia o que estava sentindo.
- Desculpe... – falei arrependida. – Não deveria ter tocado nesse assunto.  Às vezes perco o controle da língua.
- Talvez esse seja o seu lado mais atraente... Um dia talvez eu lhe conte a minha história, mas no momento... Gostaria que você voltasse ao seu trabalho imediatamente. – terminou por dizer secamente.
Ele voltara a ser o velho e bom Samuel, meu chefe. Sumi dali como ele desejava. Fui encontrar Dom. Ele estava desembarcando no aeroporto de Edimburgo, juntamente com Leonora e Kyle. Angus, em sua habitual elegância e discrição, como todo bom mordomo britânico, já os esperava, junto à pista de pouso, com um lindo Rolls-Royce Silver Wraith. Para minha surpresa, Leonora permaneceu calada a maior parte do percurso para casa. Aparentemente, o incidente da noite anterior provocara um tipo de  amadurecimento na menina de dezessete anos.  Kyle também estava calado, sentado do lado esquerdo de Angus, com seu rosto másculo indecifrável e o olhar vago na paisagem enevoada que corria através da janela do carro. Tinha quase certeza que ele sabia de minha conversa com Dominique sobre sua história. Era certo que teríamos que falar a respeito de como combater os demônios. Eu estava perdida. Eles podiam usar dos mais baixos meios para forçar Kyle a converter-se e ninguém melhor que ele próprio, que os enfrentava há quase mil anos, para montar um esquema de proteção aos dois irmãos e a ele próprio. O que eu ainda não entendia era o porquê de eu ter sido escolhida para participar dessa missão. Logo eu que sempre tive problemas em conduzir minhas tarefas, com minhas atitudes mais humanas que angelicais. As dúvidas rondavam minha mente, quando o carro estacionou diante do prédio onde moravam os MacTrevor.
Kyle fez questão de acompanhá-los até o apartamento. Leonora continuava muito estranha e Nathanael havia sumido. Aliás, ele vinha se ausentando com muita frequência ultimamente. Ou ele estava ficando preguiçoso ou eu o estava assustando com a minha preocupação extrema. Desde o início, eu meio que assumira a proteção de Leonora , como se os irmãos formassem um pacote único. De qualquer maneira, ele tinha suas responsabilidades. Principalmente agora, eu precisaria dele para criar uma proteção especial contra aqueles tipos infernais. Esperava contar com Yesalel também. Qualquer ajuda seria bem vinda. Se até agora ela não havia sido advertida é porque talvez ela fizesse parte de algum plano divino.
Ao entrarmos na pequena sala da casa de Dom, uma surpresa de quase dois metros de altura, cabeça raspada e dois enormes olhos cinzas muito claros nos aguardava.
- Pai!? – exclamou Dom.
Damian abriu os braços e aconchegou com facilidade Leonora e Dom, que não conseguiam esconder a saudade e a admiração pelo homem que os trouxera ao mundo.
Assim abraçado aos filhos, seu olhar logo encontrou o de Kyle e toda a alegria, que antes brilhava pelo reencontro familiar, cessou imediatamente, dando lugar a um misto de tristeza e temor.
- Quando chegou? Por que não nos avisou? – falou Dom.
- Cheguei hoje. Estão bem?  - perguntou olhando diretamente para Leonora, como se soubesse do ocorrido em Praga.
- Estamos... – respondeu Dom, enquanto Leonora derramava algumas lágrimas. – Pai, quero apresentar-lhe um amigo. Kyle Sinclair.
Esse permanecia imóvel como uma estátua e seu rosto inabalado.
- Kyle... Sinclair. – repetiu o nome dito pelo filho.
- Damian... – finalmente Kyle reagiu, fazendo uma pequena reverencia com a cabeça, como se conhecesse.
- Mas... Eu não disse o nome dele... – surpreendeu-se Dom.
- Não é necessário, meu filho. Conheci Ely... quero dizer, o senhor Kyle Sinclair há muitos anos.
- Como?
- Você saberá ... Logo... O mais importante agora é que voltei, pois pressenti que estavam em perigo...  E agora tenho certeza disso. – falou olhando diretamente para o banqueiro.
- Eu não teria tanta certeza da fonte do perigo, meu caro. – redarguiu Kyle.
-  Que tal terem uma conversa reservada?
Os dois  antigos anjos guerreiros voltaram seus olhares para mim. Apenas Leonora não entendeu porque eles olhavam um canto vazio logo atrás de seu irmão.
- Meu nome é Ariel, Damian. Sou a nova protetora de seu filho e estou precisando de toda a ajuda possível para ter absoluto sucesso em minha função. Existe um lugar aqui em Edimburgo onde poderemos estar seguros. Que tal uma reunião amigável e elucidativa?
Com a concordância de ambos, foi marcado um encontro para o dia seguinte, na Catedral de Edimburgo.

(continua...)


Oi, meus caríssimos leitores!
Desculpem por demorar a postar hoje, mas foi por motivos alheios a minha vontade.
Espero que tenham gostado do capítulo e que deixem seu comentário.
Quero deixar o meu agradecimento especial, como sempre, para a Leia, a Nadja, a Vanessa e a Dioceli, minha amigas muito queridas, que sempre vem deixar o seu estímulo e carinho aqui no blog.
Amo voces!
Um beijo cheio de afeto, meu e da Aline, para todos! Até a próxima semana!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O Vampiro de Edimburgo - Capítulo XI

by Kodama e Fantin

Apesar de já me sentir recuperada pela perda de sangue, eu não conseguia me mover, paralisada que estava depois de ouvir o relato de Kyle.
- Então... Você é um anjo caído? – perguntei estupefata.
- Uma péssima companhia para você...
- Adotou o nome Sinclair em homenagem à sua... – Não consegui completar a frase por algum motivo.
- E Kyle, que obviamente é o inverso de meu antigo nome. Kyle Sinclair... Eu poderia ter sido mais criativo, não acha? – indagou parecendo divertir-se com o fato. – Na verdade, acabei por escolher esse nome em meados do século XIII, quando iniciei minha carreira como banqueiro. Como descobri que era importante o registro das transações comerciais, precisei adquirir um nome real.
- Por que está brincando com isso? Não há nada de engraçado na sua história...
- O tempo desgastou meus sentimentos e aplacou meu ódio e o desejo de vingança. Hoje vejo que nada disso é importante. Quem realmente me importava pereceu e, mesmo que eu soubesse o porquê ou quem provocou sua morte, isso não a traria de volta.
Senti  uma grande necessidade de consolar aquele homem-vampiro-anjo, ou fosse lá o que ele fosse. Queria abraçá-lo e beijá-lo, até que sua dor desaparecesse e ele substituísse Cathela em seu coração...
- Pensei que ela havia voltado para mim quando conheci Leonora. – ele continuou.
- Leonora?
- Ela é exatamente igual à Cath. Pelo menos, fisicamente... Acredito que algum sobrevivente dos Sinclair foi levado ao clã dos MacTrevor e a hereditariedade, depois de todos esses séculos,  tornou Leonora fenotipicamente igual á minha Cath.
Então... Ele já tinha uma substituta em seu coração... E não era eu...
- Por que queria se matar? – perguntei para evitar pensar em mais bobagens ilusionistas.
- Kolchak me procurou mais uma vez e ameaçou a vida de Dominic e de Leonora caso eu não me una a ele e a toda a corja de Lúcifer.
- Como? – Tive um sobressalto.
- Nas últimas visitas que ele me fez, conseguiu determinar  pessoas com quem eu estava afetivamente envolvido e torná-las vítimas para me chantagear. Na primeira vez, conseguiu me enganar, colocando um de seus lacaios fingindo ser amigo. Quando descobri, o pobre condenado baixou aos níveis mais baixos do Inferno. Nos séculos seguintes, passou a escolher entre humanos por quem eu tinha alguma empatia.
- Dom seria o escolhido neste século? – perguntei, apesar de já saber a resposta.
- É o que tudo indica...
- Eu fui enviada para proteger Dom de alguma coisa maligna. Até pouco tempo imaginava que fosse você o Mal a ser afastado dele. Agora sei que não é você o perigo... Pelo menos... É o que tudo indica. - tentei brincar... Mas ele não sorriu.
A partir daí resolvi calar-me. Ainda não tinha certeza se realmente podia confiar em Kyle; mesmo depois de tudo que ele me contara. Tinha medo de ser enganada por meu coração... Também precisava falar com Samuel a respeito de seu passado e por que ele escondera informações tão importantes. O quebra-cabeça parecia mais confuso ainda. Minha cabeça começou a doer muito. Talvez a descoberta sobre Elyk, sobre meus sentimentos em relação a ele, dos sentimentos dele para com Leonora... Eu precisava sair dali...
- Ariel! – exclamou Kyle angustiado, provavelmente preocupado com a minha expressão de dor e por ter fechado os olhos. – Você está bem?
- Estou bem. – respondi secamente, abrindo os olhos e tentando fugir do seu olhar. Tinha medo que descobrisse o que realmente eu sentia por ele. Era algo inadmissível... – Tenho que sair.
Tentei levantar-me, mas sua mão, agora dotada de nova energia, agarrou-me pelo braço, evitando que eu fugisse.
- Você não me parece muito bem. – falou com aparente preocupação, algo que atribuí à minha fértil imaginação e ao desejo de que aquilo fosse real.
- Quer fazer o favor de me largar? – quase gritei. Precisava desesperadamente escapar daquele quarto,  da minha ridícula fantasia e... daquele olhar.
Ele recuou visivelmente aborrecido.
- Pode ir. Já cumpriu sua boa ação do dia e conseguiu todas as informações sobre mim. Ganhou seu dia, não? – disse irritado.
Afinal, voltara a ser o vampiro de sempre.
- Pode ter certeza que sim.
- Seu protegido não precisa temer nada de mim... Nem você...
O modo como ele falou as duas últimas palavras me deixaram tão atordoada, que me desmaterializei imediatamente, deixando-o cabisbaixo, sentado à cama.
Com um pouco de esforço, mentalizei Dom e o localizei ainda na Ópera de Praga. Que festa mais comprida! Isso que o homenageado já nem estava mais lá. Aliás, por pouco não faria mais parte desse mundo... Ainda não decidira se deveria contar a história de Sinclair para o meu protegido ou procurar Samuel e espremê-lo contra a parede até ele falar tudo que sabia sobre esse enredo mal explicado.



- Então,  pensou que se livraria de nós acabando com sua vida? – A voz de Kolchak era inconfundível. Irritante e inconveniente.
- O que está fazendo aqui? Nosso encontro não era para daqui um mês? – perguntei aborrecido com a invasão do demônio.
- Quero lembrar que o suicídio pode levá-lo até nós...
- Para um morto-vivo não existe esse termo suicídio, portanto eu não iria a lugar algum.
- Caro Kyle... Espero que não tente mais esse tipo de subterfúgio, caso contrário seus queridos amigos, Dominique e Leonora o acompanharão de qualquer maneira a lugar algum... Meu chefe não ficou nada contente com o que você fez...
- Suma daqui!
- Antes, gostaria de falar sobre a inocente Ariel, que tão corajosamente o salvou, mesmo sendo você quem é. Sem querer ela nos foi útil, alimentando-o. Diria que é um ser muito especial...
Kyle sentiu como se lava quente ameaçasse sair de seu peito, mas segurou a explosão e manteve o olhar o mais impassível que pode, para não dar motivos a Kolchak para perseguir a protetora de Dom. Ele não podia demonstrar seus sentimentos ou ela se tornaria o foco de atenção daqueles monstros.
- Ela me odeia. Fez aquilo porque é um anjo, uma pobre domínio, que não poderia ver nem um cão morrer em sua frente, sem tentar ajudá-lo.
- Pode ser, mas vou ficar de olho nela... Em vocês...  – disse, apontou o dedo ameaçadoramente para mim e desapareceu.
Teria a festa terminado? Peguei o telefone sobre a mesa de cabeceira ao lado da cama e liguei para a recepção. Uma sensação nada agradável tomou conta de mim.
- Boa noite. Poderia me informar se Dominique MacTrevor e sua irmã já retornaram ao hotel?... Ainda não?... Obrigado. – encerrei a ligação preocupado.



A sirene do carro policial já fora desligada e os convidados começavam a retirar-se, passado o interesse pelo infeliz ocorrido. O culpado ainda encontrava-se na sala reservada sendo interrogado pelo policial em serviço naquela noite, enquanto Leonora descansava num sofá do salão principal, rodeada pelos braços de seu irmão, ainda com expressão de medo e vergonha pelo que acontecera. Instintivamente, procurei Nathanael com um pedido telepático, mas ele surpreendentemente não respondeu. Então fui direto para Dom tentar saber o que acontecera em minha ausência.
Ao  ver-me, lançou um olhar cansado e ao mesmo tempo aliviado. Com movimentos labiais, disse que falaria comigo depois. Também consegui entender que Leonora estava bem. Apenas assustada. Foi então que Nathanael surgiu ao meu lado.
- Onde você estava e o que aconteceu aqui? – perguntei exaltada.
- Eu estava procurando por você para dar um apoio ao seu protegido! Você agora resolveu ser babá de banqueiro?
- Achei que estava tudo bem. Pensei que você pudesse dar conta do recado sozinho.
- Cada um tem a sua responsabilidade...
- E pelo jeito você não deu conta da sua!
Nathanael fechou o cenho e não respondeu.
- O que aconteceu? Pode me dizer, senhor Nathanael?
- Leonora foi atacada por um dos rapazes com quem estava flertando.
- Como assim, atacada?
- Felizmente não aconteceu nada grave, mas ele tentou violentá-la em uma das salas de música do prédio.
- Oh, Santo Deus! Como você deixou isso acontecer?
- Não aconteceu nada, pois eu interferi; caso contrário ela teria perdido sua virgindade hoje!
- Está bem... Desculpe... Fiquei nervosa com tudo isso e culpada por não estar presente para ajudá-lo. Você agiu corretamente.
Um policial a paisana aproximou-se do casal de irmãos e disse algumas palavras. Num segundo eu estava ao lado de Dom para ouvir o que ele dizia.
- Gostaríamos que a senhorita desse um pequeno depoimento. É possível?
- Posso acompanhá-la? – perguntou Dominique.
- Não! Eu prefiro ir sozinha... Por favor. – rogou ela remoída em vergonha.
- Tem certeza que quer falar com ele a sós? – indagou protetor.
- Tenho... Eu ficarei com vergonha de você se estiver junto, entende? – explicou docemente.
- Entendo... Mas se mudar de ideia, me chame, certo? – falou aconchegando as mãos da irmã entre as suas e depositando um beijo sobre o dorso de uma delas.
- Certo. – respondeu com um sorriso tímido nos lábios, para logo olhar para o investigador que aguardava pacientemente a sua frente e dizer, subitamente amadurecida. – Estou pronta.
- Pode ser aqui mesmo. São apenas poucas perguntas para estabelecer a queixa contra aquele safado. Ele não tem ficha ou histórico algum no departamento. – esclareceu o homem em um inglês com forte sotaque.
- Então, eu vou ficar logo ali. – disse Dom apontando para uma janela alguns metros adiante, distante o suficiente para dar a reserva necessária para não ouvir  o que Leonora conversaria com o policial.
Foi a deixa para que eu me aproximasse de Dom e soubesse o que acontecera com detalhes.
- O que houve, Dom?
- Um dos rapazes com que Leonora dançou, num momento em que me distraí,  levou-a até uma sala isolada e tentou... Você sabe... Por sorte, Nathanael me avisou e eu pude chegar a tempo antes que acontecesse algo mais sério. – Só então percebi o rosto de Dom machucado e um inchaço sob o olho direito.
- Você lutou com ele?
- Sim... Por que acha que chamaram a polícia? Quando vi o que estava acontecendo, enlouqueci e me joguei sobre o miserável. Acho que o mataria se não tivessem me tirado de cima dele. Acho que esse nunca mais vai tentar forçar outra garota a fazer o que ele quer.
- Oh, Dom... E eu não estava aqui...
- Não se culpe... E Kyle, como está?
- Agora está bem, mas... Mais tarde teremos que conversar sobre ele.
- Algum problema sério?
- Mais tarde... Agora temos que dar atenção a Leonora.
Meu olhar foi desviado para a entrada principal onde uma figura imponente, minha conhecida, entrava  ameaçadoramente. Como ele soubera do que estava acontecendo?
Porém, ao invés de ir em nossa direção ou na de Leonora, encaminhou-se para a sala onde o aprendiz de violentador estava detido.
- Fique com a Leonora, que vou ver o que está acontecendo.
Imediatamente me encaminhei à sala reservada.
- O senhor não tem permissão para entrar aqui. – dizia o homem de farda para Kyle.
Este olhou o homem seriamente aborrecido.
- Eu sou responsável pela jovem que foi agredida e, portanto, tenho direito de falar com essa... besta.
- Certamente, senhor. Aguardarei ali fora.
Ele usara algum tipo de poder mental sobre o pobre humano. Fiz menção de me retirar, pois não queria ser testemunha de qualquer violência, mas fui segura pela voz firme e grave de Kyle.
- Fique! Quero que veja isso.
- Não pretendo ver ninguém ser massacrado.
Ele riu, e tornou a virar-se para o infeliz, que estava algemado e sentado na borda do assento de uma poltrona de veludo, num dos cantos da saleta. Fuzilou-o com o olhar, provocando uma expressão aterradora na face do jovem.
- Olhe, não sei quem você é, mas precisa acreditar que não sei o que aconteceu. Achei ela linda e apenas queria beijá-la... Normal... Mas então algo se apoderou de mim e... Não sei o que aconteceu! Foi como se algo primitivo tivesse tomado conta de ... – Sua fala foi interrompida e seu corpo se enrijeceu, fazendo-o atirar a cabeça para trás e revirar os olhos até que apenas o branco das escleróticas ficasse visível. Seu rosto, parecendo uma máscara  distorcida, voltou-se na direção de Kyle, que não aparentava surpresa alguma com o que estava acontecendo.
- Isso foi apenas um aviso, Elyk... – disse com uma voz gutural, liberando uma gargalhada assustadora ao final.
- Quanta honra receber o próprio Lúcifer, ao invés do seu lacaio.  – disse sarcástico. – Parece que consegui irritá-lo mesmo.
- Que bom que ainda conserva seu senso de humor... Logo não o terá. – ameaçou e calou-se, liberando sua vítima.
O jovem, livre de sua possessão, amoleceu o corpo e desabou desleixadamente sobre a poltrona, desacordado.
Materializei-me. Devia estar com aparência de morta,  pois Kyle clamou meu nome até que eu me fixasse em seu olhos.
- Fale comigo, Ariel...Está bem?
- Estou... – sussurrei.
- Entende agora o que eu lhe falei lá no hotel?
- Sim... Mas por que ele fez isso com Leonora?
- Ele não gostou da minha tentativa de abandonar o jogo.
- Para você é apenas um jogo?
- Maldição! É apenas uma maneira de falar, mulher!
- Eu não sou uma mulher...
De repente, vi aqueles olhos ardentes sobre mim mais uma vez. Era assim que ele manifestava seu desprezo por mim? Fazendo-me sentir perdida? Deixei de pensar quando senti meus lábios sucumbirem violentamente sob os dele. Uma vertigem tomou conta de mim e, graças às mãos que me seguravam nada gentilmente, não fui ao solo. Senti um estranho vazio quando ele se afastou e me olhou transtornado.
- Ainda acha que não é uma mulher?
Senti meus olhos umedecerem e só pensava em me afastar daquele macho que provocava meus sentimentos e me fazia sentir tolamente estranha.
Mesmo que eu conseguisse achar minha voz para responder ao seu questionamento, não teria mais sua atenção, pois o rapaz já começava a recuperar a consciência e olhava assustado para Kyle, pois a mim ele não podia ver, pois acabara de desmaterializar-me. Fugi para perto de Dom, com a desculpa de saber como estava Leonora e tentar voltar a um estado próximo ao normal.

(continua...)


Olá! Atendendo a pedidos (não é, Léia?...rsrsrs) estou postando esse capítulo um pouco mais cedo. Espero que tenham gostado.
Mais uma vez agradeço às minhas top comentaristas, Nadja e Léia, e à visita das queridas Daniele, do blog Chá, Biscoitos e um Livro, e Pri, do blog Entre Fatos e Livros
O meu muito obrigada também àqueles que vieram até aqui, leram, gostaram ou não, e não deixaram seu comentário. Espero que continuem voltando e divulgando o blog... ou não.
Desejo a todos um excelente feriado. Curtam ao máximo esse dia (ou dias, para quem terá a chance de fazer feriadão)!
Deixo voces aqui, pois temos muito trabalho a frente para dar continuidade ao romance do Kyle e da Ariel...
Até a próxima sexta! Beijos!!