A carruagem encurtava rapidamente a distância entre Córdoba e o Reino de Villardompardo, deixando para trás um rastro de poeira na estrada pouco movimentada àquela hora do dia. Com sorte a pequena comitiva chegaria ao castelo no meio da tarde.
A chegada a Cádiz fora relativamente tranquila. Brett assumira seu posto de capitão substituto dois dias depois da despedida de Crow, apesar da insistência de Tina e de Ana para que ele continuasse em repouso. Para evitarem surpresas nas fronteiras marítimas espanholas, Brett ordenou que o nome do Highlander fosse disfarçado, colocando sobre ele um painel de madeira com o nome de Hidalgo. A bandeira espanhola foi içada um dia antes de atracarem na conhecida cidade portuária. Após o desembarque, Brett ordenou que o Highlander ficasse ancorado no porto de Cádiz até sua volta, que deveria ocorrer em torno de dez dias. Achava que esse seria o tempo suficiente para que Ana pudesse resolver os problemas com sua herança.
Para explicarem sua aparência anglo-saxônica, Brett e seus companheiros, Liam e Bald, fizeram-se passar por irlandeses, visto que nos últimos tempos a Espanha tinha oferecido apoio a causa irlandesa contra a Inglaterra. Decidiram não formar um grupo muito numeroso para não chamar a atenção em demasia. Alugaram um coche, compraram víveres e vinho, para evitar as pousadas no meio do caminho e, dessa forma, chegarem o quanto antes em seu destino. O Castelo de Villardompardo.
Apesar da profunda tristeza que acompanhava Ana, Tina notou uma mudança na postura da amiga, que passou a olhar mais demoradamente pela janela da carruagem, esboçando um tênue sorriso. Certamente a região lhe trazia recordações da infância passada na Espanha. As terras dos Villardompardo pareciam férteis e eram bem cuidadas, apesar da ausência de seu duque. Aparentemente Ana não teria problemas financeiros ou dificuldades em manter a boa rentabilidade de sua área cultivada ou dos rebanhos que abundavam as imensas pastagens.
Já se encontravam a poucas milhas da cidadela que circundava o castelo, quando um grupo de homens armados surgiu entre as árvores da estrada estreita, ameaçadoramente, ordenando que parassem.
Temerosos que fossem assaltantes, Brett e seus amigos, montados em seus cavalos e prontos a defender as mulheres que estavam dentro do coche, não obedeceram a ordem e mandaram o cocheiro acelerar ainda mais, forçando o galope dos cavalos, enquanto eles se mantinham na retaguarda para retardar o avanço dos prováveis salteadores. De espada em punho, ameaçavam os homens, enquanto a carruagem voava em direção ao burgo, com Tina e Ana desesperadas com a situação e incapazes de ajudar. Essa condição logo foi interrompida, pois mais um grupo surgiu a frente do cocheiro, assustando os cavalos e obrigando-os a parar.
Tina e Ana no mesmo instante sacaram seus punhais, que levavam presos aos tornozelos, escondendo-os da vista dos assaltantes entre os panos de suas saias. Pretendiam surpreende-los, caso as atacassem. Através da janela viram Brett e os outros serem trazidos sob a mira de ancinhos e espadas.
- Quem são vocês que ousam invadir as terras do Duque de Villardompardo? – perguntou o cavaleiro mais velho e bem vestido do grupo de dez homens.
Ana já fazia menção de esclarecer sua posição de herdeira, quando Tina a fez calar-se. Até prova em contrário eles eram assaltantes perigosos, que poderiam sequestrar Ana e pedir resgate caso soubessem quem era ela.
- Pensei que o ducado era um território livre e que receberia viajantes cansados, necessitando de pousada. – argumentou Brett, tentando manter a frieza até saber com quem estava lidando.
- Vocês são ingleses? – exclamou irritado o suposto líder ao notar o sotaque de Brett.
- Somos irlandeses e estamos a caminho de Granada – mentiu, pensando rapidamente num destino próximo e plausível.
- Por que estão tão longe de suas terras? – voltou a perguntar o chefe do bando.
- Por que esse interrogatório? Não imaginava que assaltantes de beira de estrada tivessem preocupações com o destino de suas vítimas.
Ao ouvir tal alegação o homem começou a rir, seguido por seus pares.
- Nós? Assaltantes? Hahaha!
- O que podemos pensar de um grupo armado que perturba a passagem de uma carruagem com uma escolta? – indagou Brett.
- Senhor! Tem duas mulheres na carruagem! – gritou um dos sujeitos que interceptara o coche, chamando a atenção de seu chefe.
- Duas mulheres? – disse subitamente surpreso.
Olhou para Brett e os dois mal encarados que o acompanhavam, concluindo que poderia estar enganado quanto às intenções deles.
Desceu de seu cavalo, dando sinal para que os três prisioneiros continuassem sob a mira das armas, e andou até a carruagem para verificar pessoalmente a informação recebida.
- Por favor, senhoras, desçam para que eu possa vê-las melhor.
- Não ouse tocá-las! – gritou Brett ansioso, preparando-se para defender a honra de Tina e de Ana com a própria vida.
Tensas e prontas para atacar qualquer um que as importunasse, desceram e, altivamente, encararam o homem.
- Não é possível... – disse o sujeito boquiaberto como se estivesse diante de um fantasma. – Lady Eleanor...?
Ana, por sua vez, olhou mais atentamente para o rosto, que agora lhe parecia familiar e animou-se a falar.
- Lady Eleanor era minha mãe... Don Esteban?
- Então... É a pequena Ana, filha de Ramon? – perguntou abismado com a revelação a sua frente.
- Sim... – confirmou Ana, subitamente aliviada ao reconhecer o homem que tinha sido o braço direito e amigo de seu pai nos tempos em que morava em Villardompardo.
- Não é possível... – seus olhos tornaram-se brilhantes pela evidente emoção. – Então o que disseram era verdade... Você está viva...
- O que está acontecendo aqui? Por que nos atacaram?
- Peço-lhes perdão. Eu não sabia que ... Cristóbal... Ele disse que ia atrás da senhora, apesar de não termos certeza que a informação era verdadeira. Onde ele está? – perguntou, olhando para os lados, preocupado e subitamente sério.
- Ele está morto.
Ana achou ter vislumbrado uma sombra de alívio e até o esboço de um sorriso na face de Esteban.
- Sinto muito por seu tio, senhora. – disse curvando-se em reverencia e falso pesar pela notícia da morte de Cristóbal.
- Pois eu não sinto nada.
- Estes homens são seus acompanhantes, por supuesto?
- Certamente.
- Hombres! Abaixem as armas! – ordenou sorrindo – A Duquesa de Villardompardo retornou a su casa, com la gracia de Dios!
A nova ordem fez com que Brett, Bald, Liam e Tina relaxassem. Parece que Cristóbal não era muito bem quisto entre seus vassalos também, levando em conta as expressões de alegria em seus rostos.
- Por favor, sigam-nos. – pediu Esteban. – Assim que estiverem acomodados e alimentados, teremos muito a conversar, Dona Ana.
Desculpas oferecidas e aceitas, o grande grupo seguiu em direção ao castelo, onde Ana e seus amigos foram acomodados em cômodos espaçosos e confortáveis. A Ana foi oferecida a suíte de Cristóbal, que no passado pertencera a seus pais e para onde o tio se mudara logo após a notícia do desaparecimento da família. Apesar de ser seu direito, não aceitou o oferecimento e escolheu um dos quarto de hóspedes.
Banhados e descansados, sentindo-se em segurança, todos desceram ao grande salão onde seria servido o jantar. O castelo, em seu interior, era também revestido de pedra, com as paredes cobertas por grandes tapeçarias coloridas, com cenas de caça e imagens bucólicas. Lustres de madeira gigantescos desciam do teto alto lançando as luzes de centenas de velas sobre o magnífico salão, adornado com pesados móveis de madeira escura trabalhada, com adereços em ferro batido. Ao centro, a mesa retangular, que acomodaria mais de trinta pessoas, já estava pronta para receber os convidados. Coberta com assados de porco e de carneiro, tigelas com molhos suculentos, pães de formas e texturas variadas, queijos perfumados e gamelas de cobre com frutas diversas, que davam um colorido especial à decoração gastronômica, deslumbrou os olhos dos piratas mal acostumados às regalias da nobreza.
Antes de sentarem-se foram feitas as devidas apresentações dos acompanhantes de Ana. Alguns dos homens que acompanhavam Esteban à tarde e que os havia rendido estavam presentes à mesa. Desde que Cristóbal partira em busca da sobrinha com intenções pouco esclarecedoras, Esteban permitia que seus homens de confiança compartilhassem as refeições no salão principal, coisa que jamais o Villardompardo remanescente permitiria. Resolveu dar essa regalia a eles, já que contava com sua ajuda fiel para manter a defesa do castelo e das terras contra os bandidos que normalmente ameaçavam saquear e até mesmo tomar posse do castelo. Essa foi uma das razões do ataque feito à comitiva de Ana naquela tarde, conforme explicou o atual administrador do castelo após o jantar. Infelizmente, a participação da Espanha em tantas guerras e o depauperamento da economia, devido aos grandes investimentos na Marinha, provocaram um aumento considerável na população dos desocupados e saqueadores. Por esse motivo, eram obrigados a manter turnos de vigilância para prevenir ataques aos rebanhos e cuidar da defesa da população do ducado.
Durante o jantar, Esteban contou como acabara por assumir a administração do feudo depois que Ramon e a família partiram inesperadamente. Cristóbal não era bom administrador. Gastava demais e não cuidava suficientemente bem de seus vassalos para que esses pudessem retribuir com bons lucros. Em vista do que acontecia, em breve ele colocaria toda a fortuna dos Villardompardo em ruínas. Por isso, Esteban resolvera intervir e, depois de várias discussões, convencera Cristóbal a deixar a parte administrativa a seu encargo e preocupar-se apenas com seu lazer.
- Don Esteban, preciso lhe agradecer por ter mantido as terras de meu pai tal e qual me lembrava da minha infância.
- Cumpri apenas com meu dever e em memória a seu pai, que sempre foi um amigo muito especial para mim......
– disse com evidente tristeza na voz – É um prazer e uma grande felicidade tê-la de volta ao lar, minha cara.
Ainda durante o jantar, Ana acabou por revelar sua surpreendente história, desde o modo como perdera seus pais até o momento em que conhecera Crow e seus amigos, causando comoção com sua narrativa.
- Sinto imensamente por Ramon e Eleanor... Eles não mereciam ter um fim como esse... E você, minha pequena Ana... Provou ser uma pessoa de coragem e fibra, tal e qual seus pais.
- É... Mas se não fosse por Crow... – sua face nublou-se de tristeza ao falar o apelido de Nigel – e por esses caros amigos que me acompanharam nessa aventura – terminou por dizer olhando para os quatro que estavam ao seu lado na grande mesa – eu jamais teria chegado aqui.
- Esse pirata Crow parece ser um homem de grande valor e coragem. – comentou Esteban admirado com o que fora revelado por Ana, a respeito dos motivos da separação dos dois, momentos antes.
- E ele é... – seus olhos turvaram-se. – Podem me dar licença, por favor?
Não esperou a resposta dos demais. Levantou-se e rapidamente dirigiu-se para seus aposentos no andar superior, segurando-se para não chorar diante de estranhos.
- Ana! – exclamou, Tina, preocupada com a amiga e começando a levantar-se da mesa.
- É melhor deixá-la, Tina. Ela precisa descansar. – argumentou Brett segurando-a pela mão, evitando que saísse da mesa.
- Chorar faz bem... Alivia a alma, clareia a mente e renova a esperança de um coração sofrido – disse Esteban pensativo, levantando sua taça de vinho para o casal a sua frente.
(continua...)
Queria agradecer as minhas queridas amigas Nadja e Aline que deixaram seus comentários na última postagem e a todos que, mesmo não deixando comentário, vieram até aqui e curtiram mais esse pedacinho do meu romance.
Um grande beijo a voces e até a próxima!