sábado, 16 de julho de 2011

O Corsário Apaixonado - Final do Capítulo II


Anunciou aos seus homens que ficariam pelo menos mais um dia em La Rochelle, o que os deixou satisfeitos. Passou o resto da tarde pensando em Marie e sua semelhança com a duquesa de Villardompardo. Durante a noite voltou a frequentar a taverna da noite anterior. Desta vez interesses diferentes o levaram até lá. Talvez alguém soubesse sobre o naufrágio do galeão espanhol e sobre a existência de algum sobrevivente. Como se fosse um mero curioso sondou alguns dos frequentadores, sem conseguir informação alguma. Já tinha desistido quando um sujeito se aproximou de sua mesa e pediu licença para sentar, pois tinha ouvido suas indagações a respeito do galeão naufragado. Vestia roupas surradas e escondia a cabeça em um barrete de cor indefinida. Olhava para os lados a todo instante como se tivesse medo de estar sendo vigiado.
- Isso foi há uns dez anos. Ficamos sabendo desse galeão por um dos pescadores que teria encontrado sobreviventes. – Neste ponto parou de falar e encarou Crow – Interessado em saber mais?
Crow mostrou uma moeda de prata entre os dedos de sua mão.
- Conte tudo que sabe e ganha isto.
- Bem... Esse pescador disse que o navio afundou não muito longe daqui. Se quiser que o leve até o ponto provável para encontrar as riquezas afund...
- Não me interessam as riquezas – interrompeu-o impaciente –, pois sei que nada de valor afundou com aquele barco, além de pobres marujos azarados. A mim interessam os sobreviventes e se algum deles se estabeleceu por aqui.
- Posso me informar, monsieur. – Os olhos do maltrapilho brilhavam enquanto admirava o brilho prateado nas mãos de Crow.
- Faça isso e ganhará uma segunda igual a essa. – provocou enquanto lhe entregava a moeda – Espero você amanhã neste mesmo lugar e hora.

No dia seguinte seguiu para o mercado disfarçado de mendigo, mancando e vestindo uma capa com capuz que encobria suas vestes e seu rosto. Tinha certeza de que ela apareceria por lá e quando isso acontecesse  não lhe escaparia.
Quando menos esperava, ela surgiu ainda vestida como um rapazola, com o gorro escondendo os longos cabelos ruivos. Caminhou em sua direção, o que o surpreendeu. Certamente não o reconhecera.
- Tome, meu velho, coma uma boa refeição hoje – disse colocando uma moeda na mão que Crow estendeu para tornar seu mendigo mais legítimo.
Depois disso, continuou seu caminho, deixando Crow mais curioso a respeito da jovem mulher. Era dotada de bons sentimentos. Dividia com outros miseráveis o produto de seus assaltos... Sem perder tempo passou a segui-la através das ruas de La Rochelle. No caminho a viu surrupiar a carteira de um tipo esnobe da mesma maneira que havia feito com ele. Esbarrando, pedindo desculpas e desaparecendo no meio do povo. Não pode deixar de admirar a sua habilidade e a graciosidade ao realizar tal ato, rindo consigo mesmo. Após uns cinco minutos de caminhada chegou numa ruela estreita com moradias mais antigas, em estado precário, e entrou em uma delas. Crow estreitou a adaga que trazia presa a cintura. Poderia haver mais pessoas no lugar. Talvez um marido ou amante que a extorquisse, um bando de larápios que moravam na mesma casa... Quem sabe? Só poderia saber se entrasse lá. Pensou numa maneira de se aproximar sem alertá-la sobre sua presença. As janelas estavam fechadas. Resolveu verificar a porta e viu que não estava trancada. Mancando e escondido por seu manto, entrou com cuidado. Não viu ninguém na peça. Provavelmente estivesse nos fundos, na cozinha... Tirou o capuz para poder observar melhor o ambiente a sua volta. Não teve tempo de continuar sua incursão. Sentiu uma dor aguda na cabeça, tudo escureceu e acabou por perder a consciência.

A sensação da água fria em seu rosto o fez resmungar. Será que tinha bebido demais de novo? Onde estava? O que tinha acontecido? Em meio a essas questões, abriu os olhos com dificuldade e viu a aflição adornar o que parecia ser um belo rosto de mulher emoldurado por uma cascata de cabelos avermelhados. Quando a visão ficou mais clara, viu os grandes olhos castanhos, quase dourados, de sua pequena ladra. A cabeça latejava na parte posterior onde uma imensa frigideira de ferro o atingira.
- Ainda bem que não morreu... – disse para si mesma em voz alta, suspirando aliviada. Ao se dar conta que ele poderia tê-la ouvido, arrematou – Pelo menos não vou precisar fazer força para colocá-lo daqui prá fora.
Só então Crow se deu conta que estava sentado em uma cadeira com as mãos amarradas às costas.
- Por que insiste em me perseguir? Você deve ter muito mais moedas além daquelas que eu peguei. Então, por que...?
- Quem disse que tenho mais? – blefou. Notou o olhar desconfiado a sondá-lo.
- Ora... Você veste boas roupas, tem jeito de ser da nobreza... – argumentou passando os olhos sobre ele, que continuava bem vestido sem a capa velha que a enganara.
- E se eu disser que não passo de um ladrão?... Como você.
- Não acredito. Está tentando me enganar para que eu o solte e me leve para a prisão.
- Não... Quero apenas conversar com você... Meu nome é Nigel...
Nesse instante, a casa foi invadida por quatro guardas armados, que deram ordem de prisão a jovem. Logo atrás deles surgiu o homem que ela roubara no caminho para casa.
- Quase me enganou com aquele disfarce de garoto... Além de ladra também mantém reféns em sua casa. – disse apontando para Crow – O senhor está bem?
- Estou ótimo. Contudo está havendo um engano... Estou aqui por vontade própria... – pensou um pouco antes de continuar. – Digamos que estávamos brincando um pouco... Não é, querida?
- Não sou sua querida! Ele estava tentando... me roubar!
Os cinco homens caíram na risada, enquanto Crow ficou surpreso por ela não permitir que evitasse mais uma acusação  e ainda tentasse incriminá-lo.
- Não precisa ter medo, senhor, e tentar defendê-la. Amanhã a esta hora ela já estará sem sua adorável cabeça.
- O quê? – Agora ela demonstrava terror diante da punição desmedida ditada pelo desconhecido.
- Deveria ter cuidado com quem escolhe para afanar os bolsos. – aconselhou tardiamente o esnobe.
- Como?
- O Monsieur Menotté é o novo chefe da milícia local, mademoiselle – observou um dos policiais.
- Soltem o cavalheiro e levem essa delinquente daqui.
Marie estava apavorada, mas mantinha-se sem fazer escândalo. Parecia resignada com a ideia de sua morte no dia seguinte. Cauteloso, Crow manteve-se calado, pois não podia arriscar ser descoberto como pirata que era. Já saqueara vários navios franceses e isso o colocara na lista negra da nobreza local. Agora tinha que descobrir um meio de livrar Marie da guilhotina. Sendo ela descendente de Villardompardo ou não, não merecia morrer daquela maneira. Voltou à praia onde o Highlander estava ancorado, arquitetando um plano para tirar Marie da prisão. Avisou seus homens que sairiam com a maré alta no início da noite. Que terminassem de abastecer o navio e ficassem a postos para zarparem. Retornou ao centro e foi estudar o prédio que guardava os prisioneiros da cidade. Não era uma fortificação tão bem vigiada. A maioria dos soldados ficava percorrendo a cidade para manter a ordem. À noite, provavelmente a vigilância seria menor. Não teria dificuldade em invadir a cadeia, quando escurecesse, resgatar Marie e voltar para seu navio. Pelo menos assim esperava. Talvez precisasse contar com dois de seus homens.
Concretizando o plano em sua mente, decidiu voltar à casa de Marie. Talvez encontrasse alguma prova sobre a sua linhagem. Ao chegar, notou a porta entreaberta. Achou estranho, pois a fechara quando saiu de lá no final da manhã. Entrou sem fazer ruído, mas pouco depois sentiu uma lâmina sobre seu pescoço.
- Onde está ela? – Pode sentir o cheiro forte de tabaco barato e álcool que acompanhava a voz familiar.
- Quem quer saber? – perguntou Crow, ao mesmo tempo em que jogava a cabeça para trás, batendo com força na fronte do outro, pegando a lâmina que o ameaçava e invertendo suas posições.
Ao fazer isso, reconheceu o homem que o procurara na noite anterior e a quem oferecera moedas de prata para ter mais informações sobre os sobreviventes do navio espanhol.
- Ela é minha filha...
- O quê? Sua filha? – Crow agora estava realmente surpreso. Mantendo-o sob a mira da faca, levou o velho até uma cadeira e o obrigou a se sentar. Puxou outra que estava próxima e tomou assento à sua frente. Seria uma longa conversa.
- Agora me conte direitinho que história é essa de filha?
- Primeiro preciso saber qual o seu interesse nela. Porque as perguntas que fazia ontem na taberna? O que está pretendendo?
- Ela está presa e condenada à guilhotina.
- Como? – Os olhos do sujeito se arregalaram – Você a mandou prender e agora veio atrás de mim?
- Não fui eu. – disse admirado com o pouco caso do homem em relação à Marie – E por que eu viria atrás de você? Não está preocupado com sua filha?
- Como aquela idiota se deixou prender? – pensou alto, indignado, deixando Crow enjoado com a falta de afeto presente no modo dele falar.
- Você é realmente pai dela? – voltou a perguntar incrédulo e deixou de apontar a faca para ele.
- Não sou seu pai de verdade. Eu a encontrei quando ela tinha nove anos de idade e a criei desde então. Ela não tinha mais ninguém. A mãe morreu logo depois que eu as encontrei. Ensinei a ela tudo que sabia para me ajudar nas despesas. Agora como vou fazer para sobreviver? Estou velho, doente... O senhor pode me ajudar? – disse subitamente lacrimoso.
Crow teve vontade de socar o desgraçado.
- Diga o que mais sabe sobre ela! Se não me contar tudo, acabo com seu sofrimento agora mesmo. – ameaçou mostrando a faca em sua mão.
- Por que esse interesse? Marie é só uma pobre coitada. Podia ganhar mais se fosse para as ruas como as outras, mas é muito cabeça dura e pudica para isso.
- Se continuar a falar nesse tom sobre ela, lhe arranco a língua. – advertiu raivosamente, levantou da cadeira, pegou o sujeito pelo pescoço e colocou a faca encostada em sua boca.
- Tá bem, tá bem... Não precisa ficar nervoso – disse com a voz trêmula, pois constatou que Crow, por sua atitude e tom de voz, não estava brincando. – Vai, ao menos, me dar aquela moeda de prata que está me devendo?
- Estou ficando impaciente. – alertou e aumentou o aperto em torno de sua garganta. – Quero saber como as encontrou e se a mãe dela disse algo antes de morrer.
- Faz muito tempo... – olhou para cima, mostrando que fazia algum esforço para se lembrar, mas Crow percebeu o que ele queria. Afastou a faca e buscou uma moeda no bolso, exibindo-a diante dos olhos cobiçosos. – Ah! Sim... Acabo de me lembrar... Estava andando pela praia, quando vi um bote encalhado e o choro de uma criança. Fui ver o que estava acontecendo. A mulher estava muito mal, os lábios rachados e uma palidez própria daqueles que se preparam para dar o último suspiro. Parecia que estava seca por dentro. Mal conseguia falar. Quando me aproximei, a menina encolheu-se ao seu lado, ainda chorando. Ela também não estava com melhor aspecto, mas acho que por ser criança resistiu melhor. Pelo jeito o navio onde estavam tinha naufragado e as ondas as jogaram em nossa praia. Apesar das roupas que vestiam estarem amarfanhadas, dava para ver que eram de boa qualidade, mas não encontrei nenhum bem de valor com elas. Logo em seguida a senhora morreu. Eu a enterrei lá mesmo na praia e trouxe a menina comigo. Achei que daria uma boa "ajudante".

Crow sentiu o peito arder pensando no que Drake havia feito e a culpa sobre seus ombros pelo que ele tinha sido incapaz de evitar. Estendeu a peça de prata para o pai adotivo de Marie , que por sua vez a pegou ávido, mordendo-a para comprovar sua autenticidade, um hábito adquirido ao longo dos anos.
- Ela lhe disse seu nome verdadeiro?
- Disse, mas eu não gostei, por isso passei a chamá-la de Marie. Achei Ana um nome espanhol demais para o meu gosto – disse isso e deu uma cusparada no chão. – Sabe que eram elas? – perguntou sopesando sua moeda na mão.
- Não – acabou por dizer, por achar que não valia a pena incrementar a cobiça do homem. Ele seria bem capaz de vender Marie com a informação de que ela era de família rica.
- E o que vai fazer agora?
- Pretendo tirá-la da prisão.
- Se tiver mais prateadinhas de onde veio essa daqui, talvez eu possa ajudá-lo, monsieur.
E, dessa forma, Crow e Didier, como se chamava o "mentor" de Marie, uniram-se para realizar um plano que pretendia salvar a jovem da morte.


(continua...)


Afinal Crow consegue encontrar Ana, agora uma bela jovem, vivendo de maneira pouco lícita. Será que ele vai conseguir libertá-la e diminuir um pouco a culpa que recai sobre os seus ombros há tanto tempo, responsável pelas importantes mudanças no seu modo de vida?
TchanTchantchantchan....Aguardem os próximos capítulos...

Eu estou adorando escrever essa história. Espero que estejam gostando de ler...rsrsrs.
Beijos a todos e até breve!










terça-feira, 12 de julho de 2011

O Corsário Apaixonado - Capítulo II



Acabara de sair dos braços de uma rechonchuda francesa, com quem passara algumas horas da noite, depois de beber vários copos de rum. A dor de cabeça e um amargo na boca o incomodavam. A luz do dia o obrigava a estreitar os olhos para poder enxergar por onde andava. Não tinha o costume de beber em demasia, mas o rum poderia ser muito reconfortante nos dias de solidão e nas frias noites passadas no Highlander. Naquela noite sentira-se excepcionalmente solitário sentado em uma mesa de bar semelhante àquela em que conversara pela primeira vez com Brian Hawke dez anos antes. Talvez estivesse cansado daquela vida nômade. Às vezes pensava em voltar à casa de seu pai, colocar flores no túmulo de Tammy e respirar o ar puro das pastagens e das flores no jardim que era de sua mãe e que fora mantido por sua tia. Ultimamente era frequente pensar na casa paterna. Às vezes as palavras do senhor Krane voltavam a assombrá-lo –... seu pai está preocupado e saudoso com sua ausência... –, outras vezes lembrava o dia do enterro de sua tia Tammy e a tentativa de reaproximação. Buscava desviar-se desses pensamentos ao se lembrar da punição, por deserção da Marinha, que o aguardava caso aparecesse por lá. Draco falecera há dois anos, mas isso não era motivo para arquivarem o seu crime.
Havia desembarcado numa praia afastada do centro de La Rochelle, para não serem incomodados pela milícia local. Precisava de mantimentos, rum e diversão para os homens, que não pisavam em terra há mais de três semanas. Por sua vez, também gostava da sensação de estar nas ruas, ter chão firme sob os pés, cheirando odores dos mais variados, que não o cheiro da maresia ou do suor de seus marujos. Saborear a carne de carneiro, legumes e frutas frescas, raridades a bordo, comer pão quente e dormir em camas que não balançavam ao sabor das marés, eram outros prazeres irrefutáveis. Distraído, parou em frente a uma banca onde maçãs grandes e vermelhas lhe sorriam. Enquanto escolhia qual seria o seu café da manhã, sofreu um encontrão que quase o jogou por cima da pilha de frutas. Ouviu um rápido pedido de desculpas em uma voz que lembrava a de um adolescente. Conseguiu recuperar o equilíbrio e, ao se virar para insultar quem o havia empurrado, viu uma figura de baixa estatura, vestindo uma capa de tecido surrado, se esgueirando pelo meio da confusão de pessoas atarefadas em comprar e vender no mercado a céu aberto.
- Se eu fosse o senhor, olharia seus bolsos... – advertiu o dono da banca.
- O quê? – exclamou, imediatamente palpando-se a procura de sua bolsa de moedas e verificando que ela desaparecera.
Soltou uma praga e saiu correndo no encalço do pivete. Graças a sua altura, conseguia enxergar o garoto como uma mancha marrom ondulando entre as barracas, andando agilmente, mas sem correr, provavelmente seguro de que não era mais perseguido. Crow rapidamente aproximou-se do ladrão e quando estava quase a tocá-lo, este o percebeu e começou a correr. No caminho pulou sobre caixas de madeira, barris de rum e tentou esconder-se sob uma ou outra barraca da feira. Porém seu perseguidor era implacável. Acabou por entrar em um dos becos que se encontrava na penumbra devido às sombras dos prédios ao redor e pelos diversos varais com roupas estendidas a secar. Fora isso havia inúmeros caixotes deixados ali pelos feirantes. Podia ouvir a respiração arfante do rapaz. Certamente estava escondido atrás de uma das caixas grandes. Quando se aproximou de uma delas, foi surpreendido pelo despencar de um varal sobre sua cabeça. Com agilidade conseguiu desvencilhar-se dos tecidos molhados e gritar:
- Olhe, garoto! Não quero lhe fazer mal. Se devolver minha bolsa deixo-o com vida e uma moeda de prata.
- Uma oferta muito generosa, monsieur... Mas por que eu me contentaria com uma moeda de prata se tenho uma bolsa cheia delas? Replicou a estranha voz de barítono. Ele está tentando engrossar a voz?, perguntou-se Crow, divertido com o atrevimento do pequeno larápio, tentando localizar de onde vinha aquela voz.
Viu uma sombra atrás de uma porta entreaberta e continuou falando para distraí-lo.
- É como eu falei... Acha que sua vida vale menos que um punhado de moedas?
Após um curioso silêncio, o garoto respondeu:
- Talvez eu precise delas para me manter vivo, monsieur – respondeu alquebrado, comovendo Crow.
- Por que não sai dessa sombra e vem falar comigo de homem para homem? Talvez eu possa ajudá-lo...
Como não obtivesse resposta, foi direto para onde pensava ter visto o rapaz, mas ali só encontrou a capa amarfanhada pendurada de forma a simular um vulto.
- Au revoir, monsieur! – cantou o ladrãozinho.
Irritado pelo fato de ter sido enganado por um pirralho, seguiu novamente o murmúrio e acabou por ve-lo escapando através de uma sacada para o alto dos telhados.
- Maldição! – disse para si mesmo, lançando-se na escalada do edifício para chegar ao topo e continuar sua perseguição. E pensar que tinha ficado com pena do infeliz. Ele pagaria caro por se atrever a fazê-lo correr daquela maneira. Foi quando ouviu um ruído de tijolos quebrando-se e um grito. Em segundos conseguiu alcançar o local onde o telhado ruíra e ver um garoto malvestido com um gorro enterrado na cabeça, segurando-se numa esquadria de madeira prestes a rachar. Ao ver o desespero estampado no rosto jovem e sujo de fuligem, antes de salvá-lo não pode deixar de dizer:
- Ainda acha que sua vida vale apenas um punhado de moedas?
- Não me venha com lição de moral! Me tira daqui, seu infeliz! – Sentia suas forças se exaurirem e gritou – Estou escorregando! Por favor! Me ajude!
Quando sua mão se desprendeu do apoio e o medo da queda mortal fez com que fechasse os olhos, uma mão poderosa agarrou seu pulso e puxou seu corpo para cima, sem dificuldade.
Ainda tremia quando empurrou seu salvador, tentando escapulir. Contudo, dessa vez Crow foi mais rápido e segurou o fujão pelo braço e o puxou com violência.
- Onde pensa que vai? Tem algo que me pertence!
O jovem olhou-o diretamente pela primeira vez e Crow sofreu um choque ao ver o mesmo olhar triste e assustado que vira dez anos antes no rosto de uma menina. Devia estar sonhando. Foi acordado com um chute na canela.
- Ai!
- Me solta, seu desgraçado! – gritava e inutilmente lutava com os pés e as mãos para escapar de Crow.
- Devolva minha bolsa e eu o solto! – ordenou.
Como o outro não parasse de lutar, resolveu ele mesmo revistá-lo. Conseguiu ficar às suas costas e prender o corpo na altura do peito com seu braço, ficando com uma das mãos livres para procurar suas moedas. Entretanto, ao apalpá-lo, notou, além da musculatura rija, algumas proeminências macias e curvas generosas, incomuns num corpo masculino, mesmo para um adolescente.
- Ora, ora... O que temos aqui? – disse ao mesmo tempo em que arrancava o gorro que escondia desgrenhados e longos cabelos ruivos, levando-o novamente ao passado.
- Vou matar você assim que me soltar!
- Então não vou poder soltá-la – ameaçou, pensando que certamente aquela não era a Ana, filha de um fidalgo espanhol e de uma nobre inglesa, a julgar por seu linguajar e atitudes.
Com medo de que a revista se tornasse muito íntima, ela mudou de ideia.
- Está bem! Eu devolvo suas moedas! – cedeu, parando de se debater. – Mas preciso das mãos para alcançar.
Desconfiado, afrouxou um pouco o laço em torno da moça e liberou um de seus braços, observando-a atentamente. Ela se curvou um pouco, para impedir a visão de Crow sobre a mão livre buscando entre os seios o produto de seu roubo fracassado.
- Pronto! Aqui está! Agora me solta!
Depois de pegar suas moedas, virou a garota para poder ver seu rosto, mantendo-a junto ao seu peito. Se sua memória não o estivesse enganando, aquela garota era muito parecida com a mulher inglesa que Drake colocara a deriva com a filha...
- O que está olhando! Vai me largar ou não? Ou quem sabe vai me entregar para a milícia?
- Como é o seu nome?
- Por que quer saber? – respondeu desconfiada do tom afável do estranho. Há muito ninguém a tratava com respeito... – Me deixe ir! Já devolvi suas moedas – Começava a imaginar o que aquele homem queria com ela e o pânico começou a dominá-la.
- Calma... Só quero saber seu nome. Não vou violentá-la, se é o que está pensando – Leu seus pensamentos.
Enquanto decidia se ele falava a verdade ou não, passou a observar seu rosto com atenção. Apesar da barba que o fazia parecer mais velho, tinha penetrantes olhos da cor de esmeraldas. A boca era bem desenhada, de lábios cheios e muito tentadores. Quantas mulheres já teriam sucumbido aos seus beijos? Levava os cabelos negros e fartos presos à nuca. Quando soltos deviam bater abaixo dos ombros. Tinha porte altivo e elegante. Seria alguém da nobreza? De repente, abriu e fechou os olhos, sacudindo a cabeça, afastando a possibilidade de ele ser diferente dos outros homens. Não se deixaria enganar por sua bela aparência.
- Marie... Meu nome é Marie.
- Marie... Belo nome. – repetiu sorrindo.
- Agora que já sabe meu nome, me deixe ir – ordenou debatendo-se inutilmente nos braços de Crow.
- Você tem família, Marie?
- O que lhe interessa?... – dizendo isso aplicou um joelhaço entre as coxas de Crow, fazendo-o gemer alto enquanto a soltava para dobrar-se ao meio pela dor.
Aproveitando que a bolsa dele caíra ao chão, pegou-a de volta e saiu correndo. Desapareceu entre os edifícios antes que ele se recuperasse da agressão física e da humilhação sofrida nas mãos de uma mulher. Praguejou mais uma vez e se levantou, verificando que seria inútil alcançá-la. Reencontrá-la agora era uma questão de honra. Pretendia dar uma boa lição naquela delinquente e recuperar seu dinheiro. Devia ser conhecida dos mercadores... Lembrou-se do fruteiro que o alertou para o roubo e decidiu procurá-lo.
Não conseguiu saber muita coisa, a não ser que a garota costumava andar por ali a procura de desatentos com os bolsos cheios. Perguntou se poderia encontrá-la nas tabernas à noite entre as mulheres que se ofereciam por lá, mas o homem disse que não sabia nada sobre isso. A ele restava vigiar o mercado. Talvez ela aparecesse novamente quando se sentisse segura de que ele fora embora. Sendo assim, Crow despediu-se do feirante, prometendo a si mesmo que não desistiria de sua busca.

(continua...)


Não resisti e fiz a revisão do texto para postar hoje. No sábado termino de postar este segundo capítulo.
Beijos!!

sábado, 9 de julho de 2011

O Corsário Apaixonado (continuação)

Nigel pôs em prática seu plano. Precisava descobrir uma maneira de embarcar num navio comercial para o Caribe, local onde poderia ficar livre da prisão por deserção. Sendo assim, foi em busca de notícias sobre as próximas partidas daquele porto. Entrou em uma das tavernas locais. Lá encontrou os mais variados tipos de frequentadores, desde oficiais da Marinha até ladrões e falsários do pior nível. Em uma das mesas, reconheceu um homem de cabelos brancos e ralos, cofiando um bigode espesso, que se unia à barba curta e afunilada no queixo. Era um dos importadores de algodão das Caraíbas, amigo de sua família, que estava a beber sozinho. Aproximou-se dele.

Senhor Krane
- Boa noite, Capitão Krane. – saudou cordialmente.
- Ora, se não é o nosso mais jovem oficial da Marinha, senhor Nigel Lodwick – regozijou-se ao ver o filho de seu grande amigo – Pensei que estivesse navegando a caça dos terríveis espanhóis junto com El Draco.
- E estava, Chegamos hoje à tarde, senhor.
- Sente-se, meu rapaz!
- Obrigado, senhor.
- Pretende visitar seu pai nesses dias de folga?
- Não vim para falar de meu pai e sim para pedir um favor.
- Sei que não tenho nada a ver com os problemas entre vocês, mas na última vez em que o vi fiquei muito preocupado. Só vi seu rosto esboçar um sorriso quando ele soube que estava bem e servindo a Marinha de Sua Majestade. – Como Nigel demonstrou certo mal-estar ao tocar no assunto, Krane resolveu não comentar mais nada sobre Timothy. – Está bem... Prometo que não falarei mais nessa questão de família. Só queria que soubesse que seu pai está preocupado e saudoso com sua ausência... Por favor, rapaz, diga. Qual o favor que precisa de mim?
- Suponha que não concordo com algumas atitudes de meu comandante.
- Imagino que ele não seja um homem muito fácil de lidar.
- Por isso gostaria de lhe pedir para acompanhá-lo em sua próxima ida às Caraíbas.
- Como? – Exclamou surpreso com o pedido do suboficial. – Tem ideia do que está me pedindo? Ou seria uma missão oficial? – cochichou.
- É deserção mesmo – confirmou Nigel em voz baixa.
- O que está me pedindo é muito grave... Como eu poderia fazer isso. Estaria agindo ilegalmente e contra minha rainha...
- Eu sei, meu senhor. Sinto muito por tê-lo incomodado. – disse fazendo menção de se levantar.
- Calma, meu jovem, calma... – objetou segurando-o pelo braço e forçando-o a manter-se sentado. – Vamos conversar...
O Senhor Krane não simpatizava muito com Drake e quando soube do ocorrido na última viagem de Nigel, concordou plenamente com a atitude do rapaz, apesar de achar que a deserção não era o caminho ideal a trilhar. Como não conseguiu convencê-lo de voltar atrás, acabou por ceder ao pedido de guarida, em seu navio, ao jovem Lodwick.
No dia seguinte eles partiram rumo à ilha de Eleuthera, território inglês nas Bahamas, numa viagem que durou apenas vinte dias, graças aos bons ventos. Lá, Nigel despediu-se do Capitão Krane sem saber que aquela era a última vez que o veria com vida, pois em menos de um mês sofreria um ataque de piratas espanhóis. Ele seria morto e seu navio afundado.
Alugou um quarto em uma das poucas pousadas da ilha, localizada ao lado de uma taberna. À noite era impossível dormir devido ao burburinho e às frequentes brigas entre arruaceiros e piratas, que vinham de toda a parte do mundo para buscar rum e prazeres com as nativas da ilha. Certa noite, cansado de procurar conforto impossível em sua cama, dirigiu-se ao bar para buscar sono profundo e alheio ao barulho dentro de uma caneca de rum. Lá chegando, observou um homem velho, mas elegantemente vestido, usando um lenço na cabeça à moda dos piratas. Seu semblante aristocrático não combinava com sua provável atividade profissional. Percebendo que estava sendo observado, levantou sua caneca em direção ao curioso Nigel, sinalizando cortesmente para que ele se aproximasse. Receoso sobre o teor de tal gentileza, Nigel levantou-se e seguiu na direção do elegante pirata. Antes de alcançá-lo, um sujeito cambaleante passou a sua frente, postou-se diante do corsário e começou a gritar impropérios. Como o outro continuasse serenamente sentado, olhando-o altivamente, apesar de sua posição inferior em relação ao agressor, esse se lançou sobre a mesa e pegou o outro com as duas mãos em seu pescoço. Ao ver a cena, Nigel foi ao encontro deles, tentando apartá-los. Tamborilou os dedos sobre o ombro do marginal e quando esse virou para ver quem era, levou um soco direto em seu queixo, o que o fez cair sobre a mesa com tremendo estrondo e quebra do copo e do prato que ali estavam. Ainda tonto, pelo trauma e pelo excesso de álcool, recuperou-se lentamente. Levantou-se do chão onde caira estatelado e partiu para cima de Nigel, que não precisou de muito esforço para defender-se do ataque e empurrar o desordeiro contra o balcão do bar. Enquanto ele se recuperava da tontura, que só parecia aumentar, o cavalheiro originalmente atacado levantou-se da mesa e foi buscá-lo. Pegou-o pelo colarinho desalinhado de sua túnica suja e, com um mínimo esforço, levou-o até a saída do bar, jogando-o na rua com a ordem de não lhe perturbar mais. Batendo as mãos, como se retirasse poeira delas, voltou-se para Nigel calmamente e convidou-o para sentar em outra mesa desocupada, já que a sua havia sido quebrada durante a briga.
- Deixe me apresentar, senhor... Sou o Capitão Brian Hawke e estou em dívida com você. Obrigado por ajudar-me com aquele rato de porão. Como devo chamá-lo, meu rapaz?

Capitão Brian Hawke
- Nigel Thomas Lodwick, senhor. – respondeu Nigel, reconhecendo o nome de Hawke como sendo o de um conhecido pirata escocês. Segundo ouvira, após pilhar os navios, com o mínimo de luta possível, deixava-os partir em paz. Devia estar milionário, pois geralmente atacava naus que carregavam ouro das colônias americanas ou transportavam passageiros da realeza.
- Você é novo por aqui, não?
- Cheguei há um dia e estou à procura de trabalho.
- Você não parece um marinheiro comum... Bem vestido, elegante, boas falas... Qual a sua história, Nigel? – perguntou interessado.
- Eu navegava com a Marinha inglesa, sob o comando de Sir Francis Drake. Tivemos um sério desentendimento por eu não concordar com alguns de seus métodos quanto ao tratamento dado aos prisioneiros de guerra. Assim, sem mais condições de permanecer sob seu comando, decidi abandonar meu posto no Enterprise.
- Um desertor?
- Espero que o senhor seja discreto e não espalhe essa notícia por aí, já que estamos em território inglês. – disse em voz baixa e tom cínico.
- Não se preocupe. Conheço muito bem El Draco... Ele nunca foi uma pessoa das mais agradáveis. Tivemos alguns problemas antes dele cair nas boas graças da Elizabeth.
Sem deixar de observar atentamente o jovem inglês insubordinado, fez um sinal para o taverneiro pedindo duas canecas de rum.
- Bebe comigo? – A um sinal afirmativo de Nigel com a cabeça, continuou – Ótimo... Acho que temos muito a conversar.
Quando o próprio taverneiro veio à mesa para servi-los, recebeu uma generosa quantia de moedas de prata que serviriam para reparar os estragos feitos pela luta de momentos antes.
Hawke era um homem extremamente agradável e que, apesar da vida ilícita que levava, parecia ser gentil e humanitário. Vinha de uma família de posses na Escócia e estudara para ser médico. Infelizmente suas habilidades para curar despertaram inveja em seus colegas, que acabaram por culpá-lo injustamente pela morte de um conde. Para fugir da prisão jogou-se no primeiro navio que içou a âncora no porto de Edimburgo e iniciou a sua aventura pelos sete mares, segundo suas palavras. Trabalhou como grumete, no início, mas logo se tornou conhecido e respeitado como o médico de bordo. Anos depois, conseguiu ter seu próprio navio, por meios não convencionais, como frisou ironicamente, e passou a seguir suas próprias regras.
Nigel contou sua história, identificando-se com o velho pirata e sua origem.
Na quarta caneca de rum, o homem ainda parecia sóbrio e fez um convite a Nigel.
- Que tal fazer parte de minha tripulação? – perguntou Hawke ao final da conversa. – Sei que não é exatamente um trabalho honesto, mas estou precisando de um bom auxiliar no comando daqueles velhacos que me acompanham há vários anos. Meu contramestre aposentou-se no último embate que tivemos com um galeão que voltava abarrotado de ouro rumo a Espanha. Apesar de termos conseguido ficar um pouco mais ricos, meu velho amigo foi pego de surpresa por um mosquete inimigo. – Uma sombra de tristeza nublou sua face ao lembrar o fato. – Então? O que acha do meu convite?
- Aceito! – falou sem pestanejar. Caçado por Drake, certamente não conseguiria melhor função do que essa oferecida por Hawke.
E dessa maneira, Nigel Thomas Lodwick passou a navegar como braço direito do comandante do Highlander, uma caravela portuguesa, ágil e veloz, com cerca de trinta metros de comprimento, três mastros, um único convés e ponte sobrelevada na popa, velas latinas (triangulares) e equipada com oito canhões.

Com o passar do tempo, Brian Hawke tornou-se mais que um superior em comando. Tornou-se um amigo e um conselheiro de Nigel. Mostrou a ele o destino de parte de sua fortuna adquirida daqueles que, de uma forma ou de outra, pilhavam os nativos nas Américas e cobravam impostos exorbitantes em suas nações de origem. Hawke mantinha uma comunidade, na ilha de Eleuthera, que servia como abrigo para órfãos, crianças vítimas de naufrágios ou abandonados pelos próprios pais, o que era comum por aqueles lados das Caraíbas. O grande movimento de marujos e mulheres de vida fácil provocava essa triste situação. A pequena Aldeia do Falcão, como era conhecida, também servia como refúgio do pirata, para onde ele sempre voltava após suas aventuras pelos oceanos. Ao saber da existência de tal local, uma chama de esperança reacendeu em Nigel. A esperança de que Ana e sua mãe pudessem estar vivas num local como aquele. A lembrança dos grandes olhos tristes olhando para ele e a culpa por ter sido incapaz de ajudá-las ainda o perseguia.
Ao olhar para Nigel no comando de seu navio, Hawke idealizava o filho que nunca tivera. Um cavalheiro com as damas, um guerreiro audaz e forte nas batalhas e, ao mesmo tempo, um estudioso e excelente aluno, ao qual ensinou alguns de seus conhecimentos de medicina. Acabou por apelidá-lo de Crow, devido a sua astúcia, à cabeleira negra e ao próprio nome, que significava negro em latim.
Durante três anos navegaram juntos, dividindo alegrias, tristezas e pilhagens. Ao final desse tempo, durante um ataque a uma fragata holandesa, Hawke foi mortalmente ferido. Antes de morrer, transmitiu a Nigel sua herança, revelando-lhe a localização de sua fortuna e pedindo-lhe que continuasse a cuidar de seus órfãos e de seu refúgio. Revoltado com a morte de seu amigo e mentor terminou por saquear o navio e afundá-lo logo após. Nesse momento surgia o Capitão Crow, e o mau agouro representado pelo corvo era apenas contra os inimigos que ousassem enfrentá-lo.


 
(continua...)



A personagem do Cap. Brian Hawke é a minha homenagem ao pirata mais charmoso de todos os tempos, Errol Flynn, que viveu esse médico pirata no filme Contra todas as Bandeira, de 1952.
Prometo mais emoções no próximo capítulo.
Queria agradecer aos comentários dos meus amigos queridos que continuam me privilegiando com a sua presença aqui no blog, sempre me apoiando e incentivando. Muito obrigada, meus queridos!
Até a próxima semana! Beijos!














sábado, 2 de julho de 2011

O Corsário Apaixonado


"Quem é vivo sempre aparece"...
Olá!! Voltei para dar início a mais uma aventura romântica. Apesar da falta de tempo para me dedicar ao prazer de escrever e das adversidades impostas pelo meu caro computador, consegui iniciar meu novo romance.
Desde há muitos anos, quando comecei a escrever, imaginava uma história de piratas. Sempre fui fã dos filmes antigos de capa e espada e aventuras de corsários, estrelados por Errol Flynn ou Burt Lancaster, e mais atualmente de histórias como a da série "Piratas do Caribe", que relembrou com humor e qualidade as películas de antigamente.
Sendo assim, inicio hoje a história de Nigel "Crow" Thomas Lodwigh e de Ana de Villardompardo que se passa no final do século XVI. Espero que minhas palavras consigam remeter vocês à época das grandes navegações,onde corsários representavam reis e rainhas e piratas poderiam ter mais honra que representantes da realeza.
Sendo assim, deixo com vocês o início de "O CORSÁRIO APAIXONADO".


CAPÍTULO I

Propriedade de Sir Timothy Lodwigh no Condado de Kent


Nigel Thomas Lodwick perdeu sua mãe ao nascer, sendo criado por uma tia paterna. Também viúva e sensibilizada com a situação de pai e filho, ela dedicou-se ao pequeno órfão como se ele tivesse sido gerado em seu próprio ventre. Sir Timothy Lodwick, seu pai, era um rico proprietário de terras no condado de Kent. Com a perda da esposa, tornou-se um homem amargo e voltado totalmente para seus negócios, deixando a educação de seu filho ao encargo da irmã e de tutores, que sofriam nas mãos do rapazinho revoltado com o desinteresse do pai. Apenas Tammy, a tia, conseguia controlar seus ímpetos e acalmá-lo nas crises de fúria e rebeldia. Quando tinha dezessete anos, uma misteriosa febre levou sua “mãe adotiva” por quem nutria um grande carinho. Por ocasião do enterro, seu pai tentou uma aproximação do filho renegado por tantos anos. Contudo, não era fácil para Nigel aceitar a atitude do homem que por toda a sua vida o menosprezara. A obstinação, própria dos adolescentes, o impediu de ouvir o que Timothy tinha a dizer. Esse, por culpa, se retraiu e calou seus sentimentos mais uma vez. O jovem impetuoso partiu para Londres, depois de exigir do pai sua parte na herança da mãe. Durante meses gastou tudo em festas e mulheres. Orgulhoso demais para voltar para casa e permitir que seu pai o classificasse como um inútil, no que ele teria toda a razão, Nigel alistou-se na marinha real de Sua Majestade em busca de aventuras.
Sob o comando do implacável e ríspido Sir Francis Drake, navegou e participou de batalhas em alto-mar contra navios espanhóis, corsários de várias nacionalidades e piratas apátridas. Era o ano de 1588 e Elizabeth I estava em plena guerra contra Filipe II da Espanha. Logo se adaptou à vida de marujo, tornando-se um conhecedor das artimanhas da navegação em alto-mar. Com seus modos elegantes e conhecimento das letras logo chamou a atenção de Drake, que o ordenou como seu Imediato. Aprendeu a manejar a espada e o punhal com grande destreza e a atirar com o mosquete. Adquiriu músculos durante os longos meses em que trabalhou como grumete e, com apenas vinte anos era temido por seus companheiros que evitavam a todo custo uma luta corpo-a-corpo com ele, pois sabiam que seriam derrotados rapidamente. Lutava com força e inteligência. Ganhara algumas cicatrizes pelo corpo, frutos das batalhas em defesa de seu país. Herdara da mãe o verde profundo dos olhos e os cabelos negros e ondulados. O rosto anguloso, marcado por uma pequena cova no queixo forte, e as sobrancelhas retas e espessas emprestavam-lhe um ar selvagem que, quando irritado, acabava por desestimular os possíveis encrenqueiros. Já sobre as mulheres exercia irresistível atração, angariando inveja entre seus companheiros de armada e farra. Admirava a capacidade de comando e estratégia de seu capitão, Francis Drake, conhecido por sua volta ao mundo no navio Golden Hind e célebres vitórias sobre os espanhóis, além do fato de ter sido homenageado com distinção pela Rainha por seus feitos. Contudo, Nigel não via com bons olhos a maldade dissimulada nas ações de seu comandante. Drake não demonstrava qualquer tipo de piedade para com seus prisioneiros. Com exceção de alguns oficiais espanhóis, que por sua bravura em combate, eram respeitados e levados às prisões inglesas, a maioria da tripulação dos navios inimigos não era tratada com tal deferência. Navios afundados, tripulação eliminada. Os que não morriam afogados e pediam abrigo no navio carrasco eram torturados e colocados a andar na prancha. Os motivos para tal barbárie era a falta de espaço para acomodar e alimentar os “ratos espanhóis”, como Drake se referia aos inimigos.


Naquele dia quente de verão, o céu amanhecera claro e o vento se encontrava a favor. A nau velejava em águas tranquilas, a meio caminho entre Inglaterra e Espanha, quando inesperadamente um grito, vindo do mirante no alto de um dos mastros, alvoroçou o ânimo dos marinheiros do Enterprise.
- Todos ao convés!Navio à vista!
Drake e Nigel imediatamente correram para o deck de comando para tentar reconhecer a origem do barco avistado. Com uma luneta o comandante pode detectar a bandeira espanhola orgulhosamente desfraldada no mastro principal do galeão de pequeno porte. Surpreendeu-se ao perceber um navio como aquele navegando sozinho em período de guerra. Seriam facilmente subjugados. De nada adiantaria a bandeira branca que seria hasteada logo a seguir.
A um comando de voz, Drake ordenou a movimentação para os homens posicionarem-se junto aos nove canhões à estibordo e iniciarem as manobras de ataque. As velas de cutelo foram içadas de forma a aumentarem a velocidade, aproveitando o barlavento, jogando o Enterprise velozmente em direção aos espanhóis, que surpresos, tentaram empreender uma fuga. Entretanto, o ataque com a artilharia pesada iniciou.


Nigel usou a luneta do comandante e olhou mais uma vez para o interior do galeão e pode perceber que eles não estavam preparados para o combate. Provavelmente transportava passageiros, o que foi deduzido principalmente depois de ver surgir a bandeira propondo trégua. Procurou por Drake, mas o homem não lhe deu ouvidos. A ele não interessava se havia civis a bordo ou se a flâmula branca solicitava paz. Carregavam a bandeira espanhola, portanto eram considerados inimigos. Daria início às prisões e ao confisco de tudo que tivesse algum valor assim que os abordasse. Sob os gritos de satisfação dos marujos ingleses, em poucos minutos as embarcações estavam lado a lado. Teriam que ser rápidos, pois um dos tiros atingira o casco e em pouco tempo o galeão afundaria. Drake e seus oficiais tomaram posse da nau sem que houvesse qualquer resistência. O comandante espanhol, quando chamado a explicar sua missão, disse que trazia uma família de nobres, cuja senhora era inglesa e pedia permissão para ver o irmão que morava em Basildon.
- Não sabem que estamos em guerra? – perguntou Drake sarcasticamente. – Ou pretendiam entrar sem permissão? Essa rota não é a usualmente utilizada para acesso aos nossos portos.
- Temos permissão, é claro. Acompanhamos o Duque de Villardompardo, sua esposa, a Duquesa Eleanor e sua filha Ana. Tenho comigo os documentos enviados pelo irmão de minha passageira, Lord Edmond Boyle, onde a própria Rainha Elizabeth I permite nossa entrada.
- Tenho ordens da mesma Rainha de não permitir o ingresso de navios espanhóis em nossas águas.
- Senhor! – exclamou um homem em trajes nobres e elegantes aproximando-se rapidamente do pequeno grupo.
Instintivamente Drake levantou sua espada na direção do fidalgo no momento em que este chegava muito próximo, provocando-lhe um ferimento mortal. Na mesma hora um grito desesperado de mulher ecoou no ar.
- Ramon!
Uma mulher jovem e atraente, de cabelos ruivos, correu através do convés e jogou-se junto ao corpo inerte de seu marido. Logo atrás dela, uma menina com cerca de dez anos, de olhar assustado, juntou-se aos pais. Ela estava com os cabelos presos no alto da cabeça e uma mancha em forma de coração em sua nuca chamou a atenção de Nigel. Alguns dos assaltantes começaram a rir, mas logo emudeceram a um olhar do Imediato, que estava penalizado com o que acontecia diante de si, apesar de empenhar-se em não demonstrar qualquer emoção.
- Não temos tempo para demonstrações lacrimosas.- objetivou Drake. – Homens! Vasculhem o navio e tragam tudo que encontrarem de valor. O vinho e as mulheres serão de vocês.
- Capitão, – cochichou para Drake ao ouvir tamanho absurdo principalmente no que se referia às “mulheres” – Não creio que esteja falando seriamente. Uma delas acabou de ficar viúva e a outra é apenas uma criança.
- Bondoso Nigel... Não conhecia esse seu lado patético. Estamos em guerra, meu caro, e os homens precisam de diversão de vez em quando.
- Por favor, capitão... - rogou o comandante espanhol – Ofereço minha vida pela delas, mas, por favor, leve-as em segurança até a casa de seu irmão. Certamente terá problemas se ele ou a Rainha descobrirem o que aconteceu.
Drake olhou para seu opositor com desprezo, irritado com a ameaça impingida na última frase, e acabou por gritar uma ordem aos seus grumetes.
- Prendam-no no mastro principal e deixem-no afundar com a sua galera. Levem as duas para minha cabine.
- Obrigado, capitão. Sabia que poderia contar com seu cavalheirismo – agradeceu altivo o nobre espanhol, que ao ser amarrado no mastro ouviu as ultimas e venenosas palavras de Drake em seu ouvido:
- Elas serão minhas e depois as darei de presente para os meus homens.
- Miserável! Bastardo! – berrou o heróico hispânico enlouquecido com tamanho sadismo.
- O que disse a ele? – perguntou Nigel preocupado com a reação do prisioneiro.
- É melhor fazer sua parte, amigo, e apressar os homens para que voltem a Enterprise.
- E o resto da tripulação dele? – apontou com o queixo para capitão condenado à morte.
- Acompanhará seu comandante, é claro. – explicou irônico.
Estupefato, mas resignado às ordens de seu superior, Nigel cumpriu sua missão e em poucos minutos todos ingleses abandonaram o galeão espanhol. Mãe e filha olhavam para eles com um misto de tristeza e ódio quando foram arrastadas para longe do corpo do chefe da família morto e levadas conforme a ordem de Sir Francis Drake.
Enquanto a embarcação afundava e os gritos de desespero da tripulação destinada à morte inundavam o início de tarde, o céu se encobria de nuvens, tornado o dia cinzento.
Angustiado com a situação das prisioneiras de Drake, foi até a cabine do oficial.
Drake ficou visivelmente irritado com a invasão de Nigel.
- O que quer aqui? Já dei minhas ordens. Mantenha o curso! – desferiu as palavras enquanto abria uma garrafa de rum, o que não era um bom sinal. A bebida costumava deixar aflorar ainda mais o pirata disfarçado sob o título de Sir e sob o uniforme de oficial da Rainha. Por sorte isso não era comum.
- Preciso lhe falar em particular, senhor – Nigel achou que não seria prudente falar diante das mulheres.
Drake saiu da cabine acompanhando-o.
- O que quer afinal?
- Gostaria de me oferecer para levar as damas de volta à Inglaterra, senhor. Devemos encontrar em breve o Queen of the Seas que está retornando à Dover. Ele poderá nos levar e lá ajudarei a senhora a encontrar seu irmão.
O rosto de Drake inundou-se da cor vermelha. Seus olhos faiscavam de raiva. Estava indignado diante da insolência do jovem oficial, em quem ele confiara tanto nos últimos meses. Como ele ousava interferir em seus planos, querendo dizer-lhe o que fazer.
- Hoje parece que todos a minha volta resolveram demonstrar seu lado heróico. Já vi que essas duas vão trazer muito azar em minha viagem. Você acaba de determinar o futuro delas.
- Como, senhor? Não entendi... – Nigel surpreendeu-se com o modo como seu superior reagira a sua oferta. Ele realmente acreditava que Drake atenderia ao pedido do capitão espanhol.
- Quem você pensa que é para vir me impor suas ideias e dizer o que devo fazer?
- Senhor... Eu pensei que nós as levaríamos para o irmão na Inglaterra...
- Pois pensou errado. Essa mulher, apesar de nascida em nossas terras, se é que isso é verdade, não passa de uma traidora, pois casou com um inimigo.
- Acredito que isso tenha acontecido antes de declararmos guerra a Espanha, senhor, tendo em vista a idade da filha.
Drake aparentava uma iminente crise colérica. Jamais um de seus subordinados tivera tamanha audácia.
- Terry! Code! – gritou para dois de seus auxiliares.
Tarde demais, Nigel entendeu o que se passava. Ultrapassara os limites da tolerância de seu comandante. Não se passaram mais que dez segundos e dois homens corpulentos surgiram diante deles.
- Prendam o Imediato Lodwick – ordenou diante dos dois grumetes surpresos com tal ordem. – Ele será julgado por insubordinação,
- Senhor, sabe que está cometendo uma grande injustiça. – alertou Nigel com voz firme.
- Aquelas duas lá dentro serão colocadas de volta ao mar em um bote. Sem água e sem comida, à deriva... Graças a você!
- Não, senhor. Por favor! Não faça isso! Elas morrerão!
- Levem-no para a prisão. Faremos seu julgamento depois de nos livrarmos dessas bruxas.
- Como? – questionou Nigel abismado com a citação de bruxaria.
- Sim, bruxas! Elas já enfeitiçaram dois bons oficiais de marinha. O espanhol e meu imediato. Antes que elas provoquem um motim em meu navio, me livrarei delas. Talvez tenha sido bom você ter me alertado sobre isso. Duas mulheres a bordo pode ser motivo de uma revolta entre os homens... Levem-no!
- Sim, senhor capitão. – obedeceram os marujos.
Nigel não reagiu. Na situação em que se encontrava e levando em conta a ira de Drake, achou por bem ficar quieto para não piorar a situação das pobres mulheres ou a dele. Ainda não podia acreditar que o comandante fosse capaz de deixar à deriva duas pessoas totalmente indefesas, sendo uma delas uma criança. Esperava que ele retrocedesse em suas intenções.
O que se seguiu após esse incidente mudaria a vida de Nigel para sempre.
Sir Francis Drake ordenou que mãe e filha fossem colocadas em um pequeno bote e lançadas ao mar sem mantimento algum.
Através da pequena escotilha da cela onde foi jogado, Nigel pode observar terrificado o barco com as prisioneiras ser colocado nas águas revoltas, deixado para trás, até perder-se no horizonte. Jamais esqueceria a expressão de Ana, num misto de espanto e terror diante da perspectiva da morte, vendo oficiais ingleses, conterrâneos de sua mãe, como responsáveis por seu infortúnio. Os grandes olhos castanho-claros não cansavam de repetir a pergunta cruel: Por quê? A vontade dele era a de se jogar ao mar e poder acompanhá-las em sua desventura. Talvez tivessem alguma chance com seus conhecimentos. Entretanto, era impossível qualquer reação estando ali preso. Talvez, se ele não tivesse falado com Drake... Ele poderia estar blefando apenas para assustá-las. Como saber? Agora se sentia responsável pelo destino delas.
À medida que se afastavam do minúsculo barco, o interesse voltou-se para o julgamento instituído por Sir Drake, que acumulou os papéis de Promotor e Juiz. Numa apreciação descaradamente parcial, sem dar direito à defesa do réu, em minutos a sentença foi dada. Ordenou que o rapaz fosse amarrado a um dos mastros e recebesse vinte chibatadas, como exemplo à tripulação contra futuras insubordinações, Sua camisa foi arrancada e o castigo começou. O carrasco foi escolhido entre um de seus companheiros. Quando Drake percebia a falta de força no chicote, gritava com o responsável para que este não tivesse clemência e colocasse toda sua força na próxima vez, ou seria substituído e amarrado no outro mastro para levar castigo igual. Apesar de o verdugo ser amigo de Nigel, não pode deixar de cumprir a ordem com medo da punição.
Ao final da pena, uma chuva fina caía, lavando o sangue das feridas abertas e disfarçando as lágrimas de dor do rosto de Nigel. Drake deu as costas e retirou-se para sua cabine, deixando seu ex-imediato exposto à humilhação perante seus companheiros. Com as costas dilaceradas, recebeu a ajuda e o pedido de perdão do amigo ordenado executor. Levaram-no para o seu catre onde o deitaram de bruços e cuidaram dos ferimentos da melhor maneira que podiam. Ali, deitado, Nigel tentava esquecer a dor pensando no que faria de sua vida. Não poderia mais servir a um homem como aquele. Pedir para sair de seu comando o obrigaria a dizer seus motivos, o que desagradaria à Rainha, que certamente preferiria acreditar em seu herói corsário. Preferia tornar-se um desertor a continuar a servir a um comando cruel e sem escrúpulos.
Tão logo se recuperou de seus ferimentos, perdeu sua posição de imediato e voltou a trabalhar em serviços menores como grumete. Nenhum comentário respeito do que ocorrera foi feito, mas Nigel já tinha seus próprios planos para deixar a marinha inglesa.
Duas semanas depois do incidente com o galeão espanhol, o Enterprise retornou à Dover e a tripulação recebeu uma folga de três dias, após a qual voltariam a embarcar e continuar sua vigília em busca de navios inimigos em águas territoriais.


(continua...)

Gostaram? Não gostaram? Comentem...
Beijos!!

domingo, 12 de junho de 2011

FELIZ DIA DOS NAMORADOS!!

CLARO QUE EU NÃO PODERIA DEIXAR PASSAR EM BRANCO UMA DATA IMPORTANTE COMO ESSA. POR ISSO VIM HOJE PARA DESEJAR A TODOS MUITO AMOR, CUMPLICIDADE, AMOR, ROMANCE, AMOR, RESPEITO, AMOR, PACIÊNCIA E MAIS AMOR ... SEMPRE!
APROVEITANDO O ESPAÇO...RSRSRS... QUERO DESEJAR UM FELIZ DIA DOS NAMORADOS PARA O MEU NAMORADO HÁ QUASE 27 ANOS... ESSE MERECE OS PARABÉNS, VOCÊS NÃO ACHAM?
DESCOBRI UM VÍDEO MUITO LINDO E GOSTARIA DE COMPARTILHAR COM VOCÊS.
CURTAM MUITO ESSE DIA ESPECIAL AO LADO DE SEU AMOR.
UM GRANDE BEIJO A TODOS!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Novos selinhos

Oi, pessoal!
Passei aqui  para mostrar os novos selinhos que ganhei da minha querida amiga Brih, do blog Meu Livro Rosa Pink. Um super obrigada,linda!



Tem algumas regrinhas ao aceitar os dois selinhos, que são:
Indicar quem te presenteou: Meu Livro Rosa Pink
Escolher de 5 a 10 blogs para homenagear e avisá-los no final do post. Os meus indicados são:

Doce Encanto
Papéis Avulsos
Doida e Romântica
RomancesKalanit Flowers
Ops!
Chá com Biscoito e um Livro para Acompanhar

Mais uma vez, obrigada pela linda lembrança, Brih!
Beijos!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Pelo de Punta (Arrepiada) - Capítulo XVI (Final)


Isabel insistira em levar Júlia ao Aeroporto. Pegou a Hammer, pois era o único veículo disponível no momento. Seu Smart estava na oficina da polícia e só Deus sabia quando poderia ser levado a um chapeador para desamassar a lataria danificada no acidente. O Civic de seu irmão, bem como o Jeep, havia sido confiscado. Júlia despediu-se de Rosário, de quem se tornara mais próxima nos últimos dias. A ideia de que ela era a noiva escolhida por Miguel e que lhe dedicava algum carinho, fez com que a mulher deixasse um pouco de lado a frieza e a distância que dedicava aos estranhos. Com os olhos marejados, conseguira dar um beijo na face da brasileira e agradecer-lhe por ter amado seu filho. Júlia conversara suficientemente com Isabel para isentar-se da culpa pela morte de Miguel, mas ainda tinha restrições quanto à ideia de enganar Rosário sobre os sentimentos por seu filho. Contudo, não teve coragem de desmenti-la. Contar-lhe que, na verdade, descobrira não amar o namorado como pensava amar e que seu verdadeiro amor era um agente da CIA por quem se apaixonara indevidamente enquanto ele a enganava para obter informações sobre seu filho seria muita loucura. Certamente essas revelações não fariam nada bem àquela mãe já tão amargurada. Em meio a essa abstração, notou que Isabel dirigia muito lentamente, o que não era o seu habitual. Provavelmente fosse um resquício dos terrores por que passara noites atrás, mas ao olhar o relógio, deu-se conta que perderia o avião se não chegasse logo ao aeroporto.
- Isabel, quer que eu dirija? Está se sentindo bem?
- Estou ótima!
- Então por que está dirigindo tão devagar? Não haveria problema, não fosse o meu horário de embarque. Tenho a impressão que o avião não vai esperar por mim.
- Ah! Claro! Desculpe! É que não estou acostumada a dirigir este monstrengo... Vou acelerar um pouco mais – E imediatamente acelerou, mas não muito. Júlia não quis reclamar novamente, mas achou a atitude de Isabel um tanto incomum.
Passados quase quinze minutos, chegaram ao aeroporto quando era dado o aviso para o seu embarque imediato. O mais rápido possível foi até o guichê de check in, onde liberou sua passagem e entregou a bagagem. Despediu-se de Isabel e estranhou, entre lágrimas e votos de reencontrarem-se em breve, o fato de que ela sorria, parecendo feliz com sua partida. Preocupada com a amiga, encaminhou-se correndo para o RX da bagagem de mão e detector de metais. Ao passar, o alarme soou. Uma funcionária pediu que se aproximasse e usou o detector manual sobre seu corpo. Apesar de não ter identificado nenhum artefato ameaçador, Júlia foi levada sob protestos até uma sala da Polícia Federal. Nervosa, não conseguia acreditar que o mesmo que ocorrera em Nova York estava se repetindo. Só que agora, se eles não a liberassem logo em seguida, perderia o seu vôo. Foi exatamente o que ocorreu. Sentada numa desconfortável cadeira, sozinha em uma saleta, com vontade de chorar, o que estava se tornando uma coisa absurdamente comum nos últimos dias, viu um homem em roupas civis surgir e convidá-la para segui-lo. A princípio teve medo de que fosse alguma vingança dos contrabandistas que tinham ficado sem seu líder, mas o ar aparentemente inocente do sujeito a tranquilizou. Ainda temerosa, foi avisada de que, como havia perdido seu vôo por culpa da Polícia Federal, eles a recolocariam em outro avião. Mais tranquila, pois o que desejava era voltar o mais breve possível para o Brasil, continuou seguindo o estranho funcionário. Surpreendeu-se ao ver que o novo avião, não pertencia a nenhuma das linhas aéreas conhecidas. Era um jatinho particular que não tinha nenhuma identificação conhecida. Suas pernas bambearam e o medo de um sequestro ou de uma vingança voltaram. Paralisou no meio da pista onde o jato estava estacionado, mas acabou por ser gentilmente convencida pelo jovem que não havia perigo algum. Foi então que se lembrou de suas malas que deviam ter sido despachadas no vôo da American Airlines que perdera.
- E as minhas malas, senhor? – podia funcionar como desculpa para retardar a sua entrada no avião – Talvez seja melhor eu avisar sobre as malas...
- No se preocupe, señorita... Está todo bien.
Continuando em seu modo delicado, ele pegou em seu braço e aos poucos foi levando-a para o interior da aeronave. Despediu-se e deixou-a lá dentro.

Havia poucos lugares e todos estavam vazios. Sentou-se em estado de alerta em uma das confortáveis poltronas, virada para a cabine de comando, a espera que dali saísse a qualquer instante um bandido armado, ameaçando-a de morte. Tensa, ouviu a porta da nave se fechar às suas costas e ficou esperando pelo pior.
- Tenho a impressão que esse lugar é meu, senhorita – vibrou a voz rouca tão conhecida dela, fazendo-a estremecer.
Virou-se imediatamente encontrando o rosto de Bryan muito próximo ao dela.
- O que você está fazendo aqui? – perguntou com dificuldade devido à momentânea falta de ar, quase sem acreditar no que estava acontecendo.
- Terei que lembrar à senhorita de que não respondeu a minha última pergunta?
- Pergunta? Que pergunta? – Não conseguia desviar-se daquele rosto, acorrentada pelo brilho das íris verdes que a fitavam intensamente, principalmente quando ele se ajoelhou a sua frente.
- Ainda pensa em viajar sem conversarmos?
- Bryan... Eu não imaginava que essa conversa fosse tão importante a ponto de...
- A ponto de raptá-la? – completou com um sorriso malicioso – Foi a única maneira que encontrei para dizer que te amo – declarou-se diante do olhar pasmado de Júlia.
- Bryan, eu não sei o que dizer...
Seu semblante anuviou-se ao ouvir as palavras de Júlia, fazendo-o baixar o olhar e pegar nas mãos crispadas dela sobre o colo.
- Se não me quiser, se ainda ama o Miguel... Entenderei e sumirei da sua vida.
Emocionada com a declaração, desvencilhou uma das mãos e com ela acariciou-lhe a face, forçando-o a olhar em seus olhos novamente.
- Eu nunca amei o Miguel. Achei que o amava, mas só descobri o que isso significava quando conheci você. Infelizmente, as coisas se complicaram... Eu sofri muito quando pensei que tinha sido usada por você...
Não resistindo mais, Bryan lançou-se sobre ela, abraçando-a com força e cobrindo seu rosto com beijos cálidos e ternos até chegar à boca que o esperava ansiosa e sedenta de prazer.
- Acho que me apaixonei quando você deu aquela cabeçada em meu queixo e ainda me olhou com raiva, como se eu fosse culpado de alguma coisa – brincou, assim que seus lábios se separaram.
- Pois eu não lembro quando foi... Só recordo que senti ciúmes quando aquela aeromoça se jogou em cima de você.
- Aeromoça?
- MAE...
- Mae? Que Mae? – disse aproximando as sobrancelhas ao franzir da testa.
- Isso não interessa mais... Me beija...
- Nem precisa mandar, senhorita...
O novo beijo foi interrompido pelo piloto que surgiu na porta da cabine de comando, trajando jeans e camiseta, e anunciou sua presença arranhando a garganta
- Bryan? Podemos partir? A torre já nos liberou.
Levantando-se, mas ainda segurando a mão de Júlia, respondeu:
- Podemos sim, Leon. Obrigado.
- Por favor, coloquem os cintos. – solicitou, enquanto atrás dele uma simpática jovem morena, também em roupas esportivas, abanava para os convidados – Ah! Essa é a minha esposa, Salma, que vai nos acompanhar até Curaçao.
- Curaçao? – exclamou Júlia, levantando-se da poltrona.
- Puxa! Foi mal, Bryan... Era para ser surpresa?
- Tudo bem, Leon. Acho que foi uma surpresa, não? – e olhou em direção a Júlia que meneava a cabeça em censura, mas com uma indisfarçável expressão de deleite.
- Fiquem à vontade. Vou iniciar a decolagem. Vocês têm duas horas livres – piscou um olho conivente. – Depois serviremos uma refeição leve. Chamem se precisarem de alguma coisa, ok? – saudou-os e desapareceu com Salma na cabine.
- Você planejou direitinho, não?
- Pensei em termos um bom recomeço e achei que Willemstad seria o local ideal.
- Mas como você conseguiu tudo isso em tão poucas horas?
- Tive muita sorte e bons contatos. Depois que Isabel conversou comigo, Soza conseguiu o avião com esse seu amigo, Leon. Ele costuma fazer vôos fretados para o Caribe e, coincidentemente, hoje estava livre.
- Só um pouquinho... Que história é essa de que Isabel conversou com você?
- Foi ela que me animou a não desistir de você.
- Quando? Como?
- Lá no cemitério. Eu também fiquei surpreso, mas ela disse que você estava gostando de mim e me convenceu a tentar esclarecer as coisas entre a gente... Acabamos combinando o seu atraso, para dar tempo de fazer os arranjos no aeroporto, com a ajuda de Soza e de alguns amigos da PF.
- Mas que danadinha...
Sentaram-se frente a frente nas poltronas e colocaram os cintos.
- E o seu trabalho com a CIA...?
- Eu já fui agente da CIA, mas fui desligado há três anos. Tudo aquilo que lhe contei sobre eu estar a serviço da ONU é verdade. Como a área em que atuo está ligada ao comércio ilegal de armas, me chamaram para uma última missão. Como pode ver você está diante de um simples funcionário público, numa profissão sem o mínimo glamour.
- Essa foi a melhor notícia que você poderia me dar. Não aguentaria viver pensando que você estaria correndo perigo por aí.
O avião começou a aumentar a velocidade gradualmente e logo rompeu o espaço aéreo, elevando-se nas alturas.
Tão logo puderam retirar os cintos, Bryan levantou-se de sua poltrona e levou Júlia até o sofá que havia no meio do corredor do jato.
- Vem cá – ordenou, ajudando-a a sentar-se ao seu lado e aconchegando-a em seus braços – Não quero perder mais um minuto longe de você. – E deu-lhe mais um longo beijo. Depois, com um olhar cheio de desejo e promessas, complementou – Não sei se vou resistir chegar a Willemstad...
- Nem eu... – “Agora sei o que Isabel queria dizer quando perguntou se eu já sentira los pelos de punta”, pensou sentindo um arrepio de prazer percorrer-lhe o corpo ao entregar-se nos braços de Bryan.

                               
                                     FIM


Nada como ter tempo livre para escrever... Nem eu imaginei que poderia terminar este romance tão cedo. Só espero que não se acostumem mal, pois a mamãe aqui vai voltar para casa e pegar no batente a todo vapor já na quarta-feira. Pelo menos, volto revigorada, já pensando na próxima história que vai enfeitar o blog. Vou tentar não desaparecer por muito tempo. Apenas o necessário para compor o novo romance e ter material suficiente para começar as postagens.
Antes de terminar, gostaria de dar às boas vindas à Pah (Paola), do blog literário Livros e Fuxicos, super interessante, que passou a nos acompanhar nesses devaneios romanticos.Um beijo, querida!
Outra novidade, é um blog que acabou de nascer.  É o "SONHOSeSONS", pertencente à minha linda amiga e seguidora Nadja Castro, que pretende mostrar como viajar no mundo dos sonhos através da música.
Muito obrigada a vocês e até o próximo "romance ao vento".
Beijos!