terça-feira, 12 de julho de 2011

O Corsário Apaixonado - Capítulo II



Acabara de sair dos braços de uma rechonchuda francesa, com quem passara algumas horas da noite, depois de beber vários copos de rum. A dor de cabeça e um amargo na boca o incomodavam. A luz do dia o obrigava a estreitar os olhos para poder enxergar por onde andava. Não tinha o costume de beber em demasia, mas o rum poderia ser muito reconfortante nos dias de solidão e nas frias noites passadas no Highlander. Naquela noite sentira-se excepcionalmente solitário sentado em uma mesa de bar semelhante àquela em que conversara pela primeira vez com Brian Hawke dez anos antes. Talvez estivesse cansado daquela vida nômade. Às vezes pensava em voltar à casa de seu pai, colocar flores no túmulo de Tammy e respirar o ar puro das pastagens e das flores no jardim que era de sua mãe e que fora mantido por sua tia. Ultimamente era frequente pensar na casa paterna. Às vezes as palavras do senhor Krane voltavam a assombrá-lo –... seu pai está preocupado e saudoso com sua ausência... –, outras vezes lembrava o dia do enterro de sua tia Tammy e a tentativa de reaproximação. Buscava desviar-se desses pensamentos ao se lembrar da punição, por deserção da Marinha, que o aguardava caso aparecesse por lá. Draco falecera há dois anos, mas isso não era motivo para arquivarem o seu crime.
Havia desembarcado numa praia afastada do centro de La Rochelle, para não serem incomodados pela milícia local. Precisava de mantimentos, rum e diversão para os homens, que não pisavam em terra há mais de três semanas. Por sua vez, também gostava da sensação de estar nas ruas, ter chão firme sob os pés, cheirando odores dos mais variados, que não o cheiro da maresia ou do suor de seus marujos. Saborear a carne de carneiro, legumes e frutas frescas, raridades a bordo, comer pão quente e dormir em camas que não balançavam ao sabor das marés, eram outros prazeres irrefutáveis. Distraído, parou em frente a uma banca onde maçãs grandes e vermelhas lhe sorriam. Enquanto escolhia qual seria o seu café da manhã, sofreu um encontrão que quase o jogou por cima da pilha de frutas. Ouviu um rápido pedido de desculpas em uma voz que lembrava a de um adolescente. Conseguiu recuperar o equilíbrio e, ao se virar para insultar quem o havia empurrado, viu uma figura de baixa estatura, vestindo uma capa de tecido surrado, se esgueirando pelo meio da confusão de pessoas atarefadas em comprar e vender no mercado a céu aberto.
- Se eu fosse o senhor, olharia seus bolsos... – advertiu o dono da banca.
- O quê? – exclamou, imediatamente palpando-se a procura de sua bolsa de moedas e verificando que ela desaparecera.
Soltou uma praga e saiu correndo no encalço do pivete. Graças a sua altura, conseguia enxergar o garoto como uma mancha marrom ondulando entre as barracas, andando agilmente, mas sem correr, provavelmente seguro de que não era mais perseguido. Crow rapidamente aproximou-se do ladrão e quando estava quase a tocá-lo, este o percebeu e começou a correr. No caminho pulou sobre caixas de madeira, barris de rum e tentou esconder-se sob uma ou outra barraca da feira. Porém seu perseguidor era implacável. Acabou por entrar em um dos becos que se encontrava na penumbra devido às sombras dos prédios ao redor e pelos diversos varais com roupas estendidas a secar. Fora isso havia inúmeros caixotes deixados ali pelos feirantes. Podia ouvir a respiração arfante do rapaz. Certamente estava escondido atrás de uma das caixas grandes. Quando se aproximou de uma delas, foi surpreendido pelo despencar de um varal sobre sua cabeça. Com agilidade conseguiu desvencilhar-se dos tecidos molhados e gritar:
- Olhe, garoto! Não quero lhe fazer mal. Se devolver minha bolsa deixo-o com vida e uma moeda de prata.
- Uma oferta muito generosa, monsieur... Mas por que eu me contentaria com uma moeda de prata se tenho uma bolsa cheia delas? Replicou a estranha voz de barítono. Ele está tentando engrossar a voz?, perguntou-se Crow, divertido com o atrevimento do pequeno larápio, tentando localizar de onde vinha aquela voz.
Viu uma sombra atrás de uma porta entreaberta e continuou falando para distraí-lo.
- É como eu falei... Acha que sua vida vale menos que um punhado de moedas?
Após um curioso silêncio, o garoto respondeu:
- Talvez eu precise delas para me manter vivo, monsieur – respondeu alquebrado, comovendo Crow.
- Por que não sai dessa sombra e vem falar comigo de homem para homem? Talvez eu possa ajudá-lo...
Como não obtivesse resposta, foi direto para onde pensava ter visto o rapaz, mas ali só encontrou a capa amarfanhada pendurada de forma a simular um vulto.
- Au revoir, monsieur! – cantou o ladrãozinho.
Irritado pelo fato de ter sido enganado por um pirralho, seguiu novamente o murmúrio e acabou por ve-lo escapando através de uma sacada para o alto dos telhados.
- Maldição! – disse para si mesmo, lançando-se na escalada do edifício para chegar ao topo e continuar sua perseguição. E pensar que tinha ficado com pena do infeliz. Ele pagaria caro por se atrever a fazê-lo correr daquela maneira. Foi quando ouviu um ruído de tijolos quebrando-se e um grito. Em segundos conseguiu alcançar o local onde o telhado ruíra e ver um garoto malvestido com um gorro enterrado na cabeça, segurando-se numa esquadria de madeira prestes a rachar. Ao ver o desespero estampado no rosto jovem e sujo de fuligem, antes de salvá-lo não pode deixar de dizer:
- Ainda acha que sua vida vale apenas um punhado de moedas?
- Não me venha com lição de moral! Me tira daqui, seu infeliz! – Sentia suas forças se exaurirem e gritou – Estou escorregando! Por favor! Me ajude!
Quando sua mão se desprendeu do apoio e o medo da queda mortal fez com que fechasse os olhos, uma mão poderosa agarrou seu pulso e puxou seu corpo para cima, sem dificuldade.
Ainda tremia quando empurrou seu salvador, tentando escapulir. Contudo, dessa vez Crow foi mais rápido e segurou o fujão pelo braço e o puxou com violência.
- Onde pensa que vai? Tem algo que me pertence!
O jovem olhou-o diretamente pela primeira vez e Crow sofreu um choque ao ver o mesmo olhar triste e assustado que vira dez anos antes no rosto de uma menina. Devia estar sonhando. Foi acordado com um chute na canela.
- Ai!
- Me solta, seu desgraçado! – gritava e inutilmente lutava com os pés e as mãos para escapar de Crow.
- Devolva minha bolsa e eu o solto! – ordenou.
Como o outro não parasse de lutar, resolveu ele mesmo revistá-lo. Conseguiu ficar às suas costas e prender o corpo na altura do peito com seu braço, ficando com uma das mãos livres para procurar suas moedas. Entretanto, ao apalpá-lo, notou, além da musculatura rija, algumas proeminências macias e curvas generosas, incomuns num corpo masculino, mesmo para um adolescente.
- Ora, ora... O que temos aqui? – disse ao mesmo tempo em que arrancava o gorro que escondia desgrenhados e longos cabelos ruivos, levando-o novamente ao passado.
- Vou matar você assim que me soltar!
- Então não vou poder soltá-la – ameaçou, pensando que certamente aquela não era a Ana, filha de um fidalgo espanhol e de uma nobre inglesa, a julgar por seu linguajar e atitudes.
Com medo de que a revista se tornasse muito íntima, ela mudou de ideia.
- Está bem! Eu devolvo suas moedas! – cedeu, parando de se debater. – Mas preciso das mãos para alcançar.
Desconfiado, afrouxou um pouco o laço em torno da moça e liberou um de seus braços, observando-a atentamente. Ela se curvou um pouco, para impedir a visão de Crow sobre a mão livre buscando entre os seios o produto de seu roubo fracassado.
- Pronto! Aqui está! Agora me solta!
Depois de pegar suas moedas, virou a garota para poder ver seu rosto, mantendo-a junto ao seu peito. Se sua memória não o estivesse enganando, aquela garota era muito parecida com a mulher inglesa que Drake colocara a deriva com a filha...
- O que está olhando! Vai me largar ou não? Ou quem sabe vai me entregar para a milícia?
- Como é o seu nome?
- Por que quer saber? – respondeu desconfiada do tom afável do estranho. Há muito ninguém a tratava com respeito... – Me deixe ir! Já devolvi suas moedas – Começava a imaginar o que aquele homem queria com ela e o pânico começou a dominá-la.
- Calma... Só quero saber seu nome. Não vou violentá-la, se é o que está pensando – Leu seus pensamentos.
Enquanto decidia se ele falava a verdade ou não, passou a observar seu rosto com atenção. Apesar da barba que o fazia parecer mais velho, tinha penetrantes olhos da cor de esmeraldas. A boca era bem desenhada, de lábios cheios e muito tentadores. Quantas mulheres já teriam sucumbido aos seus beijos? Levava os cabelos negros e fartos presos à nuca. Quando soltos deviam bater abaixo dos ombros. Tinha porte altivo e elegante. Seria alguém da nobreza? De repente, abriu e fechou os olhos, sacudindo a cabeça, afastando a possibilidade de ele ser diferente dos outros homens. Não se deixaria enganar por sua bela aparência.
- Marie... Meu nome é Marie.
- Marie... Belo nome. – repetiu sorrindo.
- Agora que já sabe meu nome, me deixe ir – ordenou debatendo-se inutilmente nos braços de Crow.
- Você tem família, Marie?
- O que lhe interessa?... – dizendo isso aplicou um joelhaço entre as coxas de Crow, fazendo-o gemer alto enquanto a soltava para dobrar-se ao meio pela dor.
Aproveitando que a bolsa dele caíra ao chão, pegou-a de volta e saiu correndo. Desapareceu entre os edifícios antes que ele se recuperasse da agressão física e da humilhação sofrida nas mãos de uma mulher. Praguejou mais uma vez e se levantou, verificando que seria inútil alcançá-la. Reencontrá-la agora era uma questão de honra. Pretendia dar uma boa lição naquela delinquente e recuperar seu dinheiro. Devia ser conhecida dos mercadores... Lembrou-se do fruteiro que o alertou para o roubo e decidiu procurá-lo.
Não conseguiu saber muita coisa, a não ser que a garota costumava andar por ali a procura de desatentos com os bolsos cheios. Perguntou se poderia encontrá-la nas tabernas à noite entre as mulheres que se ofereciam por lá, mas o homem disse que não sabia nada sobre isso. A ele restava vigiar o mercado. Talvez ela aparecesse novamente quando se sentisse segura de que ele fora embora. Sendo assim, Crow despediu-se do feirante, prometendo a si mesmo que não desistiria de sua busca.

(continua...)


Não resisti e fiz a revisão do texto para postar hoje. No sábado termino de postar este segundo capítulo.
Beijos!!

sábado, 9 de julho de 2011

O Corsário Apaixonado (continuação)

Nigel pôs em prática seu plano. Precisava descobrir uma maneira de embarcar num navio comercial para o Caribe, local onde poderia ficar livre da prisão por deserção. Sendo assim, foi em busca de notícias sobre as próximas partidas daquele porto. Entrou em uma das tavernas locais. Lá encontrou os mais variados tipos de frequentadores, desde oficiais da Marinha até ladrões e falsários do pior nível. Em uma das mesas, reconheceu um homem de cabelos brancos e ralos, cofiando um bigode espesso, que se unia à barba curta e afunilada no queixo. Era um dos importadores de algodão das Caraíbas, amigo de sua família, que estava a beber sozinho. Aproximou-se dele.

Senhor Krane
- Boa noite, Capitão Krane. – saudou cordialmente.
- Ora, se não é o nosso mais jovem oficial da Marinha, senhor Nigel Lodwick – regozijou-se ao ver o filho de seu grande amigo – Pensei que estivesse navegando a caça dos terríveis espanhóis junto com El Draco.
- E estava, Chegamos hoje à tarde, senhor.
- Sente-se, meu rapaz!
- Obrigado, senhor.
- Pretende visitar seu pai nesses dias de folga?
- Não vim para falar de meu pai e sim para pedir um favor.
- Sei que não tenho nada a ver com os problemas entre vocês, mas na última vez em que o vi fiquei muito preocupado. Só vi seu rosto esboçar um sorriso quando ele soube que estava bem e servindo a Marinha de Sua Majestade. – Como Nigel demonstrou certo mal-estar ao tocar no assunto, Krane resolveu não comentar mais nada sobre Timothy. – Está bem... Prometo que não falarei mais nessa questão de família. Só queria que soubesse que seu pai está preocupado e saudoso com sua ausência... Por favor, rapaz, diga. Qual o favor que precisa de mim?
- Suponha que não concordo com algumas atitudes de meu comandante.
- Imagino que ele não seja um homem muito fácil de lidar.
- Por isso gostaria de lhe pedir para acompanhá-lo em sua próxima ida às Caraíbas.
- Como? – Exclamou surpreso com o pedido do suboficial. – Tem ideia do que está me pedindo? Ou seria uma missão oficial? – cochichou.
- É deserção mesmo – confirmou Nigel em voz baixa.
- O que está me pedindo é muito grave... Como eu poderia fazer isso. Estaria agindo ilegalmente e contra minha rainha...
- Eu sei, meu senhor. Sinto muito por tê-lo incomodado. – disse fazendo menção de se levantar.
- Calma, meu jovem, calma... – objetou segurando-o pelo braço e forçando-o a manter-se sentado. – Vamos conversar...
O Senhor Krane não simpatizava muito com Drake e quando soube do ocorrido na última viagem de Nigel, concordou plenamente com a atitude do rapaz, apesar de achar que a deserção não era o caminho ideal a trilhar. Como não conseguiu convencê-lo de voltar atrás, acabou por ceder ao pedido de guarida, em seu navio, ao jovem Lodwick.
No dia seguinte eles partiram rumo à ilha de Eleuthera, território inglês nas Bahamas, numa viagem que durou apenas vinte dias, graças aos bons ventos. Lá, Nigel despediu-se do Capitão Krane sem saber que aquela era a última vez que o veria com vida, pois em menos de um mês sofreria um ataque de piratas espanhóis. Ele seria morto e seu navio afundado.
Alugou um quarto em uma das poucas pousadas da ilha, localizada ao lado de uma taberna. À noite era impossível dormir devido ao burburinho e às frequentes brigas entre arruaceiros e piratas, que vinham de toda a parte do mundo para buscar rum e prazeres com as nativas da ilha. Certa noite, cansado de procurar conforto impossível em sua cama, dirigiu-se ao bar para buscar sono profundo e alheio ao barulho dentro de uma caneca de rum. Lá chegando, observou um homem velho, mas elegantemente vestido, usando um lenço na cabeça à moda dos piratas. Seu semblante aristocrático não combinava com sua provável atividade profissional. Percebendo que estava sendo observado, levantou sua caneca em direção ao curioso Nigel, sinalizando cortesmente para que ele se aproximasse. Receoso sobre o teor de tal gentileza, Nigel levantou-se e seguiu na direção do elegante pirata. Antes de alcançá-lo, um sujeito cambaleante passou a sua frente, postou-se diante do corsário e começou a gritar impropérios. Como o outro continuasse serenamente sentado, olhando-o altivamente, apesar de sua posição inferior em relação ao agressor, esse se lançou sobre a mesa e pegou o outro com as duas mãos em seu pescoço. Ao ver a cena, Nigel foi ao encontro deles, tentando apartá-los. Tamborilou os dedos sobre o ombro do marginal e quando esse virou para ver quem era, levou um soco direto em seu queixo, o que o fez cair sobre a mesa com tremendo estrondo e quebra do copo e do prato que ali estavam. Ainda tonto, pelo trauma e pelo excesso de álcool, recuperou-se lentamente. Levantou-se do chão onde caira estatelado e partiu para cima de Nigel, que não precisou de muito esforço para defender-se do ataque e empurrar o desordeiro contra o balcão do bar. Enquanto ele se recuperava da tontura, que só parecia aumentar, o cavalheiro originalmente atacado levantou-se da mesa e foi buscá-lo. Pegou-o pelo colarinho desalinhado de sua túnica suja e, com um mínimo esforço, levou-o até a saída do bar, jogando-o na rua com a ordem de não lhe perturbar mais. Batendo as mãos, como se retirasse poeira delas, voltou-se para Nigel calmamente e convidou-o para sentar em outra mesa desocupada, já que a sua havia sido quebrada durante a briga.
- Deixe me apresentar, senhor... Sou o Capitão Brian Hawke e estou em dívida com você. Obrigado por ajudar-me com aquele rato de porão. Como devo chamá-lo, meu rapaz?

Capitão Brian Hawke
- Nigel Thomas Lodwick, senhor. – respondeu Nigel, reconhecendo o nome de Hawke como sendo o de um conhecido pirata escocês. Segundo ouvira, após pilhar os navios, com o mínimo de luta possível, deixava-os partir em paz. Devia estar milionário, pois geralmente atacava naus que carregavam ouro das colônias americanas ou transportavam passageiros da realeza.
- Você é novo por aqui, não?
- Cheguei há um dia e estou à procura de trabalho.
- Você não parece um marinheiro comum... Bem vestido, elegante, boas falas... Qual a sua história, Nigel? – perguntou interessado.
- Eu navegava com a Marinha inglesa, sob o comando de Sir Francis Drake. Tivemos um sério desentendimento por eu não concordar com alguns de seus métodos quanto ao tratamento dado aos prisioneiros de guerra. Assim, sem mais condições de permanecer sob seu comando, decidi abandonar meu posto no Enterprise.
- Um desertor?
- Espero que o senhor seja discreto e não espalhe essa notícia por aí, já que estamos em território inglês. – disse em voz baixa e tom cínico.
- Não se preocupe. Conheço muito bem El Draco... Ele nunca foi uma pessoa das mais agradáveis. Tivemos alguns problemas antes dele cair nas boas graças da Elizabeth.
Sem deixar de observar atentamente o jovem inglês insubordinado, fez um sinal para o taverneiro pedindo duas canecas de rum.
- Bebe comigo? – A um sinal afirmativo de Nigel com a cabeça, continuou – Ótimo... Acho que temos muito a conversar.
Quando o próprio taverneiro veio à mesa para servi-los, recebeu uma generosa quantia de moedas de prata que serviriam para reparar os estragos feitos pela luta de momentos antes.
Hawke era um homem extremamente agradável e que, apesar da vida ilícita que levava, parecia ser gentil e humanitário. Vinha de uma família de posses na Escócia e estudara para ser médico. Infelizmente suas habilidades para curar despertaram inveja em seus colegas, que acabaram por culpá-lo injustamente pela morte de um conde. Para fugir da prisão jogou-se no primeiro navio que içou a âncora no porto de Edimburgo e iniciou a sua aventura pelos sete mares, segundo suas palavras. Trabalhou como grumete, no início, mas logo se tornou conhecido e respeitado como o médico de bordo. Anos depois, conseguiu ter seu próprio navio, por meios não convencionais, como frisou ironicamente, e passou a seguir suas próprias regras.
Nigel contou sua história, identificando-se com o velho pirata e sua origem.
Na quarta caneca de rum, o homem ainda parecia sóbrio e fez um convite a Nigel.
- Que tal fazer parte de minha tripulação? – perguntou Hawke ao final da conversa. – Sei que não é exatamente um trabalho honesto, mas estou precisando de um bom auxiliar no comando daqueles velhacos que me acompanham há vários anos. Meu contramestre aposentou-se no último embate que tivemos com um galeão que voltava abarrotado de ouro rumo a Espanha. Apesar de termos conseguido ficar um pouco mais ricos, meu velho amigo foi pego de surpresa por um mosquete inimigo. – Uma sombra de tristeza nublou sua face ao lembrar o fato. – Então? O que acha do meu convite?
- Aceito! – falou sem pestanejar. Caçado por Drake, certamente não conseguiria melhor função do que essa oferecida por Hawke.
E dessa maneira, Nigel Thomas Lodwick passou a navegar como braço direito do comandante do Highlander, uma caravela portuguesa, ágil e veloz, com cerca de trinta metros de comprimento, três mastros, um único convés e ponte sobrelevada na popa, velas latinas (triangulares) e equipada com oito canhões.

Com o passar do tempo, Brian Hawke tornou-se mais que um superior em comando. Tornou-se um amigo e um conselheiro de Nigel. Mostrou a ele o destino de parte de sua fortuna adquirida daqueles que, de uma forma ou de outra, pilhavam os nativos nas Américas e cobravam impostos exorbitantes em suas nações de origem. Hawke mantinha uma comunidade, na ilha de Eleuthera, que servia como abrigo para órfãos, crianças vítimas de naufrágios ou abandonados pelos próprios pais, o que era comum por aqueles lados das Caraíbas. O grande movimento de marujos e mulheres de vida fácil provocava essa triste situação. A pequena Aldeia do Falcão, como era conhecida, também servia como refúgio do pirata, para onde ele sempre voltava após suas aventuras pelos oceanos. Ao saber da existência de tal local, uma chama de esperança reacendeu em Nigel. A esperança de que Ana e sua mãe pudessem estar vivas num local como aquele. A lembrança dos grandes olhos tristes olhando para ele e a culpa por ter sido incapaz de ajudá-las ainda o perseguia.
Ao olhar para Nigel no comando de seu navio, Hawke idealizava o filho que nunca tivera. Um cavalheiro com as damas, um guerreiro audaz e forte nas batalhas e, ao mesmo tempo, um estudioso e excelente aluno, ao qual ensinou alguns de seus conhecimentos de medicina. Acabou por apelidá-lo de Crow, devido a sua astúcia, à cabeleira negra e ao próprio nome, que significava negro em latim.
Durante três anos navegaram juntos, dividindo alegrias, tristezas e pilhagens. Ao final desse tempo, durante um ataque a uma fragata holandesa, Hawke foi mortalmente ferido. Antes de morrer, transmitiu a Nigel sua herança, revelando-lhe a localização de sua fortuna e pedindo-lhe que continuasse a cuidar de seus órfãos e de seu refúgio. Revoltado com a morte de seu amigo e mentor terminou por saquear o navio e afundá-lo logo após. Nesse momento surgia o Capitão Crow, e o mau agouro representado pelo corvo era apenas contra os inimigos que ousassem enfrentá-lo.


 
(continua...)



A personagem do Cap. Brian Hawke é a minha homenagem ao pirata mais charmoso de todos os tempos, Errol Flynn, que viveu esse médico pirata no filme Contra todas as Bandeira, de 1952.
Prometo mais emoções no próximo capítulo.
Queria agradecer aos comentários dos meus amigos queridos que continuam me privilegiando com a sua presença aqui no blog, sempre me apoiando e incentivando. Muito obrigada, meus queridos!
Até a próxima semana! Beijos!














sábado, 2 de julho de 2011

O Corsário Apaixonado


"Quem é vivo sempre aparece"...
Olá!! Voltei para dar início a mais uma aventura romântica. Apesar da falta de tempo para me dedicar ao prazer de escrever e das adversidades impostas pelo meu caro computador, consegui iniciar meu novo romance.
Desde há muitos anos, quando comecei a escrever, imaginava uma história de piratas. Sempre fui fã dos filmes antigos de capa e espada e aventuras de corsários, estrelados por Errol Flynn ou Burt Lancaster, e mais atualmente de histórias como a da série "Piratas do Caribe", que relembrou com humor e qualidade as películas de antigamente.
Sendo assim, inicio hoje a história de Nigel "Crow" Thomas Lodwigh e de Ana de Villardompardo que se passa no final do século XVI. Espero que minhas palavras consigam remeter vocês à época das grandes navegações,onde corsários representavam reis e rainhas e piratas poderiam ter mais honra que representantes da realeza.
Sendo assim, deixo com vocês o início de "O CORSÁRIO APAIXONADO".


CAPÍTULO I

Propriedade de Sir Timothy Lodwigh no Condado de Kent


Nigel Thomas Lodwick perdeu sua mãe ao nascer, sendo criado por uma tia paterna. Também viúva e sensibilizada com a situação de pai e filho, ela dedicou-se ao pequeno órfão como se ele tivesse sido gerado em seu próprio ventre. Sir Timothy Lodwick, seu pai, era um rico proprietário de terras no condado de Kent. Com a perda da esposa, tornou-se um homem amargo e voltado totalmente para seus negócios, deixando a educação de seu filho ao encargo da irmã e de tutores, que sofriam nas mãos do rapazinho revoltado com o desinteresse do pai. Apenas Tammy, a tia, conseguia controlar seus ímpetos e acalmá-lo nas crises de fúria e rebeldia. Quando tinha dezessete anos, uma misteriosa febre levou sua “mãe adotiva” por quem nutria um grande carinho. Por ocasião do enterro, seu pai tentou uma aproximação do filho renegado por tantos anos. Contudo, não era fácil para Nigel aceitar a atitude do homem que por toda a sua vida o menosprezara. A obstinação, própria dos adolescentes, o impediu de ouvir o que Timothy tinha a dizer. Esse, por culpa, se retraiu e calou seus sentimentos mais uma vez. O jovem impetuoso partiu para Londres, depois de exigir do pai sua parte na herança da mãe. Durante meses gastou tudo em festas e mulheres. Orgulhoso demais para voltar para casa e permitir que seu pai o classificasse como um inútil, no que ele teria toda a razão, Nigel alistou-se na marinha real de Sua Majestade em busca de aventuras.
Sob o comando do implacável e ríspido Sir Francis Drake, navegou e participou de batalhas em alto-mar contra navios espanhóis, corsários de várias nacionalidades e piratas apátridas. Era o ano de 1588 e Elizabeth I estava em plena guerra contra Filipe II da Espanha. Logo se adaptou à vida de marujo, tornando-se um conhecedor das artimanhas da navegação em alto-mar. Com seus modos elegantes e conhecimento das letras logo chamou a atenção de Drake, que o ordenou como seu Imediato. Aprendeu a manejar a espada e o punhal com grande destreza e a atirar com o mosquete. Adquiriu músculos durante os longos meses em que trabalhou como grumete e, com apenas vinte anos era temido por seus companheiros que evitavam a todo custo uma luta corpo-a-corpo com ele, pois sabiam que seriam derrotados rapidamente. Lutava com força e inteligência. Ganhara algumas cicatrizes pelo corpo, frutos das batalhas em defesa de seu país. Herdara da mãe o verde profundo dos olhos e os cabelos negros e ondulados. O rosto anguloso, marcado por uma pequena cova no queixo forte, e as sobrancelhas retas e espessas emprestavam-lhe um ar selvagem que, quando irritado, acabava por desestimular os possíveis encrenqueiros. Já sobre as mulheres exercia irresistível atração, angariando inveja entre seus companheiros de armada e farra. Admirava a capacidade de comando e estratégia de seu capitão, Francis Drake, conhecido por sua volta ao mundo no navio Golden Hind e célebres vitórias sobre os espanhóis, além do fato de ter sido homenageado com distinção pela Rainha por seus feitos. Contudo, Nigel não via com bons olhos a maldade dissimulada nas ações de seu comandante. Drake não demonstrava qualquer tipo de piedade para com seus prisioneiros. Com exceção de alguns oficiais espanhóis, que por sua bravura em combate, eram respeitados e levados às prisões inglesas, a maioria da tripulação dos navios inimigos não era tratada com tal deferência. Navios afundados, tripulação eliminada. Os que não morriam afogados e pediam abrigo no navio carrasco eram torturados e colocados a andar na prancha. Os motivos para tal barbárie era a falta de espaço para acomodar e alimentar os “ratos espanhóis”, como Drake se referia aos inimigos.


Naquele dia quente de verão, o céu amanhecera claro e o vento se encontrava a favor. A nau velejava em águas tranquilas, a meio caminho entre Inglaterra e Espanha, quando inesperadamente um grito, vindo do mirante no alto de um dos mastros, alvoroçou o ânimo dos marinheiros do Enterprise.
- Todos ao convés!Navio à vista!
Drake e Nigel imediatamente correram para o deck de comando para tentar reconhecer a origem do barco avistado. Com uma luneta o comandante pode detectar a bandeira espanhola orgulhosamente desfraldada no mastro principal do galeão de pequeno porte. Surpreendeu-se ao perceber um navio como aquele navegando sozinho em período de guerra. Seriam facilmente subjugados. De nada adiantaria a bandeira branca que seria hasteada logo a seguir.
A um comando de voz, Drake ordenou a movimentação para os homens posicionarem-se junto aos nove canhões à estibordo e iniciarem as manobras de ataque. As velas de cutelo foram içadas de forma a aumentarem a velocidade, aproveitando o barlavento, jogando o Enterprise velozmente em direção aos espanhóis, que surpresos, tentaram empreender uma fuga. Entretanto, o ataque com a artilharia pesada iniciou.


Nigel usou a luneta do comandante e olhou mais uma vez para o interior do galeão e pode perceber que eles não estavam preparados para o combate. Provavelmente transportava passageiros, o que foi deduzido principalmente depois de ver surgir a bandeira propondo trégua. Procurou por Drake, mas o homem não lhe deu ouvidos. A ele não interessava se havia civis a bordo ou se a flâmula branca solicitava paz. Carregavam a bandeira espanhola, portanto eram considerados inimigos. Daria início às prisões e ao confisco de tudo que tivesse algum valor assim que os abordasse. Sob os gritos de satisfação dos marujos ingleses, em poucos minutos as embarcações estavam lado a lado. Teriam que ser rápidos, pois um dos tiros atingira o casco e em pouco tempo o galeão afundaria. Drake e seus oficiais tomaram posse da nau sem que houvesse qualquer resistência. O comandante espanhol, quando chamado a explicar sua missão, disse que trazia uma família de nobres, cuja senhora era inglesa e pedia permissão para ver o irmão que morava em Basildon.
- Não sabem que estamos em guerra? – perguntou Drake sarcasticamente. – Ou pretendiam entrar sem permissão? Essa rota não é a usualmente utilizada para acesso aos nossos portos.
- Temos permissão, é claro. Acompanhamos o Duque de Villardompardo, sua esposa, a Duquesa Eleanor e sua filha Ana. Tenho comigo os documentos enviados pelo irmão de minha passageira, Lord Edmond Boyle, onde a própria Rainha Elizabeth I permite nossa entrada.
- Tenho ordens da mesma Rainha de não permitir o ingresso de navios espanhóis em nossas águas.
- Senhor! – exclamou um homem em trajes nobres e elegantes aproximando-se rapidamente do pequeno grupo.
Instintivamente Drake levantou sua espada na direção do fidalgo no momento em que este chegava muito próximo, provocando-lhe um ferimento mortal. Na mesma hora um grito desesperado de mulher ecoou no ar.
- Ramon!
Uma mulher jovem e atraente, de cabelos ruivos, correu através do convés e jogou-se junto ao corpo inerte de seu marido. Logo atrás dela, uma menina com cerca de dez anos, de olhar assustado, juntou-se aos pais. Ela estava com os cabelos presos no alto da cabeça e uma mancha em forma de coração em sua nuca chamou a atenção de Nigel. Alguns dos assaltantes começaram a rir, mas logo emudeceram a um olhar do Imediato, que estava penalizado com o que acontecia diante de si, apesar de empenhar-se em não demonstrar qualquer emoção.
- Não temos tempo para demonstrações lacrimosas.- objetivou Drake. – Homens! Vasculhem o navio e tragam tudo que encontrarem de valor. O vinho e as mulheres serão de vocês.
- Capitão, – cochichou para Drake ao ouvir tamanho absurdo principalmente no que se referia às “mulheres” – Não creio que esteja falando seriamente. Uma delas acabou de ficar viúva e a outra é apenas uma criança.
- Bondoso Nigel... Não conhecia esse seu lado patético. Estamos em guerra, meu caro, e os homens precisam de diversão de vez em quando.
- Por favor, capitão... - rogou o comandante espanhol – Ofereço minha vida pela delas, mas, por favor, leve-as em segurança até a casa de seu irmão. Certamente terá problemas se ele ou a Rainha descobrirem o que aconteceu.
Drake olhou para seu opositor com desprezo, irritado com a ameaça impingida na última frase, e acabou por gritar uma ordem aos seus grumetes.
- Prendam-no no mastro principal e deixem-no afundar com a sua galera. Levem as duas para minha cabine.
- Obrigado, capitão. Sabia que poderia contar com seu cavalheirismo – agradeceu altivo o nobre espanhol, que ao ser amarrado no mastro ouviu as ultimas e venenosas palavras de Drake em seu ouvido:
- Elas serão minhas e depois as darei de presente para os meus homens.
- Miserável! Bastardo! – berrou o heróico hispânico enlouquecido com tamanho sadismo.
- O que disse a ele? – perguntou Nigel preocupado com a reação do prisioneiro.
- É melhor fazer sua parte, amigo, e apressar os homens para que voltem a Enterprise.
- E o resto da tripulação dele? – apontou com o queixo para capitão condenado à morte.
- Acompanhará seu comandante, é claro. – explicou irônico.
Estupefato, mas resignado às ordens de seu superior, Nigel cumpriu sua missão e em poucos minutos todos ingleses abandonaram o galeão espanhol. Mãe e filha olhavam para eles com um misto de tristeza e ódio quando foram arrastadas para longe do corpo do chefe da família morto e levadas conforme a ordem de Sir Francis Drake.
Enquanto a embarcação afundava e os gritos de desespero da tripulação destinada à morte inundavam o início de tarde, o céu se encobria de nuvens, tornado o dia cinzento.
Angustiado com a situação das prisioneiras de Drake, foi até a cabine do oficial.
Drake ficou visivelmente irritado com a invasão de Nigel.
- O que quer aqui? Já dei minhas ordens. Mantenha o curso! – desferiu as palavras enquanto abria uma garrafa de rum, o que não era um bom sinal. A bebida costumava deixar aflorar ainda mais o pirata disfarçado sob o título de Sir e sob o uniforme de oficial da Rainha. Por sorte isso não era comum.
- Preciso lhe falar em particular, senhor – Nigel achou que não seria prudente falar diante das mulheres.
Drake saiu da cabine acompanhando-o.
- O que quer afinal?
- Gostaria de me oferecer para levar as damas de volta à Inglaterra, senhor. Devemos encontrar em breve o Queen of the Seas que está retornando à Dover. Ele poderá nos levar e lá ajudarei a senhora a encontrar seu irmão.
O rosto de Drake inundou-se da cor vermelha. Seus olhos faiscavam de raiva. Estava indignado diante da insolência do jovem oficial, em quem ele confiara tanto nos últimos meses. Como ele ousava interferir em seus planos, querendo dizer-lhe o que fazer.
- Hoje parece que todos a minha volta resolveram demonstrar seu lado heróico. Já vi que essas duas vão trazer muito azar em minha viagem. Você acaba de determinar o futuro delas.
- Como, senhor? Não entendi... – Nigel surpreendeu-se com o modo como seu superior reagira a sua oferta. Ele realmente acreditava que Drake atenderia ao pedido do capitão espanhol.
- Quem você pensa que é para vir me impor suas ideias e dizer o que devo fazer?
- Senhor... Eu pensei que nós as levaríamos para o irmão na Inglaterra...
- Pois pensou errado. Essa mulher, apesar de nascida em nossas terras, se é que isso é verdade, não passa de uma traidora, pois casou com um inimigo.
- Acredito que isso tenha acontecido antes de declararmos guerra a Espanha, senhor, tendo em vista a idade da filha.
Drake aparentava uma iminente crise colérica. Jamais um de seus subordinados tivera tamanha audácia.
- Terry! Code! – gritou para dois de seus auxiliares.
Tarde demais, Nigel entendeu o que se passava. Ultrapassara os limites da tolerância de seu comandante. Não se passaram mais que dez segundos e dois homens corpulentos surgiram diante deles.
- Prendam o Imediato Lodwick – ordenou diante dos dois grumetes surpresos com tal ordem. – Ele será julgado por insubordinação,
- Senhor, sabe que está cometendo uma grande injustiça. – alertou Nigel com voz firme.
- Aquelas duas lá dentro serão colocadas de volta ao mar em um bote. Sem água e sem comida, à deriva... Graças a você!
- Não, senhor. Por favor! Não faça isso! Elas morrerão!
- Levem-no para a prisão. Faremos seu julgamento depois de nos livrarmos dessas bruxas.
- Como? – questionou Nigel abismado com a citação de bruxaria.
- Sim, bruxas! Elas já enfeitiçaram dois bons oficiais de marinha. O espanhol e meu imediato. Antes que elas provoquem um motim em meu navio, me livrarei delas. Talvez tenha sido bom você ter me alertado sobre isso. Duas mulheres a bordo pode ser motivo de uma revolta entre os homens... Levem-no!
- Sim, senhor capitão. – obedeceram os marujos.
Nigel não reagiu. Na situação em que se encontrava e levando em conta a ira de Drake, achou por bem ficar quieto para não piorar a situação das pobres mulheres ou a dele. Ainda não podia acreditar que o comandante fosse capaz de deixar à deriva duas pessoas totalmente indefesas, sendo uma delas uma criança. Esperava que ele retrocedesse em suas intenções.
O que se seguiu após esse incidente mudaria a vida de Nigel para sempre.
Sir Francis Drake ordenou que mãe e filha fossem colocadas em um pequeno bote e lançadas ao mar sem mantimento algum.
Através da pequena escotilha da cela onde foi jogado, Nigel pode observar terrificado o barco com as prisioneiras ser colocado nas águas revoltas, deixado para trás, até perder-se no horizonte. Jamais esqueceria a expressão de Ana, num misto de espanto e terror diante da perspectiva da morte, vendo oficiais ingleses, conterrâneos de sua mãe, como responsáveis por seu infortúnio. Os grandes olhos castanho-claros não cansavam de repetir a pergunta cruel: Por quê? A vontade dele era a de se jogar ao mar e poder acompanhá-las em sua desventura. Talvez tivessem alguma chance com seus conhecimentos. Entretanto, era impossível qualquer reação estando ali preso. Talvez, se ele não tivesse falado com Drake... Ele poderia estar blefando apenas para assustá-las. Como saber? Agora se sentia responsável pelo destino delas.
À medida que se afastavam do minúsculo barco, o interesse voltou-se para o julgamento instituído por Sir Drake, que acumulou os papéis de Promotor e Juiz. Numa apreciação descaradamente parcial, sem dar direito à defesa do réu, em minutos a sentença foi dada. Ordenou que o rapaz fosse amarrado a um dos mastros e recebesse vinte chibatadas, como exemplo à tripulação contra futuras insubordinações, Sua camisa foi arrancada e o castigo começou. O carrasco foi escolhido entre um de seus companheiros. Quando Drake percebia a falta de força no chicote, gritava com o responsável para que este não tivesse clemência e colocasse toda sua força na próxima vez, ou seria substituído e amarrado no outro mastro para levar castigo igual. Apesar de o verdugo ser amigo de Nigel, não pode deixar de cumprir a ordem com medo da punição.
Ao final da pena, uma chuva fina caía, lavando o sangue das feridas abertas e disfarçando as lágrimas de dor do rosto de Nigel. Drake deu as costas e retirou-se para sua cabine, deixando seu ex-imediato exposto à humilhação perante seus companheiros. Com as costas dilaceradas, recebeu a ajuda e o pedido de perdão do amigo ordenado executor. Levaram-no para o seu catre onde o deitaram de bruços e cuidaram dos ferimentos da melhor maneira que podiam. Ali, deitado, Nigel tentava esquecer a dor pensando no que faria de sua vida. Não poderia mais servir a um homem como aquele. Pedir para sair de seu comando o obrigaria a dizer seus motivos, o que desagradaria à Rainha, que certamente preferiria acreditar em seu herói corsário. Preferia tornar-se um desertor a continuar a servir a um comando cruel e sem escrúpulos.
Tão logo se recuperou de seus ferimentos, perdeu sua posição de imediato e voltou a trabalhar em serviços menores como grumete. Nenhum comentário respeito do que ocorrera foi feito, mas Nigel já tinha seus próprios planos para deixar a marinha inglesa.
Duas semanas depois do incidente com o galeão espanhol, o Enterprise retornou à Dover e a tripulação recebeu uma folga de três dias, após a qual voltariam a embarcar e continuar sua vigília em busca de navios inimigos em águas territoriais.


(continua...)

Gostaram? Não gostaram? Comentem...
Beijos!!

domingo, 12 de junho de 2011

FELIZ DIA DOS NAMORADOS!!

CLARO QUE EU NÃO PODERIA DEIXAR PASSAR EM BRANCO UMA DATA IMPORTANTE COMO ESSA. POR ISSO VIM HOJE PARA DESEJAR A TODOS MUITO AMOR, CUMPLICIDADE, AMOR, ROMANCE, AMOR, RESPEITO, AMOR, PACIÊNCIA E MAIS AMOR ... SEMPRE!
APROVEITANDO O ESPAÇO...RSRSRS... QUERO DESEJAR UM FELIZ DIA DOS NAMORADOS PARA O MEU NAMORADO HÁ QUASE 27 ANOS... ESSE MERECE OS PARABÉNS, VOCÊS NÃO ACHAM?
DESCOBRI UM VÍDEO MUITO LINDO E GOSTARIA DE COMPARTILHAR COM VOCÊS.
CURTAM MUITO ESSE DIA ESPECIAL AO LADO DE SEU AMOR.
UM GRANDE BEIJO A TODOS!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Novos selinhos

Oi, pessoal!
Passei aqui  para mostrar os novos selinhos que ganhei da minha querida amiga Brih, do blog Meu Livro Rosa Pink. Um super obrigada,linda!



Tem algumas regrinhas ao aceitar os dois selinhos, que são:
Indicar quem te presenteou: Meu Livro Rosa Pink
Escolher de 5 a 10 blogs para homenagear e avisá-los no final do post. Os meus indicados são:

Doce Encanto
Papéis Avulsos
Doida e Romântica
RomancesKalanit Flowers
Ops!
Chá com Biscoito e um Livro para Acompanhar

Mais uma vez, obrigada pela linda lembrança, Brih!
Beijos!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Pelo de Punta (Arrepiada) - Capítulo XVI (Final)


Isabel insistira em levar Júlia ao Aeroporto. Pegou a Hammer, pois era o único veículo disponível no momento. Seu Smart estava na oficina da polícia e só Deus sabia quando poderia ser levado a um chapeador para desamassar a lataria danificada no acidente. O Civic de seu irmão, bem como o Jeep, havia sido confiscado. Júlia despediu-se de Rosário, de quem se tornara mais próxima nos últimos dias. A ideia de que ela era a noiva escolhida por Miguel e que lhe dedicava algum carinho, fez com que a mulher deixasse um pouco de lado a frieza e a distância que dedicava aos estranhos. Com os olhos marejados, conseguira dar um beijo na face da brasileira e agradecer-lhe por ter amado seu filho. Júlia conversara suficientemente com Isabel para isentar-se da culpa pela morte de Miguel, mas ainda tinha restrições quanto à ideia de enganar Rosário sobre os sentimentos por seu filho. Contudo, não teve coragem de desmenti-la. Contar-lhe que, na verdade, descobrira não amar o namorado como pensava amar e que seu verdadeiro amor era um agente da CIA por quem se apaixonara indevidamente enquanto ele a enganava para obter informações sobre seu filho seria muita loucura. Certamente essas revelações não fariam nada bem àquela mãe já tão amargurada. Em meio a essa abstração, notou que Isabel dirigia muito lentamente, o que não era o seu habitual. Provavelmente fosse um resquício dos terrores por que passara noites atrás, mas ao olhar o relógio, deu-se conta que perderia o avião se não chegasse logo ao aeroporto.
- Isabel, quer que eu dirija? Está se sentindo bem?
- Estou ótima!
- Então por que está dirigindo tão devagar? Não haveria problema, não fosse o meu horário de embarque. Tenho a impressão que o avião não vai esperar por mim.
- Ah! Claro! Desculpe! É que não estou acostumada a dirigir este monstrengo... Vou acelerar um pouco mais – E imediatamente acelerou, mas não muito. Júlia não quis reclamar novamente, mas achou a atitude de Isabel um tanto incomum.
Passados quase quinze minutos, chegaram ao aeroporto quando era dado o aviso para o seu embarque imediato. O mais rápido possível foi até o guichê de check in, onde liberou sua passagem e entregou a bagagem. Despediu-se de Isabel e estranhou, entre lágrimas e votos de reencontrarem-se em breve, o fato de que ela sorria, parecendo feliz com sua partida. Preocupada com a amiga, encaminhou-se correndo para o RX da bagagem de mão e detector de metais. Ao passar, o alarme soou. Uma funcionária pediu que se aproximasse e usou o detector manual sobre seu corpo. Apesar de não ter identificado nenhum artefato ameaçador, Júlia foi levada sob protestos até uma sala da Polícia Federal. Nervosa, não conseguia acreditar que o mesmo que ocorrera em Nova York estava se repetindo. Só que agora, se eles não a liberassem logo em seguida, perderia o seu vôo. Foi exatamente o que ocorreu. Sentada numa desconfortável cadeira, sozinha em uma saleta, com vontade de chorar, o que estava se tornando uma coisa absurdamente comum nos últimos dias, viu um homem em roupas civis surgir e convidá-la para segui-lo. A princípio teve medo de que fosse alguma vingança dos contrabandistas que tinham ficado sem seu líder, mas o ar aparentemente inocente do sujeito a tranquilizou. Ainda temerosa, foi avisada de que, como havia perdido seu vôo por culpa da Polícia Federal, eles a recolocariam em outro avião. Mais tranquila, pois o que desejava era voltar o mais breve possível para o Brasil, continuou seguindo o estranho funcionário. Surpreendeu-se ao ver que o novo avião, não pertencia a nenhuma das linhas aéreas conhecidas. Era um jatinho particular que não tinha nenhuma identificação conhecida. Suas pernas bambearam e o medo de um sequestro ou de uma vingança voltaram. Paralisou no meio da pista onde o jato estava estacionado, mas acabou por ser gentilmente convencida pelo jovem que não havia perigo algum. Foi então que se lembrou de suas malas que deviam ter sido despachadas no vôo da American Airlines que perdera.
- E as minhas malas, senhor? – podia funcionar como desculpa para retardar a sua entrada no avião – Talvez seja melhor eu avisar sobre as malas...
- No se preocupe, señorita... Está todo bien.
Continuando em seu modo delicado, ele pegou em seu braço e aos poucos foi levando-a para o interior da aeronave. Despediu-se e deixou-a lá dentro.

Havia poucos lugares e todos estavam vazios. Sentou-se em estado de alerta em uma das confortáveis poltronas, virada para a cabine de comando, a espera que dali saísse a qualquer instante um bandido armado, ameaçando-a de morte. Tensa, ouviu a porta da nave se fechar às suas costas e ficou esperando pelo pior.
- Tenho a impressão que esse lugar é meu, senhorita – vibrou a voz rouca tão conhecida dela, fazendo-a estremecer.
Virou-se imediatamente encontrando o rosto de Bryan muito próximo ao dela.
- O que você está fazendo aqui? – perguntou com dificuldade devido à momentânea falta de ar, quase sem acreditar no que estava acontecendo.
- Terei que lembrar à senhorita de que não respondeu a minha última pergunta?
- Pergunta? Que pergunta? – Não conseguia desviar-se daquele rosto, acorrentada pelo brilho das íris verdes que a fitavam intensamente, principalmente quando ele se ajoelhou a sua frente.
- Ainda pensa em viajar sem conversarmos?
- Bryan... Eu não imaginava que essa conversa fosse tão importante a ponto de...
- A ponto de raptá-la? – completou com um sorriso malicioso – Foi a única maneira que encontrei para dizer que te amo – declarou-se diante do olhar pasmado de Júlia.
- Bryan, eu não sei o que dizer...
Seu semblante anuviou-se ao ouvir as palavras de Júlia, fazendo-o baixar o olhar e pegar nas mãos crispadas dela sobre o colo.
- Se não me quiser, se ainda ama o Miguel... Entenderei e sumirei da sua vida.
Emocionada com a declaração, desvencilhou uma das mãos e com ela acariciou-lhe a face, forçando-o a olhar em seus olhos novamente.
- Eu nunca amei o Miguel. Achei que o amava, mas só descobri o que isso significava quando conheci você. Infelizmente, as coisas se complicaram... Eu sofri muito quando pensei que tinha sido usada por você...
Não resistindo mais, Bryan lançou-se sobre ela, abraçando-a com força e cobrindo seu rosto com beijos cálidos e ternos até chegar à boca que o esperava ansiosa e sedenta de prazer.
- Acho que me apaixonei quando você deu aquela cabeçada em meu queixo e ainda me olhou com raiva, como se eu fosse culpado de alguma coisa – brincou, assim que seus lábios se separaram.
- Pois eu não lembro quando foi... Só recordo que senti ciúmes quando aquela aeromoça se jogou em cima de você.
- Aeromoça?
- MAE...
- Mae? Que Mae? – disse aproximando as sobrancelhas ao franzir da testa.
- Isso não interessa mais... Me beija...
- Nem precisa mandar, senhorita...
O novo beijo foi interrompido pelo piloto que surgiu na porta da cabine de comando, trajando jeans e camiseta, e anunciou sua presença arranhando a garganta
- Bryan? Podemos partir? A torre já nos liberou.
Levantando-se, mas ainda segurando a mão de Júlia, respondeu:
- Podemos sim, Leon. Obrigado.
- Por favor, coloquem os cintos. – solicitou, enquanto atrás dele uma simpática jovem morena, também em roupas esportivas, abanava para os convidados – Ah! Essa é a minha esposa, Salma, que vai nos acompanhar até Curaçao.
- Curaçao? – exclamou Júlia, levantando-se da poltrona.
- Puxa! Foi mal, Bryan... Era para ser surpresa?
- Tudo bem, Leon. Acho que foi uma surpresa, não? – e olhou em direção a Júlia que meneava a cabeça em censura, mas com uma indisfarçável expressão de deleite.
- Fiquem à vontade. Vou iniciar a decolagem. Vocês têm duas horas livres – piscou um olho conivente. – Depois serviremos uma refeição leve. Chamem se precisarem de alguma coisa, ok? – saudou-os e desapareceu com Salma na cabine.
- Você planejou direitinho, não?
- Pensei em termos um bom recomeço e achei que Willemstad seria o local ideal.
- Mas como você conseguiu tudo isso em tão poucas horas?
- Tive muita sorte e bons contatos. Depois que Isabel conversou comigo, Soza conseguiu o avião com esse seu amigo, Leon. Ele costuma fazer vôos fretados para o Caribe e, coincidentemente, hoje estava livre.
- Só um pouquinho... Que história é essa de que Isabel conversou com você?
- Foi ela que me animou a não desistir de você.
- Quando? Como?
- Lá no cemitério. Eu também fiquei surpreso, mas ela disse que você estava gostando de mim e me convenceu a tentar esclarecer as coisas entre a gente... Acabamos combinando o seu atraso, para dar tempo de fazer os arranjos no aeroporto, com a ajuda de Soza e de alguns amigos da PF.
- Mas que danadinha...
Sentaram-se frente a frente nas poltronas e colocaram os cintos.
- E o seu trabalho com a CIA...?
- Eu já fui agente da CIA, mas fui desligado há três anos. Tudo aquilo que lhe contei sobre eu estar a serviço da ONU é verdade. Como a área em que atuo está ligada ao comércio ilegal de armas, me chamaram para uma última missão. Como pode ver você está diante de um simples funcionário público, numa profissão sem o mínimo glamour.
- Essa foi a melhor notícia que você poderia me dar. Não aguentaria viver pensando que você estaria correndo perigo por aí.
O avião começou a aumentar a velocidade gradualmente e logo rompeu o espaço aéreo, elevando-se nas alturas.
Tão logo puderam retirar os cintos, Bryan levantou-se de sua poltrona e levou Júlia até o sofá que havia no meio do corredor do jato.
- Vem cá – ordenou, ajudando-a a sentar-se ao seu lado e aconchegando-a em seus braços – Não quero perder mais um minuto longe de você. – E deu-lhe mais um longo beijo. Depois, com um olhar cheio de desejo e promessas, complementou – Não sei se vou resistir chegar a Willemstad...
- Nem eu... – “Agora sei o que Isabel queria dizer quando perguntou se eu já sentira los pelos de punta”, pensou sentindo um arrepio de prazer percorrer-lhe o corpo ao entregar-se nos braços de Bryan.

                               
                                     FIM


Nada como ter tempo livre para escrever... Nem eu imaginei que poderia terminar este romance tão cedo. Só espero que não se acostumem mal, pois a mamãe aqui vai voltar para casa e pegar no batente a todo vapor já na quarta-feira. Pelo menos, volto revigorada, já pensando na próxima história que vai enfeitar o blog. Vou tentar não desaparecer por muito tempo. Apenas o necessário para compor o novo romance e ter material suficiente para começar as postagens.
Antes de terminar, gostaria de dar às boas vindas à Pah (Paola), do blog literário Livros e Fuxicos, super interessante, que passou a nos acompanhar nesses devaneios romanticos.Um beijo, querida!
Outra novidade, é um blog que acabou de nascer.  É o "SONHOSeSONS", pertencente à minha linda amiga e seguidora Nadja Castro, que pretende mostrar como viajar no mundo dos sonhos através da música.
Muito obrigada a vocês e até o próximo "romance ao vento".
Beijos!


domingo, 5 de junho de 2011

Pelo de Punta (Arrepiada) - Capítulo XVI


Júlia ainda estava em choque. Nem mesmo a movimentação dos agentes que os cercavam ou o som das asas rotativas do helicóptero que pousara no terreno próximo conseguiam tirá-la da letargia em que se encontrava. Sentiu que alguém a puxava para cima e a confortava em um abraço. A voz rouca e grave conhecida a chamava, mas seus olhos não conseguiam deixar de acompanhar os gestos de desespero de Isabel, jogada sobre o irmão, a frieza do pai que acabara de matar o próprio filho e o sangue que começava a misturar-se com a terra e a relva sob o corpo caído e inerte. Queria acordar daquele pesadelo que começara no final da manhã. Tinha dificuldades de encontrar a voz, mas lutando contra o marasmo, desvencilhou-se dos braços de Bryan e abaixou-se para consolar a amiga. Não conseguiu controlar as lágrimas. Misto de culpa, perda, tristeza e desabafo, os sentimentos mesclavam-se num turbilhão. Sentia-se perdida num terrível sonho. As palavras não conseguiam ser ditas. Conseguiu abraçar a jovem e chorar em silêncio e cumplicidade.
Enquanto isso o assassino era algemado e levado para a viatura policial, que seguira o carro de Soza. O General seria levado diretamente para a prisão especial na cidade. Ao passar pela filha ainda teve a audácia de sibilar palavras de rancor.
- Sua traidora! – dando uma cusparada para o chão.
Júlia sentiu-a estremecer e pressionou mais forte os braços em torno dela.
- Ele não merece a sua atenção – conseguiu sussurrar ao seu ouvido, tentando apaziguá-la.
Isabel continuou a acariciar os cabelos do irmão, como se o estivesse confortando.
- Você está bem? – perguntou Soza à Bryan, percebendo que a sombra que pairava sobre a expressão do agente não era apenas provocada pela noite ou pela morte do contrabandista.
- Graças a vocês... – respondeu verdadeiramente agradecido, desviando, apenas por um momento, o olhar da cena diante de seus olhos. Júlia estava sofrendo com a morte de Miguel. Ela realmente gostava daquele homem. A maneira como se desvencilhara dele para ir consolar a cunhada... Certamente havia uma forte ligação entre eles. Não conseguia evitar o ciúme, por mais que a razão tentasse convencê-lo que aquela não era a hora para esse tipo de emoção. Precisava convencer-se que o que acontecera em Curaçao fora apenas um desejo momentâneo. Ao menos para ela. Enganara-se ao pensar que Júlia poderia ser sua. Não era tão fácil assim. A morte transformaria Miguel em vítima e seu perseguidor em algoz. E essa seria a sua definição. Como convencê-la de que seus sentimentos por ela se transformaram radicalmente ao longo dos momentos em que estiveram juntos? Que a “suspeita” preenchera o vazio que trazia no peito há três anos? Tinha sido difícil ele reconhecer esse sentimento surgido tão súbito. A perspectiva de que ela pudesse morrer despertou a certeza de que estava apaixonado pela segunda vez em sua vida. Infelizmente, não era correspondido. Teria que sobreviver a isso e aquietar aquela dor no seu íntimo.

Isabel e Júlia permaneceram juntas na cena do crime até a chegada da ambulância que levou o corpo de Miguel para Santa Cruz. Isabel só permitiu separar-se do irmão ao lembrar-se da mãe, que precisava ser avisada do ocorrido. Júlia a acompanhou no retorno de helicóptero.
Bryan partiu no carro com Soza, usando a desculpa de deixar as mulheres mais confortáveis na aeronave. Não queria impor sua presença e criar um clima mais desagradável do que o existente.
- Quer conversar? – a voz de Soza encheu o silêncio dentro do veículo em movimento na estrada deserta.
- Desculpe... Estou um pouco cansado... Mas fale... O que aconteceu para mudar a posição da CIA em relação a esse resgate?
Feliz por poder conversar um pouco e poder espantar o sono que o perseguia enquanto dirigia na monótona volta à Santa Cruz, contou o que acontecera com ele e Isabel a partir do momento em que se despediram. Contou sobre Ortiz e de como conseguiram fugir do prédio da Polícia Federal para o consulado.
-... Contamos a eles o que estava acontecendo. Soubemos que Ortiz tinha sido detido. Ele vinha sendo monitorado há algum tempo pois desconfiavam da ligação dele com o grupo de Vasquez. Apesar de nosso apelo para que mandassem ajuda a vocês, eles foram resistentes. Isabel, então, disse que só entregaria as provas se eles enviassem auxílio. A decisão foi finalmente tomada quando o comandante recebeu uma mensagem dizendo que o General tinha chegado à cidade e estava dirigindo-se para o “El Chaco”. Depois disso você já sabe o que aconteceu.
- Eu estava a ponto de atirar em Vasquez quando... as coisas se precipitaram...
- Fiquei surpreso com a atitude do tal Miguel. Ele devia gostar mesmo da noiva para defendê-la daquele jeito e morrer por isso. – Logo se arrependeu do comentário ao ver Bryan voltar a ficar amuado. Passados alguns minutos de silêncio, continuou – O que acha da Isabel?
- O quê? – Bryan estranhou a pergunta, mas logo contraiu os lábios, delineando um sorriso – Está gostando dela?
- N-não... Imagina... Só perguntei por perguntar – disfarçou arrependido da ridícula pergunta – Estava só procurando assunto.
- Ela me pareceu uma pessoa ótima. Bem diferente do resto da família. Pelo menos foi quem melhor me tratou enquanto estive na casa dos Vasquez – prosseguiu, achando graça do visível mal-estar do rapaz – Talvez você tenha mais sorte que eu...
A conversa foi encerrada, pois acabavam de entrar na cidade e tomaram a direção do consulado, onde Bryan precisava dar maiores esclarecimentos dos fatos ocorridos. Enfim aquela noite terminara deixando marcas indeléveis em seus sobreviventes.

Júlia decidiu ficar em Santa Cruz até o dia do sepultamento de Miguel. Continuou hospedada na casa dos Vasquez dando apoio a quem restara da família. Apenas os empregados de confiança de Rosário permaneceram. Todos os componentes da equipe de segurança ou fugiram ou foram detidos para averiguar até que ponto estavam envolvidos na rede de contravenção, sendo que Gomez estava entre os presos. Os bens da família Vasquez seriam arrestados. Por sorte, Rosário, por imposição de seu pai, casara com separação de bens. Vinda de uma família abastada, quando percebeu tardiamente o erro que havia sido seu casamento e a má índole de Vasquez, tratou de resguardar seu patrimônio pessoal, pensando em seus filhos. Há muito o casamento era apenas uma fachada, que escondia a violência e as constantes ameaças de vingança se houvesse qualquer tentativa de separação por parte dela. Mesmo quando descobriu que Isabel fora seduzida e abusada pelo próprio pai após sua festa de quinze anos, foi obrigada a manter-se calada. Vasquez, aos poucos, foi destruindo sua auto-estima, aniquilando seu gosto pela vida e transformando-a numa mera peça decorativa onde deveria haver um lar. Vivia apenas para seus filhos, por quem passava horas rezando, pedindo que lhes fosse dada a chance de uma vida melhor e mais digna. Quando Miguel passou a acompanhar o pai, teve mais um baque sobre o resto de esperança que ainda possuía de seus filhos não se contaminarem com as atitudes escusas do pai. Agora só tinha a Isabel e por ela continuaria de pé, apesar do sofrimento com a perda de seu primogênito.
Em meio a esse clima sombrio, Júlia muitas vezes se via lembrando de sua viagem e das horas que passara ao lado de Bryan. Era como um conforto em meio ao pós-caos. Cada vez que o telefone da mansão tocava seu coração dava pulos e só voltava ao normal quando ouvia que a ligação não era para ela. Ressentia-se por Bryan não tê-la procurado depois de tudo que passaram juntos. Tentava exorcizar os pensamentos românticos, convencendo a si mesma que tudo não passara de uma trama para chegar a um objetivo. Agora que este fora alcançado, não havia motivo algum para o agente Bryan sacrificar-se em sua companhia. A farsa acabara e iria cada um para o seu lado. Quando pensava assim, não conseguia segurar as lágrimas, o que fez Rosário pensar que o choro era por Miguel. Apesar de reconhecer que a enganava, nunca negou isso. Não teria como explicar como se apaixonara em tão pouco tempo pelo homem que a usou para chegar ao seu filho, numa situação que precipitou a sua morte. Esta era mais uma carga que teria que levar sobre os ombros. A culpa pela morte de Miguel. Jamais se esqueceria de sua última conversa no sítio e de como ele perdera a vida protegendo-a. Nas últimas noites acordava gritando em meio ao pesadelo real revivido durante o sono. O tiro e a queda de Miguel sem vida a sua frente provavelmente ficariam impressos em sua memória o resto da vida.

O enterro de Miguel foi realizado somente quatro dias depois de sua morte. O dia amanheceu nublado. Um calor abafado e úmido envolvia os poucos presentes, entre eles Bryan e Soza. Sempre ao lado de Rosário e Isabel, Júlia logo notou a presença do agente americano no cemitério. O tremor dos joelhos e a respiração acelerada traíram sua disposição a esquecê-lo. Isso só piorou quando ele avançou em sua direção após o encerramento do cerimonial. Pensou em fugir, mas sentiu a mão de Isabel encorajando-a a ficar. Apesar de não falarem sobre o assunto, tinha a nítida sensação de que a jovem desconfiava do que se passava em seu íntimo.
Bryan cumprimentou mãe e filha, que retribuíram sem qualquer resquício de aversão. Elas tinham consciência de que o verdadeiro responsável por aquela tragédia estava na prisão, onde pagaria por todas suas maldades e contravenções. Enquanto Soza, depois de dar os pêsames a Rosário, cumprimentou Isabel e iniciou uma conversa, Bryan dirigiu-se à Júlia, cumprimentando-a.
- Podemos conversar fora daqui?
-Sinto muito, mas não tenho muito tempo. Meu avião sai no início da tarde e preciso terminar de arrumar minhas malas – desculpou-se evitando os olhos verdes que olhavam com intensidade deixando-a ainda mais insegura.
- Por favor, me dê alguns minutos. – Era quase uma súplica.
Pensou em negar, mas ao sentir o toque em sua cintura e o perfume amadeirado que a entorpecia perdeu a vontade própria e deixou-se levar por ele.
- Como você está? – finalmente ele perguntou quando ficaram a sós.
- Por que está interessado agora? Já se passaram quatros dias desde a última vez que nos vimos... – Não conseguiu disfarçar a mágoa reprimida.
- Achei que preferia ficar sozinha.
- Não fiquei sozinha. Estava com pessoas amigas que me fizeram sentir melhor – afirmou rudemente.
- Júlia... – sussurrou, segurando-a levemente no braço, buscando as palavras certas para expor seus sentimentos..
- Você não precisa falar nada. – interrompeu-o bruscamente – Já cumpriu sua missão com honra e mérito. Não tem mais obrigação ou necessidade de sentir-se culpado pelo que aconteceu. Você é um profissional e agiu de acordo com suas ordens... – dizia tudo sem conseguir encará-lo – Eu entendo perfeitamente – finalizou sem a mínima convicção.
- Júlia! – a voz era exasperada mas firme – Pare com isso!
Antes que ela pudesse falar qualquer coisa ou fugir dali, ele a puxou contra si e colou os lábios em sua boca entreaberta. A princípio, o sobressalto a deixou sem ação, mas logo o mergulho delicioso da língua de Bryan invadindo-a impaciente, o seu gosto e o seu calor a fizeram corresponder ardentemente, deixando-a se levar mais uma vez na cascata de sensações e desejos que experimentara em Cas Abao. Arrebatada, agarrou-se a ele com desespero, passando as mãos por seus ombros, acariciando sua nuca e embrenhando-se nos seus fartos cabelos castanhos. No entanto, dessa vez Júlia foi quem, num rasgo de razão, lembrou-se de onde estava e forçou a separação. Ainda ofegante, Bryan fitou-a com um estranho brilho no verde escuro de seus olhos.
- Ainda pensa em viajar sem conversarmos? – perguntou mais confiante.
- Júlia, temos que ir para casa – a voz frágil mas determinada de Rosário chamou-a à realidade, interrompendo a possibilidade de acerto do casal.
Envergonhada e confusa, Júlia afastou-se de Bryan.
- Tenho que ir – disse com voz embargada.
Sob o olhar incrédulo dele, afastou-se atendendo o chamado da velha senhora. Por sua vez, ele tentava imaginar uma maneira de impedir que ela se fosse, mas nenhuma ação naquele momento, naquele lugar e diante daquela família abalada era permissível. Por isso permaneceu ali, parado, vendo a mulher que amava afastar-se entre alamedas e túmulos.
- O que ele queria? – perguntou-lhe Rosário.
- Nada... Apenas despedir-se – explicou cabisbaixa.
- Onde será que se meteu a Isabel? – indagou apreensiva.
- Já deve estar no carro, não?
Tomaram o rumo do estacionamento e lá esperaram ainda alguns minutos. Isabel surgiu no portão do Cementerio General acompanhada por Rafael Soza, para logo despedir-se dele com um beijo fraterno. Correu até o carro, aonde chegou com uma estranha expressão nos olhos brilhantes e no rosto corado.
- Por que demorou tanto? O que estava fazendo? E quem é aquele moço? – desandou em perguntas Rosário preocupada.
- É um policial que conheci... – respondeu apenas à última pergunta, lançando uma olhadela tímida para Júlia.
Entraram no carro com o novo motorista contratado. Júlia ficou olhando pela janela na esperança de ver Bryan mais uma vez. Infelizmente isso não ocorreu e ela partiu resignada ainda com o gosto daquele último beijo em sua boca.

(continua...)


Pois é, pessoal... Ainda não foi dessa vez. Eu pensava que este seria o último capítulo, mas a Júlia e o Bryan não estão querendo que acabe assim tão fácil. Acho que teremos mais uma semana de sofrimento aguardando o desenlace desse romance. Vocês aguentam mais um pouquinho?
Queria aproveitar a oportunidade para falar sobre um espaço aberto para a divulgação do meu livro ERIK, num blog que admiro muito e cuja dona, Briana, é uma pessoa adorável e por quem tenho grande admiração. Fiquei muito envaidecida com o convite feito por ela e aceitei realizar uma entrevista para o seu blog. AQUI vocês poderão ver a postagem feita por ela no dia 2 de Junho.
Também gostaria  que vocês soubessem que o ERIK  vem sendo divulgado em outro blog, tão admirável quanto o da Briana, que é o Doce Encanto, cuja a dona se chama Raphaela. Ela tem demonstrado ser uma pessoa muito querida , a quem eu prezo muito, e interessada em divulgar os novos escritores nacionais. É só clicar AQUI para poderem acessar a postagem da Rapha. 
Bem, aqui eu me despeço esperando voltar muito em breve com o final dessa "história quente", como descreveu o Luiz Fernando. Por falar nisso, mais uma vez agradeço aos comentários carinhosos que recebi.
Beijos, beijos para todos!