terça-feira, 27 de julho de 2010

Resgate de Amor (13)

No dia seguinte, levantaram-se no meio da manhã e, depois de arrumados, encontraram uma farta mesa de desjejum, servida na ampla sacada da cobertura de Roberto. Lá estava Dolores, a empregada que trabalhara por muitos anos para o seu pai e que acabara continuando seus serviços junto a ele, quando da mudança para aquele apartamento.
- Sílvia, esta é Dolores, o meu anjo da guarda. Pelo jeito ela resolveu nos surpreender hoje, dia de sua folga, e preparou o nosso café da manhã – falou de forma carinhosa, com uma pitada de represália – Se não fosse ela não poderia viver neste apartamento. É quem cuida de meu bem estar. Pelo menos, cuidava... – disse, lançando um olhar zombeteiro para Dolores e abraçando Sílvia com mais força.
- Muito prazer, Dolores. O meu nome é Sílvia.
- O prazer é meu, dona Sílvia. Fico muito feliz por vocês. Já era hora deste menino criar juízo e arranjar uma moça decente prá cuidar dele – disse com olhar aprovador para a escolha de Roberto.
- Dolores! O que a Sílvia vai pensar?
- É que ele trabalha demais, dona Sílvia. Eu fico preocupada.
- Tenho certeza de que a senhora sabe cuidar muito bem dele.
Dolores abriu o maior sorriso, demonstrando simpatizar ainda mais com Sílvia.
- Que tal darmos uma volta pela cidade e depois irmos almoçar? – Roberto mudou de assunto.
- Claro! Estou por você. Sou sua hóspede agora – respondeu, pendurando-se no pescoço dele e dando-lhe um beijo na face.
- Então, vamos! - disse, retribuindo o carinho.
O dia transcorreu da melhor maneira possível. Os medos de Sílvia tornavam-se cada vez mais distantes. Estava resolvida a continuar lutando para ficar ao lado de Roberto.

A manhã de segunda feira chegou devagarzinho e preguiçosa para Roberto e Sílvia. Não fosse por Dolores, que havia chegado cedo, como sempre, ele teria perdido o horário para ir ao trabalho. Naquele dia, teria uma reunião logo cedo. Levantaram-se imediatamente ao ouvirem a voz da senhora. Tomaram um banho rápido e arrumaram-se correndo.
- Tem certeza que não quer ficar e dormir mais um pouco. O compromisso de sair é meu – falou Roberto.
- Não, querido. Eu tenho de sair mesmo. Eu já havia lhe dito que ia ao hospital para ver a possibilidade de trabalhar aqui em São Paulo, lembra?
- Eu sei, mas... É, você tem razão. Melhor fazer isto logo, para estar disponível para o nosso almoço. Depois iremos visitar o meu escritório.
- Estou morrendo de curiosidade para conhecer o seu local de trabalho.
- Onde nos encontramos?
- Será que fica ruim você me encontrar no lá mesmo no escritório?
- Claro que não. Pelo que você me falou, não fica muito longe do hospital.
- Então está combinado. Encontro você no saguão do prédio, digamos... – pensou um pouco, olhando o relógio – Às 12:30 horas?
- Estarei lá.
Ambos terminaram seu desjejum e logo estavam prontos para sair. Despediram-se de Dolores, avisando que voltariam apenas no final da tarde.
- Eu deixo você no Hospital.
- Não.Você vai se atrasar para a reunião.
- É só um pequeno desvio do meu caminho. Vamos lá! Quem garante que não teremos de fazer isto sempre, daqui para frente?
- Seria um sonho, Roberto...
O fluxo de carros naquela hora já era intenso, mas conseguiram chegar ao hospital sem enfrentar engarrafamentos.
Despediram-se com um beijo rápido, pois ele tinha de correr para a reunião.
Sílvia dirigiu-se a recepcionista e apresentou-se, dizendo que gostaria de conversar com o Dr. Miguel Lorenzoni. Foi orientada a aguardá-lo em seu gabinete, que ficava no 4º andar.
Chegando lá, soube que ele estava fazendo um “round” com os residentes, mas que já voltaria.
- O Dr. Lorenzoni já havia me avisado de sua visita – disse a secretária, para surpresa de Sílvia. Provavelmente Dirceu o havia avisado.
Cerca de 60 minutos depois, o médico entrou na sala e foi apresentado à Sílvia pela secretária. Muito cortesmente a convidou para entrar.
- Então, Dra. Sílvia, pretende mudar-se para São Paulo? Tem certeza que quer abandonar a tranquilidade do interior para vir morar nesta loucura?
- Há muito tempo tenho pensado na escolha que fiz ao sair da residência. Agora surgiu uma oportunidade para vir para cá e pensei: “Porque não?”
- Bem, Sílvia... Posso chamá-la assim?
- Claro, Dr. Lorenzoni.
- Dirceu me contou do seu interesse em trabalhar conosco. Acho que teve sorte, pois acabamos de abrir uma vaga na Emergência do hospital. Soube que você tem experiência nesta área.
- Seria ótimo – confirmou Sílvia, sem querer demonstrar muito entusiasmo, mas já adorando a idéia de ter um trabalho na cidade, para poder ficar junto a Roberto.
- São 6 horas de trabalho diário, começando às 7 horas e terminando às 13 horas. Semana de seis dias, com folga no domingo. A cada sete dias, um plantão de 12 horas, noturno.
Apesar de Sílvia ficar assustada com os horários, deu um sorriso e falou:
- Quando eu começo?
- No primeiro dia útil do próximo mês. Ou seja, em 10 dias. Teremos um grande prazer em trabalhar com você.
- Dez dias... Ótimo! – disse, preocupada com o pouco tempo para todas as mudanças que teria de realizar pela frente.
- Se você quiser dar uma olhada no seu novo setor e apreciar o movimento, a sala de emergência fica no térreo. Qualquer dúvida ou dificuldade pode falar comigo ou com o Dr. Hector Hernandez, chefe da Emergência. Antes, passe no setor de Recursos Humanos para agilizar o seu ingresso como funcionária.
- Muito obrigada, Dr. Lorenzoni. Foi um prazer conhecê-lo.
- O prazer foi meu, Sílvia.
Ela saiu do gabinete e encaminhou-se para o térreo. Lá também ficava o RH. Depois de formalizar seu emprego, decidiu conhecer o local onde passaria a trabalhar. Ao entrar na Emergência, teve vontade de voltar atrás. Aquilo estava um caos. Um acidente automobilístico tinha acabado de acontecer e as quatro pessoas feridas tinham sido levadas para lá. Todos estavam muito envolvidos. Resolveu ficar de fora e apenas observar, para não atrapalhar a rotina deles. Muitos gritos de dor mesclados às ordens lançadas pelos responsáveis pelos atendimentos. Na equipe de recepção a um paciente em risco de vida sempre há um líder. Um médico, de preferência, ou enfermeiro capacitado, que coordena as funções da equipe. Geralmente é aquela pessoa que iniciou as manobras de salvamento. Como quatro pacientes necessitavam de atenção imediata, a loucura estava instalada, apesar de haver três médicos trabalhando, como Sílvia pode constatar. A adrenalina estava solta no ambiente. Esperava que aquilo não fosse o padrão de movimento. Se assim fosse, as seis horas de trabalho diário naquele inferno iriam acabar com ela em pouco tempo.
Saiu dali, antes que mudasse de idéia. Foi espairecer nos jardins do hospital. Árvores frondosas ofereciam sua sombra aos bancos de pedra. Havia diversos canteiros com gerânios, maria-sem-vergonhas , jasmins e margaridas. Àquela hora da manhã, as flores exalavam um perfume delicioso. Notava-se os cuidados de jardinagem na forma arredondada dada aos arbustos. Sentou-se num dos bancos e aspirou ao agradável aroma que a envolvia. Seu pensamento voltou-se para Roberto. Será que ele reagiria bem aos seus horários de trabalho, os plantões? Seria uma prova importante para testar o seu amor. Teria se precipitado em suas atitudes? Só tempo diria... Quando se deu conta, já era quase 12h30min. Saiu correndo para pegar um táxi que a levasse aos escritórios de Roberto. Logo chegou à portaria do prédio. Após um breve telefonema, o porteiro pediu que ela aguardasse um momento, pois o Sr. Vergueiro já estava descendo. Enquanto aguardava, impressionava-se com a imponência do prédio e da recepção, de decoração moderna, mas sóbria, nas cores preta e branca, com alguns toques discretos de vermelho, em vasos e luminárias.
Quando Roberto a viu, deu um grande sorriso. Correu ao encontro de Sílvia e deu-lhe um beijo na boca, sem incomodar-se com a platéia, que não era pequena, devido ao horário.
Partiram a pé, em direção a uma transversal da Avenida Paulista.
Durante o almoço, Sílvia resolveu contar as novidades de seu novo emprego. Roberto tentou ver só o lado positivo das coisas, mas não gostou muito dos horários propostos.
- Você ficou chateado?
- Não, meu bem... É que eu sou um pouco egoísta. Gostaria de tê-la ao meu lado sempre. Acho que sou meio machista. Mas não ligue. Vou tentar controlar este meu lado. Se você se sente mais feliz tendo o seu trabalho, não serei eu que vou impedi-la.
- Que bom que você me entende, amor. Pelo menos, até eu conseguir algo mais ameno, vou aguentando por lá. O que importa é que vamos estar mais próximos do que se eu estivesse em Valverde e você aqui.
- Tenho certeza que tudo vai dar certo – afirmou, fazendo um carinho no rosto de Sílvia com a palma da grande mão, quase envolvendo toda sua face, enquanto a fitava intensamente. Ela sentiu-se derreter. Nada poderia dar errado, depois daquele olhar. Pelo menos, foi isso que ela pensou naquele momento. Mal sabia o que ainda estava por vir.
- Ah! Antes que eu esqueça... A Alice, minha secretária, já combinou o horário em que a van irá buscá-la amanhã. Teremos até as 20 horas, antes que tenha de partir – lembrou Roberto.
- Que bom que não vai ser muito cedo.
- Acho que é um bom horário. Vocês não pegam o movimento de final de expediente na cidade.
- Espero arrumar tudo em uma semana e chegar pelo menos dois dias antes de começar o novo trabalho. Beto... – falou, tendo cuidado ao escolher as próximas palavras – Terei de ligar para o Dirceu, saber se ele conseguiu alguém que me substitua em Valverde e agradecer por sua ajuda junto ao Dr. Lorenzoni.
- Não precisa se preocupar comigo. Juro que não vou ter mais ciúmes dele, ainda mais agora que ele está sendo o mentor da sua transferência para cá. O que eu não consigo é gostar dele. Isto você não pode me obrigar.
- Não vou te obrigar a gostar dele, assim como não sou obrigada a gostar das Ginas que aparecerem por aí...
- Sílvia! – exclamou, já sorrindo, levando na brincadeira o comentário dela – Não se fala mais nisso, está bem?
- Está bem... Até a próxima aparição – respondeu ameaçadora.
Encerrado o almoço, retornaram aos escritórios de informática dos irmãos Vergueiro.
Foram direto ao andar onde se localizava o gabinete da diretoria. Sílvia estava extasiada com o luxo dos ambientes. Ficou sabendo que o edifício fora construído pelo pai de Roberto, especialmente para o funcionamento da empresa.
Lá, foi apresentada a Alice, a famosa secretária. Era uma mulher, de traços clássicos, com idade em torno de 40 anos, cabelos castanho-escuros, presos a nuca por um pequeno coque e maquiagem discreta. Vestia um elegante conjunto de saia e blazer marinho, que valorizava o seu corpo esbelto. “Será que eles já tiveram algum afair, como aquele com Gina?”, os maus pensamentos rondavam a mente de Sílvia.
- Alice, vou mostrar os escritórios para Sílvia e não quero ser incomodado. A propósito, ficou algum compromisso para amanhã à tarde?
- Não, senhor. Eu me encarreguei de deixar a sua agenda livre, conforme me solicitou.
- Muito obrigado, Alice – agradeceu satisfeito com a eficiência de sua secretária.

Eram cinco andares divididos entre escritórios, salas de reuniões e laboratório de pesquisa.
-Vocês conseguiram tudo isto só com a informática? – indagou Sílvia, admirada com a grandiosidade da empresa.
- Não. Meu pai era de uma família de ricos proprietários de fazendas de gado e plantações de soja. Ele nos ajudou no início da empresa. Felizmente, nossos projetos deram muito certo e hoje, Marcos e eu, temos muito orgulho do que adquirimos desde então, não menosprezando a grande colaboração de nosso pai no impulso inicial. Este prédio foi projetado por ele, mas construído, em parte, com nossos lucros.
Durante a visita, Sílvia conheceu muitos funcionários e pode sentir a admiração que cada um deles tinha por Roberto. Pensou em Clélio, seu ex-funcionário, que optara por cair na ilegalidade, ao invés de continuar a trabalhar num local como aquele. Que motivos o teriam levado a agir assim? Provavelmente o motivo da maioria dos canalhas. A ganância.
Terminado o passeio pelo prédio, despediram-se de Alice e de outros funcionários da diretoria. Desceram até o subsolo do edifício e, já no estacionamento para pegar o carro, Roberto lançou uma sugestão:
- Podíamos jantar fora hoje. Que tal? É só pensar no que está com vontade de comer e escolher o lugar.
- Acho uma boa idéia... Podemos ir para casa, tomar um banho e sair. Amanhã você tem compromisso cedo, pelo que entendi.
- Sim, infelizmente. Caso contrário já estava lhe convidando para ir para a balada.
- Não... Ainda bem que não. Não gostaria de encontrar a Gina de novo, na minha noite de despedida.
Notando que Roberto fez uma cara aborrecida devido ao seu comentário, ela tentou remediar imediatamente.
- Desculpe... – disse agarrando-se em seu pescoço e beijando-o na face – Juro que não falo mais nisso.
- Cuidado! Assim não consigo dirigir direito... – repeliu-a, ainda fazendo-se de zangado.
Com esta rejeição, sentou-se amuada, encostada na porta do automóvel.
- Eu estou brincando com você...Venha cá...- disse puxando-a pelo braço, para que ela sentasse o mais próximo possível que o cinto de segurança permitia – Pode continuar o carinho, que eu estava gostando...

Enquanto Roberto tomava seu banho, Sílvia resolveu ligar para Dirceu e contar sobre o novo emprego.
- Alô?
- Dirceu? Sou eu, Sílvia!
- Oi, Sílvia! Como vai? Alguma novidade?
- Precisamos conversar a respeito do meu substituto em Valverde.
- Sério? Então você conseguiu o emprego em São Paulo?
- Com a sua ajuda. Gostaria de te agradecer, Dirceu.
- Não é necessário, Sílvia. Bem, agora temos mesmo que arrumar alguém para ficar em Valverde.
- Será que você conhece alguém que tenha esta disponibilidade de imediato?
Fizeram-se alguns segundos de silencio do outro lado da linha.
-Não só conheço como já está praticamente tudo arranjado.
- Como assim? – perguntou Sílvia surpresa.
- Depois que nos falamos a última vez, comecei a indagar sobre quem gostaria de trabalhar numa cidade menor. Uma das ex-residentes, que está fazendo um estágio por aqui, ficou interessada. O nome dela é Leonor Guimarães. Posso te dar o número dela e vocês combinam tudo.
- Oh! Dirceu, que maravilha. Está tudo dando tão certo, que até me dá medo...
- Imagine. Não há o que temer.
Sílvia estranhou o fato de Dirceu estar tão solícito, sem nenhuma observação maliciosa a fazer. Talvez ele tivesse encontrado alguém interessante. Ficaria muito feliz por ele.
- Pode me dar o telefone dela?
- Claro! Anote aí...
Depois disso, despediram-se. Sílvia estava radiante.

- Sílvia! Fiz uma reserva às vinte e uma horas no Fasano – avisou Roberto, em voz alta na sala.
- Estou quase pronta! – respondeu ela, do quarto.
Quando ela apareceu, ouviu um sonoro assobio de admiração.
- Hoje você resolveu me deixar completamente louco...
- Ah, eu só caprichei um pouquinho... Não exagera.
Sílvia estava com seus cabelos negros presos num coque alto, com uma mecha caindo despretensiosamente sobre a face direita. A maquiagem, feita sem exageros, realçava seus lindos olhos verdes. Colocara um vestido preto, sem mangas, cintura alta, com um sensual decote na frente, que enfatizava os seus belos seios.
- Vamos sair logo, antes que eu desista e resolva cancelar a nossa reserva, para jantarmos em casa – disse Roberto, aproximando-se dela e pegando suas mãos. Olhou-a diretamente e, sem desviar o olhar sedutor, beijou-lhe a mão direita.
- Também acho que devemos ir logo... – respondeu Sílvia após um estremecimento dos joelhos.

O lugar era muito chique. Ela já ouvira falar muito do lugar, mas nunca fora convidada a jantar lá antes. Foram levados até uma mesa no salão principal.
- Roberto, parece um sonho. Parece que tudo está dando certo. Acho que já tenho até uma substituta para o consultório em Valverde.
- Já? Assim tão rápido? – perguntou, achando muito estranho a facilidade com que tudo estava acontecendo – Que bom...
- Você não gostou?
- Claro que gostei. Só fiquei surpreso. Como você soube da substituta?
- Liguei para o Dirceu, enquanto você estava se arrumando e contei sobre a minha entrevista com o Dr. Lorenzoni. Aí ele me falou sobre uma colega, a Dra. Leonor Guimarãres, que ficou interessada em me substituir. Não é ótimo?
- Claro que é, meu amor. Fico feliz que as coisas estejam se resolvendo da melhor maneira.
- Que bom... Pensei que você estivesse decepcionado com a minha mudança tão rápida para cá.
Roberto pegou sua mão carinhosamente e disse:
- Sílvia, o que mais quero atualmente é ter você ao meu lado. Não consigo mais imaginar viver sem você.
Entre olhares e demonstrações de carinho, conversaram sobre seus planos para o futuro, sobre uma possível viagem aos Estados Unidos para Sílvia conhecer a mãe de Roberto, que ainda vivia lá, e sobre como seria a rotina assim que ela começasse a trabalhar.
Terminado o jantar, Roberto pagou a conta e foi com Sílvia pegar o carro no estacionamento do restaurante. Lá, foram surpreendidos por fotógrafos que se encontravam na entrada do local, aguardando a saída de algum famoso. No caso, eles seriam os escolhidos para virar notícia de alguma revista de fofocas.
Notando que Roberto começara a irritar-se, Sílvia sugeriu:
- Não vamos estragar nossa noite. Vamos abanar para eles e fazer cara de felizes. O que eles querem é que a gente tente se esconder. Já li algumas revistas de fofocas e sei o que eles preferem notícias sobre quem não está bem.
- Pensei que as revistas de fofoca eram para os pacientes da sua sala de espera. – observou sorrindo.
- Eu não gosto, mas no cabeleireiro de Valverde é só o que eles têm para ler enquanto se espera o atendimento. Baseada nisso passei a comprá-las para o meu consultório também. – respondeu, arrancando uma sonora risada de Roberto.
- Acho que você tem razão. Vai até ser divertido.
Assim, entraram no carro, depois de acenar para os flashes, e saíram distribuindo sorrisos para todos.
Foram para casa, sem mais se preocupar com os fotógrafos. Queriam curtir sua última noite juntos, antes do retorno de Sílvia. E foi, com certeza, uma noite inesquecível.

Naquela manhã de terça feira, Sílvia preferiu ficar no apartamento de Roberto para poder arrumar suas coisas, entrar em contato com a Dra. Leonor. Com o tempo que sobrasse, sairia para comprar lembrancinhas para Franco e Suzi. Como Roberto teria de ficar até o início da tarde no escritótio, combinaram que ela o encontraria para o almoço.

- Bom dia. Dra. Leonor? – perguntou Sílvia ao telefone, depois que Roberto saiu para o trabalho.
- Sim? Quem fala? – respondeu uma voz meiga do outro lado da linha.
- Meu nome é Sílvia Mattos e sou amiga de Dirceu. Acho que ele deve ter lhe falado sobre mim.
- Ah, claro, Dra. Sílvia! Ele me falou sobre a sua mudança de Valverde para São Paulo.
- Pois é. Já está tudo combinado por aqui. Mas preciso de alguém que me substitua por lá. Eu sou a única médica da cidade. O outro colega está aposentado e creio que não tem interesse nem saúde de voltar a clinicar. Está com 80 anos.
- Espero que não tenha conseguido ninguém ainda, pois estou muito interessada.
- Não, ainda não tenho nenhum candidato à vaga – disse Sílvia, sorridente.
- Quando podemos conversar sobre os detalhes?
- Olhe, eu estou voltando para Valverde hoje à noite. Podemos combinar um encontro. Onde ficaria melhor para você?
- Eu posso ir até Valverde amanhã mesmo – respondeu após alguns segundos reticentes. Sílvia teve a nítida impressão que alguém cochichava ao lado de Leonor.
- Seria ótimo, se não for incomodo para você.
- De jeito nenhum. Assim já conheço a cidade onde irei trabalhar.
- Maravilha! Vou lhe dar o meu telefone e endereço. Pode anotar?
- Pode falar.
Depois de feitas as anotações, despediram-se.
Ao desligar, Sílvia sentia-se satisfeita com sua conversa. Achou Leonor muito simpática. Se ela fosse competente profissionalmente, seria perfeito. Não teria melhor substituta.
Depois de terminar a arrumação da mala, resolveu dar uma saída pelas redondezas para a compra dos presentes para seu amigo e sua secretária. Ficou imaginando como seria triste despedir-se deles. Sabia que sentiria muitas saudades. Mas, por outro lado, teria Roberto, o que deixava tudo mais fácil de encarar.
Após 1 hora de caminhada pelas lojas das redondezas, acabou por escolher um abrigo esportivo para Franco e uma elegante sandália para Suzi. Voltou rapidamente para casa e preparou-se para o almoço com Roberto.

(continua...)




A paz continua reinando entre nossos pombinhos, mas já deu para ver como o ciúme ainda os deixa inseguros...
Aproveito para agradecer pelas demonstrações de carinho e pelos votos que permitirão a escolha do romance a editar. A enquete permanecerá por 30 dias. Muito obrigada, mais uma vez, pois sem o apoio de vocês eu não estaria aqui. Beijo grande!

sábado, 24 de julho de 2010

Resgate de Amor (12)

Durante o trajeto, Roberto aproveitou para mostrar a Sílvia algumas novidades na cidade surgidas após a ida dela para Valverde. Chegaram, em torno de 11 horas, ao Parque Ibirapuera. Roberto soltou Lola da guia. Parecia reconhecer todos os recantos do parque, apesar de nunca afastar-se muito deles.
- Eu sempre a trago, quando não estou trabalhando, para ela passear um pouco. Normalmente não tenho muito tempo para isso. Quem costuma levá-la para dar a sua volta diária é a Dolores, que trabalha para mim durante a semana.
- Ela é um encanto.
- Que bom que você gostou dela...
- Sempre gostei de animais, mas minha mãe não permitia que tivéssemos bichos de estimação. Dizia que faziam muita sujeira e podiam transmitir doenças. Assim, eu acabava brincando com os animais de estimação de meus amigos na vizinhança.
Ele a olhou com ternura, estendeu-lhe a mão e a convidou:
- Venha vamos dar uma volta.
De mãos dadas, saíram a caminhar, até chegarem ao lago, de onde podiam avistar as fontes em funcionamento. Lá já estava Lola a sacudir o rabo, feliz da vida por estar andando livre de sua guia e acompanhada por seu dono.
O dia estava lindo. Não podia haver um sábado mais perfeito que aquele. Sílvia sentia-se ela própria dentro de um filme romântico, que tudo levava a crer teria um final feliz. Pelo menos era este o seu desejo. Acreditava que o de Beto também.
Depois de terminarem sua caminhada e o passeio de Lola, deixaram-na em casa e foram almoçar no local escolhido por Roberto.
Era um restaurante muito bonito, com um pátio interno onde ficavam mesas ao ar livre, cercadas de lindos vasos com folhagens e flores. Lembrava muito as fotos que ela já havia visto de moradias da Toscana, na Itália. Realmente devia ser esta a intenção, pois a especialidade da casa era a cozinha italiana. Logo em seguida foram encaminhados a uma pequena mesa, num canto discreto do restaurante.
- É lindo aqui.
- Que bom que gostou. A comida é excelente. Espero que você goste.
Fizeram seus pedidos, quando Roberto lembrou-se:
- Vou aproveitar e ligar para a Alice, minha secretária. Vou pedir que ela entre em contato com o serviço de van. Ou você prefere voltar de avião? – Começou a procurar alguma coisa nos bolsos da sua jaqueta.
- Não há porque ir de avião. A distancia não é tanta assim. A viagem de carro é tranquila.
- Droga! Esqueci do celular em casa.
- Não tem problema. Tenho o meu aqui - falou já lhe entregando o aparelho.
Ele não estava acostumado com aquele modelo de telefone e apertou em algumas teclas até conseguir fazer a ligação. Sílvia notou que ele foi mudando de expressão enquanto fazia isto. Tornou-se emburrado. Falou asperamente com sua assistente, pedindo que ela reservasse a van de Sílvia para a terça.
- Horário? O que você conseguir! Me avise depois! - ordenou e desligou o telefone abruptamente.
- O que houve? Porque foi tão grosseiro com ela? E que história foi essa de reservar "o horário que conseguir"? Esperava que você pedisse o horário mais tarde que pudesse reservar. O que há com você? Porque essa cara de poucos amigos, assim, de repente?
- Você andou ligando para o Dirceu antes de vir para cá? - perguntou irritado, mostrando o visor do celular, mostrando a última ligação feita por ela.
- Sim, liguei... Qual o problema?
- O problema é que você sabe que eu não gosto dele.
- E você sabe que ele pode me ajudar a ficar mais perto de você. Esqueceu, senhor ciumento?
Ele estava fazendo força para se acalmar e controlar aquele ciúme descabido. Ficou mudo, desviando do olhar de Sílvia. Ela tentava manter-se serena.
- Eu liguei para ele quando estava a caminho daqui, pois me lembrei de pedir uma indicação do nome de quem devo procurar no hospital Lusitano. Pensei em contatá-los diretamente, já que vinha para cá. Assim Dirceu não ficaria com todo o mérito de conseguir um lugar para mim. E você não ficaria tão chateado. Mas pelo que vejo, não adiantou muito o meu empenho.
Roberto começou a sentir-se envergonhado com sua atitude grosseira.
- Desculpe, Sílvia... É que fiquei doido quando vi que você tinha ligado para ele. Eu sou assim, meio possessivo, meio rude. É o meu jeito, infelizmente.
Não conseguiram continuar sua discussão, pois foram interrompidos por duas jovens mulheres, que chegaram, sem eles perceberem, em sua mesa, com olhares melosos para cima de Roberto.
- Oi...Você é o Roberto Vergueiro, não é?
- Sim?
- Eu sabia! Não lhe disse? - exclamou a loura para a morena, depois de um gritinho de felicidade. Mal notaram o mau humor dele.
- É que nós estamos cursando o curso de Análise de Sistemas e admiramos muito o seu trabalho. Nós estávamos presentes na sua última conferencia, no mês passado.
- Fico muito agradecido pelo reconhecimento. Espero que tenham aprendido alguma coisa na conferencia.
- Claro... Foi muito elucidativa – responderam sem muita certeza – Podíamos tirar uma foto com você?
Sílvia sentiu que ele fez um esforço sobre-humano para forçar um sorriso, mas acabou cedendo ao pedido das estudantes. Depois de alguns comentários e olhares invejosos para Sílvia, que apenas sorriu timidamente para a dupla, foram embora, saltitantes.
- Posso fazer uma cena de ciúmes agora, também?
- Sílvia! Elas eram admiradoras do meu trabalho, que chegaram numa má hora.
- Mas você até que pareceu gostar, depois. Deu até abraços e beijinhos nelas.
- Foram para as fotos... Ah, você sabe disso! Está implicando comigo, por causa da cena que eu fiz antes – disse sorridente.
- Elas fizeram bem a você. Já está ficando alegrinho... – falou, fazendo cara de enciumada.
- Está bem. Você venceu. Vou tentar não fazer mais cenas de ciúme. Tentar.
- Elas sempre aparecem assim, do nada?
- É muito raro, felizmente. Este é o resultado da mídia. A nossa empresa começou a ter clientes importantes. Nós criamos vários programas para particulares poderosos e para o governo. Isto começou a repercutir de modo muito positivo. Tenho participado de vários encontros sociais e científicos.
- E aparecido nas colunas sociais, eu imagino. Como naquela revista que estava no meu consultório. Posso imaginar. Uma empresa poderosa, com um diretor charmoso. É tudo o que as colunas sociais querem, não é mesmo?
- Eu imagino que sim – disse, esboçando um sorriso.
- Bem, então considere o Dirceu como a minha mídia, que vai me ajudar a conseguir uma colocação aqui em São Paulo.
Pela expressão aborrecida que surgiu na face de Roberto, ela notou que não tinha sido feliz na comparação.
Sílvia acabou por rir, olhando para o “bico” que ele estava fazendo, já seu conhecido, pois sempre surgia quando algo o estava incomodando.
- Do que você está rindo? – perguntou sério, acentuando o cenho franzido.
- De você. Dá para parar de ficar bicudo e me dar a mão?
Desarmando-o completamente com o seu pedido, obteve em troca um belo sorriso e a mão solicitada, que apertou a sua carinhosamente.
- Nós temos pouco tempo, portanto não vamos desperdiçá-lo com briguinhas inúteis. Não acha?
- Você tem razão. Estou agindo como um tolo.
- Por outro lado, não vou mentir e dizer que não estou gostando desta demonstração de ciúmes. Mas não exagera - falou quase sussurrando.
Seus pedidos chegaram e continuaram sua conversa.
- E então, está gostando?
- Confesso que me dá um pouco de medo.
- Medo? – perguntou confuso com os temores de Sílvia.
- Tudo parece um sonho lindo. Tenho medo de acordar e cair na realidade. Você leva uma vida muito distante da minha realidade. Às vezes, sinto como se eu não pudesse fazer parte disto.
- Meu amor, não tem porque ter medo. Eu estou aqui ao seu lado. A sua realidade agora será a minha.
- Eu sei. Na verdade, estou assustada com tudo isto que está acontecendo. Eu não estou acostumada com tanto luxo, lidar com suas “admiradoras”. Não sei como vou reagir a tudo.
Roberto baixou a cabeça, com olhar tristonho e disse:
- Está pensando em desistir?
Sílvia sentiu seu coração doer ao ver aquela expressão no rosto de seu amado.
- Desculpe ter falado isso, querido. Eu não estou pensando em te deixar. Só disse que estou assustada. Vou precisar da sua ajuda para me sentir mais segura diante de todas estas novidades. Eu sou uma médica do interior de São Paulo, quase um bicho do mato, que nunca tinha saído de Valverde, a não ser para estudar na capital do estado e voltar para o interior. Não conheço nada do mundo, a não ser por fotos e Interne, e muito menos uma vida em alta sociedade. Tudo é uma grande novidade para mim... Agora, olhe para cá – pediu-lhe, enquanto estendia a mão para afagar e levantar o seu rosto, para que pudesse ver aqueles lindos olhos cor de mel que sempre a faziam esquecer qualquer problema – Roberto, atualmente, só tenho certeza de uma coisa. Eu estou apaixonada por você e vou fazer de tudo para poder ficar do seu lado. Amanhã vou até o Hospital Lusitano batalhar por um emprego, para ficar em São Paulo. Estou pensando em abandonar tudo que tenho em Valverde por você. Portanto, quem tem de ficar com medo de ser abandonada sou eu, e não você.
- Sílvia, não vai se arrepender de ficar comigo - disse isso olhando-a profunda e apaixonadamente.
Ela abriu um lindo sorriso e disse:
- Bem, finalmente o nosso almoço está chegando. Estou morrendo de fome. Aliás, se eu continuar comendo do jeito que estou vou virar uma pipa e você não vai mais querer saber de mim.
- Eu vou te amar do jeito que for – declarou-se, segurando a mão de Sílvia com ternura, acariciando-a e lançando um olhar de derreter qualquer coração.
Com os joelhos tremendo e o coração disparado, ainda conseguiu responder em tom de brincadeira:
- Isso você diz agora. Deixe só eu virar a mãe dos trigêmeos, Jason, Fred e Vlad... Lembra?
Ele soltou uma gargalhada que fez com que os frequentadores das mesas vizinhas olhassem para os dois com espanto.
- Você vai ficar linda com um barrigão de trigêmeos.
Entre risos e carinhos, acabaram por esquecer, aparentemente, de seus receios e seguiram em seu almoço.
- Que tal irmos dançar hoje à noite? Ainda não dançamos juntos.
- Pelo jeito, você gosta muito deste tipo de “exercício”.
- Principalmente quando bem acompanhado. Adoro a vida noturna e dançar é uma coisa muito relaxante nesta minha vida corrida entre os negócios, o trabalho no nosso laboratório de informática e as conferencias.
- Eu também sempre gostei muito de dançar, mas depois que voltei para Valverde, a única oportunidade que tinha era nos bailes da igreja local, onde a música predominante era a sertaneja e os pares para dançar não tinham mais que 12 anos ou menos que 70 anos. Sem contar os pisões nos pés que era obrigada a suportar, quando era arrastada para a pista.
Ele não conseguiu segurar o riso.
- Então hoje, a senhorita está convidada para dançar num lugar menos santo que a igreja e melhor acompanhada. Pelo menos, prometo não pisar nos seus pés.
Quando terminaram, Roberto perguntou-lhe o que gostaria de fazer a seguir, ao que ela respondeu:
- Eu vim aqui para ficar com você. Se quiser passear, caminhar pelas ruas ou simplesmente ir para casa ouvir música ou ... – e lançou um olhar sedutor para ele.
- Gostei da última proposta... – disse ele olhando-a com desejo – São Paulo não tem grandes atrativos. Pelo menos não maiores que o que tenho, hoje, aqui ao meu lado...
- Adoro este seu lado galanteador...
- Tenho muitos lados que você não conhece. Pretendo mostrar-lhe todos... Se você deixar – falando isso, pegou-lhe a mão, acariciando-a e beijando a palma, sensualmente, fitando-a com intensidade.
- Estou ansiosa por isso... – respondeu, sentindo um arrepio percorrer-lhe todo o corpo.
Imediatamente, Roberto chamou o garçom e pediu a conta.
Já em casa, ele foi para a sala e colocou uma música de uma banda islandesa Sigur Rós, da qual ela nunca ouvira falar. Sílvia o observava em cada movimento, já sentindo o desejo por ele crescer. Foi quando ele lhe ofereceu a mão e levou-a até o grande sofá da sala, onde se sentaram para ouvir a melodia que parecia vinda das estrelas. Ele a abraçou carinhosamente. Aproximou seus lábios de sua orelha e sussurrou:
- Eu te amo, Sílvia...
Não resistindo àquela declaração, ela virou o rosto e, inevitavelmente encontrou aquela boca deliciosa convidando-a para um beijo. Um beijo apaixonado e inebriante, que ao som etéreo que os cercava deu início as preliminares do amor.

A música continuava a tocar, tornando aquele momento de descontração, depois do amor, ainda mais celestial.
Perderam a noção de quanto tempo havia se passado, quando Roberto saiu de seu silencio e perguntou:
- Você vai querer sair para jantar, e dançar depois?
- Acho que podemos comer alguma coisa por aqui e sair para dançar mais tarde. O que acha?
- Acho ótima idéia. Olha, eu conheço um restaurante japonês excelente que faz tele-entrega. Você gosta de comida oriental?
- Adoro! Pena que em Valverde não tenha nenhum lugar que faça este tipo de comida.
- Viu? Mais um motivo para você vir morar comigo.
- Você tem razão. Não havia pensado nisso. Acho que só isso pode me convencer a vir para cá – disse ela, sorrindo ironicamente.
- Então eu não conto, é? – perguntou, começando a fazer-lhe cócegas, arrancando gargalhadas de Sílvia.
- Pare... Pare! Eu confesso... Eu confesso... – suplicou, para que ele parasse.
- Confessa o que?
- Eu confesso que fico por sua causa... Só por sua causa.
- Ainda bem... Agora temos que selar esta confissão – disse aproximando-se ainda mais dela.
- E como você pretende fazer isso? – perguntou Sílvia num sussurro.
- Com um beijo... – respondeu Roberto, quase tocando seus lábios aos dela.
- Gostei deste selo... – falou com voz quase sumida e olhos fechados para receber a boca macia e úmida que vinha ao seu encontro.

Assim que chegaram, o espocar de flashes fizeram-se ouvir quando saíram do carro. Sílvia assustou-se, mas foi pega firmemente pelo braço por Roberto, que a levou com rapidez para dentro do prédio.
- O que está acontecendo? – perguntou Sílvia, surpresa com todo aquele aparato.
- Esqueci de lhe avisar... Esta casa noturna está sendo inaugurada hoje. Quando recebi os convites, logo pensei em você. Não imaginava que teria toda esta recepção.
Foram alegremente recebidos por um dos donos do local, que parecia conhecer Roberto muito bem.
- Obrigado por ter vindo. Estejam à vontade – recepcionou-os, indicando uma mesa próxima à pista de dança
Lá dentro, custaram a acostumar-se com a escuridão. Apenas as luzes neon coloridas brilhavam intensamente, ofuscando as pessoas e o ambiente.
Quando Sílvia conseguiu definir o que estava a sua volta, já se sentando numa das mesas, próxima à pista de dança, ouviu uma voz de mulher em meio ao som alto da música.
- Roberto!
Ela era uma morena linda, trajando um vestido verde curto e justíssimo. Inacreditável como ela podia respirar dentro daquela roupa.
Parecia muito animada com a presença dele. Mais surpresa Sílvia ficou quando, inesperadamente, esta estranha atirou-se ao pescoço dele e tacou-lhe um beijo na boca. Roberto pareceu ficar meio sem jeito, mas não fez nada para impedir o "ataque". Pelo contrário, correspondeu ao beijo. Foi um instante apenas, mas correspondido.
Sílvia sentiu o sangue fervente subir à cabeça. Nunca fora ciumenta. Pelo menos nunca tinha tido esta oportunidade. Não imaginava que reagiria desta maneira ao ver-se ameaçada por outra mulher.
- Sílvia, esta é Gina. Gina, esta é Sílvia – apresentou-as, visivelmente atrapalhado.
- Muito prazer... Está de amiguinha nova, hein? – disse baixinho no ouvido dele, mas de uma maneira que Sílvia percebeu, apesar do barulho no ambiente.
- Prazer... E você, quem é? Uma amiguinha antiga?
- Sílvia... – ele chamou a sua atenção, preocupado com a expressão de “vulcão prestes a explodir” estampado no olhar dela.
- Pode deixar, Beto. A culpa foi minha. Eu entendo a sua reação. Me desculpe. Eu estava brincando com ele. Na verdade nós somos apenas amigos, não é, querido?
- Não estou acostumada com este tipo de brincadeira.
- Sílvia, o que Gina está dizendo é a verdade. Somo amigos de longa data – ele estava realmente perturbado com a situação.
Para tentar aliviar a tensão no ar, resolveu dar uma explicação a Gina:
- Sílvia e eu estamos nos relacionando seriamente. Mais sério do que nunca – disse esta última frase olhando diretamente nos olhos de Sílvia, que gostou da maneira como ele havia se expressado. Sentiu-se mais segura, mas ainda olhando com desconfiança para a assanhada a sua frente. Eles pareciam muito íntimos para serem apenas amigos.
- Bem, se a Sílvia permitir, será que podemos dançar um pouco?
Não fosse Roberto ter apertado sua mão fortemente, ela teria se jogado sobre a sirigaita.
- Hoje não, Gina. Tenho certeza que você não vai ter dificuldade em arranjar um par dançante.
"Como assim, hoje não?", pensou Sílvia, quase devorando Roberto com os olhos.
- Que pena... É difícil arranjar alguém que dance bem como você. Bem... Sei quando estou sendo de mais.
- Ainda bem... – disse Sílvia entre dentes.
- Até mais, meu querido. Tchau, Sílvia! – despediu-se com um ridículo aceno de mão.
- Tchau, Gina!
Quando ele voltou-se para Sílvia, sentiu que teriam mais uma discussão parecida com a do restaurante.
- Sílvia, você está com ciúmes? O que nós tínhamos combinado?
- Ela certamente não é só mais uma admiradora , pois o Dirceu jamais me beijou daquele jeito na sua frente ou longe da sua vista.
- Ela é só uma amiga.
- Amiga? Quem tem uma amiguinha com aquele corpo e aquela sensualidade à flor da pele e fica só amigo? Só se você fosse gay, coisa que tenho certeza que você não é!
- Meu amor – disse ele sentando-se ao seu lado e abraçando-a – Está bem... Não vou negar. Já tive um afair com ela, no passado. Nada de importante. Foi logo que a conheci. Isto já faz muito tempo. Não passou de uma noite, um passatempo, uma companhia alegre. Nada mais. Depois disso nos tornamos apenas bons amigos.
- Olha, vou tentar acreditar nisso e seguir o conselho que eu mesma lhe dei antes. Nada de brigas inúteis nestes dias. Mas vou ficar de olho, senhor Roberto Vergueiro.
- Sou todo seu, Dra. Sílvia - falou, estreitando o abraço. Com os lábios roçando-lhe o pescoço, até chegar ao seu ouvido, sussurrou-lhe, fazendo-a sentir um delicioso arrepio:
- Vamos dançar?
- Vamos - respondeu secamente, ainda séria.
Logo, compreendeu o que Gina falara sobre ele dançar bem. Aos poucos, foi relaxando ao som da música e ao embalo dos braços de Roberto. Depois de duas ou três músicas mais animadas, começaram as românticas. Foi quando ele a puxou contra si e ela colocou seus braços em torno de seus ombros, descansando a cabeça no seu peito. Sentia-se inebriada com a mistura dos odores de Roberto. O perfume delicioso que ele usava e o cheiro do seu suor. Sentia-se flutuar naqueles braços que a embalavam docemente. Já quase esquecera os ciúmes e a causadora deles, quando sentiu o olhar invejoso de Gina, fulminando-os a poucos metros dali, onde estava agarrada a um tipo efeminado e sem graça. Não deixou por menos. Olhou para Roberto e, segurando sua cabeça, forçou-o a abaixar-se e beijou-o apaixonadamente. Ele, surpreso com aquela demonstração em público, correspondeu à altura. Precisaram voltar à realidade quando a musica parou para uma mudança no ritmo.
- Quer tomar alguma coisa?
- Sim – respondeu Sílvia, sentindo-se vitoriosa ao ver a cara de Gina, mordendo-se de inveja pela cena que acabara de ver.
Ainda dançaram várias vezes antes de sentirem o cansaço tomar conta e resolverem ir para casa.

(continua...)


Nosso casal começou a ter algumas turbulências no seu relacionamento. Mas nem imaginam o que ainda vem pela frente. Aguardem...
Mas deixando a Sílvia e o Roberto de lado, um pouquinho, acredito que tenham lido sobre as BOAS NOVAS. Nem preciso dizer que estou felicíssima e empolgada com as novidades. Espero a ajuda de todos nesta nova fase. PARTICIPEM DA ENQUETE! Muito obrigada mais uma vez.
Beijos!!!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Resgate de Amor (11)

As vinte e três horas seguintes de plantão em Valverde transcorreram como habitualmente. No início da noite, Elaine ligara para Franco avisando que Mariana estava melhor e sem febre, traquilizando-os. Nenhuma grande intercorrência surgiu a não ser por um telefonema, atendido no celular de Sílvia, às 00h30min. Naquele momento, Franco deu uma desculpa qualquer, saiu da pequena sala junto à recepção do posto e foi para o dormitório.
- Ainda acordada? – soou a voz rouca tão ansiada.
- Estava te esperando – respondeu, com o coração acelerado.
- E o plantão? Está calmo? Nenhum desmemoriado a vista? – brincou.
- Nenhum, por enquanto... – disse rindo.
- Olha, acho que vou ter uma folga no fim de semana. A reunião que teria no sábado pela manhã foi adiada. Assim vou ser liberado por dois ou três dias.
- Que notícia ótima, Beto! Você vem para cá no sábado? – conteve-se para não gritar de alegria, prevendo seu retorno muito antes do que imaginava.
- Pensei que talvez você pudesse vir para cá, conhecer o lugar onde eu moro, onde trabalho. O que acha?
- Bem, posso ver isso amanhã. Reservar passagem...
- Não precisa se preocupar. Já pensei em tudo. Aliás, já está tudo preparado. Só queria ver com você se não teria problema.
- Sério? – enterneceu ao sentir que ele também estava ansioso para vê-la.
- Sim. Um carro vai te pegar no final da tarde de sexta feira e te trazer para São Paulo. Vou estar te esperando em casa. Você deve chegar aqui em torno de 21h.
- Nossa, o esquema já está todo armado? E se eu não pudesse ir?
- Eu faria o caminho inverso e ia para aí. Não pense que vai se livrar de mim tão fácil... Estou louco para te ver...
- Ah, Roberto. Estou morrendo de saudades...
- Eu também...
- Eu vou ter de desligar agora, meu bem. Tenho de dormir, pois amanhã começo a trabalhar cedo.
- Eu também, vou aproveitar que o plantão está calmo e descansar. A gente se encontra amanhã à noite, então...
- Até amanhã, meu amor... Um beijo... Durma bem...
- Um beijo... Boa noite...
E desligaram. Sílvia deu um longo suspiro e foi para o dormitório descansar. Franco já estava roncando.
Mal pode conciliar o sono naquele final de plantão. Apesar de não ter havido mais nenhum chamado, Sílvia custou a relaxar, excitada que estava com o encontro com Roberto, a viagem, voltar a São Paulo, depois de tanto tempo... Já era em torno de três horas da manhã, quando adormeceu.
O dia seguinte chegou rápido. Logo estava na hora da troca de plantão.
- Bom dia, doutora Sílvia. Como foi sua noite depois do telefonema de ontem? – perguntou Franco assim que a viu.
- Apesar de eu ter dormido pouco, foi ótima. Eu vou vê-lo hoje à noite! Acredita? – não se conteve. Precisava dividir com o amigo a sua felicidade.
- Tão rápido? Puxa! Ele deve estar bem interessado mesmo... Ele vem para cá?
- Não. Vai mandar me buscar. Vou para São Paulo.
- Ora, ora... Que bom, Sílvia. Fico contente por você. Vai ser bom conhecer como ele vive por lá.
- Acho que sim... Não vejo a hora de reencontrá-lo.
- Bem, minha boa doutora. Tenha um ótimo dia, pois a noite, pelo jeito promete.
- Um bom dia para você também, Franco.
Após as despedidas, Sílvia foi para casa tentar descansar um pouco. Ainda teria de atender o consultório à tarde.

As horas pareciam arrastar-se. Sílvia olhava seu relógio de pulso com frequência. Conseguira dormir um pouco pela manhã. Não o suficiente, mas a ansiedade em ver o final da tarde chegar, a viagem e, finalmente, o reencontro com Roberto, a deixavam tão excitada que não sentia cansaço ou sono. Sentia-se como medicada com um estimulante poderoso.
Logo ao chegar ao consultório, pediu que Suzi ligasse para os pacientes que costumava visitar pela manhã e para os já marcados no consultório à tarde, avisando-os sobre o cancelamento de seus horários até terça feira. Todos seriam remarcados para a próxima semana. Motivos? Motivos pessoais. Já previa que esta sua saída inesperada da cidade já daria assunto para mais de uma semana entre os habitantes de Valverde.
Ao encerrar o atendimento de seu último paciente, despediu-se de Suzi e correu para o seu apartamento para terminar de arrumar a mala e preparar-se para a viagem.
Às 18 horas, tocaram a campainha. Era o motorista do veículo que a levaria até São Paulo.
- Boa tarde, senhorita. Meu nome é Francisco. Posso ajudá-la com as malas?
- Boa tarde. É apenas uma mala pequena e uma valise de mão. Obrigada.
Sílvia fechou a porta de casa e seguiu atrás de Francisco. Viu-se diante de uma pequena van Chevrolet, azul escura. Ele abriu-lhe a porta, ajudando-a a entrar, para logo acomodar sua bagagem no porta-malas.
- Dra. Sílvia, recebi ordens de levá-la em segurança até São Paulo Qualquer dúvida que tenha, por favor, pergunte.
- Está bem, Francisco. Muito obrigada – sorriu, divertindo-se com tamanha formalidade por parte do motorista.
- Melhor irmos agora, pois podemos pegar algum movimento na estrada, devido ao início do fim de semana. Não podemos nos atrasar.
Logo entravam na rodovia estadual, a caminho da capital paulista.
Na estrada, fizeram uma pequena parada para tomar um café. De lá, resolveu ligar para Dirceu e pedir orientação de como proceder e com quem deveria falar no hospital Lusitano. Pegou seu celular. Lá estava o número do telefone dele. Fez a ligação e ficou aguardando ser atendida.
Logo ouviu a voz do amigo:
- Alô?
- Alô, Dirceu! Boa noite.
- Sílvia? É você? Que bom te ouvir. Onde você está? Está em Ribeirão?
- Não. Estou a caminho de São Paulo.
Ela sentiu que a voz do outro lado da linha emudeceu durante alguns segundos, como se não conseguisse encontrar as palavras necessárias para continuar a conversa.
- Você está indo para São Paulo agora? Por quê?
- O Roberto vai ter uma folga e mandou me buscar. Mas isso não vem ao caso, Dirceu. Estou te ligando porque pensei em aproveitar minha viagem para visitar o hospital Lusitano. Seria possível você me dar algumas informações? Sei que ainda é cedo para que você tenha tido algum retorno de seu ex-professor sobre uma vaga para mim, mas quem sabe indo pessoalmente as coisas não se tornem mais fáceis? O que você acha?
- Na verdade já tive contato com ele e já consegui contatar com o diretor clínico. Você tem onde fazer uma anotação?
- Mas que ótimo! Pode falar – respondeu ela, já com uma caneta e sua agenda de telefones e endereços a mão.
- Então anote...
Logo, Sílvia estava de posse do telefone e do nome do diretor que poderia ajudá-la a conseguir o seu intento.
- Vou avisá-lo da sua ida. Falo com ele, novamente, ainda hoje. Quando acha que vai poder ir ao hospital?
- Creio que na segunda feira. Provavelmente, ficarei em São Paulo até terça. Pelo menos já desmarquei meus compromissos até este dia.
- Bem, lhe desejo boa sorte. Qualquer dificuldade me liga, ok?
- Ok! Pode deixar. Vou ter de desligar. Temos que seguir viagem, para não chegar muito tarde. Nem sei como lhe agradecer, Dirceu. Muito obrigada! Um abraço.
- Um beijo, Sílvia...
Ele ouviu o sinal da ligação desaparecer, pensando “... Um abraço... É só isso que eu mereço? O tal Roberto parece mesmo estar interessado nela. Não ficaram separados nem uma semana! Miserável!”. Com tais pensamentos, preparou-se para deixar o hospital e enfrentar mais uma noite de leituras de artigos médicos, depois de um jantar comprado na seção de congelados do supermercado e requentado no microondas . Pensou que estava na hora de ter alguém para compartilhar seus bons e maus momentos. Desde que reencontrara Sílvia, a solidão, que antes não o incomodava, começara a doer...

Enquanto isso, Sílvia seguia viagem com Francisco.
Em pouco menos de três horas, vislumbraram as luzes da cidade de São Paulo.
A van estacionou na frente de um luxuosíssimo prédio de apartamentos localizado no Morumbi. Francisco abriu a porta para que ela descesse. Pegou sua pequena maleta e levou-a até o saguão do edifício. Ali, se despediu, desejando-lhe uma boa noite. O porteiro parecia já saber de sua chegada, sendo muito solícito, acompanhando-a até o elevador, segurando sua mala. Apertou no andar de número 15. A cobertura. Quando a porta se abriu, deu de encontro com o sorriso radiante de Roberto. Largou a mala no chão e retribuiu o carinho, enrolando-se no seu pescoço, matando a saudade no calor de seus braços.
- Como foi a viagem? – perguntou, depois de um beijo apaixonado.
- Muito longa, mas compensadora...
- Ainda bem que pensa assim. Melhor sairmos do elevador. Vem aqui para dentro...
O coração de Sílvia estava em disparada.
- Prefere sair para jantar ou ficar em casa?
- Na verdade, comi alguma coisa no caminho. Não estou com muita fome.
- Então está resolvido. Participei de um happy hour com Marcos e uns amigos. Também não estou com fome. Você já conhecia São Paulo, não?
- Claro. Fiz a faculdade e a residência médica aqui.
- De qualquer jeito já faz algum tempo que não vem aqui. Podemos passear amanhã. Curtir o sábado – disse enquanto a conduzia para dentro do apartamento, carregando sua mala.
- Acho que sim. Mas ... Depois – falou Sílvia, de um jeito sedutor.
- Depois?... – perguntou Roberto, sorrindo maliciosamente.
Não havia dúvida do que fariam antes do “depois”...
Conseguiram manter-se compenetrados até o hall de entrada. Assim que a porta foi fechada, a bagagem foi jogada ao chão e entregaram-se um ao outro, escandalosamente. Parecia que séculos haviam se passado desde a última vez que se viram.
- Você não quer conhecer o apartamento antes? - perguntou ironicamente entre um beijo molhado e outro.
- Estou mais interessada no dono do apartamento, no momento.
Mesmo através da calça jeans, podia sentir todo o desejo dele, rijo e pulsante.
Foi abrindo rapidamente os botões da camisa branca e desnudando o tórax magnífico, começando a beijá-lo, encostando a cabeça no seu peito, acariciando com as mãos, os braços que a envolviam, tentando puxá-la contra si.
Arrancando gemidos, foi descendo em direção a sua cintura, beijando o abdômen sarado, sensualmente. Sem muito esforço desabotoou o jeans, podendo entrever a cueca branca que a separava do objeto de seu desejo. Lentamente, foi libertando-o peça por peça. Logo pode senti-lo de encontro ao rosto, excitando-o ainda mais. Já não resistindo mais a provocação de Sílvia, Roberto puxou-a com força para cima, até poder olhar dentro de seus olhos. Ai foi a sua vez de despi-la, não menos provocativamente. À medida que a desnudava, suas mãos acariciavam a pele arrepiada. Com a boca e a língua seguia o trajeto das mãos, quase a levando a loucura. Quando a sentiu pronta, pegou-a no colo e a levou para o grande e confortável sofá da sala. Lá a possuiu, entre suspiros e sussurros, chegando ao clímax quase que ao mesmo tempo. Depois de tudo, só a sensação de paz e relaxamento. Ali ficaram por um bom tempo de olhos fechados, abraçados, esperando as respirações voltarem ao normal, curtindo a sensação de felicidade emergente.
- Que tal tomarmos um banho, irmos para a cama e planejarmos o nosso final de semana?
- Apoiado. Quero aproveitar ao máximo estes dias.
- Até quando vai poder ficar?
- Até terça.
- Ótimo. Vamos poder aproveitar bastante... - dizendo isso, beijou-a novamente. A lassidão e a saudade os mantiveram por vários outros minutos naquela posição, fazendo-os aproveitar cada segundo daquele momento de reencontro. O tempo pertencia somente a eles.
Finalmente, Sílvia levantou-se e perguntou onde era o banheiro. Ficou surpresa com o luxo e a beleza da peça. Todo decorado em mármore branco, com rajadas verdes, além do vaso, uma pia com duas cubas douradas e um chuveiro, trazia uma banheira, no centro do ambiente, que parecia saída de uma fotografia dos famosos banhos romanos. Ao vê-la, ocorreram-lhe idéias de como aproveitar aquele espaço durante o seu final de semana. Encaminhou-se para o chuveiro, sob o olhar faminto de Roberto O jato quente e forte fustigou-lhe a pele, mas de uma maneira deliciosa. Mal tinha começado a ensaboar-se, ainda de olhos fechados, quando sentiu a presença de mais alguém, atrás de si.
- Posso ajudá-la a ensaboar-se? - disse a voz rouca conhecida.
- Não vai ficar muito tarde para depois conversarmos sobre o nosso tour pela cidade? – perguntou Sílvia, já se insinuando para trás contra o corpo de Roberto.
- Acho que prefiro fazer "este" roteiro antes...
Deu-lhe um beijo na nuca e tirou o sabonete das mãos de Sílvia, começando a ensaboá-la lentamente, começando pelos seios, onde ficou algum tempo, deliciando-a com aquele carinho íntimo. Durante todo o tempo, permanecia colado a ela, que por sua vez, já sentia os efeitos daquele "passeio". Seguiu por seu abdômen, em movimentos circulares, até alcançar seus pelos pubianos. Logo estava com o sabonete entre suas coxas, num lento movimento de vai e vem, levando-a a gemer baixinho.
- Agora é a minha vez... - conseguiu dizer em meio à excitação.
Virou-se lentamente, fixando seus olhos nos dele, que transbordavam desejo. Pegou o sabonete de suas mãos e colocou-se atrás dele, invertendo suas posições. Agora era a sua vez de ensaboá-lo, esfregando seu próprio corpo nas costas dele, em movimentos sensuais, enquanto seus braços o envolviam e as mãos acariciavam seu tórax, seus cabelos do peito, deslizando lentamente pelo abdômen, descendo ao púbis, onde sua virilidade já era evidente, rija e latejante.
Roberto já não podia mais resistir. Virou-se e abraçou-a com força, colando seus lábios aos dela com ardor, invadindo a sua boca com paixão.
Levantou-a até a altura de seu quadril, forçando-a a enroscar suas pernas em torno da cintura dele e, pressionando-a contra a parede do box, penetrou-a com força, arrancando-lhe um grito de dor e prazer, continuando a invasão com movimentos cadenciados, cada vez mais intensos. Ela agarrava-se aos seus cabelos com uma mão, enquanto com a outra o arranhava nas costas. Logo, chegaram ao êxtase completo. Totalmente satisfeitos, sob os jatos de água quente, permaneceram agarrados, esperando a volta à normalidade.
Já refeitos, terminaram seu banho e, vestidos apenas com roupões de banho, foram conversar na sala. Pouco falaram, pois as palavras não eram tão necessárias. Só importava a intimidade daquele momento. Sílvia acabou adormecendo nos braços de Roberto, vencida pela fadiga, enquanto ouviam um pouco de música. Tinha sido uma noite cheia de emoções, depois de plantão de vinte e quatro horas e uma viagem de quase de 300 quilômetros na estrada.
Roberto precisou carregá-la no colo e colocá-la na cama. Tirou seu roupão, com cuidado para não acordá-la. Despiu-se e deitou-se ao seu lado, admirando seus contornos e traços. Sentiu uma enorme necessidade de tocá-la, fazer um carinho. Suavemente deslizou a palma da mão sobre as curvas de seu corpo. Sua respiração era calma. Sua presença ali lhe transmitia uma serenidade que há muito não experimentava. Quando foi retirar uma mecha de cabelo que caía sobre o seu rosto, Sílvia entreabriu os olhos, muito sonolenta, e murmurou:
- Mal consigo abrir os olhos... - falou meio que enrolando a língua, cansada.
- Vamos dormir, meu bem... Descanse. Vamos ter um longo dia amanhã.
Dizendo isto, depositou um beijo suave em seus lábios. Acomodou-se atrás dela, abraçando-a protetoramente. Ouviu-a soltar um gemido de prazer, que o fez sorrir satisfeito. Cobriu aos dois com o lençol e fechou os olhos. Assim passaram sua primeira noite em São Paulo.

No dia seguinte, Sílvia foi acordada pela luz do sol que subitamente invadiu o quarto. Apertou os olhos, para depois começar a abri-los devagar, lutando contra a luminosidade que impedia sua visão. Logo pode ver Roberto segurando uma bandeja, com seu café da manhã, e ouvir um sonoro:
- Bom dia, sua preguiçosa. Pensei que não fosse acordar.
Espreguiçando-se languidamente, notou que estava sem suas roupas.
- Eu não me lembro de ter vindo para este quarto ontem à noite.
- Eu fiz isso por você. Pegou no sono enquanto estávamos ouvindo música depois do banho e eu não quis acordá-la. Só isso... Apesar de eu ter tido muita vontade de fazer algo mais além de colocá-la para dormir...
- Você é um amor, sabia? - com este elogio, esticou os braços na direção dele, pedindo sua ajuda para levantar-se. Diante deste pedido, ele largou a bandeja rapidamente, e ajudou-a a sentar-se na cama.
- Nossa, quanta coisa gostosa! Foi você que arrumou tudo? Até flores... Me dá um beijo... – exigiu projetando os lábios à frente e cobrindo-se com o lençol, tardiamente recatada.
- Melhor você tomar logo o seu café – ordenou, logo após um beijo afetuoso – Teremos uma programação intensa hoje.
- Sério? Então me diga... Sou toda ouvidos.
- Bem, primeiro vou levá-la para conhecer alguém muito especial, que nos fará companhia em nosso passeio.
- Alguém especial? Quem? Sua mãe está aqui?
Ele soltou uma gargalhada e falou:
- Não, não é minha mãe. Mas se ela não gostar de você, acho que teremos que terminar tudo – enfatizou, com ar dramático.
- Estou começando a ficar preocupada. Quem é ELA, Beto?
- Surpresa! Acabe o seu café. Já provou estes biscoitos amanteigados?... São uma delícia..humm... Vou tomar uma ducha rápida e me arrumar.
Assim que saiu do banho, Sílvia comentou:
- Você não tem empregados, Beto? Imaginei que com um apartamento grande como este, precisasse de alguém para cuidar.
- Dei uma folga para minha auxiliar este fim de semana. Não se preocupe, que na segunda já terá alguém para dar conta da bagunça que vamos fazer nestes dois dias.
Trinta minutos depois, estavam saindo de casa. Sílvia estava curiosa para saber quem seria esta desconhecida que Beto pretendia apresentar-lhe. Pouco depois, ele estacionou o carro diante de uma pet shop. Pediu para esperá-lo e entrou na loja.
Saiu de lá carregando uma linda labrador, de pêlo cor de caramelo.
- Oh, Beto! Que gracinha!
- O nome dela é Lola e até há pouco tempo era a minha companhia feminina mais frequente.
Sílvia desceu do carro e quis afagá-la. Lola logo se acomodou entre os braços dela, retribuindo com lambidas no rosto e nas mãos que a acarinhavam.
- Ela é um doce, Beto. Jamais pensei que você pudesse ter um cão.
- Adoro animais... Folgo em saber que você também gosta... – disse aliviado e continuou. – Muito bem! Vamos entrar. Prontas, meninas?
Lola latiu forte.
- Prontas! – confirmou Sílvia.

(continua...)





Oi! Mais uma postagem feita. Espero que estejam gostando e peço que desculpem e relatem algum erro que encontrem no texto, como nomes errados ou algo que pareça desconexo no relato. Graças à minha querida amiga Tânia, pude corrigir uma falha ocorrida na parte 7 desta estória, onde houve uma troca do nome de Sílvia por Helena. Como falei no início, este romance era originalmente uma fanfic, passada nos EUA e com outros nomes. Já a reli várias vezes, mas mesmo sendo meio obsessiva, deixo escapar alguns detalhes.
Parece que tudo corre às mil maravilhas, não? Acho que vamos ter que agitar um pouco para não ficar muito monótono...hihihi!
Um grande beijo a todas(os)!!!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Resgate de Amor (10)

Ainda era cedo quando voltaram para a cabana. Queriam aproveitar cada segundo das últimas horas em que ficariam juntos. Enquanto conversavam, agora sem a preocupação com a falta de memória ou o risco de estarem sendo perseguidos por malfeitores, sentiam um grande bem estar. Tentavam não lembrar que a hora da despedida estava chegando. Naquela noite, apenas deitaram-se abraçados, trocando idéias, sonhos e planos para o futuro, até que o cansaço e o sono venceram.
Mais um dia de sol e calor os esperava, quando despertaram cedo pela manhã. Precisavam apressar-se em tomar o café e pegar a estrada. Roberto quis dirigir até Rio Claro, para ver como estava na direção. Ele era um bom motorista também. “Será que tem alguma coisa em que ele não seja perfeito?”, indagou intimamente Sílvia, suspirando involuntariamente.
- Porque suspiras, minha flor? – perguntou um Roberto sorridente.
- Nada... É que sou meio suspirosa de vez em quando – respondeu com um sorriso brejeiro.
Ele apenas retribuiu o sorriso e continuou com os olhos fixos na estrada.
Chegando a Rio Claro, foram direto para o fórum à procura do Juiz Breno Assis. Este já os aguardava, com os documentos prontos para serem assinados.
- Fico contente em ver que tudo foi esclarecido, senhor Vergueiro. Seu advogado já esteve aqui para esclarecer tudo. Bem que a Dra. Sílvia desconfiava de alguma coisa. Já pensamos em contratá-la como investigadora aqui na polícia local. Seria uma bela adição ao nosso pessoal – disse, querendo ser simpático – Acho que agora pode retornar a sua vida tranquilamente. Já está liberado pela lei.
Despediram-se. Sílvia não pode deixar de olhar o relógio mais uma vez, lembrando do pouco tempo que ainda lhes restava. Começava a ficar angustiada com a aproximação da separação.
- Que tal irmos para o hospital e falar de uma vez com o Dr. Dirceu. Assim já o informamos que recuperei a memória e você pergunta se é possível ele te indicar para São Paulo? Prefiro estar por perto, durante este encontro de vocês, para poder vigiá-lo.
- Beto! Você ainda está preocupado com isso?
- Só por precaução...

Dirigiram-se para o Hospital Geral. Foram direto ao setor de Neurologia, onde Dirceu tinha um consultório. Lá a secretária pediu gentilmente que eles aguardassem enquanto o doutor terminava de atender um paciente. Não demorou mais que dez minutos e foram recebidos pelo ex-colega e amigo de Sílvia. Ao vê-la, esboçou um grande sorriso, que foi apagando-se ao ver a cara de poucos amigos de Roberto, que entrou logo atrás dela.
- Vejo que continuam colados, andando por aí. Não esperava que viessem tão cedo. Os aguardava somente na próxima sexta feira. Aconteceu algum problema?
- Como vai, Dirceu? Então você não foi avisado? – perguntou Sílvia.
- Avisado? Do que? – indagou surpreso.
- Antonio, ou melhor, Roberto, recuperou a memória.
Sílvia passou a contar um resumo do que acontecera desde a volta dela para Valverde, não entrando em muitos detalhes. A tudo, Roberto ouvia sem dizer uma única palavra.
- Bem, então está voltando a sua vida agitada, cercado de mulheres, em São Paulo? Sim, porque, rico e bonitão, o assédio deve ser grande – perguntou em tom sardônico.
- Bem menos do que você pensa. Tenho uma empresa para administrar, que toma grande parte do meu tempo – respondeu Roberto, claramente aborrecido com o comentário do pretenso rival.
Sílvia, pressentindo o clima tenso que se iniciava, resolveu ser direta e fazer logo a sua solicitação ao amigo:
- Dirceu, na verdade, além de virmos para te contar sobre o desenrolar desta história toda, vim aqui para te pedir duas coisas.
- Você sabe que sempre poderá contar com minha ajuda, se estiver ao meu alcance...
- Eu sei. Por isso estou aqui. Lembro que depois da residência, você foi contratado para trabalhar no Hospital Lusitano, que é referencia em São Paulo.
- Sim. Mas porque você está lembrando isso agora?
- É que estou pensando em trabalhar em São Paulo.
- Não acredito que você vai atrás dele – disse apontando para Roberto, que imediatamente reagiu, quase levantando da cadeira onde se encontrava, já de punhos fechados. Não fosse Sílvia segurar seu braço, ele já estaria encima do neurologista.
- Dirceu, não estou pedindo conselhos a respeito de minhas atitudes. Apenas uma indicação. Se você não puder me ajudar...
- Sílvia, acho melhor irmos embora. Eu tenho muitos conhecidos e amigos em
São Paulo. Você não precisa mendigar nada para este camarada.
- Para seu conhecimento, conheço a Sílvia há muito mais tempo que você. Estou tentando evitar que ela faça uma besteira, por causa de alguém que ela mal acabou de conhecer.
- Rapazes, por favor! Vamos parar com esta bobagem. Talvez você tenha razão, Roberto. Melhor irmos embora – falando isso, foi levantando de sua cadeira, acompanhada pelo empresário, que já fazia menção de ir embora.
- Esperem! – quase gritou Dirceu, fazendo-os parar no mesmo instante – Olha, Antonio, Roberto, Beto, seja lá seu nome qual for. Sempre tive muito carinho por Sílvia. Apenas não quero que ela sofra. Acho que não tivemos a oportunidade de nos conhecer melhor. Talvez eu esteja errado. Tenho de reconhecer que Sílvia sempre foi uma pessoa sensata e, se ela está pensando em mudar toda a vida por sua causa, ela deve ter bons motivos e, talvez, você não seja má pessoa. Que tal nos sentarmos e começar tudo de novo. De nada vai adiantar ficarmos brigando. Creio que nós dois queremos o bem de Sílvia.
- Pelo menos já estamos concordando em um ponto – reconheceu Roberto, já aparentando menos irritação, mas desconfiado da repentina boa vontade do médico.
- Que bom que os meninos estão começando a se entender – parabenizou-os Sílvia.
- Então, por favor, sentem-se novamente e vamos conversar como pessoas civilizadas. Realmente, Sílvia, eu conheço muito bem a direção do Hospital Lusitano. Fiquei muito amigo do Dr. James Chen da Neurologia, que por sua vez tem ótimo relacionamento com o diretor médico, Miguel Lorenzoni. Talvez eu possa conseguir uma vaga no corpo clínico. Entro em contato com eles ainda hoje, se você está com tanta pressa.
- Não, Dirceu, eu não estou com pressa. Só quero começar a reorganizar minhas coisas, mas com calma. Aí, entra o meu segundo pedido. Vou precisar de alguém que me substitua em Valverde. Tenho muitos pacientes e não posso deixá-los a deriva.
- Claro, eu entendo. Vou ver o que posso fazer. Temos alguns médicos recém saídos da residência, interessados em um trabalho fora do hospital. Quanto a isso acho que não será difícil. Algo mais?
- Não. Obrigada, Dirceu. Eu sabia que podia contar com você.
Foram interrompidos pelo celular de Roberto, deixado por seu irmão, para poder manter contato.
- Sim? Ah! Entendo... Já estou indo.
Sílvia e ele entreolharam-se no mesmo instante. Uma sensação de angústia tomou conta deles.
- Mas, já? Tão cedo? – protestou Sílvia.
- O que houve? – perguntou Dirceu, curioso.
- É a minha condução para voltar a São Paulo. Acabou de chegar – respondeu sem tirar os olhos de Sílvia.
- Então, eu acompanho vocês até a saída do hospital – falou Dirceu, com expressão de contentamento.
- Não!... Por favor, nós sabemos encontrar a saída, se não se importa – objetou Roberto, que não admitia ter o seu suposto rival presente na sua despedida de Sílvia.
- Tudo bem. Vocês é que sabem. Estava apenas tentando ser gentil.
- Obrigada, Dirceu. Preferimos ir só os dois. Muito obrigada. Falamos-nos depois.
- Ok! Boa viagem, Roberto Vergueiro – despediu-se, querendo parecer simpático e estendendo-lhe a mão.
- Obrigado – respondeu polidamente, mas internamente desconfiado daquele ataque de civilidade. Certamente ele estava tentando ser agradável para reconquistar Sílvia. “Maldita hora em que tenho de voltar para São Paulo”, pensou. Mas apertou a mão oferecida.
Saíram dali e foram caminhando abraçados. Pegaram a caminhonete, desta vez dirigida por Sílvia, que os levou até o campo de futebol onde o helicóptero estaria pousado.
- Promete que liga?
- Prometo. Todos os dias...
- Pegou o número do meu celular? Do telefone de casa? Lembra que eu tenho plantão na quinta e não vou estar em casa. Mas vou estar com o celular.
- Eu sei, meu amor.
Após estacionar junto ao campo, beijaram-se apaixonadamente, tentando gravar na memória todos os momentos em que tinham passado juntos, para que pudessem relembrar quando estivessem separados e, dessa maneira, tornar as horas de solidão mais amenas.
Lá estava o helicóptero, com as hélices ainda em movimento, lançando uma tempestade de vento e grama pelos ares. O barulho era ensurdecedor. Logo o piloto apareceu e pediu que Roberto o acompanhasse, pois já estavam atrasados.
- Está bem! Já vou!
Olhou mais uma vez para Sílvia, abraçou-a forte e deu-lhe mais um beijo.
- Eu te amo, Roberto Vergueiro! – gritou, para que ele a ouvisse em meio aquele redemoinho.
- Também te amo, Dra. Sílvia!
Com dificuldade, separaram-se. Roberto seguiu correndo sob as hélices furiosas do helicóptero. Seus olhares cruzaram-se tristonhos até a distância tornar isto impossível. Sílvia ficou paralisada enquanto via aquela máquina levar o seu amor. Sentiu um imenso vazio ao perdê-lo de vista no horizonte.

O sol intenso e o calor do meio-dia fizeram Sílvia sair de seu transe. Saiu dali, obrigada a pegar sua camionete e voltar para Valverde onde seus pacientes a esperavam no consultório às 14h30min. Pensou em comer alguma coisa, mas perdera totalmente o apetite. Sentia-se perdida no vácuo. Será que tinha conseguido fazê-lo sentir o quanto o amava? Talvez ele chegasse a São Paulo e a esquecesse, no meio de todos os seus compromissos e mulheres interessantes que, como havia dito Dirceu, deviam viver a cercá-lo. Mil pensamentos, a maioria pessimistas, rondavam sua mente. Esperaria a sua ligação. Devia confiar nele e esperar. O trabalho ajudaria a afastar estas idéias obscuras.

O resto do dia transcorreu calmo. Após terminar seu atendimento, resolveu passar a noite na cabana. Só teria que acordar um pouco mais cedo para poder pegar o seu plantão no dia seguinte. Queria ficar mais próxima das recordações dos últimos dias. Mais perto de Roberto. A cada toque do celular, seu coração entrava em taquicardia. Já no seu refúgio, tomou um banho e fez um sanduiche. Comeu sem muito prazer. Após uma tentativa de prestar atenção a um programa de televisão, foi deitar-se. Tentou ler o seu “livro de cabeceira”, mas não conseguiu passar da primeira linha. “Estou chegando à conclusão que este livro é uma droga. Ou eu durmo ou não consigo ler nenhuma linha”, pensando assim, levantou-se da cama e jogou o volume na pilha de revistas que tinha sobre sua escrivaninha.
Já estava ficando deprimida com a falta de notícias de Roberto, quando o telefone tocou. Correu para atender.
- Alô, alô!!!
- Sílvia, alô?
- Roberto! Ah, que bom te ouvir. Já estava sem esperanças que você me ligasse.
- Estou com saudades... Desde que cheguei aqui não tive uma folga. Já tive reuniões com a Polícia Federal e com o pessoal da empresa. Amanhã, pela manhã vou a um especialista para fazer uma nova avaliação neurológica, para que se certifiquem que estou bem para continuar o trabalho. Só agora o Marcos saiu daqui, de meu apartamento. Mal podia esperar para ficar só e te ligar. Como você está?
- Também estou com saudades... O trabalho ajudou um pouco a não ficar pensando sobre isto durante o dia. Mas agora, à noite... Estava ficando difícil.
- Onde você está? Eu liguei para o seu apartamento e ninguém atende. Por isso acabei ligando para o celular.
- Ah! É que resolvi passar a noite na nossa cabana.
- Mas você não tem plantão amanhã?
- Tenho, mas não tem problema. Levanto um pouquinho mais cedo e vou para Valverde. Não é tão longe assim.
- Você não tem medo de ficar aí sozinha?
- Até hoje, nunca tive. Agora, faço de conta que você está aqui comigo.
Após alguns segundos de silêncio, Roberto perguntou:
- Você já está deitada?
- Não, por quê?
- Então deita... Eu estou na cama ...
- Roberto... No que você está pensando?
- Você nunca transou pelo telefone?
- Não! Que loucura é essa? Beto...
- Então pode ser a primeira vez... O que acha?
- Não sei... – respondeu curiosa.
- Faz de conta que estou aí ao seu lado, te abraçando... Imaginou?
- Não é difícil de imaginar.
- Você está nua?
- Não, mas posso dar um jeito nisso...
Rapidamente Sílvia livrou-se de sua camisola e foi para baixo dos lençóis, deixando o viva-voz do celular ligado
- Pelo jeito você tem prática neste campo, Sr. Roberto...
- Nem tanto. É que a vontade de ter é tanta que me veio esta idéia.
- Estou pronta...
- Então imagina as minhas mãos te acariciando...
Sílvia, de olhos fechados, passou a viajar nas palavras murmuradas por Roberto, sentindo suas mãos imaginárias percorrerem todo o seu corpo, até as áreas mais íntimas. Logo foi a vez dela de fazê-lo sentir sua presença. Jamais pensara em ter sensações como aquelas, daquela maneira.
Ouviam-se gemidos em São Paulo e na cabana perto de Valverde. As palavras continuavam, excitando o casal cada vez mais, até que terminassem por gozar, cada um em sua cama, separados pela distancia, mas unidos em mente e desejo.

Passados alguns instantes, Sílvia ouviu aquela voz rouca do outro lado da linha:
- Gostou?...
- Adorei... Nunca pensei que pudesse ser tão bom...
- Podemos repetir outras vezes, quando você quiser. Pelo menos até a gente poder se ver e fazer pessoalmente.
-Vou adorar... Quando a gente pode se falar de novo?
- Amanhã, eu ligo.
- Só não vamos poder fazer nada deste tipo, senão vai ficar chato eu tendo um orgasmo na frente do Franco.
- Ah! Até já tinha esquecido o seu plantão.
- Mas não deixa de ligar. Ao menos para eu poder ouvir a sua voz...
- Pode deixar. Eu ligo sim.
- Vou fazer de conta que você está dormindo aqui comigo.
- Durma bem, meu amor...
- Você também... Boa noite...
- Boa noite...
Os telefones foram desligados e Sílvia acabou por ter uma ótima noite de sono. Tão boa, que não conseguiu ouvir o despertador tocar cedo naquela manhã. Ao abrir os olhos, verificou assustada que o rádio-relógio já marcava sete horas. Levantou-se de um pulo da cama, correu ao banheiro, onde tomou um banho rápido, arrumou-se e saiu de casa sem tomar café. Ainda tinha de dirigir dez quilômetros até Valverde. Conseguiu chegar com apenas cinco minutos de atraso. Franco não pode deixar de comentar:
- O que houve? Viu um fantasma ou aconteceu alguma coisa séria?
- Desculpe o atraso – falou, depois de despedir-se do seu colega da noite, que a esperava para a troca do turno – Dormi demais. Ainda por cima, estava na cabana, fora da cidade, por isso me atrasei um pouco.
- Calma, já está aqui e não temos nenhum chamado, por enquanto. Você tomou café?
- Não. Ainda não.
- Então vamos à cafeteria que tem aqui do lado. Eu também saí de casa sem comer nada. A Mariana teve febre esta noite. Por isso dormimos pouco, lá em casa.
- Mas, ela ficou bem?
- Acho que sim. Se a febre continuar hoje, a Elaine vai levá-la ao seu consultório amanhã.
- Porque ela não traz ao nosso plantão? Posso examiná-la aqui no posto. Elaine ficaria mais tranquila.
- Não queremos te incomodar.
- Não é incomodo nenhum. Depois ligue para ela e diga que traga a Mariana, se a febre persistir.
- Está bem, obrigado. Eu ligo sim.

Sentaram-se numa das pequenas mesas do boteco que Franco insistia em chamar de cafeteria. O café era horrível, mas serviam um delicioso pastel de forno, preparado pela mulher do dono.
- Agora me conte, porque foi passar a noite na cabana?
- Deu vontade...
- O Antonio, quer dizer, o Roberto voltou para São Paulo?
- Voltou ontem, no final da manhã.
- E você, está bem?
- Na medida do possível, sim – respondeu, enquanto remexia o café aguado, sem muita animação.
- Vocês vão continuar se vendo?
- Franco, porque tanto interesse?
- Por que eu sou seu amigo e estou vendo que você está triste. Mas se você não quiser falar sobre o assunto, tudo bem.
- Desculpe... Estou triste mesmo.
Franco resolveu não perguntar mais nada e deixar que ela tomasse a iniciativa. Após alguns segundos de silencio, Sílvia acabou por desabafar:
- Eu me apaixonei por ele... Acho que ele também está gostando de mim. Estou pensando em me jogar de cabeça nesta relação. Com isso vou acabar mudando todo o rumo da minha vida, mas tenho medo do que me espera. E se não der certo? Se ele me deixar? A gente teve tão pouco tempo para se conhecer. Por outro lado, eu sempre racionalizei tanto a minha vida e vivia reclamando da solidão e da falta de um companheiro. De repente, o Roberto apareceu e tudo virou de cabeça para o ar. De uma hora para outra descubro que ele não mora aqui, que é um rico empresário e... – não pode mais segurar as lágrimas que passaram a escorrer lentamente por sua face.
Franco alcançou-lhe um lenço de papel e tentou consolá-la:
- Sílvia, acho que conselhos nesta hora não ajudam muito. Só atrapalham. Se você está realmente apaixonada e acha que vale a pena investir neste cara, vai em frente. Aqui em Valverde você sempre terá um lugar reservado. Todos te conhecem. Se as coisas não correrem direito com o Roberto, você volta para cá, para os seus amigos.
- É isso que estou pensando desde que ele partiu. O meu coração diz que vale a pena. Eu preciso tentar... Entende?
- Entendo. Vá em frente com seus planos. O velho Franco vai ficar aqui esperando com o seu ombro, caso não de certo. Também posso ir lá tirar satisfações dele, se ele aprontar muito com você. Afinal eu participei do início deste romance. Tenho meus direitos de padrinho – disse isso, fazendo uma cara de zangado, que acabou por arrancar um sorriso dos lábios de Sílvia.
- Puxa, Franco. Obrigada pelo apoio. Eu sei que posso contar com você.
Neste momento o rádio, na cintura de Franco, deu um sinal que estavam chamando.
- Alô? Pode falar.
- Um chamado na Rua Sete de Setembro, número 19. Mulher de 50 anos, queixando-se de dores no peito, suores frios e dizendo que não consegue engolir, porque tem uma “bola” na garganta que a sufoca.
- Ok! Já estamos indo!
Olhou para Sílvia com um sorrisinho irônico.
- Parece que temos mais um faniquito à vista. Araújo, põe na nossa conta! – gritou para o dono do bar.
- De repente, pode ser alguma coisa séria, Franco. A gente não pode perder a esperança... Vamos logo! – disse Sílvia retribuindo o sorriso, já se levantando e caminhando em direção a porta do bar.
Saíram correndo e pegaram a ambulância. Ligaram a sirene e partiram em direção a Rua Sete de Setembro.

(continua...)



O que o futuro reserva para nossa heroína? Será que os medos dela têm algum fundamento? Aguardem...rsrsrs
Beijos!