sábado, 17 de julho de 2010

Resgate de Amor (9)

O dia amanheceu. O telefone tocou.
- Com quem? Ah! Sim... Só um momento... – pediu Sílvia, já passando o aparelho para Roberto – É para você...
- Alô? – perguntou com a voz rouca, amarrotada pelo sono.
- Roberto! Sou eu, Marcos! Onde você está? Eu cheguei a Valverde agora pela manhã. Estou aqui na delegacia. Eles estão esperando que você apareça para dar o seu depoimento. Temos que viajar ainda hoje para São Paulo.
- O quê ? – perguntou ainda sonolento, tentando entender as palavras de seu irmão.
- Beto! Você está me entendendo?
- Sim, claro! Estou sim. É que acabei de acordar. Vou me arrumar e já vou para aí. Me espere.
- Espero sim. Até mais, então!
- Até! – falou e desligou, lançando um olhar para Sílvia que já estava com expressão de tristeza na face.
- Era o meu irmão, o Marcos. Ele está com nosso advogado, nos esperando para dar o depoimento na delegacia. Depois... – não conseguiu completar a frase, pois temia o que estava por vir.
- Depois... Você vai ter que voltar para a sua vida, não?
- Sílvia, nós temos que conversar. Vamos encerrar este assunto do meu sequestro e falar sobre o nosso futuro.
- Você acha que temos futuro? – ela tentava ser forte e realista, mas seu coração estava quase arrebentando com medo da separação próxima.
- Quero pensar que sim – disse ele, aproximando-se mais dela para um beijo.
Sílvia esquivou-se, para surpresa dele, dizendo:
- É melhor nos arrumarmos, ir para delegacia e acabar logo com isso.
Levantou-se bruscamente, coberta com o lençol e correu para o banheiro. Lá, longe da vista de Roberto, não conseguiu mais segurar o choro. Tomou seu banho, enrolou-se na toalha e saiu para colocar uma roupa adequada ao que teria de fazer a seguir.
Roberto a olhava inseguro e curioso por saber o que se passava por trás daquele olhar tristonho. Tinha ouvido o seu choro, mas resolveu não falar nada. Apenas respeitá-la. Foi a sua vez de ir para o banho e aprontar-se para o depoimento que os aguardava. Em silencio, seguiram para a garagem para pegar a caminhonete.
- Sílvia, as coisas entre nós não precisam acabar assim. Você está me preocupando com sua reação. Sei que está triste pensando que não vamos nos ver mais. Mas não é bem esta a minha intenção – disse, segurando-a pelo braço, forçando-a a parar e a olhá-lo nos olhos.
- Roberto, tem que ser realista. Nós não temos futuro juntos.
- Porque não? O que nos impedirá? Você pode ir para São Paulo comigo...
- Não posso largar meus pacientes assim, deste jeito, de uma hora para outra. Não sou nenhuma irresponsável...
- E eu sou? É isso que você está dizendo? – falou já irritado com ela – Você está tentando me dizer que não quer mais saber de mim? É isso?
- Não, não é isso!
- Mas é o que está parecendo!
- Roberto, eu me apaixonei por você de verdade e não sei o que vai ser de mim se não puder mais vê-lo– disse com voz tremula, já com as lágrimas escorrendo por seu rosto – Era isto que você queria ouvir?
- Era exatamente isto que eu queria ouvir... – disse, abraçando-a ternamente e colando seus lábios aos dela, num beijo quente, úmido e apaixonado – E era isso que queria te dizer também – falou, quase sussurrando junto ao seu ouvido, provocando um arrepio gostoso que percorreu todo o corpo de Sílvia.
- Mas como vai ser isso? Levamos vidas completamente opostas, em lugares diferentes...
- Nós vamos dar um jeito. Cada um cede um pouco aqui, um pouco ali, e conseguimos o que parece impossível. Não podemos é desistir antes de tentar... – sua voz, bem como seu olhar, era quase de súplica.
- Você tem razão. A gente vai dar um jeito... Estou agindo feito uma boba.
Mais uma vez, ele a fez calar-se com um beijo, que a fez sentir-se mais segura a respeito da ligação que se criara entre eles naqueles últimos dias.
- Melhor irmos logo para a delegacia para os depoimentos. Depois vamos ter muito que conversar, entre outras coisas... – insinuou ele, já exibindo um lindo e cativante sorriso.
Entraram no carro e seguiram para a delegacia de polícia. Lá encontraram Marcos, que esperava ansiosamente por Roberto. Abraçaram-se saudosos.
- Que susto você nos deu, rapaz!
- E o resto da família? Você chegou a avisá-los?
- Não tive coragem. Fiquei com medo que alguém viesse para cá e chamasse a atenção da imprensa. Por um lado foi bom, pois não os preocupamos. Agora que está tudo bem, você mesmo poderá contar o que aconteceu, com calma.
- Claro... Ah, Marcos, deixe-me apresentá-lo a minha salvadora, Sílvia.
- Muito prazer, Sílvia. Você tem muita sorte, Beto. No meio desta tragédia toda, ainda consegue um anjo da guarda como ela.
- É... Eu tenho muita sorte mesmo... – confirmou o comentário de Marcos e olhou para Sílvia com carinho.
Depois de feitas as apresentações, iniciaram a tomada dos depoimentos. Os prisioneiros da noite anterior já haviam confessado seus crimes. O corpo do pobre senhor Meyer já havia sido recuperado e aguardava autópsia. A polícia de Rio Claro e a federal já tinham sido informadas. Aos poucos tudo ia sendo esclarecido. Franco também compareceu e prestou seus depoimentos sobre o telefonema de Sílvia e a participação na prisão dos criminosos.
Ao final da manhã, depois de tudo esclarecido e a transferência da prisão de Clélio e Leon já ter sido decretada, Marcos aproximou-se de Roberto e falou:
- Beto, agora nós teremos de ir embora.
Sílvia engoliu em seco e ficou esperando a resposta dele, que imediatamente se fez ouvir, para seu alívio:
- Marcos, sei que tenho inúmeros compromissos me esperando, mas tenho de resolver uma coisa mais importante que tudo o mais. Preciso de pelo menos mais um dia aqui em Valverde. Depois, prometo que volto para cumprir a minha agenda em São Paulo.
Marcos lançou um olhar compreensivo para Sílvia, mostrando que já esperava por aquele pedido do irmão.
- Está bem... Eu seguro as pontas mais um dia. Espero que vocês possam resolver tudo da melhor maneira possível – disse, já com um largo sorriso estampado na face.
- Eu sabia que você ia entender, Marcos.
- Preciso lembrar que somos irmãos?
- Obrigado
Depois de uma troca de abraços, despediram-se na saída da delegacia. Também Franco veio despedir-se de Sílvia e de Roberto. Quando se viram sozinhos, Roberto pegou em sua mão e, levando-a aos lábios e beijando-a carinhosamente, perguntou:
- Aonde podemos ir agora para conversar?
- Que tal irmos para a nossa cabana?
- Nossa? – perguntou surpreso.
- Porque não? Se você quiser... Além do mais, foi lá que tudo começou... - disse Sílvia, com olhar sedutor.
- Não precisa falar duas vezes. Vamos!
Foram abraçados até a caminhonete, sob os olhares curiosos de alguns transeuntes. Nada mais importava, a não ser viver o mais intensamente possível aquele amor que surgira de maneira tão imprevista e acidentada, mas que tinham a certeza de que viera para durar e vencer os obstáculos que pudessem surgir em seu caminho.

Quando chegaram à cabana, Sílvia resolveu preparar um lanche rápido para os dois. Enquanto saboreavam seus sanduíches, sua melhor e única especialidade, tentavam estabelecer como ficaria o seu relacionamento dali para frente. Que havia uma vontade recíproca de continuarem juntos, não tinham a menor dúvida. Teriam algumas dificuldades no início devido a distancia entre suas cidades e a diversidade entre seus trabalhos, mas estavam resolvidos a não deixar nada disso interferir naquele sentimento tão bom que os envolvia agora.
- Sílvia, tenho que terminar alguns negócios que estava fazendo, antes de tudo isto acontecer. Isto deve ocorrer dentro de, no máximo, um mês. Mas antes disso, darei um jeito de vir te ver. Na primeira folga que tiver corro para cá.
- De repente, eu também posso tirar uns dias. Só não quero atrapalhar o seu trabalho.
- Isso seria ótimo! É claro que não atrapalha. Só vai melhorar o meu desempenho... – falou com aquele sorrisinho safado nos lábios.
- Sempre pensando em bobagens, não?
- Você acha que isso é bobagem? – disse já se insinuando para o seu lado, como um gato pronto para enroscar-se em sua dona.
- Roberto, – falou, procurando se esquivar daquele assédio – temos que conversar mais... Não fica me tentando...
- Não vou ficar tentando... Eu só vou te beijar – dizendo isso, selou seus lábios com um beijo faminto, como se nunca a tivesse beijado antes.
Entre um beijo e outro, quase sem fôlego, Sílvia só conseguiu dizer, já vencida:
- A gente pensa melhor depois...
- Também acho... – falou Beto num sussurro, ao seu ouvido.
Obviamente ela não conseguiu mais afastá-lo. Ela também o desejava mais do que nunca, principalmente agora na iminência de ficar um bom tempo sem vê-lo. Ainda tentou reagir, preocupada:
- E o seu ferimento? Temos que dar uma olhada nele...
- Então, vamos para o quarto logo, que eu mostro o ferimento e tudo o mais que você quiser ver e examinar – disse provocativamente, já despindo a camisa, pegando-a pela cintura e levando-a, em meio a abraços e mordiscadas na orelha e no pescoço, na direção do quarto.
- Roberto...
- Adoro quando você me chama assim...

Enquanto descansavam abraçados, na cama, Sílvia lembrou uma coisa e começou a falar:
- Talvez eu possa arranjar um trabalho em São Paulo. O que acha?
Ele abriu os olhos instantaneamente.
- Sério? Você faria isto por mim?
- Eu faço qualquer coisa para não ficar longe de você...
- Eu posso ver com alguns conhecidos se eles podem indicar um hospital ou clínica onde você possa trabalhar.
- Olha – falou, interrompendo os pensamentos de Roberto -, lembrei de alguém que poderá me ajudar.
- É mesmo? Quem? – perguntou meio desconfiado.
- O Dirceu já trabalhou em São Paulo. Logo depois que terminou a residência em neurologia, conseguiu colocação em outro hospital, como contratado.
- O quê? Não quero que você fale com aquele sujeito.
- Porque não? Ele pode me ajudar e me indicar para este hospital de São Paulo
- Eu vi o interesse dele em você aquele dia em que tive alta. Só faltava comer você com os olhos, na minha frente.
- Roberto... Eu nunca tive nada com ele.
- Você pode não ter tido nada, mas ele queria ter e ainda quer. Disso não tenho nenhuma dúvida.
- Você não confia a mim? – falou com tristeza na voz.
- Confio em você. Não confio é nele. Além do mais, se ele conseguir uma colocação para você, vai se achar no direito de cobrar depois.
- Roberto, não seja bobo. Não precisa ser tão ciumento assim. Deixa ao menos eu tentar... – falou quase em tom de súplica – Além do mais, ele agora trabalha em Ribeirão Preto. Eu vou ficar mais longe dele do que estou agora... Não esqueça.
- Está bem... Convenceu-me. Eu tenho medo de te perder. Só isso... – disse, abraçando-a com mais força.
- Você não vai me perder assim fácil... – e foi aproximando-se do seu rosto, até tocá-lo com os lábios e começar a beijá-lo suavemente, passeando por sua face, até chegar a sua boca entreaberta, que aguardava apreensiva a chegada de seus carinhos.
Como era de esperar, entregaram-se novamente ao amor.
No meio da tarde, o celular de Roberto tocou, tirando-os de seu relaxar. Era Marcos.
- Beto, desculpe incomodá-lo, mas parece que você vai ter de ir até Rio Claro, apresentar-se ao juiz de lá para concluir o inquérito que foi aberto por ocasião do seu acidente. Falei com os advogados e eles acharam melhor que você vá pessoalmente, principalmente por estar aí perto ainda. Será que você pode fazer isto amanhã pela manhã? Acho que hoje já está muito tarde para ir até o fórum de lá.
- Claro. – disse, achando ótima a possibilidade de ficar um pouco mais na companhia de Sílvia.
- No final da manhã, um helicóptero irá pegá-lo num campo de futebol em Rio Claro. Parece é o único local onde eles podem pousar. Dali, ele vai te trazer para São Paulo. Nós o queremos no meio da tarde, sem falta, entendeu?
- Sim, senhor! Entendi. Tudo bem. Estarei aí amanhã à tarde.
Desligou o telefone e contou a Sílvia o que teria de fazer no dia seguinte.
- Ótimo! Assim vamos juntos e já aproveito para falar com Dirceu, que deve estar por lá amanhã. Eu soube que quarta feira é o outro dia em que ele faz as avaliações em Rio Claro. Beto fez uma cara péssima, mas não falou nada.
- Roberto, não fique assim. Você concordou comigo que deixaria. É pelo nosso bem, querido...
- Eu não disse nada.
- Mas pensou.
- Estou pensando em outra coisa – disse com olhar guloso.
- Nossa! Você só pensa nisso?
- Nisso o que? O que você pensou? – foi falando e já desatando a rir – Só ia dizer que estou esfomeado e que pensei em irmos até a cidade jantar no Alvorada. O que acha da idéia?
- Acho ótima! Também estou morrendo de fome.
- Que tal tomarmos um banho juntos, você refaz o meu curativo e nos aprontamos para sair?
- Se você prometer se comportar no banho...
- Prometo. É que com este ferimento acho que vou precisar de uma ajuda para passar o sabonete no corpo – pronunciou com o ar mais inocente do mundo.
- Ahan... Claro, precisa de ajuda, é? Vou ser obrigada a fazer este sacrifício...Vamos lá!

Durante o jantar, Sílvia aproveitou o tempo juntos para perguntar mais sobre Roberto. Afinal, depois que ele recuperara a memória ainda não tinha tido oportunidade de conhecê-lo melhor. Estava apaixonada por alguém que mal conhecia. Já soubera que ele era solteiro, o que era um fator importante, segundo ela. Agradecia por aquela história de esposa e gêmeos ter sido apenas uma invenção dele para afastar o assédio de Suzi.
- Beto... É assim que você prefere ser chamado?
- Sim, mas adoro quando você diz o meu nome por extenso. Soa diferente na sua voz.
- Roberto, queria saber mais sobre você. Já sei que é um empresário de sucesso, que não é casado, que o seu irmão se chama Marcos e que é paulista. Mas só isso é muito pouco para o currículo de alguém por quem pretendo mudar toda a minha vida.
- E o amor, não conta?
- Claro que conta... Mas eu quero saber mais , ou melhor, tudo sobre você.
- Estou brincando. É claro que você tem me conhecer melhor – disse mirando-a com os olhos verdes , que ainda a faziam estremecer.
A partir daí, passou a contar detalhes de sua infância, a ida para os Estados Unidos com sua mãe, após a separação de seus pais, a adolescência rebelde, o reencontro com seu pai no Brasil aos 16 anos, a volta para os Estados Unidos e o curso de Engenharia da Computação em Massachussetts, estimulado por seu pai, que, era engenheiro e interessado pelo assunto. Ele falecera três anos atrás. Relatou como ele e Marcos montaram sua empresa em São Paulo e o sucesso consequente. Especializaram-se em sistemas de segurança. Por isso o interesse do governo. A tudo Sílvia ouvia atenta, valorizando cada palavra dita por ele, deixando-se encantar cada vez mais pela força de vontade de Roberto ao enfrentar todas aquelas reviravoltas e tornar-se a pessoa e o profissional bem sucedido que era. Só esperava poder conviver mais com ele para poder usufruir tudo isso.
- E então? Decepcionada? Vai desistir de mudar a sua vida por mim? – enquanto perguntava, pegou a mão de Sílvia entre as suas e a beijou. Ao que ela retribuiu, colocando a sua mão livre a acariciar o rosto dele, com muita ternura no olhar, respondendo:
- Se tudo isso que você contou é verdade, e eu sinto que é, só me faz ficar mais convicta de que você é exatamente tudo que eu sempre quis para mim.

(continua...)


BESOS!!!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Resgate de Amor (8)

Apavorada com o que acabara de ver, levantou-se de um salto e jogou-se sobre a rampa, arrastando-se rapidamente para fora do porão. Abriu uma fresta para poder visualizar a rua e constatar que Batista não estava por perto. Quando tentava sair, ouviu a voz de Antonio, forte e firme.
- Olá, Batista!
Houve um breve período de espera, de alguns segundos ansiosos, que foram quebrados pela resposta:
- Olá, vizinho! O que faz por aqui?
- Resolvi dar uma volta enquanto a Sílvia prepara o jantar. Sabe como são as mulheres para agradar a gente... A coitada demora horas preparando uma simples massa. Por isso resolvi esticar as pernas enquanto aguardo. Vim andando sem rumo e me perdi. Ainda bem que o encontrei. Será que pode me dar a direção certa para voltar para casa?
Sílvia percebeu que ele estava tentando ganhar tempo para que ela saísse dali. E foi exatamente o que ela fez. Silenciosamente, saiu de seu esconderijo e correu o mais rápido que pode para a mata, embrenhando-se entre as árvores. Não conseguiu ouvir a resposta de Batista. Pensou em voltar para ver se Antonio tinha convencido o vizinho a guiá-lo na volta para a cabana, mas achou que já tinha se aventurado demais. Ao chegar a sua casa, não encontrou Antonio. Já estava ficando desesperada e decidida a ligar para a polícia, pois a noite já começava a cair, quando ele entrou na sala, chamando por seu nome.
- Sílvia!
Ela correu para os seus braços e abraçou-o com força. Não conseguiu evitar as lágrimas de alívio por vê-lo são e salvo. Quando pensou em falar de seu medo, Antonio a fez calar-se com um gesto. Ela não entendeu a princípio, mas logo viu o motivo entrando um pouco depois dele. João Batista o havia acompanhado até lá.
- Oi, querida! Porque esta aflição? Por acaso, queimou o jantar? Eu estou morrendo de fome.
Enquanto ele falava, ela notou que Batista os observava muda e atentamente.
- Não. Apenas fiquei aflita devido a sua demora em voltar. Já estava escurecendo e você não está habituado a andar sozinho por aí.
- Realmente eu acabei me perdendo, mas aí encontrei o nosso vizinho e ele me trouxe de volta, são e salvo. Quer jantar conosco, Batista?
- Ahnn... Não, obrigado. Preciso voltar. Se precisarem de alguma ajuda, é só contar comigo.
- Muito obrigado por ter sido meu guia.
- Não há de quê! Vizinhos são para estas coisas. Uma boa noite para vocês.
- Boa noite! – despediu-se Antonio, mantendo uma expressão amigável no rosto.
Quando deixaram de ouvir os passos do homem mata adentro, Antonio fechou a porta e virou-se com o rosto transtornado,
- Sílvia, que diabos você foi fazer sozinha lá na casa deste cara? Quando li o seu bilhete, avisando que ia até lá, saí correndo para tentar alcançá-la. A sorte é que tinha visto, na nossa vinda para cá, o nome de Meyer na entrada de uma pequena estrada de acesso e imaginei que ali seria a casa dele. Caso contrário não poderia tê-la ajudado. Eu disse que devíamos ir juntos até lá. Porque você é tão teimosa?
- Antonio... O senhor Meyer está morto.
- Como?
- Eu descobri o corpo dele enterrado no porão da casa.
- Você tem certeza?
- Claro que tenho. Eu vi a mão dele saindo da terra fofa que foi colocada sobre ele no fundo do porão, debaixo de uma pilha de lenha.
- Calma... Conte-me exatamente o que aconteceu – disse, fazendo-a sentar-se no sofá da sala.
Em poucos minutos ela relatou a sua visita e de como havia caído sobre a cova do senhor Meyer.
- Na queda, sem querer revolvi um pouco da terra solta e acabei por desenterrar uma parte dele.
- Você teve tempo de cobri-lo de novo?
- Não...
- Então acho que teremos de sair daqui imediatamente, antes que Batista se dê conta da sua descoberta e volte para tirar satisfações.
- Você acha que ele vai tentar nos matar?
- Acho que sim. Para quem já tem um sequestro nas costas e um provável assassinato, não fica muito difícil responder a esta pergunta.
- Sequestro? Como assim?
- Sílvia, me lembrei de tudo. Enquanto eu conversava com ele, desviando sua atenção de você, lembrei de tudo que me aconteceu. Melhor pegarmos o carro e arranjar outro lugar para ficar. Conto tudo no caminho.
- Vamos para o meu apartamento no centro da cidade. Lá teremos tempo de avisar a polícia e pedir proteção.
Logo estavam na rodovia, a caminho de Valverde.
- Antonio, por favor, me conte o que você lembrou.
- O meu nome, na verdade, é Roberto Vergueiro. Meu irmão e eu somos donos de uma empresa de informática. Este fato eu verifiquei hoje à tarde enquanto folheava algumas revistas na sua sala de espera. Nós estávamos procurando na Internet, enquanto a minha identidade estava tão próxima, dentro do seu consultório. Encontrei uma foto minha e de Marcos nas páginas sociais, numa festa em São Paulo.
- Porque você não me falou logo?
- Resolvi contar-lhe com calma, durante o jantar. Na verdade eu apenas vi a foto, mas ainda não lembrava claramente dos fatos. Aí, você resolveu fazer aquela visitinha.
- Que mais você lembrou? Conte!
- Cuidado com a direção... Bem, enquanto falava com Batista, minha memória foi voltando, fluindo como se estivesse represada e, ao falar com aquele homem, a barreira foi rompida.
O nome dele é, na verdade, Clélio Souza, e era um de meus funcionários na empresa que temos em São Paulo. Quando meu irmão e eu descobrimos que ele estava utilizando nosso nome para enganar alguns clientes, conseguindo dinheiro com isso, além da tentativa de descobrir o conteúdo do nosso projeto com o governo, nós o despedimos. Pelo jeito, ficou tão encolerizado com a demissão, que arquitetou um plano para me sequestrar e conseguir um resgate. Eles estavam em negociação com a Polícia Federal, para a qual estamos trabalhando atualmente, e com meu irmão. Provavelmente ameaçaram me matar se eles tentassem me achar. Por isso a notícia do sequestro ainda não vazou. O tal senhor Benetti, que a estava assustando, deve ser o comparsa dele. Este eu não reconheci. Ele era mais cuidadoso ao aparecer na minha frente. Deve ter experiência neste tipo de crime.
Na terceira noite, em que eu estava no cativeiro, Clélio descuidou-se, tirando a máscara que eles usavam para permanecer comigo. Ele pensou que eu estava dormindo e assustou-se ao perceber que eu o havia reconhecido. Nesta hora, aproveitei o seu momento de alarme e fugi. Consegui pegar as chaves do carro e sair correndo dali. Não conseguia reconhecer exatamente onde estava. Era noite, mas muito provavelmente o refúgio era a casa do senhor Meyer. Eles haviam me drogado com alguma medicação, para diminuir as minhas reações, pois eu estava um pouco tonto quando sai de lá. Dirigi feito um maluco, com a visão meio turva. Lembro de ter saído da trilha e entrado na rodovia. Daí, não lembro de mais nada. Devo ter batido com o carro e aí vocês me encontraram.
- Meu Deus! Que história, Antonio... Quero dizer, Roberto?
- Isso mesmo...
Chegaram ao apartamento de Sílvia. Guardaram a caminhonete na garagem do prédio e subiram pelas escadas de serviço, pois não tinha elevador. Entraram no apartamento 202 e foram direto para o telefone. Primeiro ligaram para a delegacia local, onde um funcionário desinteressado disse que não tinha ninguém disponível no momento para ir até lá.
- Mas estamos sendo ameaçados! Estou falando de um assassino a solta. Ele já sequestrou uma pessoa e matou outra. Os próximos somos nós.
O atendente pediu o endereço de Sílvia e disse que mandaria uma viatura assim que fosse possível.
- Melhor eu ligar para o meu irmão e avisá-lo que estou aqui. Ele também poderá tomar as medidas necessárias para prender estes caras.
Enquanto Roberto ligava do telefone fixo, Sílvia pegou seu celular e ligou para Franco. Lembrou que ele morava ao lado da delegacia. Talvez ele conhecesse alguém no local que pudesse ajudá-los. Estava com muito medo de sair à rua e encontrar com um daqueles assassinos.
Franco atendeu e, quando Sílvia começava a contar sobre o que estava acontecendo, bateram na porta. Roberto, que acabara de falar com Marcos, seu irmão, desligou o telefone e foi atender, pensando que deveriam ser os policiais solicitados. Quando girou a maçaneta, a porta abriu-se violentamente e Leon Domingues, conhecido por eles como Benetti, entrou, jogando Roberto ao chão. Sílvia, com o susto, deixou o celular cair e deu um grito ao ver o seu recente paciente com uma arma apontada para eles.
- Os dois! Sentados naquele sofá!
- Calma, senhor Benetti. Não precisa ficar nervoso. O que está acontecendo? – falou Roberto, tentando simular ainda estar sem memória.
- Não diga que você ainda não se lembrou de nada?
- Não, infelizmente ainda não lembrei. Por acaso eu cometi algum crime contra o senhor e agora está querendo se vingar? Se for isso, peço-lhe desculpas e prometo compensá-lo de alguma forma.
Sílvia estava surpresa de como Roberto conseguia manter o sangue frio, diante de uma situação como aquela, continuar encenando uma falta de memória e, ainda por cima, ficar pedindo desculpas ao seu sequestrador. Realmente ele era também um excelente ator.
- Pode até ser que você não tenha recuperado esta maldita memória, mas tenho certeza que a doutorinha aí do seu lado viu coisas que não deviam ter sido descobertas, não é Dra. Sílvia?
- Não sei do que o senhor está falando, senhor Benettti – respondeu, tentando manter a calma, a exemplo de Roberto.
- Não tente se fazer de sonsa. O imbecil do Clélio me contou que alguém andou bisbilhotando o porão da casa onde ele está e certamente descobriu uma lembrancinha que deixamos por lá, enterrada.
- Clélio? Que Clélio? Não conheço ninguém com este nome.
- O seu vizinho João Batista, lembra? O verdadeiro nome dele é Clélio. Satisfeita? – falou Benetti com um sorriso irônico.
- Acho que o senhor está enganado. Não estou entendendo o que está acontecendo aqui e qual a sua ligação com o meu vizinho.
- Vocês estão achando que sou um idiota feito o meu amigo? Acham que não sei que o Vergueiro aí foi até a casa do Meyer para distrair o Clélio enquanto a doutorinha fugia do porão. É claro que vocês já estão sabendo de tudo. Não tentem me fazer de bobo.
- O senhor está cometendo um grande erro, senhor Benetti – disse Roberto, tentando ganhar tempo, esperando que algum policial de Valverde chegasse ao apartamento.
- Chega de conversa! Infelizmente vou ter que levar você comigo, pois precisamos que fale ao telefone com o pessoal da PF. Já a Dra. Sílvia não vai poder nos acompanhar. Sendo assim... – falou, olhando friamente para ela e apontando a arma para a sua cabeça – Se não quiser ficar sujo com sangue, saia do lado dela e fique naquele canto de lá, onde eu posso enxergá-lo – e apontou para o outro lado da sala.
Quando Roberto pensou em reagir e jogar-se sobre o assassino, a porta abriu-se e outro homem jogou-se sobre Benetti. Era João Batista, na verdade, Clélio, que tentava evitar mais um assassinato.
- Pare, Leon! Você está louco! Não vou permitir que mate mais uma pessoa inocente.
- Seu idiota! – gritou seu comparsa – Porque não ficou esperando no carro?
A arma disparou acertando Roberto no ombro, de raspão. Mesmo assim, ferido, pegou Sílvia pelo braço e, aproveitando a luta entre os dois homens, aproveitou para tirá-la do apartamento, exatamente no momento em que a sirene de um carro de polícia aproximava-se rapidamente do local. Quando conseguiram chegar ao térreo do prédio, viram dois policiais armados descendo do carro, seguidos por Franco, que foi ao seu encontro. Viram que Roberto estava ferido e perguntaram:
- Onde está o sequestrador?
- Os dois estão lá, no segundo andar, lutando entre si.
Os policiais subiram correndo as escadas e, pouco depois, pode-se ouvi-los dando voz de prisão à dupla. Leon Domingues ainda tentou reagir, mas logo foi desarmado e algemado. Clélio Souza não ofereceu a mínima resistência, nem tampouco disse uma palavra ao passar diante do olhar inquiridor de Roberto, que ainda não podia compreender como um sujeito podia se meter em tamanha confusão por vingança, ao invés de procurar outro emprego e começar nova vida. Leon, com expressão transtornada pelo ódio, ao ver todos os seus planos colocados por terra, e pela covardia de seu companheiro, passou por eles lançando uma cusparada no chão aos seus pés, seguida por impropérios grosseiros.
Antes de partirem para a delegacia, os policiais informaram que entrariam em contato com a polícia federal e precisariam dos depoimentos de Roberto e de Sílvia, provavelmente logo cedo, pela manhã.
- Talvez fosse melhor irmos até o ambulatório municipal para darmos uma olhada neste ferimento, Roberto – falou Franco, preocupado com o sangramento de seu ombro.
- Pode deixar, Franco. Eu tenho todo material para fazer um curativo aqui em casa. Qualquer problema mais sério, eu o levo até Rio Claro. Gostaria de te agradecer por ter trazido a polícia até aqui. Como você soube que estávamos em perigo? Eu mal tinha começado a contar sobre a volta da memória do Antonio quando tive de desligar o telefone.
- O seu celular continuou ligado e pude ouvir todo o desenrolar da situação em que vocês estavam. Assim que percebi o que estava acontecendo, fui imediatamente até a delegacia e consegui uma viatura na mesma hora. Por sorte conseguimos chegar a tempo.
- Muito obrigado, Franco. Foi por muito pouco. Tivemos sorte de um deles ter um pouco mais de consciência e ter evitado que o outro cometesse mais um crime – agradeceu Roberto.
- Bem, vou voltar para casa. A Elaine deve estar preocupada com a minha saída inesperada. Além disso, vocês precisam cuidar deste ferimento e descansar um pouco. Amanhã me contam toda esta estória, está bem? Boa noite.
- Franco, pegue o meu carro para voltar para casa.
- Não, obrigado. Acho que vai ser bom caminhar um pouco depois de todo este estresse.
- Tem certeza?
- Tenho sim. Tchau!
- Boa noite, Franco – despediu-se Sílvia – E mais uma vez, muito obrigada.
Tão logo Franco se pôs a caminho de sua casa, Sílvia e Roberto subiram para o apartamento.
Lá, foram ver como estava o seu ombro. Ela pegou o material de curativo que guardava para emergências e pediu que ele sentasse em uma cadeira.
- Por sorte a bala pegou só de raspão – disse Sílvia, ajudando Roberto a tirar sua camisa e já examinando o estrago produzido por Leon.
Começou a limpeza, sob os protestos dele, que reclamava da dor, mas não tirava os olhos de cima dela. Depois de alguns minutos, Sílvia deu seu trabalho por concluído.
- Você vai parar de me olhar? Já estou ficando encabulada... Nem ferido você toma jeito, não?
- Estou pensando em como vai ser de agora em diante.
- Como assim? – falou, olhando-o ternamente.
- Agora que tudo foi solucionado, você vai perder o seu interesse por mim e voltar a se dedicar aos seus outros pacientes.
- Pois eu estava pensando o mesmo de você. Agora que descobriu que tem a sua empresa para cuidar e pode retornar a ela sem problemas, não vai mais querer saber de uma médica interiorana e sem a menor graça.
- Quem disse que você é sem graça? – perguntou, fazendo uma careta de dor ao movimentar o braço machucado, o que não evitou que enlaçasse Sílvia pela cintura, puxando-a contra si e olhando-a com carinho.
- Cuidado com o seu ombro. Você tem que repousar... Nós discutimos isto outra hora... – disse ela sem muita convicção, derretendo-se no olhar de Roberto.
- Não quero discutir nada agora... Só quero te beijar – disse ele, já se levantando da cadeira e aproximando-se rapidamente de seus lábios, não dando chance a Sílvia de retrucar ou reagir. Ela deixou-se abandonar em seus braços, temendo que talvez aqueles fossem os últimos momentos deles juntos. Logo ele teria de voltar para a sua vida normal e acabaria esquecendo-se dela.
Mesmo com dor, ele continuava as carícias, percorrendo o corpo de Sílvia com ansiedade, fazendo-a arrepiar-se e gemer baixinho. Logo ela também estava sem sua blusa, beijando-o loucamente. Não sabiam se o desejo era exacerbado pelo medo de esquecerem-se um do outro ou pela situação de perigo que haviam atravessado juntos. O certo é que sentiam urgência em fundir suas almas, seus corpos, seus cheiros e salivas mais do que nunca.
Da sala passaram para o quarto de Sílvia, onde desafogaram a paixão e entregaram-se a ela completamente. Banhados em suor, num misto de dor e cobiça , misturavam seus corpos com avidez e luxúria, gementes e ansiosos. Roberto já não sentia o ombro. Só pensava em proporcionar o maior prazer a sua amada. Suas mãos, boca e língua a exploravam incansavelmente, fazendo-a contrair-se e gritar por mais. Ela, por sua vez, procurava-o com intensidade, provocando-o de todas as maneiras, até sua boca encontrar seu membro ereto e deliciá-lo com beijos e passeios da língua por ele. Os suspiros se misturavam aos gemidos, até o prazer chegar ao seu limite, em ondas furiosas, seguidas pela conseqüente calmaria. Por muito tempo ficaram ali deitados, aproveitando cada minuto resultante daquela deliciosa união, lado a lado, abraçados, sentindo a respiração e as batidas de seus corações. Nada mais parecia ser importante o suficiente para separá-los.

(continua...)




Que susto, não? Volto logo com a continuação deste romance entre a Sílvia e o Antonio, isto é, Roberto Vergueiro ...Prefiro este nome. E vocês?
Beijão!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Resgate de Amor (7)

Até o final da manhã, as duas consultas domiciliares de Sílvia transcorreram tranquilamente, apesar da curiosidade de pacientes e familiares a respeito do seu belo e mudo primo Antonio. Ele mantivera a promessa, afinal.
Resolveram ir almoçar no Alvorada novamente.
- Pena não encontrarmos de novo aquela família simpática, não? – comentou Antonio, sarcasticamente
- Agora quem está bancando o ciumento é você. O Franco é só meu amigo, como já lhe disse antes.
- Você tem muitos amigos homens: Dirceu...Franco...
- Antonio, se fosse você me preocuparia mais com a recuperação da memória do que tentar enxergar coisas que não existem. Quando terminarmos de almoçar podemos ir para o meu consultório e entrar na Internet de novo para ver se tem alguém procurando por você. A secretária só chega às 14 horas. Teremos pelo menos uma hora para pesquisar.
- Como você quiser. Quem manda é você e eu obedeço...
- Gostei disso... – disse Sílvia, com um sorriso nos lábios.
Chegaram ao pequeno prédio térreo, a poucas quadras do restaurante, em torno de 13 horas. Sílvia olhou sua agenda para verificar quantos pacientes estavam marcados. Estava cheia, portanto teria consultas até o final da tarde. Enquanto estava distraída pensando o que Antonio faria durante os atendimentos, sentiu dois braços envolvendo-a por trás, puxando-a de encontro a um corpo quente e macio. Delicadamente, ele a virou, de forma a deixá-la frente a frente.
- E agora? O que vamos fazer?
Sílvia sentiu-se derreter diante daquele olhar encantador que a convidava para prazeres inomináveis. Com um esforço sobre-humano, conseguiu dizer:
- Vamos fazer aquilo que eu tinha determinado. Lembra? Vamos procurar informações na Internet.
- A gente pode fazer isto mais tarde, lá no seu computador da cabana...
Já começava a acariciá-la, tentando beijar seu pescoço, deixando-a sem ação em seu abraço.
- Antonio... Acho que a gente não devia ...
Antes que ela pudesse terminar a frase, ele já estava com a boca sobre os seus lábios, selando qualquer dúvida sobre o que deveriam fazer naquele momento. Sílvia só teve tempo de pedir-lhe para trancar a porta da rua, para evitar surpresas. Feito isso, entregaram-se a carícias intensas e íntimas, desfazendo-se imediatamente de suas roupas. Antonio encostou-a na parede da sala, levantando-a no ar pelas nádegas, forçando-a a enlaçá-lo com suas coxas e pernas, permitindo que ele entrasse com toda a potência em sua intimidade, em movimentos vigorosos, ritmados, cada vez mais rápidos, que arrancavam bramidos de prazer mútuos. Ao final, ela deixou-se abandonar nos braços dele, afrouxando o laço de pernas, voltando a tocar o chão com os pés. Ele continuava de olhos fechados, tentando controlar a respiração ofegante. Ela passou a mão por trás de sua nuca e puxou-o de forma a poder beijá-lo. Ao abrir os olhos, ela pode ver aquele brilho que a seduzia toda vez que ele a fitava. Estava perdidamente apaixonada por um estranho. Não tinha mais volta.
- Só você para me permitir fazer uma loucura dessas aqui dentro.
- Vai ser bom poder lembrar o que fizemos aqui quando estiver chateada no meio das suas consultas...
- Antonio... – e mais um beijo apaixonado a fez se calar.
Resolveram vestir-se e recompor-se, pois logo a secretária chegaria. Mal tinham terminado de arrumar-se, ouviram alguém batendo na porta da entrada, e um barulho de chaves forçando a fechadura. Antonio havia colocado o trinco de segurança que impedia a entrada pelo lado de fora.
Sílvia correu para destravar a porta, deixando Suzi entrar. A sua expressão muda de espanto, que lançava olhares alternados para os dois, pedia uma explicação rápida para o que estava acontecendo.
- Boa tarde, Suzi! – saudou-a, sem obter resposta – Quero apresentar-lhe o meu primo de Ribeirão Preto, que veio passar as férias aqui conosco. Ele ficou com medo de deixar a porta destrancada. Sabe como é este pessoal de cidades maiores...
Suzi pareceu ter ficado mais aliviada com a resposta, mas a curiosidade em seu semblante agora era evidente, principalmente porque não conseguia disfarçar o interesse pelo primo da médica.
- Seu primo? Ah, muito prazer... Suzana – falou, estendendo a mão efusivamente.
- Muito prazer, Suzana.
“Mais uma conquistada”, pensou Sílvia, aborrecida, já sentindo que teria problemas com a secretária tentando seduzir seu “primo”.
Foi a vez de Antonio cortar o clima reinante naquela recepção e dizer:
- Sílvia, acho que vou dar uma volta pela cidade enquanto você está atendendo. Será que você vai ter tempo para um café no meio da tarde?
- Acho que sim, Dra. Sílvia – adiantou-se, simpaticamente, Suzi – O senhor Pereira, das 16 horas, sempre se atrasa. Acho que a senhora vai poder fazer um pequeno intervalo. Se quiserem posso preparar um café aqui mesmo.
Sílvia nunca vira Suzi tão solícita e alegre como naquele dia.
- Obrigado, Suzi, mas acho que vamos preferir dar uma saída aqui por perto, não é mesmo, Sílvia? – adiantou-se Antonio - Deve ter algum lugar que sirva um bom café aqui perto.
- Faça isso, então. Vá dar uma volta por aí... Não vá se perder – disse ironizando - É melhor levar o meu celular, no caso de acontecer qualquer problema. Aí, na agenda, tem o telefone daqui.
- E se alguém te ligar?
- Provavelmente não. Os pacientes sabem que estou aqui no consultório neste horário.
- Então, está bem! Volto mais tarde para te pegar – dizendo isso, curvou-se na direção de Sílvia e deu-lhe um beijo estalado na bochecha – Tchau, priminha! Tchau, Suzi!
“Mas é muito cínico, mesmo...”, pensou a “prima”.

Enquanto Antonio passeava por Valverde, despertando a curiosidade dos moradores, que na maioria já estavam sabendo que ele era primo da Dra. Sílvia, duas pessoas encontravam-se em calorosa discussão na casa do senhor Meyer.
- E se ele recuperar a memória? Vai lembrar que me conhece e estaremos perdidos. Os federais e o irmão ainda pensam que ele está conosco, mas pedem uma prova de que ele está vivo, caso contrário não pagarão o resgate – dizia Clélio, caminhando de um lado para o outro – Além do mais, você conseguiu nos enredar um pouco mais com esta história do velho Meyer.
- Você está se preocupando à toa. Ele já olhou para você e não se lembrou de nada. Acho que o nosso problema maior agora vai ser esta doutorinha que resolveu adotá-lo. Se nós o pegarmos de volta, ela vai complicar a situação. Teremos que dar um jeito nela ou acabar de vez com os dois. Podemos pegá-los, dar a prova de que ele está vivo e, depois de pegar nosso dinheiro, dar um sumiço neles.
- Você está ficando louco, Leon! Eu não imaginava que você tinha esta sanha assassina, caso contrário não teria pedido a sua ajuda. Vamos fazer o seguinte: nós o pegamos antes que ele recupere sua memória, o colocamos ao telefone para o irmão ouvi-lo, pegamos o resgate e o liberamos. Pegamos o carro, fugimos para o Paraguai e pronto – disse o falso João Batista para o igualmente falso senhor Benetti.
- Não sei não. É muito perigoso. Quando ele recuperar a memória vai lembrar que você o sequestrou e a polícia sairá á sua procura e, obviamente, vão chegar até a minha pessoa. Você não devia ter se descuidado, ficando sem a máscara dentro do esconderijo.
- Ah! Agora a culpa é minha?
- É sim! Você foi descuidado! E não só por isso, mas porque foi no seu turno que ele escapou. Coisa de amador. Deveria ter deixado que eu chamasse meus conhecidos para fazer a coisa direito. Aonde fui me meter!
- É melhor pararmos com esse jogo de quem é a culpa e começar a pensar seriamente no que vamos fazer daqui em diante. Creio que o primeiro passo é pegar Vergueiro e trazê-lo de volta ao esconderijo. Por falar nisso, foi uma boa idéia aquela de dar parte na polícia sobre o roubo do seu carro, não? Quando que eles irão imaginar que o carro é do próprio sequestrador?
- Não sei não... Ainda estou na dúvida se isso foi bom ou ruim. Devíamos ter roubado mesmo um carro, para não ter nenhum de nossos nomes envolvidos.
- Quando eles chegarem a descobrir alguma coisa, já estaremos longe daqui.
- Assim eu espero, para o seu... Nosso próprio bem.

Às 16 horas, pontualmente, Antonio estava entrando no consultório de Sílvia, enfrentando a apreciação de Suzi.
- Oi, Suzi! E, então? A minha prima já está liberada?
- Oooiii... – falou, admirando-o dos pés a cabeça, sem conseguir disfarçar seu interesse – Acho que ela o está esperando lá dentro. A dona Aparecida já saiu e o senhor Pereira ainda não chegou. Tem certeza de que não quer que eu prepare um café para nós?...Quero dizer, vocês?
- Não, obrigado, Suzi. Talvez numa próxima vez – disse, sorrindo.
Neste instante a porta da sala de Sílvia abriu-se e ela apareceu, perguntando:
- Suzi, porque não me avisou que Antonio já estava aqui?
- Ah, é que ele acabou de chegar.
- É verdade. Vamos ao nosso café?
- Vamos! Suzi, se o senhor Pereira chegar, diga que logo estarei de volta.
- Claro, doutora – disse , com um olhar sonhador na direção de Antonio, que fez que não percebera, bem como sua “prima”.
- Você faz muito sucesso com as mulheres – disse Sílvia, no momento em que pisaram na calçada.
- Sinal de que elas têm bom gosto, não acha?
- Convencido...
- Mas a única mulher que estou interessado em chamar a atenção, atualmente, é você, minha priminha...
- Convencido e sedutor... – falou, mostrando um sorriso cativante no rosto – Olhe, vamos entrar aqui.
Entraram no local indicado por Sílvia. Era uma pequena cafeteria, quase ao lado do consultório, que Antonio já tinha observado ser a única naquele quarteirão, durante sua caminhada.
Sentaram-se numa das poucas mesinhas que havia e pediram dois expressos e dois pães de queijo.
- E então? Como foi o seu passeio?
- Quase me perdi... – falou, com um sorrisinho irônico.
- É, a cidade é pequena mesmo.
- Acredita que pelo menos duas senhoras vieram me cumprimentar e conferir se eu era mesmo o seu primo? As notícias correm rápidas por aqui, não? Não se passaram 5 horas que você me apresentou a sua primeira paciente e já estou sendo reconhecido na rua.
- É, agora você é o assunto da hora... Lembrou de alguma coisa?
- Só consigo lembrar de coisas banais. O mais importante não vem à tona.
- Temos bastante tempo até a sua próxima consulta com Dirceu e a apresentação ao agente judiciário. É assim mesmo. Nem sempre o processo de recuperação é rápido. Principalmente se houver algum tipo de trauma psicológico sobreposto.
- Como assim, trauma psicológico?
- Só uma intuição minha... - respondeu misteriosa.
Terminaram seu café e já estava na hora de Sílvia retornar. Pagaram a conta e voltaram à clínica, onde o senhor Pereira acabara de chegar, pontualmente atrasado, e estava a sua espera.
- Dra. Sílvia, o seu último paciente desmarcou – avisou Suzi.
- Bem, Antonio, se você quiser me esperar aqui na recepção, só terei mais dois pacientes e poderemos ir embora.
- Claro! Eu a espero aqui, conversando com a Suzi.
- Claro... Tenho certeza de que a Suzi vai cuidar bem de você... Sr. Pereira, pode me acompanhar, por favor? – convidou Sílvia, para logo em seguida desaparecer da vista de Antonio por trás da porta de sua sala.
A secretária mal podia se aguentar em sua cadeira atrás do pequeno balcão de madeira para enfrentar aquela hora inteira na companhia de Antonio.
Ele se sentou e pegou uma das revistas que estavam sobre a mesa de centro da sala de espera e passou a folheá-la. Podia sentir o olhar sedento de curiosidade da secretária sobre ele, deixando-o intimidado.
Não aguentando mais o silencio, ela resolveu tomar a iniciativa e perguntar:
- E a sua esposa, não pode vir para visitar a doutora?
Obviamente, a jovem desejava saber outro tipo de informação para seu uso pessoal, mas ao invés de ouvir a resposta almejada “não sou casado”, o que caiu como uma bomba em seus tímpanos foi:
- Não. Ela precisou ficar em casa para cuidar dos trigêmeos.
- Trigêmeos???
- Sim. Jason, Fred e Vlad.
- N-nossa! Coitada!
- Pois é... – respondeu, com ar desenxabido.
- E ela cuida deles sozinha?
- Quando estou viajando, sim... Mas sempre tem as avós para ajudar. Sabe como é...
- Imagino... – além da decepção, Suzi ficou a pensar sobre os esquisitos nomes escolhidos para as pobres crianças.
Ele quase desatou a rir ao ver a cara de espanto da mulher, mas conseguiu segurar-se e, aparentemente permanecer sério, continuando com os olhos fixos na revista a sua frente. Depois desta breve conversa, Suzi não lhe dirigiu mais a palavra ou o olhar para ele, a não ser para, polidamente, oferecer um cafezinho, sem outras intenções.
O último atendimento foi encerrado e Sílvia surgiu pronta para dar por terminado o seu dia de trabalho. Despediram-se de Suzi e foram pegar o carro que havia sido deixado na rua lateral.
Entraram na caminhonete e ela foi logo perguntando:
- O que houve? Você está com cara de quem aprontou.
- Vamos indo... – disse isto e, após alguns segundos, rompeu uma risada que estava presa em sua garganta há quase meia hora, deixando Sílvia perplexa com a sua reação.
- Qual é a graça? Não estou entendendo.
Quando conseguiu controlar-se, Antonio contou para Sílvia a conversa que tinha tido com a sua secretária enquanto ela atendia seus pacientes. Aí, foi a vez de ela começar a rir.
- De onde você tirou estes trigêmeos? Espero que não tenha se lembrado de verdade... E esses nomes? São dois personagens de filmes de terror. E o terceiro?
- Vlad, o Conde Drácula - e explodiu na gargalhada outra vez, sendo acompanhado de Sílvia, que já estava quase chorando de tanto rir.
- Acho que estou chorando de nervosa, só de pensar que esta estória pode ser verdade.
- Não, querida, não é de verdade, pelo menos os trigêmeos foi uma invenção minha, lembrando do que seu amigo Dirceu falou lá no hospital. Pode ser que eu seja um interessado em cinema de terror por lembrar o nome destes três personagens – e começou a rir de novo.
- Eu ainda acho que você, se não for um grande cômico, está na profissão errada – falou Sílvia toda sorridente – Melhor irmos para casa.
- Ótimo!
Ao chegarem à cabana, Sílvia disse que ia fazer uma massa. Precisava de alguns temperos que cresciam no jardim, plantados por sua mãe, ao lado da casa. Ela pouco os utilizava, não precisava nem dizer por quê. Ainda os cultivava para o caso de alguma eventualidade, como era o caso daquela noite, quando resolvera fazer mais uma incursão ao fogão. Antonio resolveu que ia tomar banho para esperar o jantar. Perguntou se ela não queria compartilhar com ele daquele momento, mas ela fugiu do seu olhar convidativo e, depois de um beijo rápido, fugiu pela porta da frente com um pequeno cestinho.
Quando percebeu que Antonio havia ligado o chuveiro, largou o pequeno cesto, com o manjericão fresco recém colhido, nas escadas da entrada, juntamente com um bilhete que havia escrito para ele, ainda no consultório, tranquilizando-o sobre a sua investigação. Dirigiu-se para uma pequena trilha entre as árvores, afastando-se de casa. Estava decidida a verificar a história do senhor Meyer, que a deixara muito desconfiada. Conhecedora da região, em poucos minutos percorreu o trecho que a separava da casa de seu vizinho. Ao chegar lá, não viu nenhum veículo estacionado, fora ou dentro da garagem. Tudo estava silencioso. Com cuidado, foi aproximando-se da porta dos fundos. Foi quando viu, escondido, entre os arbustos, o velho fusca azul escuro do senhor Meyer. Quem olhasse de relance não o perceberia, mas Sílvia era mais observadora que a maioria das pessoas. Foi até o veículo e verificou que as portas não estavam trancadas. Voltou sua atenção para a casa. A entrada dos fundos estava trancada. Resolveu entrar pela portinhola que servia para colocar a lenha no porão, que ficava na lateral da morada. Olhou para os lados mais uma vez e, como não visse nenhum movimento, entrou. A luz do dia ainda iluminava um pouco o ambiente, mas isto seria por muito pouco tempo. Tinha de ser rápida na sua busca, para que não precisasse acender a luz elétrica. Foi direto para a parte de cima. Não havia ninguém em casa. Pode fazer uma busca rápida no quarto e demais cômodos. Nada encontrou que pudesse identificar o novo morador, tampouco algum sinal de violência contra o locador.
Quando já pensava em sair dali, ouviu o ronco de um motor. Olhou pela janela e viu um veículo aproximando-se do lugar. Pode reconhecer a figura de João Batista no interior. Desceu para o porão novamente. Teria que sair dali do mesmo modo como tinha entrado. Rezava para que ele não percebesse a sua presença ali. Não teria como explicar a invasão. Ao subir para alcançar a portinhola, escorregou na rampa que acessava a rua e acabou por cair sobre uma pilha de lenha solta. Assustada com o barulho que tinha provocado rezava para que Batista ainda não tivesse descido do carro e, portanto não tivesse escutado o som das toras rolando. Quando tentou levantar-se, percebeu que o chão estava muito fofo, devido à presença de terra no local. Forçando a mão sobre o terreno arenoso para erguer-se, esta afundou um pouco. Suas pupilas dilataram-se e um grito de pânico tentou escapar, sendo sufocado pelo medo de ser descoberta.

(continua...)


Será que ela vai ser pega em flagrante? O que será que ela viu?
Aguardem as próximas cenas...rsrsrs
Beijos!

domingo, 11 de julho de 2010

Resgate de Amor (6)

Quando estavam chegando, viram um homem alto, magro, com cerca de uns 40 anos, com chapéu de palha, rondando a casa. Sílvia sentiu seu coração disparar, sem saber bem o porquê. Foi diminuindo a velocidade até estacionar dentro do galpão. Saiu do carro, pegou um ancinho que estava a mão e foi na direção do desconhecido.
- Sílvia, o que você está fazendo? Vamos ver o que ele quer. Não precisa ameaçá-lo com esta vassoura de ferro.
- Ancinho...
- Seja o que for. Além do mais, o homem aqui sou eu. Não é você que deve me defender.
- Deixe de ser machista.
- Boa tarde! Não queria assustá-la! Sou de paz! Sou seu novo vizinho.
- Vizinho? – perguntou Sílvia, já baixando sua “arma”, para alívio de Antonio e do visitante – De onde? A única casa mais próxima é a do Sr. Meyer, a um quilometro daqui.
- Exatamente. Ele me alugou a casa por este mês e foi visitar a filha em Goiânia.
- Eu não sabia que o sr. Meyer tinha uma filha.
- A senhora é bem desconfiada, não, dona?
Ela estava achando aquela história toda muito estranha. O senhor Meyer era um solitário, com cara de poucos amigos, mas que mantinha uma relação quase amigável com sua vizinha de fins de semana. Às vezes ela o visitava para ver se estava tudo bem, pois como ele tinha uma idade avançada, ela tinha medo que sofresse algum mal súbito e não recebesse atendimento. Ninguém mais o visitava, pelo que sabia.
- Quando ele viajou?
- Esta semana. Parece que resolveu de última hora. Tive sorte, pois estava procurando um lugar onde pudesse descansar em minhas férias, talvez caçar um pouco, quando surgiu esta oportunidade. Eu estava andando pelas redondezas e encontrei o Sr. Meyer arrumando suas coisas para a viagem. Fiz a proposta e ele aceitou.
Realmente, alguma coisa não se encaixava naquele relato. Não combinava com a personalidade de seu vizinho. Mas resolveu fingir que acreditara e observar o estranho, até poder confirmar sua versão.
- Bem, então, seja bem vindo à nossa humilde casa. Está sozinho? Não veio com a esposa?
-Sim e não... Estou sozinho e sou viúvo.
- Oh! Sinto muito.
- Deixe me apresenta. Meu nome é João Batista e sou advogado. Tenho um pequeno escritório em Ribeirão Preto. Podem me chamar de Batista.
- Muito prazer, Batista! – Antonio cumprimentou-o sorridente, estendendo a mão – Meu nome é Antonio e estou em férias também.
Sílvia surpreendeu-se com as palavras dele. Porque ele estava mentindo a respeito de seus motivos para estar ali? Porém não quis desmenti-lo.
- Muito prazer, Batista. Meu nome é Sílvia. Desculpe pelo ancinho ameaçador. A gente nunca sabe o que pode acontecer quando aparece um estranho por estas bandas. Aqui é muito isolado e você sabe que a violência anda a solta por aí – desculpou-se Sílvia – Quer entrar e tomar um café?
- Não, muito obrigado. Vou dar uma olhada por aí para fazer um reconhecimento. Boa tarde para vocês – disse despedindo-se rapidamente.
Quando viram o novo vizinho desaparecendo mata adentro, entraram em casa e, tão logo fecharam a porta, falaram quase ao mesmo tempo:
- Muito estranho este homem... – disse Antonio.
- Você o reconheceu?
- Não sei, mas me pareceu ter uma fisionomia familiar. Só não consigo localizar de onde.
- Por isso mentiu sobre suas “férias”?
- É... Acho que sim.
- Vamos ficar de olho nele. Talvez amanhã eu faça uma visita, como quem não quer nada. Política de boa vizinhança.
- Prefiro que você fique bem quietinha e não fique dando uma de policial. Já percebi que você devia ser fã dos seriados de detetives quando adolescente.
- É, pode ser... – sorriu – Mas eu fiquei muito preocupada com o Sr. Meyer. Gostaria de confirmar esta história.
- Só se eu for junto. Não vá se meter por aí sozinha. Está bem?
Ela ficou envaidecida com a preocupação real dele, demonstrada na sua expressão séria, através da ruga saliente entre suas sobrancelhas e a apreensão nos olhos de mel.
- Está bem... Eu prometo – falou, enquanto cruzava os dedos atrás de si.
O resto da tarde foi aproveitado para descansarem na varanda, conversando sobre a infância de Sílvia e suas lembranças da universidade. Deram boas gargalhadas. Ela achava que isto podia ajudar Antonio a recordar-se de suas próprias lembranças. Falar do passado... Ela parecia não perceber , mas esta conversa só estava contribuindo para que ele a admirasse cada vez mais, tornando-se mais difícil não desejá-la.
Antes do jantar, ele resolveu fazer nova busca na Internet.
- Estranha esta coisa de memória. Como eu posso me lembrar de habilidades como navegar na Internet, fazer um sanduíche ou dirigir um carro e não lembrar o meu passado, de minhas relações com pessoas ou profissão?
- A memória é dividida em “compartimentos” em nosso cérebro. Portanto, isto pode acontecer. No seu caso só um dos compartimentos foi apagado, temporariamente – explicou Sílvia, da cozinha, onde se preparava para requentar o jantar do Alvorada.
- Quer dizer que eu poderia esquecer as habilidades e lembrar do passado?
- Teoricamente, sim.

Logo a mesa do jantar estava pronta. Falaram sobre amenidades. Ao final, como já estava tarde e não havia nada mais a fazer, a não ser descansar para o dia seguinte, levantaram-se da mesa. Sílvia resolveu combinar como seria a segunda feira, quando já estavam encaminhando-se para seus respectivos quartos.
- Olhe, amanhã tenho de visitar alguns pacientes que são cuidados em casa. Preciso sair lá pelas 10 horas. Meu consultório só começa às 14h30min e deve acabar em torno de 17h30min. Você acha que seria muito maçante me acompanhar neste dia “estafante”?
- Se eu disser que não gostaria, você ficaria chateada? – respondeu como se estivesse suplicando para ficar em casa.
- Não... Isto é, eu preferiria que você me acompanhasse. Não me sinto descansada deixando-o sozinho, ainda mais depois daquela visita de hoje.
- Você ainda não confia em mim, não é?
- Não é isso, Antonio. Eu confio em você. Não confio nas outras pessoas.
Ele abriu um lindo sorriso e disse:
- Estou brincando... Eu vou adorar acompanhá-la durante o seu dia maçante. Se ainda não percebeu, gosto muito da sua companhia – falou, lançando um olhar mais que sedutor para Sílvia, que por sua vez sentiu-se corar.
Para evitar que mais uma vez o clima de sedução vingasse, dissimulou sua agitação interna e disse:
- As visitas domiciliares são muito interessantes. Acho que você vai gostar.
- Como você vai explicar a minha presença?
- Vou dizer que é um primo em visita a nossa cidade.
- Já pensou em tudo não? Acha que eles vão acreditar nisso?
- Pouco me importa. O que não pode é você ficar sozinho aqui.
- Então está tudo acertado, doutora. Seu paciente desmemoriado a acompanhará obedientemente.
- Antonio! Não fale assim que eu me sinto mal. Você sabe das minhas razões para agir desta maneira.
Ele a olhou de uma maneira, que a fez estremecer.
- O que eu não gosto, Dra. Sílvia, é ser tratado como se eu fosse um retardado mental que não sabe se defender. Eu posso ter perdido a memória, mas tenho inteligência e discernimento suficientes para poder cuidar de mim mesmo.
- Eu sei disso... Desculpe, prometo não tratá-lo mais deste jeito. Acho que não estou acostumada a conviver com alguém que sabe lidar com seus problemas. Na minha profissão, estou habituada a ser eu a comandar e determinar o que é certo ou errado para os meus pacientes. São muitos anos sendo a orientadora e a “tábua de salvação” de muita gente, levando a minha vida sozinha. Acho que me tornei uma legítima solteirona...
Dizendo isso, conseguiu levantar os olhos e dar um sorriso amarelo tentando desculpar-se. Foi quando cruzou com o olhar de Antonio. Pensou que fosse desmoronar por inteiro, pois encontrou, no brilho do seu olhar, uma doçura e uma compreensão que nunca sentira antes, em nenhum homem.
- Talvez esteja na hora de alguém tomar as rédeas junto com você... – dizendo isto, com sua voz rouca e em tom mais baixo, aproximou-se de Sílvia, enlaçando-a pela cintura e puxando-a contra si, com delicadeza. Ela, por sua vez, deixou-se levar como que hipnotizada por ele. Seus rostos tornaram-se tão próximos que podiam sentir suas respirações ofegantes, misto de emoção e desejo, até que seus lábios encontraram-se e puderam usufruir daquele beijo tantas vezes ensaiado. Antonio a puxou com mais força, aumentando também a pressão sobre a boca macia e invadindo-a com sua língua quente e faminta. Sílvia não tinha como resistir a ele. Nunca sentira nada como aquela sensação de estar nas nuvens, ainda com os pés no chão, de ser beijada com tanta paixão que a fizesse esquecer de tudo mais a sua volta... Presente, passado e futuro.
- Antonio... Nós não devemos...
- Quem disse que não?...Eu não consigo mais resistir, Sílvia, e sei que você sente o mesmo. Vamos viver este momento. Só isso... – e a beijou mais uma vez.
Sílvia resolveu deixar-se levar por aquela correnteza de sentimentos, pelas carícias cada vez mais intensas de Antonio. Passou a acariciá-lo também, ávida por sentir aquele corpo que tanto a atraíra desde que o conhecera. Não podia negar aquela atração, que não era mais só física. Estava inebriada pela sua voz, pelo seu cheiro, pelo seu toque, pela sua presença, intensa e arrebatadora. Logo estavam a caminho do quarto, em processo de desfazer-se das incomodas roupas que mais pareciam barreiras contra a união de seus corpos, ansiosos em sentir a pele um do outro. Gemiam a cada carícia, a cada toque mais íntimo. Logo, não resistindo mais a tanta cobiça, Sílvia foi possuída por Antonio de forma delirante, com intensidade e prazer... Muito prazer. Ele a fez gritar como nunca, deixando-a se levar completamente por seu calor e vigor. Logo em seguida foi a vez dele experimentar o gozo total e prazeroso daquela relação tão repentina e apaixonada.
Extenuados, mas saciados temporariamente em seu apetite, deixaram-se cair abraçados sobre o leito, aproveitando a sensação de bem-estar remanescente.
Assim que recuperou um pouco de seu fôlego, Sílvia olhou para Antonio com ternura, voltando a sentir uma imensa vontade de acariciá-lo. Quando o viu abrir os olhos e sentiu seus braços envolvendo-a com mais força, aconchegando-a ainda mais junto a ele, conseguiu falar, ainda preocupada com o que estava acontecendo:
- Nunca tinha ido para a cama com alguém de quem não sei o nome.
- Para você é Antonio. Além disso, acho que nomes podem ser meras formalidades. O que estamos sentindo um pelo outro ultrapassa qualquer etiqueta. Você não acha?
- Talvez você tenha razão. Talvez não precisemos de rótulos, mas ainda assim me sinto insegura.
- Então temos que dar um jeito nisso... – disse, sussurrando no ouvido de Sílvia, fazendo-a arrepiar-se.
Mais uma vez a beijou. Logo, suas mãos partiram para novas carícias e novamente fizeram amor. Depois de tudo, decidiram abandonar-se um ao outro e descansar, pois o dia seguinte era de trabalho.
Já eram quase 9 horas da manhã quando Sílvia abriu os olhos preguiçosamente, deu um sorriso ao ver Antonio praticamente deitado sobre ela, de bruços, com a coxa esquerda sobre o seu quadril e o braço esquerdo abraçando-a sobre os seios. Apresentava uma face serena e satisfeita, com o rosto muito próximo ao dela. De repente, lembrou-se que era segunda feira e tentou ver o relógio. Virou-se para a mesa de cabeceira e viu o antigo rádio-relógio piscando 09:00. Tentou levantar-se, mas o peso de Antonio sobre ela não permitia grandes movimentos. Resolveu chamá-lo:
- Antonio... Antonio, acorde, querido...
- O que foi?... – perguntou, ainda muito sonolento.
- Temos que levantar. Já são 9 horas e tenho que trabalhar.
- Ah... Só mais um pouquinho... – dizendo isso apertou um pouco mais o seu abraço, imobilizando-a completamente.
- Antonio, por favor... Acorde – suplicou mais uma vez, tentando se libertar de seus braços, sem muito empenho.
- Hum... Está tão bom ficar assim...
- Que tal tomar um banho, nos arrumar e começar o dia com um bom café da manhã?
- Banho? Juntos? – exclamou, já abrindo bem os olhos, e fazendo uma cara de quem havia gostado da idéia e afrouxando o “laço”.
“Ele é charmoso até acordando de manhã, com cara de sono”, pensou Sílvia.
- Está bem...Juntos – decidiu, pois achou que aquela seria a única maneira de fazê-lo levantar-se dali. Não podia negar que também estava gostando da idéia.
Mal havia terminado a frase, Antonio levantou-se de um salto da cama. Ela pode ver seu corpo magnífico na penumbra do quarto, pouco antes de sentir-se agarrada por aqueles braços poderosos e ser levada rapidamente para o banheiro. Lá se demoraram por quase meia hora, apesar das súplicas iniciais dela pedindo que ele parasse com “aquilo”. Apenas no início, uma vez que depois só os suspiros eram ouvidos, em meio à água corrente.
Após um breve café da manhã, saíram correndo a caminho de Valverde, onde Sílvia teria que visitar seus pacientes.
A primeira visita, das três que teriam que ser feitas naquela manhã, era na casa de uma senhora de 70 anos, viúva, que tinha sofrido um acidente vascular cerebral e estava em recuperação. Sílvia a visitava uma a duas vezes por semana. Apesar da doença, era uma mulher alegre e otimista. Morava numa casa antiga próxima à praça principal. Foram recebidos por uma empregada, que os levou até a sala onde ela estava sentada numa confortável poltrona, tentando fazer uma peça de tricô. Logo que viu o casal chegando, foi saudando-os:
- Bom dia, Sílvia. Vejo que veio acompanhada por um bonitão. Quero ser apresentada. É seu namorado?
- Bom dia, dona Júlia! Vejo que acordou bem disposta hoje – respondeu a saudação e foi aproximando-se para dar-lhe um beijo na face – Este é meu primo Antonio, que veio de Ribeirão Preto para nos visitar.
- Primo, é? Que pena... Já estava encomendando um vestido novo para o seu casório – comentou, provocando um sorriso nos “primos”.
- A senhora tem razão. Sempre digo para a Sílvia que está na hora dela arranjar um namorado e criar juízo – falou Antonio, tentando manter-se sério.
- Primo... – reclamou Sílvia.
- Ah, meu rapaz... É o que sempre digo para ela. Que bom que agora tem um parente próximo para dizer-lhe isto. Você também é médico?
- Não, sou do ramo imobiliário e estou aproveitando as férias para matar a saudade de minha priminha – dizendo isto, abraçou-a de forma efusiva, deixando-a totalmente sem jeito, além de surpresa com a sua representação.
- Sílvia, o seu primo é um amor, além de bonito. Uma pena mesmo ele ser parente. Daria um belo noivo...
- Obrigado, dona Júlia – agradeceu Antonio, com um largo sorriso.
- Bem, dona Júlia, vamos ao que interessa – falou, depois de desvencilhar-se do abraço de Antonio e recompor-se – Onde está a sua filha?
- Ela teve que dar uma saída, mas já volta. A coitadinha não sai do meu lado. Deve ser um alívio para ela quando surge uma desculpa para sair às compras.
- Eu sei... Ela é muito dedicada. A senhora tem tomado suas medicações nas horas certas? Não tem sentido nada diferente?
- Minha filha controla tudo. Não deixa passar um minuto dos horários. Tenho me sentido muito bem. Só fico um pouco cansada no dia da fisioterapia. Aquela fisioterapeuta que a senhora me indicou é uma “carrasca”. Quase me mata! Tenho mesmo que fazer aquilo?
- A sua fisioterapeuta viaja quase 60 quilômetros, duas vezes por semana para ajudá-la a recuperar seus movimentos e, pelo que vejo, ela está fazendo um excelente trabalho, pois já readquiriu a maior parte deles. Já está até tricotando.
- Tem razão , querida. Estou me queixando sem motivos. É a idade... A gente vai ficando velha e tem que ter algum assunto para falar. Nada melhor que reclamar de tudo – disse, começando a rir.
- O Antonio vai nos dar licença, pois vou examiná-la.
- Talvez seja melhor eu ficar esperando por você lá no carro. Foi um prazer conhecê-la, dona Júlia. Se eu já não fosse compromissado, a senhora não me escaparia – disse sedutoramente, despertando um brilho nos olhos da viúva.
- Ah, meu jovem... Se eu tivesse a sua idade, quem não me escaparia era você – falou toda serelepe.
“Ele não deixa escapar nem uma senhora idosa... Mas que namorador de primeira eu fui arranjar...”, pensou Sílvia, sem poder deixar de sorrir diante do galanteio e da reação de sua paciente.
Ela terminou sua visita e foi encontrar-se com Antonio, que a esperava encostado na caminhonete, de braços cruzados, com expressão relaxada.
- E aí, priminha! Vamos às próximas visitas?
- Entre no carro!
- O que houve? Ficou zangada comigo?
- Precisava seduzir a pobre senhora? Ela ficou apaixonada pelo meu “primo”. Quer que eu o apresente a filha dela, que é solteira.
- Ah, ficou com ciúmes... – disse ele divertindo-se com o jeito aborrecido dela.
- Claro que não! É que era para você passar mais despercebido. Custa ser mais discreto?
Ele aproximou-se, ficando com o rosto muito próximo ao dela, sem tocá-la, e disse:
- Da próxima vez, prometo ficar quieto. Só quero ficar ao seu lado...
Sentindo que logo seria beijada no meio da rua e que não resistiria sem corresponder, desviou-se daquele olhar sedutor, empurrando-o de leve para trás e ordenando:
- Vamos sair daqui, antes que a cidade inteira comente que ando aos beijos com meu primo, o que seria o maior escândalo e renderia assunto para muitos meses. Já deve ter gente nos observando nestas janelas por toda a rua – falou entre dentes, abrindo um sorriso exagerado e já entrando para o interior da caminhonete.
Seguiram para a próxima moradia. Nos primeiros minutos, enquanto Sílvia dirigia, Antonio apenas ficou observando-a, esperando que ela dissesse alguma coisa, ainda divertindo-se com a situação.
- Antonio, pára de me olhar assim. Eu não fiquei zangada com você. Só acho que temos que manter certa discrição. Esta é uma cidade pequena e eu sou a única médica por aqui.
- Já entendi. Pode deixar. Vou me comportar... Ou pelo menos tentar – disse, rindo baixinho.
- Você adora me deixar sem jeito. Já notou isto?
- É que adoro ver a sua carinha quando fica sem jeito.
- Se você continuar a falar assim não terei condições de continuar meu trabalho e serei obrigada a te levar de volta para a cabana... – disse, olhando-o de lado e insinuando-se para ele.
- Oba! Esta seria uma ótima notícia!
- Você não presta mesmo... – dizendo isto, não teve como não começar a rir.
Ainda riam quando Sílvia estacionou em frente a um pequeno prédio de dois andares.
- Promete que vai se comportar?
- Prometo... Palavra de escoteiro – disse, fazendo o sinal dos discípulos de Baden-Powell.
- Será que você foi escoteiro?
- Tomara que sim, senão a minha promessa não terá valor – e olhou-a com um jeito de menino travesso, que foi impossível conter o riso.
- Acho que você deve ser comediante. Você não consegue falar nada a sério?
- Quando voltarmos à cabana, vou falar coisas bem sérias para você...
- Lá vem ele de novo... – disse, tentando controlar a risada.
(continua...)

Desta vez estou conseguindo postar mais rapidamente. Enquanto isso, minha inspiração começa a voltar e já estou escrevendo a estória que deve seguir a de Sílvia e "Antônio". Volto em breve.
Beijos!!