sexta-feira, 9 de julho de 2010

Resgate de Amor (5)

Abriu a porta da frente e ficou surpresa quando não o viu. Sentiu medo que ele pudesse ter fugido. Começou a chamar por seu nome.
- Antonio! Antonio! – gritava, já a caminho do desespero, saindo na frente da casa, na direção da mata, quando sentiu sua presença atrás de si. Chegou a sentir o hálito quente em sua nuca, quando ele disse, com voz mais rouca que o normal:
- Estou aqui. Não se preocupe. Não vou fugir de você.
Sentiu seus joelhos enfraquecerem . Virou-se instintivamente na sua direção, para encontrá-lo face a face, encarando-a. Quase caiu para trás, mas conseguiu equilibrar-se e dizer, quase sem fôlego:
- Onde você estava? Não faça mais isso, por favor!
- Não queria assustá-la – disse, notando verdadeira aflição na expressão da médica – Eu apenas fui dar uma volta. A noite está realmente muito convidativa, como você falou.
- Desculpe, mas fiquei preocupada quando não o vi.
- Sei. Você já me disse que se eu desaparecer poderá ser presa em meu lugar. Prometo que não vou assustá-la mais – afirmou com o rosto muito sério, mostrando as rugas franzidas na testa ampla.
- Não! Não é só por este motivo que fiquei preocupada...
- Não? – perguntou com certa animação no olhar.
- Ah, deixa prá lá... Vim aqui para pedir que me ajudasse a colocar a mesa. O jantar está pronto. Agora já deve estar frio... Vamos?
- Vamos – disse isto e entrou cabisbaixo, logo atrás dela, subindo os degraus para a varanda.
Durante o jantar, Antonio conseguiu soltar um lacônico elogio, provavelmente falso, a respeito da comida de Sílvia, ao que ela agradeceu, meio sem graça. Nunca fora boa cozinheira. Talvez buscasse algum livro de “culinária fácil” para poder preparar refeições mais palatáveis para seu tutelado.
- Se quiser fugir, depois deste jantar, eu permito, pois a comida está péssima – disse em tom de brincadeira, o que fez aparecer um lindo sorriso nos lábios dele.
- Não, eu posso aguentar. Não se preocupe com isso.
- Antonio, – falou em tom mais sério – precisamos conversar a respeito da sua estada aqui e de como eu me sinto em relação a isso.
- Como você quiser. Pode falar – disse, fixando seu olhar em Sílvia.
- Quero que você saiba que eu sou uma pessoa extremamente ética. Eu o trouxe para cá porque queria que você tivesse a chance de se reabilitar fora de um ambiente insalubre, como seria o caso de um sanatório judiciário. Eu não o trouxe para cá para fins românticos. O que levou a interessar-me pelo seu caso foi o seu pedido de ajuda, quando estávamos na ambulância à caminho do hospital. Creio que você ainda sabia que alguma coisa muito séria estava acontecendo e precisava de auxílio. Você parecia desesperado. Depois perdeu os sentidos e, quando voltou a si, já estava sem memória. Portanto eu gostaria que a nossa relação ficasse dentro dos limites que uma relação médico-paciente amigável possa ter.
- Como você quiser, doutora – seu olhar tornara-se um misto de mágoa e sarcasmo.
Ela engoliu em seco e suspirou, tentando desviar os olhos daquele homem, por quem estava cada vez mais atraída. Não conseguiu dizer mais nada. Talvez ele, mais tarde, pudesse entender o seu modo de agir. No fundo, ela começava a pensar em atirar a ética para o espaço e jogar-se por inteiro em seus braços . Mas o juramento de Hipócrates ainda falava mais alto que o seu coração.
Após estes esclarecimentos, o jantar acabou. Ele não quis a sobremesa que ela preparara com tanto cuidado. Ofereceu-se para ajudá-la com a louça, mas foi recusado. Isto o fez retrair-se mais uma vez, até que disse boa noite e fez menção de retirar-se para seu quarto.
- Antonio... – ia falar-lhe sobre o que acontecera pouco antes do jantar, com o seu computador, mas desistiu ao vê-lo tão tristonho.
- Sim?...
- Boa noite – foi só o que conseguiu dizer.





Ainda era muito cedo para dormir, quando acabou de arrumar a cozinha. Sendo assim, resolveu fazer uma pesquisa na Internet sobre pessoas desaparecidas. Não conseguiu achar nada. Depois de algum tempo, decidiu ir deitar-se e continuar a leitura do seu livro, que nunca conseguia acabar. Ficava na mesa de cabeceira, a sua espera nos finais de semana. Ela conseguia ler poucas linhas e logo caía no sono. Talvez ele não fosse muito interessante. Naquela noite, ele foi deixado, não pelo sono, mas porque Sílvia não conseguia prestar atenção na leitura.  Sua cabeça fervilhava com todos os fatos ocorridos no dia e a luta para aplacar seu desejo por um total desconhecido que dormia no quarto ao lado.
Não saberia dizer a que horas o cansaço saiu-se vitorioso, mas pareceu que o dia amanhecera antes do que devia. Acordou com ruídos dentro da casa. Não estava habituada àquilo, por isto, acordou sobressaltada. Até lembrar que tinha um hóspede, seu coração ficou acelerado. Levantou-se e, depois de olhar-se no espelho de seu tocador e conferir sua aparência, abriu a porta que dava para o corredor. Deu uma espiada e, como não o viu, correu para o banheiro. Quando abriu a porta, para retornar ao quarto, deu de cara com Antonio, vestido apenas com seu novo jeans.
- Bom dia! – saudou-a sorrindo, principalmente depois de notar que ela não conseguia tirar os olhos de seu corpo.
- Bom dia – respondeu Sílvia encabulada, por estar apenas de roupão, sem conseguir olhá-lo nos olhos.
- Tomei a liberdade de fazer o café. Não fica chateada se eu mexer em suas coisas?
- Não, claro que não. Que bom já ter café pronto! – conseguiu dizer, forçando uma naturalidade inexistente – Vou colocar uma roupa e já volto.
- Estou te esperando...
Alguns minutos depois, estava sentada à mesa, tomando uma xícara de café e comendo um ótimo sanduíche preparado por Antonio. Ele tinha tido o bom senso de colocar uma camisa.
- Parece que você consegue sair-se melhor que eu na cozinha.
- É... Parece que sei fazer muitas coisas. Só não consigo lembrar o que aconteceu antes do acidente.
- Não se preocupe. A sua memória vai voltar. Tem que ter paciência.
- Gostaria que voltasse logo, para eu não ter que incomodar você com a minha presença. Sei que está sendo um transtorno para você. Fiquei pensando se não seria melhor ficar no tal sanatório. Você, pelo que me falou, não é psiquiatra. Lá eu teria profissionais mais habilitados para tratar este meu, digamos, esquecimento.
- Não diga bobagens, Antonio! Nestes estabelecimentos não há um tratamento. É apenas um depósito de delinqüentes perigosos, psicopatas ou malandros que querem livrar-se da prisão de verdade.
- Como você pode ter certeza de que não estou incluído em nenhuma destas categorias?
- Não vamos falar sobre isto de novo. Já disse que confio em você e tenho certeza de que você é vítima e não réu. Vamos tentar fazer coisas práticas. Com a Internet funcionando, que tal ver fotos de lugares, que possam lembrar onde você mora? Ontem eu procurei saber sobre pessoas desaparecidas, mas não encontrei nada. Você não teve nenhum sonho esta noite?
- Tive... Mas não vai interessá-la.
- Porque não? Lembrou-o de alguma coisa?
- Não.
- Mas o que você sonhou?
- Com você – disse ele fazendo cara de bobo, conseguindo arrancar-lhe um sorriso.
- Antonio! Assim fica difícil. Você parece criança.
- Você é que perguntou e insistiu em saber – falou, sorrindo maliciosamente – Está bem, desculpe. Não precisa ficar chateada. Você tem razão. Talvez seja uma boa idéia. Não precisa trabalhar hoje?
- Não. Hoje é domingo. Teremos que combinar como faremos amanhã, pois terei que visitar alguns pacientes pela manhã e trabalhar no consultório à tarde. Você vai ter que ficar sozinho.
- Acho que consigo me cuidar sem a minha babá.
- Lá vem você com o seu senso de humor..
Ele levantou-se da mesa e foi direto para a escrivaninha onde ficava o computador. Sentou-se e começou a navegação.
- Já que temos que trabalhar para minha recuperação, então vamos começar logo. O que você sugere como primeiro lugar a visitar?
- Que tal Ribeirão Preto? De lá veio o carro que você estava dirigindo.
- O carro roubado – falou com ironia.
- Esse mesmo.
Logo surgiram fotos da cidade universitária paulista na tela do computador. Sílvia admirava-se da intimidade com o teclado e com a navegação através da web que Antonio apresentava.
- E então? Lembra de alguma coisa, imagem ou pessoas?
- Nada...
- Tente Campinas – sugeriu Sílvia.
Sucessivamente, várias cidades iam aparecendo diante de Antonio, mas nada o fazia lembrar-se de coisa alguma. Até que...
- São Paulo. Tente São Paulo.
- Algum motivo especial?
- Nenhum. Apenas é a capital do estado e ainda não foi vista.
- Está bom, não custa tentar.
Começou a olhar as fotos da cidade e a sua expressão foi mudando à medida que as imagens desfilavam a sua frente.
- O que houve, Antonio? Lembrou de alguma coisa?
Ele continuava a olhar fixo para a tela, como se estivesse hipnotizado pelo brilho do visor. Sílvia resolveu deixá-lo à vontade, com medo de interromper o curso das lembranças que poderiam estar retornando. Alguns minutos se passaram, sem que ele dissesse uma só palavra. Ao final, como se tivesse feito um grande esforço, saiu de seu transe com a testa banhada de suor. Ela acompanhava todos os seus movimentos, até que não aguentou mais e perguntou aflita:
- Lembrou de algo?
- Eu conheço São Paulo. Eu acho que tenho negócios por lá. Tive algumas reuniões para falar sobre... Alguma coisa relacionada com computadores e governo... Eu acho. É tudo muito confuso...
- Será que você trabalha mesmo com isso? – perguntou intrigada – Mas aí alguém já estaria a sua procura... Teria alguma notícia no jornal...
- Ou não.
- Como assim?
- Não sei, Sílvia. Talvez exista algum motivo para não noticiarem o fato ou eu não sou ninguém importante. Realmente não sei.
- É, você pode estar certo – falou, notando que ele estava um pouco abalado – Olha, não se preocupe. Os fatos vão retornar aos poucos, provavelmente em “flashs”.
- Eu sei... É que fiquei com uma sensação ruim, não sei por quê.
- Que tal darmos uma volta de carro? Posso lhe apresentar a minha cidade natal e depois damos uma volta na rodovia onde você se acidentou. Talvez lembre mais alguma coisa. Está certo?
- Claro, claro. Podemos fazer isso – disse com expressão mais aliviada.
- Então me ajude com a louça do café e saímos logo em seguida. Podemos almoçar em Valverde. Conheço um restaurante muito bom. Muito simples, mas com uma comida caseira excelente.
- Vai ser ótimo comer uma boa comida – falou sorrindo, olhando-a de soslaio.
Sílvia sentiu que ele estava criticando a sua refeição do dia anterior.
- Vai ser bom mesmo. Estará livre da minha cozinha experimental. Vou perguntar se eles não fornecem comida para viagem – tentou fazer que estava ofendida com o seu comentário, não conseguindo evitar um sorriso.
- Estou brincando, Sílvia. O seu jantar estava muito bom – seu olhar denunciava a ironia do elogio.
- Mentiroso... Mas não faz mal. Eu tenho perfeita noção de minhas qualidades culinárias.
Ela conseguiu arrancar uma franca gargalhada dele.





Ela mostrou-lhe os “pontos turísticos” de Valverde. A prefeitura, a igreja, a praça principal, e a escola onde seus pais lecionavam. Passaram por seu consultório e em frente ao seu apartamento. Sílvia resolveu não parar para verificar a correspondência, como pensara em fazer, para não estimular idéias erradas. Seguiram até o pórtico da cidade, onde funcionava o seu plantão semanal, e saíram na direção da rodovia. Ela dirigiu até o ponto onde ocorrera o acidente , mas Antonio não parecia recordar nada novo. “Talvez porque o acidente tenha sido à noite”, pensou Sílvia.
Depois desta curta viagem, a velha caminhonete retornou a Valverde, direto para o restaurante Alvorada. Como Sílvia o havia prevenido, o ambiente era muito simples, mas a comida era deliciosa.
- Sabia que você ia gostar. Podemos pedir para levar. Assim já teremos algo decente para comer no jantar. Que tal?
- Por mim tudo bem, mas acho que você está se menosprezando – falou, tentando ser gentil.
- Então está resolvido... Vou pedir para levar – disse com um grande sorriso.
Quando se preparavam para sair, Franco entrou com a esposa, Elaine, e sua filha de cinco anos, Mariana.
- Sílvia! Que surpresa ver você por aqui! Como vai? – disse, já lançando um olhar surpreso para o seu acompanhante.
- Tudo bem, Franco! Como vai, Elaine? E essa garotinha linda? – falou, fazendo um carinho na menina.
- Vejo que está acompanhada...
- Ah, deixe-me apresentá-los. Antonio, este é Franco, meu parceiro de plantões. Foi ele que me acompanhou no seu resgate.
- Muito prazer e obrigado pela sua ajuda. Como pode ver vocês fizeram um bom trabalho.
Franco sorria, mas Sílvia sentiu que sua expressão continha uma dose de preocupação. Ela já o conhecia tempo suficiente para perceber quando ele sentia que algo não estava certo. Sendo assim, ela deu um jeito de fazer as despedidas rapidamente e sair o mais rápido possível dali. Não queria ter que dar explicações no meio de um restaurante e na frente de Antonio. Tinha certeza de que seria bombardeada de questões no dia de seu plantão em quatro dias. Até lá, esperava ter argumentos mais consistentes para convencê-lo a não se preocupar com sua atitude para com Antonio.
- Bem, vamos deixá-los curtir o seu domingo. Elaine, foi um prazer revê-la. Franco, até quinta! – dizendo isto, foi retirando-se, quase arrastando Antonio para fora do restaurante, assim que ouviu os “até mais” dos amigos.
- O que foi que aconteceu ali? – perguntou Antonio curioso com sua despedida inesperada.
- Nada... Apenas achei que eles queriam ficar a sós. O Franco trabalha muito durante a semana e só lhe resta o domingo para aproveitar junto a sua família. Não notou o olhar de “tomara que ela suma daqui o mais rápido possível” da esposa dele? – inventou a desculpa na hora.
- Não, sinceramente não notei. O que vi foi um olhar de espanto da família com a sua saída brusca, me arrastando entre as mesas do restaurante, quase derrubando algumas cadeiras.
- Você está exagerando.
- Ok! Vai me contar o que houve ou vou começar a achar que tem um caso com este tal de Franco, colega de plantão.
- O quê? Caso com Franco? – com esta suspeita no ar, Sílvia não conseguiu segurar o riso – Eu de caso com Franco... Essa é muito boa...De onde você tirou isto?
- Da sua atitude de agora há pouco. Você praticamente fugiu deles.
Quando ela conseguiu parar de rir, já na rua, a caminho do estacionamento onde estava sua caminhonete, olhou para Antonio e disse:
- Claro que eu não tenho nada com Franco. Ele é só um grande amigo e colega.
- Então, porque agiu daquele jeito? Não me diga que foi para deixá-los se curtirem, pois nesta não dá para acreditar.
- Está bem – falou, já conseguindo retornar a seriedade – É que desde que resolvi me meter neste seu caso de perda de memória, não tem uma pessoa que não chegue para mim e venha me dizer que estou errada, que é perigoso, que não sei onde estou me metendo... Até você, sempre dá um jeito de me dizer isto. Assim, resolvi protelar o sermão de Franco para quinta feira, durante o nosso plantão. Gostou da explicação agora?
- Foi bem mais convincente desta vez... – ele a olhou com ternura – Talvez eles tenham razão...
- Ah, não! De novo, não. Não quero mais falar sobre este assunto. Chega! Vamos para casa. O passeio acabou! – Entrou na camionete e bateu a porta com força.
Ele a seguiu em silencio e sentou ao seu lado, fechando a porta calmamente. Ficou olhando em sua direção, enquanto ela dava a partida no motor e acelerava, “cantando” os pneus, em direção à estrada. Ficou assim por alguns minutos, até que não aguentando mais o seu olhar insistente, Sílvia perguntou:
- O que você está olhando? – ainda com certa raiva na voz.
- Você fica ainda mais bonita quando está brava...
Sem olhar para ele, sentiu-se desarmar da fúria em que estava, até que começou a sorrir, sentindo que devia estar sendo ridícula naquele seu ataque.
- Assim então, sorridente, fica mais tentadora...
- Antonio! – censurou-o – Olha, desculpe o meu comportamento, mas é que depois que tomo uma decisão, não suporto que fiquem me criticando ou tentando me persuadir a desistir do que quero fazer. Eu sou uma pessoa muito perseverante e não gosto de fazer as coisas pela metade.
- Está bem, eu entendo, e fico muito lisonjeado por ser o foco atual da sua atenção. Não se fala mais nisso. Feliz?
- Satisfeita...
Seguiram em silencio até a cabana.

(continua...)


Beijos!!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Resgate de Amor (4)

Ela entrou no quarto e logo foi envolvida pela voz de Antonio.
- Reencontrando antigos amores?
- Ele é apenas um amigo. Só isso. Vamos mudar de assunto. Por favor! Eu trouxe algumas roupas para você. Parece que estava adivinhando que lhe dariam alta.
- Presentes! Acho que gosto disso... – olhava para os pacotes entusiasmado como uma criança.
- Espero que sirvam. Não são de grife como as suas roupas anteriores, mas acho que vão ficar melhor que este seu camisolão – observou com um sorriso ligeiramente malicioso – Venha. Levante-se e vá se vestir.
- Promete que não vai olhar a abertura nas costas? – disse com ar falsamente tímido.
- Claro que não. Deixe de ser bobo.
Quando ele se levantou da cama onde estava sentado, sentiu-se tonto e por pouco não caiu, não fosse a ajuda de Sílvia que correu até ele no mesmo instante. Ela ajudou-o a sentar-se novamente e logo sentiu seus olhos a fitá-la intensamente.
- Obrigado... – disse ele enquanto continuava agarrado em sua cintura, puxando-a de leve contra si, ficando com o rosto muito próximo ao dela.
Sílvia sentiu seu coração acelerar mais uma vez. Se não se afastasse dele rapidamente, não sabia o que poderia acontecer. Começava a sentir uma atração irresistível por ele. Quando conseguiu pensar, falou algo para esfriar a tensão que surgira entre eles. Desvencilhou-se daquele abraço e disse:
- Sente-se aqui. Vou lhe mostrar as roupas novas.
Pegou as sacolas, colocou-as sobre a cama e começou a tirá-las das caixas. Ali havia duas calças jeans, três camisas, um pijama e algumas roupas de baixo. Também comprara um par de tênis, mocassins e chinelos.
- Acho que isso dá para a saída. Também comprei algumas coisas de toalete. Fiquei na dúvida se gostaria de um barbeador ou de lâmina para barbear.
- Talvez eu mantenha a barba. O que você acha? – perguntou, alisando os pelos do rosto.
Como não obteve resposta, pois Sílvia fez que não ouvira a pergunta, continuou:
- Então tudo isso é pra mim?
- Claro! Como você ia sair por aí com este camisolão? Suas roupas foram cortadas na emergência para poderem examiná-lo mais rapidamente. Os sapatos sumiram. Eram de uma boa marca. Alguém deve ter achado que você não precisaria mais deles. Quer experimentar? Está sentindo-se melhor agora?
- Sim, acho que sim. Vou tentar de novo... – disse aceitando a mão que Sílvia lhe estendia – Parece que passou a tontura.
- Deve ter sido pelo tempo que está deitado. Vá arrumar-se. Se precisar de ajuda, é só chamar. Depois precisamos conversar.
- Você é sempre assim? Mandona?
Mais uma vez ela fez que não tinha escutado.
Passaram-se alguns minutos, em que Sílvia ficou atenta a qualquer ruído mais intenso que pudesse significar uma queda no banheiro. Então, Antonio surgiu muito atraente de jeans e camisa branca, com os cabelos umedecidos pela água e penteados para trás. Mal se podia ver o ferimento na transição entre a testa e a raiz dos cabelos. Mostrava um lindo sorriso, deixando a mostra os dentes perfeitos.
- Fiquei com medo de tomar banho e cair no box – falou, desculpando-se.
- Deixe isto para depois. Agora sente-se aqui. Temos que conversar.
- É sobre a minha ida para o sanatório? Não sabia que precisaria de roupas lá. Já estava me imaginando num daqueles pijamas listrados da prisão.
Sílvia não teve como segurar o riso.
- A não ser que você queira ir para o sanatório, tenho uma alternativa. Se não gostar, pode dizer. Não ficarei chateada.
- Alternativa? E qual seria?
- Hoje fui conversar com o chefe de polícia e o juiz. Eles me disseram que, se alguém ficasse responsável por você, seria possível deixá-lo fora da prisão – falou, preferindo mentir sobre a autoria daquela idéia – Teria que fazer revisões com o neurologista, e apresentar-se a um agente do fórum, para relatar a sua evolução, a cada sete dias. Eles não consideram o seu caso tão grave assim. Parece que eles têm coisas mais importantes a investigar do que uma suspeita de roubo de carro.
- Bom para mim. Mas quem seria o meu responsável? Descobriram algum parente ou conhecido meu? – perguntou ele, intrigado.
- Seria eu, se você concordar.
- Você? Sílvia... – agradavelmente espantado – Nem sei o que dizer. Mas...?
- Se você aceitar poderá ficar na cabana de meu pai, que fica a uns 10 km de distancia do centro de Valverde. Atualmente eu a utilizo nos fins de semana, para descansar. É um lugar muito bonito e tranquilo. Acho que vai gostar. Poderá mantê-lo longe de curiosos, tipo o nosso Sr. Benetti. O que acha?
- Você vai ficar comigo, enquanto eu estiver lá? - perguntou de forma tão sedutora que fez Sílvia estremecer.
- Isto nós veremos depois. Vai ter que me prometer que não fugirá de lá. Caso você desapareça, eu serei implicada e posso acabar presa. Entendeu?
- Não vou fugir de você... – falou ternamente.
- Você não pode é fugir da polícia. Só para esclarecer – já começava a ficar nervosa com o olhar intenso dele – Então, aceita ficar sob minha tutela?
- Claro que aceito. Com prazer...
Sílvia começava a temer por sua ética e princípios com aquele homem. Começava a pensar se não seria melhor deixar tudo com a lei, como já haviam aconselhado por diversas vezes. Mas aí, lembrou do olhar suplicante e desesperado que ele lhe lançara na ambulância, no dia em que o atendera na estrada. Sua memória deve ter sido perdida depois daquele momento. Naquela hora, ele pedira ajuda, com certeza. Este era o real motivo para o seu interesse, independente dele ser atraente ou não. Estava convicta disso. Pelo menos, precisava estar...
- Bem...Vou pegar a sua receita e confirmar a alta. Podemos seguir para Valverde logo em seguida. Eu já volto. Espere-me aqui, ok?
- Ok!

Partiram para Valverde às 14 horas. Foi uma viagem rápida e sem intercorrencias. Mantiveram-se em silencio grande parte do percurso. Ele passou a maior parte do tempo a observar as paisagens que se moviam rapidamente através da janela do carro.
- É um lugar muito bonito. Acho que nunca estive aqui antes.
- Estamos próximos do complexo ecológico de Brotas. A natureza aqui é privilegiada. Meu pai amava muito este lugar. Por isso construiu esta cabana no meio do mato. Gostava de ficar em contato com a natureza nas suas horas livres, pescando ou simplesmente caminhando.
- Tenho a impressão de que tenho estado afastado destas coisas da natureza há muito tempo.
- É a sua memória dando sinais de vida?
- Parece que sim. Se bem, que estou começando a gostar da idéia de estar sem memória. Começo a ficar temeroso do que possa vir com a recuperação dela. A pior coisa talvez seja ter de me afastar de você.
Sílvia não conseguiu olhá-lo com medo de passar a expressão de contentamento em que ficou com aquelas palavras. Apenas sorriu e conseguiu dizer:
- O seu medo deve ser aquele que o Dirceu falou.
- Qual?
- O de descobrir que é pai de um bando de crianças e que, logo, o seu sossego vai acabar – gracejou, numa tentativa de esfriar o clima entre eles.
- Não sou casado.
Ela quase parou a caminhonete no meio da estrada de chão batido, que levava até a cabana.
- Você lembrou de algo?
- Não – falou, sorrindo escancaradamente – Falo isso porque não estou usando aliança e tampouco tenho marcas nos dedos.
- Pensei que tinha lembrado alguma coisa mais... Conheço vários homens que são casados e não usam aliança.
- Vários homens?
- Antonio! – exclamou, percebendo a malícia por trás da pergunta dele – Quis dizer que, por exemplo, a maioria dos cirurgiões não usa aliança, pois teriam de tirá-la cada vez que entrassem no campo cirúrgico. Por isso, acham melhor não usá-las.
- Pensei... – continuando a sorrir.
- Sei o que você pensou...
Sílvia certificou-se de que não era seguida, desde a saída de Rio Claro. Não queria ter visitas desagradáveis. A casa de madeira já podia ser vista no final da estreita estrada de terra. Achava que ali seria um local seguro para Antonio, enquanto ele aguardasse a recuperação de sua memória. Estacionou a caminhonete bem em frente à entrada principal. Era uma cabana rústica, com um par de degraus em madeira que levavam a uma pequena e confortável varanda, onde duas espreguiçadeiras cobertas por colchas de retalhos coloridas aguardavam, silenciosamente, a dona da casa. Havia duas janelas, uma de cada lado da porta. A madeira utilizada na construção certamente havia sido adquirida na própria mata.
A poucos metros dali, podia-se ver um galpão, grande o suficiente para ser usado como garagem e depósito de lenha e ferramentas. Estavam cercados pela floresta. Ao longe, podia-se ouvir o barulho agradável de água corrente chocando-se contra pedras. Provavelmente algum rio próximo.
Sílvia desceu e foi tirar algumas sacolas que estavam na parte traseira coberta de sua picape.
- Quer ajuda? – falou Antonio, já se colocando ao seu lado, muito solícito.
- Obrigada. Pode ir abrindo a porta. A chave está sobre o umbral, à direita.
- Não é arriscado deixar a chave assim? Qualquer um pode invadir e mexer nas suas coisas.
- Há anos que venho para cá e nunca aconteceu de alguém entrar na casa. Nem penso nisso. Já é um hábito.
Ele deu de ombros, pegou duas sacolas de compras e seguiu para a entrada. Pegou a chave no lugar indicado por Sílvia e abriu a porta.
O interior da cabana era extremamente aconchegante. Decorada em estilo country, a sala tinha sofá e poltronas estofados, cheios de almofadas, uma antiga cadeira de balanço ao lado da lareira de pedra. Tinha dois quartos, banheiro e cozinha.
- Você vai ficar no quarto de hóspedes, aqui à direita. O banheiro fica no fundo deste imenso corredor – disse ironizando o tamanho reduzido da casa.
- Você costuma receber muitos hóspedes?
- Não costumo receber quase ninguém por aqui. Na verdade, você é o primeiro hóspede que recebo – não conseguiu evitar um sorriso tímido, que foi correspondido com uma deliciosa risada de Antonio.
- Onde largo as sacolas?
- Ali na cozinha está ótimo. Comprei algumas coisas para o jantar. Se você não tiver medo de morrer envenenado com a minha comida, prepare-se.
- Acho que consigo aguentar. Melhor que a comida daquele hospital, deve ser – disse rindo - Posso dar uma volta nos arredores?
- Claro que sim.
- Não quer vir junto? Ainda é cedo para preparar o jantar. Pode me mostrar a região.
- Está bem. Tem razão. Ainda é cedo. Não são nem quatro horas. Só vou guardar as compras e podemos sair.
Depois de calçar um par de tênis , fechou a porta atrás de si e encontrou Antonio a sua espera, junto ao galpão.
- Existe um córrego próximo?
- Sim. É um dos afluentes menores do Rio Jacaré-Pepira, que fica ao leste daqui e deságua no Rio Tiete. Uma das atrações em Brotas, próxima daqui, é a canoagem neste rio e a visita às inúmeras cachoeiras. Já fez canoagem alguma vez?
- Acho que não. Como já disse antes, este contato com a natureza não parece ser muito usual para mim.
Enquanto andavam, o silencio só era quebrado pelo estalar dos galhos e folhas secas sob seus pés ou por suas vozes. O som da água foi tornando-se mais forte, até que puderam vislumbrar um pequeno riacho com o fundo coberto por pedras. Ele era raso, sendo possível atravessá-lo a pé. Antonio quis arriscar-se a andar sobre as pedras. Foi logo tirando os tênis
- Melhor não arriscar. Você acabou de sair do hospital. Não pretendo levá-lo de volta para lá tão cedo – disse Sílvia preocupada – As pedras do fundo costumam ser escorregadias.
- Venha! Só para molhar os pés um pouco. A água parece estar ótima.
Ela não conseguiu resistir ao seu chamado. “Porque não?”, pensou. Acabou por colocar os pés desnudos na correnteza.
A água estava muito fria, mas a massagem que provocava sobre os pés era deliciosa. Começaram a caminhar sobre as pedras, numa tentativa de atravessar a pequena extensão até o outro lado do córrego, rindo das tentativas para equilibrarem-se. Foi quando Sílvia escorregou e, por pouco, não caiu sobre os pedregulhos, não fossem as mãos fortes de Antonio, que a seguraram com presteza. Ficaram rindo até que seus olhares se cruzaram e uma forte atração começou a aproximá-los. Quando seus lábios estavam muito próximos, Sílvia fez que estava escorregando novamente e conseguiu desfazer aquele momento mágico, por medo do que poderia vir depois.
Antonio ficou sério, visivelmente chateado, enquanto ela continuava tentando fazer gracejos a respeito de seu desequilíbrio. Quando viu que ele não estava mais rindo, parou e disse:
- Melhor voltarmos para casa. Já está escurecendo e eu tenho de começar a preparar o jantar. Não sou muito boa na cozinha e costumo demorar um pouco na confecção dos pratos.
Iniciaram a volta, com Antonio tentando ajudá-la e ela esquivando-se, sempre que podia, tentando não ofendê-lo.
Já haviam chegado às margens, quando ele lhe perguntou:
- Porque você está fugindo de mim? – com ar de súplica, que fez o coração de Sílvia disparar – Você diz que confia em mim, mas foge como se eu tivesse uma doença contagiosa.
- Não é isso. Só acho que não podemos esquecer que você está sem memória. Não lembra nada do seu passado... Você deve ter uma família. Difícil que um homem na sua idade não tenha compromisso com alguém. Não acha?
Ele ficou com uma expressão triste e pensativa, enquanto continuava a olhar para ela.
- Você tem razão. Prometo que não vou mais lhe perturbar. Só espero que minha memória volte logo, senão...
- Senão?
- Esquece. Melhor voltarmos para a cabana. Você tem que preparar o jantar, não? Estou começando a ficar com fome, mesmo – disse, endurecendo as linhas de expressão e apertando os lábios. Saiu andando na frente, em passos largos, sem olhar mais para trás.
Sílvia resolveu não falar nada. Era melhor assim. Mantê-lo-ia afastado até sua recuperação.
Ao chegarem à cabana, ela resolveu tomar um banho, pois estava ensopada com a água do córrego. Faria o jantar logo em seguida. Quando saiu do banheiro, já arrumada, viu Antonio distraído, diante do seu computador, mantido na cabana para não perder o contato com o mundo, quando lá se refugiava nos fins de semana.
- Não sei o que há com este computador. Não tenho conseguido acessar a Internet há um mês. Já chamei dois técnicos e nenhum deles soube explicar o que estava acontecendo.
Ela aproximou-se dele e viu que ele estava navegando livremente na web.
- Como você conseguiu isto?
- Foi fácil. Não me pergunte como, mas eu sabia exatamente o que fazer. A sua Internet está de volta. Vou tomar meu banho – disse, já se levantando da cadeira, quase a atropelando e lançando o brilho de seus olhos sobre ela, causando uma reação imediata de alerta. Foi apenas um momento, que logo se desfez, com a ida dele na direção do quarto. Viu-o pegando roupas limpas e dirigindo-se ao banheiro.
Depois deste momento de tensão, Sílvia ficou imaginando como ele conseguira aquela proeza com o seu computador. Talvez a sua profissão estivesse ligada à informática. Porém, não lembrava ter visto nenhuma nota de desaparecimento, de alguém importante ligado a esta área, nos jornais. Era muito estranho. Quem seria este homem? Com estas dúvidas todas rodando em sua mente, foi preparar o jantar.
Enquanto cozinhava, ficava observando a movimentação de Antonio pelo ambiente. Ele certamente era um homem inquieto. Ou estava assim por algum motivo.
- Porque você não espera o jantar ficar pronto, na varanda, ali fora? A esta hora os sons e cheiros da mata são muito relaxantes. O que acha?
- Está bem. Aceito o seu “cartão vermelho”. Já estou indo – disse, aparentando estar ligeiramente chateado com intervenção de Sílvia nos seus atos.
- Não precisa aceitar a minha proposta, se não quiser... – falou, em tom de desculpa, mas já não sendo ouvida, pois a porta acabara de fechar-se atrás dele.

(continua...)





Gostando? Comentem. Sei que tem mais pessoas lendo e que não deixam comentário ou recadinho. Saibam que é muito importante para quem escreve, a opinião de seus leitores, mesmo que sejam críticas ou malhações. Tudo é importante. Se quiserem entrar em contato, acredito que meu email seja visível no perfil do blog. De qualquer maneira, vou colocá-lo aqui:
ros-fan@hotmail.com
Sintam-se a vontade, por favor.
Beijos a todos!!

sábado, 3 de julho de 2010

Resgate de Amor (3)

Sílvia ajeitou-se mais uma vez na poltrona e começou a sua narrativa:
- Para começar, nasci em Valverde há cerca de vinte e alguns anos. Meus pais eram professores na escola de ensino médio da cidade. Economizavam tudo que ganhavam para poder me mandar para uma boa faculdade quando chegasse a hora. Assim que terminei a escola, fiz o vestibular e passei na Faculdade de Medicina em São Paulo. Depois de terminar a residência em Intensivismo, resolvi voltar para Valverde. Tenho um consultório com movimento razoável e um plantão de 24 horas, semanal, no serviço de resgate da cidade. O que mais falta dizer?
- Você é casada? Tem alguém?
- Não, não tenho ninguém.
- E os seus pais? Ainda vivem lá na sua cidade?
- Não...Eles morreram.
- Ah... Sinto muito.
- Já faz seis anos. Eu estava no último ano da faculdade e eles foram me visitar, como faziam todos os meses. Só que no dia em que estavam voltando, na mesma rodovia onde foi o seu acidente, um caminhão dirigido por um motorista sonolento, entrou na contra mão, exatamente na hora em que o carro de meus pais estava passando. Eles não tiveram a mínima chance – ao contar, sentiu seus olhos turvarem-se – Antonio era o nome de meu pai.
Antonio não sabia o que dizer. Só conseguia expressar pena e tristeza por Sílvia, imaginando a imensa dor de perder os pais de uma só vez.
- Não precisa me olhar desse jeito, senão vou me debulhar em lágrimas. Sempre acho que já chorei tudo, mas parece que nunca foi o suficiente.
- Imagino... E, você não tem irmãos, parentes?
- Não... – deu um suspiro profundo, passou a mão nos olhos e deu um sorriso amarelo para Antonio.
- E então? Lembrou de alguma coisa da sua história?
- Não... Infelizmente não.
- Bem, depois do acidente, terminei meus estudos e resolvi voltar. Aluguei alguns horários no consultório do único clínico geral que havia. Ele acabou por aposentar-se e eu fiquei com o seu consultório e toda a sua vasta clientela. Dei-me bem, não? – ainda tentava brincar, para disfarçar a tristeza na voz.
- Sílvia, se eu não estivesse com este camisolão ridículo, totalmente aberto atrás, gostaria de te abraçar.
Ao ouvir isto, Sílvia não pode controlar o riso, principalmente ao ver a cara de Antonio, que exibia um sorriso benevolente. Logo, os dois estavam rindo da situação.
- Prefiro você sorrindo assim – ele falou, quando conseguiu parar de rir.
A porta abriu-se inesperadamente, para grande susto de Sílvia, e o guarda Moacir surgiu.
- Está tudo bem aqui?
- Ahn? Sim. Está tudo bem. O senhor deseja alguma coisa?
- Há algum problema se eu for tomar um café? Volto logo.
- Não, claro que não – respondeu Sílvia – Fique a vontade.
Antes de sair, lançou um olhar cúmplice para Antonio, que lhe devolveu uma expressão estúpida, que quase fez Sílvia cair na risada de novo.
- Boa noite.
A porta fechou-se sem ruídos.
- Por via das dúvidas, vou trancar a porta. Tenho medo daquele tal de Benetti... Por falar nisso, quando você o viu, não lembrou seu rosto? Será que vocês não se conhecem?
- Infelizmente, não consigo lembrar.
Não havia passado cinco minutos, quando alguém tentou entrar no quarto. A maçaneta girava insistentemente. Ambos ficaram se entreolhando, sem saber o que fazer.
- Quem é? – perguntou Sílvia, mas não obteve nenhuma resposta.
Levantou-se da sua poltrona e dirigiu-se para a porta, perguntando mais uma vez:
- Quem é?
Resolveu abrir a porta e enfrentar quem quer que estivesse do outro lado. Antes, pegou um vaso que estava sobre a mesa de cabeceira, enfiou sua mão dentro e preparou-se para reagir, caso fosse atacada. Com cuidado, destrancou a fechadura e girou a maçaneta, abrindo a porta lentamente e escondendo-se atrás dela. Quando já se preparava para quebrar o vaso na cabeça de Benetti, ouviu uma voz feminina esganiçada:
- O que está havendo aqui? – indagou a velha enfermeira, que olhou assustada para Sílvia, que baixou rapidamente o braço atacante e deixou escapar um suspiro de alívio.
- Nada. Fiquei com medo que fosse outra pessoa.
- Ainda bem que não sou essa pessoa, senão já estaria na sala de traumatizados, pelo que vejo. Eu vim para verificar os sinais vitais do paciente. Posso? – dizendo isto, já foi entrando quarto dentro.
- Olhe, me desculpe. Não queria assustá-la.
- Só lhe peço que não tranque a porta, por favor. Durante a noite temos que ver os internados a cada duas horas. Além do mais o senhor Silva tem medicações prescritas. A senhora deveria saber disso. Não é médica? – falava com o atrevimento das enfermeiras mais antigas, que faziam questão de intimidar os médicos mais jovens.
- Sim. Eu sei da importância do seu trabalho, enfermeira...? Como é mesmo o seu nome?
- Enfermeira Selma.
- Pois é. Como eu estava dizendo, sei que o seu trabalho é muito importante, mas estamos numa situação especial aqui, com o Senhor Silva. Ele pode estar sendo ameaçado. Por isso estão mantendo um policial à paisana do lado de fora. Como ele saiu para tomar um café, resolvi trancar a porta para nossa proteção.
- E a senhora está de médica a paisana para protegê-lo aqui dentro? – parecia impossível quebrar a soberba da mulher. Sílvia decidiu não levar a discussão adiante.
- É melhor fazer o seu serviço e guardar os seus comentários – falou rispidamente.
Isto pareceu ter algum efeito sobre Selma, pois ela manteve-se em silencio durante o restante de sua visita. Após medicar Antonio e terminar sua aferição dos sinais, saiu com um seco “boa noite”. Até o final do turno, ela não retornou. Outra enfermeira mais jovem foi enviada em seu lugar. Moacir voltou logo em seguida.
- Bem, acho que seria melhor descansarmos agora.
- Acho que o “dragão” me deu algum tipo de tranquilizante, pois estou ficando meio zonzo.
- Durma. Vai ser bom para sua memória. Boa noite...
- Boa noite, Sílvia...

Assim que amanheceu, Sílvia acordou, sentindo grande desconforto muscular, devido à posição em que dormira. Espreguiçou-se e levantou para ir ao banheiro. Antes, lançou seu olhar para a cama para certificar-se de que Antonio estava dormindo. Lavou-se, ajeitou-se da melhor maneira possível e refez uma maquiagem leve. No geral, achou que estava bem para fazer uma visita ao departamento judiciário da cidade.
Voltou para o quarto e foi até Antonio. Ficou admirando-o. Sabia que não tinha este direito. “Não seria ético... Mas ele exercia uma grande atração sobre ela. Mesmo com aquela atadura em torno da cabeça, tudo nele era atraente. A testa com suas marcas de expressão, as sobrancelhas espessas, com alguns fios dourados, o nariz grande e proporcional ao resto do rosto másculo, a boca... perfeita para um beijo... adornada pelos fios da barba rala, que tentavam esconder a marca do queixo partido, o pescoço taurino, com músculos bem delineados...” Perdida em suas observações, começou a levar sua mão para afagar a face adormecida, que a tinha conquistado desde o primeiro momento em que o vira. “Não!”, ralhou consigo mesma. Ela não podia agir assim. Ele estava indefeso, sem memória, ainda requerendo cuidados médicos. Ela não podia aproveitar-se deste momento de fragilidade para conquistá-lo. Afastou sua mão, antes de tocá-lo. Uma batida seca na porta a fez voltar-se.
- Com licença? Bom dia, doutora. Eu ouvi barulho e achei que já estava acordada.
- Sim? Bom dia.
- Vim avisá-la que vou ser substituído por outro policial, Nelson.
- Ah, muito obrigada, Moacir.
- Eu devo retornar à noite. Até mais tarde.
Já estava encaminhando-se para a porta para conhecer o novo vigia, quando ouviu a voz de Antonio chamando-a.
- Sílvia? Você já vai?
- Bom dia – sentiu seu coração acelerar - Eu não queria acordá-lo. Você está se sentindo bem?
- Tirando a dor na cabeça, que ainda lateja um pouco, está tudo bem – falou com ar sonolento.
- Olhe, eu vou tomar café e sair para visitar o departamento da Guarda Municipal. Parece que os vigias estão trocando o turno. O nome do policial agora é Nelson. Espero voltar antes do almoço. Não saia daqui, viu? – falou em tom de gracejo – Vou deixar o número do meu celular com a enfermeira do turno e, se quiser falar comigo, peça que ela me chame. Até logo!
- Até!
O novo guarda era mais jovem, mais robusto e de olhar mais arrogante que Moacir. Sílvia cumprimentou-o, recebendo apenas um aceno de cabeça como resposta.
- Seu nome é Nelson, não?
- Sim.
- Moacir chegou a lhe falar sobre um homem que estava rondando por ai, querendo informações sobre o seu vigiado?
- Sim, ele falou. As minhas ordens foram de que ninguém entrasse neste quarto, a não ser a equipe médica.
- Fico mais tranquila, então... Até mais.
Não obteve resposta do rapaz. Seguiu em frente, sempre atenta a presença de Benetti. Parece que ele desistira.
Dirigiu-se ao posto policial localizado no andar térreo do hospital e foi pedir informações a respeito do departamento de polícia, seu endereço e o nome do responsável. Após conseguir estes dados, pegou seu carro e saiu à procura do prédio, no centro de Rio Claro. Chegando lá, conseguiu uma entrevista com o Sargento Samuel Dantas. Ficou aguardando alguns minutos, até que Dantas pudesse atualizar-se a respeito do ocorrido. Para ele não passava apenas de mais um caso corriqueiro de roubo de carros. Mesmo assim, mostrou-se muito solícito e atencioso para com Sílvia. Após ela explicar-lhe os fatos ocorridos e as suas idéias a respeito do caso, foi obrigada a ouvir, mais uma vez, a ladainha de que “era perigoso o que estava pensando em fazer” e que precisaria do aval de um juiz para que pudessem liberar o suspeito em questão sob sua responsabilidade. Na sua frente fez algumas ligações, provavelmente para o fórum da cidade, e terminou por entrar em contato com o juiz Breno Assis, que se dispôs a recebê-la ainda naquela manhã, apesar de ser um sábado, dia em que o serviço público estava em recesso. Combinaram um encontro no escritório particular do juiz.

Depois de ouvir atentamente sobre toda a situação, o juiz Assis foi extremamente claro no seu parecer.
- Vou ser bem sincero, Dra. Sílvia. Este caso não é dos mais importantes por aqui. Poderia até passar despercebido, não fosse pelo seu pedido de revisão. Por isso, vou dar a chance que a senhora está pedindo para este suspeito. Vamos determinar uma fiança de 500 reais para o Senhor Silva e deixá-lo sob sua responsabilidade por período indeterminado, até a sua recuperação da memória. Que fique bem claro que ele deverá se apresentar a cada sete dias junto a um agente judiciário, a ser escalado imediatamente, para informá-lo da evolução de seu estado mental, sob pena da senhora ser incluída como cúmplice e ser presa, caso não compareçam ao fórum. O mesmo ocorrerá se ele desaparecer.
Assim que encerraram a reunião, foi lavrado um documento, assinado por Assis, que liberava Antonio para sair de Rio Claro, sob a custódia de Sílvia, mais as responsabilidades junto às autoridades locais que ela teria dali em diante. Ela também assinou, bem como Dantas.
Feliz por ter conseguido seu intento, Sílvia voltou ao Hospital Geral, ansiosa por dar a boa notícia a Antonio. No caminho resolveu fazer algumas compras, aproveitando que as lojas estavam abertas no sábado pela manhã. Ao chegar ao quarto, encontrou um antigo colega seu de faculdade, Dirceu, que fizera residência em Neuropsiquiatria e descobriu ser ele o médico que iria acompanhar seu protegido dali em diante.
- Sílvia! Que surpresa! O que está fazendo aqui? Não me diga que você é a protetora do nosso amigo aqui? - exclamou e questionou-a, enquanto olhava-a de alto a baixo, definitivamente impressionado em como ela continuava bonita depois de tanto tempo. Durante a faculdade toda ele tentara impressioná-la e conquistá-la, sem nunca conseguir nada. Nem quando ela estava fragilizada com a perda dos pais.
- Você está trabalhando aqui? – perguntou Sílvia, também surpresa com o encontro com o ex-colega e admirador incansável.
- Há um ano. Venho de Ribeirão Preto duas vezes por semana para avaliar os pacientes da neurologia. Estou trabalhando lá, no Hospital Universitário. E você? Soube que voltou para sua terra natal. E agora a encontro aqui.
- Oi, Antonio! Como você está? – perguntou ao seu protegido, tentando disfarçar o mal estar causado pelo olhar insistente de Dirceu.
- Bem... Mas não precisam se preocupar com a minha presença aqui. Podem continuar a conversa. Pelo jeito vocês têm muito a conversar... Sobre os tempos de faculdade.
Sílvia achou ter percebido certo ciúme na voz de Antonio, mas preferiu pensar que era apenas sua imaginação.
- Como ele está, Dirceu? Quando poderá ter alta?
- Hoje! Ele está muito bem. Todos os exames estão excelentes. Não há nada que o prenda a nós. Ele poderá ser todo seu.
Ao ouvir isto, Sílvia sentiu o rosto corar como se estivesse em fogo. Lançou um olhar irritado para Dirceu. Ele continuava malicioso e atrevido como sempre.
- Ele ainda necessita de cuidados. A sua memória ainda não voltou. Você tem alguma previsão para isso? – perguntou, tentando parecer o mais fria possível.
- Tenho certeza de que esta amnésia é temporária e que, em breve, sua memória estará de volta. De uma hora para outra vai lembrar que é casado e tem uma penca de filhos, isso sem contar com a ficha criminal, não é Senhor Silva? – disse de forma irônica.
- Darei um jeito para que o senhor seja um dos primeiros a saber, Dr. Dirceu – retrucou Antonio, com sarcasmo.
- O senhor é muito sortudo por encontrar uma protetora como Sílvia. Ela sempre foi uma pessoa, digamos, muito cuidadosa em seus relacionamentos. Pelo jeito isto está mudando, com o tempo.
- Dirceu, não sabia que você guardava tanto rancor.
“Apesar de tê-lo recusado como namorado, ainda o considerava um bom amigo”, pensou
- Não é muito fácil ser desprezado... – disse com certa amargura na voz, que fez Sílvia sentir um pouco de pena dele – Bem! Vamos ao que interessa. Tirar estas ataduras e ver como está o seu ferimento.
Durante o procedimento, Antonio pareceu ficar perturbado quando as faixas começaram a cair sobre seu rosto.
- O que foi? Está sentindo alguma coisa? – perguntou Sílvia, preocupada – Lembrou de algo?
- Não sei... Parece que estava me faltando o ar, como se estivesse sendo asfixiado. Senti uma agonia, como se alguém estivesse tentando me sufocar. É estranho... Uma sensação... Alguém tentou me asfixiar. Só não lembro quando ou quem fez isso.
- Já é um bom indício de que sua memória está começando a voltar. Bom sinal... O ferimento está com ótimo aspecto. Vou deixar só um curativo simples. Não há mais necessidade de ataduras. Os pontos devem ser retirados em cinco dias. Você pode cuidar disso, Sílvia?
- Claro! Sem dúvida.
- É, Antonio! Você está em excelentes mãos.
- Tenho certeza disso – respondeu, olhando para Sílvia com carinho.
- Vou indo. Tenho outros pacientes para ver – falou assim que terminou seu trabalho - Posso falar com você? A sós?
- Sim?... Nos dá licença, Antonio? Eu já volto.
- Estejam à vontade. Vou aproveitar e me deliciar com o meu farto almoço – disse isso olhando em direção ao caldo aguado de verduras, um copo de suco de uvas e um pote plástico com gelatina vermelha, que o aguardavam sobre a bandeja ao lado da cama.
Dirceu e Sílvia saíram e foram até o posto de prescrição médica.
- Sílvia, o que está acontecendo? Qual é a sua ligação com este cara? Você já o conhecia antes do acidente?
- Dirceu! Quem você pensa que é para vir me cobrar alguma coisa depois de anos sem a gente se ver? Além do mais, nunca fomos nada além do que amigos de faculdade. Não estou entendendo esta sua preocupação desmedida depois de tanto tempo sem nos vermos.
- Eu ainda gosto de você. Quando te vi agora, tudo voltou como antes. Sei que você nunca quis me ver de outra forma, além de um amigo. De qualquer jeito fiquei preocupado com o seu envolvimento neste caso. Você está apaixonada por ele? É isso?
- Dirceu! Vamos parar por aqui. Você me conhece muito bem para saber que eu não poderia me envolver com um paciente, principalmente numa situação como esta em que ele não lembra nada. É que coisas estranhas estão acontecendo. Não sei te explicar...
- Está bem... Desculpe-me pela intromissão – falou arrependido por ter demonstrado seus sentimentos, por tanto tempo adormecidos, tão incisivos – Olhe, se você precisar de ajuda para o que quer que seja, sabe que pode contar comigo. Vou deixar o número de meu celular falou, já anotando seu número numa folha de receituário sobre o balcão.
- Está bem.
- Então ligue. A hora que for.
- Obrigada, Dirceu. Mas realmente, acho que não há porque tanta preocupação.
- Bom, tenho que ir – despediu-se, apertando a mão de Sílvia carinhosamente.
- Adeus, Dirceu.


(continua...)

Está tão chato assim, que ninguém comenta ou manda recadinhos? sniff, sniff...
De qualquer jeito, um grande beijo para todos!!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Resgate de Amor (2)

Depois de informar-se sobre o estado geral de “Antonio”, pediu para vê-lo.
Ele estava deitado, já sem o colar cervical. Parecia apenas dormir, com a face descansada, um curativo sobre o ferimento na cabeça e a respiração tranquila. Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama, apenas observando-o. Tentava entender o motivo daquela atração. Enquanto se perdia em questionamentos internos, viu uma movimentação nas pálpebras e nos músculos da sua face. Seus olhos se abriram e logo a estavam fitando, questionando-a silenciosamente.
- Você pode me ver? Está me ouvindo? Pode me sentir? – falou, passando a mão em seu rosto, sentindo a aspereza de sua barba. Seu olhar era o de uma criança perdida, pedindo proteção – Consegue falar? Tente...
- O-onde ...eu...estou?
- Você sofreu um acidente de carro, ontem à noite, na rodovia. Não lembra?
- Não...
- Você está no Hospital Geral de Rio Claro.
- Onde?
- Rio Claro, interior de São Paulo.
Ele continuava com aquela expressão de perdido.
- Qual o seu nome? Sabe o seu nome? – perguntou Sílvia, que lembrou a pequena hemorragia que ele apresentava na área da memória, relatada pelo Dr. Matheus no dia anterior.
Ele pensou por alguns segundos. Parecia vasculhar a mente a procura da resposta. Mas tudo que demonstrou foi um balançar de cabeça, negando a pergunta.
Uma enfermeira surgiu por detrás das cortinas do box onde se encontravam, perguntando o que desejava. Sílvia, que havia apertado a campainha para chamá-la, notificou que paciente estava consciente e que o plantonista deveria ser avisado.
Logo seu colega estava ao seu lado a fazer mais perguntas para “Antonio”, que a tudo respondia com ar cada vez mais confuso. Por mais que ele tentasse recordar o que acontecera antes de acordar naquele hospital, nada vinha a sua mente. Era como se houvesse apenas páginas em branco, nunca antes preenchidas.
Denis achou que já era hora do “Senhor Silva”, como o estavam chamando na emergência, ir para o andar. Não havia mais a necessidade de ficar em observação. Apesar da perda de memória, ele se encontrava em boas condições. Deixaram “Antonio” sozinho e foram para a sala de prescrições.
Enquanto conversavam, um policial, que se identificou como Sargento Moraes, entrou para pedir informações sobre o paciente. Depois de apresentarem-se, Denis forneceu as explicações médicas solicitadas. Ouviu tudo pacientemente e pediu para ficar a sós com o indiciado. Precisava fazer-lhe algumas perguntas. Após alguns minutos, voltou a falar-lhes. Disse que manteriam um guarda a vigiar o homem enquanto ele estivesse internado. Certamente ele seria recolhido ao sanatório judiciário pós a alta, onde aguardaria a recuperação da memória. Sílvia ficou indignada ao saber disso.
- Ele não lembra nada. Não pode ser preso apenas por uma suspeita, sem provas.
- Ele estava dirigindo um veículo roubado, sem documentos, doutora. Isto já configura um crime.
- E... Se alguém se responsabilizasse por ele, até que recuperasse a memória... Seria possível?
- Talvez. Teríamos que falar com o juiz. Mas quem se responsabilizaria?
- Eu.
Os dois homens a olharam surpresos.
- Eu me sinto responsável por ele. Afinal fui eu que o resgatei ontem à noite. Além do mais tenho minhas dúvidas em relação a estas acusações de roubo.
- O que eu posso lhe dizer, Dra. Sílvia, é que só o juiz pode liberar o suspeito. Ele é que vai decidir o que fazer até sua memória ser recuperada. Se é que ele realmente perdeu a memória. Ele pode estar fingindo para escapar da prisão. Se eu fosse a senhora teria mais cuidado e deixaria este caso nas mãos da justiça. Já vi de tudo neste meio. Criminosos são capazes de qualquer coisa para fugir das grades.
- Obrigada pelo conselho, mas eu acredito no diagnóstico clínico e tomográfico que foi realizado. A sua amnésia pode ser justificada pela análise da sua tomografia de encéfalo.
- Assim eu espero, doutora. Para o seu próprio bem. Bom, Dr. Denis, eu tenho que ir. Seu paciente ficará sob vigilância até a alta. Uma boa noite. Doutor... Doutora... – com um aceno de cabeça, despediu-se de ambos e saiu.
- Sílvia, eu não a conheço o suficiente para lhe dar conselhos, mas acho que este policial tem razão. Deixe este caso com a lei.
- Eu agradeço a sua preocupação, mas já estou decidida. Olhe, vou tomar um café e volto depois para saber o número do apartamento em que ele vai ficar. Pretendo passar a noite aqui.
Denis olhou-a com pena e pensou: “Mulheres... Aposto que está atraída pelo fulano. Ainda vai se meter numa grande encrenca... Coitada!”
O cansaço começava a dar sintomas no corpo de Sílvia. Precisava urgente de um café bem forte para animar-se. A noite seria longa. Quando cruzava a porta da sala de prescrições, viu o senhor Benetti, que consultara com ela naquela tarde, a fazer perguntas para uma enfermeira na recepção da emergência. Instintivamente, escondeu-se atrás das cortinas de um dos boxes da sala e ficou observando-os a distancia. Perguntava-se o que aquele homem estaria fazendo por ali? Aparentava estar irritado com a funcionária, por ela não tê-lo deixado entrar. Ao perceber que não conseguiria entrar, deu as costas e saiu pelo corredor afora.
- O que aquele homem queria? – perguntou para a enfermeira assim que se sentiu segura de sair de seu "esconderijo”.
- Ele queria informações a respeito do “Senhor Silva” lá do fundo.
- Que tipo de informações?
- Se ele estava bem, se teria alta e quando.
- Desculpe perguntar, mas você deu estas informações para ele?
- Não, claro que não. Não podemos dar informações para estranhos sobre os pacientes. Principalmente sobre este, que está sob vigilância da polícia.
- Que bom. Obrigada pela sua ajuda.
- Não há de que, doutora.
“Já estou ficando conhecida neste hospital”, pensou.
Olhando cuidadosamente para todos os lados, a procura de Benetti, seguiu para a cafeteria ao verificar que ele havia sumido dos corredores.
Após tomar seu café, foi até o seu carro pegar sua nécessaire e voltou para a Emergência. Soube que “Silva” seria transferido em alguns minutos para o apartamento 322, no 3º andar.
Mais uma vez foi vê-lo e o encontrou acordado, com olhar sereno e pensativo.
- Quem é você? – perguntou com certo brilho no olhar.
- Meu nome é Sílvia.
- Nós nos conhecemos?
- Na verdade, eu o conheci ontem. Fui eu quem o trouxe para cá. Eu estava de plantão, no serviço de emergência de minha cidade, quando fomos chamados para atendê-lo, no acidente com seu carro.
- Ah, sim... Muito obrigado...
- Posso lhe chamar de Antonio?
- Pode, se assim você preferir – falou isso com um belo sorriso.
- Eu vou ficar aqui no hospital com você para podermos conversar sobre algumas coisas que estão me deixando preocupada. Pode ser que consiga lembrar de algo e ajudar a si mesmo.
- Que tipo de coisas a estão preocupando? Você é psiquiatra ou neurologista?
- Não...
- Você já me conhecia antes do acidente? – perguntou mais uma vez – Pode me ajudar a lembrar o que aconteceu?
- Não...
- Então, não estou entendendo porque o seu interesse em que eu recupere a memória.
- Nem eu entendo, Antonio... Só sei que tenho uma impressão muito forte de que você precisa de ajuda. Acho que você vai concordar comigo quando pudermos conversar em particular.
Neste instante, dois auxiliares entraram com uma maca sobre rodas para levá-lo ao andar. Transferiram-no para a maca e, sempre acompanhados por Sílvia, seguiram através dos corredores até o elevador que transportava os internos.
Inesperadamente, neste trajeto, surgiu o senhor Benetti à sua frente.
- Boa noite, Dra. Sílvia! – saudou-a efusivamente, com um sorriso simpático definitivamente forçado – Que coincidência encontrá-la por aqui.
- Realmente, uma estranha coincidência, eu diria. O senhor está bem? – perguntou com suposto interesse clínico, enquanto notava a insistência com que ele olhava para Antonio.
Este não apresentava nenhum sinal de reconhecimento à visão de Benetti.
- Sim... Com os seus medicamentos fiquei ótimo. Estou aqui a pedido de minha empresa. Como eu estava por perto, pediram-me para visitar outro funcionário, que está internado aqui neste hospital, para tratar de algumas burocracias. Veja só...
Seus olhos novamente fixaram-se em Antonio.
- Este é o seu acidentado de ontem?
- Pelo jeito já estou ficando famoso – disse Antonio com ar brincalhão e despreocupado, o que fez surgir um sorriso irônico na boca de Benetti.
- Pelo jeito você sofreu uma bela pancada na cabeça, não?
- O pior não é a dor na cabeça, e sim a perda de memoria.
- Antonio! – exclamou Sílvia, acabrunhada com a intromissão daquele homem horroroso e, mais ainda, com o comentario de Antonio a respeito de seu problema.
- Ah! Ele perdeu a memoria? É definitivo? Não se lembra de nada mesmo?
- Sr. Benetti! – Sílvia interrompeu a sua sequência de perguntas e a provável sequência de respostas que o seu desmemoriado estaria prestes a dar.
- Se o senhor nos dá licença, temos que ir – disse secamente, já sinalizando aos funcionários para prosseguirem rumo aos elevadores.
- Claro... Estejam à vontade. Até logo!
- Adeus, Senhor Benetti!
- Simpático ele, não? Não precisava ser tão ríspida– falou Antonio, censurando-a.
- Cale-se. Melhor ficar quieto. Não tem que ficar dando informações a seu respeito para qualquer desconhecido. Pode ser perigoso.
- Desculpe. Não sabia que além de médica, você também era policial. – ao dizer isto arrancou sorrisinhos disfarçados dos funcionários do hospital, o que a deixou mais irritada ainda.
- Não estou achando graça alguma nisso, ouviram?
- Desculpe de novo... Não queria ofendê-la – disse Antonio, com falso pesar na expressão.
Finalmente chegaram a frente da porta do número 322, que seria o seu quarto dali em diante. Lá já estava a postos um policial de meia idade, magro, de rosto bondoso, sonolento, que lembrava um velho buldogue. Estava à paisana, para não chamar a atenção dos demais internos e visitantes.
- Boa noite. Meu nome é Moacir e fui encarregado de vigiar este rapaz até a sua alta.
- Boa noite, Moacir. Sou a Dra. Sílvia e pretendo acompanhar este paciente esta noite.
Enquanto Antonio era introduzido e acomodado nas novas instalações, ela fez um pedido para o policial.
- Por favor, fique de olho se houver alguma movimentação no corredor. Há um homem muito suspeito, querendo informações sobre o seu vigiado. É um sujeito com mais ou menos 45 anos, baixo, gorducho, cabelos ralos e louros, bigode espesso e óculos de aro grosso e preto. Está vestindo um blazer xadrez surrado, marrom e bege, com calça marrom e mocassins da mesma cor. O senhor vai passar a noite aqui fora?
- Sim, doutora. Foram as minhas ordens.
- Então, talvez seja melhor pegar uma cadeira. A noite pode ser longa.
- Sim, doutora. Muito obrigado. Pode deixar que ficarei de olho no seu suspeito. A senhora é muito observadora. Daria uma bela detetive, se me permite.
- E o senhor é muito gentil. Obrigada.
Antes de entrar, despediu-se dos auxiliares de enfermagem e olhou para todos os lados, a procura de algo suspeito. Estava começando a ficar com medo do que poderia haver por trás de tudo aquilo. Qual seria a ligação entre Antonio e Benetti?
Será que tudo não passava de sua imaginação? De qualquer maneira, estava decidida a conversar com Antonio sobre tudo isto e procurar as autoridades no dia seguinte para oferecer-se como responsável por ele. Até já pensara onde poderia hospedá-lo. A cabana de seu pai seria um bom esconderijo até que ele recuperasse a memória. Esperava que isto fosse o mais breve possível. Assim que fechou a porta atrás de si, pode ouvir aquela voz grave chegando até ela.
- Muito bem, Dra. Sílvia. Agora me explique o porquê de toda a sua preocupação e o motivo de ter um guarda vigiando o meu quarto – perguntou ele, com seus lindos olhos claros fixos sobre ela, analisando-a dos pés a cabeça.
- Antonio, você não lembra nada mesmo? – falou com voz tão doce, que fez com que ele se arrependesse do tom imperioso usado.
- Não, Sílvia. Infelizmente não lembro nada – agora havia um pesar sincero em sua voz – As recordações que tenho são apenas de rostos desconhecidos ou embaçados, sem noção de tempo. Quem sabe você me conta o que está acontecendo. Talvez eu lembre alguma coisa.
- Bem, os fatos são os seguintes. Você sofreu um acidente, ontem à noite, de causa desconhecida, numa estrada deserta, enquanto dirigia um carro roubado em Ribeirão Preto, há cerca de 170 quilômetros daqui. Perdeu completamente a memória. Vestia roupas caras, além de não ter aspecto de marginal. Assim que voltei para minha cidade, Valverde, fui procurada, em meu consultório, por aquele simpático senhor que o questionou no corredor. Desde então, ele não pára de me perseguir querendo informações sobre você. Hoje, finalmente ele as obteve, graças a você. Agora, me diga o que você pensa disso tudo, pois eu já começo a pensar que estou vendo fantasmas onde não existem. Se for assim, pego minha bolsa e vou embora, para que a polícia faça o que quiser com você.
- Mais uma vez, desculpe se a irritei. Também não estou me sentindo muito bem. Minha cabeça dói e já não sei se é pelo traumatismo ou pelo esforço que estou fazendo para lembrar quem sou eu. Estou completamente perdido. Tenho a sensação de estar num vácuo do tempo, dentro de um enorme vazio. Estou tentando brincar com a situação, mas não é nada fácil.
- Está bem... Talvez seja melhor nós dois descansarmos. Eu ainda não me recuperei do meu plantão e você recém saiu de um edema cerebral. Tente dormir e eu vou tentar fazer o mesmo.
- Nesta poltrona?
- Ela é reclinável e me parece mais confortável que a minha cama no plantão – falou com um sorriso.
- Porque você está fazendo isso, sem nem ao menos saber quem sou? – perguntou, fitando-a com uma intensidade que a fez encabular.
- Não sei. Prefiro não pensar nisso. Talvez seja o meu lado “Madre Teresa de Calcutá” aflorando – respondeu em tom de gracejo, levantando-se para pegar um travesseiro no armário ao lado da porta do banheiro.
Acomodou-se na poltrona da melhor maneira possível. O olhar de Antonio continuava fixo sobre ela.
- Boa noite, Antonio... – disse, já fechando os olhos. De certa forma sentia-se pouco à vontade com a presença dele.
- Sílvia...
- Sim?
- Não encontraram nenhum documento comigo?
- Não.
- Você já sabe quando vou ter alta?
- Ainda não. Amanhã vou até a polícia tentar descobrir com quem tenho que falar sobre o seu destino, depois da alta.
- Como assim?
- Eles querem colocá-lo em um hospital judiciário até a sua recuperação.
- O quê? Hospital judiciário?
- É o procedimento normal para criminosos com amnésia.
- Você acha que posso ser um criminoso?
- Se pensasse isso não estaria aqui, morrendo de sono, conversando com você, no meu pós- plantão, tentando dormir numa poltrona, dentro de um quarto de hospital, com um guarda a postos vigiando a porta – dizendo isso, olhou-o e lançou-lhe um lindo sorriso.
- Está bem... Perdoe-me. Não vou incomodá-la mais. Pode descansar... Sílvia?
- Sim?
- Obrigada pela sua preocupação.
- Você não tem que me agradecer nada – fechou os olhos, a procura de descanso.
Após alguns minutos, como não conseguia adormecer, abriu os olhos e procurou sinais de que Antônio estivesse ainda acordado.
- O que houve? Perdeu o sono? – indagou ele assustando-a.
- Acho que sim... Pensei que você já estivesse dormindo.
- Também não consigo.
- Minha cabeça está fervilhando com tantas coisas que aconteceram nas últimas horas... Deve ser isso... Portanto se quiser conversar mais, esteja à vontade – disse ela.
- Bem, se isso for ajudá-la a ter sono... Que tal você me falar um pouco de você. Talvez isso me faça recordar de alguma coisa do meu passado.
- A minha vida não tem nada de interessante. Talvez eu possa ajudá-lo a adormecer falando de mim – riu.
- Pode começar. Algo me diz que adoro histórias desinteressantes.

(Continua...)

Espero que não estejam achando a minha estória desinteressante...rsrsrs.
Beijos!