domingo, 20 de junho de 2010

Coração Atormentado - Capítulo XIII - Por uma família...






Marcelo mal terminara de almoçar quando o telefone tocou. Logo, Clara veio avisar que o investigador Corrêa precisava lhe falar com urgência.
- Alô? Investigador?
- Sr. Marcelo, preciso que o senhor venha ao hospital com urgência.
- Ao hospital? Algo aconteceu com Cláudia?
- Só poderei lhe dizer pessoalmente.
- Mas hoje, ainda cedo, soube que ela tinha melhorado. Ia visitá-la agora, depois do almoço, antes de ir ao trabalho.
- Então, por favor, venha para cá tão logo possível. – e desligou.
Sentindo-se atônito com o telefonema inesperado, chamou por Clara e pediu-lhe que avisasse Luís para aprontar o carro, pois sairia imediatamente.
- O que houve, Marcelo? – perguntou Diego vendo a agitação do padrasto.
- Não sei. O detetive me ligou e me pediu para ir agora até o hospital – sua voz demonstrava aflição – Depois ligo para dizer o que houve.
MARCELO



- Por sorte conseguimos reanimá-la. Agora respire fundo e conte com calma como era esta enfermeira usando uma máscara cirúrgica – disse Nair, tentando manter a calma, diante da jovem estudante de enfermagem.
- Eu nunca a tinha visto aqui antes. Ela me disse que estava resfriada, por isso usava a máscara. Falou que tinha esquecido seu cartão magnético para entrar pelos fundos da UTI e se eu poderia ajudá-la, caso contrário chegaria atrasada para a troca de plantão. Ela parecia tão amável, que não pensei duas vezes e a deixei entrar. Depois, me distraí vendo os prontuários e ela sumiu. A reunião de troca começou. Poucos minutos depois se ouviu o alarme do monitor cardíaco do box 3. Foi então que a vi novamente, andando apressada na direção contrária a todos. Na hora não pensei que ela tivesse algo a ver com a parada... – sua voz tremia perante os olhares inquiridores de sua superiora e do homem com cara de sono que se dizia investigador da polícia – Ela ainda pareceu sorrir quando cruzou comigo. Parecia tão simpática...
- Ela é uma psicopata, minha cara – falou Romildo Corrêa, fazendo anotações em sua caderneta. – Muito simpática, mas uma assassina, que veio terminar o serviço que deixou pela metade ontem. Ainda bem que, além dos médicos excelentes, sua chefa tem uma equipe muito bem treinada aqui.
- Obrigada, senhor – agradeceu Nair, ainda se recuperando do susto.
- Obrigado à senhora, que teve o bom senso de me chamar antes de qualquer outra providência.
- Fiz apenas o que o senhor tinha me pedido. O que fazemos agora?
- Qualquer pessoa que quiser informações sobre o estado da paciente deverá ser comunicada sobre o seu falecimento. Entenderam? Apenas os pais serão notificados da verdade por mim e a quem mais eu achar que é confiável. As visitas à UTI serão suspensas. Ninguém deverá entrar ou sair desta unidade – falava seriamente para o pequeno grupo de enfermeiras e dois médicos que estavam na UTI no momento do ocorrido.
Todos concordaram através de movimentos de cabeça ou por meio de interjeições afirmativas.
- Que bom. Isto vai ser muito importante para que possamos prender o responsável por mais esta tentativa de assassinato. Gostaria que ninguém saísse daqui por algumas horas. Manteremos um policial em cada porta para “protegê-los” e evitar que “esqueçam” da minha recomendação.
Por sorte, não havia visitantes ou familiares dos outros pacientes na hora do incidente, já que nas trocas de plantão a presença de pessoas que não fossem do serviço era proibida. Provavelmente este era um detalhe que a intrusa também conhecia ao escolher aquele horário para invadir a UTI.
Enquanto isso, mais uma vez o telefone tocava na casa dos Bernazzi. Alguém avisava que a mãe de Clara estava muito mal e que ela deveria ir para casa o mais rápido possível. Após receber a notícia, angustiada, pediu a Diego para sair, no que foi prontamente autorizada. Poderiam contar com Zica, caso precisassem de alguma coisa.
Assim que Clara entrou no ônibus, cuja parada ficava a meia quadra de seu trabalho, a mulher desceu de seu carro. Carregava na bolsa, por questões de “segurança”, a arma que estava no porta-luvas, desde que eliminara o ator desempregado que contratara para fazer o papel de Dr. Maurício Aguiar. Já estava livre do uniforme de enfermeira e da máscara cirúrgica usados para entrar na UTI. Deixara seu disfarce numa das grandes lixeiras do hospital. Sentia-se segura e contente por ter finalmente eliminado Cláudia. Enquanto esperava pela saída de Clara, ligara para a UTI confirmando o falecimento da paciente. Luís estava acompanhando Marcelo na fábrica. Agora, com apenas duas testemunhas para lidar, seria mais fácil armar um cenário de um infeliz acidente. Lembrou do acidente com Ágata e de como fora útil o curso de mecânica feito anos antes, quando adquirira seu primeiro carro. Hoje seria mais fácil.
Quando Zica atendeu a porta, surpreendeu-se com a presença de Glória. Ela tinha saído de lá pouco antes das dez e trinta horas da manhã, pelo que lembrava.
- Boa tarde, D. Glória. O seu Marcelo já saiu. Acho que foi para o escritório.
- Ah, Zica. Eu ando tão distraída. Acho que deixei cair minha carteira por aí. Vocês não a acharam?
- Não, senhora. Só se a Clara guardou. Mas a coitadinha teve de sair correndo ainda há pouco. Uma das suas vizinhas ligou avisando que a mãe dela não estava passando bem.
- Pobre da Clara... Tomara que não seja nada grave... – disse com expressão condoída, e continuou – Onde estão Diego e Ângela?
- Eles estão lá fora, como sempre, conversando depois do almoço. – informou, para logo a seguir baixar o tom de voz e, num cochicho, dizer – Não gosto de fofocar, D. Glória, mas acho que estes dois estão namorando.
- É mesmo? Ora, quem diria... Bem, vou até lá dar um alô. Pode verificar se a minha carteira está pela casa, Zica? – solicitou sorrindo.
- Posso sim, senhora.
Enquanto Zica punha-se a procurar a inexistente carteira de Glória, esta se encaminhou para o jardim, cheia de contentamento, admirando o gramado onde casal se encontrava. Bastava só achar uma área do terreno onde a grama fosse mais fofa para dificultar a movimentação da cadeira de Diego.
- Olá de novo, meus queridos!
Ângela sentiu certo mal-estar ao ouvir aquela saudação. Parecia soar falsa depois da discussão que Glória tivera com ela poucas horas antes.
- O que faz aqui de novo, Glória. Ficou com saudades de mim? – perguntou Diego inocentemente feliz por vê-la.
- Você sabe que adoro a sua companhia, meu querido, – adulou-o, enquanto dava-lhe um beijo na face e empurrava um pouco a cadeira de rodas, a procura de solo mais apropriado para suas intenções – Mas, infelizmente, acho que esqueci minha carteira, com todos os meus documentos, aqui, hoje pela manhã. Por isto tive de voltar. Não consigo achá-la em lugar nenhum. A Zica está procurando.
Continuou a empurrar a cadeira, aparentemente despretensiosa, falando sobre o tempo e sobre amenidades, até que não pode mais movimentá-la. Conseguira seu intento. Então continuou:
- Mas que bela tarde, não? É uma pena que eu não possa ficar aqui com vocês. – queixou-se com ar de tristeza – Bem vou ver se a Zica achou algo. Depois volto para me despedir.
- Ela parece ter melhorado bastante de humor – comentou Ângela meditativa, vendo Glória entrar na casa – Que tal tentar ligar novamente para o consultório do Dr. Medeiros? Trouxe o meu celular.
- Só falta ele ter desparecido também – disse brincando – Estou começando a achar que sou uma pessoa detestável.
- Bobinho... Deve ser o horário. A secretária deve estar no seu horário de almoço. Vamos continuar tentando.
No interior da residência, Glória procurou por Zica. Ao encontrá-la, além de pedir um copo de água, disse que Diego pedira para lhe dizer que estava com desejo de comer a sua famosa torta de baba de moça como sobremesa, ainda naquela noite.
- Mas o que deu nesse menino de me fazer um pedido destes tão em cima da hora?
- Ela é muito complicada de fazer? – perguntou ardilosa, pois tinha total consciência do trabalho que a pobre cozinheira teria pela frente, deixando-a imersa na cozinha por um bom tempo.
- Um pouquinho...
- Mas o Diego merece, não?
- Ah, com certeza. Pode deixar que farei a torta de baba de moça mais gostosa que ele já comeu na vida – completou toda orgulhosa de seu quitute e feliz por poder fazer alguma coisa para alegrar seu jovem patrão.
Com ar de malícia disfarçada, Glória terminou de tomar sua água e saiu da cozinha, deixando Zica totalmente distraída em sua tarefa de fazer o doce requerido por “Diego”. Foi até a porta que dava para os jardins e chamou por Ângela.
No mesmo instante em que via Ângela desaparecer no interior da casa, seguindo o chamado de Glória, Diego ouviu o celular dela tocando em sua mão. Ficou na dúvida se recebia a chamada, mas ao ver o número de Marcelo brilhando no visor do aparelho, atendeu.
- Diego? É você?
- Sim. Fiquei com o aparelho da Ângela, enquanto ela foi atender a Glória.
- O quê? A Glória está ligando para aí?
- Não. Ela está aqui. Parece que esqueceu uma carteira e voltou para buscar.
- Diego! Não posso explicar agora, mas não as deixe sozinhas. Foi a Glória que tentou assassinar a Cláudia. Talvez ela tente fazer alguma coisa contra a Ângela. Onde você está?
- O que está dizendo? Estou no jardim – começou a forçar as rodas da cadeira inutilmente, pois ela estava encalhada no gramado. O desespero foi tomando conta dele. – Você tem certeza do que está falando? Não é possível! Droga! Não consigo mexer esta maldita cadeira. De onde você tirou esta idéia?
- Depois explico. A polícia já está a caminho – terminou por dizer depois de um sinal de Corrêa, que acompanhava a conversa telefônica – Cuidado com ela, Diego. Logo estaremos aí.
Quando desligou o celular, lançou um olhar angustiado na direção da casa, na expectativa de enxergar algum movimento no seu interior.
Enquanto isso, na sala de estar...
- Ângela, minha querida, queria lhe pedir desculpas pelo que falei hoje pela manhã, mas acho que você pode entender o meu ponto de vista. Sabe como eu gosto do Diego. Depois que Ágata morreu, sinto-me um pouco mãe dele. Tudo o que pode afetá-lo negativamente me preocupa e, o que eu puder fazer para evitar o seu sofrimento, eu o farei. Acho que não podemos dar-lhe falsas esperanças.
- Mas não são falsas. Falso era o médico que o tratou por último. – Ângela suspirou e continuou – Olhe, Glória, quero que saiba que eu gosto do Diego tanto quanto você e acredito que suas intenções são as melhores possíveis, mas não podemos fechar os olhos para as evidências.
-Vou lhe contar um segredo, Ângela, que nem mesmo Diego ainda sabe... – disse em tom confidencial. – Eu sou a verdadeira mãe de Diego.

GLÓRIA
Ângela ficou paralisada ao ouvir tal afirmação e ver novamente o estranho brilho no olhar de Glória. Lembrou de já ter visto aquele mesmo olhar quando fizera estágio numa clínica psiquiátrica. Esquizofrênicos, psicopatas e muitos outros costumavam expressar suas idéias tresloucadas da mesma forma que Glória fazia agora. Começou a tremer, diante da possível ameaça representada por aquela mulher até então tão meiga, alegre e carinhosa com todos. Várias teorias passaram por sua cabeça, bem como as orientações de como comportar-se diante de uma pessoa com problemas mentais.
- Isto é verdade, Glória? – indagou com falsa ingenuidade.
- Não... Quase enganei você, não? – disse em um tom horripilantemente sarcástico - Eu bem que gostaria... Sempre quis ter uma família como a de Ágata – continuou, falando mansamente e envolvendo o braço de Ângela com o seu, levando-a na direção da escadaria da casa – Sabe, Ângela, fui criada num orfanato. Quando criança, sofri muito nos lares por onde passei. Apanhei, sofri abusos..., chorei muito. Quando ninguém mais me quis por já ter mais de doze anos, decidi estudar e ser alguém. Aos dezesseis, conheci Ágata, através dos jornais, colunas sociais e revistas. Fiz meu curso de secretariado com as melhores notas da turma. Consegui alguns empregos até que surgiu uma vaga como secretária na indústria Bernazzi. Ágata era recém-casada, mas já começava a trabalhar com o pai. Quando o velho Bernazzi faleceu, ela assumiu a direção. Fui promovida a sua secretária e, aos poucos, nos tornamos grandes amigas. Ela era tudo o que eu sempre quis ser... Logo Diego nasceu. Ele era lindo. Os anos se passaram e eu vivia à sombra daquela família, mas não me importava, pois eu me sentia parte dela. Então o pai de Diego morreu e Ágata, mesmo sofrendo muito, continuou liderando a empresa. Continuou confiando em mim, convidando-me para o seu convívio e dando-me alguns poderes dentro da fábrica. Até que... – continuavam subindo as escadas.
Ângela não tinha coragem de interromper a narrativa de Glória. Estava como que enfeitiçada pela história narrada em suave e monocórdia voz.
- Até que?... – estimulou-a a continuar.
- Até que surgiu Marcelo. Eu já tinha me apaixonado por outros colegas de trabalho antes, mas nenhum era como ele. Tão educado, elegante, simpático. Fazia questão de ir pessoalmente ao nosso escritório para certificar-se que os pedidos estavam sendo entregues de forma correta. Achava que ele ia até lá só para me ver – deu um suspiro – Pensei que a minha vez de ter uma família como a de Ágata chegara. Podíamos casar, adotar uma ou duas crianças, caso eu não conseguisse lhe dar um filho... Mas... – pausou e uma sombra desceu sobre sua face – ... Ele a conheceu e se apaixonou por ela... Quase morri de dor quando soube do início do namoro deles, contado pela própria Ágata. Com o tempo, minha dor aplacou-se e a vi voltar a estruturar a família. Diego voltaria a ter um pai. Eu vivia através do que ela me confidenciava. Então, um dia, me disse que estava pensando em pedir a separação de Marcelo. Ela gostava muito dele, mas não o amava o suficiente para manter-se casada com ele e suportar o seu ciúme crescente. Neste momento, eu a odiei. Roubara o meu amor e agora queria livrar-se dele como quem se livra de um estorvo qualquer. Desfaria “nossa” família por um capricho. Como era possível não amá-lo mais, se ele era perfeito?
- Mas era a sua chance de ficar com ele e começar sua própria família... – argumentou, tentando achar lógica dentro da insanidade de Glória.
- Eu não poderia... Ele continuava enfeitiçado por ela. Enquanto ela existisse, ele não gostaria de mais ninguém.
Acabaram por chegar ao topo da escadaria.
- De repente, ela tornou-se um empecilho a ser removido. Seria simples. Ela desapareceria e eu, junto a Marcelo, poderia aos poucos conquistar o que tanto almejara por anos na minha solidão – falava de forma natural, aumentando os temores de Ângela – Tudo teria sido perfeito. Até a presença de Diego no acidente, que no início me fez sofrer muito, tornou-se algo bom, pois ele ficaria dependente de mim para sempre, casado com aquela “filhinha de papai”, que poderia ser facilmente convencida a fazer o que eu quisesse. Com a experiência que adquirira nos anos ao lado de Ágata, eu acabaria assumindo o seu lugar também na direção da empresa. Mas aí, Cláudia começou a atirar-se em cima de Marcelo, afastando-o de mim mais uma vez. Quando ficou claro que ela conseguira conquistá-lo, mais uma vez tive que agir.
Parou de falar repentinamente e voltou seu olhar vidrado para Ângela – Agora, foi você que começou a se revelar. Vi você se jogando para cima do Marcelo hoje pela manhã.
- Do que você está falando?
- Você sabe muito bem... Do abraço e do beijo que ele lhe deu hoje pela manhã.
- Eu não estava me jogando para cima dele – Ângela parecia ter despertado de uma hipnose, com a mudança repentina do discurso de Glória – Eu apenas tinha lhe contado da melhora de Cláudia e ele demonstrou sua alegria com a notícia abraçando-me...
- E beijando-a?
- Foi um beijo na face, de agradecimento.
- Eu sei o efeito que ele tem sobre as mulheres – continuou como se não ouvisse Ângela – É difícil resistir, não? Mas fora isso, você é muito intrometida, remexendo na história do médico, querendo que Diego ache que pode voltar andar.
- Foi você a parente com quem o Dr. Medeiros falou depois da cirurgia! – lembrou-se subitamente do que o neurologista havia contado noutro dia – Não queria que ele soubesse que poderia voltar a andar. Por quê? Isto poderia acontecer independente da sua vontade – disse, para logo lembrar que a lógica de Glória não era a da maioria das pessoas sensatas.
- Já falamos demais. Está chegada a sua hora, minha querida.
Só então Ângela deu-se conta que estava de costas para a escada e Glória estava bem a sua frente com aquele olhar doentio a encará-la. Um segundo antes de dar um violento empurrão em Ângela e lançá-la no vazio do alto dos degraus, ouviu-se a voz potente de Diego.
- Ângela!!
Depois de uma luta entre mente e corpo, aterrorizado com a possibilidade de perder a mulher que amava, conseguiu vencer o trauma psicológico criado no momento em que soube da morte de sua mãe. Readquirindo o poder de movimentar suas pernas, e graças aos exercícios realizados religiosamente nas últimas semanas, forçou caminho através do espaço que o separava da sala onde estavam as duas mulheres, a tempo de ver o assassinato prestes a acontecer. Ao perceber Ângela em iminente perigo, correu e subiu as escadas o mais rápido possível, a tempo de evitar a tragédia de vê-la rolar em direção a morte. Com o peso dela, segura em seus braços, caiu sentado nos degraus, sob o olhar espantado de Glória.
- Meu filho, você está andando...
- Não sou seu filho! O que pretendia fazer? O que há com você? – gritou, preocupado com Ângela que o olhava aturdida, muda pela surpresa de vê-lo andando novamente. Por um momento, chegou a esquecer que estivera prestes a perder a vida, inundada por um lampejo de alegria.
- Cuidado com ela. Perdeu o juízo completamente... – finalmente murmurou baixinho para que apenas ele a ouvisse.
Parada no último degrau, Glória continuou:
- Tente me entender. Esta mulher não presta. Ela quer nos separar, meu querido.
- Por que, Glória? – perguntou decepcionado – O que pensa que está fazendo? Pensei que era nossa amiga...
- Amiga?... Sou apenas uma amiga para você? – sua voz não demonstrava rancor, apenas uma profunda tristeza. – Sempre o considerei e o tratei como um filho, Diego. Estou tão feliz que você esteja andando... Agora podemos voltar juntos para a fábrica. O Marcelo está nos esperando. Seremos uma família, finalmente...
- O que você está dizendo? Tentou matar a Ângela! – gritou exasperado.
- Ah! Deixe esta mulherzinha aí. Ela não merece a sua atenção. – Falava de forma alucinada, como se fosse muito normal matar alguém e continuar suas atividades rotineiras.
Diego ainda não conseguia acreditar na transformação da mulher que pensava conhecer tão bem e que aprendera a amar como a uma tia muito próxima. Neste exato momento, Marcelo entrou e ficou paralisado diante da cena que encontrou na escadaria da casa. Logo atrás dele surgiu o investigador Corrêa.
- Ah, Marcelo! Que bom que você chegou. Estava agora mesmo falando em você. Nada mais vai nos separar, não é mesmo, meu amor?
- Meu amor? O que está acontecendo aqui? – perguntou atarantado, notando a arma que Glória acabara de tirar de dentro da bolsa.
- Ela enlouqueceu... Tentou matar Ângela – explicou Diego.
- Não fale assim, filho. Vocês não entendem o meu esforço para nos manter unidos?
Sem que eles percebessem, Corrêa saiu sorrateiramente e foi falar com os dois policiais que aguardavam na rua. Mandou-os entrar na casa pelo andar de cima para que pudessem pegar Glória por trás. Só uma janela, no balcão do segundo andar, não era gradeada.

Assim que os dois desapareceram, o detetive entrou novamente. Tinham que manter a secretária falando para distraí-la. Ângela se mantinha nos braços de seu salvador.
- Glória, foi você que mexeu nos freios do nosso carro e provocou o acidente que matou minha mãe? – Diego arriscou perguntar com a voz titubeante.
- Ela queria desunir a família... Não era para você estar naquele carro... – disse hesitante e sem conseguir fitá-lo para ele. – Eu precisava fazer aquilo.
Ângela sentiu as mãos de Diego crisparem-se. Abraçou-se a ele com mais força, impedindo que ele se levantasse e saltasse sobre Glória.
- Glória – disse Corrêa com voz firme e pausada – Não é certo isso que você está fazendo. Matar alguém é crime, e você tem muitas testemunhas aqui. Acho que o mais certo é entregar esta arma e conversar calmamente a respeito do que está acontecendo. Você é uma mulher inteligente. Não faça uma bobagem agora.
- O senhor já está há muito tempo atrás de mim, não, detetive? Sempre chegando perto, mas nunca descobrindo a autoria das mortes na fábrica – disse esboçando um sorriso vitorioso – Esta é a sua chance.
Cada vez mais assombrado com o diálogo que se desenrolava, Marcelo lembrou que Ágata lhe falara sobre algumas mortes, aparentemente acidentais ocorridas na fábrica em anos anteriores. Quando ia pedir um esclarecimento, Corrêa, sem tirar os olhos de Glória, fez um gesto para que ele se calasse.
- Acho que você precisa de um tratamento. Você ainda tem chance de ter a sua família, mas precisa tratar-se.
- Chance de ter uma família? Na minha idade? Por mais que eu queira, isto já não é mais possível. Por anos eles foram a minha família – disse apontando Marcelo e Diego – Mas acho que me enganei. Eu queria ser Ágata. Pensei que ao eliminá-la, eu assumiria seu legado. Mas tudo deu errado. Esta é a verdade. Tudo que fiz, de nada adiantou. Talvez tenha chegado a hora de parar... – pensava alto.
Atrás dela surgiu um dos policiais que acompanhavam Corrêa. Ele aproximava-se muito devagar, sem fazer barulho, armado. Glória apontava o revólver na direção de Ângela, quando, inesperadamente, voltou-o para sua própria cabeça.
- De novo não, de novo não... – gemeu Ângela, baixinho, lembrando da terrível morte de Tomás e fechando os olhos.
Num segundo, o experiente policial alcançou o braço de Glória. Um tiro ecoou pela casa para sobressalto de todos. O cheiro de pólvora se fez sentir. Felizmente, ele conseguira desarmar Glória, evitando que ela atirasse contra si mesma ou que ferisse algum dos presentes. A bala foi perdida em algum ponto do teto do segundo piso. Imediatamente, o segundo policial surgiu e ambos a imobilizaram.
Só então apareceu Zica, vinda da cozinha, assustada com o som do tiro, sendo surpreendida por toda aquela gente reunida aos pés da escada.
- O que está havendo aqui? – perguntou.
- Melhor você voltar para o que estava fazendo, Zica. Depois lhe explicamos tudo. – disse tentando não alarmá-la, apesar dela já ter visto Glória, segura por dois policiais, descendo a escada.
Quando passou por Ângela, a ex-secretária lançou-lhe um olhar de desprezo, mas com voz doce disse para Diego:
- Cuide-se, meu filho. Se precisar de mim certamente saberá onde me encontrar, não é, Corrêa? – sorria, como se estivesse indo para uma colônia de férias – Ah! Antes que eu me esqueça, você terá torta de baba de moça como sobremesa, hoje à noite, não é mesmo, Zica?
- Sim, senhora... – afirmou Zica, sem entender nada.
Ao passar na frente de Marcelo, tentou desvencilhar-se dos guardas, sem conseguir.
- Eu fiz o que fiz por você, meu amor. Você teria sido muito mais feliz se tivesse ficado comigo e não com Ágata.
Ele manteve-se impávido diante da declaração de Glória. Sua vontade era de esganá-la por tudo que o fizera passar, mas percebeu que ela realmente tinha ficado louca. Provavelmente sempre fora. Ainda não conseguia crer que ela tinha sido a responsável pelo acidente de Ágata e, segundo Corrêa lhe contara, suspeita de estar por trás de várias outras mortes relacionadas à fábrica dos Bernazzi, consideradas como infelizes acidentes. Tudo isso era muito triste, considerando que por anos a fio a considerara como uma amiga da família. Viu-a entrar na viatura. Corrêa deu algumas instruções aos policiais. Ela seria recolhida a uma cela especial até ser levada a julgamento. Só então, Marcelo se deu conta da presença do casal que continuava na escada, abraçado.
- Diego! Vocês estão bem? – exclamou, correndo até eles, feliz por ter algo a festejar – Você está caminhando? Ângela tinha razão, afinal.
- Eu sabia que ele conseguiria... – disse Ângela, olhando para Diego e acariciando-lhe a face.
- Quando pensei que ia te perder, as correntes que travavam minhas pernas pareceram romper-se – falou ele dando um beijo carinhoso em seus cabelos.
-Venham, levantem-se daí. Graças a Deus tudo acabou bem – disse Marcelo, estendendo as mãos para ajudá-los a levantar-se – Ainda não consigo acreditar em tudo que houve. Como ela pode enganar a todos por tanto tempo?
Apesar de ter recuperado seus movimentos e ter Ângela viva e ao seu lado, Diego estava abatido.
Quando chegaram ao hall de entrada, Corrêa reapareceu.
- Acho que precisamos conversar – disse soturno – Já consegui um mandato de busca para entrar no apartamento de Glória e encontrar mais provas contra ela.
- Quando será feito isso?
- Ainda hoje, se possível.
- Eu poderia acompanhá-lo? – perguntou Diego.
- Claro, já que, pelo visto, recuperou-se de sua paralisia.
Marcelo indicou a sala e todos se encaminharam para lá, a fim de ouvir as explicações do detetive. Este ficou de pé, enquanto os outros se mantiveram sentados e atentos. Então, Corrêa descreveu como começara a interessar-se por aquela família há alguns anos, quando revisando relatórios policiais antigos descobriu que, de tempos em tempos, eram relatados casos fatais, sempre de mulheres, funcionárias ou namoradas de funcionários dos Bernazzi. Mortes que acabavam sendo designadas como acidentais.
- Comecei a desconfiar que elas pudessem ter sido assassinadas e não vítimas de acidentes, como denunciavam as ocorrências. Depois de um longo período sem mortes, apareceu a notícia do acidente da senhora Bernazzi, o que imediatamente chamou minha atenção. Reabri minha investigação. Surgiram os primeiros suspeitos, entre eles, o senhor Marcelo. Depois foram encontrados os indícios que incriminavam José, o motorista, que certamente foram colocados lá pelo verdadeiro assassino. Porém, eu não acreditava na culpa de nenhum deles. Cheguei a pensar que estava errado nesta caçada por um fantasma. Foi então que acharam um corpo de um homem baleado, que mais tarde foi identificado como um ex-modelo, aspirante a ator, desempregado. Num dos bolsos da calça, que vestia ao morrer, foi encontrado um número de telefone. Era o telefone da antiga secretária da senhora Bernazzi. Pouco depois aconteceu a tentativa de assassinato da senhorita Cláudia Gutierrez. Quando soube do relacionamento do senhor Marcelo e de sua ex-noiva, – disse indicando Diego com um gesto de mão – minhas suspeitas, em relação à secretária, aumentaram. Hoje pela manhã, muito cedo, recebi o telefonema da enfermeira-chefe, avisando que a senhorita Gutierrez havia recobrado os sentidos. Corri à UTI e consegui o que precisava para o mandato de prisão preventiva do criminoso. O perfume do agressor fora identificado pela vítima. Cláudia lembrou que a última coisa que sentiu, antes de ser golpeada, foi um perfume, que reconheceu como sendo o usado por Glória. Com estes fatos em mãos, apesar de não serem provas irrefutáveis, parti a cata de um mandato de busca e apreensão no apartamento da senhorita Glória. Ela estava tornando-se descuidada. Então recebi o segundo telefonema da Enfermeira Nair, avisando da provável nova tentativa de assassinato de sua paciente. Uma estudante de enfermagem deu uma descrição da estranha mulher que viu entrando na UTI, vestida de enfermeira. Apesar de estar escondida por trás de uma máscara cirúrgica, a altura, cor de cabelos e olhos conferiam com as características da nossa principal suspeita. Foi então que pedi que o senhor Marcelo fosse ao meu encontro. Precisava fazer uma prisão preventiva o quanto antes e achei que ele poderia me ajudar com algumas informações. Por sorte, ele decidiu ligar para os senhores. O resto já sabem.
- Mas por que motivos ela matou aquelas outras mulheres, minha mãe e tentou eliminar Cláudia – perguntou Diego, ainda chocado com tudo o que ouvira.
- Espero conseguir mais explicações quando fizermos a busca no apartamento dela e após o interrogatório, com a ajuda de um psiquiatra. – esclareceu Corrêa.
- Ela me falou algumas coisas importantes antes de me atacar, que talvez expliquem, mas não justifiquem, os seus crimes – interveio Ângela.
Com as atenções voltadas para si, contou a história que ouvira de Glória a respeito de sua triste vida e a obsessão por Ágata e sua família.
Depois de fazer algumas anotações em sua famigerada caderneta, Corrêa agradeceu a Ângela por suas informações.
- Parece que isto põe alguma luz sobre os motivos dos outros crimes – supôs o investigador – Provavelmente as mulheres eliminadas eram obstáculos. Por trás de todas havia um namorado ou noivo que trabalhava na empresa Bernazzi. O senhor Marcelo foi uma exceção. Certamente, do ponto de vista psiquiátrico, estes novos elementos serão muito importantes – explanou Corrêa – Seu depoimento vai ser necessário mais tarde, senhorita.
- Pode contar comigo, detetive.
- Bem, podemos ir agora, senhor Bernazzi? Está se sentindo bem para participar desta intervenção no apartamento de sua secretária?
- Sem dúvida. Podemos ir – disse Diego prontamente.
- Então, senhorita Ângela e senhor Marcelo... – cumprimentou-os com um meneio de cabeça e continuou – Em breve, farei novo contato.
- Muito obrigado por tudo, Corrêa – agradeceu Marcelo.
- Você me espera aqui? – perguntou Diego discretamente à Ângela.
- Claro... Ainda estou a serviço. Lembra? – respondeu sorrindo.
Ele curvou-se e tocou seus lábios suavemente nos dela. Antes de afastar-se, sussurrou em seu ouvido, fazendo-a estremecer:
- Te amo...
Marcelo, ao ver aquela demonstração de carinho entre os dois, sentiu-se aliviado em relação a Diego, pois isto significava que ele realmente tinha substituído a ex-noiva por outra pessoa em seu coração. Subitamente sentiu uma vontade irresistível de ver Cláudia. Suas dúvidas em relação aos seus sentimentos começavam a se esvanecer.



Enquanto Marcelo fazia ligações avisando que não poderia trabalhar naquela tarde, pois estaria no hospital, Ângela ligava para Lino e para Carlos contando as boas novas. Do outro lado da cidade, já de posse do mandato e da chave, Corrêa, Diego e dois peritos chegavam à casa de Glória. Era um apartamento pequeno, decorado com bom gosto, localizado no bairro Funcionários. Além da sala e da cozinha, tinha dois quartos, sendo que um deles estava trancado. Depois dos peritos revistarem as áreas acessíveis, foi a vez de arrombarem a porta fechada, pois não puderam encontrar a chave. O quarto estava às escuras. Ao acenderem as luzes se depararam com o que parecia ser um gabinete. Porém, para espanto, principalmente de Diego, as paredes eram revestidas com retratos de sua mãe, em várias fases de sua vida, em festas, algumas sozinha, outras acompanhada por seu avô, com seu pai ou com ele, quando garoto. Até mesmo recortes de jornais e revistas tinham sido devidamente emoldurados. Porém o mais chocante de tudo foi ver que, em todas elas, o rosto de Ágata havia sido substituído pelo rosto de Glória. Ela tinha se dado ao trabalho de recortar o rosto da empresária em todas as fotos e colar o seu no lugar, dando um aspecto bizarro ao trabalho final. Ali, ele identificou as fotos que tinham desaparecido do álbum que mostrara para Ângela noutro dia. Agora já sabia quem as havia roubado. Dentro de um armário existente na pequena saleta encontraram diversos vestidos de festa e trajes sociais organizadamente pendurados, reconhecidos por Diego como tendo pertencido à sua mãe. Sobre a escrivaninha estava um álbum de fotos. Aquele parecia ter sido dedicado exclusivamente a Marcelo, sua última obsessão. Eram fotos dele com ou sem a sua mãe. Da mesma forma que as fotos das paredes, ali também o rosto dela tinha sido recortado e substituído pelo de Glória. Diego estava arrasado. Não conseguia compreender como sua mãe, seu pai, Marcelo e ele se deixaram enganar todos aqueles anos, confiando completamente numa demente.
- Você está bem? – perguntou Corrêa solidário.
- Estou perplexo com tudo isto. Como é possível existir uma pessoa assim, que consiga enganar tão bem, a tantos e por tanto tempo?
- Como ela, existem milhares por aí, senhor Bernazzi. Na maioria das vezes passam despercebidos, pois não chegam a matar ninguém, mas vão destruindo moral ou financeiramente a todos que cruzam seu caminho. Hoje em dia isto está se tornando cada vez mais comum, infelizmente.
Afinal, após os peritos fotografarem detalhes do local e terminarem seu exame cuidadoso de todo o material encontrado, recolhendo tudo que pudesse ser usado como prova contra Glória, saíram, tornando a fechar a porta, colocando um lacre especial da polícia.

CORRÊA
- Vou deixá-lo em casa e voltarei para a delegacia para tratar dos trâmites legais. Logo receberão a intimação para depor – objetivou o investigador.
- Ficaremos aguardando. Quanto ao seu oferecimento de me deixar em casa, lhe agradeço, mas estou precisando pensar um pouco, ficar sozinho... Entende?
- É lógico, meu rapaz. Tem certeza que estará bem?
- Sim... Obrigado por tudo, senhor Corrêa.
Apertaram-se as mãos e despediram-se.
Diego iniciou, a passos lentos, uma caminhada através das ruas já conhecidas. Muitas vezes tinha trazido Glória até sua casa, em dias que ficavam trabalhando até mais tarde. Agora estava ali, respirando a liberdade de caminhar com suas próprias pernas novamente, livre da cadeira de rodas. Durante cerca de uma hora refletiu sobre tudo que acontecera naqueles últimos meses. Lembrou que sua mãe sempre lhe dizia que “de toda a experiência, por pior que ela seja, sempre se pode tirar algo positivo, que nos ensinará a viver melhor ”. Ela tinha razão. Aprendera muito, apesar de toda perdas e danos. Talvez tivesse se tornado uma pessoa melhor. Além do aprendizado pessoal, ainda conhecera a mulher de sua vida. Seus pensamentos se voltaram para Ângela e o desejo de tê-la em seus braços o fez sorrir de novo. Fez sinal para um táxi que passava naquele momento e partiu para casa, onde ela o esperava.





Capítulo XIV - Conclusão





Os meses se passaram. Glória acabou por ser julgada, depois de confessar sua culpa, com a ajuda de um psiquiatra forense, no caso de Ágata e Diego, em alguns dos outros casos ocorridos na fábrica e nas tentativas de assassinato de Cláudia. Foi condenada à prisão, de onde não sairia tão cedo, e cumpriria sua pena em um hospital psiquiátrico e judiciário em Barbacena.
Cláudia recuperou-se. Depois dos sustos por que passou, tornou-se uma pessoa menos frívola. A proximidade da morte e o carinho recebido em sua recuperação foram importantes para esta melhoria. Logo depois de sua alta, Marcelo criou coragem e pediu para que tentassem recomeçar o relacionamento do zero, o que a deixou exultante. Seu amor por Marcelo era verdadeiro e faria qualquer coisa para mantê-lo junto a si.
Quanto a José, foi novamente contratado para trabalhar como motorista na casa dos Bernazzi. Aceitou o pedido sincero de desculpas de Diego e voltou ao seu antigo serviço. Marcelo acabou por mudar-se, pois não via sentido continuar morando na mansão da Cidade Jardim, principalmente agora que a casa, em breve, teria nova dona. Comprou uma casa em um condomínio fechado no mesmo bairro. Assim, Luís, o motorista, foi contratado para acompanhá-lo, continuando em sua função anterior.
Diego voltou às suas atividades como engenheiro de alimentos, além de assumir a direção da empresa de sua família
Depois de sua visita ao Brasil, Gabriel voltou para os Estados Unidos com Nancy. Três meses depois, o casamento deles aconteceu em Chicago, numa grande festa ao estilo americano, onde Ângela foi uma das seis damas de honra. Apesar de sentir-se pouco a vontade no vestido rosa - bebê, que a deixou com o aspecto de uma nuvem de algodão doce, recebeu elogios de Diego. Tinha quase certeza que ele odiara o traje, mas não quis dizer que estava horrível para não deixá-la chateada. Mais tarde, suas suspeitas se confirmaram, e acabaram por dar muitas gargalhadas, no quarto do hotel. Nancy nunca desconfiou de nada.
Um ano depois dos infelizes acontecimentos que determinaram a prisão de Glória, foi a vez de Diego e Ângela casarem-se, numa cerimônia simples, para poucos convidados, realizada nos jardins do sítio em Casa Branca. Entre estes estavam Lino, acompanhado por um amigo, Carlos e a esposa, bem com Romildo Corrêa. Isabel e Lourdes quase desidrataram com tantas lágrimas. Segundo Gabriel, que veio com Nancy, especialmente para a cerimônia, elas choraram mais do que no casamento dele.





- Então, como se sente, senhora Ângela Bernazzi? – perguntou Diego, assim que entrou com sua esposa na cabine de luxo do cruzeiro para o Caribe, onde passariam a lua-de-mel.
- Muito feliz... – respondeu ela, enroscando os braços em torno do pescoço dele.
Abraçou-a, olhando-a incendiado por aquele desejo que aumentava a cada dia e disse com sua voz enrouquecida:
- Que tal um aquecimento antes do jantar?
Ângela apenas sorriu maliciosamente e ofereceu-lhe os lábios, em sinal de aceitação à proposta feita.





FIM




Mais uma estória terminada. Mais um "filho" gerado. Espero que tenham gostado. Senão, aguardo opiniões e sugestões para poder melhorar a qualidade do que escrevo. Claro que vou demorar um pouquinho para começar outra aventura, mas podem ter certeza que ela já está sendo gerada...rsrsrs.
Comentem, opinem. Isto é muito importante para mim.
Aliás, gostaram do novo layout do blog? Acho que a postagem ficou mais clara e fácil de ler.
Beijos a todas minhas queridas, que acompanham este meu trabalho e lazer, com a maior paciência e carinho do mundo. Amo vocês!
Até a próxima!

sábado, 12 de junho de 2010

Coração Atormentado - Capítulo XII - Fechando o cerco




Ângela acordou cedo. Pretendia trocar de quarto para evitar as fofocas de Zica e Clara. Olhou para Diego, que parecia dormir tranquilamente ao seu lado. Deu-lhe um beijo suave na face e, quando fazia menção de levantar-se da cama, uma mão forte a segurou, puxando-a de volta.
- Onde pensa que vai? – murmurou rouco.
- Vou para o outro quarto me vestir, antes que alguma curiosa, que já deve ter descoberto o meu carro lá embaixo, venha averiguar onde estou dormindo. A Zica e a Clara já devem ter voltado da sua folga e logo estarão em atividade pela casa.
- Fica mais um pouquinho, vai... – suplicou abraçando-a.
- Que tal uns pães de queijo quentinhos no café da manhã? Lembrei do presente da Tia Lourdes. Antes que a massa estrague naquele porta-malas, podemos dar um destino mais interessante para ela. O que acha?
- Bem, agora você me convenceu. Entre você e os pães de queijo... Hummm. Tem razão. Os pães de queijo! – ironizou.
- Seu bobo... – sorriu e deu-lhe um beliscão de leve no braço.
- Ai! Está bem. Está liberada... Por enquanto.
Beijaram-se rapidamente e logo Ângela, já vestida, saía sorrateiramente do quarto, fechando a porta atrás de si.
Deu uma ligeira desarrumada na suíte de Ágata, para parecer que tinha dormido ali, e desceu. Na cozinha, conversavam as duas empregadas.
- Bom dia, Ângela. Passou a noite aqui? Houve algum problema? – perguntou Clara.
- Na verdade, houve – disse, para pasmo das mulheres.
Contou em rápidas palavras o que acontecera com Cláudia, sem mencionar a suspeita de tentativa de suicídio. Falou com se tudo não tivesse passado de um acidente.
- Você deve estar cansada. Teve que cuidar do Diego todo o fim de semana e ainda continuar na segunda... – disse Clara com certo veneno disfarçado.
- Pois é... Mas optei por manter os dias que combinei com Lino. Ele ficou com as terças, quintas e sábados. Apenas o domingo é rodiziado. Portanto, no próximo estarei de folga. Além do mais, o Lino está com seu pai aqui em BH e precisava dar uma atenção a ele. – explicou – Bem, agora que já esclareci a curiosidade de vocês, quero saber se a Zica não se importa de ligar o forno para preparar uns pães de queijo.
- Pão de queijo? Que estória é essa, gente? – sobressaltou-se Zica.
- Vou até o carro buscar a massa. Minha tia, que mora num sítio, deu de presente. Como não voltei para casa, vou ter de fazê-los aqui mesmo. Vocês gostam?
- Uai! É claro que sim! – exclamou Clara animada.
- Então, vou buscar. Tem massa suficiente para o café da manhã de todos na casa.
Enquanto os pães assavam, Clara estranhava a ausência de Marcelo pedindo seu café, apressado por estar atrasado.
- Talvez ele tenha resolvido ficar em casa hoje. Foi uma noite um tanto agitada.
- É, imagino que sim... Deve ter sido um susto e tanto para ele. – falou maldosamente Clara, provavelmente por já ter percebido o envolvimento dos dois.
- Para todos nós, Clara.



Já passava das 09h30min e Marcelo ainda não tivera coragem de sair de seu quarto. Passara grande parte da noite acordado, pensando sobre sua relação com Cláudia e em tudo que acontecera nas últimas horas. Pensou no amor que nutria por Ágata, mas que, durante os cinco anos em que estiveram juntos, nunca sentir a mesma reciprocidade. Talvez fosse este o motivo que o atraíra para Cláudia. Nas últimas semanas, ela lhe dera mais atenção e carinho do que recebera nos últimos anos de sua esposa. Sabia que era uma garota mimada, acostumada a luxos e aparentemente fútil, mas, a sua maneira, era encantadora, inteligente e muito afetuosa, quando lhe davam oportunidade para demonstrar estas qualidades. Divagando sobre estas questões, foi interrompido por Clara, que bateu na porta de seu quarto para avisar que Glória estava lá, preocupada com a sua ausência na fábrica. Agradeceu e foi para o banheiro, onde tomou uma rápida ducha e vestiu-se. Ficou imaginando se Ângela já teria conseguido falar com o hospital a respeito do estado de Cláudia. De qualquer maneira pretendia visitá-la, ou, pelo menos, ficar próximo a ela e tentar saber sobre a evolução do seu quadro.
Encontrou Ângela perto do telefone ao descer, como se tivesse acabado de desligar.
- Bom dia. Já soube alguma coisa a respeito de Cláudia ou alguém ligou? – perguntou apreensivo.
- Acabei de falar com Nair e ela me deu boas notícias.
- Ah! Sim? – animou-se.
- A TC mostrou apenas um pequeno coágulo, que deve ser reabsorvido em poucos dias, sem necessidade de abordagem cirúrgica. Ela já superficializou o coma e o médico acha que logo ela deve recobrar a consciência. Até já saiu do respirador.
- É sério? – rebateu alegremente incrédulo – Mas que notícias ótimas! Nem sei como lhe agradecer, Ângela.
Tão feliz estava que acabou por abraçar a enfermeira e dar-lhe um beijo na face.
- Não tem o que agradecer. Também fiquei feliz por saber que Cláudia está fora de perigo – falou, ainda surpresa com a reação inusitada do padrasto de Diego.
- Você tem sido um anjo desde que veio para esta casa. Sei que não tenho demonstrado o meu agradecimento pelo que fez com Diego. Ele melhorou muito o seu estado de espírito, voltando a ser o mesmo rapaz alegre de antes. Agora, demonstrando sua preocupação com Cláudia e... Afinal... Muito obrigado.
Neste momento notou a presença de Glória que entrava na sala, vinda do jardim de inverno, onde mantinha uma conversa com Diego. Ele não teria sua sessão diária de fisioterapia naquela manhã. Carlos ligara ainda cedo para avisar que, devido a um problema com seu carro, não poderia ir.
- Olá, Glória. Bom dia!
- Vejo que já melhorou do seu mal-estar – disse lançando um olhar desconfiado para ambos.
- Tive boas notícias. Pretendo ir ao escritório à tarde.
- O Diego acabou de me contar o que aconteceu. Ela está bem?
- Parece que sim.
-Vocês brigaram durante a viagem? Foi tentativa de suicídio? – disparou mordaz, sem parecer importar-se com a presença da enfermeira na sala.
Por algum motivo, Marcelo, chocado com a agressividade de Glória em suas perguntas, resolveu não levar o assunto muito adiante e negou qualquer problema.
- Não. Correu tudo bem. Acho que foi apenas um acidente.
- Diego me disse que pretende voltar a trabalhar na fábrica. Você já sabia?
- Ele me disse qualquer coisa a respeito ontem, mas não lembro exatamente o quê – referindo-se, intimamente, ao seu estado alcoolizado
- É... Parece que logo ele não vai precisar mais dos seus cuidados, Ângela.
- Fico muito feliz por ele.
- O que há com você hoje, Glória? Está diferente... Parece que acordou de pé esquerdo. Teve um fim de semana ruim? – observou Marcelo, notando o mau humor da secretária.
- Talvez eu não tenha dormido muito bem – sorriu inesperadamente – Estou sendo chata, é? Eu também tenho os meus dias ruins, gente.
Todos sorriram e o ar tornou-se um pouco mais leve.
- Acho que está na hora de ir – continuou – Vou me despedir de Diego e voltar para a fábrica. Espero por você à tarde. Quero que veja uns documentos que precisam ser assinados.
- Já está indo, Glória? – perguntou Diego, que acabava de entrar.
- Sim, meu querido. Tenho de voltar para o trabalho.
- Logo você vai poder folgar um pouco mais. Pretendo voltar à empresa na próxima semana. Poderei trabalhar pelo menos um turno, para começar.
- Acho que você podia descansar um pouco mais. Não há necessidade de voltar tão cedo. Ainda precisa de cuidados...
- A Ângela poderá me acompanhar no início para o caso de eu precisar de ajuda. – disse sorrindo, na direção dela, sem notar a expressão preocupada de Glória.
- Sem dúvida – afirmou ela, retribuindo o sorriso – Ainda precisa continuar com o trabalho físico para não perder a tonicidade muscular, já que há uma esperança de...
- Já que... O quê? – inquiriu Glória.
- É... Agora já me sinto melhor para falar sobre isto, por incrível que pareça – interrompeu Diego.
- Sobre o quê, Diego? – foi a vez de Marcelo refazer a pergunta.
- É que Ângela acha que eu tenho chances de voltar a andar.
Marcelo e Glória dirigiram seus olhares reprovadores para a enfermeira.
- Surpreende-me que você possa ter colocado esta idéia na cabeça de Diego. – falou Marcelo – Acho que você deveria ter mais cuidado ao dar um diagnóstico destes, já que o neurologista tirou nossas esperanças.
- E onde está este neurologista? – replicou ela, ao sentir a hostilidade dos rostos a sua frente. – Na verdade, eu pretendia lhe falar a respeito disso esta semana. Eu conversei com o Dr. Medeiros, que tratou de Diego e realizou a intervenção cirúrgica em sua coluna.
- Ele não tem o direito de dar nenhum palpite agora, depois de ter abandonado o caso do meu enteado da maneira que abandonou.
- Eu gostaria de lhe falar em particular, se possível, a respeito deste fato. – insistiu Ângela.
Marcelo olhou a sua volta e viu os olhos interessados de Clara e de Glória, e decidiu que aquele não era um assunto para ser comentado no meio da sala, diante de empregados. Apesar de Glória ser praticamente íntima, não deixava de ser uma funcionária dos Bernazzi.
- Por favor, Marcelo. Ouça a Ângela. Talvez seja importante. Eu confio nela... Muito – afirmou, aproximando-se dela, pegando em sua mão e apertando-a entre as suas.
- Não acredito que vocês possam estar dando ouvidos a esta mocinha intrometida – bradou Glória – Ela é só uma enfermeira. – revelando-se preconceituosa como nunca.
- A senhora também é só uma secretária e, no entanto, está conseguindo auxiliar na gestão de uma empresa, pelo que sei – disparou Ângela, surpresa com o ataque de Glória e com sua própria presteza em responder.
- É melhor pararmos esta discussão aqui. Glória, por favor, é melhor você voltar ao trabalho. À tarde, estarei lá para conversarmos – disse Marcelo tentando apaziguar a revolta excessiva da sua assistente.
Por um momento, um brilho desconhecido se fez ver nos olhos de Glória, diante de sua desafiante, mas logo em seguida, sorriu calidamente e continuou como se nada a tivesse aborrecido.
- Talvez eu tenha exagerado... Desculpe-me, Ângela. Como disse antes, não estou nos meus melhores dias.
- Não se preocupe, Glória. Eu entendo.
- Vou indo, então. Espero por você no escritório, Marcelo. Até!
Despediu-se e sumiu através da porta da frente, que foi cerrada por Clara.
Com um suspiro, Marcelo virou-se para Diego e Ângela, que continuavam juntos.
- Que tal me explicar a sua teoria lá no gabinete?
Os três encaminharam-se, então, até ampla biblioteca localizada ao lado da sala de estar, separada por uma grande porta envidraçada, de vidro fosco, em madeira escura. Suas paredes eram cobertas por estantes de livros que iam até o teto, decorada com móveis de mogno escuro e estofados de couro. Diante da escrivaninha, digna de qualquer renomado antiquário, havia duas enormes poltronas, no mesmo estilo inglês dos demais móveis. Marcelo apontou uma delas para que Ângela sentasse, enquanto Diego estacionou a cadeira ao seu lado.
- Não considero uma teoria, Sr. Marcelo, mas uma constatação. Ao longo deste período em que venho acompanhando o Diego, percebi que faltam, no seu quadro clínico, vários sinais de sequela de lesão medular. Desde o início, questionei o Lino sobre a orientação do neurologista, que deu o diagnóstico final, e fui informada que ele desapareceu. Surpresa com o fato, fui conversar com o Dr. Medeiros. Primeiro fiquei admirada quando ele me disse que foi dispensado pela família e não o contrário, como tinha sido dito.
- Como assim? Ele mandou uma nota para pagamento de seus honorários e disse que não cuidaria mais do caso do Diego.
- Disse para quem? – perguntou Diego.
- Para a minha secretária.
- Glória?
- Não. Minha secretária na minha empresa.
- Talvez tenha que averiguar com ela como foi que isto ocorreu. Mas não acha estranho ele ter contatado a sua empresa e não a nossa? - conjeturou Diego.
- Vou verificar isto – anuiu Marcelo.
- Em segundo lugar, ele me deu um diagnóstico totalmente oposto ao que nos foi informado. Conforme o Dr. Medeiros, a lesão de Diego era mínima e conforme o andamento da fisioterapia ele poderia andar novamente.
- E por que ele ainda não está andando até agora?
- Ele aventou a hipótese de paraplegia psicogênica, mas precisaria examiná-lo para dizer com precisão o que está acontecendo.
- Uma o quê?
- Paraplegia psicogênica, Marcelo – falou Diego impaciente – Quem indicou este segundo neuro e onde ele está?
- Foi o próprio Dr. Medeiros, quando mandou a nota cobrando seus serviços.
- Ele diz que não indicou ninguém e que nunca ouviu falar deste colega. Aliás, Lino andou investigando sobre o nome deste médico no Conselho Regional de Medicina mineiro e não encontrou ninguém inscrito lá com este nome – acabou por dizer tudo, apesar da orientação de Lino.
- Não é possível... – Marcelo estava perplexo diante das descobertas de Ângela e Lino.
- Pretendo marcar um horário com o Dr. Medeiros – disse Diego – Ainda esta semana.
- Claro... Estou pensando no que pode ter acontecido. Que falha de comunicação foi esta que provocou toda esta confusão. E se aquele neuro que o examinou no hospital e deu a sua alta não era médico, quem era ele e quem o contratou para mentir?
- Será que eu posso dar uma sugestão? – perguntou Ângela.
- Claro que sim.
- Que acham de entrar em contato com o investigador que está cuidando do caso da Cláudia e de D. Ágata?
- É uma ótima idéia! – exclamou Diego.
- Eu achei aquele sujeito meio esquisito, mas talvez ele possa descobrir o paradeiro e a identidade deste neurologista fantasma, já que é da polícia e se intitula investigador. – disse Marcelo – Vou ligar para ele agora mesmo. Ele me deu um cartão na primeira vez em que esteve aqui. Deixe-me ver – E começou a revirar uma das gavetas – Ah! Está aqui.
Pegou o telefone sobre a escrivaninha e discou para o número que devia ser o da delegacia. Ao atenderem, identificou-se e pediu para falar com Romildo Corrêa Após alguns instantes, o homem o atendeu. Marcelo rapidamente explicou o caso para o detetive, que agradeceu e disse que assim que descobrisse alguma coisa, entraria em contato. Desligou, diante do olhar desiludido de Marcelo.
- Acho que não vamos conseguir nada com ele... Ficou de ligar se descobrir algo.
- Temos que dar um voto de confiança a ele – consolou-o Diego.
- Já é quase meio dia - constatou Marcelo ao olhar seu relógio de pulso. – Vou almoçar com vocês e, depois, irei ao hospital tentar ver a Cláudia, antes de ir para a fábrica.
- Vou ligar para o consultório do Dr. Medeiros e marcar uma consulta – avisou Ângela.
Separaram-se, enfim, cada qual com seus planos naquele final de manhã.



Em meio àquele trânsito caótico, seus pensamentos agitavam-se entre o fracasso de sua tentativa em eliminar Cláudia, a intromissão da enfermeira, que até então parecera tão inofensiva e a volta de Diego para a fábrica. De repente, tudo resolvera dar errado. Mas não se deixaria abater. Ainda podia resolver tudo. Ainda poderia ter tudo que almejava. Tinha certeza disso. Bruscamente, mudou a direção do carro. Precisava agir rapidamente se quisesse recuperar o controle da situação.



Oi, para todos!! Antes de mais nada, gostaria de felicitar a todos os enamorados pelo seu dia. FELIZ DIA DOS NAMORADOS!
Pois é... Acho que finalmente a estória já dá sinais bem evidentes de quem é o assassino. Este deve ser o penúltimo capítulo, a não ser que algum dos personagens resolva se revoltar e mudar tudo...rsrsrs. Também queria renovar meus agradecimentos às meninas Nadja, Cris, Lucy e Ly, sempre me incentivando, e a todas que vêm a este meu cantinho especial me prestigiar.
Beijos!!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Coração Atormentado - Capítulo XI - Mais uma vítima...

Sozinha, Cláudia chegou de táxi ao prédio onde morava. Eram 17 horas do domingo. Estava irritada. Já não tinha certeza se Marcelo realmente a queria ou amava. Tivera uma discussão com ele, devido a sua relutância em contar para Diego sobre o relacionamento dos dois. Seu ex-noivo já deixara bem claro que não a queria mais. Não compreendia porque Marcelo ainda sentia-se mal em assumi-la. Maldizia-se por ter continuado com aquele noivado, apesar de já não amar Diego. Por pressão de sua família, por comodismo ou para continuar próxima de Marcelo, acabara por ceder ao pedido e noivara. Nos últimos meses já não conseguia tirar o futuro “sogro” da cabeça. Cada vez que o via, seu coração disparava. Pretendia romper com Diego antes de seu aniversário, pois achava que ele esperava a festa para marcar a data do casamento. Infelizmente, aconteceu aquele trágico acidente. Ver o noivo entre a vida e a morte e, depois, preso a uma cadeira de rodas, só tornava mais difícil dizer a verdade. Obviamente, todos pensariam que a causa era a sua paralisia, principalmente ele próprio. Porém, o fato era que, desde que conhecera Marcelo, sentira uma inexplicável atração por ele. Mas havia Ágata, de quem ela gostava muito. Por este motivo, tentara negar seus sentimentos. Mas quando tudo aconteceu, e Marcelo inesperadamente enviuvou, não conseguiu permanecer discreta. Ele estava frágil e passando por uma hora extremamente dolorosa. Não resistiu e, apesar de sentir-se a pior das mulheres por conta disso, acabou por apoiá-lo mais que o esperado, aproximando-se pouco a pouco e envolvendo-o com palavras carinhosas de consolo e fazendo-lhe companhia sempre que possível. Não conseguia mais pensar no que era certo ou errado. Sabia que seria julgada e execrada por muitas pessoas por suas atitudes, mas pouco importava. Ter Marcelo ao seu lado era a única coisa importante. Tinha muita pena de Diego e ainda sofria com a culpa pela morte de Ágata. O fato de desejar o seu marido e, em seus pensamentos mais egoístas, considerá-la um empecilho para sua felicidade, já era suficiente para sentir-se moralmente culpada por sua morte.
Lembrava da surpresa e da indignação de Marcelo quando lhe declarou seus sentimentos. Diego ainda estava na UTI. Chegou a pensar que ficara com raiva dela, mas aos poucos ele foi se modificando, tratando-a com mais carinho, correspondendo aos olhares sedutores e até arriscando algumas carícias. Continuou a respeitá-la, apesar de todas suas tentativas de seduzi-lo. Finalmente ele aceitara passar com ela o fim de semana. Tudo tinha sido perfeito, além de suas expectativas. Porém, quando ela voltou ao assunto de assumirem-se como um casal, Marcelo mais uma vez mostrou-se ambíguo. Agora, já não tinha tanta certeza se ele realmente gostava dela ou se tinha sido apenas uma fantasia sua. Quando entrou no apartamento, assediada por estas incertezas, sentiu um perfume familiar no ar. Colocou as malas para dentro e, ao fechar a porta, sofreu uma pancada violenta na parte de trás da cabeça que a fez perder os sentidos.

Antes de partirem de Casa Branca, Diego teve a grata surpresa de, na hora das despedidas, ser abordado por Isabel, que o abraçou e pediu desculpas por seu comportamento deplorável. Desejou-lhe felicidades e pediu que ele cuidasse bem de sua única filha. Gabriel prometeu que visitaria a irmã em Belo Horizonte na próxima semana. Passariam por sua cidade natal antes de dar início às suas férias. De lá, viajariam para o Rio de Janeiro e, depois, para o Nordeste. Queria mostrar algumas das belezas do Brasil para Nancy antes de voltarem para Chicago. Lourdes, como não podia deixar de ser, arrumou uma grande caixa contendo algumas de suas compotas e geléias, juntamente com uma porção considerável de massa de pão de queijo, para que Ângela pudesse fazê-los em casa e degustá-los quentinhos no seu próximo café. “De preferência, na companhia do Diego”, sussurrou ao seu ouvido, no momento em que entregou o presente. Acomodaram-se no carro e pegaram a estrada pouco antes das cinco horas da tarde.
O riso de Ângela e Diego calou-se quando entraram na mansão da Cidade Jardim e encontraram Marcelo sentado numa das poltronas da sala, segurando um copo de uísque, com aspecto de deprimido.
- Oi, Marcelo! – Diego saudou-o, estranhando ver o padrasto naquele estado – Aconteceu algum problema? Como foi de viagem?
- Ah! Olá, Diego! – respondeu, sem levantar-se, com voz levemente arrastada – Não se preocupe. Nada que não seja solucionável...
Notando que Marcelo não parecia muito bem naquele final de tarde, Ângela sugeriu a Diego:
- Talvez fosse melhor eu ir embora para que vocês possam conversar. Ele não parece muito bem – murmurou com discrição, lançando um olhar para Marcelo, que continuava sentado e indiferente a presença deles.
- Tem certeza que não quer ficar aqui esta noite? – sugeriu Diego.
- Tenho sim. Preciso ir para casa, desfazer a mala e estudar um pouco para minha tese. Além disso, não quero desencadear mais boatos... – respondeu desculpando-se – Vou levar a sua maleta lá para cima e arrumar suas coisas. Quando terminar, volto para me despedir. Fiquem à vontade.
- Não saia sem se despedir.
- Claro que não – disse, beijando-o no rosto.
- Obrigado... – agradeceu enquanto pegava sua mão e a tocava com os lábios.
Assim que viu Ângela subindo as escadas, virou sua cadeira na direção de Marcelo, dirigindo-a até colocar-se ao seu lado.
- Marcelo, acho que precisamos conversar.
- Se é sobre os negócios, fique tranquilo que está tudo sobre controle. Com a Glória a me ajudar, não temos tido problemas. Esperamos que você volte logo para a empresa, mas só quando estiver sentindo-se seguro disso.
- Obrigado, Marcelo. Provavelmente estarei de volta muito breve. Mas não é sobre isso que quero falar com você.
- Não? Ah... E sobre o que é?
- É sobre você. Notei que tem me evitado há alguns dias e...
- É impressão sua – afirmou sem olhar para Diego, remexendo-se na poltrona.
- O que está acontecendo?
- Nada. Por quê? – indagou, mantendo os olhos vidrados no copo em sua mão.
- Você não costuma beber. Agora, chego em casa e encontro você nesse estado. O que há?
Depois de uma pausa para pensar em suas próximas palavras, Marcelo respondeu.
- Diego, na verdade, eu preciso lhe contar uma coisa. Algo que não posso mais esconder de você – respondeu titubeante – Só espero que não me odeie por isso.
- Tem alguma coisa a ver com o acidente? – perguntou temeroso, pois desde que tivera aquela conversa com Ângela sobre a inocência de José, muitas dúvidas passavam-lhe pela mente. Dúvidas e suspeitas terríveis.
- Com o acidente? Não... Por que teria a ver? Não... – continuou com a fala arrastada – Você sabe como eu era apaixonado por sua mãe, apesar de ela não corresponder da mesma forma que eu. Seu pai sempre esteve presente entre nós.
- Eu sei, Marcelo, eu sei... – disse melancólico – Mas você nunca ficou dessa maneira, por este motivo, enquanto ela era viva. É algum tipo de culpa tardia? – insinuou.
Marcelo não parecia entender as insinuações de Diego, pois continuava na mesma posição, atirado sobre a poltrona e com expressão entorpecida.
- Não... É que queria que você entendesse porque eu me deixei levar... – continuava reticente em seu discurso – Depois que ela morreu, no período em que você estava mal no hospital... – a voz tornou-se embargada – ... Eu passava por um período terrível, pois acabara de perder a mulher que amava e via você, a quem sempre quis muito bem, entre a vida e a morte. Naquelas horas difíceis, em que eu estava sem chão, uma pessoa foi importante, me apoiando e me mostrando que a vida continuava e...
- Esta pessoa por acaso foi a Cláudia? – perguntou secamente.
Marcelo pareceu curado da bebedeira instantaneamente.
- Como soube? – perguntou sobressaltado, ajeitando-se na poltrona.
- Marcelo, não sou nenhum ingênuo. Desde que voltei para casa reparo os olhares dela para você e a coincidência de sua presença, sempre em casa, quando ela me visita. Já imaginava algo entre vocês, mas não queria acreditar.
Marcelo levantou-se e caminhou discretamente cambaleante até o meio da sala. Quando se virou para Diego, apresentava os olhos marejados.
- Diego, você sabe como eu amava a sua mãe, não sabe? – tornou a repetir. O álcool ainda embaralhava suas idéias.
- Sei disso, Marcelo. Vocês estão tendo um caso?
Quanto à ex-noiva, já tinha percebido, mesmo antes do acidente, que ela já não gostava dele como antigamente. A relação vinha tornando-se mais fria e sentia que o noivado tinha sido um erro. Só não conseguia crer que suas atenções haviam se voltado para seu padrasto.
- Não! Quer dizer... Perdoe-me, Diego, mas... Sei que agimos muito mal – disse por fim resignado, pois não conseguia perdoar a si mesmo por seus atos.
- Não me interessa o que aconteceu entre vocês. Quero que me diga apenas uma coisa. Vocês têm algo a ver com a morte de minha mãe?
A expressão de espanto e indignação, ao ouvir a pergunta pronunciada por Diego, estampou-se no rosto de Marcelo.
- Pelo amor de Deus, Diego! Não pode estar pensando que Cláudia ou eu seriamos capazes de uma coisa destas! Eu amava demais a sua mãe. Além do mais, Cláudia aproximou-se de mim só após a morte de Ágata. Jamais tive nada com ela até vocês romperem o noivado na semana passada.
- Não me importa o que está acontecendo entre vocês – repetiu – Só preciso que você me convença que não teve nada a ver com o acidente – Diego estava tenso e ressentido, mas tentava controlar-se.
- Nunca traí sua mãe – afirmou com voz inesperadamente firme e sincera – E muito menos tramaria sua morte para ficar com outra mulher, se é isso que quer saber. Cláudia aproximou-se de mim após o acidente, quando você estava no hospital. Nunca houve nenhum tipo de relação entre nós, que não fosse o socialmente cordial, antes disso. Precisa acreditar em mim, por favor!
Marcelo demonstrava todo o seu desespero, diante daquela acusação, na voz e na expressão dilacerada de seu rosto. Diego aprendera a gostar de Marcelo como um grande amigo e conselheiro e não conseguia imaginá-lo cometendo um crime hediondo como aquele.
- Eu acredito, Marcelo – disse finalmente.
- Tenho me sentido o maior dos canalhas por achar que fui o responsável pelo rompimento de vocês. – confessou depois de alguns instantes de silêncio.
- Não se culpe. O nosso relacionamento já não estava bem antes. Eu tentava me enganar, mas no fundo sabia que não duraria.
- Gostaria que soubesse que terminamos tudo, hoje pela manhã, antes de voltarmos de Salvador – falou com tristeza indisfarçável.
Nesse instante, o telefone tocou. Ângela, que descia as escadas e estava mais próxima do aparador onde soava o aparelho, atendeu.
- Residência dos Bernazzi, boa noite... Sim... Como? Um minuto, por favor – pediu e, colocando a mão sobre o bocal, invocou – Diego, é o pai de Cláudia ao telefone. Quer falar com você ou com Marcelo. Parece que ela foi hospitalizada e não está bem.
- O quê? – exclamou Marcelo, andando em passos rápidos até onde estava Ângela e tirando o aparelho de sua mão – Deixe que eu atendo.
À medida que Nicolas, o pai de Cláudia, contava o ocorrido, Marcelo empalidecia, até que despediu-se dizendo que já estava a caminho do hospital.
- O que houve, Marcelo? – perguntou Diego, preocupado.
- Cláudia. Parece que ela tentou o suicídio.
- O quê??
- Os vizinhos sentiram cheiro de gás vindo do apartamento dela e arrombaram a porta... Preciso ir até lá saber o que houve e ver como ela está.
- Eu vou com você – disse Diego.
- O Luis está aí? – perguntou Ângela, diante do estado semi-alcoolizado de Marcelo.
- Não. Eu o dispensei assim que chegamos do aeroporto, pois eu não pretendia sair novamente.
- Neste caso, é melhor que eu leve vocês. Não posso permitir que o senhor dirija nas condições em que se encontra.
- Obrigado, Ângela – agradeceu Marcelo – Mas eu estou melhor e...
- De jeito nenhum. Não queremos que aconteça mais um acidente por aqui. – proferiu Ângela com firmeza – Vamos. O meu carro está estacionado na entrada da garagem.
Marcelo ajudou a colocar a cadeira de Diego no porta-malas do automóvel e em seguida estavam a caminho do hospital. Era a segunda vez, em menos de sete dias, que Ângela se deslocava ao Hospital Joaquim Xavier.
Quando chegaram, Cláudia já tinha sido transferida da emergência para a UTI, onde estava em ventilação mecânica, recebendo oxigênio e tendo o coração monitorado pelo risco de infarto. Sua intoxicação havia sido grave e poderia ter causado a sua morte se os vizinhos não tivessem suspeitado do vazamento de gás e arrombado o apartamento a tempo.
Os pais de Cláudia aguardavam por notícias na sala de espera da UTI.
- O que aconteceu? – perguntou Marcelo aflito e cheio de culpa, após os cumprimentos de praxe.
- Não sabemos ao certo. Parece que ela tentou se matar – respondeu a mãe chorosa – Por que a minha filha faria uma coisa destas? Ela parecia bem. Foi passar o fim de semana com umas amigas e... Acontece isso?
- Marta, ainda não é certo que tenha sido isto que aconteceu – interferiu Nicolas, que parecia um pouco mais controlado – A polícia foi alertada pelos paramédicos e eles estão investigando. Já conversaram conosco por alto. Disseram que ela traumatizou a cabeça e que isto pode ter sido na queda, quando desmaiou devido ao gás, ou pode ter sido agredida por alguém. Talvez até um assaltante. Temos que ver se falta algo de valor no apartamento... Enfim – revelou a voz trêmula, que tentava manter-se firme até aquele momento – O que importa agora é saber se ela vai ficar bem. O médico nos falou que há risco de vida...
Antes que Marcelo ou Diego confortassem o pobre senhor, um estranho homem carrancudo entrou no recinto. Ele era moreno, de estatura mediana, aparentando 50 anos, cabelos escassos e despenteados, nariz grande e vestia um terno surrado. Seu aspecto era de quem tinha acabado de acordar.
- Boa noite – cumprimentou os presentes com uma voz melodiosa, que nada tinha a ver com sua aparência - Quem são os familiares de Claúdia Gutierrez?
- Somos nós – respondeu o casal quase ao mesmo tempo.
- Perdoem a minha presença neste momento de aflição, mas eu gostaria de fazer-lhes algumas perguntas em particular. É possível?
- Mas quem é o senhor?
- Eu o conheço... O senhor não é o policial que está investigando o caso de minha mulher? – interrompeu Marcelo.
- Boa noite, senhor. Tem boa memória... Meu nome é Romildo Corrêa e sou o mesmo investigador do caso de D. Ágata, sim.

Romildo Corrêa

- Nós somos os pais de Cláudia, senhor Corrêa.
- Ah, que bom. Por favor, podem me seguir? Consegui uma sala privativa onde podemos conversar. Com licença? – dirigiu-se aos demais, com um meneio de cabeça, sendo, logo então, seguido pelo casal angustiado.
Enquanto o investigador Corrêa desaparecia com os pais de Cláudia, Ângela tentava falar com Nair, sua amiga e enfermeira-chefe da UTI, para saber sobre o real estado da ex-noiva de Diego. Logo a recepcionista entrou em contato com Nair e pediu que Ângela entrasse na unidade.
- Vou tentar conseguir mais informações sobre ela e já volto – disse tentando apaziguar os ânimos de Marcelo e Diego.
- Obrigado – disse o primeiro extremamente agradecido.
Entrou e seguiu diretamente para a sala da colega e amiga, onde estivera poucos dias antes.
- Ângela! O que a trás de novo aqui? A estas horas de um domingo? Espero que ninguém da sua família...
- Oi, Nair! Não, ninguém da minha família, graças a Deus. É a respeito da moça que acabou de internar, Cláudia Gutierrez. Ela é ex-noiva do meu paciente, Diego Bernazzi. Como ela está?
- De novo esta família? Coitados... – pensou alto. – Na verdade, ela não está muito bem. Vão encaminhá-la para uma tomografia de urgência agora. Suspeitam que possa haver uma hemorragia cerebral por causa da pancada que levou na cabeça. Ela está comatosa. O neurologista que a avaliou ainda não sabe se é pelo TCE(traumatismo crânio-encefálico), pela intoxicação por gás ou por ambos motivos. Acho que só amanhã teremos mais informações. A princípio o estado dela inspira muitos cuidados.
- Parece que a polícia está investigando. Sabe de alguma coisa?
- Não. A única coisa é que as visitas estão proibidas, tanto por ordem do médico intensivista que está cuidando dela, como por ordem judicial. Sinto não poder dar notícias mais agradáveis a você ou à família.
- Muito obrigada, Nair, mais uma vez.
- Ligue para mim amanhã. Talvez já tenha melhores novidades, está bem?
- Está bem. Ligarei, sim.
- Vou indo, pois acabou de trocar o plantão e tenho que dar umas instruções para a nova equipe noturna. A gente se fala. Até amanhã.
- Até, Nair.
Despediram-se e Ângela foi até o box onde Cláudia aguardava para ser removida para a realização do exame. A visão de qualquer pessoa intubada e ligada a um aparelho de respiração artificial sempre era terrível. Era melhor mesmo que ninguém na sala de espera a visse naquele estado lastimável. Intimamente rezou para que a jovem conseguisse sobreviver sem sequelas daquele infortúnio.
Quando saiu da UTI, encontrou apenas três pessoas na sala de espera. Aproximou-se deles e perguntou por Marcelo.
- Ele quis falar com o investigador. Depois explico. E Cláudia? Conseguiu saber alguma coisa? – perguntou sob os olhares ansiosos dos pais dela.
- Não muita coisa. Ela vai fazer uma tomografia agora. Só amanhã teremos idéia do que aconteceu. Ela está inconsciente e não sabem dizer se é por causa da batida na cabeça ou pelo gás. A enfermeira-chefe é minha amiga e amanhã falarei novamente com ela para obter mais informações. Desculpem não poder oferecer melhores notícias...
- De qualquer forma, muito obrigado pelo seu interesse. – agradeceu Nicolas.

Enquanto isso, Marcelo mantinha sua conversa com o investigador Corrêa. Remoído pela culpa, acabou revelando ao detetive o seu relacionamento conturbado com Cláudia e do sentimento de responsabilidade pelo que tinha acontecido a ela, imaginando que tivesse sido uma tentativa de suicídio.
- Nós discutimos e eu acabei dizendo que talvez fosse melhor acabarmos com tudo, antes que começássemos algo mais sério. Agora, sinto que errei e, se ela morrer, jamais me perdoarei.
- Sinto muito ainda não poder dizer com certeza a causa deste incidente, mas creio que logo esclareceremos. Agradeço muito por sua informação. Será muito útil em nossa investigação.
- Espero que esta investigação tenha melhor sorte que no caso de Ágata – disparou irritado com o aparente desleixo e desmotivação do homem.
Corrêa olhou Marcelo de alto a baixo, contraindo os lábios finos no canto direito da boca e semicerrando as pálpebras.
- Mais alguém sabia deste... “affair” de vocês? O senhor Bernazzi,...? – indagou intrigado.
- Não. Só contei ao Diego sobre nós hoje, pouco antes de nos avisarem que ela estava hospitalizada.
- Tem certeza disto? – reiterou.
- Sim... Isto é – refletiu – Eu contei para a secretária da empresa Bernazzi, Glória, antes de viajar, na sexta-feira. Ela descobriu as passagens em nossos nomes e veio me cobrar uma posição.
- Ela tem tanta intimidade assim? – redarguiu curioso.
- Ela é quase da família, senhor Corrêa. Mas não vejo no que isto possa ter relação.
- É. O senhor tem razão. Este fato não deve ter importância no caso – disse baixando os olhos para a caderneta onde fazia suas anotações. – O senhor gostaria de me contar mais alguma coisa que considere importante?
- Não... Acho que já lhe disse tudo... – respondeu inseguro – Só gostaria que me esclarecesse uma coisa.
- Pois não?
- Por que o senhor está tão interessado no que aconteceu a Cláudia, já que isto não deve ter relação com o assassinato de Ágata?
- O senhor acha que não há relação? Pois eu já não teria tanta certeza assim.
“Este homem deve ter visto muitos seriados americanos de detetives e está tentando achar ligações que não existem. Não conseguiu nem descobrir ainda quem foi que provocou o acidente de Ágata.”, pensou desiludido com as investigações que vinham sendo feitas.
- Só espero que o senhor não desista de investigar o caso de minha mulher, que continua insolúvel.
- Não se preocupe, senhor Marcelo. O caso da senhora Bernazzi continua sendo minha prioridade – afirmou com um sorriso enigmático nos lábios – Boa noite, senhor.
- Boa noite.
Marcelo voltou à sala de espera e mostrou-se desanimado com as notícias que Ângela tinha conseguido.
- É melhor irmos embora – sugeriu Diego.
- Diego, meu filho – interviu Marta – Cláudia me contou que rompeu com você. Só queria lhe dizer que fiquei muito triste, pois gosto imensamente de você, assim como admirava sua mãe também. Não sei o que deu nesta menina...
- Não se preocupe com isso agora, D. Marta. Está tudo bem. Este rompimento foi uma atitude ajuizada e uma resolução de nós dois.
Ângela notou o retraimento de Marcelo diante deste diálogo. Talvez não estivesse errada em suas suspeitas, afinal.
Despediram-se e retornaram para casa. No caminho, Marcelo agradeceu a gentileza de Ângela levando-os ao hospital e conseguindo informações sobre Cláudia. Queria ter ficado na porta da UTI aguardando notícias, mas a presença dos pais o inibiu, principalmente depois de ouvir o último comentário a respeito do rompimento com Diego. Dessa maneira, recolheu-se ao seu quarto, dando apenas um “boa noite” antes de sumir degraus acima.
- Você está bem? – perguntou Ângela, receosa que o abatimento de Diego naquele momento fosse motivado por ainda nutrir algo além de uma amizade por Cláudia.
- Ainda não tenho certeza do que estou sentindo – disse referindo-se principalmente às revelações de Marcelo – Foram muitas informações desagradáveis para uma só noite.
- “Informações”? Quais foram as outras?
- Na conversa que tive com Marcelo antes do telefonema, ele me revelou que tem mantido um envolvimento com Cláudia desde quando eu estava internado, após o acidente. Neste fim de semana viajaram juntos, mas acabaram brigando. Agora ele está sentindo-se responsável pelo que aconteceu a ela.
- Eu já imaginava que isso pudesse estar acontecendo, mas não tinha certeza. Como você se sente em relação a isto?
- Desconfortável... Tinha visto alguma coisa entre eles?
- Nada além de olhares e cochichos nos cantos da casa.
- Eu também já percebera algumas evidências, mas as negava.
- Então... É melhor que eu vá agora. Você precisa descansar.
- Eu não estou cansado... Por que não fica aqui esta noite? Por favor... – rogou de um jeito que ela não poderia negar.
- Tem certeza que quer que eu fique? – queria ouvi-lo pedir de novo.
- Por que duvida disto? Ainda não percebeu que eu a amo e que não me agrada nem um pouco a idéia de ficar longe de você?
Um arrepio percorreu o corpo de Ângela ao ouvir a inesperada declaração, que colocava por terra todas suas dúvidas em relação a Diego.
- Tinha medo que você ainda sentisse alguma coisa por Claúdia.
- Sinto sim. Pena, remorso, algum afeto pelo que tivemos no início do namoro... – enquanto falava aproximava-se dela devagar. – Mais alguma coisa? Acho que não... – respondeu a si mesmo – Estou triste pelo que aconteceu a ela. Espero que se recupere e fique com quem ela realmente ama... – disse, enlaçando Ângela pela cintura, abraçando-a, colocando a cabeça de encontro ao seu ventre e finalizando sua frase – Assim como eu.
- Diego, meu amor... – segurou seu rosto entre as mãos e possuiu seus lábios com ternura.
- O que a gente ainda está fazendo aqui em baixo? – perguntou ele com voz rouca – Preciso de você esta noite, mais do que nunca...
Sem responder, Ângela, com um sorriso lascivo, acompanhou-o até o elevador.

Chegando ao quarto, despiu-o lentamente, abusando dele com o olhar, admirando seu corpo perfeito que a incendiava de desejo. Com um rápido movimento, Diego foi para a cama onde ficou sentado observando-a, ansioso por tê-la em seus braços. Como queria, naquele momento, ter suas pernas de volta. Às vezes quase tinha a certeza que sairia andando, mas alguma coisa o impedia. Podia sentir sua musculatura vibrando, a sensibilidade a flor da pele, o calor e o toque das mãos, tudo a espera de um comando seu para voltar a movimentar-se, mas acabava por se manter estático. Estes pensamentos foram interrompidos pela imagem de Ângela a se despir sensualmente a sua frente, torturando-o. Mais uma vez pode sentir-se vivo e potente, pronto para viver mais uma deliciosa aventura através do corpo de sua amada.


Espero que tenham gostado deste capítulo. Acho que agora as coisas devem começar a esclarecer-se melhor, com a entrada do investigador Corrêa. Que acharam dele e de seu aparecimento na estória? Volto muito breve, se tudo der certo. Mais uma vez o meu muito obrigada às demonstrações de carinho e preocupação. Agora está tudo bem.
Beijos à todas!!