sexta-feira, 16 de abril de 2010

Coração Atormentado - Capítulo IV



Lembranças



Lino fora pontual. Às sete horas e dez minutos despedira-se dele e de Diego e agora se encontrava a caminho de seu apartamento no bairro Santo Antônio. Estava cansada. Diego não era um paciente fácil, mas tinha grandes chances de superar aquela má fase. Ficara preocupada com as atitudes da noiva e do padrasto que não pareciam ser muito positivas. Ainda precisava saber exatamente qual a altura de sua lesão e a extensão. Talvez houvesse esperanças dele voltar a andar. Conhecia a chefe da enfermagem do Hospital Joaquim Xavier, onde ele estivera internado. Falaria com ela para ter mais informações e talvez conseguisse acesso ao seu prontuário. Afinal ela estava preparando sua tese. Não teria dificuldades em conseguir estes dados. Tentava ocupar sua mente com fatos e deveres, para fugir de alguns sentimentos que foram despertados naquele primeiro contato com Diego. “Ele lembra demais o Tomás...”, pensou enquanto esperava o sinal verde aparecer. Ligou o rádio
para espantar aquelas lembranças e seguiu para casa no fluxo do trânsito.

ÂNGELA


                                                                                
O toque do telefone despertou-a de sua abstração, enquanto revirava a salada em seu prato.
- Alô?
- Filha! Finalmente consegui te achar! – exclamou a voz de sua mãe do outro lado.
- Aconteceu alguma coisa, mãe?
- Sim! Estou com saudades, querida! Você não liga. Ando preocupada com a falta de notícias.
- Desculpe, mãe, mas é que estou envolvida com a minha tese. Além disso, iniciei um novo trabalho hoje.
- Mas você não ia dar um tempo para poder dedicar-se só ao mestrado?
- É... Mas surgiu uma boa oportunidade, que além de tudo pode ajudar na tese.
- Mais um paraplégico? – demonstrou desagrado no seu tom de voz.
- E você como está, mãe? – tentou desviar do assunto que certamente a levaria a uma discussão interminável.
- Preocupada com você. Quando você vai esquecer o que aconteceu, filha?
- Mãe, isto não tem nada a ver. Por favor... É apenas o meu trabalho.
- A Enfermagem tem outras especializações. Por que escolheu exatamente lidar com este tipo de paciente? É claro que tem a ver, sem dúvida.
- E se tiver? É uma maneira que encontrei para aceitar melhor o que houve. É tão difícil de entender?
- Está bem, filha. Não vou incomodá-la com as minhas preocupações. Só quero que você seja feliz novamente... Antes que eu esqueça. Seu irmão deve chegar nos próximos dias. Vem para apresentar a noiva americana. Estou morrendo de curiosidade. Pelas fotos que mandaram, ela é bem bonita.
- Que bom! Estou morrendo de saudades do Gabriel.
- Quando ele estiver para chegar, lhe aviso. Pode ser que então você apareça.
- Mãe... Prometo que vou até aí neste final de semana. Ligo antes avisando, tá bom?
- Está bem, querida. Vou esperar. Sabe como me sinto só desde a morte do seu pai.
- E a tia Lourdes? Não tem lhe feito companhia? – sorriu.
- Aquela chata? Não me deixa parar um minuto. É cinema, lanches na confeitaria, passeios no parque... – começou a rir também – Ela está aqui do meu lado, louca para falar com você. Vou passar para ela. Um beijo, filha!
- Beijo, mãe!
- Ângela? Oi, querida! Como você está? Trabalhando muito? – a voz da irmã de seu pai e melhor amiga de sua mãe era doce e musical e a fazia lembrar sua infância quando cuidava dela e de seu irmão mais velho, Gabriel, enquanto seus pais cumpriam compromissos sociais ou viajavam.
- Oi, Tia Lourdes! Que bom ouvir a sua voz. Está tudo bem com a senhora?
- Mais ou menos... Você sabe que aguentar a Isabel não é fácil. Estas mulheres de meia-idade são um saco!
Ângela podia ouvir sua mãe gargalhando ao fundo e dizendo que a cunhada era da mesma idade. Elas se davam muito bem, mas adoravam brincar que não se suportavam diante dos outros, inclusive dela. Conversaram mais um pouco sobre a vinda de Gabriel, que morava nos Estados Unidos, desde que terminara sua residência em cardiologia pediátrica, há seis anos. Sua última visita à Belo Horizonte tinha sido há três anos. Sua mãe e a tia iam até lá pelo menos a cada seis meses verificar se ele estava bem, sob o pretexto de fazer compras em Chicago.
- Então nós vamos esperá-la, querida. Cuidado com a estrada, viu? – referindo-se ao trecho de 30 quilômetros a percorrer antes de chegar no sítio onde moravam, em Casa Branca, um pequeno povoado na região serrana sul da grande Belo Horizonte – Um beijo, Ângela!
- Um beijo, tia. Até! – desligou quando ouviu o clique do outro lado.
Era sempre bom falar com Tia Lourdes. Ela tinha um alto astral incrível. Parecia estar sempre de bem com a vida e nunca deixava de sorrir ou de ter uma palavra de ânimo a quem necessitasse. Nunca se casara. Segundo sua mãe, ela tinha sido muito apaixonada por um peão da fazenda onde fora criada, mas o pai não permitiu o namoro dos dois e o despediu, proibindo que voltassem a se encontrar. Ela nunca mais falou sobre o assunto. Passou a dedicar-se ao magistério e às crianças da escola onde trabalhava. Depois, foi morar com o irmão Laerte e sua esposa, ajudando a cuidar dos sobrinhos. Mantinha seus cuidados com a família seus cuidados com a família estando, agora, a fazer companhia à Isabel. Era uma pessoa de valor inestimável.
Ângela terminou seu jantar e buscou seu laptop para procurar artigos que pudessem ajudá-la em sua tese. Enquanto lia, não conseguia impedir que sua mente voltasse à casa onde passara o dia, na Cidade Jardim. Lembrava do olhar de Diego e pensava como seria ele antes daquela tragédia, sem toda aquela dor corroendo seu coração. Quando percebeu que sua atenção não estava sendo dada exatamente aos artigos que procurava, resolveu dormir. O dia seguinte a esperava e sabia que não seria fácil. Infelizmente o sono custou a chegar. Os acontecimentos do dia, os olhares e palavras voltavam a afligi-la. Mesmo depois que foi vencida pelo cansaço, sua noite continuou inundada pela presença de Diego, em sonhos confusos e intrigantes.

Não teve tempo de preparar seu café, pois acabou acordando mais tarde do que devia e saiu correndo. Não pegaria muito bem chegar atrasada já no segundo dia de trabalho.
Lino já estava a sua espera.
- Bom dia, Ângela.
- Bom dia, Lino. Como foi a noite?
- Tranquila, mas acho que “alguém” perdeu o sono lá em cima. Ficou com a luz acesa até boa parte da madrugada, pelo menos até as duas horas, que foi a última vez em que passei por lá para ver se estava tudo bem.
-Ele já está acordado?
- Creio que não, pois sempre chama pela campainha, que toca diretamente aqui nesta saleta, ao acordar. Acredito que logo não precisará dos meus serviços à noite, pelo menos foi o que conversamos dias atrás. Vai ser bom, pois nós dois poderemos dividir os dias e eu vou deixar de dormir nesta terrível poltrona-cama. Quem vai precisar de fisioterapia, em breve, serei eu se continuar a passar as noites aqui.
- Bom, então vá descansar. Eu assumo daqui. Vou lavar as mãos, tomar um café para acordar e esperar meu mestre chamar – disse sorridente.
- Como foi seu primeiro dia? Não pudemos nos falar ontem.
- Na medida do possível, foi bom. Só fiquei preocupada com as atitudes da noiva. Ela não parece aceitar nada bem o estado dele. Chegou a me dizer que era melhor ele ter morrido. Não é a toa que ele quer ver ela longe daqui.
- Já notei isso também... O melhor era ela parar de vir aqui, mas isso não compete a nós.
- Tem razão.
- Um bom dia para você, Ângela. Vou indo. Até o final da tarde – despediu-se, pegando sua maleta de mão.
- Tchau, Lino. Até.

Tão logo viu-se sozinha, ela encaminhou-se para a cozinha, não sem antes lançar um olhar para a campainha que deveria tocar logo. Já ia entrar, quando ouviu as vozes de Zica e Clara.
-Viu só? O Dr. Marcelo nem quis saber da mulher do José. A coitada esteve aqui ontem e ele não quis falar com ela.
- Mas o que ela queria?
- Veio de novo implorar para que tirem a queixa contra o marido. Diz que ele é inocente e coisa e tal.
- Esta estória está muito mal contada...
- Pois é...
Ângela deu uma breve tossida e entrou na cozinha. Imediatamente as duas empregadas pararam de falar.
- Bom dia, garotas. Tudo bem? – disfarçou. Não queria que elas percebessem que tinha ouvido a conversa, apesar de terem despertado sua curiosidade. Não apreciava fofocas, mas gostaria de saber um pouco mais sobre o acidente que envolvera seu paciente e a mãe.
- Tudo, dona Ângela.
- Por favor, me chamem de Ângela. Será que tem um cafezinho pronto por aí? Não consegui comer ou beber nada antes de vir para cá.
- Claro. Já vou lhe servir um café quentinho. Não quer tomar um suco ou comer alguma coisa.
- Aceito. Não quero desmaiar quando for ajudar o senhor Diego.
Mal tinha tomado um gole de café e ia comer um sanduíche de queijo feito por Zica, quando ouviu o som estridente da campainha na saleta.
- Bem, o dia começou. Obrigada, D. Zica. Guarde o meu sanduíche, por favor. Assim que tiver uma brecha, volto aqui.
- Claro, querida.

Quando subia as escadas, cruzou com Marcelo, que descia apressado.
- Bom dia – disse com voz gutural e com cara de pouquíssimos amigos.
- Bom dia – respondeu enquanto ele passava reto por ela, negando qualquer possibilidade de conversa. Ficou imaginando se Diego estaria de melhor humor.
Bateu na porta com firmeza e entrou depois de ouvir a permissão dada pela voz rouca de Diego. Porém ao entrar, foi recebida com uma exclamação de contrariedade. Não conseguiu ver seu rosto, pois o quarto estava na penumbra.
- E o Lino? Já foi? – perguntou sem nem ao menos cumprimentá-la.
- Em primeiro lugar, bom dia. Em segundo, sim, ele já foi, pois já passa das oito horas e ele sai as sete – respondeu, enquanto abria as cortinas.
- Deixe-as fechadas – ordenou.
Ela o olhou e, com a claridade que entrava abundante, notou que ele estava sem camisa, tentando erguer-se da cama, cobrindo-se com o lençol.
- Está bem – obedeceu fechando-as rapidamente. Não queria deixá-lo vexado logo cedo – Posso ajudá-lo?
- Não!
- Ao menos, deixe-me alcançar suas roupas. Você consegue vesti-las sozinho?
- Droga!
- Diego, não precisa ficar assim só porque o Lino não está aqui para ajudá-lo. Não precisa ter vergonha. É a minha profissão... Estou acostumada a...
- Não é questão de vergonha – interrompeu-a asperamente – Nunca tive vergonha de meu corpo ou de ficar nu diante de uma mulher...
Ela respirou fundo, percebendo o problema dele.
- Sei que não é fácil esta dependência, mas tente pensar que logo você vai poder fazer tudo isso mais facilmente e sem ajuda. Para isso, a fisioterapia...
- Preciso ir ao banheiro, droga!
- Então, mexa-se! – exclamou, imediatamente trazendo a cadeira própria para realização de necessidades, e colocando-a ao lado da cama. – Venha! Apoie-se nos braços. Você tem força para isso. Já vimos isto ontem.
Aos poucos, ao comando de Ângela, ele começou a aproximar-se da beirada da cama, com a ajuda dos braços. Durante todo o tempo ela tentava fixar-se apenas no seu rosto, já que ele estava completamente nu. Mantinha a expressão impassível para transmitir-lhe confiança, e ele estava começando a corresponder aceitando sua ajuda.
- Isso mesmo – continuou incentivando-o – Apóie-se em mim e jogue o corpo sobre a cadeira... Assim!
Logo que ele conseguiu sentar, ela o empurrou até o banheiro, que já estava adaptado às necessidades de um cadeirante. É impressionante o que o dinheiro pode fazer em pouco tempo, pensou.
- Segue sozinho daqui em diante?
- Sim – respondeu aborrecido.
- Se precisar de mim, estarei do outro lado da porta.
Ela podia ouvi-lo quando se deslocou até a pia para fazer a higiene. Sentindo que ele estava conseguindo se virar sozinho, foi até o armário e pegou roupa íntima, meias e um abrigo esportivo para vesti-lo. Deixou-as sobre a cadeira de rodas normal, travada ao lado da cama, e voltou à porta do banheiro onde os barulhos haviam cessado. Imaginou que ele estava pensando no que faria a seguir, sem sua ajuda.
- Diego, que tal voltar para a cama, descansar um pouco do esforço que fez e esperar pelo café? Vai ser bom treinar mais uma vez este movimento de levantar-se da cadeira para mudar de lugar. Que tal?
Fizeram-se alguns minutos de silêncio, em que Ângela aguardou pacientemente.
- Está bem... – concordou brandamente – Vou sair daqui. Pode abrir a porta?
E foi o que ela fez lentamente. Lá estava ele, coberto por uma toalha de banho, com os cabelos úmidos e olhos baixos. Teve vontade de afagar-lhe a cabeça e... “Pare com isso, Dona Ângela!”, disse a si mesma, endurecendo. Se queria que ele a tratasse como uma profissional, não podia ter este tipo de arroubos. Ao invés de afagar-lhe, saiu da frente da cadeira para dar-lhe passagem, deixando que ele continuasse a dirigir sozinho, coisa que ele já podia fazer perfeitamente bem. Ele foi até a cama e perguntou hesitante:
- Pode me ajudar a deitar novamente?
Prendendo um sorriso que quase lhe escapou ao ouvir o pedido de ajuda, foi até ele e serviu-lhe como apoio para que pudesse deitar. Por um momento, suas faces quase se tocaram e ela pode sentir a respiração ofegante dele em sua pele. Sentiu-se corar e rezou para que ele não percebesse. Cobriu-o com o lençol e acomodou os travesseiros às suas costas o mais rapidamente possível evitando aquele olhar que a analisava intensamente agora. Soltou um breve suspiro e falou determinada:
- Bem, agora que já está acomodado, vou buscar o seu café. Deixei suas roupas sobre a cadeira.
- Obrigado – agradeceu olhando-a firmemente, mas sem a arrogância de antes.
- Não há do quê – respondeu antes de sair do quarto.
Ao voltar, notou que ele conseguira vestir a calça do abrigo. Pode perceber as gotículas de suor no rosto e no peito, a brilhar nas sombras
. Não comentou a respeito. Apenas colocou a bandeja com o café sobre a cama.
- Vou deixá-lo tomando seu café à vontade e volto quando terminar. É só me chamar tocando a campainha.
Quando fez menção de virar-se na direção da porta, ouviu sua voz:
- Fique... Por favor.
Um estranho calor subiu por seu peito, provocando um arrepio em seu pescoço, ao ouvir aquele pedido.
- Quer que eu abra um pouco a cortina?
- Não. Quero que você sente aqui – pediu, apontando para a poltrona que havia ao lado da cama – Já tomou café?
- Na verdade... Não... – estranhou a súbita mudança de comportamento, mas estava agradavelmente surpresa.
- A Zica colocou muita coisa aqui. Pode dividir comigo?
- Obrigada, Diego, mas não. Posso lhe fazer companhia...
- É contra as regras a enfermeira dividir o café da manhã com seu paciente?
- Não é isso... – sorriu nervosa, pois, de repente, ela não sabia como reagir àquela tentativa de aproximação inesperada – Você quer conversar? – continuou, sentando-se no lugar que ele lhe indicara.
Ele a sondava com seus olhos verdes, que pareciam brilhar em meio às sombras do quarto como se fossem os olhos de um grande gato, deixando-a ligeiramente agitada, na defensiva e intrigada com o clima de sedução gerado por ele.
- O que a fez escolher esta profissão? – perguntou enquanto passava manteiga em uma torrada.
- Vai ser um interrogatório para ver se estou apta a continuar aqui? – retrucou alegremente, disfarçando o nervosismo.
- Não, só estou querendo saber o que leva uma jovem como você a querer trabalhar com deficientes físicos.
- Alguém tem que cuidar destes pacientes. Além do mais, gosto de desafios.
- Eu sou apenas mais um desafio, então?
- Digamos que você seja um desafio mais teimoso e arrogante.
- Você já namorou um paraplégico? – disparou a pergunta contra Ângela que se tornou muito séria e desconsertada.
Sentindo as lágrimas aflorarem, agradeceu pela penumbra imposta por Diego, que o impediria de vê-la naquele estado. Pensou na resposta a dar, mas os pensamentos ficaram mais confusos.
- Toquei em algum assunto proibido? – ele continuou, sentindo a tensão que provocara nela.
- Não... De modo algum... Por que acha isso?
- Não sei. Achei que talvez isto explicasse a escolha de seu trabalho. Talvez um desafio que não conseguiu resolver...
“Como ele pode adivinhar estas coisas? Que demônio! Preciso sair daqui...”, desesperava-se, sentindo que não poderia represar o choro por mais tempo.
- Escolhi meu trabalho porque gosto de ajudar pessoas com problemas, como você – tentava esconder o tremor da voz – E acho que realmente o seu problema é muito maior que a paralisia. Só gostaria de saber se você já era assim antes do acidente. Acredito que não. Só uma dor muito grande pode tornar alguém tão insensível, grosseiro e amargo. Mas não pense que vou desistir de procurar o melhor do Diego que existe aí para poder trazê-lo de volta à vida – desabafou, terminando o discurso com um só fio de voz.
Levantou-se da poltrona, diante da expressão surpresa e preocupada de Diego, que já se arrependia de ter feito aquelas perguntas.

DIEGO

Acabara, sem querer, magoando Ângela.Mas antes que pudesse desculpar-se, ouviu-a dizer com a voz embargada:
- Com licença. Vou ver se o Carlos já chegou – e saiu, deixando-o atônito.


Demorei, mas postei, apesar deste capítulo ainda não ter sido encerrrado. Resolvi publicá-lo antes, para não deixar vocês muito ansiosas(rsrsrs). Confesso que além da falta de tempo, tive um ligeiro bloqueio criativo, que já foi sanado. Espero até domingo colocar o final deste capítulo (não da estória, é claro). Espero que estejam gostando. Por favor, comentem. Como sempre digo, a opinião de vocês é super importante para mim.
Beijos, minhas queridas!!
PS: Gostaram das escolhas das personagens? Meus mais sinceros agradecimentos à Cris, que sugeriu a Anne Hathaway para personificar a Ângela. Agora não consigo imaginar ninguém melhor para o papel. Beijão, Cris!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Coração Atormentado - Capítulo III

Já pronta, com os cabelos ainda úmidos presos por um delicado prendedor de cabelo, entrou na casa, dirigindo-se ao quarto de Diego. Precisava conversar com ele e tentar conseguir sua confiança. Já previa que isso não seria fácil, mas não desistiria de tentar. Quando estava próxima a escada, assustou-se ao ouvir uma voz potente fazer-lhe uma pergunta.
- Você é a nova enfermeira?
Era um homem alto, magro, mas forte e elegante, aparentando uns quarenta e poucos anos, com um início de calvície, que era notada devido as grandes entradas nas laterais da testa. O restante do cabelo, com vários fios grisalhos em meio aos castanhos, encontrava-se penteado para trás e fixado com algum tipo de gel. Tinha olhos negros penetrantes, sob sobrancelhas cerradas, que no momento lançavam-lhe um olhar arguidor. Sua presença lhe pareceu ameaçadora.
- Sim... E o senhor, deve ser o padrasto de Diego.
Ele apenas assentiu com a cabeça, mantendo a expressão fechada.
- Muito prazer. Meu nome é Ângela Paes e sou a nova enfermeira, sim – apresentou-se, oferecendo a mão direita em cumprimento.
- Creio que meu enteado havia solicitado um enfermeiro homem – disse, desprezando a mão oferecida e deixando a sensação de “déjavu” na enfermeira.
- Já conversei com Diego, ele já entendeu as razões de minha presença e aceitou.
- Isto é muito inconveniente.
- Não vejo porque, senhor.
- Bem não vou discutir isto com você. Depois me entendo com o Lino – cortou o assunto irritado.
Ângela resolveu não levar adiante a discussão, já que o principal interessado já a aceitara.
- Onde ele está?
- Lino?
- Não. Meu enteado, é claro.
- Está lá em cima, com seu fisioterapeuta – respondeu a contragosto.
“Pelo menos ele parece preocupado com Diego”, pensou Ângela, sentindo-se mal com o modo como o homem a tratara. Mas, de cabeça erguida, seguiu-o, enquanto subia as escadas.
Ao entrarem no quarto, Marcelo pareceu mudar completamente de humor. Saudou Diego alegremente, que pareceu satisfeito em ver o viúvo de sua mãe.
- Então, como está o nosso presidente?
- Presidente de quê, Marcelo? – respondeu com um sorriso tristonho – Um presidente que não consegue ir ao escritório ou participar das reuniões.
- Mas isto pode mudar, não é verdade, Carlos?
- Tenho certeza disso – confirmou o indagado, sorrindo.
- Logo você estará apto a voltar à ativa e presidir a empresa de sua família. Confesso que ando meio perdido naquele escritório. Todos sentem muito a sua falta.
- Quero conversar com você em particular, Marcelo – disse com expressão preocupada – Quero saber como andam os negócios e... As investigações sobre o acidente.
- Bem, já terminei meu trabalho aqui com o nosso atleta. Volto amanhã para continuarmos – interrompeu Carlos, percebendo que pediam a sua retirada.
- Obrigado, Carlos. Até amanhã – respondeu Diego – Pode nos dar licença, enfermeira? – convidou Ângela a retirar-se, com um olhar irônico.
Ele insistia em tratá-la com uma intrusa, ou pelo menos fazê-la sentir-se como tal. Mas, ela fez que não notou e saiu junto com o fisioterapeuta sem dizer uma palavra ou fazer qualquer demonstração de seus sentimentos.

- Que investigação é esta de que ela falou? – perguntou a Carlos, pouco depois de deixarem o quarto.
- É sobre o motorista anterior, um tal de José. Parece que foi ele que danificou os freios do carro onde Diego estava com a mãe. A história é meio complicada. Dizem que o motorista estava apaixonado por Ágata, a mãe de Diego, e quando ela dispensou os serviços dele, deixando-o apenas para servir o marido e a outras tarefas, ele ficou indignado e alterou os freios do carro que ela usava, causando o acidente. Infelizmente, no dia do acidente, Diego resolveu dirigir o carro para a mãe e... Deu no que deu.
- Mas que horror. Eu não sabia de nada disso.
- A família conseguiu abafar o caso na imprensa. Mas sei que o motorista está preso, aguardando as investigações que comprovem a sua culpa. Ele alega ser inocente, mas Marcelo jura que somente ele poderia ter um motivo para acabar com Ágata. E Diego parece determinado a acreditar nisso também. Parece que ele tem uma boa relação com o padrasto.
- É... Eu notei.
- Cuide-se, Ângela. Amanhã estarei de volta. Faça alguns exercícios de alongamento com ele à tarde. Vi que você estava bem atenta durante a sessão de hoje e sei que poderá repeti-los.
- Temos uma consulta com o oftalmologista logo após o almoço. Faremos os exercícios quando voltarmos. Pode deixar. É para isso que estou aqui.
- OK! Até amanhã, então.
- Até amanhã – despediu-se. Fechou a porta atrás de si e ficou aguardando que Marcelo descesse.

Como não foi convidada a sentar-se a mesa pelos donos da casa, Ângela retirou-se depois de deixar Diego acomodado junto à Marcelo.
O almoço transcorria tranquilo, até que Cláudia chegou. Foi clara a perturbação de Diego ao vê-la entrar na saleta onde estavam.
- Olá, rapazes! Pelo jeito cheguei bem na hora. Já que não pude tomar o café da manhã com meu querido noivo, talvez possa almoçar.
- Eu já terminei – disse Diego, secamente.
- Marcelo, você tem que falar com este seu amigo que eu não aguento mais ser tratada desse jeito por ele.
- O que está havendo, Diego? – perguntou Marcelo – Você tem tratado a Cláudia muito mal desde que voltou para casa. Ela não merece este tipo de tratamento.
- Eu já a liberei do nosso compromisso. Não sei por que ela ainda insiste em continuar vindo aqui. Eu sei que ela já tem outro. Então, por que continuar com esta encenação?
- Não sei de onde você tirou esta idéia... Diego, eu continuo gostando de você do mesmo jeito.
- Mentirosa!
- Está bem, crianças. Vamos parar com esta discussão e acalmar-se – Marcelo tentou apaziguar – Sente-se, Cláudia.
- Eu já terminei. Onde está a enfermeira? Quero subir! – falou alto, para ser ouvido por Ângela, que logo estava ao seu lado.
- Estou aqui.
- Leve-me para o quarto.
- Diego, espere, amor... Temos que conversar.
- Ele tem que se preparar para a visita ao oftalmologista logo mais –intrometeu-se Ângela.
- Quem lhe perguntou alguma coisa? – esbravejou Cláudia, claramente irritada com a intervenção da estranha.
- Ela tem razão. Não posso me atrasar. Vamos logo com isso, Ângela – disse aparentemente aliviado com a lembrança de Ângela a respeito da consulta e da qual tinha esquecido.
Ao ouvir se nome ao invés da fria palavra “enfermeira” de antes, sentiu-se um pouco cúmplice de Diego, e esperava que ele também se sentisse assim. Não gostava de intrometer-se na vida íntima de seus pacientes, mas naquele caso, duvidava que a presença desta noiva trouxesse algum benefício ao tratamento. Cláudia tinha alguma coisa de falsa em suas falas e no seu olhar. Esperava estar enganada, mas até lá ficaria ao lado de seu contratante.
Sem dizer nenhuma palavra, subiram ao andar superior. Quando entraram no quarto, Ângela perguntou:
- Você está bem?
- Sim. Por que não estaria?
- Apenas queria saber, pois me preocupo com você. Não precisa ser grosseiro.
- Não estou sendo grosso... Por que se preocupa comigo?
- Você é meu paciente e minha responsabilidade. Preciso de mais motivos?
Ele não respondeu. Continuou a olhar para baixo. Quando ela tornou a empurrar a cadeira na direção do banheiro, ele a interrompeu.
- Me deixe ir sozinho. Ainda posso escovar os dentes sem ajuda.
- Como quiser.
Ficou observando-o girar as rodas da cadeira para deslocar-se até o banheiro da suíte. Não precisaria trocar de roupa, pois Carlos já se ocupara disso antes de sair.
- Estou pronto. Sou todo seu... – disse com ar malicioso ao sair do banheiro.
- É ótimo ouvir isto de um homem – respondeu sorrindo.
- Mesmo que seja de um homem pela metade?
- Senhor Bernazzi, por que não pára com isso? Esta auto-comiseração não vai levar a lugar algum. Por que não baixa essa guarda um pouco.
- É melhor irmos andando ou vou perder a consulta, Senhora Ângela – voltou a ficar carrancudo, tornando a ruga entre as sobrancelhas mais profunda que o normal.
- Concordo. Me permite? – apontou para a cadeira, pedindo licença para empurrá-la.
Ele concordou com um meneio da cabeça e ficou a encará-la, esperando seu próximo movimento.
Quando desciam no elevador, Ângela notou que Cláudia e Marcelo conversavam em voz baixa, num canto da sala. Na posição em que estava Diego não podia vê-los. Assim que perceberam a presença deles descendo, emudeceram e separaram-se rapidamente.
O motorista já os esperava com o carro na entrada da casa. Diego Foi colocado no banco da frente, enquanto Ângela dobrava a cadeira e esperava para que Luís a ajudasse a colocá-la no porta-malas.
Finalmente chegaram à elegante clínica oftalmológica localizada no Bairro Funcionários. Sem trocar palavra alguma com sua acompanhante, Diego teve de esperar poucos minutos para ser atendido. Provavelmente o primeiro horário tinha sido escolha sua, já que a possibilidade de ter que aguardar em meio a outros pacientes era remota. Foi recebido efusivamente pelo Dr. Ayrton, que logo lhe dava a boa notícia, após um exame minucioso, de que seus olhos estavam praticamente intatos. Como tinha dito, ainda no hospital, só precisaria de óculos para leitura. Estava surpreso com a ótima cicatrização de suas córneas. Em momento algum tocou no assunto locomoção. Deu-lhe a receita para fazer os novos óculos e despediu-se, solicitando uma nova revisão em seis meses. Quando estavam para deixar o prédio, já dentro do carro, ouviram uma voz masculina chamando por Diego.
- Ei, cara! – ele aproximou-se correndo do carro, do lado de Diego – Não reconhece mais os amigos?
Ângela sentiu-o retesar-se no assento da frente, incomodado por aquela aparição súbita.
- Oi, Bruno. Tudo bem? Eu não o vi. É por isso que tive que vir a esta clínica.
- Eu também ando com problemas de visão. Deve ser a idade – disse sorridente. – E você? Soube que sofreu um acidente, mas pelo que vejo não foi grave. Temos que nos encontrar para sair – Só então ele notou a presença da mulher vestida de branco no banco de trás e a inércia de Diego, que em outros tempos não estaria num carro com motorista nem tampouco ficaria sentado ao reconhecê-lo. Sua expressão logo se transformou de alegre para preocupada e tornou a perguntar.
- Você está bem, Diego? – olhando de soslaio para Ângela.
- Claro! Está tudo ótimo. Falamos-nos outra hora. Tenho um compromisso logo mais e não posso me atrasar. Até mais! – despediu-se com um sorriso forçado. Sua tensão era clara e certamente isto resultaria em mais uma crise de depressão ou de mau humor ao chegarem em casa.

- Diego... Quer conversar sobre o que aconteceu? – perguntou-lhe, ao voltar para a segurança dos jardins de sua mansão, tentando quebrar o pesado silêncio que os envolvia.
- Por que acha que vou querer conversar com você a respeito disso?
- Por que estou aqui, por que estou disponível, por que quero ajudá-lo, por que posso entender o que está sentindo... Quer mais motivos?
- Como pode entender, se tem suas pernas perfeitas e pode ir e vir para onde bem entende sem precisar de uma babá? – lançou-lhe um olhar frio.
Ela ficou muda por alguns instantes, olhando para as montanhas diante deles, aparentemente buscando uma maneira de expressar sua solidariedade. Voltou a olhar para ele e, após um breve suspiro, disse:
- Tem razão. Talvez eu não possa saber exatamente o que você sente, mas posso ter uma boa idéia do que sente. Já cuidei de muitas pessoas com o mesmo problema que o seu e posso “imaginar” o sentimento de frustração e raiva que o invade. Enfrentar a pena ou piedade no olhar das pessoas que faziam parte de suas relações antes do acidente pode ser um pesadelo. Mas os pesadelos não duram para sempre. Sei que você pode voltar a sonhar sonhos bons. Acredite nisso. Eu vi isto acontecer inúmeras vezes.
- Mas certamente existiram exceções...
- Exceções existem... – falou com voz entristecida, desviando o olhar para a paisagem novamente – como em tudo na vida. Mas vou fazer de tudo para que você não seja uma delas.
A firmeza de suas últimas palavras pareceu atingi-lo de alguma maneira, pois sua expressão abrandou-se e ele ficou por alguns segundos olhando-a pensativo. Porém, passado este tempo, estampou o deboche no rosto e continuou.
- Você não acha que é muito convencida? Você é só uma enfermeira, minha cara. Não tem todo este poder que está sugerindo, sinto lhe informar. Está aqui para empurrar minha cadeira... – parou de soltar farpas quando ela o encarou com um sorriso perturbador.
- Uma hora dessas, você vai parar de querer me humilhar e ofender e então vai ver que a minha ajuda pode ser muito mais que só empurrar a sua cadeira – Olhou adiante, deu um suspiro e continuou logo – Que tal um lanche agora? O seu almoço foi interrompido na metade e deve estar com fome. Vou preparar tudo e poderá comer lá no jardim. Depois terá que fazer alguns exercícios até a hora de Lino chegar. Ai ficará livre de mim... Até amanhã.
Como ele não respondesse ao seu discurso, virou-se e saiu.

“Eles parecem não entender... Perdera tantas coisas de uma hora para outra... Todo o seu mundo, como o conhecia até então, havia desabado. O acidente não o deixara apenas sem o movimento das pernas. Havia perdido seu coração, sua alma,... De repente, pessoas desconhecidas vinham até ele dizer que era possível sobreviver àquele caos e achavam que num estalar de dedos tudo ficaria bem?” Assim pensava Diego logo depois que Ângela saiu. “Esta enfermeira... Podia simplesmente demiti-la e Lino não poderia fazer nada...” Mas havia algo naquela mulher que o intrigava. Apesar de ser apenas seu primeiro dia ali, sentia nela uma força, uma persistência, que não encontrara nas outras. Provavelmente era só uma impressão. Perguntava-se por qual motivo uma mulher jovem e bonita como ela escolhera trabalhar com deficientes físicos, pessoas revoltadas e magoadas com seu triste destino. Com o correr dos próximos dias com certeza quebraria aquela banca de profissional capaz e experiente. Porém, no seu intimo mais profundo, não tinha tanta certeza assim de que queria vê-la desistir como as anteriores. Sentia-se tentado a conhecê-la melhor.


Finalmente consegui acabar o terceiro capítulo. Espero voltar em breve. Beijos!!

sábado, 3 de abril de 2010

Coração Atormentado - Capítulo III (continuação)

Antes de colocar a continuação desta estória, gostaria de desejar a todos os que visitam este blog uma FELIZ PÁSCOA e que o coelhinho não traga apenas chocolates, mas muito amor, serenidade, saúde e muitas alegrias junto aos seus familiares.
Também tenho um adendo a fazer na última postagem. O nome do motorista a quem Ângela é apresentada não é José. É Luís.Foi um pequeno engano na hora de escrever e que é importante na continuidade desta "novela".
Um beijo carinhoso as minhas queridas leitoras!





Seguiram em silêncio. Ângela tinha vencido o primeiro round. Restava saber quantos ainda faltavam para conseguir alcançar seu paciente e trazê-lo de volta à vida normal.
O fisioterapeuta deveria chegar dentro de uma hora.
- Já tomou seu café?
- Não estou com fome – respondeu mal-humorado.
- Mas sabe que deve alimentar-se bem...
- Meu intestino funciona normalmente – interrompeu-a – Não me venha com aquela estória de fibras.
- Não. Não estava me referindo a isto. Estou falando que precisará de muita energia para realizar a fisioterapia – tentou manter o tom de voz calmo e suave – Precisa manter sua musculatura saudável e isso só conseguirá com boa alimentação e exercícios.
- Para poder empurrar mais facilmente a cadeira, sem a sua ajuda? – continuou ironizando sua situação.
- Entre outras coisas. Se ficar livre de mim for um bom motivo para animá-lo a se cuidar melhor, que seja este o seu objetivo.
Neste momento, quando eles já estavam na sala de estar, uma mulher entrou.
- Olá, meu querido. Ah, mal viro as costas e já está a me trair com outra mulher – caçoou dele – Bom dia! Você deve ser a nova enfermeira do meu noivo.
- Sim, senhora. Meu nome é Ângela.
- Sim, é claro – respondeu distraída retendo seu olhar sobre Diego.
- O que veio fazer aqui, Cláudia? – perguntou ríspido.
- Ora! Vim ver como está. Não pode me proibir de me preocupar com você, Diego. Sei que é um momento difícil, mas sei que vai passar por ele. Não é mesmo,... enfermeira? – ainda tentou esforçar-se para lembrar o nome da jovem ao lado de seu noivo.
- Quero subir. Agora! – ordenou Diego.
Pouco a vontade com a situação, decidiu cumprir o desejo de seu paciente. Os noivos que se entendessem depois. Foi até o controle do elevador, especialmente instalado e adaptado para o uso de um cadeirante e um acompanhante, abriu a porta e voltou para empurrar a cadeira de Diego até ele. Depois resolveria a respeito do desjejum.
- Você não pode me tratar dessa maneira, Diego. Eu aqui preocupada com seu estado e você me tratando como lixo.
- Talvez esteja na hora de desistir de mim e procurar outra pessoa.
- Benzinho, só quero você – disse com voz infantilizada, aproximando-se dele e abaixando-se ao lado da cadeira.
- Você quer um aleijado? É isto que você quer? – gritou batendo nas próprias pernas.
- Acho que está procurando uma desculpa para se livrar de mim – respondeu ela, empertigando-se e fazendo cara de choro.
- Dane-se! – praguejou – Enfermeira! Me coloque logo dentro deste elevador! Quero subir! – continuou gritando.
Ângela ficou tão impressionada com a alteração de humor de Diego, que não vacilou quanto à ordem dada. Colocou-o rapidamente para dentro do cubículo com porta sanfonada, fechado por grades trabalhadas, que lembrava aqueles elevadores de prédios velhos de filmes de suspense. Enquanto subiam, ela podia ver Cláudia soluçando, com o rosto escondido entre as mãos. Surpreendentemente não conseguia sentir pena dela, mas estava preocupada com Diego. Dirigiu até o quarto. Sentia-o tenso. Podia ver os músculos do pescoço rijos e suas mãos crispadas sobre os braços da cadeira.
Deixou-o de frente para a ampla janela com vista para a piscina.
- Vou deixá-lo aqui e buscar o seu café – falou em voz baixa ao seu lado.
- Não quero comer nada! – olhou-a com rancor.
- Volto logo. O seu fisioterapeuta deve chegar em menos de uma hora – rebateu friamente antes de sair.
Andou rapidamente, descendo as escadas e indo até a cozinha. Não queria demorar-se muito, pois não tinha certeza de como ele ficaria sozinho. Pediu à Zica que preparasse uma batida de frutas para Diego. Pelo menos isto o deixaria alimentado e com energia para enfrentar a fisioterapia. Assim que teve seu pedido pronto, pegou uma bandeja e partiu para o andar superior. Quando estava quase chegando, ouviu um forte barulho de algo pesado caindo ao chão, vindo do quarto de Diego. Apressou o passo e abriu a porta sem bater.
Encontrou-o caído no chão, próximo à cama. Aparentemente conseguira deslocar a cadeira até um baú que existia aos pés da cama, e apoiado nele, tentara levantar-se, mas a cadeira fora para trás, tirando o seu equilíbrio.
- Machucou-se? – perguntou, tentando esconder a aflição, segurando-o pelo braço, numa tentativa de apoiá-lo.
- Não! – empurrou-a, recusando a ajuda.
- Eu posso ajudá-lo a levantar ou posso ficar aqui observando até fazer isto sozinho, mas garanto que vai demorar bastante.
Ele a olhou com os claros olhos chispando. O verde parecia conter fogo, demonstrando raiva e vergonha.
- Deixe-me ajudá-lo... – sua voz tornou-se mais branda.
Ele ainda tentou esforçar-se para levantar, arrastando-se até o baú, mas suas tentativas e o esforço falhavam.
Ângela soube que seria inútil tentar levantá-lo. Ele não permitiria. Por isso, pegou a cadeira de rodas e aproximou-a dele.
- Vou travar a cadeira. Apóie seus braços nela e puxe-se para cima. Depois tente girar o corpo e sentar-se. Não será vergonha alguma se precisar que o ajude neste ponto. Sua musculatura ainda não está forte o suficiente para fazer todos estes movimentos.
Sem olhar diretamente para ela, depois de alguns momentos, seguiu o conselho dela. Conseguiu erguer-se, com um esforço supremo, que fez surgir gotas de suor em sua testa, sempre sob o olhar cauteloso de Ângela, que se encontrava preparada para intervir, caso necessário.
- É isso! – disse orgulhosamente, animando-o – Use o meu corpo como apoio para poder virar-se, agora – continuou, encurvando-se um pouco para oferecer o ombro e o braço para ele.
Percebeu um segundo de vacilação por parte dele. Suas forças estavam praticamente esgotadas e contava com isso para que ele cedesse e aceitasse a sua ajuda. Foi quando sentiu o braço dele sobre seu ombro.
- Agora vou rodar para o outro lado e colocá-lo de costas para a cadeira para que possa sentar-se. Segure firme em mim – orientou-o, enquanto fazia o movimento descrito.
Logo ele caiu pesado sobre a cadeira, com uma expressão cansada.
- Agora, ajeite as pernas sobre o apoio dos pés – continuou, enquanto ia até o banheiro pegar uma toalha para secar o suor dele.
- Você tem idéia do esforço que fez? Foi um avanço e tanto... – disse, elogiando-o e alcançando a toalha para que ele secasse a testa – Depois disso, merece um prêmio. Uma batida geladinha para recomeçar o dia.
Ganhou um olhar aborrecido dele, mas foi recompensada quando ele aceitou o copo com o líquido grosso e alaranjado oferecido por ela.
- Obrigado – disse secamente, ainda abatido pelo esforço, depois de ingerir sua batida de mamão.
- Não há de quê... Que tal uma ajuda para por o calção e descer para esperar o fisioterapeuta na piscina?
- Vou esperar Carlos chegar para me ajudar com o calção. Peça para ele subir quando chegar – disse sem olhá-la. Ângela percebeu o desprezo dele por esta situação de dependência. Pensou em dizer alguma coisa para confortá-lo, mas achou que neste momento seria rechaçada e ouviria algum desaforo. Tinha que ir com calma com Diego. Não podia demonstrar piedade.
- Está bem. Logo que ele chegar, peço que suba... Eu vou me trocar e já volto. E, por favor, nenhum novo esforço, senão teremos de cancelar a sessão de fisioterapia.
Ele a olhou muito sério, mas não falou nada. Apenas observou-a saindo.



- O que aconteceu lá em cima? – perguntou Cláudia, vinda da sala, onde estava sentada lendo uma revista.
- Ele caiu, mas não se machucou.
- E você o deixou sozinho? Que tipo de enfermeira é você? Eu vou até lá... – disse, fazendo menção de subir as escadas.
- Eu não aconselho a fazer isso. Ele ainda está muito irritado e acaba de fazer um esforço sobre-humano para levantar-se do chão e sentar sozinho na cadeira. Precisa descansar um pouco. Ele terá uma sessão de fisioterapia daqui a pouco. Talvez seja melhor voltar outra hora. Ele não parece estar num bom dia hoje.
- Nas últimas semanas, todos os seus dias têm sido ruins... Talvez você tenha razão – pensou melhor – Volto depois...
- Tem que ter muita paciência com ele – acabou por dizer – A revolta pela situação em que se encontra ainda é grande e a agressividade é uma forma de expressar isso.
- Eu sei. Não deve ser fácil. Seria melhor que ele tivesse morrido, para não passar por isso.
- Não! De maneira alguma diga isso. Ele teve muita sorte em ter sobrevivido. Ele pode voltar a ter uma vida normal. Só precisa de nossa ajuda e apoio incondicional.
Cláudia deu um sorriso debochado e saiu. Aquilo revoltou Ângela, quase entendendo a cólera de Diego para com a noiva. Esperava que o padrasto e os amigos acreditassem mais num futuro melhor para ele.
Ao sair, Cláudia cruzou com Carlos, o fisioterapeuta que acabava de chegar. Sem cumprimentá-lo e passando reto por ele, pegou seu carro, um Audi branco, e partiu velozmente. Assim que ele entrou, avistou Ângela andando em sua direção.
- Bom dia! Você deve ser o Carlos...
- Sim. Bom dia! Você deve ser Ângela. O Lino me telefonou avisando que eu teria uma nova colega para ajudar com o nosso rapaz.
- Muito prazer, Carlos. Já devo lhe adiantar que o nosso “rapaz” já andou fazendo uma “arte” agora pela manhã.
- Sério? Mais uma? Ele não se conforma com sua situação e a toda hora tenta agir com independência. O que ele aprontou hoje?
- Tentou levantar-se da cadeira de rodas e caiu no chão. Mas, em compensação, conseguiu voltar e sentar sozinho, ou quase. Apenas o ajudei na hora de sentar.
- Ora, mas isso até que é um progresso.
- Foi o que pensei.
- Acredito que ele vai vencer estas barreiras em pouco tempo. A musculatura dele ainda está conservada, graças à prática regular de esportes anterior, apesar de ter perdido a força pelo desuso nestes dois meses. Basta começar a cooperar. Conto com a sua ajuda. As meninas que trabalharam aqui antes me pareceram inexperientes e ele as humilhava com frequência, testando-as. Lino me garantiu que com você será diferente.
- Costumam dizer que sou dura na queda. O Senhor Bernazzi vai ter que suar muito para me colocar daqui para fora – afirmou, rindo.
- Que bom. Gostei de você, Ângela – falou, retribuindo o sorriso – Onde está ele?
- Lá encima, em seu quarto, esperando que você chegue para ajudá-lo com o calção. Ainda não aceita minha ajuda nesta parte.
- Acho que eu também não aceitaria ajuda para este tipo de coisa de alguém que acabei de conhecer.
- Tem razão... – refletiu.
- Você vai me ajudar na piscina?
- Claro. Vou me trocar e já encontro vocês lá.
- Certo. Estou subindo. Até mais!





Quinze minutos após, Carlos já se encontrava com Diego defronte à piscina.
- Desculpem o atraso. É que não encontrava um roupão e tive que esperar até a Clara me arrumar um. No fim, ela conseguiu este quimono...
- Tire isto! – gritou Diego inesperadamente.
- O quê? O que foi? – perguntou Ângela assustada com a reação dele, que quase se levantou da cadeira ao vê-la.
- Tire este quimono já!
- Calma, Diego! O que está havendo? Você está assustando a Ângela... – interferiu Carlos.
- Este quimono era de minha mãe. Tire-o agora!
- Está bem. Calma! Eu tiro. Desculpe! Eu não sabia. A Clara me deu dizendo que eu podia usar – falou com a voz trêmula, querendo esgoelar a jovem copeira assim que a encontrasse. Rapidamente tirou a vestimenta expondo seu corpo esbelto num discreto maiô de natação azul-marinho. Aproximou-se de Diego e, dobrando o traje de seda estampada com cuidado, estendeu-lhe para que ele o pegasse.
- Sinto muito, Diego – se desculpou mais uma vez, chamando-o por seu primeiro nome sem querer – Eu não sabia...
Deixando de lado a expressão exasperada que tinha estampada na face segundos antes, mostrou-se emocionado ao tocar a roupa que tinha sido de sua mãe.
- Desculpe. Eu não queria gritar assim com você, mas... – a voz soou quase imperceptível, como se fosse difícil para ele desculpar-se.
- Não precisa desculpar-se ou explicar. Eu entendo perfeitamente... – Uma repentina vontade de abraçá-lo surgiu, mas sabia que não podia fazer isto. Não naquele momento – Vou repreender pessoalmente a Clara sobre isto. Prometo que não acontecerá novamente.
- Está se sentindo bem? – perguntou Carlos após alguns momentos – Podemos começar a nossa sessão?
- Vamos logo com isto – respondeu tristemente.
Carlos começou a fazer alguns exercícios de aquecimento da musculatura. Ângela apenas os observava. Queria aprender alguns dos exercícios para poder repeti-los quando Carlos não estivesse presente. Como o fisioterapeuta tinha dito, Diego tinha um corpo excelente. Seus músculos, inclusive os dos membros inferiores estavam em ótima forma, mesmo depois de quase dois meses sem exercícios. Isto era muito animador, pois logo ele poderia ter independência em muitas atividades. Estava satisfeita com a cooperação dele durante a série de exercícios, quando levantou um pouco a vista e percebeu que Diego a observava atentamente. Não soube dizer o que aquele olhar enigmático queria expressar, mas sentiu-se estremecer. Talvez ele ainda estivesse com raiva por causa do quimono, ou humilhado por ter que se expor daquela maneira a uma desconhecida ou... Tentou desviar o pensamento inconveniente que lhe passara num instante. Então, sentiu-se um pouco envergonhada por estar ali, de maiô, diante dele. “Isto é totalmente absurdo!”, pensou, desviando os olhos dele e continuando a seguir os passos de Carlos.
- Ângela, por favor. Pode entrar na piscina e me ajudar a segurá-lo até que eu possa entrar? – ouviu a voz do terapeuta chamando-a a razão.
- Sim! Óbvio...
Ela entrou e ficou aguardando enquanto Carlos pegava Diego no colo e o colocava com cuidado na água sob seus cuidados. Sentiu-o enrijecer quando o conteve, com os braços em torno de seu tronco. Podia sentir a humilhação e o sentimento de impotência tomando conta dele. Pensou em algo para falar e tentar quebrar o clima pesado que havia se criado e descontrair a si mesma.
- Está com frio?
- Não. A piscina é aquecida, se não percebeu – falou ásperamente.
- Está bem, chefe. Desculpe ter perguntado – sorriu, sentindo-se corar e odiando-se por estas reações contra a sua vontade – E agora, Carlos? Estamos esperando!
O terapeuta entrou na piscina e assumiu o comando. Ele estava surpreso com a cooperação de Diego, que até aquele dia vinha sendo pequena e difícil. Talvez ele estivesse começando a se conscientizar da necessidade dos exercícios. Também podia ser que a terapia dentro da água lhe fosse mais agradável. O importante era que estava conseguindo uma resposta sua. Algumas vezes precisou da ajuda de Ângela, que estava sempre atenta e muito disposta.



- Excelente, Diego! Hoje tivemos uma grande sessão. Se continuar assim, não vai demorar muito para poder nadar sozinho. Temos que fortalecer a musculatura dos braços. Isto é muito importante para que consiga independência para suas tarefas normais..
- Obrigado, Carlos. Você é muito animador, mas esta reabilitação de que tanto falam não vai trazer minhas pernas de volta.
- Você não pode desanimar. O sistema nervoso humano é ainda um mistério em muitos pontos. Tudo pode acontecer. Uma regeneração nervosa, caminhos alternativos para a condução dos estímulos ... Tudo é possível. Você não pode é desistir sem antes de tentar.
- O Carlos tem razão, Diego.
- Está bem. Chega. Quero sair daqui. Já terminamos, não?
- Sim... Pode me ajudar, Ângela? – solicitou mais uma vez – Vou sair da piscina enquanto você o segura, por favor?
Ela se aproximou deles e segurou Diego por trás, passando seus braços sob as axilas dele, enquanto aguardava que Carlos saísse da piscina e o puxasse para fora.
- Estou muito contente com o seu progresso – disse Ângela para Diego.
- Não vejo por que, já que mal me conhece e tem sido maltratada por mim desde que chegou aqui – falou ele em tom baixo, virando o rosto para tentar vê-la atrás de si.
- Se você permitir, talvez possamos reverter esta situação... – murmurou, sentindo um leve arrepio na espinha ao olhar aquele perfil que a desafiava.
Neste momento, Carlos esticou os braços e içou Diego para a borda da piscina e, logo, depois de colocar-lhe uma toalha sobre os ombros, o levou até a cadeira.
Ângela tratou de sair da piscina e secar-se em outra toalha. Novamente notou o olhar de Diego sobre ela. Era um olhar selvagem, amargo, mas tinha algo mais que não conseguia entender. Tentou não dar importância, mas sentiu uma estranha agitação interna. Jamais um paciente a deixara assim. Respirou fundo. Era uma profissional e era assim que deveria portar-se.
- Encontro vocês depois. Vou me trocar – disse, encaminhando-se para o vestiário.







(continua...)