segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Na Rede do Pescador - Capítulo VI

Acordou com o som do telefone tocando em sua cabeceira. Por alguns instantes ficou tentando lembrar-se de onde estava. Sorriu preguiçosa ao lembrar o sonho que tivera, onde Lucca a beijava. Parecia tão real... Não se lembrava de como tinha voltado para casa depois do jantar na casa dele. Aliás, não lembrava muita coisa depois do café que ele oferecera. Por sorte, pedira ao serviço de despertar, antes de sair na noite anterior, para acordá-la cedo. Não queria chegar atrasada. Tinham que aproveitar a maré logo cedo, segundo lhe informara Lucca. Levantou-se e notou com surpresa que não sentia dor de cabeça alguma, apesar de saber que passou um pouco da dose de vinho. Sinal de que o vinho era realmente de boa qualidade. De repente lhe passou pela cabeça que talvez ele tivesse pego aquele vinho na casa em que ele era zelador. Seria possível? Não tinha como saber, pois não teria coragem de perguntar e correr o risco de ofendê-lo. Lavou-se, vestiu seu biquíni comportado e colocou uma nova saída de banho curta, de algodão branco, com detalhes em renda, que comprara especialmente para aquela temporada. Ainda tinha mais de uma hora até as oito e trinta. Passou pelo restaurante e tomou um café preto e comeu uma panqueca de tapioca com presunto e queijo, que era irresistível. Foi para praia. Esperaria por Lucca na porta de sua casa.
Ao chegar lá, mais uma vez o buggy já não estava no galpão. De qualquer maneira, aproximou-se mais da casa e já ia sentar-se sobre uma banqueta de madeira que tinha por ali, quando a porta se abriu repentinamente. Arregalando os olhos e dando um passo para trás, viu, com surpresa, sair um homem completamente estranho, um pouco mais jovem que Lucca, de bermuda e camiseta, a esfregar os olhos. Ao ver Isadora, teve um sobressalto, mas conseguiu dizer:
- Bom dia, moça. Deseja alguma coisa?
- Bom dia. Por favor, estou procurando pelo Lucca...
Neste momento, ouviu-se o ronco do motor de um buggy. Era Lucca chegando.

- Isa! Chegou mais cedo? O que houve? – perguntava enquanto saltava do carro aparentemente apreensivo.
- Acordei e, como não tinha mais nada para fazer, vim encontrá-lo, mas... – disse, voltando o olhar para o outro homem parado na porta da casa.
- Ah! Este é o Jonas. Ele ajuda a cuidar dos jardins da casa aí de trás. Ele me pediu para dormir aqui esta noite. Não é mesmo, Jonas?
O Jonas pareceu meio confuso a princípio, mas acabou concordando.
- É isso mesmo. Se não fosse o seu Lucca eu não teria onde dormir.
- Mas você não disse que havia uma empresa de jardinagem que cuidava desta parte? – comentou, achando tudo aquilo muito estranho, inclusive o tratamento dado pelo pretenso jardineiro ao zelador.
- Pois é. Ele trabalha na empresa, mas é meu amigo também. – Lucca parecia estar procurando desculpas para a presença de Jonas ali – Bem, Jonas, vou ter de sair com a senhorita. Espero que faça as pazes com a sua mulher e volte para sua casa. Vamos, Isa?
- Sim, senhor – respondeu Jonas, confuso.
- Sim, senhor – disse Isadora, desconfiada.
Lucca tirou o barco do galpão e, com a ajuda de Jonas, levou-o até a beira do mar. Foi até o buggy e tirou duas máscaras de mergulho com snorkel e colocou-as no barco. Pôs a lancha na água e ajudou Isadora a subir. Ligou o motor e acenou para Jonas, que continuava parado na porta, observando sonolento toda a atividade do amigo. Ao sentar-se, percebeu que Isadora estava com expressão estranha.
- O que foi? –perguntou.
- Nada... É que levei um susto quando vi o... Jonas saindo da sua casa.
- Pois é. Depois que a deixei no Mairi, ontem à noite, ele apareceu, dizendo que tinha brigado com a mulher e não tinha onde dormir. Não tive outra opção a não ser permitir que ele dormisse lá. Mais alguma dúvida?
- Você me deixou no hotel?
- Não lembra? – indagou com ar desaprovador.
- Não, não lembro de nada.
- Você é mesmo fraquinha para bebidas alcoólicas, não?
- Acho que sim. Não estou acostumada a beber... – Lembrou do sonho que tivera naquela noite, mas não falou nada. Certamente devia ter sido um sonho mesmo – Mas como eu fui parar na minha cama?
- Eu a coloquei lá, é claro. – disse rindo.
Ela emudeceu envergonhada.
- Não precisa ficar com vergonha – continuou como se soubesse o que se passava com ela – Isto acontece. Não estou pensando mal de você por conta disso. Está bem? – afirmou categórico.
- Está bem... – sorriu amarelo.
Seguiram mar adentro, até chegar nos arrecifes, um pouco mais longe do que ela tinha estado no primeiro encontro deles. Levaram cerca de meia hora até alcançar o local. Conforme Lucca lhe dissera, lá as piscinas eram mais largas e os corais muito mais bonitos e com maior variedade de peixes.
Era um espetáculo ver as extensas áreas de água azul celeste, de uma transparência estonteante, que se formavam entre os corais. Àquela hora dia podia-se andar com água pouco acima da cintura dentro destes poços naturais, repletos de vida marinha. Lucca lançou uma âncora para fora do barco, para que pudessem descer com mais tranqüilidade. Isadora tirou a sua túnica de algodão e pegou a máscara com snorkel que Lucca lhe alcançava. Ele foi o primeiro a descer e a colocar a máscara, para depois ajudá-la. Ela não conseguiu evitar um leve estremecimento e uma curta interrupção da respiração quando Lucca a segurou pela cintura com as duas mãos para ajudá-la a descer. Temeu que ele pudesse ter notado, pois a encarou de um modo estranho, enquanto vacilava entre soltá-la ou não. Mesmo com a água entre seus corpos, podiam sentir o calor que irradiavam e a onda de desejo que os rondava.
- Tenha cuidado com os corais. Trouxe um par de tênis? – cortou o tenso silêncio com voz enrouquecida.
- Sim. Estão na minha bolsa. Devo calçar agora?
- Não. Mas depois, poderemos caminhar entre as piscinas por cima dos corais. Vai gostar da experiência. Já mergulhou com snorkel?
- Já, mas dentro de piscinas de clube, quando era adolescente – riu nervosa. – Nunca no mar.
- É a mesma coisa. Só tem de cuidar para não ficar com a abertura do tubo dentro da água. Siga-me. Quero te mostrar uma coisa. – e mergulhou.
Ela o seguiu, tentando seguir as instruções dele. Aproximaram-se dos corais que estavam a sua frente e Lucca fez sinal para que ela olhasse à sua direita. Maravilhada, Isadora pode vislumbrar uma grande quantidade de peixes multicoloridos a transitar entre mini cavernas, formadas por pedras cobertas por uma espécie de vegetação, algumas como se fossem minúsculos labirintos tortuosos, outras como florestas com arbustos, árvores e até flores, que moviam-se, demonstrando vida. Ela se sentia como uma criança visitando um zoológico pela primeira vez. Estava extasiada com a riqueza de vida que podia existir numa formação rochosa como aquela. De vez em quando, Lucca chamava a sua atenção para outras formações e novos habitantes que viviam ali.

Depois de ficarem um bom tempo nadando, Lucca levantou-se e ficou de pé. Ela imitou-o, para saber o que ele ia orientar a seguir.
- Quer dar uma caminhada por cima agora?
- Sim! – respondeu – Ah, Lucca! Que coisa maravilhosa isto aqui. Nunca pensei que pudesse ser tão lindo.
- Também não canso de vir aqui para admirar isto tudo... Vamos até o barco para colocar os tênis?
- Sim.
Voltaram a mergulhar, fazendo o caminho de volta sob a água para não perder um só momento da paisagem submarina que os circundava. Lá chegando, Lucca ajudou-a a subir e disse que levaria a lancha até uma parte em que as piscinas estavam um pouco mais rasas. Mais uma vez o motor foi acionado, levando-os a um ponto mais distante, próximo à linha onde as ondas do mar aberto açoitavam as rochas. Depois de estacionar o barco, ele desceu com cuidado e ofereceu ajuda à Isadora.
- Cuidado onde pisa, pois tem alguns lugares onde existe uma espécie de limo que pode fazê-la escorregar. – Apesar de tê-la avisado, continuava a segurá-la pela mão firmemente, receoso que ela pudesse cair e machucar-se.
- Pode deixar. Vou ter cuidado – agradeceu, já interessada em chegar rapidamente ao local onde vários poços rasos podiam ser vistos.
Lucca seguia logo atrás, sempre cuidadoso, com medo da impetuosidade de Isadora frente à sua curiosidade e deslumbramento. Esta, por sua vez, não conseguia deixar de expressar seu entusiasmo por meio de incansáveis interjeições e suspiros. Quando terminaram o passeio sobre os recifes, Isadora manifestou o seu desejo de mergulhar mais uma vez. A maré já começara a subir e ficaria mais interessante ficar dentro das piscinas. Com a concordância de Lucca, ele a levou a outra piscina natural. Esta era bem maior que a anterior e a incidência do sol, naquela hora, sobre as águas límpidas, tornava o azul ali quase que fosforescente. Desta vez, Isadora resolveu mergulhar sem a ajuda de Lucca. Ele ficou observando-a do barco, também extasiado, não com a beleza dos recifes, mas sim da mergulhadora iniciante que explorava o ambiente sob o mar.
Repentinamente, uma câimbra terrível surgiu em sua panturrilha esquerda, fazendo-a desorientar-se pela dor e mergulhar mais fundo, colocando o tubo de ventilação abaixo do nível da superfície. Sentiu a água penetrar-lhe pela boca e a sensação de sufocação presente somou-se à dor muscular. Ao ver que Isadora estava em dificuldades, Lucca lançou-se na água e foi ao encontro dela, que já conseguira firmar-se na perna direita, com a cabeça acima do nível da água, tossindo convulsivamente.
- Isa! Você está bem? – perguntou apreensivo, segurando-a pela cintura e tirando a máscara para que ela pudesse respirar melhor – O que houve?
- Tive uma câimbra... Mas já está passando. – conseguiu dizer antes de um novo acesso de tosse.
- Talvez seja melhor irmos embora agora – sugeriu, enquanto acariciava o rosto de Isabela, com os olhos muito atentos sobre ela e lutando contra o desejo de beijá-la novamente.
- Não... Já passou... – Encontrou o verde profundo dos olhos de Lucca a seduzi-la. O toque suave daquela mão em sua pele a fez amolecer e ansiar por tornar real o beijo que provara no sonho da noite anterior. Instintivamente, entreabriu os lábios, provocando-o. O desejo tomava seu lugar e o coração batia descompassado. Queria aquele homem como nunca desejara alguém mais. A atração que ele exercia sobre ela era indiscutível e acabava por sobrepor-se a quaisquer medos que a assombrassem.
- Isa... – murmurou, já não conseguindo mais segurar-se. Aquela boca exigia o seu beijo. Aproximou-se ainda mais do seu rosto e tocou-lhe os lábios num leve roçar, contento seu ímpeto de invadi-la e assustá-la. Notando que não era repelido, passou a mordiscar suavemente o tecido carnudo e avermelhado que vibrava ao seu toque. O hálito adocicado de Isa o envolvia, arrebatando-o e exigindo a conquista de mais espaço. O gemido de prazer dela o alcançou, levando-o a ir mais fundo, adentrando com sua língua e sentindo a dela, ainda tímida, mas ansiosa por experimentá-lo. Ele a estreitou ainda mais, comprimindo os seios rijos contra o seu peito. Ela também o desejava, pensou num lampejo, regozijando-se. Afastou-se um pouco para admirá-la. Os olhos que permaneciam fechados, numa expressão de deleite, e os lábios entreabertos mostravam que ela queria mais. Foi então que, não controlando mais seus anseios, tornou a beijá-la. Desta vez, faminto e ávido, sendo totalmente correspondido. Isa sussurrava seu nome, entre suspiros, quando passou a beijar a curva do seu pescoço, lambendo e mordicando-o. Sentiu-a agarrando-se a ele, cravando os dedos em seus músculos das costas, como se quisesse penetrá-lo através da pele, jogando o quadril para frente, procurando-o. A água os envolvia num abraço morno e seu movimento ondulante só fazia aumentar ainda mais o desejo de ambos. Com uma das mãos, segurou-a firmemente nas costas enquanto a outra desceu espalmada entre os seus seios, arrancando a parte superior do biquini. Os beijos seguiam, chegando aos mamilos rosados, abocanhando-os e fazendo Isa arquear-se para trás de prazer. Procurando um apoio, Lucca levou-a até o barco, apoiando-a contra o casco de madeira, segurando-a nas nádegas e permitindo que ela o enlaçasse com as pernas, enquanto ele afastava o tecido do traje de banho e iniciava sua posse. Em movimentos lentos, mas eficientes, ele a penetrou, arrancando-lhe um grito de satisfação.
Sentia todos os seus músculos internos contraírem-se. Queria, mais do que nunca, fundir-se àquele homem, ser completamente sua. Insanidade ou não, já era tarde para voltar atrás. O êxtase estava próximo, quando começou a mexer os quadris alucinadamente e pode ouvir as palavras amorosas que vertiam de Lucca. Foi quando uma explosão de sensações difundiu-se por seu corpo, seguida do brado de Lucca, que acabou por inundá-la com seu calor. Acolhidos pelo mar, permaneceram durante alguns segundos agarrados um ao outro, como se o afastamento pudesse resultar em dor. A onda de exultação que os envolvera, resultava agora numa prazerosa sensação de relaxamento.
Lucca foi o primeiro a dizer alguma coisa. Seus primeiros pensamentos ao recuperar a consciência do que tinha acabado de acontecer foram o medo de ter machucado Isadora de alguma maneira ou de que ela já estivesse arrependida e não quisesse vê-lo mais. Recriminava-se por não ter conseguido conter-se, mas sabia que agora era tarde e tinha que enfrentar as consequências de seus atos.
- Você está bem? – perguntou afastando-a e lhe alcançando a parte superior do biquíni que ele deixara na borda do barco.



- Sim... – E pegou a peça, observando-o ajeitar seu calção. Ele parecia distante e teve medo que ele estivesse arrependido ou que ela não tivesse correspondido satisfatoriamente a ele. Ela procurava o seu olhar, mas ele desviava, causando-lhe uma pontada de agonia no peito – Pode me ajudar a fechar o biquíni aqui atrás? – disse virando-se de costas.
Depois de ajudá-la, subiu para dentro do bote, enquanto terminava de recompor-se. Assim que a viu pronta, estendeu os braços para içá-la para dentro. Neste momento, ficaram frente a frente e Isadora não resistiu mais e impediu que ele a abandonasse para ligar o motor.
- Lucca, o que houve? – disse, revelando aflição. – Você ficou frio e distante de repente. Não foi como você esperava? Ou foi só uma transa de momento e você vai sumir agora?
- O quê? – ele não acreditava no que estava ouvindo. – Não! Isa, nunca tive uma experiência tão maravilhosa como esta que tive com você.
- Então por que está assim, sem me encarar ou falar comigo?
- Por que eu pensei que pudesse tê-la machucado, ou que você me odiasse pelo que aconteceu. – conjeturava constrangido – Acho que forcei você a esta... situação. E eu sinto muito se...
- Lucca – sua voz agora era doce e confortante – Eu amei cada segundo... Não vou negar que tive medo, mas eu ansiava por este momento. Neguei muito este sentimento, mas admito que o desejava e muito. Cheguei a sonhar esta noite passada que você me beijava...
Ele sorriu aliviado.
- Não foi um sonho, querida. Aconteceu de verdade quando a levei para o Mairi ontem à noite.
- Como? – perguntou agradavelmente surpresa.
- Você estava um pouquinho tonta, depois do jantar, e o café que eu fiz, muito fraco. Assim, perguntei o número do seu bangalô, antes que dormisse, e a carreguei até lá.
- Carregou?
- No colo, ora. Você não tinha condições de caminhar e logo estava adormecida. Mas juro que não tinha intenção de me aproveitar de você – remendou quando viu o sorrisinho maldoso em seus lábios. – Sério!
- Está bem... Eu acredito em você... – confiou, acariciando-lhe a face com a mão esquerda.
Enternecido com o seu gesto, ele continuou sua descrição da noite anterior.
- Quando chegamos, enquanto eu abria a porta, você entreabriu os olhos e pediu que eu a beijasse. Não pude resistir, pois era uma coisa que eu queria fazer desde que a vi irritada, discutindo comigo e tentando colocar, sozinha, aquele caiaque na água.
- Que raiva!
- Por quê? – indagou novamente apreensivo.
- Você me beijando e eu achando que era um sonho e não aproveitando o momento como devia – disse com expressão falsamente brava, fazendo-o rir.
- Você correspondeu direitinho, se quer saber. Tive que usar toda minha força de vontade para não sucumbir ao desejo de levá-la para cama e me deitar junto, ao invés de deixá-la e voltar para casa. – confessou enquanto contornava sua cintura com os braços para aproximá-la ainda mais de si.
- Então me mostra como foi esse beijo roubado para eu ver se foi igual ao do meu “sonho” – exigiu com a voz rouca.
- Não precisa pedir duas vezes...
Desta vez, plenamente consciente, Isadora deleitou-se mais uma vez na boca de Lucca. Quando terminaram de beijar-se, Isadora notou satisfeita, ao afastarem-se, sinais de que ele já a queria mais uma vez. Mas ele próprio reconheceu que deviam voltar.
- Este barquinho não vai resistir ao que estou pensando em fazer com você.
- Uau! E você vai me dizer no quê é que está pensando agora ou vou ter que esperar até chegar na praia?
- Até chegarmos ao seu quarto... – insinuou sedutor.
- Então temos que nos apurar e chegar o mais rápido possível lá – maliciando.




E aí, meninas? Satisfeitas com o capítulo? Espero que sim.
Só queria dizer, antes de me despedir, que estou muito feliz com a vinda do ator Gerard Butler ao Brasil, depois de mais de três anos. Ele está curtindo o Carnaval no Rio de Janeiro. Espero que ele aproveite bastante a estadia em nossa terra e que torne a voltar em breve e com mais frequência, esbanjando sua habitual simpatia e sensualidade.
Beijos à todas!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Na Rede do Pescador - Capítulo V

Não conseguia lembrar a quanto tempo não cozinhava cantando. Também desistira de pensar nas implicações daquele jantar. Isadora era diferente de outras mulheres. As palavras que ela dissera à tarde ressoavam em seus ouvidos, fazendo-o sorrir. Este sorriso desaparecia quando ele começava a pensar o que ela sentiria se soubesse que estava sendo enganada. Continuaria a sentir-se tão bem na sua companhia? Esperava que não... Aquilo era só um detalhe. Quando se conhecessem melhor ela entenderia suas razões. Melhor era não pensar nisso agora. Ela terminaria suas férias em breve e, provavelmente nem se falariam mais... Além disso, ela só o queria como amigo, nada mais. Talvez fosse melhor assim.
A mesa já estava posta e os camarões quase prontos quando ouviu duas batidas tímidas na porta. Ao abrir, lá estava ela, encantadora, com um conjunto de linha, composto por uma regata de listras, marinho e branco, e um casaco branco, que combinava perfeitamente com a calça, de corte reto, e as sandálias brancas, de salto baixo. Os cabelos castanho-claros estavam presos num rabo-de-cavalo. Levava nas mãos um pequena carteira de tecido estampado, com as cores do seu traje.
- Hum... Pode-se sentir o cheirinho lá no Mairi – disse assim que o viu.
- Tomara que o gosto esteja tão bom quanto o cheiro. – Ele sorriu e fez uma reverência – Entre, por favor.
Ela entrou e admirou-se da limpeza e da arrumação do interior da casa. A cozinha não estava bagunçada, como seria de esperar. Os móveis eram simples, mas as cortinas e almofadas em tecido de chita colorida davam um toque alegre e descontraído ao lugar. Até daria para pensar que por ali havia o toque de uma mulher.
- Lucca, que amor a sua casa por dentro. Não esperava que fosse assim. É muito aconchegante.
- Sinceramente acho meio exagerado, mas minha mãe... – interrompeu-se subitamente, como se tivesse dito alguma coisa errada.
- Ah, então foi sua mãe que decorou. Bem que senti o dedo de uma mulher aqui. Ela tem muito bom gosto. Onde ela mora?
- No Rio. Lembra quando lhe falei sobre o motivo do meu sotaque?
- É mesmo... – só então começou a prestar atenção em como ele estava elegante, vestindo apenas calça jeans escura e camisa de malha preta, com gola em V, de manga comprida.

- Às vezes ela vem me visitar e aí dá os seus palpites – falou enquanto terminava de colocar um pouco de sal numa das panelas sobre o fogão, evitando encará-la – Quer tomar alguma coisa? Refrigerante, vinho...
- Vinho? – pensou se não seria melhor manter-se totalmente sóbria durante aquele encontro. – Talvez seja melhor um refrigerante – disse afinal.
- Não se preocupe, pois o vinho que tenho é de boa qualidade. Não vai deixar você tonta tão fácil. – Ele parecia ter desconfiado de seus temores.
Ela sorriu, ruborizando um pouco.
- Está bem. Só um pouquinho.
Ela o observou abrindo a garrafa de vinho branco que tirou do frigobar colocado sob o balcão da cozinha. Verificava sua habilidade e charme em tirar uma rolha e notou que o vinho realmente parecia de boa qualidade. Ficou preocupada com o gasto feito por ele para aquele jantar, mas resolveu manter-se calada para não ofendê-lo. Mais uma vez surpreendeu-se ao ver que ele servia em dois cálices de cristal. Logo que o fez, entregou-lhe uma das taças e levantou a sua no ar.
- À amizade! – brindou com um estranho brilho no olhar.
- À amizade! – repetiu Isadora, para logo em seguida deliciar-se com a bebida oferecida e comentar – Você tem muito bom gosto, além de gostos um pouco caros, não?
- Digamos que eu seja exigente e goste de me permitir alguns excessos... Está com fome? – mudou rapidamente de assunto.
- Morrendo... – falou, lançando um olhar bisbilhoteiro para cima do fogão.
- Então, por favor, sente-se aqui – disse, puxando a cadeira de madeira e palha junto à mesa, onde, apesar da simplicidade da louça e dos guardanapos de papel, apresentava um simpático arranjo floral, com “mimos-de-vênus” vermelhos, dentro de uma casca de coco verde cortada ao meio.
Em seguida, serviu duas generosas porções de camarão com molho de catupiry e arroz branco nos pratos. Colocou um pouco mais de vinho nos cálices e sentou-se.
- Bom apetite – disse, liberando-a para provar suas habilidades culinárias.
- Hum, está uma delícia – comprovou após saborear a primeira garfada.
- É... Às vezes eu acerto – concordou, intimamente orgulhoso por ter conseguido agradar ao paladar de Isadora.
A conversa fluiu com os assuntos variando sobre o litoral nordestino, suas belezas naturais e de como o turismo irresponsável e a exploração imobiliária desenfreada poderia prejudicar tudo aquilo. Isadora surpreendia-se a cada momento com as idéias de Lucca sobre aqueles temas, demonstrando que estava bem informado. Evitavam falar sobre si mesmos, como se tivessem um acordo silencioso a respeito. Ao final da refeição, depois de degustarem uma saborosa cocada mole de goiaba, feita por uma das mulheres da vila próxima, e enquanto Lucca preparava um café, Isadora fez mais um comentário elogioso, diante do inusitado jantar.
- Parabéns, Lucca. Você é um ótimo cozinheiro. Poderia abrir um bistrô aqui mesmo ou na vila.
- Obrigado. Eu gosto de cozinhar... De vez em quando e para uns poucos amigos.
- Sorte deles. Eu não sei cozinhar nada. Já pensei até em fazer um curso, mas o César disse... – interrompeu-se abruptamente quando se deu conta de ter citado o nome do ex-noivo, baixando os olhos. Respirou fundo, tomou um gole do seu vinho e continuou – César era o meu noivo. Ele não achava necessário que eu cozinhasse. Dizia que teríamos uma cozinheira e que eu não precisava me preocupar com isso... Acho que o vinho está fazendo efeito... – sorriu tristonha.
- Se não quiser falar dele, não precisa – disse Lucca, compreensivo.
- Talvez seja bom desabafar. Não consegui ainda falar sobre ele e os motivos que nos levaram a romper nem para minha própria família. Mas não quero estragar a nossa noite.
- Você jamais estragaria a minha noite, Isadora. – disse em tom afetuoso – Além disso, para que servem os amigos? – “... E eu gostaria de ser bem mais que isso, minha princesa”, pensou com amargura.
Ele apenas continuou atento às expressões de Isadora, esperando que ela se sentisse à vontade para dizer o que bem quisesse. Após beber mais um gole de vinho, ela começou a contar, a princípio acanhada, mas depois mais à vontade, como César tinha agido desde o início do seu namoro, ainda na faculdade, por interesse. Ele ficou sabendo que o pai de Isadora era um grande empresário da construção civil e imaginou que seu futuro estaria garantido se casasse com ela. Ficou furioso quando ela falou de sua intenção de começar do zero e não contar com a ajuda paterna, logo após a formatura deles, mas acalmou-se e voltou a adulá-la quando viu que ela era competente o suficiente para ter sucesso no ramo. Tornou-se sócio. Só recentemente, ela soubera que o dinheiro tinha sido emprestado por seu próprio pai, que encontrou no futuro genro a oportunidade de ajudar a filha sem ela saber, o que foi muito útil para César. Enquanto ela dava duro no escritório e ganhava reconhecimento e respeito, ele a traía com outras mulheres. Já estavam noivos e, cedo ou tarde, ela seria uma herdeira rica, naturalmente. Infelizmente ela levou seis anos para convencer-se de que ele era um grande aproveitador. Como se deixara enganar por tanto tempo é o que mais a revoltava.
- E como você soube de todas estas coisas a respeito dele?
- Ele fez questão de me contar em detalhes quando rompemos. – seus olhos ficaram marejados, mas ela segurou o choro.
- Me lembre de esmurrar este cara se um dia ele aparecer na minha frente – Lucca estava revoltado com tudo que ouvira até ali.
- Não se preocupe. Eu já me encarreguei de fazer isto e posso garantir que foi muito bom, apesar de quase ter quebrado a mão – disse, conseguindo esboçar um sorriso vitorioso que foi correspondido por Lucca com uma interjeição de contentamento.
- A gota d’água – continuou – foi quando descobri que ele estava negociando nossa empresa com uma concorrente. Desconfiei quando ele começou a inventar desculpas para que eu assinasse papéis em branco, que obviamente nunca assinei. Rompi o noivado e fiz questão de comprar a parte dele na sociedade, para não correr mais riscos. Com isso, meu patrimônio pessoal quase ficou zerado, mas valeu à pena para me livrar daquele verme. A empresa já tem um bom nome no mercado e muitos projetos grandes em andamento. Logo recupero o prejuízo.
- Tenho certeza que você vai conseguir superar tudo isto, tanto emocional como economicamente. Só fiquei curioso com uma coisa, Isadora...
- Com o quê?
- É admirável de sua parte querer vencer por suas próprias pernas, mas você parece ter verdadeiro horror à ajuda de seu pai. Por quê? Normalmente isto seria bem vindo pela maioria das pessoas.
- Lucca, vou te contar uma coisa que eu nunca falei para ninguém... – levou o cálice de vinho mais uma vez à boca – Foram incontáveis as vezes que vi meu pai lançando na cara de minha mãe que ela era uma incapaz e que não seria nada sem ele ou o seu dinheiro. Toda a vez que ela tentava arranjar algum trabalho ou pensava em voltar a estudar, ele reagia assim. E a cada vez, eu a via sentar-se num canto do quarto e chorar escondida, sem dizer nenhuma palavra de repúdio ao que ouvira. Acho que ele tinha ciúmes dela ou medo de perdê-la. Ela faz parte de uma geração que foi criada para ser esposa e mãe. Meu pai foi o primeiro a impedir que ela trabalhasse, pois não ficaria bem a sua mulher procurar um meio de sustento, quando ele era capaz de prover todas as suas necessidades. O que iam dizer se ela fosse para a rua trabalhar como uma qualquer? Esta era a idéia que ele e muitos homens de seu tempo tinham de um casamento. E a maneira que ele encontrou para mantê-la assim era humilhando-a e fazendo-a acreditar que era uma inútil. Eu jurei que nenhum homem jamais faria isso comigo. Por isso, depois de terminar meu curso, neguei qualquer ajuda financeira dele. Ele é uma boa pessoa e sei que me admira por eu querer ser independente, apesar de nunca ter admitido.
Lucca estava boquiaberto com tudo que ouvira e sua admiração e carinho por Isadora só crescia a cada instante e a cada palavra dela. Só lhe restava o medo de que Isadora ainda pudesse gostar do canalha do tal César. Achava improvável, mas tinha sido uma relação longa em que ela negou muitas das ações dele. Não tinha coragem de perguntar sobre isto agora. Talvez numa próxima vez ou... talvez não valesse a pena entrar neste assunto.
- Pronto! Falei, desabafei, exagerei no vinho e você deve estar louco para me ver pelas costas depois de tantas lamúrias ditas de uma só vez.
- Você está se sentindo melhor agora?
- Acho que sim... Bem melhor.
- Então é isto que vale. Não acha?
- Tem razão... De qualquer forma, desculpe por abusar dos seus ouvidos.
- Eles são todos seus, quando quiser... Além do mais, quem sabe eu não precise dos seus um dia destes.
- Você também guarda muitos segredos? – perguntou curiosa.
- Talvez um dia façamos a sessão “Lucca na intimidade”. Mas não hoje. – sua expressão era de amargura, apesar dos lábios contraírem-se num riso jocoso. – Que tal mais um pouco de vinho? – ofereceu, mudando o rumo da conversa rapidamente.
Isadora percebeu em sua atitude que ele enfrentara algo muito ruim, mas respeitou a sua vontade de permanecer calado sobre este assunto. Ela agora se sentia mais leve. Fosse o fato de ter contado suas infelicidades para Lucca ou o fato de já ter bebido além do que desejava, a verdade é que estava... alegre.
- Acho que vou parar de beber vinho. Está excelente, mas já estou ficando um pouco alta.
- Não parece... – constatou, abrindo um largo e sedutor sorriso.
- O senhor está com más intenções comigo... – brincou – Ainda tenho que fazer o caminho de volta até o Mairi, via praia.
- O café já está pronto. Quer um pouco?
- Adoraria. Mas antes, será que posso usar o seu banheiro?
- Claro. É naquela porta à direita.
Ela levantou-se e tudo pareceu mover-se a sua volta por alguns instantes. Lucca aproximou-se dela para prevenir uma queda.
- Tudo bem, Isa? – perguntou preocupado.
- Tudo bem – assegurou-lhe, se empertigando e sentindo o chão mais firme sob seus pés.
– Tem certeza que não quer ajuda para ir ao banheiro?
- Muito obrigada, mas posso fazer isso sozinha – respondeu dando-lhe uma piscada de olho.
Caminhou até onde havia duas portas, lado a lado, ficou na dúvida de qual era a certa. Entrou na da esquerda e descobriu que aquele era o quarto. Não parecia em nada com o resto da casa. Estava bagunçado e com roupas espalhadas por todo o lado. Alguma coisa parecia errada, mas não conseguia definir o por quê daquela sensação. Achou que era o efeito do vinho e não falou nem brincou com ele sobre o que vira.
- Acho que errei de porta – comentou alegremente, enquanto a fechava e dirigia-se para o lugar correto. Lucca apenas a observava divertido.
Já o banheiro era extremamente simples, mas cheirava bem e estava arrumado. Tinha até um arranjo de flores, semelhante ao da mesa de jantar, sobre a tampa da caixa do vaso sanitário. Definitivamente só o quarto não se encaixava com o resto. “Ele não deve ter tido tempo de arrumar, tadinho...”, pensou desculpando-o.
Quando saiu, ele já tinha retirado os pratos, organizado a cozinha e deixado duas xícaras de cafezinho fumegando sobre a mesa.
- Como diriam minhas primas, você já pode casar.
- Posso considerar isto como um pedido formal? – insinuou ele com um olhar maroto.
Isadora soltou uma risada nervosa e não respondeu à pergunta de Lucca, que permaneceu olhando-a intensamente. “Não brinque assim comigo...”, ambos pensaram ao mesmo tempo. Foi até a mesa e tomou o café em pequenos goles para não queimar a língua, enquanto sentia Lucca observando-a atentamente. Aquele olhar começava a desconcertá-la e a deixá-la excitada. Por que tinha bebido tanto vinho?
- Preciso mesmo ir embora. Já está tarde e amanhã temos o nosso passeio logo cedo – disse enquanto procurava sua carteira.
- Tem razão – disse Lucca resignado. – Eu vou com você até o Mairi – definiu ao entregar-lhe a pequena bolsa estampada.
- Não precisa não, Lucca. Eu posso achar o caminho sozinha.
- De jeito nenhum. Vamos lá que eu a levo. Não quero perder a minha contratante por aí.
- Por falar nisso, eu ainda não fiz o seu pagamento pelo passeio de hoje – lembrou de repente.
- Você me paga depois que completarmos o nosso pacote, ok? – disse com leve irritação na voz, que Isadora não percebeu naquele momento – Vamos agora. "Por que eu tinha de lembrar este maldito contrato turístico para ela?"
Abriu a porta e segurou-a pela mão, guiando-a para fora da casa.
Sem reclamar e sentindo-se ligeiramente flutuante, Isadora o seguiu. Na rua, deu um grande suspiro e exclamou, ao ver o mar a sua frente:
- Que noite linda!
Aí sentiu um a leve tontura e segurou-se no braço de Lucca.
- É melhor eu levá-la no colo.
- O quê? É claro que não... – Nem bem tinha acabado de recusar a ajuda quando foi erguida do chão. – Lucca, me solte. Até parece que não posso caminhar. Não estou tão mal assim. – falou com a voz meio sumida, segurando-se com os braços em torno do pescoço dele.
Notou que ele estava sério e preocupou-se com o que ele deveria estar pensando dela e deste seu comportamento deplorável.
- Lucca? – perguntou com a voz rouca.
- O que foi? – perguntou sem baixar os olhos ainda em tom rude.
- Desculpe por estar fazendo este papelão. Eu não estou acostumada a beber e acho que passei um pouco do meu limite. Não fique zangado comigo...
Ele não pode evitar um sorriso, diante daquele pedido de desculpas, voltando o seu olhar para ela e dando-lhe um beijo na testa.
- Quem disse que estou zangado com você?
- Ficou tão sério de repente, a pouco... – o sono e o vinho começavam a finalizar seu trabalho. As palavras já vinham com dificuldade e as pálpebras pesavam muito.
Notando que logo ela dormiria, Lucca perguntou em que bangalô ela estava.
- Doze... – foi a última coisa que ela conseguiu dizer antes de aconchegar-se melhor entre os braços que a seguravam e adormecer.
Lucca experimentou uma sensação de extremo carinho por aquela que se deixava abandonar em seus braços, tão doce e meiga que deixava o seu coração leve e emocionado. Continuou até atravessar os jardins do Mairi e chegar ao bangalô número doze. Para pegar a bolsa que tinha caído no regaço de Isadora, entre os dois, foi obrigado a colocá-la de pé, encostada a ele, segurando-a pela cintura, enquanto tentava abrir a carteira onde deveria estar a chave do apartamento. Quando conseguiu achá-la, Isadora abriu os olhos e pareceu não entender o que estava se passando.
- Chegamos, Isa – disse ternamente, enquanto Isadora continuava olhando para ele como que sob um encanto, continuando agarrada a ele firmemente.
- Lucca... – finalmente falou com a voz embargada, fechando os olhos e inclinando a cabeça para trás, oferecendo o rosto para ele. – Me beija?...
Não podendo resistir a um pedido como aquele, Lucca abaixou a cabeça e aproximou sua boca dos lábios que ele tantas vezes desejara nos últimos dias e a beijou. Finalmente podia sentir o seu gosto, deslizar na sua umidade e brincar com sua língua. Quando sentiu que ela rodeava seu pescoço com os braços, afastou-se um pouco, apenas para poder vislumbrar o rosto que continuava de olhos fechados, com os lábios entreabertos, à sua espera. Porém, subitamente ele caiu em si e lembrou-se que ela ainda estava sob o efeito do álcool, e que ele não podia aproveitar-se dela naquelas condições. Não queria que fosse assim, por mais que seu corpo reclamasse e exigisse que ele a beijasse mais incontáveis vezes e que a carregasse para a cama e satisfizesse seus instintos. Se tivesse que acontecer algo entre eles, que ela estivesse plenamente consciente disto. Por isso, terminou de abrir a porta, tomou-a novamente no colo e carregou-a para dentro. Colocou-a sobre a cama, o que a fez escapar um gemido, já adormecida novamente. Tirou suas sandálias e a cobriu com a colcha. Antes de sair do seu lado, cedeu à vontade de passar a mão em seus cabelos e acarinhar-lhe o rosto.
- Boa noite, Isa – sussurrou, antes de tocar-lhe de leve os lábios com os dedos.
Saiu sem fazer barulho e voltou para casa.



A coisa parece que está começando e esquentar. Aguardem o próximo capítulo...
Prometo postar o VI durante o feriado.
Por falar nisso, desejo a todos um Carnaval maravilhoso, seja para aqueles que vão pular e brincar, como para aqueles que, como eu, vou aproveitar para descansar um pouquinho. Para todos, sejam felizes e aproveitem da melhor maneira possível estes dias de folga.
Beijos!!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Na Rede do Pescador - Capítulo IV

O dia seguinte chegou glorioso, com um sol radiante, num céu sem nuvens, sobre um mar sereno, de verde intenso, invadindo o quarto de Isadora muito cedo, e encontrando-a preguiçosamente agarrada aos seus travesseiros, despertando de uma noite sem sonhos, mas restauradora. Vestiu seu traje de banho, colocou a túnica de praia e foi até a piscina, onde ficou lendo um dos vários livros que havia colocado na mala, para atualizar-se com a literatura, relaxadamente sentada numa das cadeiras reclináveis. Apenas alguns funcionários do Mairi desfilavam àquela hora, cuidando dos jardins ou limpando as piscinas. Além daqueles, outros anônimos deviam estar trabalhando intensamente na cozinha e no restaurante, preparando-se para o início do desjejum, que começaria dentro de aproximadamente 30 minutos.
Depois de tomar um delicioso café da manhã, resolveu ir até a enfermaria para que lhe tirassem o curativo e verificassem se estava tudo bem.
- Vamos ver como está seu ferimento – falou a simpática enfermeira de plantão. – Parece que você tem uma ótima cicatrização. Apesar disso, é bom que continue com alguma proteção. Caso venha a molhá-lo, troque-o tão logo seja possível, aqui mesmo, conosco.
- Que bom. – Isadora respirou aliviada – Estava preocupada que isto pudesse estragar minhas férias.
- Não se preocupe, querida. Mais dois dias de curativo e sua mão estará bem.
- Muito obrigada. – despediu-se alegremente e saiu já decidida para onde iria a seguir.
Ao chegar ao bangalô de Lucca, não viu seu buggy e nem sinal de sua presença. Parece que alguém tinha acordado mais cedo também. Mesmo assim, aproximou-se e alguma coisa chamou sua atenção nos fundos da casa. Com cuidado, foi contornando o casebre, descobrindo que atrás dele tinha uma espécie de trilha que acabava em um interessante e charmoso portão de madeira, quase escondido por uma trepadeira repleta de flores vermelhas. Caminhou até ele e ao abri-lo, com facilidade, descobriu que a trilha continuava e acabava dentro de um imenso gramado, onde uma linda mansão repousava. Era uma casa de dois andares, em estilo mediterrâneo, pintada de amarelo e com detalhes em branco nas janelas e portas. O jardim era muito bem cuidado. Porém, parecia estar deserta.

O que a intrigou foi a ligação daquela bela morada com a humilde choupana na beira da praia. Ainda estava admirando o lugar, quando sentiu a aproximação de alguém. Ao virar-se, deu de cara com Lucca, que estava sério e com aquele olhar de preocupação estampado nas belas feições.
- O que está fazendo aqui? – perguntou rudemente.
- Bom dia, em primeiro lugar. Custa ser um pouco mais educado e cumprimentar ao invés de chegar sorrateiramente e me assustar?
- Desculpe, princesa. Não queria assustá-la – desculpou-se em tom mais ameno. – O que está fazendo aqui? – repetiu sua pergunta.
- Eu vim procurá-lo e descobri a trilha que tinha nos fundos da sua casa. Vim parar aqui a seguindo. De quem é essa casa?
- É de um pessoal que mora em outro estado. – respondeu hesitante.
- Você os conhece? É o zelador daqui? – investiu na única explicação que encontrava para a ligação entre as casas e a presença de Lucca por ali. Notou que a expressão dele desanuviou-se e ele sorriu.
- Sim! Eu cuido da manutenção da casa enquanto eles estão fora. Sempre é bom uma renda extra, não?
- Que bom, Lucca. Aliás, parabéns, pois ela está muito bem cuidada. Não imaginava que tivesse habilidades em jardinagem.
- Ah, isso... Na verdade, tem uma firma de jardinagem que cuida esta parte. Eu me responsabilizo por afastar os intrusos e pela manutenção interna. Por isso me assustei quando percebi que tinha alguém aqui.
- Ah, entendi. Desculpe mais uma vez. Parece que estou sempre deixando você preocupado, de uma maneira ou de outra. – sorriu envergonhada por tê-lo alarmado. – Mas é uma bela morada e muito bem projetada. Acredito que o interior deva ser igualmente admirável.
- Acho que sim... – fazendo-se de desentendido sobre o convite subliminar – Você fala como se entendesse do assunto. – falou repentinamente interessado.
- Eu sou arquiteta, por isso fiquei curiosa.
- Arquiteta, é? – sorriu. – Afinal, a que devo a honra da sua visita?
- Já esqueceu? Vim para fecharmos o preço do passeio como combinamos ontem.
- Ah, claro. Então, quanto me oferece? – estranhamente ele parecia divertir-se com esta questão.
- Eu me informei dos valores cobrados no hotel e resolvi propor-lhe... Cem reais? Pelo dia? É metade do preço no resort, como você tinha me sugerido. Se achar pouco, pode fazer uma contraproposta. – Iniciou a negociação, sem ligar a expressão de Lucca. Talvez estivesse nervoso por ter de falar em dinheiro com ela ou por não estar acostumado a este tipo de transação comercial. Por seu lado, por algum motivo, sentia-se um pouco desconfortável tratando da remuneração dele, apesar de ser uma mulher acostumada a lidar com tabelas de preço junto aos empreiteiros e operários que trabalhavam para o seu escritório.
- Vamos dizer que... – ele fez uma pausa dramática e continuou – Aceito!
- Ótimo! Quando podemos sair? Amanhã?
- Que tal... Agora? – “Ao inferno as dúvidas quanto a mantê-la longe. Vai ser bom ter uma companhia para passear por aí”, pensou animado.
Pega de surpresa, logo sorriu e respondeu efusivamente:
- Por que não? Vamos lá.
Ela tomou a frente, na direção da praia, não reparando no olhar ferino que a seguiu. “Afinal, talvez seja um dia divertido”, pensou ele.
Isadora pediu que ele aguardasse alguns minutos. Ia pegar sua bolsa de praia com algumas coisas necessárias para passar o dia fora. Estava muito excitada. Talvez um pouco além do que era de se esperar para a realização de um simples passeio turístico.
- Eu vou abastecer o buggy e a encontro aqui mesmo dentro de... Quinze minutos. Está certo?
- Ótimo. Já volto! – e saiu em passos apressados, que brigavam contra a dificuldade de correr na areia fofa da beira-mar.

A sensação do vento batendo em seu rosto, tendo aquela paisagem magnífica inundando seus sentidos era maravilhosa. Lucca demonstrava ser um ótimo guia. Realmente parecia conhecer todas as praias da região e sua história. Até o momento tinham visitado duas, mas decidiram parar para almoçar num modesto restaurante, de frente para o mar, que, segundo ele, era propriedade de pescadores. Ao chegarem, ele pediu que ela o esperasse no veículo e foi conversar com o dono, seu amigo. Desconfiou que ele estivesse tratando o preço e conseguindo uma refeição gratuita para si próprio, como era de praxe. Não entendeu as gargalhadas que se seguiram enquanto conversavam, mas quando terminaram, o proprietário da casa veio pessoalmente cumprimentá-la e acompanhá-la até uma das mesas melhor localizadas, com uma vista privilegiada, conforme ele sugeriu. Agradeceu e notou que Lucca a olhava discretamente encostado numa das colunas de madeira próxima ao balcão.
- Lucca! Por que não vem sentar aqui? – sentiu-se mal ao perceber que ele estava se posicionando como um simples empregado, evitando compartilhar a refeição com ela. – Por favor... – suplicou.
Ele se aproximou com um sorriso cativante.
- Acho que não fica bem sentar com a “patroa” na mesma mesa.
- Deixe de bobagem. Acho que já podemos dizer que somos um pouco amigos, não? Até passar a mão no meu bumbum você já passou – disse olhando-o de soslaio e ruborizando imediatamente. “Agora já falei, azar! Por que não calo a boca de vez em quando, só para variar?”, arrependeu-se tardiamente.
- O quê? – foi a vez dele de surpreender-se – Quando?
- No dia em que me ajudou nos corais. Esqueceu? Eu fiquei furiosa com você – Notando o embaraço dele, começou a rir.
Inesperadamente ele soltou uma gargalhada gostosa, quando se lembrou do que acontecera.
- Tem razão. Mas pode ter certeza que foi com a melhor das intenções.
- Eu sei... Então, pode me dar a honra de almoçar comigo?
- Claro. A honra será toda minha.
“O que ela está fazendo comigo? Eu não devia estar sentindo ou agindo dessa maneira. Por que ela tem de ser tão deliciosa, meiga e divertida?”
“O que eu estou fazendo? Deveria mantê-lo a certa distância ao invés de tratá-lo como amigo íntimo. Aonde eu vou parar neste ritmo?”
Fizeram seus pedidos e, enquanto almoçavam, Lucca lhe falava a respeito dos lugares que visitariam à tarde. Isadora estava encantada com os conhecimentos dele, que chegou a citar alguns lugares da Europa, comparando-os à paisagem local, como se já tivesse viajado para lá. Obviamente ele os conhecia de revistas, como ele próprio afirmou, ao perceber o espanto dela. Ele não parecia em nada com o rústico e ignorante pescador que ela imaginara. Sua conversa seria bem vinda em qualquer roda social de São Paulo. Enquanto esperavam o cafezinho, ao final do almoço, Isadora disparou uma pergunta:
- Por que você tem um sotaque diferente do resto do pessoal daqui? Parece mais com o carioca.
Parecendo embaraçado diante da pergunta, acabou por responder:
- É que minha mãe era carioca e vivi com ela uma boa parte da minha vida, no Rio. Satisfeita?
- Você também era pescador lá?
- Tornei-me pescador depois. – “Até onde vou ter que ir para escapar destas perguntas?”.
- O seu pai era daqui? Era pescador também?
- Esta é uma história muito longa e eu prefiro não lhe cansar contando-a – fixou o olhar num ponto do outro lado do restaurante onde estavam e Isadora entendeu que aquela conversa encerrava por ali.
- Acho melhor irmos logo, pois ainda temos muito que ver.
- Certo. Vou pagar a conta e vamos.
- Não se preocupe com isso. Já acertei tudo com o seu Ariel. Considere isto como incluído no valor do passeio.
- Não posso fazer isso. Não combinamos sobre o almoço. Assim não vai ganhar nada. Se considerar a gasolina e o almoço, o que sobra para você?
- O suficiente para minha diversão – sorriu e pegando-a pelo braço suavemente, levou-a até onde estava o buggy.
- Por favor, Lucca. Tem que aceitar o dinheiro do almoço.
- Olhe, se isso é tão importante para você, depois eu incluo o almoço no valor que combinamos.
- Assim é melhor – concordou mais aliviada.

Quando passavam por um extenso canavial, ele parou o carro junto a uma cerca de arame farpado e desceu.
- Onde estamos? – perguntou, ligeiramente inquieta com a súbita parada.
- Logo vai ver. Confie em mim. Precisamos seguir a pé deste ponto, mas verá que, ao fim, vale à pena. Venha! – disse pegando-lhe pela mão, como se isto fosse muito natural. Isadora simplesmente aceitou o comando e seguiu-o, sentindo o calor daquele toque subindo por seu braço e aquecendo seu corpo agradavelmente.
Caminharam alguns metros entre os pés de cana e, quando menos esperava, Isadora vislumbrou a imagem de um paraíso. Entre escarpas multicolores, encontrava-se uma praia deserta, com algumas enormes formações rochosas esbranquiçadas, que pareciam dinossauros esquecidos pelo tempo. Para completar a visão paradisíaca, o mar azul esverdeado e calmo, praticamente sem ondas cobria tudo, até o horizonte. Não havia mais ninguém ali. Apenas os dois.

- Que lugar lindo, Lucca... Como é o nome desta praia? – perguntou deslumbrada diante de tanta beleza.
- Chama-se “Carro Quebrado”. É linda, não? Deixei-a para mostrar por último, pois sabia que a surpreenderia. Pode ficar a vontade. Ela é toda sua – continuou a levá-la segura pela mão até as areias mais grossas e um pouco mais escuras que das outras.
Sorriu diante da face radiante de Isadora. Parecia uma criança descobrindo o mar pela primeira vez. Não cansava de admirá-la, mesmo quando se soltou de sua mão e correu para tocar as pedras à beira-mar ou enquanto observava atenta as falésias com suas areias de vários tons terrosos, dispostas em camadas.






- Acho que não vou resistir a tomar um banho nestas águas.
- Faça o que tiver vontade. Pode trocar o seu curativo quando voltar para o Mairi. Não foi o que a enfermeira lhe falou?
- Tem razão. Acho que não fará mal molhar um pouco, não?
- Vá em frente. – estimulou-a, enquanto se recostava em um dos “monstros de pedra”.
- Não vai entrar?
- Sou um profissional. Não posso me divertir enquanto estou trabalhando – retorquiu tão seriamente que Isadora quase acreditou.
- Você está brincando? Com este calor e um mar destes a nos convidar para um mergulho, eu libero você do seu profissionalismo – disse sorrindo.
- Já que insiste, não tenho como negar. – Tirou a camisa branca que vestia e exibiu seu peito bronzeado e os músculos tensionados no movimento, ficando apenas com a bermuda. O coração de Isadora disparou e seus joelhos falsearam.
- Vai ficar parada aí ou vai entrar comigo?
Pegou-a mais uma vez pela mão sã e puxou-a para a água. Em certo momento ela não resistiu aos passos largos e rápidos dele, caindo entre as ondulações suaves de água salgada e morna. Logo se levantou rindo, com a ajuda dele, que se voltou preocupado.
- Eu não devia ter corrido. Machucou-se?
- Claro que não. Mas exijo vingança! – exclamou, ao mesmo tempo em que lhe deu um empurrão para trás, soltando uma sonora gargalhada ao vê-lo cair com espalhafato. A partir daí, ficaram vários minutos brincando tal e qual crianças, atirando água um no outro, num jogo de pega-pega, mergulhos e muitas risadas. Quando se cansaram, voltaram para as areias, onde Isadora estendeu uma toalha, e deitou-se. Lucca, sem esperar convite, deitou-se ao seu lado, diretamente sobre a areia. Assim ficaram, com os olhares perdidos no infinito do céu azul, ao som do marulhar que ia e vinha.
- Isadora, posso fazer uma pergunta indiscreta? - Lucca aproveitou o momento para satisfazer sua curiosidade.
- Pode... – arriscou-se a aceitar a indiscrição dele.
- O que uma jovem e bonita arquiteta como você faz sozinha em férias no Nordeste, querendo manter-se longe dos outros turistas, num lugar onde você teria chances de conhecer alguém interessante?
O olhar de Lucca recaiu sobre ela, desconcertando-a.
Ela desviou o olhar do céu para ele, procurando uma resposta coerente, que não a levasse a se abrir com ele. Aqueles olhos verdes, intensos e sinceros, convidavam a intimidade, mas ali não era hora nem o local para confidências. Por isso respondeu com uma meia verdade.
- Eu tenho um escritório de arquitetura em São Paulo ao qual venho dedicando todo o meu tempo há cerca de cinco anos, sem intervalo para descanso. Nos últimos tempos, comecei a sentir mais do que nunca o estresse resultante deste trabalho. Por isso achei que estava na hora de parar alguns dias e recarregar as baterias.
- E você não tem ninguém? Um marido, noivo, namorado?
- Tinha um noivo, mas prefiro não falar sobre isto. Não quero estragar o nosso dia. – Sentando-se repentinamente, contemplou o mar num misto de tristeza e amargura e calou-se. Lucca respeitou seu desejo e deu por encerrada as perguntas pessoais. Mas ficou curioso em saber mais sobre este noivado e sobre quem seria o idiota que a tinha magoado daquela forma.
- Vou dar uma caminhada por aí. Quer vir junto? – ele perguntou após alguns minutos.
- Não, obrigada. Vou ficar deitada aqui aproveitando o sol e a paz deste lugar. – agradeceu com um pálido sorriso e deitou-se novamente.
- Volto em quinze ou vinte minutos para podermos levantar acampamento. – Depois de uma pequena pausa, continuou em tom muito terno. – Você está bem?
- Estou bem sim. Não se preocupe... – respondeu, envaidecida com a preocupação demonstrada por ele.
“O que está acontecendo? Eu não me reconheço mais. Nunca me comportei dessa maneira com ninguém. Por muito pouco quase abri minha vida pessoal para ele... Quem é este homem que me faz sentir tão bem? Que me faz voltar a ser criança. Ao invés de me desencantar por ele, cada vez mais me sinto atraída. Ele não é só atraente fisicamente. Suas maneiras, a sua conversa, sua voz, o seu olhar... Não parece ser um pescador sem estudo e sem educação. Quanto mais tempo passo ao seu lado, maior se torna o meu desejo de ficar junto e de conhecê-lo melhor.”

Assim que voltou de sua caminhada, Lucca convidou-a para partir. Já estava ficando tarde. Isadora concordou e imediatamente recolheu suas coisas e foi para o buggy onde ele já a esperava com o motor roncando. Não conversaram muito nesta volta, a não ser por alguns comentários a cerca das belezas naturais encontradas ao longo do caminho.
O sol já era apenas um clarão laranja-avermelhado no horizonte, encoberto por algumas nuvens brancas, através das quais saíam os derradeiros raios dourados, quando Lucca estacionou o buggy diante do acesso ao Mairi. Isadora continuou sentada ao seu lado, até que conseguiu verbalizar:
- Podemos fazer aquele passeio às piscinas amanhã?
Ele não pode evitar um sorriso.
- Tem certeza que quer que eu continue sendo seu guia turístico?
- Por que não? – indagou, mexendo em sua bolsa, evitando seu olhar.
- Talvez eu tenha sido inconveniente e tenha ultrapassado os limites com você? Afinal eu só um pobre pescador, sendo pago para servi-la, e não seu amigo.
- Lucca... – murmurou ternamente, virando-se de lado para encará-lo – Sinceramente, eu gostaria muito que você fosse meu amigo. O que houve agora à tarde foi uma dificuldade minha em falar sobre uma ferida que ainda não cicatrizou. Não foi nada com você. Além disso, o fato de ser um “pobre pescador”, como você se diz, não faz diferença alguma para mim. Não costumo avaliar meus amigos pela profissão ou pela situação econômica deles. Agora, se você tiver algum tipo de preconceito em relação a mim e não quiser ser meu amigo, eu vou ficar muito triste, mas não poderei fazer nada.
Surpreso e comovido com a declaração inesperada de Isadora, sentiu o coração acelerar e o desejo de abraçá-la e beijá-la quase o sufocou, mas seu autocontrole o permitiu apenas pegar sua mão carinhosamente e dizer:
- Não costumo sair por aí fazendo amizade com as turistas mais bonitas – declarou com um meio sorriso desajeitado – Mas você é diferente. Sinto-me muito bem na sua companhia e fico muito contente com o que acabei de ouvir. Terei o maior prazer em ser seu amigo...
- Então, está combinado – atalhou-o, com a voz enrouquecida – A que horas podemos sair para as piscinas amanhã, amigo?
Limpando a garganta e suspirando, Lucca respondeu:
- Em vista da maré, o melhor horário para ir até lá é em torno das nove horas. Teremos que sair às oito e meia. Está bom para você?
- Está ótimo! – exclamou, ainda tentando livrar-se do tremor que a percorreu quando ele a tocou, enquanto soltava sua mão dentre as dele. – Venha comigo até o bar para beber alguma coisa gelada.
- Acho que o pessoal do hotel não vai gostar da minha presença...
- Por que, se você for meu convidado? Deixe de bobagem. Ai de quem falar alguma coisa.
- Isadora – ele a segurou novamente, evitando que ela saísse do buggy – Não se preocupe. Eu tenho de ir mesmo para casa... – interrompeu-se por alguns segundos e seu rosto iluminou-se repentinamente – Por que não combinamos outra coisa? Que tal jantar comigo?
- Jantar? Onde? – perguntou animada.
- Na minha... casa. – por um momento pareceu ter dúvida na palavra a empregar – Não se importa? Prometo que não vai se arrepender. Sou um bom cozinheiro.
Não precisou de mais que cinco segundos para que ela respondesse, levantando o queixo, desafiadora:
- Fechado. É só dizer o horário que estarei lá – confirmou tentando parecer natural.
- Às oito e meia da noite está bom? Lembre que amanhã temos de sair cedo.
- Confirmado – concluiu e instintivamente aproximou-se dele de um pulo e deu-lhe um beijo na face. Virou-se rapidamente, não dando chance a ele de retribuir e saiu apressada, subindo as escadas do deck do Mairi quase correndo, enquanto ele a observava ainda aturdido, sentindo queimar o local do rosto onde ela o beijara.


Continuam gostando da nossa aventura com o Lucca e a Isa? Logo devo estar postando o quinto capítulo. Só queria dizer, que esta praia "Carro Quebrado" realmente existe no litoral de Alagoas e que as fotos foram tiradas lá. Quem tiver oportunidadde de conhecer, vale à pena. E é deserta...
Beijos!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Na Rede do Pescador - Capítulo III

Um dia inteiro dedicado a não fazer nada, a não ser ficar deitada de bruços à beira da piscina e cuidando para não molhar o curativo de sua mão direita, só serviu para que ela ficasse intensamente agitada. O culpado por esta ansiedade insuportável era o seu arrogante salvador. Queria poder ir até ele para agradecer e desculpar-se por seu comportamento. Já pensara em milhares de maneiras de fazer isto, sem chegar à conclusão de qual delas iria utilizar. Tremia só de pensar em enfrentar aquele olhar abusado, que podia transformar-se em furioso de uma hora para outra. Sentiu esta fúria sobre o seu braço, que agora apresentava uma marca tênue de seu dedo em forma de mais uma mancha arroxeada, que já formava uma dupla com o hematoma da nádega direita. Por sorte este último pudera ser oculto por um dos biquínis mais comportados que trouxera em sua bagagem.
Movida pelo consciente senso de obrigação em agradecer ao pescador e, pela curiosidade de vê-lo e saber ao menos o seu nome, Isadora foi passear pela praia à noite, após o jantar. As dores musculares e a da mão ferida já não a incomodavam mais e ela estava determinada a encerrar aquele episódio do dia anterior. Mais uma vez fez o mesmo percurso já realizado em outra noite, porém só havia lugar para a penumbra, deixando a praia iluminada apenas pela lua quase cheia. O silêncio tocado apenas pelo som das ondas do mar e a visão dos coqueiros curvados criavam uma atmosfera mágica, não fosse o soluço da areia a cada passo seu. Nesta noite não viu fogueira alguma e a modesta habitação não tinha uma luz sequer. Talvez ele não estivesse em casa. De qualquer maneira, tomou coragem e andou até a frente da casa. Viu o barco e a sombra do buggy dentro do galpão ao lado. O coração batia mais forte, e quase pulou para fora de sua boca, quando ouviu a voz vibrante e conhecida inundar a noite.
- Deseja alguma coisa? – a pergunta se fez, seguida do ranger de uma cadeira de onde uma sombra elevou-se.
- Olá... Boa noite! – o tremor acompanhou sua exclamação – Eu sou a... A pessoa que você ajudou ontem à tarde... Lembra?
- Eu não costumo ajudar muitas... pessoas no meu dia-a-dia, mas acho que me lembro de você sim – respondeu em tom divertido. Isadora quase podia vê-lo zombando dela no escuro.
- Pois é... Está tão escuro aqui... Eu não consigo enxergar quase nada. – disse apertando os olhos para tentar defini-lo melhor. – Até pensei que você não estava em casa.
Após alguns longos segundos, ele soltou uma pergunta que a pegou desprevenida.
- Como você sabia que eu morava aqui? – interrogou-a secamente.
De repente ela sentiu-se presa numa cilada. “Como sairia desta? Como explicaria que já tinha notado sua existência desde o primeiro dia em que chegara ao Mairi?”, perguntava-se aflita.
- Eu já o tinha visto aqui na praia logo que cheguei. – Num lampejo de razão, resolveu dizer a verdade. Era sua melhor escolha.
- Deve ser ótima observadora, pois eu não me lembro de tê-la visto antes – mentiu. – Geralmente os turistas que passam por aqui não costumam diferenciar os nativos uns dos outros.
“Mas você não é como os outros, meu bem”, maliciou Isadora intimamente.
- É, dizem que tenho boa memória para rostos – acabou por afirmar, sorrindo.
Mais uma vez o silêncio se instalou entre os dois. Ela podia sentir o seu olhar analisando-a. Sentia-se totalmente em desvantagem, pois ele continuava envolto na escuridão enquanto ela estava exposta à luz prateada da noite.
- Bem, – continuou, buscando encontrar as palavras que tinha ensaiado tantas vezes. – Na verdade vim aqui só para lhe agradecer pelo que fez por mim e pedir desculpas pela maneira imatura como me comportei.
Silêncio... Um silêncio que incomodava, que a humilhava e insultava. Sua vontade era dizer-lhe que era um grosso e dar-lhe as costas, mas o que saiu de sua boca foi apenas:
- Boa-noite, então. Desculpe por vir incomodá-lo a esta hora. – despediu-se friamente e iniciou o seu caminho de volta para o hotel.
- Espere! Fique! – sua voz já não era sarcástica. Era apenas um apelo sincero. Parecia arrependido do tratamento dispensado a ela. – Quer tomar um café? Acabei de fazer.
Engolindo em seco, chegou a pensar em não voltar atrás. Seria mais inteligente agradecer o oferecimento, dizer que estava com sono e reforçar o seu boa-noite. Mas quem disse que seus neurônios tinham-na acompanhado nestas férias? Pelo menos foi a esta conclusão que Isadora chegou quando aceitou o convite.
Em seguida, ele aproximou-se dela, imponente e cauteloso, oferecendo-lhe uma xícara com a bebida quente. Estava vestindo apenas uma calça jeans, com o forte tórax a mostra. Isadora chegou a sentir uma pontada na boca do estômago e a respiração ficou suspensa por alguns instantes.
- Obrigada... Eu nem sei o seu nome – indagou antes de sorver um gole do café sem açúcar, como era sua preferência, com voz surpreendentemente calma e distante.
- É Lucca. E o seu? – retornou a pergunta, enquanto continuava bem próximo a ela.
- Isadora... Então, aceita o meu pedido de desculpas e agradecimento?
- Não tem o que me agradecer e muito menos pedir desculpas. Creio que assustei você com os meus temores. – respondeu.
- Temores? – atalhou-o.
- Quando a vi caindo sobre aqueles corais fiquei realmente preocupado que o acidente pudesse vir a ser mais grave. Além do mais, você foi muito imprudente ao descer por ali, reconheça. Quantas vezes você dirigiu um caiaque em arrecifes ou caminhou sobre eles?
- Foi a primeira vez nos dois casos. – Ela sentiu ruborizar-se e agradeceu à penumbra que escondeu de Lucca a sua vergonha – Reconheço sim que houve certa imprudência de minha parte.
- Era o que eu temia quando a vi... Como está sua mão? – parecia ter visto só agora o curativo na mão machucada – Teve mais algum ferimento sério?
- Não. Nada sério. A mão teve alguns pequenos cortes, mas logo deve estar boa, segundo a enfermeira que me atendeu. Amanhã devo tirar o curativo e ver como está.
- Que bom...
- Bem, Lucca, eu vou ter de ir. Obrigada pelo café – disse entregando a xícara em sua mão.
- Por quanto tempo vai ficar no Mairi? – perguntou-lhe inesperadamente.
- Ainda tenho dezesseis dias pela frente. Acredito que a gente ainda vai se cruzar por aí.
- Espero que sim... – disse encarando-a intensamente.
- Por falar nisso, gostaria de lhe perguntar uma coisa - lembrou de perguntar, fazendo que não tinha ouvido a insinuação dele - Vi que você tem um destes buggies que usam para andar pelas praias.
- Sim...?
- Por acaso você faz estes passeios turísticos pelo litoral e às piscinas naturais?
Por alguns instantes ele ficou atônito, sem saber exatamente o que ela esperava que ele respondesse tão surpreso ficou com a pergunta.
- Ou você é apenas pescador? – continuou, pensando tê-lo ofendido de alguma maneira – Por favor, não se ofenda se por acaso...
- Não... Não me ofende... – vacilou antes de responder – Eu sou... pescador, sim...Mas também trabalho com turismo, é claro. Por quê?
- Você aceitaria que eu o contratasse para me levar à estes pontos turísticos que todos falam?
- Você quer me contratar como guia? É isso? – Estava perplexo.
- Sim – disse ela com um sorriso de satisfação.
- Mas eles não têm estes serviços no Mairi? – indagou.
- Sim, mas eu queria algo mais exclusivo, entende? Não quero me juntar a nenhum grupo de turistas barulhentos. A minha intenção quando vim para cá era de ficar mais isolada – assegurou, estranhando a causa de tantas dúvidas da parte dele e de sua perplexidade diante do oferecimento de trabalho remunerado – Quanto você cobraria por seus serviços?
- Cobrar? Ah! Claro... Meu preço... – Ele continuava com aquela expressão inquietante. – Certo... Quanto eles cobram no Mairi?
- Bom, não sei exatamente, mas posso me informar.
- Então eu cobrarei metade do preço – falou de maneira mais firme.
- Mas você não tem nem idéia de quanto cobrar? Não está acostumado a fazer este tipo de trabalho? – perguntou intrigada com este desconhecimento.
- É que, na verdade... – Procurou uma desculpa rapidamente – Eu costumo fazer este trabalho para grupos. Sendo apenas uma pessoa, não tenho idéia de quanto cobrar.
- Então está bem - respondeu não muito convencida - Eu vou me informar e amanhã conversamos de novo. Não quero prejudicá-lo pagando menos que o justo.
- Não se preocupe. Amanhã conversamos. Fazemos um roteiro e terá um belo passeio.
- Você já não tem um roteiro pronto? – “Será que ele não tem experiência com este tipo de trabalho?”, pensou.
- Sim... – respondeu parecendo inseguro. – Mas você pode ter alguma praia em especial, que queira conhecer...
- Não. Eu não conheço nada por aqui nem tenho informação de amigos indicando algum lugar. Fico por sua conta.
- Tudo bem. Combinamos tudo amanhã.
- Está bem. Até amanhã, então...
- Boa noite, Isadora.
- Pode me chamar de Isa... Boa noite, Lucca.
Ao deixar a companhia de Lucca, um sorriso acanhado aflorou-lhe aos lábios. Ele tinha sido gentil e educado e isto a surpreendera. Pela primeira vez notou que ele não tinha o sotaque regional. Falava mais como um carioca. Isto era realmente curioso pensando nele como natural daquela região. Seria o contato constante com turistas? Era difícil de imaginar isto como causa. Talvez ele tivesse nascido em outro estado e... Se o encontrasse novamente perguntaria a respeito para satisfazer sua curiosidade. Mal podia esperar para sair a conhecer todos aqueles lugares paradisíacos de que tinha ouvido falar. Ficou animada, principalmente ante a expectativa de ter Lucca como seu guia. Pressentia perigo neste seu desejo, mas algo a impelia a conhecê-lo melhor. Talvez desvendando a aura misteriosa em torno dele, a atração diminuísse. Por isso achou uma boa idéia tentar contratá-lo para guiá-la nos passeios que tinha vontade de fazer.

Enquanto a via afastar-se na escuridão, sua cabeça dava mil voltas. Ela o confundira com um dos guias locais que apinhavam por ali. Era inacreditável. O que tinha dado nele de convidar aquela maluca para tomar café? “Onde estava com a cabeça?”, repreendeu-se. “Ela já tinha se despedido!”. Se não a tivesse chamado de volta, esta conversa de passeios e pagamentos por seu trabalho não teria acontecido. Lucca maldizia-se, mas não conseguia tirar a imagem de Isadora sob o luar, na sua frente, pedindo desculpas por seu comportamento.

Não imaginava que ela fosse capaz disso. Ficara com a impressão de que ela era uma mulher determinada e arrogante, que jamais seria capaz de desculpar-se por suas ações. Aquela atitude o desarmara e o fizera amolecer. O desejo de beijá-la voltara mais forte e por pouco não a agarrara quando ela lhe retornou a xícara. Não conseguia encontrar explicação para aquela visita noturna e o porquê disso tê-lo deixado tão perturbado. Ela não tinha demonstrado qualquer indício de sedução em relação a ele. Até que ela se saiu com aquele pedido. Queria contratá-lo! E o pior é que ele não se negara. Então era por isso que ela se aproximara dele. Seu motivo era puramente comercial. Arrependeu-se de manter a farsa e mantê-la acreditando que fazia aquele tipo de trabalho. No dia seguinte trataria de esclarecer o engano e voltaria para a tranquilidade de suas pescarias. Começou a rir sozinho ao lembrar-se do susto quando ela iniciou sua tentativa de contratá-lo. Mas, apesar da insólita situação, continuava desejando-a. Talvez um pouco mais, agora que percebera que o interesse dela não era seduzi-lo. Se ela tivesse demonstrado algum outro tipo de insinuação seria mais fácil resistir ao seu apelo. Mas ao contrário, ela tinha lhe parecido ainda mais encantadora e deliciosa em sua ignorância e com o seu pedido inocente.
Até o momento em que pegou no sono não conseguira tomar uma posição sobre sua resposta no dia seguinte. Mas estava cada vez mais propenso a aceitar, para poder continuar desfrutando daquela companhia tentadora...

Mal chegara ao seu quarto, Isadora não resistiu e ligou para a recepção a fim de perguntar sobre as tarifas dos passeios. Anotou todos os preços, conseguindo obter uma base para combinar valores com Lucca. Preparou-se para dormir e, já deitada, olhando para o teto, perguntava-se porque estava fazendo aquilo justo com aquele homem. Podia escolher qualquer outro entre os bugueiros e guias que existiam “aos quilos” na região. Voltou a pensar na sua doida e providencial teoria de que o conhecendo melhor, poderia deixar de interessar-se tanto por ele. Tinha certeza de que Lucca se mostraria ignorante e grosso. Isto o faria cair no seu conceito e a faria ver a realidade. Ele era apenas um homem bonito. Bonito e oco. Infelizmente, só havia um meio de comprovar sua teoria.


... Eu acho que a Isadora vai se surpreender com o seu "pescador". O que vocês acham?
Bem, conforme o prometido, aqui está o terceiro capítulo da estória do nosso pescador Lucca e da Isadora. Como puderam ver, ela já tem um rosto também. Graças a ótima indicação da Carel. Muito obrigada, amiga! Gostaram das escolhas? Espero que sim.
Um ótimo fim de semana para todas (os - se houver algum rapaz incógnito entre os leitores do blog)!! Beijos!!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Na Rede do Pescador - Capítulo II

Lucca voltou a atiçar o fogo, pensando sobre quem teria sido o curioso que se assustou com seu grito. Provavelmente algum dos turistas que resolvera respirar o ar marítimo noturno e ficou com medo de se aproximar mais quando notou sua presença. Deve ter pensado que sofreria um assalto. O pessoal da cidade normalmente trazia este medo consigo. Num instante seu pensamento voltou-se para a tarde, quando havia visto uma das novas hóspedes lançando olhares curiosos sobre ele. Várias já haviam passado por ali nos últimos dias. Algumas até tentaram puxar conversa, mas logo foram desencorajadas rudemente. Não estava ali para preencher as fantasias de mulheres mal-amadas. Esta última até que era bem bonita, mas certamente igual a todas as outras, que buscavam uma aventura de férias, que poderia ser contada às amigas na rodinha de chá ao fim do verão. Lembrou, com um sorriso malicioso, do belo corpo da jovem, de seios fartos, redondos e firmes, mal escondido dentro do minúsculo biquíni que usava, e de sua pele clara e delicada que certamente adquiriria um tom vermelho-tomate no dia seguinte e descamaria totalmente em menos de uma semana. Imaginou como deveria ser o seu rosto, disfarçado sob os óculos de sol e o chapéu de palha de abas largas. Talvez não fosse tão bonita. Depois de tudo que acontecera nos últimos meses, preferia manter-se à distância deste tipo de aventura e, principalmente deste tipo de mulher. Precisava manter a mente clara e fortalecer-se para assumir seus novos compromissos. Para isso estava ali e era nisso que devia concentrar-se.
Acordou muito cedo pela manhã e mal-humorado. Tomou seu café e começou a preparar-se para mergulhar além dos arrecifes. Lá, no fundo do mar, com sua máscara e os cilindros de oxigênio, ao som de sua própria respiração, pescando ou apenas observando o movimento dos peixes entre os corais, encontrava uma paz indescritível. Não havia lugar mais apropriado para ficar a sós consigo mesmo e encontrar o seu equilíbrio. Partiu em seu barco, armado com um arbalete para pesca submarina, além de água e dois sanduíches reforçados, suficientes para passar o dia. Em torno das duas horas da tarde, avistou um caiaque amarelo, de propriedade do Mairi, com uma pessoa a remar próximo aos arrecifes, a cerca de quinhentos metros distante de onde ele estava. A maré a começara a baixar e o navegador corria o risco de encalhar ou de entrar no mar aberto e não conseguir voltar. Podia ser alguém com prática neste esporte ou um completo maluco. Foi quando viu que era uma mulher que “estacionava” a pequena embarcação e tentava descer sobre os recifes de corais, soube que ela pertencia à classe dos malucos. Soltando uma praga, entrou em seu barco a motor e partiu na direção de um acidente iminente. Quando se aproximou um pouco mais, reconheceu a jovem de biquíni que vira na tarde anterior, pois ainda vestia o mesmo traje mínimo. Ela estava sem os óculos e seu chapéu acabara de voar para dentro de uma das piscinas de água translúcida que a circundavam, fazendo-a deixar escapar um sonoro palavrão. Lucca riu da maneira desajeitada como ela tentava andar sobre os corais e procurava alcançar o chapéu. Só parou de rir e ficou seriamente preocupado ao ver que ela estava descalça. Perguntou-se se ela já havia lido sobre os perigosos ouriços que viviam nestes locais ou sobre os cortes profundos que os corais podiam provocar em pés sem proteção.
- Ei, você! – berrou, esperando que ela o escutasse de onde estava. – Tem que sair daí. Seu caiaque vai ficar encalhado nos corais se não sair logo.
- O quê? – exclamou surpresa ao ouvir uma voz masculina vigorosa. Tão deslumbrada estava com a descoberta de sua habilidade nata, até então desconhecida, em dirigir um caiaque e as belezas naturais no meio do oceano, que não viu o barco aproximando-se e tampouco seu condutor. Antes de reiniciar mais uma tentativa de alcançar seu chapéu, deu-se conta de quem partira a advertência para sair dali. Isadora desequilibrou-se e caiu sentada sobre uma pedra, soltando um lamento de dor. Ele aproximou-se o mais rápido que pode, temendo que ela tivesse caído sobre algum ouriço-do-mar.
- Você está bem? – gritou preocupado com ela – Fique onde está que eu vou até aí ajudá-la.
Tinha conseguido atenuar a queda apoiando uma das mãos sobre os corais. Com dor e trêmula, tentava buscar uma maneira para colocar-se de pé, apesar da orientação de seu inesperado salva-vidas.
Vendo que ela não tinha intenção de obedecê-lo, apressou-se em alcançá-la.
- Eu disse para ficar quieta – ordenou em tom extremamente irritado.
- Está bem. Desculpe... – acabou cedendo ao ver a fúria nos olhos... verdes. “Ele tem belos olhos verdes, como este mar que nos envolve”, observou temerosa e admirada ao mesmo tempo. Além dos olhos, chamou-lhe a atenção os traços másculos de seu rosto, o queixo levemente quadrado com uma covinha no centro. Detalhes que não conseguira definir no dia anterior, mas que não o deixavam menos atraente do que imaginara. Foi despertada de seu devaneio ao sentir uma garra de aço em torno de seu braço, puxando-a para cima. O aperto foi tão forte que a fez lançar um novo, mas tímido, gemido de dor. Aflito, mas com voz firme, perguntou:
- Onde está doendo?
- No meu braço. Você o está apertando muito forte – lamentou baixinho.
- Ah, desculpe – disse afrouxando a mão ao perceber que aplicara mais força do que devia sobre aquele braço frágil – Pode me processar se ficar roxo.
- O quê? – ela perguntou desconcertada.
- Nada. Esquece. Deixe-me ver aqui atrás se está machucada – ordenou novamente, erguendo-a rapidamente e forçando-a a virar de costas para ele, continuando a segurá-la firmemente.
- Espere um pouco aí, moço. O que pensa que está fazendo? Pode me largar, por favor? – Ela estava indignada com as atitudes grosseiras do desconhecido.
- Preciso ver se não sentou em cima de algum ouriço!
- Ouriço?
-Sim. Existe um grande número deles por aqui – informou, enquanto observava atentamente as nádegas e coxas de Isadora, certificando-se que, apesar de avermelhadas pelo trauma, elas continuavam belas, intactas e firmes, segundo constatou ao tocá-la enquanto a examinava – Parece que você tem mais sorte que juízo, moça. Se caísse alguns poucos centímetros para o lado... – Aliviado, mostrou-lhe os ouriços que estavam bem próximos a eles.
Ela viu horrorizada as inúmeras esferas, de diversos tamanhos, escuras e repletas de grandes e perigosos espinhos que apontavam ameaçadores para as eventuais vítimas.
- Obrigada por sua preocupação, mas acho que já posso me cuidar sozinha agora – replicou, ainda ruborizada com a sensação do toque íntimo feito por ele e por sua ignorância a respeito dos habitantes dos corais.
- Tem certeza disso? – perguntou sarcástico, olhando na direção do caiaque que agora se encontrava preso sobre as pedras do arrecife, encalhado, sem deixar de segurá-la pelo braço. – Acho que você não vai conseguir desencalhá-lo tão facilmente.
- Só tenho que levá-lo até a água e voltar para a praia. Tenho certeza que posso fazer isto sozinha – disse irritada com a presunção dele – Pode me soltar, por favor?
- Pois esteja à vontade – falou com um meio sorriso nos lábios, soltando-a finalmente. Seria interessante vê-la tentar colocar o caiaque de volta na água.
Por mais força que Isadora fizesse, não conseguia mover a bote do lugar, além de sentir os pés machucados pelas conchas e pedras. A cada segundo passado ficava mais injuriada por perceber que teria de dar razão àquele arrogante pescador, que continuava ali, de pé, com um sorriso lascivo pregado no rosto, observando-a como se ela fosse uma deficiente mental.
“Ela fica uma graça quando irritada”, comentou para si mesmo, observando seus cabelos castanho-claros, que apresentavam um tom dourado ao irradiarem a luz do sol, caindo sobre os ombros em cascatas onduladas, e a pele que permanecia alva e sedosa. Só então notou o sangue que vertia da mão que ela usara como apoio para tentar evitar a queda. Mais uma vez, num movimento rápido, a fim de analisar a extensão do ferimento, pegou-a pelo pulso e obrigou-a a mostrar-lhe a palma da mão, forçando-a a uma nova exclamação.
- Você precisa de cuidados. Não vai conseguir desencalhar o caiaque e muito menos remar de volta. Agora, se acalme e deixe que eu a ajude. Está bem? – sua expressão tornou-se branda e a voz suavizou-se. Ele parecia realmente preocupado com ela.
- Está bem – assentiu envergonhada por ter-se comportado como uma adolescente teimosa e insolente diante do auxílio prestado por ele.
No mesmo instante, ele a soltou, pegou o caiaque com as duas mãos, elevou-o no ar e colocou-o em águas menos rasas.
- Pronto, princesa. Agora venha. Entre na lancha. Vou amarrar o seu caiaque para rebocá-lo – falava mansamente, tentando tranquiliza-la, quando a pegou pela mão ilesa e ajudou-a a entrar na sua embarcação com cuidado.
Ele notou o tremor de suas mãos quando a transferia para a segurança do seu barco, e imaginou que ela ou estava ansiosa por ter visto seu próprio sangue, como era comum nas mulheres, ou estava com medo dele. Recriminou-se por ter sido tão rude ao tocá-la da primeira vez, mas é que estava realmente assustado com o que poderia lhe acontecer. Na verdade, não estava gostando das sensações que aquela maluca despertava nele. O melhor era prestar seu socorro e afastar-se dela o mais rápido possível.
Sem dizer mais uma única palavra, Lucca amarrou uma corda ao bote. Entrou na lancha, colocou uma toalha de banho seca sobre os ombros de Isadora, cobrindo-a, e ligou o motor. Ela apenas o observava, sem coragem de puxar conversa. Ele agora seguia muito sério e calado, provavelmente amolado por estar tendo que perder seu tempo com uma desmiolada inconseqüente. Ao chegar à praia, ele agilmente pulou sobre a areia tocada pelas ondas e soltou o caiaque, arrastando-o rapidamente até a areia seca e, quando ela menos esperava, voltou e retirou-a dali, elevando-a nos braços, apesar de um fraco protesto, e carregando-a escadas acima para o Mairi, até a enfermaria que ficava próxima. Lá explicou à enfermeira o que acontecera e deixou-a aos seus cuidados.
- Agora que está em segurança, vou embora. Adeus – despediu-se secamente sem esperar correspondência.
Saiu sem dar tempo à Isadora de recuperar-se da surpresa ou agradecer sua ajuda. Após receber compressas geladas sobre a região atingida, sentindo-se ridícula pela posição em que teve de deixar-se ficar para o tratamento, foi medicada com um antiinflamatório e orientada a fazer repouso pelas próximas vinte e quatro horas. Provavelmente apenas desenvolvesse um pequeno hematoma localizado, já que o trauma não havia sido grave, graças ao apoio da mão. Esta, consequentemente, havia sofrido algumas escoriações mais profundas, mas que certamente estariam cicatrizadas em poucos dias. Teria de evitar molhar o curativo por aproximadamente uns três a cinco dias. Saiu dali direto para o seu chalé, relembrando tudo que acontecera nos arrecifes e, principalmente, do homem que a ajudara. Não sabia sequer o seu nome. Começou a pensar se não tinha sido muito teimosa ao rejeitar a ajuda que ele lhe oferecera. Acostumada a não precisar de ninguém para resolver seus problemas, havia sido grosseira com ele. Talvez tivesse ajudado o nervosismo que a presença dele lhe impunha. Nunca sentira o coração bater tão descompassado diante de um homem. Quando ele a pegou nos braços e pode sentir seu corpo colado ao seu, a solidez de seus músculos e o cheiro de seu suor, uma agradável mistura de brisa marinha e madeira, pensou que fosse desmaiar. Naquela segunda noite, pediu a refeição no quarto e custou a pegar no sono, imaginando se teria coragem de ir até ele, pedir desculpas e agradecer por sua ajuda.
A algumas poucas centenas de metros do Mairi, Lucca tentava tirar aquela mulher de sua cabeça, sem muito sucesso. Nunca se sentira tão excitado por alguém. Em certo momento sentiu vontade de calar sua voz indignada com um beijo. Aquela boca de lábios cheios era um convite tentador, assim como aquele corpo quente e macio era um apelo para o amor. A lembrança daquele olhar de mel, o modo como ela acabou submetendo-se a ele, de como havia colocado seus braços em torno de seu pescoço quando a levou para a enfermaria... Mas não podia cair neste tipo de armadilha. Certamente ela era mais uma dessas mulheres solteiras que vinham a um resort a procura de uma aventura amorosa ou de um “trouxa” rico para depená-lo. Não se deixaria enganar novamente. A experiência com Ana tinha sido suficiente para abalar completamente a sua confiança nas mulheres. Por mais atraente e desejável que ela fosse, ele precisava controlar-se. Desistiu de ficar andando de um lado para o outro e foi andar pela praia numa tentativa de afastar a inquietude que tomava conta dele. Isto sempre funcionou em outras épocas. Funcionaria agora também. Estava certo disso. Ou pelo menos, quase certo...


Estão gostando? Espero que sim. Vocês já devem ter uma imagem do Lucca na cabecinha. É difícil de imaginar quem seja ele, não?...rsrsrs. Eu já tenho até uma foto, que devo postar no Capítulo IV. Mas ainda não consegui visualizar alguém com as características da Isadora. Quem quiser dar uma sugestão, por favor habilite-se.
Espero postar o terceiro capítulo no início do fim de semana. Aguardem.
Não poderia deixar de agradecer aos comentários e recados mais que carinhosos da Ly, da Cris, da Lucy, Nadja e Vanessa, minhas fiéis leitoras. Grande parte do meu prazer em escrever é este retorno que recebo de vocês, minhas queridas. Sem vocês, este blog não existiria. Beijos!!
UPDATE
Resolvi colocar uma fotinho do "Lucca", dando o seu olhar sombriamente sedutor, para dar maiores asas à imaginação...


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

FIM DAS FÉRIAS!!



VOLTEI!!! Enfim, as férias acabaram e eu retorno à rotina. Dentro desta rotina, volto a realizar algo que me dá grande prazer e alegria que é compartilhar este blog, o meu cantinho especial, com meus amigos.
Férias são sempre bem-vindas, não? Posso dizer que as minhas foram muito boas. Um período para conviver mais com o marido e os filhos, desfrutar das delícias visuais e gastronômicas de outros lugares e... RELAXAR. É mmmmuito bom não precisar usar relógio, perder a noção das horas, não saber em que dia estamos e não saber o que faremos a seguir. Pode ser um novo passeio ou simplesmente ficar deitado sob uma sombra,de olhos fechados ouvindo o barulhinho do mar e o som das risadas das crianças. A pura e simples falta de compromissos é divina.
Não poderia deixar de citar, também, uma das grandes alegrias que tive neste mês de Janeiro, em minhas andanças, que foi voltar a encontrar com uma pessoa de quem eu gosto imensamente. Alguém revelado através da internet,uma mulher amiga, sincera e guerreira,a quem dedico grande admiração e todo o meu carinho e que algumas de vocês devem conhecer - a Dany Carneiro. Apesar do pouco tempo que tivemos para matar as saudades, foram momentos maravilhosos.Um grande beijo prá ti, Dany, minha querida.
Agora é recomeçar e para isso inicio hoje a postagem de um novo romance, livremente inspirado nos lugares paradisíacos por onde passei e que gostaria de dividir com todos vocês. O nome dele é "NA REDE DO PESCADOR". Espero que gostem e curtam mais esta "viagem" desta amiga de vocês.



NA REDE DO PESCADOR




Capítulo I

O calor era insuportável naquele aeroporto. Enquanto esperava suas malas serem colocadas na esteira, olhava para o saguão logo atrás da vidraça próxima. O seu agente de viagens garantira que teria alguém da operadora a sua espera, segurando uma placa com o seu nome. Levando em conta o tamanho mínimo e a simplicidade das instalações daquele local, imaginou que não seria difícil achar seu “anfitrião”. Já começava a ficar ansiosa com a demora em ver sua bagagem, quando finalmente as viu desfilando pela passarela móvel a altura de suas canelas. Tanto a mala maior como a pequena valise, em couro, de cor marinho, tinham uma fita verde claro amarrada às alças. Servia para identificá-las melhor entre outras, de cor e forma semelhante, segundo seu ex-noivo. Esta fora uma das lições que aprendera com ele. Uma das poucas coisas que mantivera depois de oito anos de relacionamento, sendo seis entre o namoro e o noivado. Felizmente ou infelizmente, dependendo do ponto de vista. Mas não estava ali para pensar nestas coisas. Pelo contrário, esta era uma viagem para limpar sua mente e seu corpo de todas as impurezas e memórias indesejáveis advindas daquele passado, do estresse do trabalho e das objeções de sua família quanto ao rompimento com César. Dirigindo seu carrinho de mão, desaprovou intimamente a falta de um funcionário que verificasse se as bagagens pertenciam a quem as levava para fora da área de desembarque. Qualquer um poderia roubar o que quisesse e o passageiro azarado não teria a quem reclamar. Continuou a procurar a placa com o nome “Isadora Mello”, mas logo percebeu que não havia ninguém segurando tipo algum de cartaz ou cartão, com ou sem o seu nome. Impaciente, procurou o celular, desligado em São Paulo, dentro de sua bolsa, bem como o endereço da agência de viagens, onde constava o celular do senhor Adair, seu agente. Depois de conseguir sinal, teclou o número. Todas as cinco chamadas caíram na caixa postal. Praguejou baixinho, olhou mais uma vez em volta e decidiu tomar um táxi que a levasse até o resort onde tinha uma reserva para vinte dias de estadia. Quando se encaminhava para a saída, onde parecia ter um ponto, viu um homem de meia idade, de terno e gravata amarfanhados, baixinho, com uma careca emoldurada por cabelos quase totalmente grisalhos, suando desesperadamente, em passos apressados rumo à área de desembarque, a segurar um cartaz na mão. Seguiu-o com o olhar, com a esperança renovada de que este fosse aquele que deveria estar a sua procura. Caminhou em sua direção e o rodeou até que pode ver as letras escritas em pincel atômico vermelho: IZADORA MELO. Apesar de estar escrito com Z no primeiro nome e faltando um L no sobrenome, imaginou que seria muita coincidência haver outra pessoa por ali com nome tão semelhante ao seu, mas com outra grafia.
- Eu sou Isadora Mello, senhor...
- Oh, Dona Izadora. Muito prazer. Meu nome é Genuíno e sou o motorista que vai levá-la ao Mairi Resort. Sinto pelo atraso, mas é que tive um problema no transito. Pode me acompanhar, por favor – cumprimentou-a nervoso, com as palavras como que decoradas após o transporte de inúmeros outros turistas aos resorts da região. O sotaque era típico e a fala cheia de musicalidade amoleceu seu coração. Estava no litoral nordestino e suas férias estavam só começando. Daria uma chance ao pobre homem, que devia estar sofrendo um bocado dentro daquele traje totalmente inadequado para o clima quente que os rodeava. Precisava começar a relaxar e deixar a executiva exigente e amarga para trás. Nestes próximos vinte dias queria despir-se de sua armadura e aproveitar ao máximo do que a natureza daquela região podia oferecer-lhe.
- Então, vamos lá, Seu Genuíno – disse forçando um sorriso.
Ele pegou suas malas, rodopiou nos calcanhares e voltou por onde tinha entrado. A van estava estacionada do outro lado da rua, em fila dupla. O movimento de carros era grande. Isadora ficou a pensar se já havia algum planejamento para um novo aeroporto naquela cidade. Com um movimento tão grande de turistas chegando e partindo e o consequente tráfego aéreo intenso, já era tempo de aumentar aquela estrutura, construindo um parque aeronáutico maior e mais moderno. Sacudiu a cabeça e criticou-se por já estar deixando que seu lado profissional tomasse lugar em seus pensamentos. Deu graças a Deus ao sentir o ar gelado do ar condicionado do veículo quando este entrou na avenida larga que a levaria para o litoral. Segura pelo cinto de segurança de sua confortável poltrona, fechou os olhos e respirou fundo. Merecia cada um dos próximos dias, depois dos cinco anos de trabalho árduo, sem direito a descanso. Seria a recompensa por sua luta e conquista de um lugar na selva de concreto que era a capital paulista, além da necessidade de esquecer os mais recentes acontecimentos. Nestes últimos anos conseguira a façanha de ter sua tímida empresa de arquitetura lançar-se num mercado voraz e conseguir ter seu nome reconhecido como uma das melhores do estado. Tinha muito orgulho disso. Sabia que apesar de ter um sócio, o sucesso era devido exclusivamente a sua dedicação. César entrara apenas com quarenta por cento do capital inicial e sua habilidade comercial. A verdadeira responsável pelos projetos e merecedora de todos os prêmios técnicos que sua firma recebera era ela. Fizeram juntos a faculdade e sabia das dificuldades dele, mas achava que estava apaixonada e acabava negando-as. Como pudera enganar-se tanto com alguém, por tanto tempo. Pouco antes de romper seu compromisso com ele, soubera que estava tentando vender a empresa para uma multinacional, sem o seu conhecimento. Já não bastassem as traições com outras mulheres, ainda queria traí-la como sócio. Foi a gota d’água. Não poderia mais manter-se ligada a um homem daqueles. Talvez não quisesse mais ligar-se a homem algum. Uma única experiência bastava. Por sorte ele não havia criado problemas quanto à venda de sua parte. Ela ficaria com seu patrimônio quase zerado, mas em compensação se veria livre daquele crápula. O pior é que ele era tão convincente em seu papel de empreendedor, atraente e simpático, que nem sua própria família acreditaria no que ele tinha feito. Achariam que ELA era uma pessoa difícil e que estava inventando situações para livrar-se do “pobre rapaz”. Onde acharia outra pessoa com a paciência e a simpatia de César. Estas lembranças a fizeram enrijecer a mandíbula e cerrar os dentes, enquanto tentava evitar que as lágrimas aflorassem dos olhos. Lágrimas de raiva e impotência.
- Se o ar estiver muito frio, Dona Izadora, eu posso diminuir para a senhora – as palavras de Seu Genuíno a tiraram daquele intervalo de tristes reminiscências abruptamente.
- O quê? Desculpe, eu estava distraída – respondeu, passando os dedos sob os olhos marejados, tentando disfarçar seu estado de espírito – O quê o senhor perguntou?
- O ar está muito gelado para a senhora?
- Ah, não. Está ótimo – disse, voltando o olhar para a paisagem que passava correndo ao lado, num misto de pastagens modestas, com cabras e algumas reses, e imensas plantações de cana de açúcar, que iam ficando mais raras à medida que se aproximava o mar. Logo surgiram as indicações de que estavam cada vez mais próximos de seu destino. Vários painéis de propaganda, colocados ao longo da estrada, anunciavam os atrativos do Mairi. Vira o resort apenas em fotos na agencia do senhor Adair. Gostou do aspecto e de tudo que o folder oferecia, tais como o “all inclusive”, pois não precisaria sair do lugar para procurar onde fazer as refeições, a possibilidade de cursos de mergulho e passeios diversos, além da praia ladeada por coqueiros e um mar de um azul caribenho. Não estava interessada nas atividades recreativas. Na verdade procuraria fugir destas. Queria ficar sozinha. Talvez devesse ter procurado uma pousada mais tranquila, mas não tinha nenhuma indicação para tal e não estava disposta a esperar mais tempo até descobrir. Ali no Mairi teria a opção de fazer o que bem desejasse. Nada a impediria de andar pela praia e procurar um ponto distante da movimentação dos outros turistas, que procuravam diversão coletiva, para passar parte do dia. Quando passaram os portões de madeira do resort, logo vislumbrou a agradável área de recepção, sob uma gigantesca palapa. Depois de despedir-se de seu motorista, Seu Genuíno, que a conduziu amavelmente até o centro da grande estrutura feita em madeira, bambu e palha, preencheu sua ficha de hóspede e teve sua bagagem levada até o seu novo endereço nas próximas três semanas. Era uma espécie de choupana indígena, que eles chamavam de bangalô, de aparência simples e bucólica. Porém ao atravessar a rústica porta de madeira, com o número 12 entalhado na parte superior, um confortável e aconchegante ambiente abria-se a sua frente, com uma decoração simples e charmosa, composta pela cama de casal com detalhes em bambu, coberta por uma colcha de motivos florais e cores alegres, uma confortável poltrona em rattan, que compunha um conjunto harmônico com a mesa e duas cadeiras no mesmo material. As paredes eram claras e a cor vinha das cortinas de listras largas de cores amarelo e azul, que estavam presentes entre as flores da colcha. Os armários ocupavam toda uma parede, sendo que no centro escondia-se a porta que levava ao banheiro da suíte. Este apresentava uma banheira de hidromassagem redonda que ficava junto a um janelão. Dali se abria a visão da mata, verde e densa, que corria por toda a extensão dos fundos do resort e onde ficavam localizados estes bangalôs especiais. Deu uma gorjeta ao rapaz que a ajudou com as malas, depois de ouvi-lo dar uma explicação sucinta a respeito de quais eram e como funcionavam os diversos controles existentes. Na cabeceira da cama estavam alguns comandos para as luzes do teto e das cabeceiras, ar condicionado e TV, além dos tradicionais controles avulsos. Dispensou-o impaciente, jogou-se sobre a cama para testá-la e suspirou ao verificar que era muito confortável. Mal podia esperar para conhecer a praia. Afinal, até agora, as fotos que vira nos folders ilustrativos do resort estavam sendo mais que fidedignos. Abriu a mala maior e de lá sacou seu biquíni, nunca usado, comprado especialmente para esta temporada. Seu modelo um pouco mais ousado do que ela gostaria que fosse, mas estava resolvida a sair um pouco da sua rotina de esconder-se em maios e duas peças discretos. Tinha um corpo esbelto e nenhum motivo para escondê-lo, a não ser pela brancura da pele. Mas acreditava que com poucos dias de sol adquiriria uma tez mais bronzeada. Tinha levado grande quantidade de protetor solar para evitar problemas de queimaduras. Depois de tanto tempo indo só ocasionalmente ao clube onde freqüentava as piscinas, em alguns raros fins de semana de folga no verão, tinha que proteger-se contra o sol implacável do Nordeste. Tinha intenção de voltar com um aspecto saudável, não tostada, e mostrar a todos que conseguira divertir-se e relaxar de verdade. Diante do espelho de corpo inteiro que tinha diante da cama, lançou um olhar de aprovação para a imagem refletida. Completou o conjunto com uma túnica de renda branca curta e um chapéu de abas largas, adornado por uma fita e um laço de cor verde malva, uma das cores presentes em seu mínimo traje de banho. Vestiu as sandálias de dedo em couro branco, depois de passar a loção de FPS 60 no rosto e no restante do corpo. Desfaria as malas mais tarde. Ainda era cedo. Pouco mais que meio dia. Tinha a tarde inteira a sua frente para fazer um reconhecimento do local. Sentia-se subitamente feliz e livre. Pegou a bolsa de praia colorida que ganhara de uma amiga há mais de dois anos. Ali poderia levar até um lanche e água, caso quisesse permanecer distante do hotel por várias horas. Colocou os óculos de sol e fechou a porta atrás de si. Guardou sua chave e partiu para sua aventura particular.
Em pouco mais de uma hora tinha conhecido a maioria dos recantos do Mairi. Tudo era simples e de surpreendente bom gosto . Uma mistura da cultura nativa com o charme francês. Ficou sabendo que os donos daquele e de outros resorts espalhados pelo mundo eram franceses. Daí o nome Mairi, que significava “reduto dos franceses” na língua tupi. Finalmente ganhou a praia. Já tinha vislumbrado de longe o azul esverdeado cristalino das águas do mar. Não era um azul caribenho como mostravam as fotos, mas era tão deslumbrante como tal. E não havia uma só tonalidade. A presença de bancos de areia e arrecifes formando piscinas naturais por toda a parte proporcionava aos olhos do observador pelo menos quatro variedades de azul e verde que se intercalavam e mudavam de lugar à medida que o sol passeava ou era escondido por alguma nuvem perdida no céu de anil profundo. Para onde quer que sua vista fosse levada podia ver a praia de areias brancas margeada por altos e inclinados coqueiros, que saudavam as ondas que chegavam a poucos metros deles. Isadora sentia-se dentro de um enorme e lindo cartão-postal. Poderia viver ali para sempre. Tirou as sandálias e pisou na areia fria e macia, soltando um suspiro de prazer. Apesar de ainda ter muitas pessoas na praia, estava tão extasiada com a paisagem que mal percebia suas presenças, as vozes ao seu redor ou os olhares masculinos atentos à bela nova inquilina do Mairi ou dos femininos, invejosos e ciumentos. Procurou uma cadeira sob um guarda-sol, deixou sua bolsa e as sandálias sobre ela e tirou a túnica que a cobria. Tentou não pensar na sua palidez, frente a tantos corpos bronzeados, e seguiu seu passeio pela praia, agora sem apetrechos que a impedissem de ter total liberdade de movimentos. Cerca de três minutos de caminhada e já tinha saído dos domínios do resort, ganhando a praia mais deserta. Muito poucos caminhavam por ali, àquela hora. Foi quando notou um discreto e simpático, apesar de humilde, bangalô localizado entre os coqueirais. Ele possuía uma espécie de galpão ao lado onde estava estacionado um buggy, que era um veículo muito utilizado na região para passeios, e um reboque, provavelmente para algum tipo de embarcação. Devia pertencer a algum pescador. Talvez pudesse contar com os seus serviços para conhecer outras praias. Tinha sido informada que existiam locais paradisíacos por ali, e que o acesso poderia ser muito difícil caso não fosse acompanhada por um guia regional. Além disso, se ele tivesse um barco, talvez pudesse levá-la às famosas piscinas naturais. Provavelmente lhe cobraria um preço bem abaixo do que o cobrado pelo serviço terceirizado do hotel, além de evitar o inconveniente de estar reunida com um bando de outros turistas deslumbrados e falantes. Guardou esta idéia para si e continuou sua caminhada, regozijando-se com todo o panorama que sua vista podia alcançar e com o ar salino que entrava por suas narinas, desintoxicando seu organismo da poluição a que estava acostumado. Depois de quase duas horas desfrutando do paraíso, deu-se conta que perdera a noção do tempo. Não havia levado relógio, mas notou que devia estar muito longe do hotel e resolveu voltar. Já fazia um bom tempo que não via ninguém passar por ela, indo ou vindo. Lembrou de passar uma nova camada de protetor sobre a pele. Assim que terminou, reiniciou sua caminhada de volta. Já estava começando a ficar com dor nas panturrilhas, quando avistou a choupana do pescador próxima ao Mairi. Soltou uma exclamação de alívio por saber-se próxima ao seu destino, mas algo chamou sua atenção. Agora havia um pequeno barco a motor estacionado nos limites onde as ondas rompiam sobre a areia, e dentro dele um homem parecia recolher seu material de mergulho. Ele era alto, de corpo atlético, com músculos provavelmente forjados nas lides do dia-a-dia como pescador, a pele bronzeada sem exageros, o que era de estranhar para o tipo de profissão que ele provavelmente desempenhava. Levava o rosto sombreado por um início de barba por fazer, emoldurado por cabelos negros, não muito longos, mas o suficiente para que o vento os revolvesse, conferindo-lhe um aspecto selvagem. Era de uma beleza rude de fazer perder o fôlego de qualquer mulher. Vestia apenas uma calça de neoprene preta, que realçava suas nádegas e coxas bem feitas. Quando passou por ele, tentou evitar o olhar direto, com medo de que ele percebesse o quanto a encantara. Mas ele já havia saltado do barco e carregava seu equipamento de mergulho, lançando-lhe um olhar carrancudo, mas intensamente sensual. Um olhar que a fez estremecer. Não pode ver exatamente os traços de seu rosto, pois evitou encará-lo por mais tempo que uma fração de segundos. Nem depois que passou dele, teve coragem de olhar para trás. Ele não parecia muito contente. “Talvez não tenha conseguido o seu jantar de hoje”, pensou Isadora. Quando chegou à cadeira de praia, certificou-se que suas coisas continuavam por lá, intactas. Realmente ali era outro mundo, outra realidade. Suspirou mais uma vez, lembrando de seu vizinho pescador. Deitou-se para descansar, sentindo a brisa suave acariciando seu corpo enquanto o sol tornava-se mais tímido a medida que os minutos passavam. Já era quase noite quando juntou seus pertences e voltou para sua “oca”, como apelidou seu bangalô. Ainda lançou um último olhar na direção da casa do pescador bonitão, mas não viu nada. Talvez ele nem fosse tão bonito assim. Não tinha conseguido ver direito seus traços ou seus olhos. Tinha um corpo bonito e sarado, mas muitos homens por ali eram assim devido ao trabalho pesado que exerciam. Estava cansada da viagem e da longa caminhada. Provavelmente ele fosse apenas uma miragem. Provavelmente, ao vê-lo de perto e mais atentamente, aquela imagem desapareceria. No entanto, conservava em sua mente aquele olhar. Meteu-se na banheira de hidromassagem e ficou relaxando sob os vapores perfumados pelos sais de banho oferecidos como presentes de boas-vindas pela gerência do Mairi Resort. Se os encontrasse à venda na loja do hotel, certamente compraria uma boa quantidade para serem usados nos próximos banhos. Não pensou em mais nada. De olhos fechados, ficou saboreando os efeitos dos jatos de água em sua pele e tentando manter a mente totalmente vazia.
Durante o jantar, teve de buscar toda sua força de vontade para conter-se frente a grande variedade de delícias apresentadas no bufe e o inesperado apetite que fora despertado, provavelmente, pela caminhada a beira-mar. Se não resistisse a tudo aquilo, ao final das férias teria de sair do hotel enrolada em uma toalha, pois nenhuma peça do seu guarda-roupa de verão serviria. Agradeceu ao convite para ir ao show daquela noite, feito por um dos animadores contratados para a recreação dos adultos, bem como à “discotaba”, que era como eles chamavam a outra grande palapa que abrigava a boate do resort. Ao sair do restaurante, não resistiu ao marulhar próximo e foi até a praia. Estava praticamente deserta e iluminada apenas pelas estrelas que pontilhavam o céu e uma radiante lua crescente. Mais uma imagem relaxante... Instintivamente olhou para as areias à sua direita e, vacilante, iniciou a descida dos degraus do deck que a levariam até a beira-mar. Caminhava devagar, acostumando a visão à penumbra, quando viu uma fogueira ao longe. Seguiu por alguns minutos até que conseguiu identificar o endereço do fogo. Chegando a uma distância que considerou segura, conseguiu ver o homem sentado junto às chamas, com olhar distante. Era ele... Estava sozinho. Tinha as pernas dobradas e o corpo jogado para trás, apoiado pelos braços e pelas mãos na areia. De repente, ele olhou em sua direção e gritou:
- Quem está aí? – soou a voz grave ligeiramente irritada.
Assustada por ter sido descoberta invadindo a intimidade do pescador, voltou-se correndo na direção do hotel, com o coração acelerado. Quando conseguiu alcançar o deck, foi direto para uma das cadeiras espreguiçadeiras que tinham por ali e sentou-se, tremendo da cabeça aos pés e recriminando-se por sua indiscrição. “Será que ele a tinha visto? Não. Não seria possível naquela escuridão”. Acalmou-se quando certificou-se de que ele não a seguira. Levantou silenciosamente e foi para seu quarto. Censurou-se por agir tal uma adolescente, agitada pela simples aproximação de um homem qualquer, espreitando-o e fugindo com medo de ser pega em flagrante. Devia ser a falta do que fazer, analisou. Há tantos anos não tinha um tempo só para si... Só podia ser isso, aliado ao fato de estar completamente solteira novamente e sem qualquer carinho masculino há incontáveis meses.
O sono chegou mais cedo que o habitual. Recolheu-se à cama com a lembrança do interessante perfil tremulando sob a luz do fogo, fitando-a com aquele olhar sombriamente sedutor.


Espero que tenham gostado deste início. Apreciem e comentem.
Beijos saudosos para todos. Até a próxima postagem ( que não deve demorar...)!!