quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Meu Doce Vampiro - O Reencontro (parte 2)

Gabriele ansiava a chegada da noite. Já há algum tempo adquirira o hábito de misturar-se ao povo em Mircea. Talvez pudesse tentar mais uma vez cruzar com um humano e engravidar novamente. Sabia que não era apropriado fazê-lo com alguém local. Além disso, não se encontravam bons espécimes machos naquele lugar. Ou eram muito velhos ou muito jovens. Procurava alguém como o homem que Luisa encontrara naquele cruzeiro às ilhas gregas. Com alguém como ele até seria agradável relacionar-se e, agora, sabia que isto estava muito próximo de acontecer.

O lugar não estava cheio. Talvez ainda fosse cedo. No bar, alguns homens bebericavam suas cervejas em grandes canecas. No ar esfumaçado, o cheiro de cigarro se impunha, incomodando aqueles que não eram adeptos deste vício, como Eric e Cristopher, ou como Robert, que havia abandonado o ato de fumar há pouco tempo. Infelizmente não existiam muitas opções de lazer no lugarejo onde estavam. Sentaram-se numa das mesas próximas à diminuta pista de dança, que no momento permanecia vazia. Podia-se antecipar que ela continuaria assim.
- Pelo jeito o pessoal local não é muito animado – referiu Robert, um pouco desanimado, prevendo o que seriam suas próximas noites no quarto do hotel.
- Anime-se! Amanhã deverá chegar o resto da equipe e, pelo que sei, devem vir algumas mulheres interessantes – consolou-o Cristopher, rindo.
- Talvez seja melhor assim. Teremos muito trabalho pela frente e temos que estar concentrados no roteiro.
- Você é muito sério, Eric. Precisamos nos divertir também – repreendeu-o Robert.
- Até parece que ele não pensa nestas coisas... – falou Cristopher em tom sarcástico, referindo-se a Eric.
Neste instante, os três calaram a boca. Uma mulher entrara no recinto. Não uma mulher comum, como as que tinham visto andando pela cidade. Esta era diferente. Vestia um sensual vestido preto, com um grande decote em V nas costas, onde lhe caíam longas madeixas de cabelos avermelhados. Caminhava como se estivesse deslizando sobre o assoalho de madeira do bar, com olhar altivo e lascivo. Ao passar pela mesa deles fixou o olhar sobre Robert, de uma maneira tal como se o conhecesse. Continuou seu andar até o balcão, onde se sentou num canto afastado dos demais. Pediu um cálice de vinho tinto e voltou-se de costas para eles. Surpreendentemente, nenhum dos outros homens manteve o interesse, além do momento em que ela sentou.
- Ela gostou de você, britânico – sugeriu Cristopher – Vá lá.
- Deixe o Eric ir. Ele está tão embasbacado por ela, que não consegue nem falar ou despregar o olho dela.
Eric parecia enfeitiçado. Levantou-se, sem prestar atenção aos comentários jocosos dos companheiros à mesa, e foi encontrar a bela mulher.
- Você não parece ser daqui – falou enquanto sentava-se na banqueta ao lado dela.
- Muito menos você e seus amigos – respondeu sem olhá-lo.
- Por acaso mora no castelo?
- Você não disse que eu não parecia ser daqui? – continuou misteriosa.
- Então de onde é? Posso saber?
- Que tal me convidar para sentar a sua mesa? – pediu, virando-se e finalmente encarando-o.
- Será um prazer – respondeu com um brilho nos olhos, que foi correspondido por ela.
Os outros dois levantaram surpresos quando a viram encaminhar-se em sua direção, seguida de perto por Eric.
- Boa noite, cavalheiros... – ela disse já se sentando na cadeira ao lado de Robert.
Eric sentou-se logo ao seu lado, seguindo a analisá-la.
- Então estão conhecendo a noite de Mircea? – perguntou com um meio sorriso – Creio que irão decepcionar-se com nossa vida noturna.
- Agora que a encontramos, nossa noite começou a tornar-se mais agradável – disse Cristopher.
- Muita gentileza sua... E o senhor não diz nada? – falou dirigindo-se a Robert.
- Ainda estou achando que você é uma miragem e que logo vai desaparecer – falou galanteador.
- Você ainda não me disse de onde veio... – interferiu Eric, tentando desviar a atenção dela de Robert.
- Eu moro no castelo. Você acertou de primeira.
- Não sabíamos que ele era habitado – disse Robert.
- Quem vocês acham que deu autorização para filmarem por lá?
- Mais alguém mora com você? – perguntou Eric.
- Tenho a minha família ... Mas, quando começarão as filmagens no castelo? – questionou, olhando para Robert.
- Logo. Acho que vamos ter algumas cenas na cidade e no vale. Mas nada impede que a gente faça uma visita para vocês – respondeu Robert todo animado.
- Que tal ir comigo agora? – insinuou-se Gabriele para ele.
- Nosso amigo está muito cansado. Ele chegou de viagem hoje. Eu poderia substituí-lo... – ofereceu-se Eric olhando-a intensamente.
Gabriele vacilou diante daquele olhar. Já estava decidida a conquistar Robert, pois acreditava que ele também pudesse dar-lhe um filho como Victor. Apesar de sentir-se mais atraída por Eric, nutria um anseio de vingança contra Luísa, que se sobrepunha aos desejos de seu corpo e de seus sentimnetos. De certa forma queria uma espécie de revanche contra a antiga amiga, por ter conseguido um filho varão, ao contrário dela. Aquilo não estava certo. Olhando para Eric, atravessou-lhe a mente um lampejo de que talvez estivesse errada querendo levar este tipo de vingança adiante. Mas logo, a indignação contida durante aqueles quatro anos venceu.
- Não. Eu convidei Robert – confirmou seu convite com firmeza, provocando um enrijecimento na face de Eric.
- Como você sabe o nome dele? Ninguém lhe foi apresentado aqui... – lembrou Eric.
- Eu devo ter ouvido algum de vocês falando o seu nome – respondeu rapidamente.
Eric ficou observando-a atentamente. Nada das expressões de Gabriele lhe escapava.
- Tenho certeza que nenhum de nós mencionou o nome dele... Gabriele – continuou Eric com um acento mordaz na voz.
Agora era ela que tinha sido pega de surpresa, pois tinha certeza de que não dissera o seu nome para ele. Olhou-o tensa e sentiu um arrepio a percorrer-lhe a nuca. Ele não deixava de mirá-la com aqueles olhos verdes e perspicazes, intimidando-a, coisa que nunca homem algum conseguira antes. Perguntava-se quem seria ele e que energia era aquela que sentia emanar dele. Resolveu ficar calada a esclarecer como ele sabia seu nome.
- Bem, então só me resta ir embora – disse levantando-se da cadeira.
- Mas ainda é cedo – sugeriu Robert, erguendo-se ao seu lado – Talvez possamos levá-la até em casa...
- Não, obrigada. Estou de carro. Posso me cuidar muito bem sozinha.
- Tenho certeza que sim – disse Eric, voltando o olhar para os amigos – Mircea parece ser um local seguro para andar-se a noite.
- O Senhor Eric tem toda a razão... – fulminou-o com os olhos - Boa noite, senhores – despediu-se, lançando um último olhar e um sorriso sedutor para Robert, desprezando o outro.
- Boa noite – responderam os três, quase ao mesmo tempo, acompanhando seus movimentos até que ela desaparecesse através da porta do bar.
Assim que ela sumiu da vista de todos, Robert não pode deixar de fazer seu comentário a respeito do comportamento de Eric.
- Pelo visto temos alguém muito interessado na jovem que acabou de sair.
- Muito mais do que você imagina, meu caro amigo. Espero que você mantenha-se longe dela. Ela vai ser minha – afirmou seriamente.
- Espero que na família que mora no castelo tenha alguma irmã – disse um esperançoso Cristopher.
- Bom, que tal irmos descansar. Acho que a noite não nos reserva mais nenhuma surpresa como esta que acabou de sair.
- Também acho, Robert.
Pagaram a conta e saíram a caminhar pelas ruas mal iluminadas de Mircea, em direção ao hotel. Apenas suas risadas podiam ser ouvidas em meio ao silêncio perturbador.


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- Tenho uma declaração a fazer a vocês – disse Gabriele com voz firme.
Dois dias tinham se passado desde o seu encontro com os atores principais do elenco do filme que estava sendo rodado na cidade. Tinha chegado a hora de sua família saber sobre a permissão que ela dera para que sua casa fosse parte dos cenários. Ela reunira Cássia, Luísa e Monique na sala principal e preparava-se para enfrentar a resistência delas em permitir o seu intento.
- Acho que temos vivido muito isoladas aqui neste mausoléu, só visitando a cidade para adquirirmos alimento. Levando em conta a evolução que tivemos até agora, acho natural que possamos conviver mais proximamente a eles – continuou Gabriele.
- Nós temos mantido um bom relacionamento com a cidade. O suficiente para que eles nos forneçam material do banco de sangue local, pensando que somos portadoras de uma doença hemática familiar muito rara e que necessitamos de tratamento mensal. Não vejo a necessidade de maior intimidade – argumentou Cássia – Aonde você quer chegar com esta conversa, Gabriele.
- Uma equipe de produção cinematográfica chegou à cidade para realizar um filme aqui. Eles pediram autorização para utilizar imagens do nosso castelo há algumas semanas e... Eu autorizei.
- O quê? – Cássia estava indignada – Como autorizou sem falar conosco? Você tem idéia dos problemas que podemos ter com humanos andando aqui?
- Acho que Luísa vai ficar muito contente com esta minha decisão.
- Eu? Por quê? Não entendo...
- Sabe quem é o protagonista desta produção? E que já está aí para iniciar seu trabalho?
Luísa sentiu sua garganta secar e o corpo fraquejar.
- Quem? – perguntou com voz quase sumida.
- Ele mesmo... Robert – disse Gabriele, sentindo-se vitoriosa ao ver o mal estar de Luísa.
Cássia e Monique não podiam acreditar no que estavam ouvindo. Ela estava fazendo aquilo para torturar Luísa.
- Não é uma incrível coincidência? – continuou maldosa.
- Gabriele, porque está fazendo isso? – indagou Cássia, ainda surpresa com aquela atitude provocante.
- Ora, estou tentando ter uma chance de engravidar novamente. E como sabemos, Robert foi um belo reprodutor. Porque não posso querer o mesmo para mim. Vocês vão me negar esta chance?
- Você tem todo o direito de querer uma segunda chance, Gabriele. Minha relação com ele foi apenas para a procriação. Meus sentimentos são irrelevantes e só interessam a mim. Mas porque atraí-lo para cá? Você poderia tê-lo longe daqui – Luísa estava com a voz embargada.
- Por que prefiro aqui, na nossa terra. Além disso, junto com ele vieram outros seres muito interessantes. Talvez você possa ter a sua segunda chance também, Cássia.
- Você não tinha o direito de decidir este tipo de coisa por nós. Continuamos sendo uma família e as decisões continuam a ser do grupo e não algo individual. É isso que nos mantêm unidos e vivos! – vociferou Cássia com voz exaltada.
Gabriele sentiu-se atemorizada com a reação de Cássia. Apesar de já esperar a reprimenda natural que desencadearia a sua atitude, não esperava tamanha fúria. Cássia nunca se impusera como líder, apesar de ser considerada como tal, por ser a mais experiente delas.
- Você ficou assim por causa da Luísa, que é a sua preferida – defendeu-se.
Aquilo pareceu deixar Cássia mais irritada ainda, mas ela não respondeu imediatamente. Olhou Gabriele detidamente, respirou fundo e finalmente falou em tom mais brando, porém firme:
- Só não a expulso daqui agora, pois sei o que você sofreu quando perdeu aquele feto e como isto afetou seu raciocínio e seus sentimentos, tornando-a um ser egoísta e mesquinho. Mas ainda acredito que a antiga Gabriele esteja escondida dentro deste poço de fel e que ela, mais cedo ou mais tarde, possa emergir para o nosso convívio novamente.
As palavras de Cássia atingiram-na como um raio, deixando-a paralisada e sem argumentos de defesa. Assim ficou, mesmo percebendo, com repulsa, os olhares de compaixão de Luísa e Monique, que permaneceram caladas. Acabaram por deixá-la sozinha remoendo a verdade indigesta que acabara de ouvir.



- Você está bem, Luísa? – perguntou Monique, preocupada com o estado de sua amiga.
- Estou... Obrigada... Não se preocupe. Onde estão Victor e Lana?
- Eu os deixei brincando no quarto.
- Você pode cuidar do Victor para mim?
- O que você está pensando em fazer, Luísa?
- Eu preciso vê-lo, Monique. Nem que seja de longe.
- A Cássia não vai gostar disso...
- Luísa sabe o que faz. Não serei eu a impedi-la – ressoou a voz de Cássia, que acabara de entrar na saleta em que se encontravam, sem emitir ruído algum – Luísa já demonstrou que sabe como agir corretamente há quatro anos. Espero que continue sabendo...
- Sei sim, Cássia. Obrigada pela confiança – agradeceu com um pálido sorriso e saiu.



Até o próximo post... Beijos!!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Meu Doce Vampiro - O Reencontro



As sombras da noite voltavam a devorar as muralhas do antigo e imponente castelo numa colina calva, no interior da Romênia. Pedras centenárias e estátuas carcomidas pelo tempo ainda respiravam, tal e qual os seres que deslizavam pelos corredores da mansão, sobre tapetes de fina tecelagem e delicados temas, em vermelho esvanecido pelos séculos de existência, à espera do milagre da vida que os levaria de volta aos áureos tempos em que dominavam aquela região. A vida, que vinha esvaindo-se, perdendo a memória, dilacerada por preconceitos e doenças, levando sua raça à extinção. A esperança reacendera sua chama no ventre daquelas mulheres. Já vislumbravam sua descendência gloriosa.
Mal o sol terminava seu ocaso quando se ouviu um urro de dor dilacerando o silêncio da boca da noite e o som de passos apressados ecoou pelos ambientes da ala sul da fortaleza.
- Gabriele! – sobressaltou-se Cássia, movendo-se rapidamente para o quarto da companheira.
Ao chegar, presenciou o desespero da amiga, ajoelhada aos pés de seu leito, sobre uma grande poça de líquido vermelho escuro, com olhos alarmados pela visão de um pequeno feto retorcido, que segurava nas mãos pálidas, já sem vida.
Tentando recuperar-se do choque inicial, Cássia correu para abraçar Gabriele e consolá-la.
- Saia daqui! – rechaçou-a – Quero ficar só!
- Mas, Gabriele, deixe-me ajudá-la. Não fique assim... – falou com a voz cheia de piedade.
Ela não chorava. Apenas despejava através do olhar a enorme decepção consigo mesma e uma ardente fúria que procurava um culpado por sua tragédia.
Cássia acabou por ceder à vontade da outra e afastou-se lentamente, temerosa das reações que estavam por vir. Luísa e Monique apareceram aflitas à porta, onde se cravaram imóveis diante da visão dantesca.
- Ela quer ficar sozinha – ordenou Cássia às mulheres recém-chegadas.
- Mas... – vacilou Luísa.
- Melhor fazermos o que ela pede. Deixe-a assimilar estar perda. Logo ela estará recuperada. Nós estaremos aqui para apoiá-la – falou Cássia com convicção.
Instintivamente, Luísa levou a mão a acariciar seu ventre crescido e obedeceu ao pedido de sua confidente e amiga. Fecharam a porta, deixando Gabriele penando sua dor.
- Agora são vocês duas que ficam com a responsabilidade de assegurar a espécie. Sabíamos que isto poderia acontecer, afinal geramos seres híbridos que podem não resistir até o final da gestação – lembrou Cássia, com expressão entristecida ao recordar seu próprio drama.
Há pouco mais de dois meses, ela também perdera seu filho, ainda no início da gravidez planejada. Nada tão intenso como aquilo que acabara de presenciar, mas mesmo assim, imensamente frustrante.
Tudo começara cinco meses antes, durante um belo cruzeiro pelas ilhas gregas. Sendo as últimas representantes, pelo que sabiam, de sua espécie, as quatro mulheres procuravam entre os passageiros machos do navio, espécimes saudáveis para o acasalamento, com o intuito de perpetuar sua descendência, atualmente em extinção. Várias eram as causas deste aniquilamento, propagadas ao longo dos anos. Adaptações na forma de alimentar-se, facilitando a convivência com os humanos, de expor-se à luz do sol, sem que isto os transformasse em pó e a luta por dominar seus instintos mais primitivos, foram mutações adquiridas ao longo do tempo para manter o prolongamento de sua espécie. Mas nem isso foi suficiente para evitar o declínio da raça dos descendentes do Príncipe Vlad III ou, como vulgarmente eram conhecidos, vampiros.
Dentre elas, Luísa era a que guardava as melhores recordações desta sua aventura. Ela não encontrara apenas um espécime reprodutor. Ela encontrara o amor. O pai do filho que carregava em suas entranhas deixara sua marca em seu corpo, em sua alma e em seu coração, que se tornara aquecido por suas palavras e ações. Jamais o esqueceria. Sofrera muito ao ter de deixá-lo, mas precisava cumprir seu destino. Preferia manter intacta a lembrança dos doces momentos vividos ao seu lado naqueles dias do cruzeiro a ter que enfrentar o seu desprezo quando a magia acabasse e ele tivesse contato com o sombrio mundo onde ela vivia. Às vezes se perguntava se seu sacrifício não teria sido em vão, ao lembrar sua expressão na última noite de amor que tiveram. Como gostaria de ser humana e poder ter uma vida em comum com Robert. Mas agora era tarde para isso. Ela tirara dele todas as lembranças de seu encontro, limpara seu coração das marcas de seu amor e o liberara para viver sua própria vida. Felizmente ela tinha uma parte daquele amor, vivo, dentro dela. Era o que lhe dava forças para continuar e desempenhar seu papel de preservadora de sua espécie. Precisava manter a razão acima dos sentimentos e seguir sua meta. Dedicar-se-ia inteiramente ao filho tão desejado e gerado com tanto amor. Só a ele.
Com estes pensamentos, sentada num dos bancos de pedra nos jardins do castelo, sob a luz da lua crescente, a olhar o céu estrelado, que tantas vezes fora testemunha dos encontros com Robert, foi interrompida pela voz de Cássia.
- Você está bem? – perguntou soturna – Pensando nele?
- Em quem? – tentou disfarçar.
- No pai de seu filho. Você não conseguiu esquecê-lo, não?
- Cássia, nós já discutimos isso. Ele faz parte do passado... Estou preocupada com Gabriele. De todas nós, ela sempre foi a mais determinada à preservação. Ela queria gerar o líder de nossa raça. Não sei de onde ela tirou esta fantasia, mas para ela era muito importante esta gestação. Temo pela sua reação depois do que aconteceu.
- Também estou preocupada. Mas nós a ajudaremos a reerguer-se. Além do mais, sempre há a possibilidade de procurar outro humano e engravidar de novo... Bem, vamos aguardar os acontecimentos. Agora temos que nos preocupar com Monique, você e os bebês. Gabriele logo estará recuperada fisicamente. Vou entrar e ver se ela já aceita minha ajuda.
- Está bem. Vá. Eu vou ficar aqui mais um pouco.
- Cuide-se – disse Cássia, levantando-se do banco e seguindo para o interior da morada.
Luísa voltou a admirar a noite.

A mais de dois mil quilômetros de Luísa, um homem também olhava distraído para o céu crivado de estrelas naquela noite, na sacada de mármore de um hotel londrino, onde se realizava a festa de lançamento de um filme. O novo filme onde ele atuaria como protagonista. Apesar da alegria de estar iniciando mais um trabalho e da música e dos risos que chegavam até ele, sentia-se especialmente melancólico naquela noite, sem entender o porquê. Sua vida corria na direção de seu projeto de vida. Aos poucos suas metas tornavam-se alcançáveis. Mas ainda assim sentia que lhe faltava alguma coisa. Este sentimento de vazio surgira logo após seu desembarque de um cruzeiro que fizera há alguns meses, quando fora convidado para participar de algumas campanhas publicitárias e as fotografias foram feitas em algumas ilhas gregas. Lembrava da viagem como tendo sido ótima em todos os sentidos. Além de conhecer lugares interessantes, tinha tido um affair com uma linda mulher. Infelizmente não conseguia lembra-se nem do nome dela. Não entendia como isto acontecera. Por mais que tentasse lembrar, esquecera do nome e da imagem dela. Só ficara aquela sensação de vazio em seu peito...


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O ranger das dobradiças de uma das portas entalhadas em madeira, mostrando delicados temas florais em suas molduras, que dava para o jardim, foi seguido pelo riso abafado de um menino com idade em torno de quatro anos. Com sorriso largo, num rosto nobre, emoldurado por revoltos cabelos negros ondulados, de olhos verde claros, iluminados pela inteligência e pela curiosidade, podia-se, a julgar pelo olhar e por sua atitude, que se preparava para realizar alguma travessura. Correu furtivamente na direção do jardim a sua frente, perdendo-se entre o verde.

- Victor! – ecoou o som aflito daquela voz entre os arbustos e caramanchões do jardim interno do castelo.
O dia amanhecera nublado. Nuvens cinzentas prenunciavam chuva forte ao longo do dia. Luísa perdera o filho de vista enquanto brincavam de esconder. Já se passara mais de vinte minutos desde o momento que ele correra para se esconder e os dez segundos tradicionais de vantagem para ela procurá-lo. Começava a ficar preocupada. Ele ainda não tinha idade para cuidar-se sozinho, apesar de ser um menino bastante esperto para sua idade. Já pensava em pedir ajuda para sua busca, quando viu Gabriele. Ela estava encurvada, conversando com alguém certamente de altura bem inferior a dela. O sangue correu mais rápido pelas artérias de Luísa. Suas pupilas dilataram-se e o medo tomou conta de seu instinto materno.
- Victor! – gritou mais uma vez, aproximando-se rápida do local em que eles estavam.
Gabriele tornara-se uma estranha desde a perda de seu filho. Mais ainda quando Monique e Luísa conseguiram parir seus filhos, fortes e saudáveis. Ela tornara-se áspera e distante. Não era a primeira vez, e nem seria a última, que Luísa temia por seu filho na presença da antiga amiga.
- Ora, vejam quem está aí, meu pequeno? – disse Gabriele endireitando-se e olhando diretamente para a mãe do menino – Você devia ser mais cuidadosa com o nosso jovem varão. Ele estava perdido.
- Nós estávamos brincando. Apenas isso. Parece que ele se escondeu bem demais, não é Victor?
- Desculpe, mãe... – disse cabisbaixo e amedrontado, correndo para esconder-se sob o abraço materno.
- Eu disse que o levaria de volta para casa, mas ele parece ter medo de mim. Você sabe o porquê disso, Luísa?
- Nem imagino, Gabriele – respondeu sem conseguir enfrentar o olhar da outra – Venha, Victor. Vamos para casa. Deve começar a chover daqui a pouco.
- É... Você pode pegar um resfriado e... Puff! – falou em tom de escárnio, enquanto gesticulava com os dedos da mão imitando uma pequena explosão.
- Obrigada por achá-lo, amiga – agradeceu sem levar em conta o deboche da outra.
- Não há de quê... Amiga.
Luísa pegou o garoto pela mão e levou-o para dentro de casa, onde poderia vigiá-lo melhor.
- Victor, tente não ir tão longe de mim da próxima vez, querido. Você me assustou hoje.
- Do que vamos brincar agora?
- Vamos procurar a Lana e sua mãe. Vocês poderão brincar juntos... Dentro de casa.

O vôo até Budapeste revelava-se calmo. Sem turbulências, ao menos, depois de um atraso de mais de duas horas no aeroporto de Heathrow, devido ao denso fog da manhã. Robert estava cansado, pois dormira pouco mais de duas horas, depois de uma noitada numa das festas que costumava frequentar. Admirava a facilidade que algumas pessoas tinham de relaxar e dormir durante uma viagem de avião, como aquele sujeito que se esticava em toda a extensão de sua poltrona reclinável da primeira classe e que roncava desde a decolagem até o aviso de desembarque, do outro lado do corredor.
Ele, ao invés de dormir, aproveitava o tempo para repensar sobre o tipo de vida que estava levando ultimamente. Há pouco mais de quatro anos sonhava com o estrelato como algo distante. No início de sua carreira de ator fizera muitos trabalhos ruins, pois não tinha muita escolha. Queria trabalhar. Isto era o que importava. O que lhe oferecessem era bem vindo, na esperança de que algum diretor o visse e apreciasse sua atuação. Com o tempo, passou a ser mais crítico sobre os roteiros que se apresentavam, até que, tivera a grande sorte de surgir a oportunidade de ter o papel de protagonista de uma produção que tinha altas chances de tornar-se um sucesso. Não deu outra. O sucesso foi imediato ao lançamento. Seu nome começou a despontar e os bons roteiros começaram a aparecer com mais freqüência. Não podia queixar-se de sua situação atual junto à indústria cinematográfica. Já era reconhecido até nos Estados Unidos, na badalada Hollywood e já pudera atuar ao lado de vários atores oscarizados naquele país. Apesar de tudo, ainda tinha suas raízes européias, e não conseguia recusar um bom papel ofertado em seu continente de origem. Este era o caso atual. Andava assoberbado de trabalho. Conseguira constituir uma produtora própria, pensando no futuro. Ao lado do sucesso e do dinheiro, vieram as festas e as mulheres. Duas coisas que o atraíam imensamente e que o ajudavam a relaxar um pouco em sua rotina de trabalho intenso. Porém, esta vida noturna e mundana já começara a incomodá-lo. O tempo estava passando. Já estava com 36 anos. Via os amigos de farra encontrando companheiras, formando família, enquanto ele continuava sua existência de bom vivant. Não tinha idéia de quanto tempo mais aguentaria aquele ritmo. Mentia a si mesmo que não queria compromissos com ninguém. Só lhe interessava o trabalho... O resto era diversão. Ter uma relação amorosa estável era incompatível com o seu atual ritmo de vida. Mal conseguia visitar a família no interior da Inglaterra, o que diria ter esposa e filhos. Evitava pensar muito nisso, mas quando chegava aos diferentes hotéis em que se hospedava a cada nova produção, viagens para promoção dos filmes ou demais compromissos no exterior, sentia falta de alguém a sua espera. Alguém que o acalentasse, que ouvisse tanto suas preocupações como seus planos, alguém para compartilhar de seus momentos bons e ruins.
Na Romênia o esperavam para o início das filmagens. Com belas paisagens e construções antigas, além de mão de obra barata e aluguel de locações mais em conta que na Inglaterra, decidiram filmar lá. Os locais escolhidos e o roteiro encaixavam-se perfeitamente, conforme lhe dissera o diretor durante a derradeira reunião para definir os últimos detalhes. Suas curtas férias chegavam ao fim, mas encontrava-se excitado com o novo desafio. Um novo desempenho, um novo personagem, um novo diretor... Tudo era muito estimulante. A cada trabalho, sentia que escolhera a sua profissão ideal. Nascera para atuar. Pensaria em sua vida sentimental mais tarde.

Foi recebido por um assistente da produção que o esperava para levá-lo até o interior do país, na cidade onde seria filmada a maior parte das cenas. Robert ainda pensava sobre os motivos que o levaram a aceitar aquele trabalho. No fundo não acreditava que fosse um filme fadado ao sucesso. Seu roteiro nada mais era que uma estória requentada sobre um caçador de vampiros. Claro que tinha alguns detalhes que o diferenciavam dos demais, mas no fundo era o velho tema, que ainda tinha um grande público-alvo. Confiava no diretor, já seu velho conhecido, e em seu talento para imprimir ritmo e bom gosto para o desenvolvimento da produção.
A viagem durou pouco mais de duas horas. Já anoitecera, por ser inverno, mas ainda conseguia-se perceber a beleza do lugar. A cidade conservava as construções antigas ao lado de prédios novos, que mantinham o estilo de arquitetura do século dezoito. Ela era vigiada por um imponente castelo que se erguia numa das colinas que a cercavam. O local não poderia ser melhor para rodar um filme de suspense.
Robert foi levado ao hotel, um casarão construído sobre as ruínas de um antigo mosteiro, datado de alguma data em torno de 1600. Sua fachada conservava grande parte da construção original restaurada.
Tão logo tinha feito sua ficha na recepção, ouviu a voz de Will Fetter.
- Robert! Bem vindo à Mircea. Sei que deve estar louco para descansar um pouco, mas deixe-me apresentá-lo aos seus colegas – saudou o diretor.
Ele virou-se imediatamente e deparou-se com Will e mais dois homens desconhecidos.
- Olá, Will. Mas é claro... – respondeu e foi na direção deles para cumprimentá-los.
Will Fetter era um sujeito franzino, de estatura mediana, um grande bigode, que mantinha orgulhoso, provavelmente para compensar a calvície, que cobria eternamente com uma boina ou algum outro tipo de cobertura cefálica. Naquele momento, ele contrastava com seus companheiros, altos e robustos. O de maior presença, tinha um rosto rude, mas interessante, cabelos negros e longos, presos à nuca. Os olhos, também escuros, eram profundos. O outro, que devia ser da mesma altura de Robert, também tinha os cabelos negros, ondulados, um rosto de traços mais nobres, olhos esverdeados, mas igualmente penetrantes. Este foi o primeiro a abrir um sorriso ao ser apresentado.
- Robert, quero apresentar-lhe ao seu antagonista no filme, Eric Paole. Você já deve ter ouvido falar dele.
- Claro. É um prazer, Eric. Aprecio muito o seu trabalho no cinema italiano e francês.
- O prazer é meu, Robert. Também tenho acompanhado a sua carreira na Inglaterra e nos EUA. Acho que poderemos fazer um bom trabalho juntos.
- E este é Cristopher Stoltz, que fará o papel de irmão da personagem de Eric – continuou Will com as apresentações.
- Muito prazer, Cristopher. Também já tive oportunidade de ver o seu trabalho. Creio que vamos formar um ótimo time.
- Esta foi a minha intenção ao reuni-los, rapazes – interferiu Will, sorridente, satisfeito com suas escolhas.
- Muito prazer, Robert. Penso da mesma forma – retribuiu o aperto de mão oferecido e finalmente sorriu, mostrando simpatia e dentição perfeita.
- Robert, que tal jantarmos juntos logo mais? Digamos, às... – vacilou, olhando seu relógio de pulso – Vinte e trinta? Está bem para vocês?
Todos concordaram com o horário e acabaram por despedir-se.
Chegando ao seu apartamento, deu uma gorgeta para o carregador de malas e olhou a sua volta. O quarto era pequeno, mas confortável. A mobília antiga, aliada às cortinas de veludo vermelho escuro, dava um toque de requinte na decoração. Ainda teria tempo para descansar até a hora do jantar. Pediu o serviço de despertar e pediu que o chamassem às 20 horas. Tirou a roupa e jogou-se sobre a cama. Seus últimos pensamentos, antes de aprofundar no sono, foram referentes a sua curiosidade em saber como seria a vida noturna e as mulheres daquela cidade, já que teria de ficar por lá pelo menos duas semanas. Adormeceu após um longo bocejo, agarrado ao grande e macio travesseiro de penas de ganso.

Aguardem a próxima postagem... Beijinhos!

Chega de Crises!

Minhas queridas e Meus queridos(se os tiver)!!
Depois das fotos que vi hoje(as minhas amigas gerryanas certamente saberão do que falo...), decidi que vou dar um basta a este meu afastamento de dez dias. Resolvi combater a crise de criatividade e por a mão na massa, já que não posso por a mão no...Deixa prá lá...Agradeço a todas as mensagens de estímulo e de consolo das minhas amigas amadas e fiéis. Ainda estou penando com a minha conjuntivite(já fazem duas semanas e ainda tenho a perspectiva de mais uma semana com ela) e a minha internet ainda apresenta lapsos de lentidão. Pretendo começar a colocar em dia minhas respostas a todos emails e recados afetuosos, assim que possível.
Bem, como tinha prometido (não é, Tânia?, vou começar a postar hoje a continuação de um de meus contos, que postei em Maio deste ano, aqui no blog - Meu Doce Vampiro. Espero que gostem e comentem o que acharam. Mais uma vez obrigada por continuarem vindo ao blog e me ajudando a sair do marasmo em que estava. Adoro vocês!
Beijos!!

sábado, 10 de outubro de 2009

A Repórter - Final

Na manhã seguinte, Mike estava em seu escritório, junto à tela do computador, lendo as últimas fofocas dos semanários locais, quando se deparou com a coluna de Lauren. Ficou pensando qual seria a reação de Gerry ao colocar os olhos sobre ela. Era melhor mantê-lo na ignorância. “Ainda bem que ele não tem o hábito de entrar na Internet”, pensou, tranquilizando-se. Foi só acabar de ter este pensamento, quando ouviu a porta abrir-se. Virou-se e viu Gerry entrando e olhando curioso para o monitor de Mike. Rapidamente o controle para minimizar a tela foi clicado.
- O que houve? O que tem aí que eu não posso ver?
- O quê? Do que você está falando? – perguntou Mike, tentando disfarçar.
- Eu vi que você desligou a tela para eu não ver alguma coisa. Não tente me enganar, Mike. Se você não me disser, vou acabar descobrindo do mesmo jeito.
- Está bem – disse maximizando a imagem novamente.
Gerry aproximou-se e começou a ler. Era a coluna de Lauren O’Brien. Seu rosto foi transfigurando-se na medida em que lia os comentários a respeito de sua entrevista. Não podia acreditar que ela tivesse tido a coragem de voltar a insinuar aquelas coisas a seu respeito. Ela baseou-se na resposta da última pergunta. Mas ela ia ver com quem estava lidando.
- Gerry! Aonde você vai? - gritou Mike, tentando evitar que o amigo fizesse uma besteira - Não se meta com este tipo de imprensa. Só vai dar chance a eles de enlamear muito mais a sua imagem. Não vale à pena.
- Não se preocupe. Sei muito bem o que estou fazendo.

Lauren sentia-se finalmente liberta ao deixar o departamento de recursos humanos do LAAR. Acabara de resolver os tramites legais de sua demissão, dando graças aos céus de não ter encontrado com Frederick. Talvez tivesse o dedo de Marian ali. Certamente ela tentaria mantê-lo ocupado enquanto Lauren permanecesse no edifício da empresa. Finalmente, podia respirar novamente. Nunca mais se deixaria levar pela vontade de um editor. Continuaria mandando seu currículo para outros jornais e revistas. Tinha certeza de que conseguiria um emprego melhor e mais saudável que este último. Caminhando até o estacionamento onde estava seu carro, teve a sensação de estar sendo seguida. Temeu que fosse o seu ex-editor. Aumentou a velocidade de suas passadas até alcançar seu destino. Não tinha coragem de olhar para trás. Entrou no veículo e dirigiu até sua casa. No meio do caminho, não notando nenhum tipo de perseguição, relaxou e seguiu certa de que estava só. Estacionou o carro na garagem do prédio, pegou a caixa contendo seus pertences pessoais deixada por Marian na portaria e encaminhou-se para o elevador. Mal este começou a subir, a porta abriu no andar térreo. Algum outro morador devia estar chegando em casa. Não costumava encontrar-se muito com outros condôminos devido aos seus horários irregulares de jornalista. Quando levantou os olhos para ver quem havia entrado, sentiu-se entontecer. Era ele. “Gerard Burns!... Ai, meu Deus!!”
Ele esperou que a porta se fechasse e encurralou-a, mais uma vez junto à parede, nos fundos do elevador, deixando-a totalmente sem ação. Mesmo sem tocá-la, seu olhar furioso e sua presença física deixaram-na sem ação.
- Gerard! O que está fazendo aqui?
- Você não tem idéia do porquê de minha presença?
- Se é sobre a minha última coluna, sobre a nossa entrevista, não disse nada demais.
- Não disse nada demais? Você praticamente afirmou que sou gay!
Ela ficou surpresa com a afirmação dele. Não era verdade, a não ser que...
- Não escrevi nada disso. Acho que está havendo algum engano... – ela tentava distraí-lo para tentar acalmá-lo, mas ele parecia irascível. Será que Frederick tinha tido a coragem de modificar o seu texto, mantendo a sua autoria? A porta do elevador finalmente abriu-se e ele a puxou pelo braço, na direção do corredor.
- Muito bem... Onde você mora? – ele tentava falar num tom baixo de voz.
- Você acha que vou deixá-lo entrar na minha casa? Se tiver alguma reclamação, dirija-se à redação e fale com o editor-chefe, Frederick.
- O seu amante?
- Ele não é meu amante!
- Ah, então ele não vai ficar chateado se eu fizer uma demonstração ao vivo de minha masculinidade para a sua repórter difamadora
- O quê? O que você está dizendo?
- Vamos logo para o seu apartamento antes que eu comece a fazer um escândalo aqui no corredor dizendo todos os adjetivos que já imaginei pensando em você e no que escreveu a meu respeito.
- Como se atreve?
- Sou eu quem pergunto como você se atreve a difamar alguém que está tentando trabalhar honestamente. E eu que cheguei a pensar que... Deixa prá lá - Por alguns instantes ela notou uma nuvem de tristeza rondando a sua face, mas logo a fúria voltou – Então, vai querer um escândalo aqui e agora?
- Está bem! Acalme-se! É aqui – identificou a porta de seu apartamento, enquanto procurava as chaves nervosamente. Finalmente as encontrou, mas estava tão perturbada que não conseguia enfiá-la na fechadura. Talvez conseguisse acalmá-lo, conversando em seu apartamento. Precisava saber o que Frederick escrevera. Mal abriu a porta, Gerard empurrou-a para dentro, sem largar o seu braço, e fechou a entrada com certa força. Imprensou-a contra a porta, passou os braços em torno do seu corpo e beijou-a violentamente. Lauren estava perplexa com o que estava acontecendo. Começou a debater-se, numa tentativa de escapar daquele abraço truculento, mas era impossível. Ele era quase o dobro de seu tamanho. De repente, a boca de Gerard diminuiu a pressão sobre a sua. Ele afastou o rosto, de forma a olhá-la dentro dos olhos, por alguns instantes. Ela o sentia tenso e tremulo, mas parecia que a raiva estava passando. Agora seu olhar apresentava outro tipo de brilho. Um brilho selvagem, demonstrando um desejo crescente. Lauren não conseguia lutar contra aquela sensação, pois ela também começava a desejá-lo. Não conseguia ficar com raiva dele, apesar da violência com que ele a estava tratando. Ele tinha o direito de ficar assim. Mexeram com seus brios. Queria dizer-lhe que não escrevera nada que o desabonasse, mas achou que ele não acreditaria, pelo menos naquele momento. Tinha apenas vontade de beijá-lo e abraçá-lo...
Mais uma vez, Gerard aproximou seus lábios da boca de Lauren e a beijou. Desta vez com desejo e sofreguidão. Não mais com estupidez. E foi correspondido.
Suas mãos passaram a acariciá-la por todo o seu corpo, estudando suas formas, abrindo o fecho de seu vestido nas costas, tocando sua pele e incendiando-a. Quando ela começava a corresponder e a abandonar-se em seus braços, esquecendo-se da situação que gerara aquele encontro, sentiu-o tenso de novo, tornando-se rude e afastando-a bruscamente. Mais uma vez a olhou, porém com desprezo, e disse:
- E agora, será que consegui demonstrar que sua teoria sobre minhas preferências sexuais estão erradas ou vou precisar ir mais fundo em minha demonstração?
Lauren sentiu-se desfalecer. Não acreditava que ele estivesse falando aquilo... Mas, de repente, lembrou que ele era um ator, que tinha desempenhado muito bem o seu papel e, que por instantes, a fez pensar que ele realmente a desejava. Sentiu-se humilhada e indefesa. Empurrou-o para trás com as poucas forças que encontrou e gritou:
- Saia daqui! Seu grosso, estúpido! – e começou a bater em seu peito, com raiva, sentindo as lágrimas aflorarem em seus olhos – Saia!!
A vergonha por ter se deixado levar por Gerard era tão grande que ela não pode ver o momento em que o olhar dele abrandou e um lampejo de arrependimento passou em seus olhos verdes. No íntimo, ele lutava contra o desejo de possuí-la. Não por vingança, mas por sentir uma grande atração por ela. Apesar de tudo que acontecera, apesar das palavras ferinas lançadas por ela em sua coluna, ele continuava a ansiar pela sua presença, por sua voz, por seu carinho e por seus beijos. No fundo, não podia acreditar que ela fosse tão vulgar como pareciam seus comentários. Gostaria de tê-la conhecido de outra maneira. Com estes pensamentos rondando sua mente, virou as costas e abriu a porta do apartamento, ainda tentado a abraçá-la e consolá-la. Porém, a razão falou mais alto e ele se foi, fechando a porta sem fazer barulho.
Lauren sentia-se fraca. O ar parecia lhe faltar. Só depois de alguns instantes, conseguiu soltar o choro. Um choro desesperado, angustiado. Jogou-se sobre o sofá da sala, perdendo a noção de quanto tempo ficou desaguando sua mágoa e sua humilhação, até que conseguisse recuperar-se e pensar mais objetivamente no que havia acontecido.
Gerard voltou para casa. Não tinha a sensação de alívio que pensou que teria ao humilhar Lauren. Sentia-se, isso sim, um canalha. A raiva passara e só ficara aquela sensação ruim de ter perdido alguém, que nem chegara a conhecer direito. Provavelmente fosse apenas sua imaginação... Ela não era diferente das outras. Estava batalhando seu lugar ao sol e venderia a alma ao demônio para conseguir sobressair-se sobre os demais. O melhor a fazer agora era esquecê-la. Não podia continuar iludindo-se.

Os dias passaram. Gerard já estava com sua viagem marcada para Quebec, onde iniciaria a filmagem de seu novo trabalho. Ainda não conseguira tirar Lauren da cabeça. Naquela manhã, foi ao encontro de Mike para falar sobre futuros projetos que tinham em comum, quando o amigo e empresário perguntou-lhe:
- Não ouviu falar mais da sua repórter predileta? – disse em tom de brincadeira. Como todas as outras fofocas de Hollywood, aquela sobre Gerry já tinha sido esquecida. Tinha sido incomodado por mais um ou dois jornalistas sensacionalistas, mas o assunto já tinha caído em desuso, principalmente depois que algumas poucas cenas do filme com ele haviam sido veiculadas. Por isso já conseguia fazer graça.
- Felizmente não – mentiu pesarosamente.
- Ela não escreveu mais sobre você nem sobre ninguém.
- Como assim? – perguntou repentinamente curioso.
- É o que eu estou falando. Lauren O’Brien sumiu do mapa. De duas uma. Ou ele foi despedida ou Frederick a adotou para ficar na casa dele – disse, soltando uma gargalhada, relembrando a fama de Frederick Lewinsky.
- Não vejo graça alguma nisso.
- Você ainda está pensando nela, Gerry? Depois de tudo que ela falou mal a seu respeito.
- Olhe, Mike, a conversa está ótima, mas acho que já terminamos o que tínhamos para resolver. Vou andando. Lembrei que tenho umas voltas para dar. Até mais! – despediu-se rapidamente, não querendo mais manter aquela conversa.
- Está bem, Gerry. Quando quiser conversar, sabe onde me encontrar. Até! – respondeu Mike, resolvido a não se intrometer nos assuntos sentimentais do amigo.
Gerard pegou seu carro e foi direto para a sede da LAAR. Ficou dentro do carro, no estacionamento. Em alguns instantes, tinha conseguido o telefone da redação.
- Los Angeles Actor’s Report. Bom dia.
- Bom dia. Por favor, eu gostaria de falar com Lauren O’Brien.
- Um momento senhor... - falou a telefonista esganiçada, demorando alguns segundos para completar sua procura – Sinto muito, senhor. A senhorita Lauren O’Brien não trabalha mais conosco.
- Não trabalha mais? Desde quando?
Depois de mais alguns segundos:
- Desde há aproximadamente um mês.
“Um mês... Exatamente depois de seu último encontro com ela”, pensou. “Será que Mike tinha razão? Será que ela tinha deixado o trabalho para morar com o chefe?” Não conseguia aceitar aquela possibilidade. Mike tinha falado aquilo por brincadeira. “Será?”
- Teria como saber mais informações a respeito da senhorita Lauren?
- Um momento, senhor... Como é mesmo o seu nome?
- Gerard Burns.
- Vou transferi-lo para a senhorita Marian, secretária do senhor Lewinsky. Um momento, por favor...
Enquanto aguardava, os pensamentos mais terríveis o rodeavam. Perguntava-se porque ainda insistia em querer saber notícias daquela mulher.
- Alô? O que o senhor deseja? – perguntou Marian, em tom antipático. Ainda estava indignada pela maneira como Burns tinha tratado sua amiga. Lauren contara tudo para ela logo após o incidente.
- Fiquei sabendo que a senhorita O’Brien foi demitida do LAAR e gostaria de saber onde está trabalhando agora.
- Para seu conhecimento, ela não foi demitida. Ela pediu demissão. Em segundo lugar, não estou autorizada a lhe dar maiores explicações. Tenha um bom dia, senhor Burns.
Ele achou estranho o modo como a mulher, que ele nem conhecia, o estava tratando. Parecia desprezá-lo.
- Por favor, eu...
A ligação foi cortada subitamente.
- Estava falando com alguém, Marian? Por que desligou tão rápido? É algum namorado? Você sabe que não admito este tipo de ligação aqui dentro.
- Não, Frederick. Era um chato querendo emprego.

Ainda com o fone na mão, Gerard perguntava-se o que teria acontecido. De qualquer maneira ficara agradavelmente surpreso em saber que ela pedira demissão. “Será que o ocorrido entre eles teria contribuído para isso?”, indagou-se. Precisava encontrar Lauren ou, pelo menos, esclarecer melhor as coisas. Talvez se fosse ao seu apartamento...
Saiu do estacionamento, dirigindo-se ao endereço de Lauren, imaginando se ela o receberia. Talvez não. Ele fora muito cruel com ela. Talvez precisassem conversar sobre tudo que acontecera. Ela havia dito que não escrevera nada demais sobre ele, mas naquele momento era difícil a ele raciocinar, quanto mais dar a ela uma chance de explicar-se.
Finalmente chegou ao prédio de Lauren. Havia um caminhão de mudanças estacionado bem em frente. Na portaria, ao perguntar por ela, ficou sabendo que não morava mais lá e que a mudança em andamento era do novo inquilino que ocuparia seu antigo apartamento. Ninguém sabia informar para onde ela havia se mudado. Lembrou de Marian, a secretária de Lewinsky. Ela devia saber de alguma coisa. Tentaria falar com ela. Ligou mais uma vez para a redação do LAAR.
- Senhorita Marian, por favor, não desligue.
- Quem fala?
- Gerard Burns.
- Você de novo. Já não lhe disse que não posso lhe dar nenhuma informação?
- Por favor. Tenho certeza de que pode me ajudar. È importante. Preciso falar com Lauren para esclarecer algumas coisas que aconteceram.
- Eu sei o que aconteceu e devo dizer que o senhor foi bastante grosseiro.
- Eu sei. Por isso estou ligando. Pode me ajudar, por favor?
- Não posso falar daqui. Pode me encontrar no Joe’s? É uma cafeteria que tem aqui próxima, onde não há risco de eu ser pega em flagrante pelo meu patrão.
Gerard agradeceu e desligou, assim que pegou detalhes da localização do café e do horário do encontro com Marian.


Na hora combinada, Gerard estava lá. Entrou e logo uma mulher ruiva e muito maquiada, sentada num dos cantos do recinto, acenou-lhe.
- Obrigado por me atender, Marian – cumprimentou-a assim que a identificou como a secretária irritada que o tinha atendido ao telefone – Então você é amiga de Lauren.
- Eu não devia estar aqui. Lauren vai querer minha cabeça se souber que falei com você.
- Por quê?
- Por quê? Você permitiria que dessem informações sobre sua vida a um inimigo?
- Mas eu não sou inimigo de Lauren.
- Agindo como agiu, não vejo adjetivo melhor para você.
- Agi num momento de raiva. E tinha razão em ter ficado furioso, depois de ler o que ela tinha escrito a meu respeito. Qualquer um ficaria.
- Então porque quer falar com ela de novo? Quer finalizar a vingança? Se for isso, boa tarde e adeus – disse Marian, já fazendo menção de levantar-se.
- Não, por favor, fique – implorou Gerry, tocando-a no braço – Quero saber por que ela se demitiu... Ela tentou me dizer que não escreveu nada contra mim. Pensei que ela estava tentando me acalmar e me enrolar, por isso não acreditei. Mas, depois, sabendo da sua demissão... Preciso saber o que houve, entende?
- Lauren é uma pessoa muito especial, que não estava feliz neste emprego. Lamento que ela tenha ido embora. Mas acho que foi melhor para ela – comentou Marian, tristemente.
- Como assim, embora? Embora do emprego, não?
- Embora desta cidade maluca! Para ficar longe de malucos como você e o Frederick.
- Espere um pouco. Não me compare com aquele sujeito desclassificado.
- Vocês agiram da mesma forma para com ela, que eu saiba.
- Da mesma forma, como?
- Tentaram pegá-la a força.
- Espere um momento. Do que você está falando? Vamos começar do início. A última vez que vi Lauren eu havia perdido a cabeça por causa do artigo que ela escrevera sobre mim. Acabei me comportando muito mal, reconheço.
- Exatamente. Não foi ela que escreveu... Pelo menos, não os comentários “indigestos”.
- Então, não foi realmente ela que escreveu?
- Não. Ela havia escrito um texto elogiando o seu trabalho e sugerindo que tínhamos um novo astro, em rápida ascensão.
Ele estava pasmo e sentindo-se muito mal ao lembrar como a havia tratado.
- Mas quem escreveu a parte “indigesta”?
- Quem você imagina que tenha sido? Frederick, é claro. Acho que ele estava com ciúmes de Lauren.
- Ciúmes?
- Já estou falando demais.
- Por favor, Marian, continue – pediu impaciente.
- Quando ela mostrou o seu artigo a Frederick, obviamente ele não gostou da forma como ela o elogiava, ao invés de desdenhá-lo. Disse que se ela não mudasse o conteúdo conforme o que ele queria, seria demitida. Só que ela já estava com a carta de demissão pronta e entregue junto com o seu texto. Frederick perdeu a cabeça ao se dar conta disso e tentou pegá-la a força no seu gabinete. Ela havia sido a única funcionária, além de mim, é claro, que não havia tido um “flerte” com ele. Se é que me entende – disse, piscando o olho direito – A sorte é que eu a ouvi gritar e cheguei a tempo de evitar o pior.
Gerard sentia uma mistura de alívio e culpa ao mesmo tempo. Ela era realmente como ele imaginara, e ele havia sido tão estúpido...
- Marian, para onde ela foi?
- Não sei – disse – Não sei mesmo. Não adianta perguntar. Ela não disse porque tinha medo que Frederick pudesse saber e tentar prejudicá-la – confirmou sua falta de conhecimento ao enfrentar o olhar sério de Gerard.
- Está bem. Ao menos ela tem mantido algum contato com você?
- Às vezes ela me liga, quando dá tempo. Parece que está ocupada escrevendo muito. Acho que conseguiu um novo emprego, mas não sei nada além disso.
- Se souber o telefone dela, por favor, entre em contato comigo ou com meu agente. Vou lhe deixar o meu cartão.
- Qual o seu real interesse nisso tudo? É só desculpar-se com ela? Ou...
- Sinceramente, Marian? Ainda não sei...
- Mas este “ainda não sei” não inclui maltratá-la, espero.
- Certamente que não.
- Bem, sendo assim, se eu souber de algo, entro em contato – afirmou, sorrindo satisfeita com a resposta e tranqüilizada pelo olhar sincero de Gerard.
- Marian, gostaria de te agradecer por vir até aqui e ouvir o que tinha a dizer.
- Acho que vai ser muito bom vocês se entenderem... Desejo boa sorte para você.
- Obrigado. Boa sorte para você também. Trabalhando com o Lewinsky, você precisa.
- Com certeza – disse com um grande sorriso.

Gerard foi para seu apartamento com a cabeça rodando com mil pensamentos. Teria que partir para Quebec em dois dias e lá teria de permanecer por cerca de um mês, até terminarem as filmagens.
Antes de viajar, Gerard pediu a Mike tentasse achar algum indício do lugar para onde Lauren pudesse ter ido e que o avisasse sobre qualquer novidade.
- Nunca o vi tão interessado numa mulher como nessa. O que o impressionou tanto assim? Já estou curioso...
- Não sei, Mike. Acho que a situação mal resolvida entre nós é o que está me incomodando. Sinto necessidade de esclarecer com ela tudo isto.
- Sei... Só esclarecer, não? Está bem. Vá tranquilo. Ela ainda deve estar no planeta Terra. Quando a encontrar, o aviso. Não se preocupe mais com isso. Deixe a cabeça livre para o trabalho, que é o que realmente importa nas próximas semanas.
- Não se preocupe. Vai ser bom mudar de ares um pouco e trabalhar da forma mais usual, sem um cromaqui por perto – dizendo isso, conseguiu esboçar um tímido sorriso.

O término das filmagens demorou um pouco mais do que o previsto. Mike ainda não dera sinal de ter encontrado qualquer pista do paradeiro de Lauren.
Ao voltar para os Estados Unidos, Gerard decidiu que ficaria um tempo em seu apartamento de Nova Iorque, que acabara de ser reformado. Talvez se distraísse um pouco comprando peças para decorá-lo. O decorador já tinha lhe solicitado diversas vezes que o ajudasse na escolha de móveis e objetos de arte que complementariam o visual, mas ele nunca tinha disponibilidade de tempo ou vontade de ficar escutando as maluquices do profissional. Ele era uma excelente pessoa, mas ligeiramente obsessivo. Aproveitaria este período, em que estaria sem filmar fora do país, para dar-lhe uma atenção.
Ao chegar, lhe foi entregue uma pilha de correspondência, que ainda não fora encaminhada para Los Angeles por seu agente de Manhattam. Depois de tomar um banho quente e colocar uma roupa mais confortável, sentou-se para distrair-se olhando os envelopes recebidos. Vários convites para inaugurações, premieres, festas, muita propaganda e um convite para o lançamento de um livro. Estranho... Não era citado o nome do autor. O título era bem interessante: “Fofocas em L.A. – O Lado Sórdido da Imprensa”. Tinha tudo a ver com a situação pela qual ele tinha passado nos últimos meses. A sessão de autógrafos seria em três dias. Talvez fosse até lá. Seria um programa diferente.
Dois dias depois, recebeu um telefonema muito estranho. Uma voz de mulher, que lhe soou familiar, ligou perguntando se ele confirmava a presença no lançamento do livro “Fofocas...”.
- A sua presença é importante neste evento.
- Quem está falando? – perguntou, tentando identificar a voz. Parecia com a de Lauren. Estaria imaginando coisas?
- O senhor confirma sua presença, senhor Burns?
Era ela! Resolveu deixá-la pensar que não a reconhecera.
- Confirmo, sim. Estarei lá, amanhã...
- Muito obrigada – agradeceu e desligou o telefone imediatamente.
Tinha quase certeza que era Lauren. Só não entendia porque ela não se identificara. Ficou imaginando se ela estaria trabalhando na editora que estava lançando o livro. “Ou será que?...” – seus pensamentos provocaram um riso de admiração. Mal podia esperar pelo dia seguinte.

A sessão estava programada para o final da tarde daquela sexta feira. O transito estava terrível. Acabou por atrasar-se, apesar de ter saído quase uma hora antes do horário. Quando conseguiu chegar à livraria, suspirou aliviado. O movimento ainda era grande. Tentou aproximar-se da mesa onde o autor estava autografando. Foi quando teve a agradável surpresa. Confirmou suas suspeitas. Lauren O’Brien era a autora do livro Estava linda, sentada, segurando uma caneta e distribuindo o seu lindo sorriso para todos que a cercavam. Permaneceu num canto onde ela não podia vê-lo. Notou que, com certa frequência, seu olhar era desviado para a porta da livraria, procurando a presença de alguém. Esperava que fosse por ele. Quando o movimento diminuiu, ele resolveu aproximar-se num momento em que ela estava distraída assinando seu nome para um dos últimos da fila de leitores. Quando ela levantou os olhos para entregar o exemplar com sua dedicatória, viu Gerard a observá-la com carinho. Seu rosto iluminou-se de imediato.
- O senhor deseja um autógrafo? – perguntou Lauren, ainda sorrindo.
- Muito...
- Onde está o seu livro?
Só então Gerard deu-se conta de que não tinha comprado o livro.
- Só um momento, que vou adquirir o meu exemplar e já volto.
- Gerard... Não há necessidade disso. Estava brincando. O seu já estava separado, à sua espera... – dizendo isso, abriu um dos livros, que estava sobre a mesa, numa das primeiras páginas e apenas assinou o seu nome sob algumas palavras.
- Só a sua assinatura? Acho que merecia uma dedicatória melhor, não?
- Será?... Leia – disse alcançando-lhe o livro aberto na página que assinara.
Lá estava impresso bem no centro: “Para Gerard, fonte de coragem e estímulo para que este livro fosse escrito”.
- Sou tudo isto? – perguntou emocionado.
Ela apenas sorriu.
- Você aceitaria jantar com o homenageado deste livro?
- Aceitaria...
Ainda tiveram que esperar um pouco mais até que os últimos compradores do livro conseguissem seu autógrafo.
Já era 20 horas, quando saíram lado a lado da livraria, depois de Lauren despedir-se do representante de sua editora. Ainda permaneciam contidos em seus sentimentos. Não sabiam o que esperar um do outro. Entraram no carro de Gerard, que a levou até um pequeno bistrô francês, localizado no SoHo, na Rua Spring. O nome já era sugestivo para o momento de fazer as pazes pelo qual estavam passando: “Les Amis”
Falaram muito pouco durante o trajeto.
- Parabéns pelo sucesso do seu livro.
- É... Acho que o tema atrai. Todos querem saber sobre este universo. Eu tinha um extenso material. Na verdade, eu comecei a escrever logo que comecei a trabalhar para Frederick. Também fiz algumas pesquisas sobre a história, de como começou este tipo de jornalismo. Serviu um pouco para exorcizar meus demônios...
- Você está trabalhando aqui em Nova Iorque?
- Sim. Consegui emprego num jornal de médio porte. Eles já tinham lido alguns artigos meus e gostado do modo como eu escrevia. Só tive de prometer de não fazer nenhuma fofoca. Foi do que mais gostei – disse rindo – Minha nova editora é uma pessoa maravilhosa, que se interessou pelo meu livro e me ajudou muito para que ele fosse publicado em tão pouco tempo.
- Você está linda... – elogiou, desviando rapidamente seu olhar da rua para fitá-la com um brilho nos olhos – Acho que os ares de NY estão fazendo muito bem para você.
- Também sinto isso. Aqui estou fazendo o que realmente gosto, longe de pessoas insalubres como Frederick.
- Como você sabia que eu estaria em NY esta semana?
- Eu parei de persegui-lo, mas o resto da imprensa continua mantendo suas fãs bem informadas.
- Às vezes esqueço isso.
- Além disso, Marian andou me falando que você estava me procurando.
- Disse o motivo também?
- Sim.
Finalmente chegaram ao bistrô. Era discreto e muito aconchegante, com mesas, na maioria para duas pessoas apenas, cobertas por toalhas brancas, decoradas com pequenos vasos de flores e velas acesas. Tinha um clima muito romântico. Lauren pareceu aprovar a escolha dele. Foram conduzidos pelo garçom até um recanto mais privado, onde se sentaram lado a lado. Depois de fazerem sua escolha do menu, Gerard tomou a dianteira para iniciar sua conversa:
- Quero saber tudo sobre você e o que aconteceu neste período em que fiquei procurando por você, me torturando com a culpa de tê-la acusado injustamente – pegou na mão de Lauren, que se sentiu corar diante do toque daquela mão quente e macia, que cobria a sua por completo.
- Pensei que Marian havia lhe contado o que aconteceu.
- Contou, mas gostaria de ouvir a versão original...
Enfrentando aquele olhar de verde profundo que a deixava hipnotizada e prisioneira de seu dono, Lauren começou a contar sua história desde o início.
À medida que ela falava sobre sua luta para conseguir um bom emprego, o embate interno entre seus princípios e as exigências de Frederick, o desejo de poder ser lida e respeitada, coisa que jamais seria se continuasse naquele emprego, mais a admiração de Gerard por ela aumentava. Ela finalmente demonstrava que ele não estava errado quando a imaginou como sendo diferente das outras.
- Aí, eu conheci você naquela festa. Desde então, comecei a repensar sobre meu emprego, minhas escolhas... Tudo. Depois aconteceu aquele “incidente” no restaurante comecei a pensar em pedir demissão. Não aguentava mais escrever aquele tipo de notícia retorcida. Foi quando Frederick me indicou para fazer a sua entrevista. Foi a gota d’água para eu tomar outro caminho. Escrevi um artigo muito diferente do que ele esperava. No fundo, eu não precisava escrever aquilo, mas eu queria que ele visse o que eu realmente pensava... Eu sabia que ele ia odiar, por isso entreguei a minha carta de demissão ao mesmo tempo. Acho que ele ficou mais furioso por causa disto. Ele não conseguiu ter o gostinho de me demitir. Chegou a ficar violento. Se não fosse a Marian chegar, eu teria apanhado.
- Que eu saiba, ele quis te beijar a força.
- Como você... No dia seguinte – desta vez ela o olhou com um resquício de mágoa nos grandes olhos castanho-claros.
- Lauren, não sabe quantas vezes já me culpei por ter agido como um canalha.
- Não, você reagiu como qualquer homem normal teria reagido.
- Por que você não falou que o artigo não tinha sido escrito por você?
- Eu falei, mas você não queria ouvir o que eu tinha a dizer. Você não me deu chance.
- Você tem razão. Me perdoe. Eu estava completamente cego de raiva...
- Além do mais, – disse interrompendo-o – eu também me sentia culpada pelos outros textos que eu havia escrito antes. Por isso não quis insistir na verdade. Mas, se isto o faz sentir melhor, eu te perdoei na mesma hora. Pode dormir tranquilo de agora em diante e seguir o seu caminho. Está livre desta culpa.
- O que você quer dizer com isso?
- Você não queria só tirar esta culpa dos ombros?
- Lauren, eu não vim só por isso e acho que você sabe qual o motivo principal.
- Sei?
- Sabe... Na primeira vez em que a tive em meus braços, mesmo tendo sido por poucos minutos, senti algo diferente. Desde aquele momento não consegui mais tirá-la da minha cabeça, apesar de todos os mal-entendidos. Mesmo quando estava envenenado pela raiva diante daquelas notas difamatórias e mentirosas, quando a tinha em meus braços sentia-me fraquejar e tinha de fazer um grande esforço para não demonstrar o quanto a desejava. A minha raiva foi maior no dia em que a segui ao seu apartamento, não só pelo comentário em si, mas por pensar que havia realmente me enganado profundamente em relação a você. Quando soube que você havia pedido demissão minha esperança voltou. Por isto estou aqui. Eu só preciso saber se tenho alguma chance junto a você, depois de tudo que aconteceu...
Lauren estava paralisada e emocionada com tudo que acabara de ouvir. Com algum esforço, conseguiu falar:
- Gerard... Não sei o que dizer... – notou que ele pareceu ficar triste diante da sua insegurança em corresponder a sua declaração, pois abaixou a cabeça, desviando seu olhar.
Em vista disso, ela não teve mais dúvidas. Com as duas mãos, levantou o rosto dele, acariciando-o, fixando seu olhar no doce verde dos seus olhos e disse:
- Gerard, eu te amo... Muito. Gostaria muito de tentar esquecer tudo o que se passou e...
- Lauren... – sussurrou, aproximando-se lentamente, até seus lábios tocarem-se, num beijo muito doce.
Beijaram-se ainda mais, até serem interrompidos pelo garçom, que perguntou se gostariam de uma sobremesa.
Ambos olharam-se, cúmplices e felizes.
- Você vai querer uma sobremesa? – perguntou Gerard, com expressão provocante.
- Agora... Não – respondeu Lauren, retribuindo o olhar ladino ao seu lado.
- Acho melhor irmos embora daqui, antes que nos expulsem por atitudes indecorosas. O que você acha? – disse Gerry, sorrindo.
- Acho que você tem toda a razão.
Rapidamente, Gerard pagou a conta e saíram.
Foram direto para o apartamento dele.
Já não aguentavam mais a hora de chegar em casa para entregarem-se sem pudores um ao outro. Mal a porta da entrada fechou-se, abraçaram-se quase com fúria, com bocas que procuravam um ao outro com intensidade. Toda uma paixão, estancada por semanas e por diversas situações, encontrava o seu fluxo, correndo livre, através dos beijos molhados, mãos sedentas por descobrir o corpo, tantas vezes desejado, e finalmente descoberto. Havia uma urgência de fusão. Entre gemidos e suspiros, finalmente Gerard penetrou Lauren, tornando-a sua mulher, agora em espírito e corpo. Tudo acontecera tão rápido, mas de uma forma tão intensa e completa que eles se deixaram ficar abraçados sobre os tapetes da sala, temendo perder aquele momento de união tão prazerosa. Depois de vários minutos em silencio e repouso, Lauren murmurou:
- Gerard, eu imaginei este momento tantas vezes que perdi a conta.
- Então, ainda estou em débito com você. Seremos obrigados a repetir momentos como esse até perdermos a conta – disse, levantando-se do chão, para elevá-la nos fortes braços e levá-la para o quarto, com um belo sorriso nos lábios – Preciso lhe mostrar os outros cômodos da sua casa.


FIM


Olá! Espero que tenham gostado do final. Espero não demorar muito para voltar. Além da crise da qual eu tinha falado, ainda consegui arranjar uma bela conjuntivite, que não está me permitindo ficar muito tempo na tela do computador. Mas deixem estar, que logo esta fase acaba. Deixo aqui o meu agradecimento pelos comentários tão queridos das minhas amigas fiéis e estimuladoras destes meus "vôos da imaginação".
Um grande beijo para todas!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Crise de criação

Olá queridas leitoras e amigas!
Peço desculpas por ter desaparecido todo este tempo, mas ando trabalhando no novo romance, mas também enfrentando uma certa crise de criatividade. Tânia, querida, não se preocupe que a nossa continuação vai sair, cedo ou tarde. Mas como eu não gosto de deixar o meu blog muito tempo sem atividade, vou deixar aqui, para passar o tempo e eu abandonar o meu bloqueio temporário, um pequeno conto já conhecido e postado em outro blog - As Gerrymaníacas - , mas ao qual adicionei algumas cenas novas, que espero sejam do agrado de quem já leu o texto anteriormente. Vou deixar a primeira parte revigorada hoje e devo postar a segunda parte antes do final de semana.
Beijos!!


A REPÓRTER




Finalmente conseguira um emprego em Los Angeles. Não era exatamente a sua área de interesse, mas pelo menos estaria atuando dentro do jornalismo. Depois de tantos anos de estudo e batalha para conseguir seu “lugar ao sol”, lá estava ela, aguardando na ante-sala do diretor do Los Angeles Actor´s Report (LAAR). Era um programa de televisão muito conhecido por dar informações a respeito dos atores mais famosos ou dignos de notas na sociedade local. Tinha um dos maiores ibopes da TV a cabo. Eles também atuavam na Internet com um site no mesmo estilo do programa. Ela trabalharia na área de reportagem por detrás das câmeras, apesar de já ter sido sondada para o trabalho diante delas. Disseram que fotografava muito bem. Conseguira driblar o produtor e ficar longe do vídeo.
- Senhorita Lauren O’Brien? - perguntou a secretária, Marian, coquete e simpática, por trás de sua escrivaninha.
- Sim?
- Pode entrar. Fred a espera – falou com certa intimidade.
- Obrigada – agradeceu e levantou-se para adentrar no grande escritório do seu novo chefe.
Lá estava Frederick Lewinsky, o criador do programa e “ligeiramente” odiado no meio artístico, devido ao seu humor ácido e malicioso.
Ele a olhou de alto a baixo, com um sorrisinho irônico nos lábios finos. Lauren não se sentia muito a vontade perto dele. Já levara uma ou duas cantadas suas até agora, mas conseguira mantê-lo afastado.
- Então, Lauren, você sabe que o sucesso do nosso programa é o escárnio em cima dos atores em evidencia. Tudo que pudermos usar para mostrar a verdadeira face deste pessoal, deverá ser mostrado. Eu, pessoalmente, acho que são todos um bando de emplumados, tentando aparecer.
“Ele parece um ator fracassado, que morre de inveja de quem conseguiu o estrelato”, pensou Lauren, observando o olhar perverso de Frederick.
- Então? Pronta para atacar as feras e tirar o suco deles?
- Pronta, é claro! – respondeu Lauren retribuindo com um sorriso confiante, apesar de estar com medo do tipo de reportagem que teria de fazer. Mas era a sua grande chance e não podia deixar que suas dúvidas a impedissem de agarrá-la.
- Você já conhece o nosso estilo. Você vai começar com uma pequena coluna dentro do nosso site, que poderá ser utilizada para o programa na TV. Conforme seu sucesso, a coluna poderá ser ampliada. Após, você será transferida para as reportagens ao vivo, na TV a cabo
- Mas, Frederick...
- Fred, querida...
- Fred... Nós tínhamos combinado que eu não apareceria no vídeo...
- Bem, se você não está interessada em crescer dentro do programa, melhor nem começar. As coisas mudam, minha querida. Aqui tudo é muito rápido. Você tem um visual muito agradável. De qualquer jeito, você não aparecerá antes que nós possamos verificar se está agradando ao público na coluna. Portanto, não precisa ficar estressada antes. Pode ser que leve um “pé na bunda” antes disso – falou grosseiramente.
Como alguém podia ser tão estúpido. Apesar disso, Lauren respirou fundo e disse, de cabeça erguida:
- Tenho certeza que não vai se decepcionar comigo, Frederick. Posso sair agora? Tenho uma coluna para fazer.
- Assim que se fala, docinho. Ao trabalho. Vou estar de olho em você...
Ela podia sentir o olho dele sobre ela.
Lauren virou as costas, sentindo uma certa náusea, e seguiu para o seu pequeno escritório. Na verdade, era um box, separado dos de seus colegas da redação por divisórias. Ali tinha um terminal de computador, uma impressora e uma pequena bancada, que eu poderia decorar ao seu gosto.
Assim ela iniciara a nova carreira, depois de ter rodado por jornais do interior, ter atuado como free-lance em algumas revistas de pouca importância. Sabia que tinha talento, mas tinha plena noção que só conseguira o emprego, principalmente, por sua aparência. Ela mandara seu currículo diversas vezes para vários jornais, revistas e canais de televisão, inclusive para o LAAR. Porém, só depois que uma amiga a aconselhara a colocar uma foto, feita em estúdio, anexada ao currículo, ela recebera vários chamados. O LAAR tinha sido o local mais interessante para trabalhar devido a sua maior circulação e público. Esperava ficar nesta vitrine até poder mostrar seu verdadeiro talento. Depois de conhecer o seu editor, começava a achar esta aspiração mais difícil. Para o trabalho que ele queria era necessário apenas conhecer gramática e um pouco de crueldade. Ela achava que podia aguentar isso.
Seus primeiros textos foram sobre Britney. Ela estava em grande evidencia devido aos problemas que andava enfrentando. Infelizmente, ela proporcionava muito material para as colunas de fofoca, sendo alvo fácil do sarcasmo e ridicularização da imprensa. Ela recebia as informações e os vídeos feitos pela equipe e fazia a sua crítica erosiva. Aparentemente, Frederick agradou-se de seu estilo. Mesmo assim, ele sempre lhe dava algumas sugestões para apimentar o texto, coisa em que era mestre. Logo sua coluna foi ganhando mais espaço. O número de comentários recebidos era muito grande. Tanto positivos quanto negativos. Isto não fazia muita diferença. Apenas significava que ela era lida por muita gente. O ditado “Falem mal ou falem bem, mas falem de mim” era o que estava valendo.
Foi nessa época, em que um ator, até então não muito falado, apesar de ter grande quantidade de fãs nos Estados Unidos, estava iniciando as filmagens de um filme de diretor americano, baseado em uma HQ. Tudo parecia indicar que o filme seria um sucesso de bilheteria, devido ao seu enredo e ao modo como Silver, o diretor, pretendia filmá-lo. O nome dele era Gerard Burns. Era escocês e, apesar de ter em seu currículo diversos trabalhos cinematográficos, seu nome despontou com um filme: “O Conde de Monte Cristo”, baseado num musical da Broadway. A crítica não tinha sido muito favorável, mas o público feminino parecia ter sido conquistado definitivamente pelos belos olhos verdes daquele homem.
Ele seria o novo caçado por Lauren, entre outros, conforme determinação de Fred. Imediatamente ao saber disso, ela passou a pesquisar sobre o ator. Simplesmente não encontrava nada que pudesse ser colocado contra ele. O homem tinha uma história de superação de inúmeros problemas e estava conseguindo vencer os obstáculos e atingir seus objetivos. Grande quantidade de material começou a chegar sobre as filmagens, o treinamento físico dos atores, as dificuldades de atuarem sobre um fundo azul, sem cenários visíveis. Com certa dor na consciência, resolveu atacá-lo no condicionamento físico, por nova sugestão de Fred. Escreveu em sua coluna sobre o uso abusivo de anabolizantes em certos atores, insinuando que ele, Gerard, poderia estar entrando nesta lista. De outra vez, descobriu um homem que fazia próteses de abdômen, que eram usadas pela equipe de maquiagem nos estúdios para encobrir abdomens não tão sarados e deixar os heróis dos filmes mais atraentes fisicamente. Isto também foi usado numa insinuação que desmerecia completamente todo o trabalho de fisiculturismo do pobre ator.


- Calma, Gerry! Não fique tão irritado. Estes caras querem é incomodar e tentar tirar as pessoas do sério, só para terem mais assunto nestas colunas de fofocas.
- Quem é essa Lauren O’Brien? Quem ela pensa que é? Fica escondida atrás de uma tela de computador, usando as palavras como armas. Ela insinuou que todo este esforço do cão que tenho feito, o meu sacrifício para ter uma boa forma e poder encarnar a personagem de um rei guerreiro, não é real?
Ele estava realmente irado.
- Se eu ficar frente a frente com ela,vou pedir algumas explicações e acertar alguns pontos com ela. Deve ser alguma solteirona mal-amada, que não tem mais o que fazer a não ser destruir imagens de pessoas que estão tentando trabalhar sério.
- Deixe prá lá, Gerry – pediu Mike, seu agente, mais uma vez.

Lauren ainda não conseguia sentir-se à vontade com seu trabalho, entretanto, quem mostrava sinais de estar muito satisfeito era Frederick.
Foi quando surgiu a festa de lançamento de um filme. Foram convidados atores, produtores e diretores conhecidos. O editor de LAAR, não podia deixar de comparecer. Se alguma produção de Hollywood caísse nas graças de Lewinsky, poder-se-ia dizer que o sucesso estava garantido. Portanto, ele sempre era convidado para este tipo de evento.
Para surpresa de Lauren, ela foi escolhida para acompanhá-lo, já que estava tornando-se uma das colunistas mais lidas. Mal sabia ela que outras surpresas ainda a aguardavam naquela noite..
Apesar de ele oferecer-se para buscá-la em casa, Lauren preferiu mantê-lo afastado , sem intimidades. Combinaram de encontrar-se no local da festa.
Quando chegou, como não o visse, resolveu entrar sozinha. Seu nome estava na lista de convidados. Encontraria Frederick lá dentro. Após cumprimentar alguns conhecidos, dirigiu-se ao dono da festa para parabenizá-lo. Ao seu lado estava um homem alto, forte, de barba, que ao notar sua presença, mirou-a intensamente com grandes olhos claros e brilhantes, com interesse e sensualidade. Aquele olhar a fez estremecer. A presença dele era marcante, sem necessidade de palavras. Lauren teve a impressão de já conhecer aquele rosto de algum lugar, mas não conseguia lembrar onde. Sem saber como, o produtor foi distraído por outros cumprimentos, deixando-os um na companhia do outro.
- Olá... Você está sozinha? – perguntou com uma voz rouca e envolvente.
- Não... Na verdade ainda não consegui achar o meu acompanhante. Talvez ele nem tenha chegado ainda, Estava a sua procura.
- Posso substituí-lo no momento, se você permitir...
Ela ainda procurava as palavras certas para responder, quando ele passou seu braço por sua cintura e convidou-a para dançar.
- Quando o seu amigo chegar eu a libero. Prometo...
- Você é meio pretensioso, não? – indagou, quando conseguiu encontrar a fala, com um sorriso tímido.
- Porque você acha isso?
- Quem disse que quero dançar com você?
- Seus olhos... Sua boca... Seu corpo...
Apesar de seus joelhos fraquejarem diante do charme daquele homem, ainda tentava resistir.
- Acho melhor procurar o meu acompanhante original.
- Você não vai me fazer esta desfeita, vai?
A combinação de olhar suplicante e um sorriso maroto, lhe tiraram todas as dúvidas.
- Está bem... Dançar um pouco com você não vai fazer mal... – disse, deixando-se levar pelas grandes mãos bem feitas e pelos braços fortes que a conduziam para a pista de dança.
Ela sentiu-se flutuar no seu toque. A música romântica, que inexplicavelmente começara no momento em que iniciaram sua dança, permitiu uma aproximação maior. Lauren podia sentir o seu perfume, o seu hálito quente e aquele olhar que a devorava. Aquela proximidade despertou nela uma voluptuosidade que se encontrava adormecida há algum tempo. Sentindo o efeito que estava tendo sobre ela, o homem a puxou ainda mais contra si, baixando a cabeça de forma a encostar seus lábios sobre sua orelha. Instintivamente, Lauren inclinou-se para o lado, expondo seu delicado pescoço ao roçar daquela boca provocante.
- Lauren! Você está aí! – a voz rude de Frederick despertou-a de seu transe.
- Lauren? – disse Gerard, estupefato. A sua dança foi bruscamente interrompida. Ficaram no meio da pista, olhando-se. Lauren ainda não compreendia o que estava acontecendo.
- Ora, vejo que já foi apresentada ao “grande” Gerry Burns – continuava Frederick, usando seus termos de duplo sentido, maliciando sobre o físico avantajado de Gerard.
- Na verdade, ainda não tínhamos sido apresentados – disse Lauren, sentindo-se petrificar.
- Bem, então eu os apresento. Lauren O’Brien, este é Gerard Burns. Gerry, esta é Lauren. Caso não tenha me reconhecido, sou Frederick Lewinsky, da LAAR. Vamos, querida. Temos que cumprimentar outras convidados. Quero apresentá-la para algumas pessoas realmente importantes.
Lauren podia sentir o veneno escorrendo daquela boca fina e obscena.
Não houve tempo para que trocassem novas palavras, pois Frederick praticamente arrancou-a dos braços dele, deixando-o paralisado no meio do salão.
- Vejo que não perdeu tempo, senhorita Lauren. Assim que eu gosto. De cara já foi atacando a presa... E então, conseguiu alguma informação interessante?
Ela queria fugir dali. Sentia-se extremamente embaraçada com a situação. Como pudera não reconhecer o homem a quem vinha atacando sem piedade nas últimas semanas. E o pior, sentir aquela atração irresistível, que sentira por ele minutos atrás. Olhava para Frederick, mas parecia não entender o que ele dizia. Ele a levava para junto do diretor do novo lançamento hollywoodiano, segurando-a, como se ela não tivesse mais o controle de
suas ações. Talvez as tivesse perdido mesmo, ao ouvir o nome de Gerard. Evitou olhar para trás. Ainda não se sentia segura o suficiente para encará-lo novamente.
Não encontrou mais animo para dançar, apesar da insistência de Frederick, que parecia resolvido a mostrá-la como sua última conquista. Ela estava tão preocupada com o que estaria Gerard pensando a seu respeito que mal conseguia rebater as investidas do outro. Num momento, próximo ao final da festa, quando seu “algoz” a deixou por alguns instantes, sentiu alguém se aproximar às suas costas. Ouviu a sua voz, agora com o sotaque escocês mais acentuado, provavelmente pela irritação que parecia ter tomado conta dele:
- Então é você que costuma falar mal de pessoas que nem conhece?
Ela respirou fundo e virou-se para enfrentá-lo. Encontrou outro homem, que já não era mais aquele com quem se envolvera romanticamente momentos atrás. O brilho de seus olhos já não demonstrava desejo, e sim raiva e ameaça.
- Desculpe se não o reconheci. O ambiente, a música, as roupas casuais me confundiram.
- Espero que não se confunda ao escrever a sua próxima coluna. Lançar calúnias pode gerar processos. Você devia ter mais cuidado com o que escreve.
- É o meu trabalho. Só devo satisfações ao meu editor. Que eu saiba, estamos num país com liberdade de imprensa.
Neste momento, Frederick retornava de mais uma “excursão” entre os convidados. Ao vê-lo, Gerard rociferou:
- É melhor você dar satisfações ao seu editor. Ele parece muito necessitado da sua atenção. Afinal, o seu emprego pode estar em jogo, se ele for ciumento.
Ao ouvir esta insinuação, Lauren teve vontade de gritar, mas conteve-se ao pensar que ele apenas estava retribuindo uma pequena parte dos insultos que tinha recebido.
- Vamos, Lauren. Esta festa já deu tudo que tinha de dar – disse Frederick, com ares de posse.
Gerard permanecia com expressão de escárnio e ressentimento, olhando-a, enquanto se afastavam. Pensava em como podia ter-se enganado tanto. Quando vira aquela bela mulher de olhar perdido e doce, pensou ter encontrado alguém diferente das outras. Que decepção! Quando pensou que estava no céu, foi lançado abruptamente ao inferno.

Apesar de recusar a oferta de Frederick para levá-la para casa, diante de sua insistência acabou cedendo. Quando estava entrando no carro, ainda pode ver Gerard aguardando a sua vez de pedir ao manobrista o seu BMW preto. Seus olhares se cruzaram mais uma vez. Ficou perguntando-se porque as coisas tinham de ser assim. Não conseguia tirar da cabeça aquele momento mágico que acontecera entre os dois antes de ser reconhecida como a vilã da história.
Ao chegarem em seu edifício, notou a insinuação de Fred para levá-la até a porta de seu apartamento, com a desculpa de beber um último drink.
- Eu não bebo, Fred.
- Bem, então um café. Podemos dar um final ainda mais agradável a esta noite. Que tal? – perguntou, lançando um sorriso pretensamente sensual para Lauren.
- Fred, você é meu chefe e o respeito muito. Mas acho que nossa relação não deve passar disso. Não quero misturar as coisas e espero que você também respeite estes limites.
- Acho que você está muito séria. Se as coisas podem ficar melhores, porque não tentar?
- Não creio que elas fiquem melhores do que estão – disse, querendo sair dali o mais rapidamente possível.
- Você parece ter ficado muito impressionada com o Burns. Estou enganado? – perguntou, segurando-a pelo braço, ao notar que ela pretendia deixar o carro.
- Eu me senti muito mal por não tê-lo reconhecido imediatamente e pela reação dele ao saber quem eu era. Só isso.
- Você esperava o quê? Na nossa área temos que estar preparados para o ódio que originamos com nossos artigos. Com o tempo vai se acostumar.
- Será que vou me acostumar? – falou, num sussurro quase que para si mesma.
- Será que notei algum outro tipo de interesse neste seu encontro com Burns. Ele tem fama de garanhão. Será que fez mais uma presa?
- De maneira alguma! Apenas fiquei chateada com a “saia justa” em que me meti.
- Espero que sim. Como você falou, não é bom misturar negócios e prazer. Mas... se mudar de idéia quanto a isto, pode me procurar. Estarei esperando... – dizendo isto, tentou aproximar-se de Lauren, pronto para abraçá-la.
- Até mais, Fred – disse friamente, afastando-se dele de imediato, virando o rosto e abrindo a porta para descer – Muito obrigada pela noite divertida.
Frederick sentia-se muito atraído por Lauren desde que a vira entrar em seu gabinete na primeira vez. Quando viu que ela não era só um rosto bonito, mas que também tinha talento jornalístico, a admiração só tinha aumentado. Era uma alma limpa, diferente das outras que o cercavam no seu dia-a-dia. Gostaria de tê-la antes que a lama a encobrisse. Ela tinha objetivos a alcançar. Ele sabia que o tipo de trabalho que ele lhe oferecia estava muito aquém do seu potencial. Talvez pudesse ajudá-la um pouco mais, mas isto dependeria do comportamento dela para com ele. Em sua arrogância sentia-se como Mefistófeles. Já tinha usufruído muito de seu poder para conseguir as pessoas que ele desejava. Todas partiam contentes para o seu brilhante futuro... Ou não. Mas todas, com a sua marca.
Sozinha em seu apartamento, Lauren ainda pensava no ocorrido e não conseguia tirar da memória aquele olhar magoado que vira nos olhos de Gerard. Mas como dissera Fred, era algo com o que teria de aprender a lidar. Já percebera que não seria uma coisa fácil.
Como já esperava, foi encarregada de tecer comentários a respeito da festa da qual tinham participado. Tentou evitar o assunto Gerard Burns, mas foi exatamente este o foco central considerado por Fred, quando ela mostrou a ele seu rascunho.
- Minha querida, não consigo acreditar que você não colocou aqui nada sobre o seu contato com o Burns. Afinal, vocês dançaram juntos, aliás, bem juntos, segundo eu pude ver. Você tem que descrever este fato aqui.
- Não, Fred. Eu não posso fazer isso.
- Por quê? Rolou alguma coisa entre vocês? Não quer expor suas intimidades?
- Claro que não rolou nada. Apenas vejo importância alguma escrever sobre isto.
- Aí é que você se engana, minha cara. Você já deve ter ouvido alguma coisa sobre dúvidas quanto à masculinidade deste cara. Solteirão, forte, fazendo um filme rodeado de homens...
De repente, você o encontra numa festa e ele dá uma de garanhão. Você pode insinuar sobre bissexualidade entre os atores... Pense e escreva. Quando terminar, mostre-me o que escreveu.
Lauren estava incrédula sobre o que acabara de ouvir.
- Frederick... Não posso escrever algo tão maldoso. Não se pode fazer uma insinuação destas. Isto é muito grave.
- Tenho certeza que tem uma fila de repórteres iniciantes que poderiam escrever este artigo.
Não está interessada em manter seu emprego? Faço a fila andar. Entendeu?
- Entendi – disse com voz fraca, vencida pelos argumentos de seu editor.
- Mais alguma coisa? – perguntou, sem levantar os olhos do jornal que estava lendo antes dela chegar.
- Não...
- Então, ao trabalho! – disse, balançando sua mão a espanar o ar, mandando-a sair dali.
Lauren saiu cabisbaixa, pensando na reação de Gerard quando soubesse o teor de seu artigo.

Cerca de três dias depois de seu artigo ser divulgado, saiu para jantar num dos novos restaurantes recentemente inaugurados em Los Angeles. Saiu com um casal de amigos do tempo da faculdade que estavam em visita à cidade. Era um local muito agradável, decorado com muito bom gosto, especializado em comida oriental. Estava tão distraída a conversar que não notou que estava sendo observada desde sua entrada. Quando pediram um café para arrematar o final do jantar, Lauren pediu licença para ir ao toalete. Antes de alcançar a porta do recinto, que ficava longe dos olhares do salão principal, sentiu a força de uma mão agarrando seu braço e puxando-a para o corredor escuro que levava ao escritório da administração. Apavorada com a possibilidade de um ataque e debatendo-se muito, tentando desvencilhar-se das garras do desconhecido, foi arrastada até uma sala nos fundos do restaurante. Quando a porta fechou-se com violência, isolando-a do mundo exterior, ouviu a voz rouca e rude de seu seqüestrador:
- Hoje saiu sem o seu protetor?
Quando conseguiu aprumar-se e acostumar os olhos à penumbra da sala onde estavam, identificou quem a agarrara daquela forma violenta. Gerard Burns estava a sua frente, com os olhos faiscando de raiva, postado como uma muralha, como se fosse bater nela a qualquer momento. Mesmo assim furioso, não conseguiu deixar de provocar-lhe uma onda de excitação. Ele estava vestido de modo simples, com um jeans azul claro e uma camisa branca ligeiramente aberta no peito, deixando entrever alguns fios de cabelo acinzentados. Seus olhos pareciam mais verdes que nunca, e sua boca entreaberta parecia pedir um beijo. Diante desta visão, deu um passo atrás, dando com as costas de encontro à parede. Estava encurralada. Ele aproximou-se ainda mais, permitindo que ela sentisse o calor de seu hálito e o cheiro másculo de seu perfume.
- Você me assustou! – conseguiu dizer com dificuldade – E me machucou –continuou, levando a mão ao braço que ele apertara e massageando-o de leve, com uma careta de dor.
- Você não sabia que os bissexuais são violentos quando incomodados? – falou com escárnio, estreitando o olhar sobre ela, vendo que estava conseguindo apavorá-la.
Lançou uma mão à cintura de Lauren e a outra em suas costas, forçando-a inclinar-se para trás, na tentativa de fugir daquele abraço, até bater a cabeça na parede na sua retaguarda. O gemido dela fez com que ele afrouxasse o cerco e diminuísse sua cólera por alguns instantes. Ainda envolvendo-a com o braço, levou-a até uma das poltronas do escritório e forçou-a a sentar-se. Levou a mão ao local da batida para verificar se tinha algum ferimento, no que foi repelido imediatamente.
- Seu brutamontes! – gritou. A dor provocada pela batida despertara-a do transe em que estava.
- Sua reporterzinha sensacionalista! O que pretende com estas insinuações descabidas a meu respeito naquele diário de quinta categoria?
- Não se preocupe, pois no meu próximo artigo vou mudar o meu enfoque sobre você. Vou falar sobre este seu lado abrutalhado, grosseiro e agressor de mulheres indefesas.
Ele respirou fundo, olhou-a com expressão pesarosa e abaixou-se diante dela, ficando frente a frente. Ela não conseguia encará-lo. Seu coração anunciava que escaparia de seu peito a qualquer momento e não parecia possível conter o tremor de seu corpo. Foi quando sentiu a mão dele em seu queixo, obrigando-a a levantar a cabeça e olhá-lo nos olhos.
- Eu pensei que, pelo menos aquele momento que tivemos durante a dança, antes de nos identificarmos, tinha sido especial.
Sua voz tornara-se suave e o olhar já não era de ódio. Lauren sentiu amolecer-se e tentava buscar palavras que pudessem abonar o que tinha escrito a respeito dele.
- E-eu sinto muito pelo artigo – foi só o que conseguiu dizer.
- Então porque o escreveu?
- Por que bom ou não é o meu trabalho. Tenho que seguir a linha de pensamento do editor.
O olhar de Gerard endureceu novamente.
- Do seu amiguinho...
- Ele é meu patrão, não meu “amiguinho”! – exclamou quase chorando – Me deixe sair daqui, por favor.
Ele se levantou sem dizer palavra alguma e afastou-se apenas o suficiente para que ela pudesse levantar-se da poltrona. Ainda vacilante, Lauren saiu de seu lugar e, antes que se virasse para ir embora, foi envolvida mais uma vez por aqueles braços poderosos. Ele aproximou a boca de seu ouvido e sussurrou:
- Vai negar que não sentiu nada por mim naquela noite?
Ela sentiu desfalecer ao sentir o roçar da barba dele em seu pescoço e ouvir a sua voz enrouquecida pelo desejo. Não conseguiu falar nada. Fechou os olhos e ofereceu-se a ele, que passou a beijar-lhe o pescoço desde a nuca, suave e lentamente, subindo até alcançar-lhe a boca. Não podendo mais resistir, Lauren lançou seus braços em torno dos ombros largos, aproximando-o ainda mais de seus lábios, que o aguardavam entreabertos.
- É assim que ele a convence a escrever aqueles artigos lastimáveis?
A pergunta dele caiu como uma lâmina sobre seu coração. Antes que pudesse reagir, sentiu a pressão violenta daquela boca sobre a sua e a língua ágil e quente penetrando-a, sem pedir licença, buscando a sua com fúria. Não conseguia encontrar espaço entre seu peito e o dele onde pudesse empurrá-lo. Começou a esmurrar seus ombros com toda a força que conseguia. Quando finalmente ele a soltou, mostrava um meio sorriso irônico, que a fez sentir-se como uma rameira. Uma onda de raiva apossou-se dela. Sua mão direita elevou-se rapidamente no ar, cheia de força, indo na direção do rosto de Gerard. Foi impedida antes de cumprir seu intento, segura por uma mão férrea, que pareceu não fazer esforço algum ao evitá-la. O sorriso jocoso persistia na boca que acabara de beijá-la. Sentiu as lágrimas de impotência aflorando e, antes que pudesse dar o gosto de vê-la chorando, libertou-se e, meio cambaleante, encontrou a saída e pôs-se a correr para o lavabo feminino. Lá, trancou-se num dos cubículos com privada, para não precisar agüentar os olhares das mulheres que ali estavam a retocar a maquiagem. Sentou-se sobre a tampa do vaso e esperou acalmar-se, até que todas saíssem. Percebendo que estava sozinha novamente, saiu e foi ao espelho. O cabelo desgrenhado, o rosto pálido e a maquiagem borrada pelas lágrimas denunciavam a aflição que a atingira. Com esforço, ajeitou o penteado e secou a face. Para seu novo pavor, deu-se conta que perdera a pequena bolsa de mão que levava junto de si ao ser levada para o escritório. Provavelmente ela caíra durante o embate entre Gerard e ela. Não poderia voltar lá para requerê-la. Não tinha coragem de encará-lo outra vez e passar por mais uma humilhação. Trêmula, conseguiu tirar os borrões sob os olhos e melhorar um pouco sua aparência. Saiu do lavatório, olhando para os lados para ver se ele não estava por ali. Após certificar-se disto, voltou a sua mesa, onde o casal já estava preocupado com sua demora. Ao vê-la, a preocupação tornou-se real, mas Lauren desculpou-se dizendo que havia escorregado no banheiro e machucado o braço. Pareceram acreditar na sua estória, principalmente quando notaram a mancha azulada que começava a formar-se em torno de seu braço direito. Logo pediram a conta e levantaram-se para sair. Aliviada por Gerard não ter aparecido, surpreendeu-se quando o maitre apareceu trazendo sua bolsa e dizendo que ela havia esquecido na toalete. Agradeceu e saiu dali rapidamente.
Ainda no escritório, Gerard desabou sobre a poltrona onde ela estivera sentada, com o sorriso desaparecido, com a mão levada à testa, enquanto balançava a cabeça ligeiramente, tentando raciocinar sobre o que tinha se passado ali. Jamais alguém lhe despertara tamanhos sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que odiava aquela mulher pelas venenosas palavras escritas naquele pasquim, desejava-a com tal intensidade que ficava a mercê de seus instintos. Toda a razão o abandonava ao tê-la em seus braços. Foi então que viu a pequenina bolsa preta caída junto à parede em que a prensara. Chamou um de seus auxiliares pelo telefone e indicou a quem pertencia. Que fosse entregue a dona. Mais uma vez sozinho, continuou sentado, perdido em seus pensamentos, se perguntando se ela sabia que era sócio deste restaurante. Talvez ela o tivesse escolhido de propósito para criar a situação. Seria ela tão cínica a este ponto?


Na semana seguinte, ao chegar à redação, foi recebida animadamente por Fred.
- Bom dia, Lauren! Tenho ótimas notícias para você.
- Bom dia, Fred. Que bom para iniciar o dia.
- O seu amiguinho fortão, Burns, vai dar uma coletiva falando sobre o seu novo filme. Eles acabaram as filmagens e estão ansiosos por divulgação. Acho que teremos um novo “blockbuster” por aí. Claro que teremos que colocar o nosso “tempero” em nossas perguntas e procurar alguma coisa mais apimentada que o habitual. Você sabe... Tentar tirar alguma polemica das palavras dele.
“Oh, Deus! Isto não”, apavorou-se Lauren com a perspectiva de ter de fazer mais uma coluna atacando-o.
- Quem vai até lá para as perguntas?
- Como quem? Você, é claro!
- Como eu? Sempre é um dos seus repórteres de rua que vai atrás das informações. Eu apenas registro na coluna com o... “tempero” – Lauren estava desesperada com a possibilidade de ter que encontrar Gerard novamente depois da situação constrangedora de dias atrás.
- Lauren, estou te dando a oportunidade de você sair da redação e atuar diretamente com o seu alvo. Você poderá fazer as perguntas mais convenientes para a sua crítica, sem depender de outros. O que está acontecendo?
Ela sabia que ele tinha razão. Era uma oportunidade valiosa em qualquer outra situação. Mas não era o que sentia no momento.
- Não está acontecendo nada, Fred. É que fiquei tão surpresa com a novidade que ainda estou me recuperando.
- Ainda bem! Achei, por um instante, que você estava com medo de entrevistar pessoalmente aquele sujeito.
- Quando vai ser a coletiva?
- Amanhã. Você terá tempo para organizar suas perguntas. Também estarão presentes outros realizadores, como o diretor Silver. Você pode entrevistá-los também. Depois lhe dou a relação. Mas o nosso foco primário é o ator principal, Burns, como você bem sabe. Acredito que esta será a última coluna sobre ele. Este ano. Quero que você mire em outro alvo. Conversaremos sobre isso depois.
Ela precisava conseguir outro trabalho. Não acreditava que fosse agüentar muito tempo. Sentia-se repugnada a cada artigo seu. Agora precisava usar todo o seu sangue-frio para ir adiante com esta entrevista. Como seria recebida por ele? O que perguntaria a ele? O jeito era preparar-se para tudo.
As entrevista seriam feitas dentro dos estúdios onde foi realizado o filme. Os jornalistas foram levados a uma pequena excursão entre os cenários e foi explicada a técnica do cromaqui, onde os atores trabalhavam sobre um fundo azul. Na verdade, não seria uma coletiva. As entrevistas seriam em separado. Os entrevistados foram colocados em recantos diversos do estúdio e os jornalistas fariam um rodízio entre eles.
Logo que acabou a visita aos cenários, Lauren avistou Gerard, vestido com jeans e uma camiseta verde, que realçava seu magnífico corpo malhado. Ele transmitia força e sensualidade por todos os poros. Era impossível ficar impassível diante dele. Só conseguiu desviar os olhos dele quando notou que tinha sido reconhecida. Sentiu o seu olhar gelado penetrá-la como uma adaga muito afiada. Tinha que conseguir forças para encará-lo também friamente e agir como profissional que era.
Ele foi o seu último entrevistado. Permaneceu sentado a encará-la. Aquele olhar a intimidava e incomodava. Queria tanto ver novamente o olhar doce que a atingira na primeira vez que o vira...
- Bom dia, senhor Burns.
- Bom dia, senhorita O’Brien. Vejo que resolveu assumir sua posição no corpo-a-corpo e não ficar mais escondida atrás do seu teclado – disse, mostrando um sorrisinho de mofa.
- Bem, senhor Burns, não quero roubar muito do seu tempo, por isso gostaria de começar minhas perguntas.
- Fique a vontade. Pode perguntar.
Ele parecia estar se divertindo com o visível desconforto de Lauren, por mais que ela tentasse disfarçar.
Ela iniciou seu questionamento, com perguntas pertinentes e interessantes, que fez com que o clima entre eles ficasse menos tenso.
- Vejo que está tentando mudar o seu estilo. Que bom...
- Este é o meu estilo, sr. Burns. O outro é de acordo com o que meu editor exige. Infelizmente não posso fugir do que me é solicitado, tendo em vista que sou empregada.
- Só empregada? Me pareceu que vocês eram um pouco mais que isso naquela festa.
- As aparências podem enganar.
- Tenho certeza disso – falou com certa ponta de amargura na voz.
- Posso fazer minha última pergunta?
- Claro! À vontade...
- Como foi trabalhar por tanto tempo, em estúdio, com dezenas de homens seminus, e tanta testosterona no ar? Não se sentiu inibido? – perguntou, imaginando qual a intenção de Frederick quando sugeriu a pergunta.
- No início, é difícil sentir-se à vontade, vestido apenas com uma sunga de couro e uma espada na mão como únicas indumentárias, mas depois você se acostuma. O ambiente era muito agradável e um clima de grande camaradagem criou-se durante as filmagens.
Ela desligou seu gravador e fechou seu bloco de anotações.
- Já terminou? – perguntou ele, um pouco desapontado.
- Já. Está liberado.
- Podíamos almoçar juntos. O que acha? Precisamos conversar...
- Não creio que seja uma boa idéia. Tenho muito trabalho a fazer e imagino que você também tenha seus compromissos. Fica para outra vez – disse, mas pensou que, depois desta última coluna a seu respeito, ele não ia querer vê-la nunca mais.
Lauren levantou-se e estendeu sua mão para despedir-se dele. Ele pegou a mão entre as suas, num toque cheio de calor e, olhando-a intensamente, disse:
- Espero que nos vejamos em breve, Lauren...
- Acho difícil... Mas quem sabe? – tentava fitá-lo nos olhos, mas tinha medo de ceder àquela atração que ele provocava nela. Por isso, usou o truque de olhar para o seu nariz e evitar os atraentes olhos verdes.
Puxou a mão rapidamente do conforto em que estavam e virou-se para sair. Estabanadamente, tropeçou na cadeira onde ficara sentada e quase caiu não fosse a agilidade de Gerard em segurá-la. Ele a puxou contra si e perguntou, parecendo estar se divertindo com a atrapalhação dela:
- Você está bem? Não se machucou? - perguntou, sem parecer ter a intenção de soltá-la facilmente.
- Estou bem. Pode me soltar. Obrigada – neste momento, não teve como escapar daquele olhar. Por um instante achou que ele ia beijá-la. Ansiava por isto, reconheceu. Mas não podia permitir que isto acontecesse. Tinha certeza que se isto acontecesse, estaria perdida... Irremediavelmente.
Conseguiu afastá-lo e recompor-se. Notou que ele também ficara desconcertado com a situação e que também tentava controlar-se.
- Adeus, senhor Burns.
- Até mais, senhorita O’Brien...
Quando chegou a redação, Frederick estava a sua espera para convidá-la para almoçar.
- Sinto muito, Fred... Não estou com fome. Vou tentar começar a escrever minha coluna. Que eu saiba tenho que entregá-la até amanhã, no máximo, não?
- É tem razão. Não quero atrapalhar a sua criação... Correu tudo bem na entrevista?
- Sim... Tudo – respondeu com displicência, como se tivesse sido algo corriqueiro.
- Que bom – disse ele desconfiado da indiferença com que ela estava tratando o assunto.
Quando terminou de escrever seu artigo, foi até a sala de Frederick para que ele desse o seu aval, como sempre.
- Lauren, o que houve com você? Isto aqui está um lixo!
- Lixo?
- Onde está a malícia que é característica de nossas colunas?
- Infelizmente, não achei nada em que pudesse me basear para criticar Burns.
- Você está amolecendo, menina. Não viu a deixa que lhe dei através daquela pergunta? O que ele respondeu?
- Nada demais. Apenas que o clima durante as filmagens foi muito agradável e de grande camaradagem.
- Camaradagem, é? Acho que você ficou mais impressionada com Burns do que aparenta, Lauren. Isto está tirando o seu senso crítico e a malícia necessária para escrever sua coluna em nosso site – ele estava começando a ficar irritado com a atitude de Lauren. Não queria perder a sua colunista nem tampouco a perspectiva de poder tê-la em sua cama.
- Sinto muito, Fred, se não estou agradando. O que você está querendo é que eu escreva um lixo. Eu não consigo mais fazer isto.
- Quem sente muito sou eu, Lauren. Ainda há tempo de voltar atrás. Reescreva este texto e esquecemos o assunto.
- Não vou reescrever o artigo.
- Vou ser obrigado a demiti-la por esta insubordinação.
- Não há necessidade. Se você não reparou, eu entreguei um envelope junto com o artigo. É a minha carta de demissão.
- Como? – perguntou, quase tendo um acesso de fúria.
- Não consigo mais trabalhar desta maneira. A cada coluna que escrevo me sinto corromper, indo contra meus princípios morais. Tenho vergonha do que escrevo. Acho que tenho talento para escrever material mais digno.
- Quem disse que você tem talento? – perguntou perversamente, indignado com Lauren – Eu a escolhi por suas belas pernas e seu rostinho de anjo. Você não escreve mal, mas talento? Ora, docinho, ponha-se no seu lugar.
- Eu entendo que esteja chateado comigo, Fred, mas não precisa apelar.
- Não estou apelando. Estou dizendo a verdade.
- Adeus, Frederick. Espero que você encontre outro redator mais talentoso que eu. Obrigada por ter aguentado a minha falta de talento tanto tempo – dizendo isto, foi virando-se em direção a porta do gabinete, de cabeça baixa.
Numa atitude raivosa, Frederick pegou Lauren pelos ombros e a virou de frente para si, e com os olhos queimando, falou:
- Você não pensa que vai sair daqui sem ao menos me dar um beijo de despedida? – dizendo isso, com expressão irônica na face, tentou beijá-la a força.
Lauren começou a lutar com todas as suas forças para escapar daquela boca odiosa e das mãos que tentavam imobilizá-la. Começou a gritar, pedindo que ele a soltasse.
Quando pensou que não conseguiria mais evitar aquele contato asqueroso, a porta se abriu e a secretária dele surgiu, com cara de espanto.
- O que você quer aqui? Dê o fora! Quem a chamou? – Frederick tinha perdido totalmente o controle.
Aproveitando aquele instante, Lauren libertou-se de suas garras e fugiu. Correu até seu pequeno escritório e começou a juntar suas coisas, que não eram muitas. Queria sumir dali o mais rápido possível.
- Você está bem, Lauren? – perguntou Marian, a secretária de Frederick, que tinha muita simpatia por ela, desde o início.
- Estou sim. Obrigada, Marian. Se você não tivesse entrado naquela hora, não sei o que poderia ter acontecido. Você me salvou daquele monstro.
- O Frederick ás vezes passa dos limites. Acho que a única que escapa das cantadas dele sou eu. Acho que não faço o tipo dele – constatou com um sorrisinho amarelo.
- Sorte sua.
- Você vai embora? – perguntou ao constatar que Lauren estava esvaziando suas gavetas- Ele a demitiu?
- Não, Marian. Eu me demiti. Vou procurar um lugar para trabalhar onde eu possa ser eu mesma. Pensei que conseguiria, mas não deu.
- Que pena, Lauren. Sabe que eu gosto muito de você, não sabe?
- Sei sim, querida. Você tem o meu telefone. Liga para que a gente possa conversar um pouco, fora daqui. Eu devo voltar amanhã á tarde para ir ao setor de pessoal para os acertos da demissão.
Despediram-se.