quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Voltei!

Olá a todos!!! Depois de alguns dias afastadas do meu cantinho cor-de-rosa, voltei para dar uma animada e sacudir a imaginação das minhas leitoras e amigas. Primeiro gostaria de dizer que o meu afastamento nestes dias foi, como vocês devem saber , por um motivo importante. Fui participar do 1º Encontro Nacional do Fã-Clube de Gerard Butler. Devo dizer que foi uma das maiores emoções da minha vida. Foi indescritível a alegria que senti ao abraçar minhas amigas, até então virtuais.Poder estar tão próxima, conversar pessoalmente, sentir o carinho, a vibração, o calor, enfim, toda a energia positiva destas pessoas maravilhosas. Para quem quiser ter uma idéia de como foi este encontro inesquecível e ver a nossa alegria,pode visitar os blogs das especialistas neste assunto:
http://gbutlersandicesdaly.blogspot.com (Ly)
http://gbtbs.blogspot.com (Tânia)
http://gbirresistivel.blogspot.com (Rose)

Bem, deixando a saudade (ai...e que saudade...)de lado, vou começar a postar uma estória que escrevi no ano passado e que muitas das minhas amigas já devem ter lido. Como já perceberam, aos poucos estou reunindo meus contos (meus filhos) aqui no blog. Dessa forma, para quem já leu, pode reler se tiver gostado ou recomendar para outras pessoas. Para quem não leu, fique à vontade e divirta-se.
Beijos a todos!!



O AMOR EM CENA



Actor’s Studios de Nova York. Sonho de todo aspirante a ator. Ainda não conseguia acreditar que aquilo estava lhe acontecendo de verdade. Depois de tantos estágios em escolas dramáticas do Rio e São Paulo, realizados após o término de seu curso de Arte Dramática, conseguira aquela bolsa de estudos para aperfeiçoamento de sua arte. Enviara seu currículo e alguns vídeos de seus trabalhos mais recentes e, surpreendentemente recebera a notícia de que fora aprovada para uma das duas bolsas para alunos estrangeiros. O curso era muito conhecido e recomendado para quem almejava uma carreira vitoriosa no teatro ou no cinema. Grandes atores tinham passado por seu tablado, como Al Pacino, Ellen Burstyn, Dustin Hoffmann, Sidney Poitier, entre outros. Agora era a sua vez.
Daniela conseguira alugar um espaço num dos apartamentos, próximos à escola, próprios para estudantes. Apesar de pequeno, tinha quatro minúsculos quartos, resultado de uma divisão dos dois dormitórios originais. Era próximo à escola e ela dividiria com mais três colegas, que só conhecera após a sua chegada, dois dias antes. Gary Falk era um belo rapaz, com idade próxima aos 26 anos, alto, louro, lindos olhos azuis turquesa, vindo do interior do Texas. O seu jeito lembrava muito o de Brad Pitt no início de sua carreira, no filme “Thelma e Louise”, numa versão menos cafajeste, felizmente. Mas o seu modo de caminhar e o sotaque eram muito parecidos. Era uma pessoa agradável, simpática e simples. No início, Daniela ficara um pouco relutante ao saber que teria que dividir o mesmo espaço com um homem, mas depois de conhecê-lo, achou que não teria problemas. Afinal, seu coração já tinha dono, apesar dele não saber disso.
Eve Greenmore era inglesa, mas morava há muitos anos nos Estados Unidos. Viera ainda pequena para Washington com os pais, que eram diplomatas. Sempre sonhou em ser atriz e, finalmente conseguira uma vaga no Actor’s, como aluna pagante. Ela também já terminara um curso de artes dramáticas e tinha alguma experiência em teatro. Ela não era propriamente bonita, mas era muito elegante e sensual. Suas pernas eram de dar inveja. A terceira colega era a mais jovem dos quatro. Chamava-se Lourdes Garcia e era porto-riquenha, naturalizada nos EUA, pois o pai era americano. Seu sonho era ser uma nova Jenifer Lopez. Apesar de ter 22 anos, frequentava, desde os 13 anos, cursos de teatro infantil e escolas de canto e teatro. Seu teste tinha sido tão bom que ganhara uma bolsa da escola. Segundo ela, quando adolescente, sempre fora muito magricela. Assim que foi possível, fez todas as dietas e preenchimentos cirúrgicos possíveis para poder chegar próxima à imagem cheia de curvas de J.LO com que tanto sonhava. Era surpreendente que algum cirurgião pudesse ter tido a coragem de fazer este tipo de procedimento em alguém tão jovem como Lourdes. Apesar de tudo, ela também era muito comunicativa e de uma energia contagiante. Entre todos, Daniela era a mais tímida do quarteto. Com seus 28 anos – ela se achava um pouco velha para ainda estar na escola -, ela não nascera querendo ser atriz como os outros. Esta paixão florescera juntamente com uma outra. Há alguns anos começara a acompanhar a carreira de um ator. Ao conhecer sua história de vida e o amor pela profissão percebeu que este também era o seu desejo. Ansiava pelo dia em que poderia conhecê-lo pessoalmente. Tentava não pensar muito nisso para não se decepcionar. Sabia que isto era quase impossível, visto a trajetória de sucesso crescente dele, tornando o seu acesso cada vez mais difícil. O que importava era que descobrira a vocação de sua vida, de forma inesperada, mas a tempo de torná-la possível. Sua família tinha sido contra desde o início. Achavam que Dani, como a chamavam desde pequena, tinha enlouquecido, largando um importante curso de Medicina para dedicar-se a uma carreira, no mínimo, incerta e, no máximo, sem futuro, como eles mesmos classificaram. A única pessoa que ficara ao seu lado, dando cobertura ao seu sonho, foi sua avó. Descobriu que este também tinha sido um sonho dela quando jovem. Mostrou seu álbum guardado por muitos anos, escondido em um velho baú, recheado com fotos antigas de lindas atrizes e famosos atores da década de 50-60. Dani se deu conta de que não se deixaria subjugar pela mediocridade e pelo medo em arriscar. Ia lutar por seus sonhos. Não os guardaria dentro de um baú sob sua cama. Tudo levava a crer que este seu investimento começava a render lucros. Claro que fora a avó a sua grande financiadora, pagando seus cursos e viagens, já que seus pais negaram-se a ajudá-la naquela aparente loucura. Ainda tinham esperança que ela voltasse atrás e readquirisse a razão perdida.
As aulas começariam no dia seguinte. Era final de inverno em Nova York. Já havia se inscrito em um curso de inglês para perder seu sotaque. Não pretendia voltar ao Brasil tão cedo.
Os quatro locatários acordaram cedo naquela segunda feira, tomaram seu café e saíram para o início das atividades, cada qual com seus sonhos e expectativas. Logo ao chegarem, foram recepcionados por estudantes mais antigos. Felizmente não houve trote em nenhum momento. Apenas deram as informações necessárias para que eles se localizassem dentro da escola, fornecendo boletins informativos sobre as aulas, atividades extracurriculares e espetáculos que seriam apresentados, naquela temporada, na cidade.
A escola estava localizada no centro de Manhattan, num lindo prédio antigo, provavelmente da década de 40, reformado, com a fachada toda em tijolinhos vermelhos, tendo prédios de três andares que cercavam a entrada principal, onde ficava uma escadaria que levava ao interior da escola. Ela tinha sido fundada em 1947, por Elia Kazan. No térreo tinha dois pequenos teatros para uso dos professores, alunos e, eventualmente, para apresentação de peças ao grande público. Logo no saguão principal, as paredes eram cobertas pelas fotos de antigos fundadores e diretores, bem como de alunos ilustres que por ali haviam passado.
Foram encaminhados para um dos auditórios, onde o mestre de cerimônias não eram ninguém mais do que Martin Scorcese, que fez um primoroso discurso, que deixou a todos profundamente emocionados.
O ano começara. Além das aulas teóricas, muitas práticas. Nestas, podia-se perceber a presença de olheiros que buscavam novos talentos. Lourdes queixava-se que estes estavam demorando muito a procurá-la. Os amigos a consolavam dizendo que ela estava no início do seu curso, mas que certamente teria a sua chance de ser descoberta quando chegasse a hora certa.
Logo no saguão principal, as paredes eram cobertas pelas fotos de antigos fundadores e diretores, bem como de alunos ilustres que por ali haviam passado.
Foram encaminhados para um dos auditórios, onde o mestre de cerimônias não eram ninguém mais do que Martin Scorcese, que fez um primoroso discurso, que deixou a todos profundamente emocionados.

Aquele primeiro semestre passou rapidamente. Logo chegou a semana de férias de verão. Dani optou por ficar na Big Aple. Com frequência ligava para sua avó para dar notícias de como estava se saindo. Seus três companheiros resolveram ir matar as saudades dos familiares, deixando-a sozinha no apartamento. Até ali eles estavam se dando muito bem. Conseguiram organizar-se de tal maneira que estavam mantendo o apartamento limpo e a divisão de tarefas funcionando perfeitamente, surpreendentemente. Eve era a mentora nestas questões. Ela organizara uma espécie de tabela, de acordo com as habilidades de cada um, com horários e funções definidas.
Dani aproveitou para conhecer um pouco mais de Nova York naquela semana. Certo final de manhã, já no seu penúltimo dia de férias, teve uma atordoante visão. Estava passeando por um dos nobres bairros residenciais, distraída, quando quase perde o fôlego ao ver alguém muito conhecido seu, andando de bicicleta, displicentemente, como um qualquer. Era ele! No mesmo instante, Dani ficou paralisada onde estava, a olhá-lo, sem nem ao menos notar que havia parado no meio da rua. Seus olhares se cruzaram no momento em que ela ouviu o som de uma freada brusca muito próximo a ela. O sinal abrira e por pouco não era atropelada por um motorista mais apressado. Ela, porém, só conseguia ver os movimentos dele, largando a bicicleta e avançando rapidamente em sua direção. O motorista do carro colocou a cabeça para fora da janela e começou a disparar os piores desaforos, mas calou-se ao receber o olhar zangado do homem alto e forte, vestido com uma bermuda de algodão bege e uma camisa azul clara, que correra para auxiliar a jovem à sua frente. Ela mais parecia uma viciada em vias de entrar em coma pois não conseguia mover-se do lugar em que estava.
- Ei, você está se sentindo bem? – perguntou ele, já a segurando pelo braço e forçando-a a sair do meio da rua, levando-a em direção a calçada – Está me ouvindo?
Claro que ela podia ouvi-lo, mas estava em tal estado de choque, pelo encontro imprevisto, que não conseguia falar.
Demorou alguns segundos para recuperar a voz e responder ao seu interlocutor, que a olhava intensamente, com olhos verdes preocupados.
- Eu estou bem... Não se preocupe. Foi apenas uma tontura passageira. Acho que foi o calor. Estou andando a manhã toda e não tomei nem um gole d’água todo este tempo. Está muito calor aqui... – ela tinha medo de encará-lo e deixá-lo perceber que ele a deixava perturbada e que este fora o verdadeiro motivo de sua “ausência” súbita.
- Venha comigo. Tem um mercado logo ali. Vou comprar uma água para você hidratar-se um pouco.
Ele a levou delicadamente até a porta do dito mercado, depois de pegar sua bicicleta que ainda o aguardava caída ao chão. Deixou ambas, Dani e bicicleta, paradas do lado de fora.
- Espere por mim bem aqui. Se você não melhorar, a levo a um hospital.
Ela não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Sonhara tanto em conhecê-lo. Imaginara as mais diversas maneiras, todas cercadas por muito romantismo. Agora acabara de acontecer da maneira mais infame possível. Ele certamente estava pensando que ela era uma pobre perturbada mental, sem eira nem beira, perdida por aí. Estava morrendo de vergonha.
Antes que ela pudesse responder que não precisava de ajuda, ele desapareceu no interior do mini-mercado.
Possuída por uma tremenda crise de acanhamento inexplicável, saiu correndo dali. Só conseguiu parar de correr cerca de quatro quadras depois, quando sentiu que ele não a estava seguindo. Censurou-se a si mesma, chamando-se de idiota e outros xingamentos mais severos por estar agindo daquela maneira. Porque ela simplesmente não tinha agradecido e se apresentado a ele? Seria tão mais fácil. Não entendia este seu tipo de bloqueio. No palco não apresentava nem sinal de timidez para atuar. No entanto, na sua vida pessoal, isto era uma trava constante. Não era à toa que tinha tanta dificuldade para iniciar relacionamentos.

Gerard saiu do mercado, alguns poucos minutos depois, segurando uma garrafa de água e uma lata de Coca, e surpreendeu-se ao ver que apenas sua bike estava lhe aguardando. Ficou intrigado com esta fuga inesperada. Era uma jovem bem interessante, mas talvez fosse um pouco “confusa”. Será que ela ficara com medo dele? Por que teria fugido daquela maneira? Talvez a palavra hospital a tenha amedrontado... Resolveu não pensar mais naquilo. Tomou seu refrigerante, descansando sobre sua bicicleta, encostada em um muro. Depois seguiu para seu apartamento, que ficava ali perto, pois teria um compromisso logo mais, à tarde.

Reiniciaram-se as aulas e, já na primeira semana, sua turma foi avisada de que teriam aulas práticas com a presença de atores famosos, convidados para contar suas histórias pessoais e dar algumas dicas sobre a profissão. A primeira atitude de Dani foi correr os olhos através da lista de nomes que haviam sido convocados para as audições, na esperança de encontrar o nome de seu “amigo”. Infelizmente ele não estava lá. Talvez fosse melhor assim, depois do fiasco do seu primeiro encontro.
Colin Farrel havia sido convidado para a audição daquela quarta-feira. Havia uma excitação entre as mulheres da escola.
- E então, Dani. Será que ele é tão bonito como parece nas fotos?
- Olha, Eve...Sinceramente, ele não faz meu tipo. Portanto não estou muito preocupada com estes detalhes. Admiro muito o trabalho dele, mas confesso que achei um horror a sua performance em “Alexandre”. Ele deveria escolher melhor os seus papéis.
- É, neste ponto você tem razão, mas que ele é um gato, isso não tem como negar.
Eve resolveu não comentar mais nada depois de receber o olhar de tédio de Dani.
Saíram cedo de casa, antes de Lourdes e Gary. Elas desconfiavam que os dois estavam começando a ter um affair e que haviam dormido juntos naquela noite. Não quiseram ser intrometidas, chamando-os para ir à escola muito antes do horário.
Ao chegarem lá, Dani foi pegar uma garrafa de água, pois não tomara café da manhã e estava com muita sede. O calor prometia ser intenso aquele dia. Sabia que o ar do teatro, onde seria a audição, estava quebrado. Assim, resolveu prevenir-se quanto à sede. Quando entrou no auditório, a maioria dos seus colegas já estavam presentes e o convidado já se encontrava sentado junto ao seu professor, conversando animadamente.
Estremeceu ao perceber que o convidado não era Colin Farrel, como programado, mas sim o mesmo homem que deixara sua bicicleta de lado para ajudá-la antes do final de suas férias. Gerard Butler. Pensou em voltar atrás e sair pela mesma porta por onde entrara. Porém, a voz de seu professor soou alto, fazendo-a voltar a realidade.
- Senhorita Daniela, que ótimo que chegou. Gostaria que sentasse nesta primeira fileira de cadeiras, onde eu possa vê-la.
Dani estranhou aquela ordem. Steve costumava tratá-la muito bem e sabia que ele a admirava pelo seu desempenho nas aulas práticas. Não entendia o porquê de querer vê-la tão próxima ao palco. Acabou por ser obrigada a obedecê-lo para não chamar tanto a atenção. Rezava para que Gerard não a reconhecesse. Este receio concretizou-se no momento em que viu um leve sorriso brotando de seus lábios, enquanto ele a analisava por inteiro. Sentiu um calor subindo até seu rosto. Devia estar parecendo ridiculamente tímida. E estava mesmo, o que era pior. Continuou descendo pela lateral das cadeiras, até chegar a primeira fileira e sentar-se na ponta próxima à parede do teatro, que era o lugar mais longe de seu curioso observador.
Steve começou a fazer uma espécie de entrevista com Gerard, que a tudo respondia simpaticamente. Dani parecia conhecer cada uma das respostas, tanto ela havia devorado todas as informações sobre aquele homem. Conhecia detalhes da vida dele, que muitos nunca tinham ouvido falar. O susto começou a ser substituído pela admiração. Ele correspondia a todas suas expectativas. De vez em quando ele lhe lançava um olhar de esguelha, o que a deixava encabulada.
As perguntas da platéia começaram a ser lançadas. A curiosidade era grande sobre como ele vinha conseguindo um sucesso cada vez maior e de como encarava este crescente reconhecimento. O clima entre os presentes era de descontração. Gerard tinha esta capacidade de tornar tudo mais agradável... Muito mais.
Quando as perguntas acabaram, Steve perguntou se ele poderia assistir a uma pequena apresentação e dar sua opinião sobre os atores participantes.
- Claro! Vai ser um prazer.
- Dani e Roger. Por favor! Venham até aqui e representem aquela cena de “A Megera Domada” que vocês apresentaram no final do último semestre. Ainda lembram, não? Podem improvisar. Ficará ainda melhor.
Quando ele fez este pedido, tanto Dani quanto Roger olharam-se atônitos, imaginando como fariam.
- Venham! Tenho certeza de que se sairão muito bem – animou-os Steve, fazendo gestos para que eles subissem ao palco – Vamos descer, Gerry? Eles vão precisar de espaço.
Dani notou o sorriso e o olhar de Gerard. Ela temia que sua timidez diante dele prejudicasse sua apresentação. O pedido de Steve era uma surpresa. Por que ele estava fazendo aquilo? Ainda estava ruborizada ao subir no palco e cruzar com Steve e seu convidado especial. Tinha que tentar esquecer a sua presença e concentrar-se nas falas de seu colega. Roger era um homem robusto, mas elegante, de traços másculos e um lindo sorriso, além de bom ator. Tinha muitas “admiradoras” e era muito apropriado para o papel de Petrucchio. Representariam o final da cena 1 do segundo ato, onde Catarina e Petrucchio trocavam farpas ao se conhecerem. Ambos agradeceram intimamente por terem ensaiado tantas vezes aquela apresentação, o que lhes valeu uma nota alta no final do semestre, que não teriam dificuldade em lembrar todas as falas e marcações.
A apresentação teve início alguns minutos depois de Dani e Roger trocarem alguns detalhes entre si. Era uma cena bastante engraçada e instigante, que arrancou aplausos de todos quando chegou ao fim. Gerard parecia entusiasmado, pois aplaudiu calorosamente.
- E, então, Gerry? O que achou de nossos alunos? – perguntou Steve, todo orgulhoso.
- Acho que virei tomar umas aulas aqui com vocês... – disse com olhar maroto – Vocês estavam excelentes. Parabéns! – desta vez seu olhar passou por Roger e fixou-se em Dani.
Ela, por sua vez, suspirava aliviada por ter conseguido, mais uma vez, desempenhado bem o seu papel, sem deixar que a presença de Gerard a intimidasse.
Feitos mais alguns comentários e elogios à dupla, Steve encerrou a manhã, agradecendo a Gerard por sua vinda de última hora, no lugar de Collin, e que, certamente, aquele seria o primeiro de vários outros convites para retornar àquela escola.
Quando Dani se preparava para sair junto com seus colegas, Steve a chamou mais uma vez.
- Daniela! Por favor, aguarde um pouco. Queremos lhe falar em particular – ordenou, em voz baixa. Ela voltou a sentar-se, enquanto aguardavam que a platéia se esvaziasse. Ficou apreensiva, curiosa por saber qual o assunto e a utilização do plural na última frase de Steve. Observou-os descendo a pequena escada que descia ao palco, evitando o olhar de Gerard, que podia sentir queimando-lhe a pele e atiçando todos os seus sentidos.
- Dani, o Gerry está procurando novos talentos para colocar no novo filme que a sua produtora vai realizar em breve. Por isso pedi que você fizesse esta apresentação, pois a considero uma de minhas melhores alunas.
- Muito obrigada, Steve. Não sei se mereço tanto – respondeu Daniela, sentindo o calor subir ao rosto – E acredito que tenho colegas mais talentosos que eu para participar deste projeto do sr. Butler.
- Aproveitei minha vinda até aqui exatamente para isso. E creio que Steve está mais do que capacitado para escolher a pessoa mais talentosa para encarnar a personagem de nosso filme – interferiu imediatamente Gerry – Agora, eu gostaria de conversar um pouco com a senhorita, para que pudéssemos nos conhecer melhor.
- Daniela, acho que esta é uma oportunidade de iniciar uma carreira, aqui no nosso país, que você não pode desperdiçar – aconselhou Steve – Vou deixá-los para que possam se entender.
Assim que seu orientador saiu, ouviu a voz rouca de Gerry dizendo-lhe:
- Você já tem compromisso para a hora do almoço ou vai sair correndo de novo?
- Então é isso? Você só quer indagar a respeito do meu comportamento naquele dia? – falou indignada, com a voz tremula.
- Não! É claro que não. Tudo que Steve falou é correto. Eu não sabia que ia reencontrá-la hoje.
- Desculpe... Claro que não sabia... Me perdoe. É que você me deixa nervosa – falou e ao mesmo tempo arrependeu-se por ter dado esta deixa para ele.
- Eu a deixo nervosa? Por quê? – ele parecia surpreso com sua afirmação.
Como ele notasse que ela estava em vias de paralisar novamente, reagiu dizendo:
- Olhe, que tal se a gente fosse almoçar e conversasse um pouco? – perguntou em tom simpático, mostrando aquele sorriso que sempre a deixava inebriada ao ver as fotos dele.
Convencida pelo olhar terno e pela visão daquela boca sorridente, dirigindo-se a ela, resolveu aceitar o convite. “Eu serei uma completa idiota se não aceitar um pedido destes”, pensou, sentindo que os movimentos voltavam ao seu corpo.
- Está bem. Talvez a gente precise conversar mesmo. Você deve estar achando que sou louca ou débil mental.
- Não, eu não estou pensando nada disso... – disse ele, olhando-a docemente.
Imediatamente, ofereceu-lhe o braço, o qual ela aceitou com um sorriso tímido. Saíram do prédio sob os olhares de alguns alunos curiosos.
- Você tem alguma preferência? – perguntou Gerry.
- Preferência? – questionou-o sem saber ao certo a que ele se referia.
- Quanto ao almoço...Você gosta de comida natural?
- Ah! Claro! Adoro. Conheço um restaurante bem simpático aqui perto. Isto é, se você não se importar com um ambiente simples.
- Você me julga como algum esnobe? Já passei muito trabalho para chegar onde cheguei e não deixo de lembrar disso a cada minuto. É o que me impulsiona para meus objetivos.
- Desculpe... Não quis ofendê-lo...
- Vamos lá! Estou morrendo de fome – cortou-a em suas explicações, fazendo uma cara de esfomeado que conseguiu arrancar uma risada dela.
Enquanto aguardavam seus pedidos, já sentados numa das mesas colocadas na rua, sob um agradável guarda-sol verde limão, Gerry retomou a conversa.
- Bem, vamos aos negócios... Como o Steve falou, estou procurando novos talentos para colocar nos filmes de nossa produtora, em papéis menores, é claro, mas que dêem chance a estes novos atores de mostrarem sua capacidade de atuar. Sei como isto é importante no início da carreira. Gostei muito quando surgiu o convite para participar do debate de hoje. Confesso que a idéia de assistir a uma pequena encenação, com alunos escolhidos por Steve, foi minha. Ele prontamente aceitou meu pedido, como uma forma de desculpar-se por ter feito este convite de última hora para tapar o furo do Collin. Mas acredito que também tenha gostado de poder dar uma chance a você e ao Roger. Acho que ele também terá uma oportunidade de atuar em nossos filmes.
- E porque você só está falando comigo? Ele poderia ter vindo almoçar conosco – falou, desconfiada.
- É porque estou tentando conquistá-la... - falou com voz melosa e sensual. Ficou fitando-a por um longo tempo, vendo a face de Dani corar-se de todos os tons de vermelho, até que explodiu numa gargalhada, para espanto dela – Daniela, acho que não tem sentido conversar com vocês dois juntos. Já pedi para o Steve marcar um encontro meu com Roger. Além disso, queria entender o nosso encontro do outro dia.
- Por um momento, pensei que...
- Não se preocupe. Não me passou pela cabeça esta possibilidade – disse ele mentirosamente.
“Que pena...”, pensou Dani.
- Ainda bem...Fico mais tranqüila – disfarçou.
- Então, continuando nossa conversa profissional, quero saber quando você pode ir a Los Angeles fazer os teste de câmera e atuação para o nosso diretor?
- Já ?
- Claro! Você pensou que eu estava brincando? Isto é sério. Não temos muito tempo. O filme para o qual estou te convidando deve começar a ser filmado em dois ou três meses. Tivemos uns problemas com troca de diretor e alguns atores principais, mas agora já está tudo resolvido.
- Acho que posso pedir um afastamento temporário do curso para poder fazer os testes. Para quando seria?
- Estava pensando em levá-la para Los Angeles neste final de semana. O que acha?
Daniela sentiu o chão faltar sob seus pés, mas tentou disfarçar da melhor maneira possível.
- Neste fim de semana? Com você?
- Sim. Porque não? Você não teria despesa alguma. Nem de transporte nem de hospedagem.
Ela ficou pensativa por alguns instantes, até que conseguiu articular-se.
- Se é assim, eu aceito. Não tenho muito que pensar, não? Se eu recusar, é capaz de Steve me tirar do curso e me internar numa clínica psiquiátrica – disse sorrindo, sem conseguir encará-lo nos olhos.
- Ótimo! Agora você vai me contar o que aconteceu naquele nosso primeiro encontro – falou ele mais seriamente, fitando-a intensamente com olhos interessados, que pareciam ainda mais verdes sob o reflexo do guarda-sol.
- Não houve nada, como eu disse antes. Eu me senti mal, pois não tinha tomado café naquela manhã e nem tomado líquido algum. Me senti tonta e acabei parando no meio da rua. Foi quando você apareceu.
- E por que a fuga depois?
- Acho que fiquei envergonhada. Eu o reconheci e...Bateu uma crise de timidez . Logo depois me arrependi, mas já era tarde demais para voltar atrás.
Ele pareceu conformado com sua resposta, pois deu um meio sorriso e chamou o atendente do restaurante para pedir mais uma Coca.
- E agora? Já perdeu a vergonha ou o medo? – falou arqueando a sobrancelha esquerda e dando uma leve entortadinha no canto esquerdo do lábio, o que o deixou muito sexy.
- Quase... - respondeu, conseguindo olhá-lo nos olhos, sem corar, sorrindo timidamente.
Neste momento, uma voz masculina gritou seu nome:
- Dani!
Gerry e ela viraram-se para ver quem era, apesar de Dani já ter reconhecido aquele sotaque texano.
Gary praticamente jogou-se sobre ela, dando-lhe um beijo na boca completamente inesperado, que deixou-a sem reação.
- Que bom que te encontrei! Precisamos conversar. Ah, desculpe! Não queria atrapalhar a sua conversa. É o senhor Butler, não?
- Sim. E você, quem é?
- Eu moro com a Dani. Foi um prazer conhecê-lo. Querida, a gente se encontra à noite em casa para conversar.
Dando-lhe outro beijo, agora no rosto, saiu tão rápido como havia chegado.
Gerry a olhou como se esperasse uma explicação da parte dela.
- É seu namorado?
- Não... Nós moramos no mesmo apartamento...Não sei o que deu nele... - disse ainda atordoada, olhando, a procura de algum rastro de Gary. Ela não tinha entendido nada. Sabia que ele era carinhoso com suas companheiras de apartamento, mas nunca fora tão “intenso”.
- Ah! Vocês moram juntos... Que legal... – disse Gerry, parecendo um pouco desanimado.
Dani só pensava em esganar Gary quando chegasse em casa, mas por outro lado gostou do olhar surpreso de Gerard após o beijo inusitado. Resolveu não dar mais explicações e também não foi mais questionada por conta deste fato.
Conversaram sobre mais alguns temas superficiais enquanto terminavam o almoço,
- Me deixe o seu telefone para que eu possa entrar em contato sobre a nossa viagem. Devemos partir no sábado à noite. Tudo bem?
- Tudo bem – ela queria beliscar-se enquanto ele falava.
- Vou lhe deixar o número de meu celular para o caso de você ter algum imprevisto.
Após a troca de telefones, Gerry olhou para seu relógio e fez cara de quem tinha um compromisso logo mais.
- Bem preciso ir. Quer que eu a acompanhe até o “Actor’s”?
- Não, claro que não... Imagina. Fico esperando o seu telefonema.
Despediram-se com um abraço e um beijinho no rosto diante do restaurante.


Até amanhã!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A APOSTA - Parte Final

Gerry chegou na recepção do hotel alquebrado.
- Minha chave, por favor.
- Senhor Butler, tem um recado para o senhor – falou o recepcionista.
- Um recado? – animando-se, por pensar que era de Sam.
- Está aqui – disse, entregando-lhe um papel dobrado.
Era uma mensagem de Farrell. Pedia que o encontrasse no seu apartamento logo que voltasse de Denver.
Alegre, agradeceu ao recepcionista e correu aos elevadores, dirigindo-se ao quinto andar onde ficava a suíte do produtor.
Ao abrir a porta, Farrell apresentava-se de cenho franzido.
- Entre – ordenou secamente.
- O que houve? Alguma coisa com Sam – perguntou preocupado, enquanto via o amigo fechar a porta.
Antes de ouvir qualquer resposta, foi surpreendido por um soco em seu queixo, que o deixou tonto. Mais pela surpresa do que pela dor que sentiu.
- Farrell!
- Cale-se! Seu biltre! Como pode fazer isto com a Samantha? Eu lhe avisei que se afastasse dela. Como pode nos enganar desta maneira? – Farrell estava possesso, aos gritos.
- Eu não sei do que está falando! – Gerry estava perplexo e confuso.
- Fazer uma aposta de que a conquistaria para ganhar um jantar? – disparou Farrell com olhar de ódio.
- O quê? – Gerry não podia acreditar que aquela “bobagem” pudesse ter chegado aos ouvidos de Farrell e que isto pudesse ter sido a causa da fuga de Samantha – Quem lhe contou sobre isso?
- Então você confirma! E eu pensando que você era um bom caráter.
- Farrell, me ouça! Esta brincadeira aconteceu antes de eu me apaixonar pela Sam. Foi uma asneira que surgiu depois de uma discussão que tive com ela. Mas logo depois já nem me lembrava do que tinha sido dito. Um dia destes, Steve, que estava envolvido, me procurou lembrando a tal aposta e eu lhe disse que estava fora, que tinha sido um engano e que eu nunca deveria ter me envolvido neste tipo de criancice... Você acha que a Sam ficou sabendo disso e por isso foi embora?
- É óbvio que foi isto – disse Farrell tentando controlar-se – Lee, um dos iluminadores, me procurou assim que soube que Samantha voltara para Los Angeles e contou o que acontecera.
Farrell sentou-se no sofá de sua ante-sala e continuou:
- Uma tal de Lindsay, a equipe de maquiagem, estava falando sobre esta maldita aposta para outra pessoa e Sam ouviu. Imagino a decepção dela e o que deve estar se passando em sua cabeça.
Então foi a vez de Gerry sentar-se na cadeira defronte ao sofá. Ele estava desolado, lembrando de tudo que Samantha lhe revelara e o que deveria estar pensando dele agora, confirmando mais uma tragédia amorosa em sua vida. Precisava esclarecer tudo isto o quanto antes.
- Farrell, eu juro que não imaginei que uma simples brincadeira durante um almoço, provocada por uma discussão idiota com a Samantha, pudesse provocar toda esta reação. Eu preciso falar com ela e dizer que tudo não passou de uma infeliz idéia momentânea e que eu me arrependi disso muito antes de ficarmos juntos. Você precisa me ajudar, Farrell. Se quiser me dar mais alguns socos, esteja à vontade. Não vou reagir. Mas, por favor, me ajude a recuperar a confiança de Sam. Não quero perdê-la. Tem de acreditar em mim.
Contou com detalhes o que acontecera naquele almoço há quase duas semanas e o encontro com Steve já em Breckenridge.
Farrell o ouvia, sem mover um músculo da face, mantendo-se sentado, na mesma posição inicial. Após alguns minutos de ponderação, Farrell finalmente verbalizou seu julgamento.
- Apesar de tudo, ouvindo-o falar assim, acredito que esteja falando a verdade. Desculpe-me pelo soco. Eu fiquei furioso com você ao pensar no que Sam deve estar enfrentando depois de ter ouvido o que ouviu. E você sabe da grande afeição que tenho por ela. Acho que já interferi demais nesta relação de vocês. Agora vai ficar por sua conta reconquistá-la. Ela lhe contou o seu passado e as decepções por que passou. Você vai ter muito trabalho para recuperar a confiança dela...
- Eu entendo... – assentiu Gerry e levantou-se da cadeira cabisbaixo – Tenho mais um dia de filmagens aqui. Assim que concluir, parto para Los Angeles para falar com ela. Até mais, Farrell.
Gerry sabia que o amigo se decepcionara com sua atitude estúpida. Porém, o que mais o preocupava no momento era o que Sam estaria pensando dele, envenenando-se e sofrendo, imaginando-se mais uma vez traída.
Com grande esforço, Gerry conseguiu finalizar a filmagem de suas cenas em Breckenridge. Despediu-se da equipe tão logo foi liberado por Andrew e partiu ao encontro de Samantha.

Continuava tentando contato pelo telefone. Descobriu o seu endereço, mas apesar de seus esforços, ela não o atendia. Até que resolveu esperar que ela saísse de seu “esconderijo” para interpelá-la. No segundo dia de tentativa, avistou-a saindo à pé de seu prédio. Estava abatida, sem maquiagem, vestida com um abrigo desportivo preto e tênis. Mesmo assim lhe pareceu linda como sempre. Sentiu o coração doer por vê-la deprimida daquele jeito e pior ainda por saber que ele era a razão disso.
- Samantha! – chamou-a, após segui-la por uma quadra inteira, quando quase podia tocá-la.
Ela pareceu titubear por instantes, mas apertou o passo e não parou.
- Sam, por favor, espere!
Ela quase estava correndo, quando ele a alcançou e, segurando-a pelo braço, forçou-a a parar.
- Me largue – ouviu-a ordenar ríspida, sem conseguir encará-lo.
- Sam, por favor, fale comigo. Nós precisamos esclarecer as coisas entre nós. Vamos para um lugar mais tranqüilo e conversar.
- Não tenho nada para conversar com você – afirmou desafiadora, agora o olhando de frente – Você me traiu da pior maneira possível e mais rápido do que todos os outros. Pelo menos, dessa vez, levei apenas poucos dias para descobrir que tinha sido enganada.
- Não, Sam. Preciso lhe explicar o que aconteceu de verdade. Por favor, acredite em mim. Vamos sair daqui do meio da rua e conversar direito.
- Não! Me solte! – exclamou, desvencilhando-se das mãos de Gerry.
No momento em que atravessava a avenida, ouviu a voz de Gerry gritando:
- Sam, eu te amo!
Ao ouvi-lo, vacilou em continuar. No minuto em foi virar-se para olhá-lo, o sinal abriu e um carro, que vinha em média velocidade, com o motorista a segurar distraidamente um celular, não conseguiu ser freado a tempo de evitar a colisão com Samantha, pegando-a de raspão, mas com impacto suficiente para arremessá-la contra a calçada, onde bateu com a cabeça.

Joseph Farrell encontrou um Gerry destruído, sentado numa das poltronas da sala de espera da sala de emergência do California Hospital, com uma expressão de desespero no rosto, de olhos vermelhos e inchados, perdido em algum lugar de sua mente, onde se desenrolava seu mais terrível pesadelo.
Quando o viu naquele estado, desistiu de despejar a sua ira sobre o ator. Podia sentir que a culpa e a dor já cumpriam devastação suficiente. Armou-se de coragem e aproximou-se.
- Gerry, o que houve? – perguntou temeroso da resposta que receberia.
Surpreendido, Gerry voltou ao mundo real e levantou-se para cumprimentar Farrell.
- Ela está fazendo exames. Sofreu uma concussão cerebral, segundo o médico que a está atendendo, e algumas contusões. Pediram que eu aguardasse o resultado da ressonância magnética para dar melhores informações.
Sua voz estava fraca, alquebrada, como se estivesse definhando.
- Tem risco de vida?
- Ele não opinar nada antes do resultado do exame.
- Está bem... Sente-se e me conte o que houve.
Gerry descreveu tudo o que acontecera desde a sua chegada à L.A., como conseguira encontrar Sam e o momento do acidente. Ao final, as palavras já não conseguiam mais fluir e calou-se, tentando conter o choro.
Neste instante, o médico surgiu por detrás da porta da Emergência.
- Senhor Butler...
- Como ela está? – perguntou nervoso.
- Ela vai ficar bem. A ressonância não mostrou nenhuma lesão, a não ser o edema que já está sendo combatido. Ela será transferida para unidade de tratamento intensivo para ficar mais 48 horas em observação. Acredito que depois poderá ter alta.
- Tem certeza disso? – animou-se.
- Sim. Podem ficar tranqüilos. Agora, com licença, que devo retornar ao trabalho.
- Obrigado, doutor. Muito obrigado!
Aliviado pela boa notícia, abraçou-se à Farrell.
- Você gosta mesmo dela, não?
- Você ainda tem dúvidas quanto a isso?
- Acho que não, mas não sei quanto a ela.
- Eu não vou desistir fácil. Sei que ela vai acabar por me ouvir e entender o que aconteceu.
- Também espero que sim, pois ela não está querendo nem falar comigo. Tem recusado todas minhas ligações. Portanto é bom mesmo que você consiga convencê-la.

Em vista da melhora clínica de Samantha, ela foi transferida para um quarto privativo no início da noite.
Estava de olhos fechados, parecendo dormir, quando Farrell entrou silenciosamente. Ficou a velar seu sono por alguns minutos, quando a viu abrir os olhos.
- Espero que não esteja mais com raiva de mim – falou ele, carinhosamente, afagando-lhe a cabeça com cuidado – Você sabe que temos uma nova produção pela frente e não posso perder o meu braço direito.
- Joseph – murmurou com certa dificuldade – Eu não estou com raiva de você.
- Não vamos falar disso agora... Está sentindo alguma coisa?– perguntou enquanto segurava sua mão.
- Nada... É muito bom ter você aqui. Eu não quis falar antes porque não estava me sentindo bem o suficiente para isso – disse, pressionando de leve a mão de Farrell.
- Sam, eu fiquei muito preocupado com você.
- Eu vou ficar bem... E... o Gerry?
- Foi ele quem a trouxe para cá. Está aí fora, louco para lhe ver e sem coragem de entrar por medo de prejudicar a sua recuperação... Eu não devia dizer nada, mas acredito que ele gosta de você de verdade. Sofreu como um cão danado ao imaginar que poderia perdê-la... E o que quer que você tenha ouvido em Breckenridge, foi fruto de uma língua venenosa que queria que vocês brigassem. Pronto. Falei.
- Deixe-o entrar.
- Tem certeza disso? Você ainda está sob observação.
- Chame- o, por favor, e saia.
- Como você queira. Vou estar logo ali na porta para qualquer eventualidade.
Ela sorriu meigamente e o deixou ir.
Logo em seguida, entrou Gerry, atento a expressão do rosto de Sam, temeroso de sua reação ao vê-lo. Aproximou-se do leito e deu um meio sorriso.
- Você me deu um susto e tanto.
- Mas não deve ter sido nada comparável com o que eu passei.
- Sam... Quando eu tiver a chance de contar como tudo aconteceu, tenho certeza que vai me perdoar...
- Depois... Agora eu só quero que você me diga uma coisa...
- O quê? – perguntou curioso.
- Não lembro nada do acidente. Só uma coisa insiste em voltar a minha memória desde que recuperei a consciência e preciso saber se é verdade ou se foi alguma ilusão por causa da batida na cabeça.
- Do que você está falando?
- Qual foi a última coisa que você me disse antes de eu atravessar aquela rua?
Surpreso com a pergunta, sorriu ao lembrar.
- Se eu não tivesse dito aquilo talvez nada disso acontecesse.
- Não importa. Quero ouvir de novo.
Ele aproximou-se do rosto dela, olhando-a intensamente, e disse baixinho:
- “Sam, eu te amo”.
- Isso é verdade? – indagou, mais uma vez hipnotizada pelo brilho daqueles olhos verdes - Pode ter certeza... Eu te amo – disse quase num sussurro, selando os lábios dela com um beijo suave.

Pouco mais de 24 horas após o acerto do casal, Samantha foi convidada para terminar sua recuperação na casa de Gerry à beira do mar, numa praia de Los Angeles. Voltaria a trabalhar em uma semana no novo filme produzido pela Austral. Agora não seria mais a simples assistente de Farrell e sim sua mais nova sócia.
Quanto à Lindsay, continuou seu trabalho como maquiadora, mas não mais em produções da Austral. A última notícia que se teve dela é que acabara sendo despedida do último emprego por ter armado o maior escândalo com a mulher do ator principal de um filme B, que era, para azar seu, filha do diretor. Por isso estava trabalhando em uma funerária, nos arrabaldes de San Diego, maquiando defuntos.

Após a festa da pré-estréia do filme dirigido por Andrew MacAlister, Gerard e Samantha foram festejar o sucesso de seu filme em sua mansão.
- Venha cá – Gerry chamou-a para acompanhá-lo num banho na água aquecida e borbulhante do spa, com vista para o mar, no segundo andar da casa.
- Seu desejo é uma ordem... – acedeu Sam, despindo a última peça de roupa íntima e entrando sensualmente na grande banheira de hidromassagem, sob o olhar voluptuoso de Gerry.
- Acho que o melhor da festa vai começar agora...
- Eu tenho certeza disso... – disse enquanto aconchegava-se ao corpo nu e bronzeado dele.
Um longo e apaixonado beijo pôs fogo ao desejo e a ânsia de amarem-se alucinadamente. As carícias sob as borbulhas de água tornavam-se cada vez mais impetuosas, arrancando gemidos e sussurros. Quase com fúria, amaram-se incansavelmente até a última gota de êxtase. Enfim, exauridos, deixaram-se relaxar ao som dos jatos da hidromassagem, no calor das ondulantes águas, olhando, abraçados, a noite estrelada e o rolar das ondas do mar na praia a sua frente.
- Está feliz? – ele perguntou.
- Tanto que tenho medo de acordar e perceber que é tudo um sonho e que nada mudou.
Ele estreitou-a ainda mais em seu abraço e disse:
- Você não está sonhando, meu amor. Esta agora é a nossa realidade e vamos vivenciá-la juntos.

FIM

Conforme o prometido, consegui chegar ao final desta postagem ainda no dia 14 de Setembro. Espero que tenham gostado. Comentem, por favor.
Espero não demorar muito a voltar, mas certamente será só depois do encontro do GBBG, que ocorrerá nos próximos dias 18, 19 e 20 de Setembro, na cidade do Rio de Janeiro, onde terei o imenso prazer de conhecer as minhas amigas e companheiras do fã-clube deste ator escocês divino que é Gerard Butler. Até mais!! Beijos!!

sábado, 12 de setembro de 2009

A APOSTA - continuando

- Está bem... Vão tomar banho, trocar de roupa ou o que quiserem. Espero pelos dois no meu apartamento. Vou pedir que o almoço seja servido lá para podermos conversar mais a vontade – disse, piscando o olho discretamente para Sam.
Os dois encaminharam-se para o elevador, depois de acenarem um até mais para todos.
- Posso ir com você? – perguntou Gerry agarrando-a pela cintura, já dentro do elevador, assim que as portas se fecharam.
- Claro que não – disse, colocando as mãos sobre o peito dele, tentando afastá-lo.
- Por que não? – questionou a recusa de Sam com olhar de sedução.
- Porque senão ninguém vai tomar banho tão cedo e, como você ouviu, o Joseph está nos esperando para almoçar – respondeu repreensiva, mas sorrindo – Olhe, cheguei no meu andar. O seu é mais dois andares acima. Até logo, senhor Butler – repeliu-o quando ele avançava para lhe dar um beijo.
- Mas nem um beijinho? – falou com expressão dissimuladamente tristonha.
- Se eu der um beijo em você agora, não sei se resisto à sua proposta. Melhor não.
- Ah! Então ficou tentada... – sorriu.
- Tentada sim, mas resistirei.
Em sequência deu-lhe um rápido beijo, empurrou-o delicadamente, afastando-o, sem resistência por parte dele. Saiu correndo do elevador, que já começava a fechar as portas novamente, deixando-o com cara de bobo a caminho de sua suíte.
Ele achou graça da saída dela, mas achou melhor não insistir. Eles teriam muito tempo para ficar juntos e, afinal, ele estava realmente precisando de um banho e de comer, antes que entrasse em hipoglicemia.

Encontraram-se no apartamento de Farrell meia hora mais tarde. Lá encontraram uma lauta refeição para três pessoas e um amigo muito curioso em saber as novidades.
- E então? Quem vai me contar o que aconteceu? – perguntou Farrell logo que percebeu que seus amigos estavam alimentados e satisfeitos.
- E eu gostaria de saber o que deu em você para fazer o que fez – disse Sam.
- O que eu fiz? Sobre o quê? – defendeu-se com cara de inocente.
- Por que me enganou e mandou o Gerry me acompanhar à cabana?
- Para ver esta expressão de felicidade que vejo em seu rosto agora, minha cara.
- Você também notou? – intrometeu-se Gerry, gracejando.
- Vocês dois não prestam mesmo. Homens sempre se protegem entre si e nós, mulheres, ficamos a mercê de vocês – afirmou, tentando esconder o riso com dificuldade.
- Não deu certo? – perguntou Farrell.
- Você está vivo, não está? Esta é a prova de que deu certo. Caso contrário seria um homem morto. Esta mulher é fogo, Farrell – brincou Gerry, enquanto pegava a mão de Sam e a beijava.
- Eu sei disso... Desculpe, querida, se armei esta cilada para você. Mas este cavalheiro, aí ao seu lado, teve uma conversa comigo, antes do almoço de ontem, e acabou por me convencer sobre os sentimentos dele por você.
- Eu fiquei muito chateada com você, Joseph.
- E eu me senti muito culpado quando vi a tempestade de neve e soube que vocês tinham ficado ilhados naquele lugar. Aí eu temi pelo pior. Graças à Deus que tudo acabou bem. Agora é tocar a vida e terminar de rodar esta produção. Que tal um brinde?
Elevaram seus copos de água mineral, como se fossem taças de champanhe, e brindaram ao seu feliz retorno.

As filmagens só puderam voltar a ser feitas dois dias depois que o sol voltou a brilhar sobre Breckenridge e os caminhos puderam ser transitáveis novamente. Andrew adorou o resultado das filmagens na cabana e da atuação de Gerry. Tudo corria perfeitamente bem, apesar do atraso no cronograma. O clima no set de filmagem parecia mais leve. Samantha continuava exigente como sempre, mas mais bem humorada e agradável com todos. Aliás, todos estavam bem, exceto uma certa maquiadora que não conseguira seduzir o ator principal, como era seu costume. Lindsay odiara quando Steve lhe comunicou o que Gerry falara a respeito da aposta. Não podia admitir que aquela “bruxa” roubasse o que deveria ser seu. E agora, além de tudo podia notar claramente que os dois, apesar de tentarem esconder, estavam vivendo o que ela gostaria de ter para si.
Faltavam apenas dois dias para que a equipe voltasse para Los Angeles. Lindsay fazia a maquiagem de uma das atrizes coadjuvantes no barraco improvisado para este tipo de trabalho. Ele também era utilizado para descanso dos funcionários em seus intervalos. Havia uma fina divisória entre a sala de maquiagem e cabeleireiro e área de estar. Através de seu espelho ela viu Samantha entrar sozinha e dirigir-se ao recinto, onde havia uma cafeteira e xícaras, para tomar um café. Foi aí que uma idéia lhe ocorreu para acabar com o interlúdio de Gerry.
- Garota, estou tão aborrecida... – comentou com voz tristonha.
- Por que, Lin? – perguntou a jovem atriz sentada na cadeira, de olhos fechados.
- Vou ter de pagar um jantar para o Gerry.
- Qual Gerry?
- O Butler.
- Por quê?
- Você já deve ter notado a ligação dele com a Samantha... Ou não?
- A assistente do Farrell? Não... Sou meio desligada destas coisas. Mas o que tem isso a ver com o jantar?
- Pois é... Lá em Los Angeles fizemos uma aposta para ver se ele era capaz de conquistar a “bruxa”. Se ele ganhasse, que foi o que obviamente ocorreu, nós teríamos que pagar um jantar para ele. Claro que vai ter de ser um jantar daqueles, pois o moço não é de pouca coisa.
- Nós? Quem mais apostou isso?
- O Steve e o Lee.
- Mas que horror! Coitada da Sam...
Neste momento ouviu-se o som de louça quebrada e um soluço. Samantha saiu sem olhar para elas, batendo a porta do barracão, após cruzar com Lee , que entrava naquele momento.
- Oi, Lindsay! O que houve com a Samantha? – indagou o iluminador preocupado com a expressão que vira no rosto da assistente de produção.
- Ah! Era ela que estava aí? – perguntou Lindsay com sarcasmo.
- O que você falou para ela?
- Eu não falei nada para ela. Eu estava apenas conversando sobre a nossa apostinha com o Gerry aqui com a Pat, quando ela saiu correndo daí de dentro feito uma louca. Será que ela ouviu o que eu disse? – ironizou.
- Por que você fez isto, Lin? É claro que você sabia que ela estava aqui. Você não me engana.
- Ah é? Tá com peninha dela? Então corre lá para consolar ela. Vai!
- Eu ainda não conhecia este seu lado venenoso – falou decepcionado e saiu.

Ela estava desesperada. Um aperto na garganta mal a deixava respirar. Sua cabeça latejava, prestes a explodir. Estava com medo, ódio, tristeza e todos os piores sentimentos que alguém poderia ter. Vivia um pesadelo mais uma vez. Como ele pudera fazer isso com ela. Enganara, não só a ela, mas a Joseph também. Como ela pudera acreditar nele, quando todas as evidências mostravam que ele era só mais um conquistador barato. Que tipo de homem ele era? Tudo parecia tão perfeito... Por quê? Por quê?
Correu sem ver nada a sua frente. Só queria chegar o mais depressa possível ao hotel, fazer as malas e deixar um recado com alguma explicação idiota para Joseph sobre a sua resolução. Sua presença nestes últimos dias já não era mais imprescindível. Rezava para não encontrar com Gerry. Não queria vê-lo nunca mais.
Já de posse de suas malas, avisou na recepção que estava partindo e deixou um bilhete para Joseph. Pegou um táxi para levá-la até o aeroporto de Denver, de onde voltaria para Los Angeles.


- Farrell! Você viu a Sam? – perguntou Gerry ao ver o produtor na recepção do hotel com um papel nas mãos e ar preocupado.
- Eu que lhe pergunto. O que houve? Ela não lhe disse nada?
- Sobre o quê? Onde ela está?
- Pelo que consta neste bilhete ela está a caminho de Los Angeles.
- O quê? – exclamou Gerry sem poder acreditar no que ouvira – Como assim?
- É o que está escrito aqui. Uma amiga está muito doente e pediu ajuda. Como ela já não era mais tão necessária aqui, resolveu ir embora para ajudá-la. Ela não se despediu de você?
- Não! Alguma coisa aconteceu... Mas não consigo imaginar o quê.
- Tem certeza que não brigaram? Para Sam fazer isto só se algo muito ruim aconteceu. Esta me parece mais uma desculpa esfarrapada para uma fuga, se bem conheço esta menina. O que você aprontou para ela, Gerry?
- Nada. Não fiz nem sei de nada – vasculhava a memória tentando encontrar algum motivo para Sam agir desta maneira. Nenhuma palavra de despedida. Não podia imaginar o motivo disso.
Pegou seu celular e fez uma ligação para ela. Não foi atendido nenhuma das vezes que tentou. Até que o telefone passou a dar sinal de desligado. Isto certamente significava que ela não queria falar com ele ou com quem quer que fosse.
– Por favor, me ligue com o Aeroporto de Denver. Quero saber o horário dos vôos para Los Angeles – pediu a recepcionista do hotel.
Em poucos instantes, Gerry já sabia que o próximo vôo seria às 18 horas, o que lhe possibilitava chegar a tempo de falar com Sam e saber o que acontecera.
- Não tenho nenhuma cena nova hoje. Vou até Denver tentar encontrar a Sam e volto ainda hoje, se tudo der certo. Explique ao Andrew e que estarei de volta a tempo de filmar amanhã à tarde.
- Está bem. Me telefone assim que conseguir encontrá-la.
Imediatamente, Gerry solicitou um táxi, subiu ao seu apartamento, trocou de roupa e, tão logo o automóvel chegou, partiu para Denver.
Por um destes azares do destino, a estrada estava interrompida devido a um deslizamento de neve ocorrido pouco antes dele chegar ali. Com isto, conseguiu chegar ao aeroporto pouco depois das seis horas, a tempo de ver o avião que levava Sam levantar do solo. Depois de esbravejar em escocês todos os palavrões que podia, teve de contentar-se em entrar no mesmo táxi e voltar à Breckenridge sem uma resposta àquele enigma.


Beijos!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A Aposta - continuação

Sam acordou de seu torpor quando sentiu Gerry levantar-se do sofá, deslocando-a para o lado, delicada e silenciosamente para não incomodá-la. Fingindo que dormia, observou o magnífico homem que tinha a sua frente, a atiçar o fogo que começava a apresentar sinais de extinção. A silhueta nua, forte, de músculos bem proporcionados, distribuídos naqueles quase 1,90 metros de altura, era realçada pela luz avermelhada e irrequieta vinda da lareira, provocando um efeito quase sobrenatural e primitivo. Um suspiro a denunciou, fazendo com que ele se virasse e sorrisse, ao vê-la de olhos abertos a espioná-lo.
- Pensei que estava dormindo...
- Eu só estava admirando a paisagem – falou, retribuindo o sorriso, encolhida sobre o sofá.
- E estava gostando? – perguntou, enquanto encaminhava-se na direção dela.
- Muito... – falou, excitando-o.
Ele abaixou-se, de forma a quase tocar os lábios no rosto de Sam e indagou tentador:
- Está frio aqui, não acha? Que tal fazermos mais um aquecimento?
- Eu adoraria...
Dizendo isso, pegou-a no colo, com um mínimo de esforço, sentou-se sobre o sofá e colocou-a sobre suas coxas nuas, abraçando-a e beijando-a, sem esperar resposta. Logo o frio foi esquecido em segundo plano.

O vento parara de zunir, o sol já entrava através das frestas das janelas e um movimento suave do tórax sobre o qual estava deitada a embalava. Uma pressão gostosa e quente envolvia seu corpo. Ao abrir os olhos, percebeu que Gerry a cercava por trás, no espaço que lhes permitia o sofá, mantendo os braços em torno de seus seios, enquanto a perna a entrelaçava e a coxa poderosa cingia seu quadril. Sentia-se protegida, segura como nunca se sentira antes. De repente, um estremecimento. Era Gerry que dava sinais de frio. Só então ela percebeu que a sala estava gelada e as chamas da lareira quase extintas. Precisava acordá-lo para que pudessem vestir-se.
- Gerry... Gerry... – chamou-o carinhosamente.
Ele arqueou as sobrancelhas, ainda de olhos fechados, e aumentou a pressão de seu abraço sobre ela.
- Bom dia... – com voz amarfanhada e rouca – Brrrr! Que frio!
- Bom dia. Precisamos nos vestir ou vamos virar aqueles picolés que você sugeriu ontem.
- Hummm... Mas está tão bom assim... – falou aumentando a pressão sobre o corpo de Sam – Não quer um novo aquecimento?
- Você é meio taradinho, não?
- Você ainda não viu nada... – disse sorrindo, depositando um beijo sobre seus cabelos.
- Se você não se vestir logo, eu não vou ver mesmo nada – falou rindo, tentando desvencilhar-se do abraço dele – Precisamos saber se o socorro já está vindo.
- Sempre prática... – disse fazendo-se de aborrecido - Está bem, eu a deixo sair se prometer que não vai mais fugir de mim.
- Eu prometo... – assegurou sorrindo.
No mesmo instante ele a liberou, levantando-se, ajudando-a a ficar de pé e abraçando-a novamente. Desta vez, a olhá-la frente a frente, deu-lhe um beijo afetuoso em seus lábios e, ao senti-la tremer de frio, aquiesceu:
- Talvez você tenha razão. É melhor nos vestirmos.

O celular tocou.
- Alô? Farrell? ... Sim, estamos bem, apesar do frio e da fome, que está começando a incomodar... Quanto tempo? ... Ótimo... Sim, ela está bem. Não se preocupe... Sim. Até!
Gerry desligou o telefone.
- E então? Quanto tempo mais para eles chegarem? – perguntou Sam apreensiva.
- Talvez uma hora. Parece que a tempestade foi mesmo terrível. Estão com vários tratores a limpar a neve das ruas da cidade e da estrada desde cedo. Vou tentar acender a lareira de novo para nos esquentarmos um pouco.
- Eu o ajudo a trazer mais lenha.

Já se passara mais de uma hora, período em que Sam e Gerry tentaram aquecer-se junto ao fogo, quando ouviram o som de motores próximos. O resgate havia chegado. A cabana, que ficava em um desnível, estava quase totalmente encoberta. Levaram cerca de trinta minutos para poder ter acesso à porta de entrada. A Toyota de Sam praticamente desaparecera sob a neve. Uma ambulância os levou de volta à cidade. Apesar da insistência do paramédico em querer levá-los para o hospital, Sam recusou-se, por estar se sentindo muito bem. Gerry concordou com ela. Dessa maneira, foram deixados diante do Golden Hotel, onde Farrell e alguns membros da equipe os esperavam ansiosos no saguão.
- Como vocês estão? – perguntou aflito assim que os viu.
- Estamos bem, Farrell. Não se preocupe. Por sorte a cabana resistiu à tempestade – respondeu Gerry, que entrou abraçado a Sam.
- Tudo bem, Joseph. Agora só estou querendo um banho bem quente e comer alguma coisa. Estou morrendo de fome – disse Sam, saindo da proteção de Gerry e indo ao encontro de seu amigo, abraçando-o – Depois temos de conversar – sussurrou em seu ouvido.
- Sobre o quê? – fez-se de desentendido.
- Depois do meu banho – respondeu Sam sorridente.



Olá! Sei que a maioria de vocês odeia estes capítulos curtíssimos, mas devido a problemas independentes de minha vontade, tive pouco tempo para escrever nestes últimos dias. Mas tenham certeza que , até o dia 16 pretendo ter postado o final desta estória. Não desanimem, queridas leitoras. Volto em breve. Beijos!!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A APOSTA - continuando...

Peço desculpas pela demora em postar a continuação desta estória, mas finalmente consegui. Espero que curtam o tão esperado encontro de Gerry e Sam.

Quando afinal chegaram à locação, nuvens carregadas e cinzentas já encobriam o sol. A temperatura dava sinais de estar baixando muito aquém dos 6º graus negativos do início da manhã. Discretos flocos de neve precipitavam-se sobre a camionete, o que deixou Samantha preocupada. Lembrou que esquecera de ler o boletim da meteorologia daquela manhã. Uma falha lastimável em sua rotina de assistente. E pensou que o motivo para este esquecimento provavelmente fora aquele que estava ao seu lado, a tirar o cinto de segurança, lançando um olhar indiscreto em sua direção.
- Melhor nos apressarmos. Não estou gostando desta virada do tempo – avisou Samantha, inquieta, ao descer do veículo.
Gerry acompanhou-a até a entrada da casa. Era um simpático chalé construído em pedra e madeira, simples, que deveria servir para abrigar caçadores na época da caça. Entraram e encontraram um espaço bastante aconchegante, apesar da lareira de pedra, que dominava a ampla sala principal,estar apagada. Pouca luz entrava ali devido às janelas pequenas e cobertas por tampas de madeira mal acabadas. Samantha anotou mentalmente que deveria mandar retirá-las no dia seguinte pela manhã.
- Que tal acendermos a lareira para ver como ficará o ambiente com a luz do fogo? – perguntou Gerry, animado com o local.
- Não sei se temos tempo para isso... – murmurou Samantha, enquanto lançava seu olhar de profissional para o local, a imaginar como seria filmar ali dentro. Não entendia o porquê de não recriar um espaço semelhante em estúdio. Talvez a luz natural...
O vento começou a mostrar sua força quando a porta da entrada bateu fortemente, assustando-os com o estrondo que fez.
- Acho que Andrew vai gostar do cenário. Talvez precise de alguns detalhes de decoração para aquecer o ambiente... – falava para si mesma, quase esquecendo de que estava acompanhada, imaginando o que fazer com o pouco tempo que tinha disponível.
- Pelo que me lembro da descrição do interior do abrigo onde os dois protagonistas passam a noite, acho que está perfeito – comentou Gerry, aproximando-se lentamente de Sam.
- É, acho que sim – disse distraída, ainda respondendo a si mesma, sem notar que Gerry estava muito próximo dela.
- Você pensou no que conversamos ontem à noite? – sussurrou ele, inesperadamente, fazendo cócegas em sua nuca.
Ela desviou-se, assustada, virando-se abruptamente e dando dois passos para trás, enquanto ele continuou parado no mesmo lugar, olhando-a intensamente, com um meio-sorriso nos lábios.
- Acho que não é hora de falar sobre isso. Estou aqui a trabalho. Não para conversar sobre assuntos... pessoais – sua voz estava ligeiramente trêmula.
- Por que não? Estamos a sós, sem ninguém para nos interromper. Por que o medo de falar sobre isto? – continuou, encarando-a de forma extremamente sedutora.
Samantha passou a mão pelos cabelos, nervosamente, enquanto tentava fugir daquele olhar.
- Não é medo... Eu apenas... Não pensei sobre o que você disse ontem – falou, mentirosa, olhando para ele e logo em seguida desviando o olhar.
- Não pensou?... – disse balançando a cabeça e entortando o sorriso, dando a entender que não acreditava nela.
- Está bem... Eu pensei, mas não conclui nada – ela sentia-se cada vez mais confusa e certa de que ele estava se divertindo muito com o seu mal-estar – Está ficando frio aqui. Acho melhor irmos embora. A casa não tem calefação, o tempo parece que está piorando e não pretendo ficar prolongando esta situação constrangedora que você está criando. Aliás, você é um especialista nisso.
- Só quando a pessoa na qual estou interessado finge que não quer nada comigo.
- E eu achando que estava enganada sobre o quesito prepotência, mas pelo que vejo sua auto-estima continua em altíssimos níveis.
- E a sua auto-estima? Onde está?
Dito isto, Samantha partiu para cima de sua bolsa que estava sobre o sofá diante da lareira, passando ao lado de Gerry que permanecia parado. Mas, para sua surpresa, ele a agarrou pelo braço, fazendo-a parar subitamente, obrigando-a a encará-lo.
- Não estou criando nenhuma situação constrangedora, como você disse – falou incisivo – Apenas quero saber se posso ter alguma esperança em relação a nós dois. Por que tudo com você têm de ser tão difícil? Eu sei que você teve más experiências com homens antes, mas isto não just...
- Quem lhe falou sobre isto? – explodiu a pergunta indignada – Foi o Joseph?
Estava a ponto de chorar, mas segurou, pois não queria que ele a visse tão sensibilizada.
- Ele não me contou detalhe algum, apenas...
- Ele não tinha este direito – interrompeu-o novamente, com voz enfraquecida – O que ele lhe disse?
- Nada, Samantha – Gerry soltou o seu braço ao percebê-la fragilizada – Ele não contou nada... Por que você não me conta?
Lágrimas contidas brilhavam nos olhos de Samantha.
- Por que está fazendo isto comigo? – disse sentando-se, vencida, sobre o sofá defronte à lareira.
- Eu já lhe disse o por quê... – respondeu, flexionando os joelhos, de forma a abaixar-se até onde pudesse enxergá-la frente a frente – Eu quero você... Muito... E eu não estaria aqui se não tivesse certeza de que você também me quer.
Ao ouvir estas últimas palavras, ela o olhou como se o visse pela primeira vez e tentou descobrir, naqueles límpidos olhos cor de mar, se o que ele falava era verdade. Já tinha sido enganada por outros olhares semelhantes.
- Gerry, eu já sofri muito por me jogar em relações de cabeça, confiando plenamente no outro, sem medir consequências, seguindo apenas o meu coração. Prometi a mim mesma que isto não aconteceria novamente.
- E aí você resolveu isolar-se dentro de um iceberg, achando que assim estaria segura?
- Até agora eu estava conseguindo viver muito bem assim...
- Até agora...?
Ela percebeu que estava se entregando em pequenas confissões. Olhou seu relógio de pulso e, dando um suspiro profundo, disse:
- Vamos embora, por favor... Podemos conversar sobre isto outra hora? Não estou preparada para...
- E quando vai estar preparada? Para este tipo de coisa, nunca estamos preparados, Samantha. Simplesmente acontece e temos que viver estes momentos da melhor maneira possível, mesmo sem a certeza de um futuro ou apesar do medo de errar.
Ela simplesmente levantou-se, enquanto ele permaneceu na mesma posição, de cabeça baixa, sentindo-se derrotado pela resistência de Samantha. Ela dirigiu-se para a porta, segurando sua bolsa como se fosse uma tábua de salvação, e tentou abri-la.
Por alguma razão desconhecida, aquela porta tinha sua abertura no sentido para fora, diferente da maioria. E por alguma outra razão, Samantha não conseguiu abri-la. Irritada, começou a empurrá-la com força, sem conseguir movê-la um centímetro sequer.
Gerry levantou-se e foi verificar o que estava havendo. Pediu permissão a ela para tentar e conseguiu uma fresta de cerca de dois centímetros, através dos quais rolou uma grande quantidade de neve, levando em consideração o tamanho da abertura obtida.
- Eu não acredito no que está acontecendo... – exclamou Samantha estarrecida.
O tempo realmente mudara para pior durante o período em que eles conversavam, a ponto de cair uma tempestade de neve que soterrou quase metade da porta da entrada.
- Deve haver outra saída daqui. Alguma janela...
- Pelo que vi, todas estão lacradas com tampões de madeira para evitar arrombamentos – constatou Gerry – Mas vou dar uma olhada para ver se esqueceram de lacrar alguma. Acalme-se... – falou ao ver o olhar apreensivo de Sam.
Ele percorreu todas as peças da casa, que não eram muitas, sem obter sucesso. Mas encontrou um depósito de lenha seca e fósforos, o que já foi animador, já que o frio começava a incomodar.
- Parece que estamos prisioneiros, mas por sorte encontrei lenha. Pelo menos não morreremos congelados – falou sorrindo quando voltou de sua investigação a procura de uma saída.
- Sorte?... O Joseph e você planejaram isto, não foi? – falou injuriada, procurando por seu celular e percebendo que o deixara dentro da camionete – Droga!
- Você está louca? Como poderíamos planejar uma tempestade de neve?
- Não disse isso. Ele facilitou para que ficássemos sozinhos aqui.
- Isso é óbvio. Mas não se preocupe que não tentarei mais nada com você. Pode ficar tranquila. Aliás, quem quer sair daqui agora sou eu – disse aborrecido, jogando a lenha dentro da lareira e a caixa de fósforos ao chão e procurando o celular nos bolsos da calça jeans.
- Alô? Debbie? – falou quando sua assistente atendeu seu chamado – Não, não estou na cidade... Me ouça! Precisamos de ajuda aqui na cabana fora da cidade, onde seriam rodadas as cenas de amanhã. A tempestade de neve bloqueou a entrada e estamos presos... Sim! Ligue assim que tiver uma posição do socorro... Está bem... Eu aguardo... Obrigado.
Ao desligar o telefone, viu Samantha tentar colocar as toras de madeira dentro da lareira, desajeitadamente, com intenção de acender o fogo. Ficou a observá-la por algum tempo, até resolver-se a ajudá-la. Constatou que, se dependesse dela, o ambiente logo viraria um freezer natural.
- Pode deixar que eu cuido disso – decretou, colocando as mãos sobre seus ombros e ajudando-a a levantar-se cuidadosamente.
Ela não ofereceu resistência e pôs-se de pé, indo sentar-se no sofá, onde se encolheu, esfregando os braços com as mãos, na tentativa de aquecer-se. Na sala, apenas os ruídos da lenha sendo arrumada na lareira e o chiado dos vários fósforos sendo acesos. Se possível fosse ouvir pensamentos, aí sim, o som seria ensurdecedor...
- Ah! Agora acho que vai pegar! – disse Gerry animado ao conseguir atear fogo à madeira.
Ficou parado, admirando o resultado de seu esforço, evitando olhar para o sofá, onde Samantha tremia de frio. Sua vontade era abraçá-la, aconchegá-la em seus braços, mas sabia que seria repelido como indesejado.
Por sua vez, ela lutava contra a vontade de pedir desculpas pelo modo como o estava tratando e chamá-lo para ficar ao seu lado, abraçado a ela.
O celular de Gerry tocou.
- Debbie?... Ah! É você, Farrell ... Sim... Não... Está tudo bem, mas estamos presos... Só amanhã?? – exclamou, lançando um olhar para o alto, imaginando como seria passar a noite ali, sem aquecimento e sem luz elétrica, contando apenas com aquela lareira e, acima de tudo, suportar a rejeição e o silêncio de Sam – Sim... Quer falar com ela?
- Eu não quero falar com ele! – reagiu Samantha ao ouvir a última pergunta.
- Você ouviu? – questionou Gerry – Não...
Depois de receber prováveis orientações do amigo, acabou por responder:
- Está bem. Vamos nos virar com a lenha que tem aqui e rezar para que o mau tempo passe logo. Sim, sim... Até mais... Sim. Depois conversamos... Até logo! – dizendo isso, desligou o aparelho e continuou a olhar para as chamas a sua frente.
Após mais alguns intermináveis minutos de silêncio incômodo, Gerry resolveu sentar-se no sofá, no canto oposto ao de Sam.
- Como já deve ter percebido as notícias não são nada boas... Você está ouvindo? – insistiu, pois ela não demonstrava sinal de reação ao que ele tinha acabado de dizer.
- Sim... Estou ouvindo – respondeu em voz baixa, lançando um breve olhar para ele, mas logo desviando-o para o fogo.
- Infelizmente vamos ser obrigados a passar a noite aqui. A nevasca está impossibilitando o trânsito nas ruas e estradas e, portanto o acesso a qualquer local fora da cidade. Assim que houver a mínima possibilidade de resgate, eles virão para cá. Mas é muito improvável que consigam isto antes do amanhecer.
Samantha permanecia fixada na luz bruxuleante que vinha da lareira.
- Bem... Vou ver se encontro algum cobertor e velas...
Saiu cabisbaixo, sem esperar resposta.
Quando voltou, Samantha estava de olhos fechados, com as pernas encolhidas sobre o sofá, praticamente em posição fetal. Parecia ter pegado no sono. Depositou no chão a lenha que trazia nas mãos e colocou mais algumas achas sobre o fogo. Tirou seu casaco e colocou delicadamente sobre ela. Não tinha encontrado cobertores ou velas. Teria que ficar atento para manter a lareira acesa, para ter luz e calor. Sentou-se no seu canto do sofá a contemplar o semblante, agora sereno, de Sam. Foi quando ela abriu os olhos e retribuiu seu olhar.
- Obrigada pelo casaco... – murmurou enquanto aconchegava-se sob o abrigo oferecido - Você vai ficar com frio...
- Lembre que sou escocês. Estou mais acostumado que você com as baixas temperaturas. Não se preocupe – falou, tentando esboçar um sorriso tímido – Pode voltar a dormir.
- Não estou com sono...
- Eu também não. Além disso, alguém vai ter de se responsabilizar por manter acesa esta chama a noite toda, caso contrário vão encontrar dois picolés amanhã pela manhã. Só espero que a lenha do depósito seja suficiente.
Após alguns instantes de mudez total, ele a ouviu chamar:
- Gerry...
- Sim.
- Acho que devo desculpas a você. Eu reconheço que não tenho sido muito educada.
- Você já agradeceu pelo casaco. Não se preocupe por isso.
- Não é só pelo casaco... Você sabe... Desde que a gente se cruzou pela primeira vez... – ela o olhou e estremeceu ao ver sua face máscula, iluminada à direita pela luz do fogo,enquanto a lado esquerdo mergulhava na escuridão, quando ele se virou para ouvir o que ela estava dizendo. Apenas os brilhantes olhos verdes a fitavam enigmaticamente.
Ele permaneceu calado e imóvel, deixando-a desconfortável.
- Pelo jeito nós estamos com muito tempo disponível pela frente. Se você ainda estiver disposto, posso contar como me transformei neste “iceberg”, como você disse.
- Olhe, Samantha, você não precisa me contar nada se não quiser. Eu não vou mais incomodá-la... – disse isso e levantou-se para colocar mais lenha, pois o fogo começava a querer diminuir.
Mais silêncio... Ele sentou-se no mesmo lugar de antes, mirando a chamas que acabara de atiçar.
- Há mais ou menos sete anos conheci um rapaz na faculdade de cinematografia – Sam começou sem esperar permissão - Apaixonamo-nos. Ou pelo menos eu acreditava que era correspondida. Durante alguns meses vivi uma bela ilusão. Ele parecia perfeito. Tínhamos os mesmos gostos, gostávamos de ir aos mesmos lugares. Chegou a falar em casamento, mas eu achei que ainda era cedo, pois tínhamos que terminar a faculdade e conseguir emprego... Eu sempre tive este lado prático. Neste caso, isto me ajudou a não cair numa armadilha. Cheguei a ser apresentada para seus pais e irmãos, que moravam em New Jersey. Foi então que um dia, quando eu voltava de um curso extracurricular, o vi entrando num bar. Fiquei tão feliz por vê-lo que quis fazer-lhe uma surpresa. No entanto, a surpresa foi minha. Quando entrei, o vi praticamente correr para os braços de outra pessoa e atracar-se aos beijos com ela. Senti o chão desmoronar sob os meus pés. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Ele estava abraçando e beijando um de meus colegas de turma. Só então percebi que o bar onde eu estava era gay. Dias mais tarde, depois de tentar falar comigo dezenas de vezes, consegui criar coragem para obter uma explicação para o que eu vira. Aí fiquei sabendo que eu era apenas uma fachada para enganar a família dele, que desconhecia a sua opção sexual. Claro que rompi definitivamente com ele, apesar de tentar entendê-lo e até sentir certa pena de sua situação, mas não consegui perdoá-lo por ter me enganado e me usado naquele teatro. Demorei pelo menos mais de um ano até conseguir me interessar por outra pessoa. Aí, conheci o Roger. Ele era aspirante a ator. Eu já iniciara como estagiária na produtora de Joseph Farrell. Ele era muito amigo de meu pai e resolveu me dar esta chance. Depois de três meses de relacionamento perfeito, Roger começou a mostrar suas garras. Era um viciado em jogo. Pedia dinheiro para resolver problemas que nunca se resolviam e que levavam meu dinheiro, sem direito a retorno. Em pouco tempo comecei a recusar a ajuda financeira na tentativa de afastá-lo do vício. Pensava que, talvez, se a fonte financiadora secasse, ele se afastasse dos problemas. Mas isto não aconteceu. Então ele passou a bater em mim diante de minhas recusas. Até que um dia, fui obrigada a acabar com aquela relação doentia, pois já não aguentava mais viver com medo dele. Foi difícil. Só quem vive este tipo de violência pode entender como se mantém um relacionamento assim e o medo de interrompê-lo. Você parece viver sempre na esperança de que a pessoa vai recuperar a razão, que você vai poder ajudá-la a livrar-se de seus problemas e que tudo vai voltar a ser como no início. Junto com este sentimento ainda existe o medo de uma violência maior. Eu só consegui romper quando senti que minha vida estava ameaçada, graças à ajuda de meu pai... e da polícia.
- Sam... – Gerry estava estarrecido com a história que ouvia. Não sabia o que dizer.
- Depois disso, fiquei mais cuidadosa. Demorei quase dois anos para gostar de novo de alguém. O meu terceiro desastre chamava-se Ben. Era um advogado de sucesso, charmoso, envolvente, romântico. Caí direitinho por ele. Até que descobri que ele me usava para comparecer às festas da produtora e da indústria, as quais eu era convidada, para conhecer atrizes e mulheres do meio artístico e levá-las para a cama. Fora o interesse por contatos para prestar seus serviços como advogado. Só confirmei a suspeita no dia em que o flagrei aos amassos com uma figurante, dentro de um set de filmagem onde eu estava trabalhando. Ele ainda riu de mim na frente dela e perguntou se não queria me juntar a eles. Como pode ver, eu não sou a pessoa mais feliz do mundo em termos de relacionamentos amorosos – disse olhando para ele, com um amargo sorriso nos lábios, mas com os olhos marejados.
- E eu pensei que era azarado nos meus relacionamentos...
- Você? Azarado? – exclamou surpresa – Você tem mulheres maravilhosas aos seus pés e pode escolher quem quiser... – sorriu incrédula.
- Pois é, mas quem eu quero, não me quer – afirmou, olhando-a intensamente.
Neste momento, Samantha corou e percebeu que tinha falado uma bobagem.
- Por que você não me dá uma chance, Sam? – disse cautelosamente, avançando devagar para o lado dela – Pelo que vi, não me encaixo em nenhuma destas categorias de homens que você citou, a não ser que você leve em conta o meu passado como advogado – lembrou sorrindo.
- Gerry... Eu... – sentia-se trêmula de frio e de medo de entregar-se àquela emoção tão forte que tomava conta de seu corpo e de seu coração.
Ele aproximou-se mais, até poder acariciar o rosto pálido de Sam. Inclinou-se um pouco, de forma a quase tocar sua face com os lábios. Tinha receio que ela o recusasse novamente. Foi quando percebeu que ela fechou os olhos e ergueu o rosto em sua direção, a espera de um beijo. Diante desta oferta inesperada, ele a recebeu calma e docemente. Suas bocas tocaram-se, a princípio com suavidade, num crescente conhecimento mútuo, experimentando o prazer do toque, do calor da pele, do roçar de pelos, do arrepio na nuca. Ao separarem-se, após uma breve troca de olhares, o desejo incendiou-se e um novo beijo tornou-se urgente, desta vez ávido, sedento e invasor. Samantha deixou-se levar nos carinhos das mãos de Gerry que percorriam seu corpo sofregamente, na tentativa de tomar posse do que agora era seu. Agarrada aos cabelos dele, deixou que lhe abrisse a blusa e que os lábios insaciáveis descessem por seu pescoço e alcançassem seu peito. Lá uma língua quente e macia percorreu seus seios firmes e os mamilos ingurgitados, proporcionando-lhe grande prazer. Seu corpo exigia a presença daquele homem, com urgência. Gerry exultava, deleitado com a beleza de Sam, gemendo e reclamando-a para si. Nada mais importava. Nem o frio, o vento a silvar do lado de fora ou a escuridão que avançava sobre o final do dia. Só o saciar do desejo importava. Àquela altura, já livres das vestes, iluminados apenas pelas trêmulas chamas da lareira, ansiavam pela posse completa. Foi quando o clímax chegou para ambos e exclamações de pura lascívia ecoaram pela cabana encoberta pela neve.




Aguardem, que ainda teremos mais emoções envolvendo o casal acima. Um bom final de Sete de Setembro para todos! Beijos!!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A APOSTA - ainda a continuação...

Ela não conseguia sair do lugar, mesmo depois de ouvir a porta fechar-se. O turbilhão de sentimentos, dúvidas e desejo acabou por fazê-la atirar-se sobre a cama e começar a chorar. Não queria sentir tudo aquilo novamente. Não por um homem como Butler que parecia ter tudo para fazê-la sofrer mais uma vez. A sua fama de conquistador a fizera ficar alerta desde a primeira vez em que o vira. Achou que estava imune a homens como ele, mas sentia-se prestes a cair naquela rede. Durante seu trabalho tinha se permitido observá-lo, ver o modo como ele se relacionava com as outras pessoas, o que a deixou entrever alguém diferente do que as revistas de fofocas e os invejosos tentavam divulgar. Ele não era vulgar ou prepotente como ela julgara no início. Não sabia mais o que pensar. Talvez fosse diferente com ele... Mas já se deixara enganar por três vezes. Por que seria diferente agora?
Samantha passou aquela noite a rolar sobre os lençóis de sua cama, a repensar em sua vida, passando-a em revista, como se fosse um filme, repleto de desagradáveis surpresas. O medo ainda se fazia fortemente presente, aprisionando os anseios de seu coração. Ao amanhecer ainda não chegara a conclusão alguma, pois seus sentimentos permaneciam em combate contra a razão. Desta luta, ainda não sabia quem seria o vencedor.
Levantou-se e lavou o rosto com água gelada para despertar do torpor que tentava dominá-la. Não podia dar-se ao luxo de ficar deitada, pensando em “bobagens”. Tinha muito trabalho a fazer.
Tomou seu desjejum tão logo abriu o salão de café do hotel. Torcia para não encontrar ninguém, pois não estava disposta a ouvir conversas sobre o tempo ou sobre as fofocas entre o pessoal da equipe, que sempre surgiam neste tipo de trabalho. Solicitou na recepção o carro que alugara para deslocar-se entre as locações. Antes de sair, o celular tocou. Era Joseph.
- Bom dia, Sam. Já trabalhando? Liguei para o seu apartamento e ninguém respondeu.
- Vou verificar se está tudo preparado para o início das filmagens da manhã no centro da cidade. Diga ao Andrew para me ligar caso haja algum problema.
- Hoje à tarde vou com você para ver a nova locação para as cenas da cabana – lembrou Joseph.
- Está bem. Combinamos na hora do almoço.
- Ok! Até mais!
Samantha passou a manhã envolvida com seguranças, técnicos e outros assistentes. Não viu Gerry, pois ele não estava escalado para as filmagens daquele dia. Ele teria cenas só na tarde seguinte, na tal cabana. O dia estava lindo, com um céu límpido e raios de sol que ofuscavam a vista ao chocar-se contra a neve que cobria a cidade e as montanhas ao redor.

Gerry estava terminando seu café, quando viu Steve caminhar em sua direção com um grande sorriso.
- Então, já soube que está avançando no seu objetivo. Será que vamos ter de pagar um jantar para você?
- O quê? – perguntou Gerry, distraído.
- Ora! Esqueceu da nossa aposta?
- Ah! Aquilo... Olha, Steve, sinceramente não estou mais nessa. Nunca fui de entrar neste tipo de aposta e nem quero falar mais sobre isso. Pensei melhor e não acho justo fazer uma armação destas com a Samantha.
- Eu pensei que você estava dando em cima dela de brincadeira, mas vejo que a coisa está ficando séria. Será que a “bruxa” conseguiu virar o jogo com você?
- Não fale dela dessa maneira, por favor – pediu de forma incisiva e com tom irritado de voz - Além disso, não estou dando em cima de ninguém.
- Está bem... Sem problemas. Não está mais aqui quem falou. Era só uma brincadeira mesmo. Mas quem não vai gostar de não poder ter um jantar com você é a Lindsay. Ela estava contando com isso.
- Sinto muito... Mas pode dizer a ela que eu oferecerei um jantar para vocês no meu restaurante, o Shin, quando voltarmos a Los Angeles – convidou Gerry, tentando ser simpático e não querendo ofender – Eu não devia ter aceitado aquela aposta. Não costumo fazer isso. Estava muito irritado com a Samantha e não pensei nas consequências. Desculpe-me e avise seus amigos que estou fora.
- Claro, Gerry. Eu entendo você.
Gerry levantou-se e despediu-se de Steve. Não pode ouvir quando o outro falou em voz baixa, quase inaudível:
- Babaca!

- Farrell! – gritou Gerry ao ver o produtor no saguão do hotel.
Já era quase meio-dia e não tinha conseguido achar Samantha.
- Olá, Gerry! – saudou-o – Algum problema?
- Não. Pelo menos nenhum em relação ao filme.
- Em relação a alguma outra coisa? – indagou já imaginando qual seria o problema de Gerry.
- É sobre a Sam...
Joseph Farrell olhou seu relógio de pulso e, finalmente, disse:
- Vamos arranjar um lugar mais tranquilo para conversarmos – pegou Gerry pelo braço e seguiu para um recanto mais isolado do foyer, próximo a um grande janelão com vista para a rua principal de Breckenridge.
Ali sentaram e conversaram por quase uma hora.


Samantha estava impaciente com a demora de Joseph. Sentada no Toyota 4x4 alugado, diante do hotel, esperava por seu amigo e produtor. Ligara para ele no horário combinado pela manhã para dizer-lhe que não poderiam almoçar juntos, mas que o esperaria com seu carro defronte ao Golden Hotel para irem juntos à cabana escolhida para ser a próxima locação. Ela gostaria que Andrew também conhecesse o local para dar o seu aval, mas ele estava muito ocupado com a filmagem da tarde. Segundo ele, confiava no bom gosto e no “feeling” de Sam para escolher o local mais adequado. Se ela o aprovasse, estava tudo certo.
Estava distraída, a tamborilar com os dedos no volante do automóvel, a olhar através da janela à sua esquerda, quando ouviu a porta do passageiro abrir-se e alguém sentar ao seu lado. Como estava com o motor mais que aquecido, engatou a direção automática e partiu com seu acompanhante.
- O que houve que se atrasou tanto? – perguntou sem olhar para o lado.
- Estava no banheiro.
Ao perceber que a voz que respondera não era a de Joseph, freou o carro bruscamente, em plena avenida principal, originando o som de pneus derrapando violentamente contra o asfalto, seguido por buzinadas frenéticas dos outros motoristas.
- O que você está fazendo aqui? – gritou exasperada.
- Vou ver a locação com você – respondeu Gerry tranquilamente – Isto se eu conseguir chegar inteiro até lá – ironizou.
- Eu estava esperando o Joseph.
- Você devia olhar para o lado quando dá carona para alguém. Imagine se é um assaltante? – continuou ele com aquele sorrisinho torto e irônico.
- Eu vou voltar e você vai sair deste carro – ela estava tão irritada que nem percebia os carros que desviavam do Toyota e passavam lentamente ao seu lado despejando desaforos e gestos obscenos.
- Bem que eu gostaria, depois desta recepção calorosa, mas o Farrell me implorou para que o substituísse neste “passeio”. Surgiu um compromisso de última hora e ele mandou-me em seu lugar com um pedido de desculpas. Ele deve ligar para você mais tarde ou procurá-la pessoalmente.
- Eu não acredito que Joseph fez isso comigo – falou baixo, entre os dentes cerrados, imaginando o que teria feito o amigo armar esta armadilha para ela.
- Infelizmente você vai ter de me aturar por algumas horas. É muito longe a tal cabana? – ele falava como nada estivesse acontecendo, agora com expressão de descaso, e isto perturbava Sam ainda mais.
Sua ira foi interrompida pelo apito do guarda de trânsito, que agora marchava em sua direção, com cara de poucos amigos. Gerry ao seu lado esforçava-se para não rir.
- Boa tarde, senhorita. Algum problema com seu carro? Ele está atrapalhando o trânsito, se ainda não percebeu. Quer ajuda para remover o veículo para o meio-fio?
- Não, senhor guarda... O carro não tem problema algum. É que... – ela procurava uma desculpa desesperadamente.
- Então, por favor encoste e me dê seus documentos.
- Desculpe, senhor policial – interferiu Gerry com o sorriso mais simpático do mundo – É que minha amiga viu um rato enorme atravessando a rua e, como ela tem uma terrível fobia a estes pequenos roedores, assustou-se e acabou pisando no freio reflexamente.
- Ei, você não é o ator daquele filme... Como é mesmo o nome? ... 300? – o guarda parecia agradavelmente surpreso com o reconhecimento – Puxa, minha mulher é sua fã. Aquele filme foi muito bom!
- O senhor não quer que eu encoste? – interveio Samantha sentindo-se excluída da conversa e sem saber o que fazer para sair daquela situação.
- Ah, claro. Por favor – respondeu ele, fazendo alguns gestos para os carros que tentavam continuar o seu fluxo através da avenida, a fim de facilitar a saída de Sam para a direita e o estacionamento do automóvel.
Assim que conseguiu encostar na calçada, o policial continuou:
- Será que o senhor poderia me dar um autógrafo? – solicitou sem nem ao menos olhar para Sam, que olhava indignada para a cena que se apresentava a sua frente, olhando de um homem para o outro.
- Com o máximo prazer! Tem algum papel e caneta? – Gerry mostrava-se extremamente solícito.
- Pode colocar aqui neste bloco, por favor – falou, alcançando sua caderneta de anotação de multas.
- O senhor não quer ver meus documentos? – tentava Sam chamar a atenção do homem de quepe, que parecia não se importar mais com ela.
- Qual o nome de sua esposa? – perguntou Gerry, ainda com aquele sorriso de propaganda de pasta de dentes estampado no rosto.
- É Dorothy, senhor... – ele parecia mais extasiado a cada minuto que passava – Se não for pedir muito, poderia fazer um outro para minha filha? O nome dela é Suzanne.
- Claro. Hoje estou com tempo...
Sam começava a ficar entediada com aquela conversa mole, enquanto segurava os documentos que tirara da bolsa.
- Puxa, elas não vão acreditar que eu o conheci pessoalmente... Veio filmar aqui na cidade com este pessoal que está aí?
- Sim. Devemos ficar aí até... Até quando mesmo, Sam?
Finalmente alguém se lembrara de sua presença por ali.
- Mais uma semana – disse secamente
- O que precisar de mim, estarei às suas ordens, senhor... – olhou o autógrafo que Gerry lhe entregara – Butler? É isso, não?
- Sim, senhor. Muito obrigado por sua cooperação, policial – respondeu, oferecendo a mão em cumprimento, passado-a diante do rosto de Sam, e quase batendo nela, quando foi devolvida a saudação com entusiasmo, com um chacoalhar de braços.
- Ahhham... – Samantha arranhou a garganta para chamar a atenção do agora deslumbrado fã, já impaciente e preocupada com o horário – O senhor vai querer meus documentos ou não?
- Pode deixar. Peço-lhe desculpas pelo estado de limpeza de nossas ruas que permitem ter ratos deslizando por aí para assustar jovens motoristas como a senhorita. Pode estar certa de que farei uma reclamação formal no departamento de limpeza pública, para que este tipo de incidente não ocorra mais.
- Muito obrigada, senhor policial – agradeceu Gerry.
“O que ele está querendo? Que o homem lhe dê um beijo no meio da rua?”, pensou Sam.
- Pode seguir tranquila, senhorita. Foi um grande prazer, senhor! – despediu-se, enquanto fazia novos gestos para o trânsito de automóveis, facilitando a saída da camionete para continuar seu percurso.
Enquanto Gerry e o guarda trocavam acenos de mão, continuando o ritual de despedida, Samantha permanecia calada. E assim ficou por mais de um minuto, enquanto Gerry a olhava pelo canto do olho, esperando alguma manifestação por parte dela.
- Não vai dizer nada? – ele não resistiu e perguntou curioso e divertido.
- O que quer que eu diga?
- Acabei de livrar você de uma multa. Fiz uma bela economia aos cofres da sua produtora. Não vai ao menos agradecer?
- Agradecer o quê, se foi você o causador daquela situação?
- Pensei que você fosse mais cuidadosa no trânsito... – disse com sarcasmo evidente.
- É melhor calar-se se quiser continuar neste carro – Sam sentia a pressão sanguínea alterar-se a cada minuto, com as têmporas a latejarem violentamente.
Gerry sentiu que ela estava chegando ao seu limite, por isso resolveu permanecer calado até chegarem à cabana.


Estão gostando? Espero poder voltar amanhã com a continuação, mas não posso garantir pois não tenho certeza se conseguirei escrever a próximas dez páginas que pretendo. Prometo fazer o possível...
Beijos!!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A APOSTA - continuação...

- O que você está fazendo aqui? – perguntou furiosa e sentindo seu rosto em chamas.
- Eu que pergunto. Deram-me a chave desta suíte dizendo que meu colega de quarto já estava aqui. Não sabia que era você. Estou tão surpreso quanto você. Agradavelmente surpreso, agora... – falava num tom perigosamente sedutor.
- Saia daqui imediatamente. Deve ter havido algum engano. Reservei um apartamento só para você. Sem companheiros de quarto
- Então foi você quem fez as reservas?
- F-fui eu... – disse, tentando imaginar o que ele queria insinuar com aquela pergunta.
- Então foi você que planejou isto... – ele já estava de pé, avançando mansamente em sua direção.
- Planejei... O quê? Você está louco! Certamente houve um lamentável engano – ela já estava ficando alarmada com a atitude intimidadora dele.
Começou a andar para trás, tentando evitar a sua aproximação.
- Às vezes somos traídos por nossos desejos... – sua voz parecia mais rouca que o habitual e seus olhos pareciam querer devorá-la.
- Não! Deve ter havido um erro na recepção. Eu tinha determinado que ficaria sozinha.
- Mas que egoísmo... Por que não dividir? – disse ele, sem desviar o olhar sedento.
- Afaste-se... – ela estava acuada contra a parede. Até já podia sentir o perfume dele envolvendo-a...
Sem tocá-la, mas já roçando em seu roupão, disse:
- Talvez esta seja a chance para nos conhecermos melhor e parar com as discussões bobas.
Samantha tremia dos pés à cabeça. Podia perceber a respiração quente e ofegante dele em sua testa.
- Por favor... Afaste-se... Você está sendo inconveniente. Já não basta ter entrado aqui na hora em que estou saindo do banho? Ainda quer me deixar constrangida com esta conversa sem nexo?
- Você está constrangida? Por quê? Você me parece tão excitada quanto eu... – falou quase num sussurro, abaixando-se e aproximando a boca tentadora dos lábios de Samantha.
- Afaste-se! – gritou ela, empurrando-o com força, fazendo-o perder o equilíbrio e cair sobre a cama.
Quando ela se deu conta estava caída sobre ele, pois fora arrastada junto na queda.
- Assim está melhor ainda... – disse Gerry, enquanto ainda a segurava firmemente pela cintura e nas nádegas.
Samantha debatia-se feito uma doida, quando sentiu as mãos dele a acariciá-la sobre o roupão. Sentiu-se fraquejar. Não conseguia mais desviar o olhar dos olhos de verde intenso, ardentes de desejo. Tentava controlar a vontade de abraçá-lo e beijá-lo, mas já se sentia irresistivelmente atraída por ele. Seu corpo começou a ceder àquele toque e a ansiar por mais e mais íntimas carícias. Seus lábios já estavam muito próximos quando ouviram duas batidas secas na porta.
Como que despertos de um sonho, olharam-se desajeitados. Samantha voltou a tentar libertar-se dos fortes braços que a mantinham presa. De repente, eles não ofereceram mais resistência alguma, possibilitando a ela rolar de cima dele para a cama e levantar-se, fechando rapidamente o roupão que se abrira durante a “discussão”. Respirou fundo e correu até a porta.
- Sim? – perguntou com voz trêmula, antes de abrir.
- É o gerente, senhora.
- Ahn, sim... Só um momento.
Olhou para Gerry que estava sentado na beirada da cama, com expressão desanimada. Quase chegou a ter pena dele.
- Pode levantar-se daí, por favor?
- Por quê? – perguntou com certa irritação.
- Por favor... Não quero que o gerente o veja aqui – não havia autoritarismo em sua voz. Ela apenas pedia. Quase implorava.
Percebendo que Samantha estava com vergonha de ser pega pelo gerente com um homem em seu quarto, apenas de roupão, Gerry levantou-se e foi para o banheiro recompor-se.
Só então, ela respirou fundo novamente e abriu a porta.
- Sim?
- Senhora, gostaríamos de pedir desculpas, mas infelizmente ocorreu uma troca das reservas. Este não é o seu apartamento... Senhorita Samantha Majors, não?
- Sim...
- A pessoa que causou esta confusão já foi severamente advertida. Gostaria que nos perdoasse pelo incômodo. O seu apartamento é um single e já está pronto à sua espera. Esta é a sua chave. Já mandaremos alguém arrumar esta suíte para podermos acomodar o Sr.... Gerard Butler – confirmou o nome numa folha com o timbre do hotel que estava em sua mão.
- Está bem. Vou terminar de me arrumar e já faço a troca.
Dizendo isso, sem despedir-se do gerente que a olhava a espera de uma repreensão, fechou a porta lentamente. Em outra situação teria reclamado e insultado o homem, mas não conseguira forças para tal. Sentia-se estranha, como se estivesse fora de seu corpo.
Gerry ainda estava no banheiro quando ela se voltou para o interior do apartamento. Automaticamente começou a arrumar suas coisas. Estava confusa quanto aos seus sentimentos, com o que acabara de sentir e ainda sentia. Se não fosse o gerente do hotel ela teria se entregue àquele homem...
- O que ele queria? – perguntou Gerry ao entrar no quarto.
- Houve um engano a respeito desta suíte. Vou mudar daqui agora e verificar se aconteceu mais alguma confusão.
Ele aproximou-se dela e perguntou próximo ao seu ouvido, enquanto ela permanecia imóvel.
- Se quiser continuar aqui, não vou me opor...
Ela corou e já ia tentar contestar aquela impertinência dele, quando mais uma vez bateram à porta.
- Raios! – exclamou Gerry indignado com a nova interferência.
- Você atende – determinou ela – Vou colocar minha roupa e sair daqui o quanto antes.
Ele apenas ficou olhando enquanto ela enquanto andava, com suas roupas penduradas no braço, na direção do banheiro.
- Gerry! Me disseram que talvez a Sam estivesse aqui. Ocorreram algumas trocas de nomes e apartamentos por parte do setor de reservas, mas parece que já está tudo resolvido. Por acaso você não viu a Sam? – disse Farrell que entrava quarto adentro, falando sem parar, tão logo Gerry abriu a porta.
- Não sei onde aquela menina se meteu. Ela ainda não apareceu no apartamento reservado para ela. Não a encontro em lugar algum... Tudo bem? – perguntou, fazendo uma pausa no seu monólogo, ao notar a expressão séria do amigo, cujo normal era estar sorridente ou fazendo alguma piada sobre a situação do momento.
- Sente-se aí um pouco. Depois eu explico – solicitou Gerry.
Foi então que a porta do banheiro se abriu e Samantha saiu já vestida.
- Sam?? – surpreendeu-se Farrell – O que está fazendo aqui? Assim...
Farrell olhava de um para o outro, tentando compreender o que tinha acontecido entre os dois. Sam de cabelos úmidos e Gerry com aquela expressão estranha na face.
- Estou mudando de quarto, Joseph. Houve um engano, como você já deve saber. Depois a gente conversa. O senhor Butler pode explicar o que houve... Eu acho. Até mais.
Samantha pegou sua mala e dirigiu-se para a porta.
- Não quer ajuda com sua bagagem? – perguntou Gerry, sem graça.
- Não, obrigada – sua voz soou tímida e suave, de uma forma como ele ainda não tinha ouvido.
Saiu sem fazer ruído, deixando os dois homens entreolhando-se.
- Gerry, o que vocês andaram fazendo?
- Infelizmente, nada – disse Gerry jogando-se sentado sobre o sofá.
- Gerry, não somos exatamente amigos íntimos, mas sei da sua fama com as mulheres. Nunca se prendeu a ninguém. Também sei que em sua profissão não é fácil encontrar alguém que compreenda a sua maneira de viver ou que aceite os frequentes compromissos, festas e reuniões onde as mulheres se jogam sobre você como moscas no mel. Você é um cara simpático, de boa índole e sei que vai entender o que estou tentando lhe dizer. Conheço Samantha desde que ela era só uma garota. O seu pai era um grande amigo meu. Depois que ele faleceu, há três anos, eu meio que assumi a posição dele. Nunca tive uma filha mulher e os meus filhos não estão nem aí para mim. Por isso não vou admitir que você brinque com os sentimentos dela, apesar de ter você em grande conta e admirá-lo pelo seu trabalho e dedicação. Sam já sofreu muito nas mãos de homens inescrupulosos, por isso se tornou esta mulher fria e eficiente em seu trabalho, dedicada ao extremo à vida profissional, anulando totalmente o seu lado mulher.
- Olhe, Farrell, Nem eu sei o que está acontecendo. Quando entrei neste quarto, vi que tinha alguém tomando banho. Achei que era algum companheiro de quarto. Falaram na recepção que eu dividiria o quarto com alguém. Fiquei aguardando até ele sair, sentado neste sofá. Foi quando vi a Samantha vinda lá de dentro, despindo a toalha que a envolvia para vestir um roupão. Fiquei extasiado diante da beleza dela e... Talvez eu tenha dito ou feito alguma bobagem...
- Você tentou forçá-la a alguma coisa? – Farrell estava perplexo.
- Não, claro que não... Acho que não. Aí, o gerente do hotel apareceu e o instante passou. Não posso negar que ela me atrai e muito... Mas não se preocupe. Vou tentar manter-me afastado dela.
- Talvez seja o melhor para vocês dois... – falou, acentuando as rugas de sua testa, preocupado - Bem, vou tentar achar o meu próprio quarto e depois ver se consigo falar com Sam. Até mais... – despediu-se de Gerry e saiu.

Depois de acomodar-se em seu novo apartamento, Samantha foi verificar com a gerência o que tinha acontecido e se todos já estavam acomodados em seus cômodos. Quando estava na recepção, Steve passou por ela e queixou-se da confusão que acontecera e aproveitou para falar sobre sua amiga:
- Lindsay estava furiosa por não ter sido colocada aqui neste hotel.
- Vocês sabem muito bem que os técnicos, como maquiadores, iluminadores e outros, não ficariam aqui. Este hotel foi escolhido para abrigar apenas o primeiro escalão, o que o incluiu. Além do mais, conhecendo a fama de Lindsay de gostar de passar em revista os atores principais das produções, acho que é melhor ela ser mantida à distância daqui durante a noite.
Ele não pode deixar de rir do comentário sarcástico de Samantha. Aquilo era verdade. Ela andava louquinha para “atacar” o Gerry, mas ele ainda não tinha lhe dado muita chance. Parecia estar mais interessado em cumprir sua missão da aposta. Viu Samantha afastar-se, mantendo o sorriso maldoso por pensar que logo a veria pagando por sua empáfia. Pelo menos confiava no poder de sedução de Butler.
Samantha, por sua vez tentava não pensar no que acontecera, trabalhando mais, atenta aos mínimos detalhes da produção. Sentia-se diferente, mas queria evitar que isto interferisse na sua atividade. Volta e meia lembrava do que sentira quando envolvida nos braços de Gerry e tentava imediatamente afastar aqueles pensamentos.

À noite, Joseph a procurou para convidá-la para o jantar que reuniria os participantes da equipe num dos restaurantes próximos ao hotel, numa espécie de confraternização. Pensou em conversar com ela sobre o que acontecera naquele início de tarde, mas ela negou-se a sair, alegando já ter feito um lanche antes de voltar ao hotel. Pediu desculpas e disse que aproveitaria para dormir, pois estava muito cansada e que teria de acordar muito cedo no dia seguinte para checar algumas locações no centro da cidade e ver se estava tudo ok. À tarde tinha planejado visitar a cabana onde filmariam algumas cenas em dois dias. Precisava certificar-se das condições do lugar, já que a locação original, devido à neve, tinha sido interditada por não ter condições de acesso
- Sam, não sei o que faria sem você. Mas quero que você não exagere. Até para a eficiência tem um limite. A vida não é só trabalho.
- Não se preocupe, Joseph. Você sabe que adoro o meu trabalho, portanto nada disso é um sacrifício para mim.
Ele a olhou com doçura de pai e disse:
- Precisamos conversar...
- Algum problema na produtora?
- Não. Na produtora está tudo ótimo. É a respeito de você que quero falar. Faz algum tempo que não conversamos.
- O que o Butler falou sobre mim?
- Por que você acha que vou falar sobre ele?
- Não sei... Supus devido ao que aconteceu no início da tarde.
- Ele não falou nada. Ele é um bom rapaz. Você pode confiar nele.
Ela engoliu em seco e baixou os olhos.
- Melhor você ir, senão vai perder a hora do jantar, Joseph.
- Boa noite, querida – despediu-se, finalmente, pegando sua mão e dando-lhe um beijo na testa. Resolveu voltar ao assunto em outra hora.

Já passava das dez horas da noite, quando Samantha ouviu batidas à sua porta. Estranhou, pois não pedira nada à copa e tampouco devia ser Joseph, pois havia dito a ele que dormiria cedo. Colocou seu robe e abriu uma fresta da porta.
- Boa noite – cumprimentou-a Gerry, parado a sua frente.
Seu primeiro impulso foi fechar a porta. Mas resolveu perguntar o que ele queria.
- O que quer? Você deveria estar num jantar fora daqui a esta hora.
- Estava sem fome e fiquei no hotel. Eu só quero conversar sobre o que aconteceu à tarde e pedir-lhe desculpas pelo meu comportamento.
- Aceito suas desculpas. Boa noite – respondeu rispidamente, já fechando a porta, no que foi impedida, pois Gerry colocou o pé no vão aberto.
- Por favor, senhor Butler, eu preciso acordar muito cedo amanhã.
- Sei que você não gosta de mim, mas eu tenho o direito de saber o por quê. Além disso eu tenho uma grande dificuldade em aceitar rejeições – suplicou com um meio-sorriso, o que a fez repensar na sua decisão de mandá-lo embora novamente.
- Aqui não é o local mais adequado para conversarmos e não quero que a situação de hoje à tarde se repita.
De repente aquela sua última frase soou-lhe extremamente falsa. “Não queria mesmo?”, perguntou a si mesma.
- Onde então? Aqui no corredor?
- Claro que não!
- Olhe, eu prometo me comportar. Só quero mesmo conversar.
Ela colocou a mão na cabeça, como se estivesse a procurar uma solução para aquele impasse. Não queria que percebesse que estava com medo de não resistir, caso ele a quisesse de novo.
Suspirou, olhou para ele e, finalmente cedeu:
- Está bem. Entre - convidou, dando passagem para ele entrar.
Ele sorriu satisfeito e entrou cauteloso no pequeno apartamento. Era bem menor que o seu pelo menos três vezes. Tinha apenas uma poltrona, ao lado de um simples aparador, em frente à cama de solteiro e um armário.
- Você está mal acomodada aqui, não? – comentou Gerry, olhando à sua volta.
- Era a melhor opção para não ter que dividir o quarto com outra pessoa. Assim pude ficar no mesmo hotel que Joseph, caso ele precise de mim.
Agora ela evitava olhá-lo nos olhos. Indicou a poltrona para ele sentar enquanto continuava de pé, com medo de sentar na cama e induzi-lo a algum tipo de intenção secundária.
- Não vai sentar-se? – ele perguntou.
- Não. Prefiro ficar de pé. Acredito que esta conversa será bastante curta.
Ele a olhou e ficou em silêncio por alguns instantes.
- Agora que está aqui, me diga o que tanto quer conversar – perguntou Sam impaciente.
- Primeiro gostaria de me desculpar pelo que aconteceu ou, quase aconteceu esta tarde. Não sei o que deu em mim. Talvez seja porque eu não resisto a uma mulher bonita e sem... toalha.
- Por favor, me poupe de detalhes – exclamou ruborizando – Já disse que o desculpei.
- Em segundo, como disse, tenho dificuldades em aceitar rejeições, seja de quem quer que seja. Gosto de manter um relacionamento amigável com as pessoas com quem trabalho. Acho que atuo melhor num ambiente sem hostilidades. Continuo sem entender o por quê desta sua antipatia por mim.
- Não é antipatia, senhor Butler. Eu apenas faço o meu trabalho. As pessoas costumam achar que sou antipática, quando na verdade sou apenas uma profissional exigente, tentando fazer o meu trabalho da melhor maneira possível. Prometo tentar ser mais agradável, para não macular o seu ambiente de trabalho – sua última frase soou quase como uma ironia.
- Por que esta muralha que você se impõe frente aos outros? Medo de relacionar-se?
- É só uma impressão errada, senhor Butler.
- Páre de me chamar de “senhor Butler”. Me chame de Gerry! – falou, claramente irritado com a forma com que estava sendo tratado por Sam – E olhe para mim enquanto conversamos. Não confio em pessoas que não me olham nos olhos enquanto falam.
- Pois bem, senhor... Gerry. Estou tentando entender aonde você quer chegar com toda esta conversa e confesso que já estou cansada dela. E não precisa desculpar-se a cada vez que nos encontramos. Isto está se tornando muito frequente e desnecessário. Creio que já falamos tudo que tínhamos para falar.
Ela sentiu-se estremecer ao olhá-lo nos olhos. Esperava que ele não tivesse percebido seu nervosismo.
- Então vou ser mais claro... - ele parecia pouco à vontade para seguir em sua explicação - Acho que rolou um clima entre nós hoje à tarde que eu gostaria de repetir e levar adiante. Gostaria de ter de novo em meus braços “aquela” mulher linda e carente que estava pronta a entregar-se a mim há poucas horas atrás. Gostaria de conhecer melhor “aquela” mulher. Acho que mais claro que isto, não consigo ser. Dê esta chance para você... Para nós.
Samantha não sabia o que dizer. Seu coração estava aos pulos e tentava em vão disfarçar a excitação do momento. “Ele precisava ser tão direto?”, refletiu..
Não querendo instigá-la ainda mais e assustá-la com a sua declaração tão incisiva, terminou por dizer:
- Bem, eu já disse o que queria. Vou deixá-la descansar. Mas pense no que eu disse...
Levantou-se da poltrona e caminhou até Sam, que permanecia como que paralisada junto ao armário. Aproximou-se e, sem que ela desse sinal de aversão, beijou sua face carinhosamente. Afastou-se logo em seguida, deu boa noite e, sem esperar resposta, saiu.


Ainda ansiosas? Ainda vai ter mais...amanhã! Beijinhos!!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A APOSTA - continuação

Assim, ele encaminhou-se diretamente para a mesa da assistente de produção e parou de pé ao seu lado, aguardando que ela o notasse. Depois de aguardar alguns segundos, recebeu o olhar indagador e sisudo de Samantha, que se manteve calada, como que esperando uma explicação para aquela presença junto à sua mesa.
- Posso sentar-me aqui?
Ela continuou olhando para ele com intensidade e, impassível, disse:
- Não.
Sem ligar para a resposta, ele puxou a cadeira vaga defronte a dela e sentou-se, encarando-a.
- Acho que você não me entendeu – repreendeu-o com olhar faiscante de desprezo – Eu disse NÃO.
- Eu entendi, mas estou aqui para me desculpar por minha grosseria inconsciente, hoje pela manhã...
- Desculpas aceitas – cortou ela – Agora, por favor, pode voltar para sua mesa e seu agradável grupinho de amigos.
- Vi que está lendo um bom livro. Eu o li há uns quatro anos. “The Wind-Up Bird Chronicle, do Haruki Murakami – ele tentou mudar o rumo da conversa, fazendo que não percebera a hostilidade por parte dela.
Ela resfriou ainda mais o olhar, como se isso fosse possível.
- Espero que não queira me contar o final do livro.
- Absolutamente. Não sou este tipo de pessoa.
- E que tipo de pessoa o senhor é, senhor Butler? Do tipo que dá cantadas no meio de restaurantes em mulheres sozinhas?
- E quem disse que estou dando uma cantada em você? – respondeu com um sorriso cínico – Acho um pouco de presunção de sua parte. Estou apenas tentando ser gentil e desculpar-me.
- A presunção e a falta de educação são suas. Já desculpou-se e tentou ser gentil. Agora, me deixe... Por favor.
Ele começava a ficar sem jeito, mas não queria desistir tão facilmente. Podia sentir os olhares atentos do trio que ficara em sua mesa.
- Por que esta animosidade? Estou apenas tentando fazer as pazes com você. Acho que começamos mal. Já que vamos trabalhar juntos por um bom tempo, por que não melhorar o clima entre nós?
- O “bom tempo” ao qual se refere é efêmero. Não vejo a necessidade de maior intimidade. Quando este trabalho acabar, acabou... – respondeu com olhar enfadado, para logo em seguida voltar à leitura de seu livro.
Ele estava impressionado e indignado com a resistência dela em ceder ou ser mais simpática.
- Bem, já que é assim... Desculpe ter-lhe feito perder estes minutos preciosos do seu tempo.
Butler levantou-se e a deixou a ler o seu livro. Ao virar as costas, não percebeu o discreto olhar preocupado de Samantha acompanhando-o por cima da capa do livro.
“Ainda vou me indispor com o Joseph por causa dele...”, pensou.
Voltando à sua mesa, encontrou os três novos amigos ansiosos por saberem como tinha sido o diálogo.
- Acho que vou topar o “desafio”. O que eu ganho com isso?
- Nós lhe pagamos um jantar onde você escolher.
- Se eu perder?
- Você paga um jantar para nós três.
Lindsay parecia animadíssima. Já pensava em combinar com os outros dois amigos a possibilidade de eles não comparecerem ao jantar da vitória, de quem quer que fosse, e deixá-la a sós com Gerry, pelo qual ela estava interessadíssima.
- Eu não costumo fazer isso, mas ela foi tão esnobe comigo que acho que merece uma lição.
Ainda deram algumas boas risadas até o final do almoço, enquanto Samantha permaneceu fiel a sua leitura, sem perceber que estava tornando-se alvo de um jogo.
.
Até o final do dia, Gerry e Sam tentaram evitar-se. Às vezes seus olhares se cruzavam e ele quase podia perceber algum interesse dela, mas eram apenas algumas frações de segundos e logo o brilho de seu olhar extinguia-se. Percebeu que as únicas pessoas com as quais ela conseguia relacionar-se com um sorriso eram Farrell e MacAlister.
Na sexta-feira, Gerry levou sua pug, Lolita, para acompanhá-lo ao Ultimamente tinha pouco tempo disponível para ficar com ela e, como naquele dia não tinha muitas cenas a rodar, decidiu que sairiam para passear nos intervalo do trabalho. Deixou-a aos cuidados de sua assistente. Porém, quando voltou, encontrou a mulher desesperada a procurar a cadelinha por todo o canto sem achá-la. Gerry saiu em sua busca. Quando já estava certo que ela fugira para a rua, viu Samantha, num canto do estúdio, abraçando e confortando Lolita, que estava alegre em seu colo, abanando entusiasmada o rabinho. Ficou surpreso ao vê-las, pois não conseguia imaginar Samantha gostando de animais. Aproximou-se silenciosamente delas e, depois de observá-las um pouco mais, disse:
- Vejo que Lolita arrumou uma nova amiga.
- Ela é sua? – perguntou Samantha meio sorrindo, pois a cadelinha começava a lamber seu rosto mais uma vez.
- Sim, é minha – respondeu, pensando que afinal, Samantha não devia ser tão ruim assim. Lolita não costumava enganar-se com suas amizades.
Imediatamente, ela entregou Lolita para ele, dando, instintivamente, um beijo na mascote antes.
- Então, você deveria cuidar melhor dela e não deixá-la por aí à solta. Eu a encontrei presa entre estes cavaletes – falou autoritariamente, enquanto ele segurava o animal entre as mãos, e saiu andando.
Ele praguejou baixo ao vê-la sair daquela maneira e virou-se para Lolita, acariciando-a, e perguntou:
- Qual é o segredo dela?Você descobriu?
Lolita o olhou com ar de satisfação e o lambeu no rosto também.
- Estou vendo que essa aí é páreo duro... – confessou à sua companheira fiel.

Na manhã seguinte, durante um intervalo para o lanche, Gerry procurava um lugar para sentar, quando viu Samantha destratando uma das costureiras que não aprontara algumas das roupas que tinham de ser usadas nas cenas seguintes. Imediatamente, ele partiu em defesa da mulher, que era uma senhora de mais idade e com aspecto humilde.
- Por que você a está tratando desta maneira? O que ela fez? – perguntou indignado.
- Não se meta, senhor Butler, por favor! – repeliu-o com vigor – Pode ir agora e que isto não se repita mais – ordenou à mulher, que saiu chorando e pedindo desculpas.
- Por que você tinha de falar com ela daquele jeito. Olhe o estado em que a pobre ficou.
- A pobre senhora que você está defendendo é alcoólatra e não acabou seu serviço porque tomou “todas” durante seu expediente – exasperou-se ela – Peço que não se intrometa mais no meu trabalho.
Ele não podia admitir que ela lhe falasse daquela maneira.
- Você a humilhou – disse ele – Não podia adverti-la de forma menos agressiva?
- Que tal se fizer apenas o seu trabalho, enquanto eu cuido do meu?
- Por isso você tem esta tremenda fama de antipática. É tão difícil ser mais meiga e menos hostil com as pessoas com quem trabalha? Qual é o seu problema?
Ele tentava manter um tom de voz mais baixo para não chamar a atenção. Por sorte estavam todos distraídos com o lanche e distantes dos dois.
- O meu problema? – apesar da indignação com o protesto de Gerry, também tentava não chamar a atenção, falando sem gritar, como era sua vontade – Vou lhe dizer qual é o meu problema. É ter de trabalhar com pessoas como você que acham que tudo pode ser levado na “brincadeira”, prepotente e irresponsável.
Ao ouvir a última palavra dela, enfureceu-se e a pegou pelo braço, com força, fazendo-a gemer de dor.
- Você pode me chamar do que quiser, mas jamais de irresponsável.
Ela se assustou com a explosão de raiva dele e percebeu que exagerara no linguajar.
- Me solte, por favor... – disse, tentando desvencilhar-se daquela garra de aço.
- Só depois que você voltar atrás no que disse.
Sentiu que se não se desculpasse perderia a circulação do braço em breve.
- Talvez eu tenha exagerado. Retiro o termo irresponsável, pois não o conheço o suficiente para afirmar isto... mas, prepotente e inconveniente, não – afirmou olhando-o desafiadoramente.
Ele afrouxou um pouco a força do aperto em torno de seu braço e ficou a fitá-la com seus olhos verdes faiscantes de cólera.
- Você deve ter sofrido muito para se tornar uma pessoa tão amarga e hostil. Eu gostaria de poder ajudá-la, mas parece que você construiu uma barreira tão sólida em torno de si mesma, que a torna inacessível. Talvez não valha a pena tanto esforço...
Subitamente ele sentia-se extremamente desanimado, o que ela pode perceber pelo modo como seus olhos escureceram o brilho de antes. Paralisada e chocada com as palavras dele, viu-o soltá-la, virar-se e, simplesmente ir embora. Gerry nem percebeu que os olhos de Samantha tornaram-se turvos, cheios de lágrimas acres, nascentes de uma profunda dor em seu coração e sua alma. Foi quando a voz de Farrell chegou até seus ouvidos, chamando-a insistentemente.
- Sam, Sam!
Rapidamente ela secou os olhos, tentou esboçar um sorriso e respondeu:
- Estou aqui, Joseph!
- O que está fazendo aqui. Estava a sua procura... – ele parou de falar, pois percebeu que alguma coisa não estava bem. Notou os olhos vermelhos de sua assistente – O que houve, Sam? Algum problema?
- Não. Imagina... Está tudo bem. É que tive de passar um “sermão” na senhora Smith, a costureira. Ela estava bebendo em serviço.
- De novo? Quantas vezes você já a repreendeu? Melhor é despedi-la.
- Não, Joseph. A coitada tem um filho deficiente que depende só dela. Se ela perder este emprego, vai ficar na maior pobreza. Com a sua idade vai ser difícil de conseguir outro trabalho.
- Você e suas caridades, Sam. Depois os outros ainda falam que você não tem coração. Só eu sei.
- Deixe disso, Joseph. Melhor eu continuar passando por durona para que me respeitem...
- E não se aproximem muito, não é?
- É... – disse ela, com um meio sorriso, e abaixando a cabeça tristonhamente.
Joseph pensou em tentar saber mais sobre o motivo do evidente choro de Sam, mas não havia muito tempo para isso. Talvez mais tarde... Numa outra hora.

Finalmente a semana chegou ao fim. O domingo serviu para que todos descansassem para a viagem que teriam pela frente logo no dia seguinte. A produção havia fretado um avião que levaria a equipe principal para Breckenridge, no Colorado, onde teriam as locações junto às montanhas nevadas.
Sempre ao lado de Farrell, Samantha evitou o olhar de Gerry quando se encontraram no aeroporto. O produtor notou o mal estar entre ambos e não gostou. Daria um jeito de informar-se sobre como andavam as relações entre os dois. Não parecia ser das melhores.
Gerry acabou por sentar-se ao lado de Farrell durante o vôo. Samantha sentou-se sozinha numa poltrona cerca de seis fileiras à frente. No vôo também estavam Steve, Lee e Lindsay. Esta última, ao passar por Gerry, deu um sorriso fulgurante e sussurrou-lhe:
- Não esqueça da nossa aposta – e saiu sem dar chance a Gerry de dizer que já nem lembrava mais daquela bobagem e que já estava arrependido de ter entrado em tal jogo. Esclareceria isto mais tarde com o trio.
Assim que o avião partiu, Farrell virou para Gerry e disparou uma pergunta:
- Ela aprontou alguma com você?
- Quem? – fez-se de desentendido. Não queria prejudicá-la, apesar de tudo.
- Você sabe de quem estou falando. Da Sam – respondeu Farrell impaciente.
- Não, claro que não! Por que pergunta?
- Notei que vocês estão evitando até olhar-se. Falar então... Nada. O que aconteceu?
Depois de alguns instantes, pensativo, procurando as palavras certas para falar, de maneira a não embaraçar Samantha, Gerry finalmente respondeu:
- Só queria entender por que ela se comporta tão fria e distante de todos, com rispidez. Parece não ter sentimentos. Sinto que é só uma barreira, mas não entendo o por quê.
- Eu diria que ela está um pouco pior, principalmente depois que o conheceu. A couraça fechou-se um pouco mais depois disso. Você deu em cima dela?
- Não! Como assim?
- Não?
- Bem, na verdade, não posso negar que ela desperta sentimentos controversos em mim, mas... É complicado – falou sentindo-se confuso e inibido por estar discutindo um assunto íntimo com alguém que conhecia há tão pouco tempo. Ficou olhando para a janela do avião, procurando evitar pensar sobre o assunto.
Farrell resolveu respeitá-lo e parar com aquela conversa, apesar de estar tentado a contar algumas coisas de Sam que poderiam ajudar Gerry a entender melhor as atitudes dela. Não gostava que pensassem ou falassem mal de sua assistente. De certa forma, sentia-se responsável por ela.

Afinal, chegaram à Breckenridge, depois de duas horas de vôo e mais uma hora e 30 minutos de ônibus. Apesar do cansaço, devido principalmente pela espera nos aeroportos, todos concordaram que a escolha do local para as filmagens tinha sido perfeito. O lugar era belíssimo.
Chegaram a um dos hotéis escolhidos para hospedar os atores principais, diretor, produtor e assistentes. Foram feitas as fichas e distribuídas as chaves de cada um.
Samantha estava exausta e doida por um banho. Notou com surpresa que tinham lhe dado um quarto com duas camas, sendo que reservara um quarto para uma pessoa, com o intuito claro de ficar sozinha. Nada mais a fazer do que aproveitar a sorte. Atirou-se sobre uma das camas e fechou os olhos, aproveitando a sensação de bem estar oferecida pela maciez do edredom de penas de ganso sobre um colchão de molas. Depois de um minuto de relaxamento, foi para o desejado banho.
A água quente corria por seu corpo causando-lhe um amolecimento gostoso. Andava muito estressada ultimamente. Sua mania de tomar conta de tudo, sem dividir encargos com o restante da equipe era a responsável por isso. Talvez devesse seguir o conselho de Joseph para procurar ajuda neste quesito... e em alguns outros. Às vezes se perguntava até quando conseguiria manter este ritmo, afogando-se no trabalho, para esquecer sua vida pessoal e seu passado, evitando qualquer forma de sentimento por alguém... Gerry Butler... A imagem dele invadiu seu pensamento instantaneamente. Naquela última semana se pegava pensando nele com mais freqüência que o desejado. A sua figura a irritava mais do que qualquer outra pessoa. Não via a hora de acabar com aquela produção e ficar livre da presença dele. Arrepiou-se quando abriu os olhos e viu-se no espelho do banheiro enquanto estava sob o chuveiro, com aqueles pensamentos em mente. Ela estava sorrindo bobamente. Devia estar ficando louca. Era o estresse. Como podia pensar mal de alguém e sorrir ao mesmo tempo?
Desligou a água, enrolou-se na grande e felpuda toalha branca e olhou mais uma vez no espelho. Os cabelos castanhos molhados caindo desalinhados sobre o rosto corado em decorrência do calor do banho. Lembrou-se de como era quando ainda tinha ilusões a respeito dos homens. Sacudiu a cabeça, tentando afastar aquelas idéias estúpidas e foi para o quarto, onde pensou ter visto um roupão sobre a cama. Lá estava ele. Tirou a toalha, jogando-a ao chão e abriu a embalagem que continha um grande roupão atoalhado, fofo e branco como as toalhas. Vestiu-o e aconchegou-se dentro dele, soltando um suspiro longo e relaxado.
- Acho que vou aproveitar e tomar um banho também. Pelo visto está bastante relaxante... – soou a voz grave e rouca, como um alarme aos ouvidos de Samantha, vinda da ante-sala do apartamento onde havia um sofá de dois lugares, defronte ao quarto.
Ela soltou um grito, assustada com aquela presença inconveniente. Cobriu-se com as mãos, retraindo-se como se estivesse nua. Mais alarmada e vexada ficou quando se deu conta de que acabara de ficar totalmente sem roupas diante de Gerard Butler.


Continua amanhã...