quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Erik - Capítulo XIII

Fechei a porta de meu novo quarto, indignada com o tratamento a que tinha sido submetida por aquele Erik e por meu irmão. Adorava Paul, mas, ás vezes, ele podia ser bem irritante. O modo como o estranho mascarado me questionara tinha me assustado. Sua voz forte e imperativa me causara arrepios. Paul já tinha falado sobre ele, sobre o seu defeito no rosto e sua austeridade. Não imaginava encontrar um homem imponente, de grande estatura, forte, com olhos verdes profundos e um rosto atraente, pelo menos na face descoberta... De qualquer maneira, tinha sido um estúpido grosseiro ao tratar-me daquela forma, minutos atrás. Mas, não deixaria que ninguém estragasse minhas primeiras impressões da nova vida.
Mal podia acreditar no que estava acontecendo. Parecia um sonho. Quando a carruagem entrou nas ruas de Londres, beliscara-me para verificar se aquilo era real. Tudo era muito diferente de Stansted, aquele fim de mundo onde morava a “Bruxa”, minha adorável tia. Não imaginava que pudesse existir pessoa mais mesquinha, estúpida e abominável que aquela. Graças a Deus, meu irmão viera salvar-me de uma morte lenta naquele lugar. Mais um pouco e viraria uma morta-viva.
- Ponha esta cabeça para dentro antes que você a perca pelo caminho, antes de chegarmos em casa – gritara meu querido salvador.
Olhara fascinada para os lindos chapéus emplumados ou cobertos por flores, de grandes abas, que enfeitavam a cabeça das elegantes mulheres que desfilavam nas ruas, acompanhadas por finos cavalheiros ou por velhas damas de companhia. Quantas lojas diferentes, a movimentação intensa de coches, indo e vindo. Não. Não seria este senhor Erik que desbotaria o brilho deste dia inesquecível.
Ouvi uma batida leve na porta.
- Quem é? – perguntei, desconfiada que pudesse ser Paul e seu amigo.
- Sou eu, Emma.
- Sim? O que quer?
- O almoço está servido, senhorita.
Fiquei na dúvida se deveria descer e encontrar novamente aquele “senhor”. O seu olhar havia me perturbado. Não! Não o deixaria me incomodar.
- Obrigada. Já vou descer.
Acabei por trocar de vestido, colocando algo mais adequado para a ocasião. O primeiro almoço na residência de meu irmão em Londres. Não podia descer vestida com aquela indumentária horrorosa feita por minha “querida” tia, especialmente para nossa viagem. Não sei como havia sido convencida a vestir aquilo. Talvez fosse por ser a última vez em que a veria.
- Então? Já está mais calma? – perguntou Paul, com seu conhecido sorrisinho irônico quando me viu entrar na sala.
- Você deveria perguntar isto ao senhor Erik, não a mim.
Nossos olhares se cruzaram mais uma vez. Estremeci.
- Gostaria de pedir-lhe desculpas por meu comportamento. Não era minha intenção provocar impressão tão desagradável na irmã de meu grande amigo. Espero que possa reverter este mal estar causado na senhorita.
Sua voz tornara-se mais suave e agradável.
- Está bem... Está desculpado. – respondi após alguns segundos de silêncio.
- Bem, vamos sentar e almoçar? Encerramos a sessão de desentendimentos? Vamos ser todos amigos? – Paul tentava quebrar o clima tenso que estava no ar.
O almoço iniciou ainda com ânimos pouco apaziguados e mudos. O primeiro a dissolver a nuvem de ressentimentos foi, surpreendentemente, “ele”.
- Paul falou-me que a senhorita gosta muito de música – sua voz realmente era linda e provocante.
- É, gosto.
- Você toca piano muito bem.
- Como o senhor pode saber, se estava mais preocupado em expulsar-me de casa quando me encontrou?
- Cathy!– exasperou-se, Paul.
- Não se preocupe, Paul. A senhorita Catherine tem toda a razão para ainda estar irritada comigo. Saiba que eu pude ouvi-la tocar tempo suficiente para notar o dom musical nas suas notas. Gostaria de dizer-lhe que poderá tocar quando quiser, se isto a fizer feliz. Comprei este piano ontem para meu uso, mas agora faz parte da casa e é de todos nós. Não tinha idéia de que teria mais alguém para compartilhar deste meu prazer.
Não tive como não me render àquelas palavras gentis, ditas de maneira tão cativante.
- Fico muito agradecida com seu oferecimento – falei o mais secamente que pude, ainda tentando manter-me na defensiva.
- Eu não sabia desta nova faceta criativa entre suas qualidades, Erik – indagou Paul.
- Talvez o senhor pudesse nos agraciar com sua música após o almoço? – falei para provocá-lo um pouco.
- Infelizmente, maninha, Erik e eu teremos de ir à loja agora à tarde para resolver os últimos detalhes, antes de abri-la amanhã, pela manhã. Temos que começar a ganhar dinheiro o mais rápido possível. Até agora só tivemos despesas. Não fosse a sociedade com Erik, que tem colocado seu próprio capital no negócio, não sei como estaríamos.
- Paul, nós somos sócios e nada mais justo que eu cubra metade das despesas.
- Bem, então vamos terminar de almoçar e tratar de negócios depois.
- Que tal após o jantar? – perguntei intrometidamente.
- O quê? – perguntou Paul.
- Que tal o senhor Erik tocar para nós após o jantar?
- Ah! Claro. Como quiserem. Será um prazer – respondeu ele, elegantemente.
O almoço transcorreu tranquilo até o final. Ânimos apaziguados, pude observar melhor o meu antagonista de uma hora antes. Tinha maneiras requintadas, contidas, um olhar tristonho, mesmo quando tentava esboçar um sorriso. Parecia carregar uma desilusão muito grande com algo ou alguém. O que escondia atrás daquela máscara, além de uma deformidade física?
Logo após terminarmos a sobremesa, ambos despediram-se de mim e foram para a joalheria.
Durante o início da tarde, não conseguia tirar aquele olhar e aquela voz de minha cabeça. Tentei distrair-me com a arrumação de meu quarto, mas sua figura continuava a assombrar-me.
Decidi sair e visitá-los de surpresa. Na vinda para casa, Paul havia me mostrado onde ficava a loja. Assim, não teria problemas em achá-la.
Precisava de roupas novas. Aqueles meus antigos vestidos só eram adequados para o campo, não para as distintas ruas londrinas. Estando com meu melhor vestido, não precisei preocupar-me em trocar de vestes, infelizmente.
Apesar dos protestos da senhora Emma, respirei fundo e mergulhei no movimento das calçadas da Dover Street. Era um novo mundo. Tinha vontade de cantar e dançar, mas achei que não ficaria muito bem. Apenas um sorriso nos lábios, que insistia em permanecer, denunciava a minha felicidade. Depois de uma dezena de paradas nas vitrines das cercanias, finalmente cheguei diante da Joalheria Marback. Achava estranho o senhor Erik não ter querido colocar seu nome junto ao nosso, já que sendo sócio, tinha este direito. A fachada era de muito bom gosto, com a porta em madeira entalhada, emoldurada por um grande arco retangular de mármore negro, com alguns discretos veios mais claros formando desenhos abstratos, onde se podia ver uma placa dourada com o nome da joalheria gravado. A vitrine era pequena, também emoldurada pelo mesmo mármore escuro, mas o veludo vermelho que forrava todo o seu fundo, realçava as belas jóias colocadas de forma estudada sobre ele. Era difícil passar por ali e não ter sua atenção captada por aqueles brilhantes e pedras preciosas. Fiquei orgulhosa de meu irmão. A faixa de “Breve Inauguração” ainda pendia sobre o mostruário. Toquei a campainha e fiquei aguardando. Logo, Paul apareceu, surpreso com minha aparição inesperada.
- Cathy! Como você veio até aqui sozinha?
- Ora, você tinha me explicado como chegar. Não foi difícil. Vai me deixar entrar ou vamos ter que ficar conversando no meio fio?
- Mas você é uma moça solteira. Não pode ficar andando por aí desacompanhada – falou ao mesmo tempo em que me deixava entrar.
- Ora, irmãozinho, já não sou nenhuma criancinha. Já estou ficando quase uma solteirona e você continua a me tratar como uma deficiente mental. Por favor!!
- Solteirona, porque você quer. Com o seu gênio... Mas logo daremos um jeito nisso.
- Como assim, daremos um jeito?
- Mudando de assunto, minha cara, já que chegou até aqui, o que achou?
- Está linda! – falei, ao ver encantada que, internamente, a joalheria lembrava aquelas lojas caríssimas que eu havia visto momentos antes de chegar ali. Um suntuoso lustre de cristal pendia sobre o centro da sala – Não tinha idéia que você tivesse tão bom gosto para decoração, Paul.
- O gosto é de Erik. Eu, pessoalmente, achei muito rebuscado, mas já vi que ele a agradou – falou em tom mais baixo.
- Eu ouvi isto, Paul – soou aquela voz de barítono, meio que rindo. Será que ele sabia cantar também?
Ele ultrapassou a cortina de veludo vermelho que separava a recepção da provável área da oficina. Logo ficou sério e disse:
- é um prazer recebê-la aqui, senhorita Catherine.
Começava a gostar do som que meu nome fazia ao sair de sua boca. Ele tinha um sotaque encantador. Paul havia me dito que ele era francês. Normalmente, eu preferia que me chamassem de Cathy, mas dito por Erik, meu nome inteiro soava como uma nota musical.
- O que vocês estão fazendo? – falei, já atravessando a porta onde ele estava postado, roçando de leve em suas roupas elegantes.
Logo vislumbrei sua suposta mesa de trabalho, com vários esboços de desenhos, alguns já finalizados, aparentemente. Já sabia que ele desenhava as novas jóias de Paul, só não tinha idéia de quanta criatividade ele era capaz.
- Ah! Mas que lindos desenhos. Será que meu irmão vai conseguir transformá-los em jóias reais, como merecem?
- Minha pequena intrometida, modéstia á parte, seu irmão aqui tem grande habilidade na ourivesaria. Vou lhe mostrar algumas de nossas criações já terminadas.
Ele pegou uma caixa de madeira que estava sobre sua mesa, colocada quase ao lado da outra, e abriu-a. As peças eram de uma delicadeza e beleza estonteantes, principalmente as filigranas. Não resisti e pedi para colocar um dos colares. Ele era formado por um lindo cordão de ouro e no centro pendia a silhueta de um buquê de rosas formadas por incrustações de brilhantes e rubis.
Broches, anéis, gargantilhas. Uma visão divina para qualquer mulher deixar-se atordoar. Fiquei admirada ao imaginar que todas aquelas formas haviam sido criadas por aquele homem de modos tão contidos. Ele tinha de ter uma alma muito sensível, coisa que não deixava transparecer. Um homem misterioso e muito interessante. Podia sentir os seus olhos buscando saber se eu aprovara o que via. Senti medo do que estava sentindo. Nunca experimentara aquela sensação antes. E ela não era desagradável.
- Acho que vocês vão ter muito trabalho pela frente. Talvez precisem de uma funcionária para auxiliar nas vendas. Neste caso, podem contar comigo.
- Só o que faltava. Você trabalhando aqui? Pode parar de supor qualquer coisa deste tipo. Você não precisa de emprego. Precisa de um marido.
- Paul, você é muito antiquado.
- Pode ser, mas ainda sou o responsável por você e vou tentar mantê-la dentro da linha, senhorita Catherine. Por falar nisso, pedi a senhora Emma que contratasse uma costureira para lhe fazer roupas novas. Parece que ela vai vê-la amanhã pela manhã.
- Oh, maninho, você é um amor! – disse, já me jogando em seus braços e dando-lhe um beijo estalado na face.
Erik mantinha-se calado durante todo o tempo, com os olhos de um verde intenso a fitar-nos. O que passaria por sua mente? Pareceu esboçar um sorriso tímido ao ver nossos modos efusivos.
- Bem, cavalheiros, vou andando.
- Vá direto para casa, Cathy.
- Se eu disser que sim, estarei mentindo. Tem tanta coisa para se ver por aqui. Só algumas voltinhas para reconhecer meu novo bairro, está bem? – e dei meu conhecido olhar para seduzir irmãos.
- Cuidado, menina!
- Eu sei cuidar muito bem de mim. Não se preocupe.

À noite, após o jantar, lembrei o senhor Erik do prometido. Estava ansiosa por ouvi-lo ao piano.
- Se prometi, cumprirei a promessa – falou, dirigindo-se ao piano, onde se sentou serenamente, parecendo reverenciar o instrumento. Suas mãos fortes e grandes percorreram o teclado com delicadeza, com seus dedos acariciando cada tecla como se fosse uma amante, procurando ver se estava afinado. Certificou-se que estava tudo em ordem e começou a tocar uma linda melodia que eu nunca ouvira antes. Era triste, melancólica e sensual. Não resisti e perguntei-lhe, tão logo acabou de tocá-la:
- Quem é o compositor? Não estou reconhecendo-a.
- Eu a compus – falou após um período de incerteza se deveria fazer esta revelação.
- Ela é muito bonita – foi o que consegui articular, pois tive medo de perguntar quem teria sido a fonte de inspiração. Alguma paixão mal resolvida?
- Por favor, Erik, toque mais para nós. Você é um grande artista – disse Paul – Sempre me surpreendendo, amigo.
- Por favor, toque mais - falei, aproximando-me do piano.
Ele me lançou um olhar que atravessou minha alma e me fez tontear. Consegui disfarçar esta sensação segurando-me na estrutura de madeira de cor preta e brilhante.
A música recomeçou. Agora mais alegre. Era de uma conhecida opereta italiana. Ele tocava esplendidamente. Como eu gostaria de tocar assim, com essa intimidade com as notas musicais.
- Agora é a sua vez, senhorita Catherine – falou-me, assim que chegou ao fim de sua música.
- Fico até envergonhada de tocar qualquer coisa depois de sua apresentação. Terei que estudar muito para tentar chegar aos seus pés.
- A senhorita gostaria de tentar? Posso lhe ensinar a aprimorar sua técnica.
- Sério? Ah, eu adoraria. Isto é, se não for atrapalhar o seu trabalho.
- Claro que não. Será um prazer. Podemos ouvi-la agora? – disse ele, já se levantando e
cedendo seu lugar para mim.
Sentei-me, tentando evitar seus olhos, e comecei a tocar uma sonata de amor.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Erik - Capítulo XII

Christine esperava um filho de Raoul. Abandonara a música. Todo meu esforço para transformá-la em uma diva da ópera colocado fora num casamento medíocre. Quase não conseguia prestar atenção no que Paul me relatava.
- Erik! Você está me ouvindo?O que há com você?
- O quê? Ah, perdoe-me, Paul. O que você disse?
- Estava contando como foi o meu encontro com Mme. Giry.
- Ah, sim! Como ela está?
- Ficou melhor depois que lhe contei a verdade. Ela não aceitou o seu dinheiro.
- Eu já esperava por isto. Ela sempre foi muito orgulhosa. Darei um jeito de abrir-lhe uma conta e enviar-lhe uma espécie de mesada.
- Sua dívida com ela parece ser grande.
- Maior do que você imagina. Ela salvou minha vida por duas vezes. Aliás, vocês são muito semelhantes neste ponto. Ambos são amigos muito importantes para mim.
- Isto me deixa muito honrado, Erik – disse Paul, visivelmente emocionado. Que tal mais vinho para o último brinde?
- Não, meu amigo. Eu não estou acostumado com bebidas alcoólicas.
- Está bem. Você que sabe. Mas, me conte o que tem de novidade para mim, além deste novo visual? Ficou bem melhor do que aquela venda preta.
- Obrigado. Quanto ás novidades, hoje consegui encontrar a nossa nova joalheria. O ponto é excelente. Fiquei de retornar assim que você chegasse de Paris. Podemos ir até lá amanhã para fechar o negócio, se você aprovar o local.
- Ora, Erik, você sabe que confio no seu bom senso. Comigo, você tem carta branca.
- é, mas sendo sócio, gostaria que você desse a sua opinião, para não termos problemas mais tarde.
- Tem razão. Tudo bem. Amanhã iremos até lá. E quanto a nossa casa?
- Não consegui nada. Considerando que hoje foi o meu primeiro dia percorrendo a cidade até que obtive bastante para um dia de procura.
- Claro! Com certeza que sim.

Terminamos de jantar e, após pagarmos a conta, saímos e pegamos um coche para voltar ao hotel. Enquanto ainda me perdia em pensamentos lembrando as palavras de meu amigo a respeito de Paris, ele dava as instruções ao cocheiro. Em alguns minutos, estávamos diante de um respeitável hotel em Piccadilly Street, bem diferente daquele em que me encontrava hospedado.
- Paul, acho que você bebeu demais e acabou dando instruções erradas ao nosso condutor.
- Não, Erik. Considere isto uma melhoria nas condições de hospedagem. Claro que este não é exatamente um hotel de luxo, que é onde mereceríamos estar, mas é muito melhor do que aquela pocilga onde tive de escondê-lo neste período de espera. Espero que, com o nosso sucesso no ramo das jóias, possamos em breve estar nas altas rodas. Confio na sua criatividade e bom gosto.
- Você anda sonhando muito alto, senhor Marback.
- Qual nada! Não serão apenas sonhos. Tenho certeza disso.
- Mas, e a minha bagagem?
- Não se preocupe. Eu já havia encerrado a sua conta e pedido para transferir suas coisas para cá, antes de você voltar de seu passeio.
- Bem, é uma bela surpresa, devo reconhecer. Já não agüentava ficar naquele lugar.
- Agora, ficamos aqui até conseguirmos um lugar definitivo. Espero que consigamos resolver tudo o mais rápido possível, para podermos começar a trabalhar. Terei que voltar a Dover. Deixei um funcionário de confiança, Samuel, para manter o funcionamento da joalheria lá. Como já havíamos conversado, será bom manter a matriz funcionando por lá. Por Dover ser um porto, teremos a chance de vender nossas jóias para estrangeiros e, quem sabe fazer fama no exterior também.
- Você está sonhando alto mesmo, não?
- Você acha?
- Não deixe minhas idéias pessimistas te contaminarem. Admiro muito este seu lado otimista. Você está certo. Para o alto, amigo!

Naquela semana, conseguimos fechar negócio com a senhora, dona do antigo armarinho. Logo iniciamos uma pequena reforma para acomodar nossa joalheria. Teríamos uma oficina única, onde Paul e eu iríamos trabalhar, nos fundos. Na parte da frente, seria a vitrine e a loja em si. No início, Paul pretendia atender ele mesmo aos clientes. Mais tarde, se tudo desse certo, poderíamos ter um funcionário para o atendimento.
Em relação à nova residência, conseguimos encontrar uma bela casa em estilo georgiano, com dois andares e um grande sótão, no terceiro piso, com janelas que proporcionavam uma linda vista da cidade. Havia lareiras na sala principal e nos quartos. A cozinha era bastante espaçosa. “Boiseries” em madeira, finamente trabalhadas, tornavam os ambientes mais aconchegantes.
Tivemos sorte em encontrá-la. O melhor de tudo é que ficava a duas quadras da loja, na Dover Street. Para Paul, este era um bom sinal. O nome de a rua ser o mesmo de sua cidade natal.
Fiquei encarregado de providenciar a mobília e empregados para a casa e cuidar das reformas na loja. Paul teve de voltar a Dover para resolver os assuntos pendentes.

Logo a loja estava pronta e pude começar a trabalhar em novos desenhos de jóias. Já havia feito alguns rabiscos no período em que fiquei “confinado”, mas minha inspiração naquela época não estava em seus melhores dias. Sentia falta da minha música. Por mais que tentasse abafar este meu lado, para evitar a lembrança de Christine, não havia como negar que esta arte fazia parte de minha alma e sem ela eu não era completo. Talvez pudesse voltar a dedicar-me ás composições nas horas de folga.
Comecei a animar-me. Uma nova vida iniciava e sentia-me revigorado com esta perspectiva. Já não me sentia um monstro perseguido por todos. Até os pesadelos já se tornavam raros. Apenas um medo ainda me perturbava de vez em quando. O medo de que Paul, quando soubesse de minha história, me virasse as costas. Se ele descobrisse que eu tinha um passado como homicida, continuaria a me respeitar? A ser meu amigo? Sentia que um dia teria de contar-lhe a verdade, mas não agora.
Um dia, andando por Mayfar, descobri uma loja de pianos e órgãos. “Porque não?”, pensei. Poderia comprar um piano para colocar na sala íntima. Era uma peça ampla e comportaria um instrumento daquele porte. Caso Paul não gostasse, poderia levá-lo para os meus aposentos, no sótão. Animado com a idéia de poder tocar novamente, realizei a compra e mandei entregar na Dover Street, na manhã seguinte.
Mal podia esperar para dar vida a minha música mais uma vez.
No outro dia, a senhora Emma, nossa nova governanta, ficou encarregada de receber a minha recente aquisição. Saí em direção da Bond Street, já pensando em retornar mais cedo para poder desenferrujar um pouco os dedos e ouvidos. Na loja, só aguardava a chegada de Paul para a inauguração. Ele prometera trazer as jóias para a exposição na vitrine e o material para iniciar a confecção das novas peças.
Um pouco antes do almoço, resolvi fechar tudo e ir para casa.
Caminhava rapidamente, devorando as duas quadras que me separavam de casa. Quando estava muito próximo, pude ouvir o som das teclas de um piano. Quem estaria tocando?
Fiquei furioso, enciumado, imaginando como alguém poderia ter entrado em minha casa e ter tido a ousadia de tocar em minha propriedade. Paul, eu sabia, não tinha conhecimento algum de música.
Entrei correndo, já chamando pela senhora Emma, para questioná-la sobre a invasão e despedi-la sumariamente por aquela falha indesculpável. Fui barrado em meu desvario, na porta da sala íntima, pela visão de uma mulher, de longos cabelos negros, presos por um laço de veludo vermelho, simploriamente vestida. Só podia vê-la de costas, mas percebi que era jovem, esguia e de porte altivo, só pela maneira como se sentava ao piano, com as costas retas e a cabeça erguida. Tocava uma composição popular, tosca, que conseguia melhorar com a introdução de alguns floreios, dando um ritmo mais interessante a música.
- Quem é você? O que faz na minha casa, sentada ao meu piano? Quem a deixou entrar?
Devo ter falado em tom alto e áspero, pois ela virou-se assustada e levantou-se estabanada, deixando cair a banqueta onde estava sentada, soltando uma exclamação de espanto. Olhou-me com dois grandes olhos azuis, arregalados, que quase fizeram com que me arrependesse de minha rudeza.
- Desculpe... Eu, eu... – ela mal conseguia articular as palavras com sua voz tremula – Achei que podia tocar um pouco... Eu...
- Erik! O que houve?
- Paul! Você está aí! Eu encontrei esta jovem invasora tocando no piano que acabei de adquirir.
- Jovem invasora? – falou, já esboçando um sorriso sarcástico para logo cair na gargalhada – Ahahaha...
Ele se dobrava de tanto rir e eu não conseguia entender o motivo. A moça continuava paralisada.
- Erik, Erik. Deixe-me apresentá-los. A “jovem invasora” é Catherine, minha irmã, de quem eu já havia falado, lembra?
- Sua irmã? Mas eu pensei que ela era uma menina, uma criança.
- Para mim, é como se fosse.
- Paul! – finalmente ela conseguira articular uma palavra, mas seu olhar já se transformara de assustado para desafiador – Então, este é o seu famoso amigo, Erik? Eu o imaginava diferente.
- Diferente? Como? – perguntou Paul.
- Mais educado – desferiu aquelas palavras com os olhos fixos em mim.
- Cathy! Não dê atenção a ela, Erik. Ela é meio... Impulsiva, digamos assim.
Com isso, Catherine fuzilou o irmão com um olhar raivoso e saiu, pisando duro em direção ás escadas que a levariam ao segundo andar. Ao passar por mim, pude sentir o calor de sua indignação e um perfume suave, levemente almiscarado e delicioso.
- Erik, perdoe a Cathy. Ela é adorável, mas ás vezes torna-se um tanto rebelde. Só meu pai conseguia controlá-la.
- Absolutamente, Paul. A culpa foi minha. Eu fui grosseiro com ela. Tratei-a como uma marginal. Eu é que devo desculpas.
- Eu devia ter enviado uma mensagem para você, anunciando nossa chegada. O erro foi meu. Queria fazer uma surpresa e acabei criando esta situação.
- Vamos parar de procurar culpados e falar um pouco de sua viagem. Conseguiu resolver tudo lá em Dover?
- Tudo acertado. Samuel demonstrou que está habilitado para gerenciar a loja na minha ausência. Trouxe o material que havíamos combinado para a inauguração de nossa filial londrina. Outra coisa importante – falou baixando o tom de voz para não ser ouvido – é sobre os seus documentos. Já estão comigo. Agora poderemos sacramentar a nossa sociedade.
- Já havia dito que não precisava preocupar-se com isto, Paul. Eu confio plenamente em você.
- é, mas assim vou sentir-me melhor. Quer saber seu novo nome?
Assenti com a cabeça.
- Seu sobrenome ficou como BELL. Seu nome passa a ser ERIK BELL. Gostou?
- é... Acho que soa bem.
Logo a sorumbática senhora Emma surgiu na porta.
- Senhores, o almoço será servido em instantes. Devo chamar a senhorita Catherine?
- Por favor, senhora Emma. Obrigado.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Erik - Capítulos X e XI


X




“Caro amigo Erik,
Esta carta tem por função tranqüilizá-lo a respeito do desenrolar de nossos planos. Tudo correu exatamente como planejamos. “Você” já está morto e enterrado em Paris. Maiores detalhes, eu fornecerei pessoalmente em nosso próximo encontro em Londres. Sinta-se liberado para iniciar a procura de um local para nossa nova loja e de uma casa para morarmos. Só lhe peço que ache uma casa com mais cômodos que a de Dover, pois pretendo levar adiante o plano de levar minha irmãzinha para morar comigo.
Espero que esta o encontre bem de saúde... Ao contrário do “monsieur” que deixei em Paris em seu lugar.
Um abraço, de seu amigo
Paul”

Sempre brincalhão este Paul. Finalmente, as notícias que tanto esperara. Apenas continuava curioso para saber como tudo tinha acontecido. Será que ele falara com Annie? Teria visto Christine? Como ela devia estar? Provavelmente, linda como sempre.
Será que continuava cantando?
Melhor não pensar mais nisso. Deveria agradecer por estar livre de meu confinamento naquele hotel de terceira classe. Poderia caminhar pela cidade, fazer um reconhecimento dos lugares e começar a procurar um lugar para morarmos e outro para a nova joalheria.
Ainda estava apreensivo de como seria recebido pelos londrinos com meu visual peculiar. Por isso, aproveitei as horas intermináveis em que fiquei naquele hotel, para criar um novo disfarce. Acabei optando pela máscara da face direita, que parecia o que melhor cobria meu defeito. A única diferença é que a fiz em cor neutra, de forma a ser mais discreta. Não queria chamar tanto a atenção ao andar pelas ruas. Assim, dei a ela uma cor que se assemelhava à cor da pele. O chapéu e roupas discretas complementariam meu traje. Meu inglês melhorara bastante com as aulas dadas por Paul. Assim, sentia-me um pouco mais seguro.
Londres fervilhava naqueles dias de início da primavera. Carruagens, pessoas passeando e conversando animadamente pelas ruas. Idéias e inventores pululavam por ali. Era o ano de 1872. O Tâmisa exalava um cheiro horrível, mas o Parlamento erguia-se magnífico às suas margens. A obra de reconstrução, depois do incêndio de 1834, havia sido concluída somente há 2 anos. Quanto tempo a Ópera de Paris levaria para ser reconstruída? Sentia uma certa nostalgia ao andar por aquelas ruas, lembrando de Paris, por onde passeava, geralmente à noite ou, muito bem disfarçado, durante o dia.
Durante minha caminhada, chamava um pouco a atenção. Era difícil para uma pessoa de minha estatura, de quase 1.90 m, passar despercebida, principalmente quando esta pessoa tinha metade do rosto coberto por uma máscara e usava um chapéu de abas um pouco mais largas que as ditadas pela última moda.
Conforme as informações obtidas no hotel, resolvi ir até Mayfair, onde o comércio mais requintado se encontrava. Fiquei sabendo que os membros da corte e da sociedade costumavam fazer suas compras naquela área. Assim, comecei minha procura de um local mais favorecido para abrir nossa joalheria. Depois de caminhar a manhã inteira, a sorte me sorriu ao descobrir um pequeno armarinho, na Bond Street, que estava sendo colocado à venda, pela esposa do falecido dono, por um bom preço. Só não fechei o negócio na mesma hora, pois queria a concordância de Paul. Ele deveria chegar em breve, segundo sua carta. Dei um sinal em dinheiro à viúva, para que ela garantisse minha preferência na compra. Esperava que Paul não demorasse muito a chegar, pois não confiei muito no olhar de cobiça e avidez da senhora. A minha impressão foi de que ela venderia para o primeiro que chegasse com o valor pedido, não importando se eu dera o sinal ou não. Ela havia passado o tempo todo a me observar, com olhos miúdos e assustados, coisa com a qual eu já estava acostumado. Ficou consternada quando, depois de vencer a curiosidade e perguntar qual o motivo da máscara, lhe disse que havia ferido meu rosto em batalha no México, lutando por Napoleão III, em 1865.
- Oh, mas lutou tão jovem e tão longe daqui. Pobre rapaz – Foi o comentário da velha senhora.
Já estava começando a achar divertido aquele comportamento das pessoas. Era curioso pensar porque um ferimento de guerra era menos aterrorizante que um defeito de nascença?
Após as despedidas e promessa de retorno o mais breve possível para realizar a compra, segui a caminhar nas redondezas, em busca de uma residência.
Nada mais consegui naquele dia, mas já estava satisfeito.
Ao chegar ao hotel, qual não foi minha surpresa ao encontrar Paul, todo sorridente, vindo em minha direção, abraçando-me efusivamente.
- Então, meu querido amigo, aproveitando a liberdade nas ruas londrinas?
- Que bom revê-lo, meu caro. Estava sentindo falta de nossas conversas. Não esperava você tão cedo. Recebi a sua carta ontem.
- Pois aqui estou eu! Você já jantou?
- Não, ainda não.
- Que tal comemorarmos a sua nova vida e a minha chegada em grande estilo? Estava conversando com o nosso amigo ali – e apontou para o recepcionista do hotel – e ele me disse que logo ali em Convent Garden, tem um ótimo restaurante, freqüentado pela sociedade e membros da realeza. O que acha? Vamos cometer esse excesso? Só hoje?
Não havia como resistir àquele sujeito. Ele parecia estar eternamente de bem com a vida. Esperava que aquilo fosse contagioso.
- Você acha conveniente eu ficar mostrando-me por aí? Não é muito cedo?
- Qual nada! Precisamos conversar. E você sabe que eu não consigo pensar de barriga vazia.
- Está bem, Paul. Já que você insiste...
- Deixa de ser pessimista, Erik. Esqueça o passado... Ele foi enterrado nas profundezas de uma certa Ópera.
Seguimos para a rua Maiden Lane, em Convent Garden.

Fomos recebidos com frieza e desconfiança pelo maitre do “Rules”. Não estávamos vestidos adequadamente para o jantar em restaurante tão distinto. Porém, bastou Paul colocar uma gorda gorjeta no bolso do nobre senhor, para que ele nos arranjasse uma mesa. Claro que era uma mesa discretamente colocada nos fundos do salão, mas podíamos ter uma bela visão da “fauna” que estava presente por lá. Até chegarmos às nossas cadeiras, sentimos os olhares de todos a dissecar-nos, como se fôssemos subespécies da raça humana. Era uma apreciação semelhante a que eu sofria em Paris, quando fazia minhas curtas aparições. Senti um leve arrepio. Não era uma lembrança agradável. Pensei que a tinha deixado para trás, mas havia me enganado. Paul carregava um sorriso irônico e discreto nos lábios, andando de cabeça erguida, em frente. Quando sentamos, quase explodiu em uma gargalhada. Teve que por a mão sobre a boca para não rir alto.
- Erik, não precisa ficar com este ar preocupado. É um bando de almofadinhas, acompanhados por damas esnobes e insatisfeitas. Não dê atenção a eles.
- Não se preocupe comigo. Eu estou bem. Mas, por favor, conte-me como foi a sua viagem. Conte todos os detalhes do meu funeral e das pessoas que o acompanharam.
- Já sei. Quer saber de sua Christine.
- Ela nunca foi minha! – falei com irritação, pelo termo usado por Paul, em tom um pouco alterado, que fez as pessoas das mesas mais próximas olharem para nós.
- Calma, amigo. Perdão. Não sabia que a situação era tão séria.
- Desculpe, Paul. Não queria gritar com você, mas ela é uma parte importante do meu passado que eu quero esquecer. Na verdade, é por causa dela que estou nesta situação atual.
- Sinto muito, Erik. Mas, vou lhe contar como tudo se passou.
Neste momento, o garçom veio tirar nossos pedidos. Assim que ele retirou-se, meu amigo iniciou o relato minucioso de sua aventura.






XI




Paul Marback... Um homem admirável. Erik teve muita sorte em conhecê-lo. Enfim ele fizera um amigo fora das paredes de seu teatro. Assim que o vi sumir na escuridão das ruas de Monmartre, fechei a porta. Logo ouvi os passos ágeis de Meg, descendo pela escada.
- Mamãe? É você?
- Sim, minha filha, sou eu.
- A senhora está bem? Como foi? Estou morrendo de curiosidade. Queria ter ido junto, mas a senhora não deixou. Agora quero que me conte todos os detalhes.
- Calma, Meg, calma. Deixe-me tomar um copo de água, tirar meu chapéu e estes sapatos que estão me martirizando. Aí, lhe contarei tudo – “ou quase tudo”, pensei.
Assim que relaxei um pouco, não pude escapar do olhar inquiridor de Meg, que estava ávida pelos fatos ocorridos naquele final de tarde.
- Sente-se, Meg! Ou você vai ficar a esvoaçar a minha volta desse jeito? Pelo menos, podia respeitar a dor deste momento. Afinal, ele era meu amigo de muitos anos.
- Desculpe, mamãe. Sinto muito por ele, também. Só queria saber...
- Está bem. Vou lhe contar.
A partir daí, tudo o que acontecera naquelas últimas horas veio a minha mente.
Estava ansiosa a espera do aviso de Christine, conforme ela me prometera. Eram 5 horas da tarde, quando ouvi o trotar de cavalos aproximando-se de nossa casa. Corri até a janela da frente e vi o coche com o brasão dos Chagny. Um rapaz uniformizado desceu e bateu a nossa porta. Era um mensageiro. Rapidamente abri o envelope e pude ver a delicada caligrafia da nova viscondessa:
“Cara Madame Giry,
Peço-lhe que acompanhe este mensageiro. Ele a levará até a Ópera. Estarei esperando-a para o enterro.
Christine”

Como já estava pronta, imediatamente fechei a porta e segui o rapaz, entrando na carruagem. Após alguns minutos, que pareceram uma eternidade, chegamos à frente daquela obra monumental, que era a antiga Ópera de Paris. Ainda podia-se ver a movimentação de uns poucos operários, provavelmente encarregados da reforma. Em seguida, vi Christine, com um belo vestido, digno de uma nobre, mas coberto por uma capa preta, com capuz, que quase lhe cobria o rosto. Veio ao meu encontro, acompanhada por Raoul, demonstrando um pouco de nervosismo. Ele, por sua vez, tentava disfarçar a irritação e a ansiedade para que aquele “circo” , como se referiu mais tarde, terminasse o mais rápido possível. Seguimos para o interior do teatro onde começamos a descida aos subterrâneos, juntamente com o Marquês de Cluny, o chefe de polícia, o arquiteto Garnier, um jovem cavalheiro desconhecido e o caixão, carregado por dois homens vestidos como trabalhadores comuns. Mesmo coberto pela poeira, com andaimes e caixotes espalhados por todo o lado, a Ópera mantinha-se majestosa. Senti uma saudade muito grande dos momentos passados entre aquelas paredes e um arrepio na espinha ao lembrar os acontecimentos que precipitaram a interdição daquela casa de espetáculos.
Finalmente chegamos até a área onde estavam os túneis alagados. Lá, próximo ao local onde Erik fizera a sua morada, em um dos paredões, havia sido feita uma cavidade profunda, onde o caixão, provavelmente, seria colocado. Após alguns minutos de tenso silêncio, o chefe de polícia, M. Focault, pediu que os homens colocassem o esquife para dentro do buraco. Pode-se ouvir um suspiro escapar do peito pesado de Raoul. Christine estava com olhar tristonho, olhando para baixo, provavelmente lembrando seu mestre. Achei que tinha visto uma lágrima tímida rolando por sua face. Logo ela passou um pequeno lenço, de delicada renda, sobre a face, discretamente, simulando um súbito calor, retirando qualquer vestígio de choro que pudesse ser visto por seu marido ou pelas pessoas que ali estavam.
Logo em seguida, um dos trabalhadores, passou a colocar uma espécie de massa arenosa, cobrindo toda frente da tumba, lacrando para sempre o corpo de Erik nas entranhas do suntuoso prédio. Não se ouviu nenhuma palavra de pesar ou oração, nem olhares de condolência. A tristeza por aquela perda, certamente, estava apenas nos pensamentos daqueles que tinham conseguido vislumbrar a genialidade que existia naquele homem transfigurado, apaixonado pela música e por sua musa... Christine, o desconhecido, que mais tarde apresentou-se como sendo o Senhor Marback, e eu.
Terminada a “cerimônia”, após uma breve troca de cumprimentos entre as “autoridades”, Marback veio ao meu encontro apresentar-se, seguido por Raoul e Christine.
- Graças aos céus, o “circo” terminou – louvou Raoul – Que descanse em paz, já que em vida não pode desfrutar de tal. Vejo que M. Marback já se apresentou. Acho que podemos ir, não é mesmo, Christine?
- Claro, querido. Como você quiser – resignou-se Christine.
O grupo seguiu em silêncio, atrás do senhor Garnier, que nos levou para fora daquele labirinto.
Já na saída, pelos fundos do teatro, após mais algumas reverências, o grupo dispersou-se, ficando apenas nós quatro, numa situação quase constrangedora. Só nos restou a despedida.
- M. Marback, espero que tenha uma boa viagem de volta a Dover.
- Muito obrigado, visconde. Viscondessa – disse, reverenciando Christine. Foi um prazer conhecê-los.
- Madame Giry, é uma pena que tenhamos voltado a nos reencontrar numa situação como esta.
- Madame, espero que possamos nos ver em breve. Vá nos visitar e leve a Meg, por favor. Não vamos nos afastar novamente – sabia que Christine falava de coração, mas achava difícil podermos voltar a ter a relação íntima que tínhamos anteriormente.
- Claro, meu bem, é claro – falei sem muita convicção.
Os dois seguiram em direção a carruagem que os aguardava e partiram.
- Casal estranho, não? – perguntou Marback.
- Quando o senhor volta para Dover? – perguntei, evitando tecer comentários a respeito daquele casal.
- Provavelmente amanhã. Antes, precisamos conversar, madame Giry. Posso convidá-la para um café?
- É sobre Erik?
- Sim. Tenho muita coisa para contar-lhe. Sei que posso confiar na senhora. Erik me passou esta certeza.
Os últimos raios de sol tingiam de tons alaranjados as poucas nuvens que havia nos céus, quando entramos num café próximo à Ópera e sentamos num lugar mais reservado, a pedido de Marback.

Quando ele terminou sua conversa, eu estava pasma e ao mesmo tempo feliz por saber que meu amigo encontrava-se bem de saúde e de espírito. Paul, como ele insistiu em ser chamado, revelou-se uma pessoa de excelente índole e amigo sincero de Erik, em sua nova fase. Disse que tinham muitos planos, apesar de não relatar quais. Mas a idéia de sabê-lo são e salvo, tentando levar uma vida normal, era muito confortante.
- Uma última coisa, que nosso amigo pediu-me para fazer. Entregar-lhe este dinheiro e estes objetos pessoais. Ele sabe de suas dificuldades econômicas e sente-se culpado por elas. Por isso encarregou-me de deixá-la em melhor situação. Quanto aos objetos, pediu que lhe entregasse para que a senhora fizesse o uso que melhor lhe aprouvesse.
- Diga a ele que não tem porque se sentir culpado de nada. Não posso aceitar este dinheiro. Diga que minhas finanças já estão em ascensão e que agradeço muito a sua preocupação.
Ao abrir o embrulho de couro que M. Marback lhe dera, sentiu-se estremecer.
- Diga a Erik que guardarei estes objetos até o dia em que ele os quiser de volta.
Saímos do café e Paul levou-me até em casa num coche alugado.
- Desejo-lhes toda a sorte do mundo. Obrigada por ser amigo de Erik. Ele precisa muito disso.
- Madame, foi um imenso prazer conhecê-la.
Assim, despedimo-nos, sem prazo de reencontro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Erik - Capítulos VIII e IX

Capítulo VIII



Finalmente estava no porto de Dover ao lado do caixão, onde um morto desconhecido me fazia companhia. Este, pelo menos seria enterrado em um ataúde decente. A maioria destes indigentes era sepultada em vala comum, nos arredores da cidade.
Tivera algumas dificuldades para conseguir um cadáver recente, mas graças a um amigo que trabalhava no morgue da cidade, pude ir em frente com nossos planos. Também tive de recorrer a um falsário para conseguir os documento de liberação do defunto nos portos. Até aí, já cometera dois crimes. Certamente não pararia por aí. Já estava pensando em regularizar a situação de Erik, talvez com uma nova identidade. Pensaríamos nisso mais tarde.
Claro que se não fosse o dinheiro, nada disso seria possível. Mas não tinha outra maneira. Não podia arriscar a perder tudo que conseguira até agora. Para continuar minha sociedade com Erik teria de ser assim. Além do mais, gostava dele. Era um bom amigo. Sofrido, com um passado nebuloso, mas uma pessoa de boa índole. Não conseguia imaginá-lo com um criminoso procurado. Às vezes tinha curiosidade em saber o que ele tinha feito para ser perseguido depois de tanto tempo.Mas não ousaria perguntar-lhe. Nem procuraria informar-me por outros. Não importava. O passado era passado. Seria enterrado para sempre nos próximos dias. Até então, eu não tinha noção da importância do presente no futuro. Mas agora, com o aumento da entrada de dinheiro, as possibilidades eram infinitas. Pela primeira vez eu me via fazendo planos. Planos de ampliação da joalheria de meu pai, talvez filiais em outras cidades. Planos para ter minha irmã junto a mim, novamente como uma família. E isto tudo só tinha sido possível graças a Erik. Disto eu tinha plena noção. Como ele já havia declarado um dia, o dinheiro tudo comprava. Compraria nosso futuro, nossa felicidade. Ele me ensinara a ser ambicioso.
Esperava que as cartas tivessem sido devidamente entregues às destinatárias. Será que a tal viscondessa estaria a minha espera em Calais? Estava ficando ansioso. Não tinha como voltar atrás.
Erik estava seguro em Londres. Já enviara uma mensagem dando conta disto. Ficaria aguardando os acontecimentos de Paris.

Enfim chegamos. O barco lançou sua âncora. Tentava procurar a figura feminina que meu amigo me descrevera, de uma jovem frágil, de cabelos escuros encaracolados, vestida como uma dama da alta sociedade. Não consegui achar ninguém com esta descrição. Começava a ficar preocupado, quando, ao desembarcar e colocar-me junto ao caixão na alfândega, fui abordado por um cavalheiro alto, de cabelos louros lisos, elegantemente vestido, que se apresentou:
- Eu sou o Visconde de Chagny. Presumo que o senhor seja Paul Marback?
- Ah, sim! Muito prazer, visconde. Vejo que o senhor fala bem o meu idioma. Que bom, pois o meu francês deixa muito a desejar.
Tentei cumprimentá-lo com minha mão direita, mas ele não correspondeu. Esnobe!
- Estou com minha carruagem a espera. O esquife seguirá em uma carroça que aluguei especialmente para isso. Assim que o liberarem, seguiremos viagem. Quero que isto acabe o mais rápido possível.
- O visconde não vai querer ver as provas do que estou trazendo?
- Ah, claro! Assim que iniciarmos a ida à Paris, poderemos conversar melhor a respeito. Vou aguardá-lo na saída do porto.
Ele parecia tão apreensivo quanto eu, apesar da empáfia.
Pela segunda vez conseguira passar com os documentos falsos. O sujeito falsificava bem mesmo. Talvez viesse a utilizar seus serviços novamente.
Depois de acomodar o morto dentro da carroça de carga, entrei na nobre diligência onde eu seguiria com o aristocrata francês. Pegamos a estrada.
- Então, como o senhor pode comprovar que este cadáver pertence àquele marginal?
- Gostaria que o senhor se referisse a ele como Sr. Erik. Ele era meu amigo.
- Acredito que o senhor não saiba dos atos abomináveis de seu “amigo”.
- Nem pretendo saber. O importante agora é levá-lo em segurança a Paris e permitir-lhe seu último desejo.
- Se é assim.
- Aqui estão as provas de que falei em minha carta.
Dizendo isto, abri minha pequena maleta de mão e de lá retirei um embrulho. Cuidadosamente o abri e deixei que o francês visse seu conteúdo.
Pude observar que ele emocionou-se ao ver a máscara de Erik e o pequeno anel de noivado, que insistia em reluzir à luz do sol que entrava pela janela do coche. Parecia petrificado com aquela visão.
- Então? Acha que estas são provas suficientes para acreditar que o cadáver que estou conduzindo naquele ataúde é do senhor Erik?
- Como... Como você conseguiu estes “objetos”?
- Eles me foram dados pelo próprio, antes de falecer. Guardava-os como relíquias de seu passado. Acabaram tornando-se úteis, pelo que estou vendo.
- É, não há dúvida de quem é o seu “amigo”.
Seu olhar endurecera-se. A emoção parecia ter abandonado sua face.
Na primeira parada que fizemos, o visconde enviou um mensageiro que nos acompanhava a cavalo, levando uma carta. Fiquei curioso para saber quem receberia a missiva. Seria sua esposa, a tal Christine? Logo saberia.
Levamos dois dias para chegar a Paris, sem paradas para dormir. Fazíamos refeições rápidas nas tavernas da estrada e prosseguíamos a viagem. Poucas palavras foram trocadas. Ele realmente estava convencido. Mais uma etapa fora ultrapassada, para meu grande alívio. Agora, só faltava o “gran finale”. O sepultamento.



Capítulo IX


- Madame, uma senhora e sua filha insistem em lhe falar. Já disse que a viscondessa estava repousando, mas elas dizem que é muito importante.
- Duas mulheres? Elas disseram os nomes?
- Uma delas, a mais velha diz chamar-se Madame Giry.
- Mme. Giry? Mande-as entrar, imediatamente. Leve-as até a minha sala íntima. Já vou descer.
- Precisa de ajuda, madame?
- Marie, eu estou grávida, não enferma. Faça o que mandei, por favor.
O que as teria trazido até aqui, depois de tanto tempo? Saberiam da morte de Erik? Talvez tivessem sido avisadas também. Que vergonha. Nunca mais procurara a minha querida amiga, Meg. Vesti meu “robe de chambre” e rapidamente desci ao encontro delas.
- Meg! Madame Giry! Que surpresa. Há quanto tempo.
Abracei-as com força.
- Deixe-me ver você, Meg. Você está linda! Mme. Giry, que saudades! Estou em falta com vocês.
- Nós também, querida. Mas nós sabemos os motivos desta separação. Não se preocupe com isso agora. Acredito que você saiba o pretexto desta nossa visita.
- Acho que sim. Por favor, sentem-se.
- Você também está muito bonita, Christine. – falou Meg. – Andou engordando um pouquinho com o casamento.
- Eu estou grávida de quase quatro meses, Meg.
- Mas que maravilha! Parabéns, Christine!
- Parabéns, minha filha.
- Obrigada. Realmente estamos muito felizes com a futura chegada de Gustav.
- Oh, vai colocar o nome de seu pai se for menino. Ele ficaria muito contente com esta homenagem. E se for menina? – perguntou Mme. Giry.
- Sabe que não pensei ainda. Aliás, para Raoul não existe outra possibilidade, isto é, não pensamos nesta possibilidade.
Senti o olhar compreensivo de minha antiga mestra de dança.
- Bem, voltando ao nosso assunto. Vocês foram avisadas da morte “dele”?
- Sim, minha querida. Depois de um ano sem nenhuma informação, chega esta triste notícia. Ainda não consigo acreditar.
Achei que Giry ia chorar, mas conseguiu controlar-se.
- Raoul foi até Calais para buscar o corpo. Deve estar de volta amanhã.
- Como você ficou sabendo? Por carta, como nós?
- Sim. Um tal de Paul Marback, que o conheceu na Inglaterra. Vocês sabiam que ele estava morando lá?
- Não temos notícias dele há mais ou menos um ano. Na noite do incêndio, Meg e eu estávamos desesperadas e acabamos indo para a casa que meu irmão deixara de herança, em Monmartre, e que eu mantinha fechada. Durante a madrugada, Erik apareceu. Ele estava muito ferido, precisando de cuidados. Consegui que ele ficasse conosco durante dois dias. Quando a polícia bateu a nossa porta querendo informações sobre um estranho que fora visto nas redondezas, ele resolveu ir embora, para não complicar nossas vidas. Pediu que tirasse todo o seu dinheiro do banco. Partiu, no meio da terceira noite, com uma bolsa de couro com alguns mantimentos, dizendo que mandaria notícias. Imaginei que ele tentaria sair da França. Nunca recebi nenhuma linha sobre o seu paradeiro. Só agora, chegou esta carta... Christine? Você está bem?
Sentia meu coração mais apertado e tentava controlar as lágrimas.
- Apesar de ter medo, eu gostava dele, madame. Ele foi meu mestre, meu “Anjo da Música” por todos aqueles anos depois da morte de meu pai. Agora o seu tormento finalmente acabou.
Depois de ficarmos em silêncio por alguns segundos, recomeçamos a falar sobre assuntos mais amenos, tentando abandonar um pouco a tristeza que nos envolvia. Elas me contaram sobre suas novas atividades e eu sobre a vida de casada e a chegada de meu bebê. Ali ficamos por mais de uma hora, quando Madame Giry falou:
- Christine, gostaria de ficar mais tempo para conversarmos, mas tenho de trabalhar. Meg também tem as suas alunas.
- Ah! Fiquei tão feliz por vê-las novamente.
- Vou deixar nosso endereço. Por favor, avise-nos quando tudo estiver pronto para o funeral. Quero estar presente. É muito importante, está bem?
- Pode deixar. Vocês serão avisadas de imediato.
Despedimos-nos, afetuosamente. Certamente nos veríamos muito em breve.

Estava bordando algumas peças do enxoval do bebê quando ouvi a sineta da rua tocando. Logo, fui informada que o Marquês de Cluny estava em nossa casa.
- Boa tarde, marquês. Por favor, sente-se.
- Minha cara Christine, você deve saber, é claro, do pedido que seu marido me fez antes de partir para Calais.
- Sim.
- Bem, vim aqui especialmente para tranqüilizá-la a respeito daquele assunto. Quero que saiba que já está tudo preparado. Assim que ele chegar, poderemos realizar o enterro daquele “senhor” nas fundações da antiga Ópera, conforme seu desejo. O arquiteto Garnier reservou um local adequado para tal. Não cansarei a minha amiga com detalhes sem importância. Considere tudo resolvido.
- Senhor marquês, nem sei como lhe agradecer. Não imagina como fico aliviada em saber disso.
- Minha querida, não precisa agradecer nada. Antes que me esqueça, o seu marido mandou-me uma mensagem confirmando sua partida de Calais, ontem pela manhã. Recebi sua missiva hoje, logo após o almoço. Portanto, pelas minhas contas, se tudo correr como ele planejou, eles estarão chegando amanhã. A “cerimônia” poderá ser realizada logo a seguir. Peça que ele me avise, assim que possível, por um mensageiro. Estarei em minha casa durante o dia.
Depois que o marquês foi embora, experimentei uma gratificante sensação de paz. Voltei aos meus bordados, tentando não pensar mais em Erik. Agora, era esperar a volta de Raoul, para finalizarmos esta história.

Acordei cedo, naquela manhã, ansiosa pela chegada de meu esposo. Mal conseguira dormir.
Em torno das 11 horas, ouvi o som do trotar de cavalos e das rodas de uma carruagem, em frente a nossa casa. Desci correndo, para ver se era quem eu esperava.
- Raoul! Você chegou! Como foi?
Não conseguia disfarçar minha aflição por notícias. Então, percebi que ele não estava só. Um jovem cavalheiro, de cabelos castanhos e grandes olhos azuis, o acompanhava.
- Querida!
Raoul deu-me um beijo no rosto. Parecia muito cansado. A viagem tinha sido longa e o motivo desagradável.
- Quero apresentar-lhe o Sr. Paul Marback. Convidei-o para nossa casa a fim de refrescar-se um pouco. Aliás, nós dois estamos precisando de refrescos e de uma refeição decente depois de uma viagem extenuante como foi a nossa.
- Muito prazer, Senhor Marback.
- O prazer é todo meu, senhora – falou, fazendo uma discreta reverência.
- Por favor, Margot. Providencie os refrescos e o almoço
- Pois não, madame – respondeu nossa governanta.
- Enquanto aguardamos, vou mandar um mensageiro ao Marquês.
- Ele esteve aqui ontem à tarde, para avisar de que estava tudo pronto para o enterro. Era só avisá-lo de sua chegada. Raoul, preciso falar-lhe em particular. O senhor nos dá licença? Só um momento.
- Esteja à vontade, senhora...
Deixamos o Senhor Marback aguardando no salão de estar, enquanto conversávamos no gabinete de Raoul.
- O que é, Christine?
- É sobre Madame Giry. Ela esteve aqui ontem pela manhã e disse que havia sido avisada por carta da morte de Erik. Ela também quer participar do funeral.
- Isto já está virando um acontecimento social.
- Por favor, Raoul. Ela foi muito importante na vida dele. Tenho certeza de que ele desejava isto também, caso contrário não teria pedido ao Sr. Marback que a avisasse.
- Está bem, Christine. Perdoe-me. Estou muito cansado. Não paramos para descansar, para podermos chegar aqui o mais rápido possível e acabar com este martírio.
- Raoul... Onde está o caixão?
-Mandei deixar a carroça com o corpo em nosso pátio interno, até que soubéssemos como agir. Agora, deixe-me escrever a mensagem para Claude e encaminhá-la. Vá até a sala fazer companhia ao Sr. Marback. Está bem?
Ele estava visivelmente aborrecido com toda aquela situação. Mas não podíamos agir diferente. Tinha de ser assim. Parecia mentira, mas Erik ainda tinha poder sobre nós.
Voltei ao salão principal. Ele estava lá olhando para os quadros da parede e bebericando sua limonada, quando entrei.
- Sr. Marback. Desculpe deixá-lo tanto tempo a sós.
- Imagine! Não se preocupe com isso.
Sentei-me na poltrona próxima à lareira, de frente para onde ele se encontrava e, não resistindo à curiosidade, perguntei:
- Como o senhor conheceu seu amigo?
- Erik? Eu o recolhi quase morto do meio das ruas e tratei dos seus ferimentos. Infelizmente, ele nunca conseguiu recuperar-se definitivamente. Morou comigo durante todo este tempo, até seus momentos finais. Foi um bom amigo.
- Ele lhe contou alguma coisa de seu passado?
- Não. E nunca quis saber. Sempre achei que isto não era importante em nossa amizade. Continuo achando a mesma coisa e não gostaria de saber nada a este respeito.
- Claro. O senhor tem razão. Não há porque saber. Posso lhe fazer mais uma pergunta?
- Lógico.
- Meu marido não teve tempo de falar-me sobre isto. Quais foram as provas que o senhor citou na carta? O senhor as tem consigo?
- Sim, é claro. Aqui estão.
Dizendo isto, abriu sua maleta de couro. Quase desmaiei ao ver a máscara branca, com a qual Erik cobria o defeito de seu rosto e que lhe conferiu o apelido de “Fantasma”, e o anel de noivado que eu lhe devolvera minutos antes de abandoná-lo e sair com Raoul. Mais uma vez, todo o nosso drama correu meus pensamentos, como se tudo estivesse acontecendo novamente.
- A senhora está sentindo-se bem? Quer um pouco de limonada com açúcar? Quer que chame seu marido?
- Eu estou aqui! O que houve? O que disse a ela? – falou Raoul, quase gritando. Até que ele entendeu o que havia acontecido, ao ver o reflexo do pequeno anel de brilhantes e a máscara em minhas mãos.
- O senhor não devia ter mostrado estes objetos a ela – falou ríspidamente.
- Mas ela me pediu. Não sabia que passaria mal ao vê-los – falou, já guardando os objetos que haviam sido motivo da ira de meu marido.
- Raoul... Eu pedi a ele que mostrasse as provas.
- Christine, acho melhor você ir descansar um pouco. Assim que estiver tudo pronto, a aviso.
- Não! Eu estou bem. Foi só um mal estar passageiro, comum em mulheres grávidas. – Tentei sorrir, insinuando um gracejo, para amenizar o clima de irritação que Raoul havia criado.
- Ah! A senhora está... Oh! Meus parabéns!
- Está bem. Vamos parar com esta conversa. Este almoço não sai? Que demora! - Raoul não conseguia disfarçar seu aborrecimento.
- Vou ver o que está acontecendo – falei.
Mal havia feito menção de levantar-me da poltrona, quando Margot entrou, anunciando que o almoço estava servido.
O silêncio tomou conta de nós e a refeição foi feita na mais absoluta paz, pelo menos aparentemente.

domingo, 9 de agosto de 2009

Erik - Capítulos VI e VII

Um ano já se passara. Nenhuma notícia de Erik. O reinício tinha sido difícil. Esperava que ele tivesse conseguido recompor sua vida. Pelo menos não tinha sido capturado. Meu trabalho atual não era dos mais gratificantes, mas eu continuava atuando junto a espetáculos de dança. Conseguira um emprego no Folies Trévise, um teatro de variedades, onde realizavam operetas, óperas cômicas e audições musicais. Nada que se comparasse com a Ópera, mas muitos políticos eram atraídos para lá. Não só pelas óperas em si, mas pelas dançarinas. Eu atuava como coreógrafa e ensaiava as meninas. Terminava meu trabalho e ia embora. O que elas faziam depois dos espetáculos não me interessava. Não pretendia me envolver com estes “problemas”. Parece que, antes do final do ano, o nome do teatro seria modificado. Estavam pensando em algo como Folies Bergère. Queriam melhorar a qualidade das apresentações. Talvez melhorasse meu salário também.
Quanto a Meg, resolveu abrir uma pequena escola de balé para crianças. Esvaziamos o andar térreo da casa que meu irmão deixara, colocamos barras nas paredes e voilà. Ali, ela passava a tarde a dar aulas às filhas dos comerciantes do bairro. Com isso, conseguia complementar nossa renda. Precisávamos sobreviver.
Quantas mudanças a partir daquela noite. Quantos perderam seus empregos. Meg e eu havíamos tido muita sorte em ter onde morar e por ter conseguido formas de sustentar-nos.
A reconstrução da nova Ópera já saíra dos planos e começava a manifestar-se na restauração das estruturas antigas. O incêndio havia sido controlado a tempo, poupando as fundações e a estrutura principal de teatro. Um arquiteto desconhecido de nome Charles Garnier assumira o comando dos trabalhos. Ainda tinha esperança de um dia voltar a reassumir meu antigo emprego. Quem sabe?
De novo perdida em pensamentos. Mon Dieu! Vamos trabalhar, mulher! Já estava na hora de ensaiar aquelas tresloucadas do Folies.
Saí para a minha caminhada diária de quase três quilômetros para chegar ao trabalho. Não podia dar-me ao luxo de pegar um coche. Considerava aquilo como um aquecimento antes dos ensaios. Já não tinha mais tanto medo da volta, em torno das 23 horas, pois já era conhecida nas redondezas e os malandros do bairro me respeitavam.
Ao voltar para casa, estava tão cansada que nem tive ânimo para comer qualquer coisa, apesar de Meg ter deixado meu prato pronto. Minha querida filha. Sempre tão prestativa e companheira.
No dia seguinte, pela manhã, enquanto estava arrumando nossos quartos, ouvi a voz de Meg, chamando por mim:
- Mamãe, chegou uma carta para a senhora. Parece que é da Inglaterra?
- O quê? – desci as escadas correndo e, por pouco não tropeço nos últimos degraus.
- Olhe, mamãe! De quem será? Algum admirador secreto que a conheceu no Folies?
- Olha o respeito comigo, menina! Onde já se viu?
Peguei o envelope e fiquei tentando imaginar quem teria escrito. Será que finalmente eu teria notícias de meu amigo?
- Abra, mamãe! Estou curiosa!
- Calma... – cuidadosamente, abri o envelope e comecei a ler seu conteúdo.
Bastaram poucos segundos de leitura para que minhas lágrimas viessem à tona. Uma grande tristeza abateu-se sobre mim. Não era o tipo de notícia que eu esperava.
- O que houve, mamãe? Porque está chorando? Quem escreveu?
Não conseguia encontrar palavras para responder a minha filha, por isso deixei-a ler a carta.
Ele finalmente tinha encontrado paz. Parece que, pelo menos tinha feito um amigo. Paul Marback. Quem seria ele? Pedia para encontrar-se comigo assim que chegasse a Paris.
Precisava encontrar Christine. Erik desejava que estivéssemos juntas durante o funeral.
Será que ela já sabia do ocorrido? Como ela reagiria a esta notícia? Provavelmente com alívio.
- Erik... Ele morreu. Ah, mamãe, sinto muito. Sente-se aqui. Vou buscar um copo de água para a senhora.
- Ele queria ser enterrado sob o teatro. Como vão conseguir isto? O prédio está em obras. Preciso falar com Christine – Tomei um gole da água que Meg me oferecia.
- Coitado. Pelo menos não viveu seus últimos dias dentro de uma prisão infecta.
- Tem razão, minha filha.
Enxuguei minhas lágrimas. Nunca mais falara com Christine, desde que ela se tornara Viscondessa de Chagny. Evitara procurá-la para não fazê-la sofrer mais com recordações. Ela devia estar tentando esquecer o passado. Mas, agora... Teríamos de nos reencontrar pela memória de Erik. Como reagiria Raoul?
Dezenas de pensamentos vieram atordoar-me a cabeça.
- Mamãe, fique descansando aqui. Deixe que eu preparo nosso almoço. Logo as crianças vão chegar para a aula. A senhora vai trabalhar?
- Claro, filha! Imagine! Não posso me dar ao luxo de ficar chorando por um amigo em casa. Vai ser bom trabalhar para distrair-me um pouco desta dolorosa notícia.
- Então, fique sentadinha aqui, enquanto preparo algo para comermos. Está bem?
- Claro, meu anjo. Obrigada.
Beijei suas mãos e ela saiu em direção à cozinha.
Ali fiquei. Sentada, inerte, tentando imaginar o que teria acontecido com Erik desde a sua saída de minha casa até este triste desfecho. Como teria conhecido o senhor Marback?
Talvez Christine soubesse mais detalhes. De repente, veio uma vontade incontrolável de chorar. Chorei baixinho para não incomodar Meg. Chorava por Erik, por Christine, por minha filha, por mim.
À tarde, fui trabalhar. Pelo menos, enquanto ensaiava com as dançarinas, esqueci por alguns momentos da carta.
Naquela noite, mal consegui pegar no sono, apesar do cansaço. Ao levantar pela manhã, sentia a cabeça pesada e o corpo todo dolorido. Tinha de aprontar-me para procurar Christine. Como seria o nosso reencontro?
Meg insistiu em ir comigo ver a antiga grande amiga. Apesar de não achar conveniente, devido à motivação que nos levava a fazer aquela visita, permiti que ela fosse.
Logo após um breve café da manhã, seguimos as duas rumo ao nobre bairro Champs-Elysées, onde moravam os Viscondes de Chagny.





Capítulo VII



Saí de casa, ainda atordoado com a notícia da morte do “Fantasma”. Por outro lado, sentia-me aliviado por aquela história ter chegado ao fim. A certeza de que ele desaparecera para sempre da vida real, talvez o fizesse sumir de nossos pesadelos e temores mais profundos. Christine voltaria a ser somente minha.Teria de partir para Calais no dia seguinte, se quisesse chegar a tempo de encontrar o tal Paul Marback. Precisava falar com as autoridades responsáveis pelas buscas, ainda hoje, e obter a permissão para enterrá-lo nos subterrâneos da Ópera, que já se encontrava em obras de restauração. Acabei decidindo pedir ajuda ao Marquês de Cluny, meu amigo, que mantinha ótimas relações com os funcionários da Justiça parisiense. Tinha certeza que ele conseguiria ajudar-me nesta empreitada.
Cheguei a sua casa logo após o almoço. Fui recebido efusivamente:
- Meu caro Raoul! O que o traz à minha presença tão prematuramente após nosso jantar de ontem? Christine está bem? Melhorou de sua indisposição?
- Ah, sim, obrigado. Ela está bem. Na verdade, vim até aqui para pedir-lhe ajuda numa situação muito delicada que surgiu hoje pela manhã.
- Sente-se, meu amigo. Conte-me o que houve.
Sentei em uma poltrona a sua frente, na sala de fumar.
- Aceita um? – falou, oferecendo-me um charuto.
- Não, obrigado, Claude.
Enquanto ele iniciava a sua cerimônia de cortar, acender e dar uma bela baforada em seu charuto, comecei a contar-lhe os motivos de minha visita:
- Em nosso jantar de ontem, havíamos comentado sobre o fato de ainda não ter sido capturado o causador da grande tragédia do ano passado.
- E?
- Pois hoje, recebemos a confirmação de que ele está morto. Seu corpo chegará em 5 de Abril, no porto de Calais.
- Tem certeza disso?
- Absoluta.
A partir daí, passei a relatar-lhe sobre a carta que Christine recebera e o seu conteúdo. Não sabia dizer quais provas seriam dadas para comprovar o fato, mas estaria em Calais no dia marcado para verificar a veracidade disto tudo.
- Mas existem alguns problemas, meu caro Claude. Neste sentido é que precisarei da sua ajuda.
- Quais problemas?
- O falecido exige ser enterrado nos subterrâneos da Ópera.
- Como assim, exige?
- Um último desejo.
- Mas, um criminoso não tem esse direito – ele estava indignado.
- Também penso da mesma forma, mas... Claude, agora, lhe falando como amigos que somos, gostaria que relevasse este pedido e conseguisse a permissão para tal.
- Por quê?
- Por Christine. Ela está muito abalada com o que ocorreu. Como você sabe, ele foi seu professor de canto. Apesar de ser um louco, ele representou uma fase importante de sua vida. Ela acreditava que ele era um anjo enviado por seu pai, para ajudá-la após sua morte. Não podia saber da mente insana que estava por trás disso.
- Pobre Christine. Eu entendo. Bem, vou fazer o possível. Por Christine e por você, meu bom amigo. Ela não pode incomodar-se no atual estado em que se encontra. Temos que pensar no seu herdeiro. A minha pobre Dauphine não conseguiu me dar filhos, apesar de ter sido uma esposa maravilhosa. Fique tranqüilo, Raoul. Nós vamos conseguir que o último desejo do crápula seja realizado. Não por ele, mas por sua família.
- Fico extremamente grato por sua compreensão, Claude.
- Você parte para Calais amanhã, eu presumo?
- Sim. São dois dias de viagem de carruagem. Quero estar lá quando o corpo chegar.
- Bem, assim que você retornar, avise-me, que eu estarei com tudo preparado para dar um fim a esta história lamentável.
- Estarei em eterno débito com você, Claude.
Nos despedimos com um caloroso aperto de mãos. O Marquês de Cluny sempre tinha sido um verdadeiro amigo. Sabia que poderia confiar nele numa hora como esta. Naqueles tempos, ainda era uma boa coisa ser nobre. A revolução não conseguira acabar totalmente com alguns privilégios.
Agora que conseguira resolver meu problema, sentia-me melhor. Melhor seria quando visse o “Anjo da Música” enterrado, definitivamente.
Já na rua, depois de minha visita, fui até um café próximo a Sainte-Chapelle. Fiquei degustando uma taça de conhaque, relembrando todos os momentos que passara desde o reencontro com Christine, na Ópera, até os momentos em que vimos Erik pela última vez, no meio das chamas. Como gostaria de acreditar que tudo voltaria ao normal.
À tardinha, ao voltar para casa, encontrei Christine com melhor aspecto, carinhosa como sempre, mas ansiosa para saber se tinha conseguido permissão para o enterro.
- Não se preocupe, querida. Tudo vai ser como ele pediu. O marques de Cluny me garantiu que conseguirá a permissão.
- Ah, Raoul, muito obrigada. Sei que é duro para você vivenciar tudo isso, mas agora este assunto estará encerrado.
- Você jura? Acredita realmente nisso?
- Claro. Você duvida disso?
- Não sei, Christine. Às vezes sinto que os seus pensamentos vão para o seu “Anjo da Música”. Sinto-me sozinho.
- Você está imaginando coisas, Raoul. Eu te amo muito. Nunca duvide disso.
Ela aproximou-se de mim e abraçou-me, repousando a cabeça de cabelos longos e cacheados em meu peito. Ah! Como eu amava aquela mulher. Seria capaz de qualquer coisa por ela.
- Amanhã parto para Calais, pela manhã. Espero estar de volta em cinco dias. Melhor não falar com ninguém sobre isso. Não sei como Claude vai conseguir estes favores ou com quem. Assim, é melhor manter o sigilo. Está bem?
- Está bem.
Daquela noite até o momento de minha partida, na manhã seguinte, não tocamos mais no assunto Erik.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Erik - Capítulo V

Eu ainda podia vê-lo, em meio às chamas, as lágrimas em seu rosto, sinceras, chorando o amor perdido. Não sei como conseguira forças para continuar a viver. Em grande parte, claro, pelo amor de Raoul. Mas uma parte de mim ficara naqueles subterrâneos, enterrada com a dor do Fantasma. Aquele beijo... Aquele beijo, que devia ser apenas uma súplica por liberdade, transformara-se, naquele momento, na dúvida que passaria a carregar por toda a vida. O fogo da paixão acendeu-se em mim. Um fogo que consome a alma e trai nossos sentidos. Diferente do amor que sentia por Raoul - calmo, seguro, pueril. A razão acabou falando mais forte. Fiquei feliz por libertar meu companheiro de infância, meu amor adolescente. Por outro lado, deixara minha idolatria, meu Anjo da Música, abandonado em meio ao inferno. Ao olhar para trás, meu coração despedaçou-se ao vê-lo tão arrasado em meio ao caos.
Desde então, a vida continuava. O casamento fora marcado, em data que não ofendesse aos afetados pelo incêndio. Muito adequado. Não voltei a cantar. O encantamento me abandonara. Minha voz perdera sua motivação maior. Meu professor se fora.
- Christine! Meu bem! O que está fazendo aí? Nossos convidados chegaram.
- Ah! Estava pensando em um nome para o bebê. Temos que resolver logo, para começar a bordar as iniciais nas roupinhas.
Tão fútil, tão frágil. Era assim que esperavam que eu me comportasse. E assim eu seria. Não, não era ruim. A vida estava sendo boa comigo. A escuridão só chegava até mim em sonhos, pesadelos que eram bem compreendidos por meu esposo. Acho que ele sabia de como eu me sentia dividida, mas nunca comentou nada a respeito, como cavalheiro nobre e educado que era. Talvez tivesse medo do que eu teria a dizer se perguntasse.
- Não se preocupe com isso agora. Venha! Você está linda, como sempre – dizendo isso, depositou um beijo carinhoso em minha face direita. A face direita... A deformação de meu mestre. Pare de pensar nisso, Christine! A sua vida é ao lado de Raoul. Você o escolheu. Ele merece o seu respeito e o seu amor.
Os dias corriam calmos, apesar dos recentes confrontos com a Prússia, quando vivia amedrontada com a possibilidade de Raoul ser chamado para o campo de batalha. Mas, logo fui tranquilizada. Sua família era bastante influente. Bastante o suficiente para deixar o filho de fora dos conflitos. A gravidez viera alegrar nossa união. Uma nova vida estava sendo gerada, trazendo novas expectativas. A notícia havia chegado como um bálsamo para acalmar meu espírito angustiado. Mal sabia eu que, em breve, notícias viriam do outro lado do canal, para reacender minhas aflições e ofuscar minha alegria gerada pela maternidade.

Lá estavam o Conde e a Condessa de Vincenne, o Duque e a Duquesa de Orleans e o Marquês de Cluny, que enviuvara recentemente. Esta, aparentemente, era sua primeira aparição em um acontecimento social. Todos sorriam e davam suas congratulações pela chegada do mais novo herdeiro dos Chagny. Nenhum problema parecia afetá-los. Os assuntos eram amenos. Provavelmente, após o jantar, quando os homens estivessem fumando seus charutos, no salão destinado a eles, longe de suas frívolas mulheres, os assuntos tornar-se-iam menos suaves. Certamente a política de Napoleão III seria criticada, a perda da Alsácia e de Lorena para a Alemanha e... sobre as novas meninas nos prostíbulos de Monmartre. Neste último assunto, acreditava eu, que Raoul não estivesse interessado. Pelo menos por enquanto.
Porém, durante o jantar, as conversas acabaram por retornar ao velho assunto, ainda não esquecido, da tragédia da Ópera de Paris. As buscas pelo facínora responsável pela destruição daquele monumento e pela morte de, pelo menos, duas pessoas, continuavam sem resultados.
Senti um aperto no coração. Deus queira que ele esteja bem longe daqui. Estaria vivo? Meu coração dizia que sim. Comecei a sentir náuseas. Meu filho, recém gerado, já me ajudava a escapar de momentos pouco convenientes.
- O que houve, Christine? Você está pálida. Não está se sentindo bem?
- Coitadinha... Deve estar enjoada – falou a bondosa Duquesa de Orleans, Terése. – Vocês insistem em tocar nestes assuntos desagradáveis durante o jantar.
- Por favor, perdoem-me, mas a duquesa tem razão. Quero dizer, a respeito do enjôo – dei um sorriso amarelo – Não tenho sido uma boa companhia, ultimamente. Com licença...
- Quer que eu a acompanhe até seus aposentos?
Raoul, como sempre meigo e preocupado comigo.
- Não, querido. Fique com nossos convidados. Mais uma vez, me perdoe. Boa noite.
Fiz uma reverência com a cabeça e retirei-me, tentando conter a ânsia a todo custo.
Consegui chegar ao meu quarto, mas não contive a náusea. Esta era a pior parte da gravidez. Os vômitos. Como um ser tão desejado podia provocar tanto mal estar?
Depois de lavar-me, coloquei minha camisola e recostei-me na cama. Peguei um livro, com o intuito de ser levada ao sono. Desde a tragédia, tinha certa dificuldade em adormecer. Às vezes, depois de conseguir, acordava no meio da noite, em sobressaltos, com palpitações.
Não se passaram mais que duas horas, ouvi os passos de Raoul subindo as escadas que levavam ao nosso dormitório. Provavelmente nossos convidados já haviam se retirado.
A porta abriu-se:
- Ainda acordada?
- Não consigo pegar no sono.
- Quer que eu durma no quarto de hóspedes?
- Não, meu amor. Prefiro que fique aqui comigo, por favor...
Seu rosto iluminou-se. Ele também precisava de atenção. Havia sido atingido por aqueles acontecimentos dramáticos tanto quanto eu. Só tentava ser mais forte.
- O que você acha do nome Gustav? Pensei em fazer uma homenagem ao meu pai.
- Acho uma belíssima escolha, querida. Concordo. Gustav de Chagny... Gostei.
- Que bom que lhe agradou a minha escolha. Boa noite, querido.
- Boa noite, Christine.
Dormimos abraçados. Apesar de tudo, eu o amava muito. Como era possível ter amor por dois homens ao mesmo tempo? Talvez porque o outro estivesse perdido na distância, no tempo. Quando aquela lembrança me deixaria livre para viver minha vida com Raoul e nosso filho? O tempo. O tempo tudo apagaria. Pelo menos era o que eu esperava.
Quando acordei, na manhã seguinte, Raoul já havia saído para os seus compromissos do dia.
Acabara de tomar meu desjejum, quando o mordomo trouxe a correspondência. Mais convites para festas, jantares, chás com as senhoras da nobreza e uma carta sem lacre, comum, originária de Dover, na Inglaterra? Endereçada para mim?
Rapidamente, desprezei as demais e voltei toda minha atenção para aquele simples envelope, sem brasões nobres. Abri-o com cuidado e comecei a ler seu conteúdo, escrito em francês perfeito, apesar de sua origem:

“Cara Viscondessa de Chagny,

Meu nome é Paul Marback. Apesar de não nos conhecermos, tínhamos um amigo em comum. Infelizmente, é com pesar que venho informar-lhe o falecimento do Sr. Erik. Sua saúde encontrava-se muito debilitada, devido a graves ferimentos, o que provocou a sua morte.
Ele próprio, antes de falecer, solicitou-me que escrevesse para repassar-lhe seus últimos desejos. O primeiro era ser enterrado nos subterrâneos da antiga Ópera de Paris, local onde passou a maior parte de sua vida. Seu segundo desejo era o de que seu esquife não fosse aberto, em hipótese alguma. Tenho em meu poder provas de que o corpo pertence a ele mesmo e que somente a senhora, e talvez seu esposo, possam reconhecer, junto às autoridades legais.
Chegarei com o corpo de nosso amigo, no porto de Calais, no dia 05 de Abril, pela manhã.
Espero contar com seu apoio.
Respeitosamente,
Paul Marback”

Senti perder minhas forças e o quarto passou a rodopiar a minha volta. Deixei cair a carta ao chão. Uma forte opressão no peito fez com que tivesse dificuldade para respirar. Tudo escureceu a minha volta.
- Christine... Christine... Acorde, meu amor. Por favor, responda.
Meus olhos pareciam ter chumbo nas pálpebras. Com grande dificuldade consegui abri-los e vi a expressão preocupada de Raoul.
- Raoul... Você voltou para casa?
- Fui chamado às pressas. Você desmaiou.
Só então lembrei o que tinha acontecido. Minha cabeça latejava. Veio uma imensa vontade de chorar, que tentei reprimir. Quis levantar-me da cama onde estava, mas fui impedida por Raoul.
- Fique deitada. Já descobri a causa do seu mal estar. Não se preocupe com nada. Vou cuidar de tudo.
- Raoul... Ele está morto... – não consegui mais evitar as lágrimas.
- Foi melhor assim, meu bem. Agora, não existirão mais sombras entre nós.
- Ele quer ser enterrado nos subterrâneos. Chegará em quatro dias, em Calais.
- Já disse para não se preocupar. Eu, pessoalmente irei até lá e encontrarei o Sr. Marback, para trazermos o corpo “dele”. Fique tranqüila.
- Raoul... Obrigada. Desculpe por lhe dar mais este fardo.
- Será um alívio poder encerrar este caso. Tenha certeza disto. Agora, descanse. Tente não pensar mais nisso. Pense em nosso filho.
- Com licença, visconde. Trouxe um chá de ervas para a senhora – falou nossa camareira, Marie.
- Ah! Obrigada, Marie – agradeceu meu marido.
- Tome, amor. Vai lhe fazer bem. Vou sair novamente, para começar a tratar deste assunto. Descanse.
Deu-me um beijo na face e saiu, não sem antes recomendar máximos cuidados à Marie.
Conseguira acalmar o choro, mas aquela angústia no peito não me deixava. Será que Raoul tinha razão? As sombras iriam embora, finalmente? Talvez sim, talvez não...



quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Erik - Capítulo IV

Como este terceiro capítulo foi muito curto e não querendo fazer ninguém sofrer muito, (não é , Vanessa?), vou postar o quarto capítulo. Até amanhã! Beijos!!


Os dias foram passando e a minha recuperação era visível, graças aos cuidados de meu jovem amigo. Durante este tempo, passei a receber algumas aulas de inglês, para melhorar nossa comunicação, e também, a acompanhar o seu trabalho. Era interessante vê-lo trabalhar com o ouro, a prata e as pedras preciosas. Porém, faltava-lhe imaginação na confecção das peças. Passei a dar sugestões e arrisquei-me a fazer alguns desenhos. Surpreendentemente, ele aceitara de bom grado meus conselhos e rabiscos. Mais surpreendente ainda foi quando as novas jóias passaram a não permanecer mais que um dia na pequena vitrine. O movimento da joalheria começou a aumentar e os novos pedidos já não eram mais minguados, como antes.
- Erik, acho que formamos uma bela dupla. Você como designer imensamente criativo e eu com minha habilidade em transformar sua criação em jóia.
- Eu estava pensando em partir. Você sabe que já estou plenamente recuperado. Não vou esperar que você me expulse daqui. Pretendia partir antes disso – falei sorrindo.
- Olhe. Vou te propor uma sociedade. Você entra com a sua inventividade e eu com o trabalho braçal. Dividimos os lucros meio a meio. O que acha?
Ele parecia bem empolgado. Não seria má idéia. Meu medo era ainda estar muito próximo da fronteira com a França e ser descoberto. Era arriscado continuar ali. Mas não podia descartar este convite. Talvez pudesse ganhar dinheiro com esta sociedade. Não precisava aparecer muito. Deixaria o brilho para o jovem Paul e guardaria meus lucros. Sentia uma certa culpa por não contar toda a verdade a meu novo amigo. Talvez um dia.
- Está certo, Paul! Se você não se importar de dividir sua casa com um pobre deformado - quando imaginei que poderia brincar com minha maior miséria, daquela maneira?
- Acho que nossa sociedade vai ser um sucesso. Logo, logo, poderemos comprar uma casa maior, onde a gente não se cruze a todo o momento e eu não precise ver esta sua cara feia a toda o instante – deu um amplo sorriso e abraçou-me.
Apesar de tudo, continuei a usar minha venda negra sobre o lado direito do rosto. Ela substituíra a velha máscara da Ópera. Já conseguia sair às ruas sem atrair tanta atenção. Começava a sentir-me integrado aquela comunidade. O sucesso de nossa sociedade era evidente. O dinheiro passou a entrar mais facilmente a cada dia. Ao final do primeiro ano, mudamos para uma loja maior, num bairro mais nobre de Dover e nossos clientes passaram a vir em carruagens elegantes. Ricos comerciantes e alguns nobres eram nossos clientes, na aquisição de presentes para suas esposas e para suas amantes. Como havia exigido de Paul, que não quis entrar em detalhes sobre meu pedido, meu nome não aparecia de maneira alguma. Todos os louros eram para ele. Não me importava o sucesso pessoal. Meus planos iniciais, de ganhar muito dinheiro pareciam estar dando certo. Isto é o que importava.
O medo do passado parecia estar ficando cada vez mais longe. Até os pesadelos já não visitavam minhas noites com tanta freqüência. Até o dia em que, passando em frente à cadeia municipal, vi fixado um cartaz, que fez todos meus temores serem arrancados do limbo em que se encontravam até então. Era o retrato de um homem, com uma máscara que cobria seus olhos, como aquela em que eu usara na primeira e última apresentação de “O Triunfante Don Juan”, na Ópera de Paris. Em grandes letras, lia-se a palavra “Procurado”. Em letras mais miúdas, indicava que o sujeito era de nacionalidade francesa e de extrema periculosidade.
Corri para casa. Acho que chegara a hora de partir. Logo agora, que tudo ia tão bem. Por quê? Já não sofrera o suficiente para pagar minha dívida?
Teria de contar a Paul minha verdadeira história. Certamente ele me expulsaria de sua casa. Com toda a razão. Eu não o culparia.
Como sempre, ao chegar, Paul encontrava-se debruçado em sua mesa de trabalho, sobre um lindo broche, desenhado por mim, em forma de borboleta, em ouro, cravejado de pequenas esmeraldas e brilhantes, que davam uma delicadeza e uma leveza esplêndida à pequena relíquia.
- Paul, precisamos conversar.
- Sente-se aí e fale. Algum problema? Sua voz está estranha.
Parou seu trabalho e levantou um olhar preocupado em minha direção.
Sentei-me, e sem conseguir enfrentar sua face inquiridora, falei:
- Há cerca de um ano, quando cheguei aqui e fui bondosamente acolhido por você, estava fugindo de meu país natal, a França.
- Até aí, Erik, não vejo novidade alguma.
- Como? Você sabia que eu era um foragido?
- Podia ter alguma dúvida? Uma pessoa que chega no estado em que você chegou, num dos principais portos ingleses e sem falar uma palavra de nossa língua, faria pensar em que? Que você estava aqui a passeio?
Tive que rir de minha ingenuidade ao subestimar a inteligência de meu sócio.
- Porque você nunca quis saber de meu passado?
- Não achei que fosse importante. O tempo me deu razão. A nossa parceria tem sido um sucesso. Nós estamos indo bem, não?
- Estamos, Paul. Mas, infelizmente, meu passado pode voltar para atrapalhar nossos planos.
- Deve haver algo que possamos fazer.
- Estão a minha procura. Hoje vi um cartaz, com um retrato falado. Muito mal feito, é verdade, mas que mostra um homem com uma máscara, igual a que eu usava antes de fugir, cobrindo meus olhos e parte da desfiguração. Dizem que o homem é muito perigoso. Oferecem uma recompensa. Logo alguém vai lembrar-se de mim e fazer a ligação. Preciso ir embora, Paul.
- Vamos pensar, Erik. Tem que haver uma maneira. Talvez você pudesse viajar – enquanto pensava, vi sua face transformando-se, de uma expressão preocupada para um sorriso maroto.
- Já sei! Olhe, já venho pensando a algum tempo que Dover já está ficando pequena demais para nós. Temos tido alguns clientes de Londres, que vêm para comprar nossas jóias. Talvez esteja na hora de mudarmos para um centro maior e expandir nosso negócio. Para isso, preciso que alguém que vá na frente para conseguir um lugar para abrir a nova loja, ter contatos com clientes, enfim, preparar o terreno. O que acha?
- Acho uma boa idéia, mas o problema só seria adiado. Eles vão continuar a caçada. Um dia vão chegar a Londres. Se já não chegaram.
- Então temos que dar um jeito para eles pararem com esta caçada.
- Como? Eu errei muito, Paul. Um dia você vai saber de meus crimes. Arrependi-me profundamente de todos eles e acho que já sofri o bastante para redimir-me. Mas, a maioria das pessoas não pensa assim, e só vão descansar quando me virem com a cabeça dentro de uma cesta de palha.
- Tem que haver uma maneira. E... Se você morresse?
- Como assim?
- Claro! Eles não o querem morto? Achamos um corpo qualquer, o que não é difícil hoje em dia, e o enterramos como se fosse você.
O que ele estava dizendo parecia um absurdo total, mas quem sabe? Talvez não fosse uma idéia tão absurda assim.
- Paul, estou começando a pensar num plano tão louco quanto sua idéia e que pode dar certo. Vou precisar da sua ajuda, de qualquer maneira.
Durante mais de duas horas arquitetamos um esquema, que aparentemente seria perfeito.
Revisamos os riscos, todos as arestas possíveis, de forma a não deixar nenhum detalhe de fora.
Ao final deste tempo, ficou resolvida minha ida para Londres, onde ficaria isolado de tudo por alguns dias, até que minha “morte” estivesse definida.
Naquela noite, tive pesadelos mais terríveis que os anteriores. Acordava aos sobressaltos, suando frio. Meus sonhos sempre me encontravam num labirinto escuro. O barulho de água interminável, águas escuras e malcheirosas, que escorriam das paredes, vozes, murmúrios ameaçadores. Eu correndo, meu rosto sangrava, embaçando minha visão... Os sussurros tornavam-se mais audíveis... “Filho do demônio, filho do demônio... Peguem-no!” Finalmente, sentia mãos, como garras, forçando-me a parar. Neste ponto, acordava, ainda com a sensação daquelas mãos frias cravando suas unhas em meus ombros.
No dia seguinte, bem cedo, uma carruagem me aguardava nos fundos da joalheria. Paul havia dado uma ordem bem clara de que não devíamos parar por motivo algum. Indicou ao cocheiro o hotel, discreto segundo ele, nos arredores de Londres, para onde devia levar-me. Lá, eu aguardaria suas notícias. Se tudo corresse conforme o planejado, receberia, em breve, notícias suas de que já estaria livre para circular novamente e cuidar de nossa mudança. No mesmo dia, duas cartas atravessariam o canal da Mancha, em direção a Paris, endereçadas a duas mulheres: Madame Giry e Viscondessa de Chagny.

Erik - Capítulo III

O centro de Dover ficava distante cerca de 3 km a nordeste. Segui na direção indicada. Desta vez teria de fazer o percurso a pé. Tinha que agüentar. Agora faltava pouco. Pelo menos conseguira cruzar a fronteira. Por enquanto, seria mais seguro. Provavelmente teria dificuldades com a língua. Talvez pudesse passar por mudo, ao menos no início.
Tentava imaginar o que poderia fazer para começar minha nova vida. Com isso tentava esquecer a febre que atordoava meus sentidos e a pontada insistente em meu dorso. Consegui chegar a Dover, mas já estava sentindo-me muito mal. Sentia calafrios, apesar de o corpo queimar. As pernas fraquejavam. A bolsa de couro pesava como se lá tivesse colocado chumbo. As pessoas que transitavam nas ruas deviam pensar que eu era mais um estrangeiro bêbado. Logo, cambaleei e, sem forças, caí. Conseguia ouvir o burburinho à volta. Alguém me arrancou a bolsa de couro das mãos. Não tinha forças para segurá-la. Mais alguns gritos. Uma voz sobressaiu-se das demais. Era a voz de um homem. Tentaram me reerguer, mas acabei soltando um grunhido de dor, pois as mãos pressionaram diretamente meu ferimento.
- Sangue! – disse a mesma voz de antes. Pude entender que minha ferida reabrira e sangrava.
- Você! Ajude-me a levar este homem para dentro de casa. Ele está ferido! My God! Ninguém tem misericórdia nesta cidade. Eu mesmo o levo. Além de roubá-lo, ficam olhando para ver o homem morrer.
Entendi que o rapaz estava fazendo um esforço sobre-humano para poder tirar-me do solo. Assim, juntei o resto de forças que ainda achava que tinha e levantei meus braços, para que ele entendesse que estava consciente e que tentaria ajudar a levantar-me.
- Vamos! Venha! Se continuar aqui vai acabar sendo depenado por estes ladrões inúteis e, provavelmente atropelado por alguma carroça desavisada.
Com muito esforço, conseguimos atravessar a rua e entramos por uma porta que me pareceu ser de uma loja. Havia uma pequena vitrine na frente. Teria visto algo reluzente por trás do vidro? Mal conseguia abrir os olhos. Devia estar tendo alguma alucinação. Era uma joalheria?
Passamos pelo pequeno recinto da frente e fomos para o que devia ser os fundos da casa.
- Você consegue ficar sentado?
Gesticulei, para que ele soubesse que eu não estava entendendo o que ele me dizia.
- Você é surdo? – falou, cobrindo os ouvidos.
Acenei negativamente com a cabeça.
- Você não fala minha língua? É isso? Será?
- François... – disse com voz quase inaudível.
- Francês?
A partir daí, ele conseguiu falar algumas palavras em meu idioma, tentando fazer-se entender.
Ele queria que eu ficasse sentado para ver meu ferimento.
Ao permitir isto, ouvi sua exclamação horrorizada:
- Oh, God! Acho que precisamos de um médico.
Pensei ter entendido a sua intenção e balancei a cabeça negativamente, vigorosamente.
- É, meu amigo. Não se preocupe. Não tenho dinheiro mesmo, para chamar este tipo de ajuda. Já vi que você não vai querer gastar o seu. Vamos ter de nos virar com o que tenho em casa e rezar para que o seu organismo dê conta de recuperá-lo. Melhor deitar-se, enquanto pego água e panos para limpar esta ferida - Ficou falando comigo, enquanto pegava o material de higiene.
- Já vi que você é um homem prevenido. Carrega seu dinheiro colado ao corpo. Sua sorte, pois se aqueles ali fora soubessem disso você já estaria sem um tostão e morto a estas horas. Ainda bem que eu estava em frente à loja e vi tudo. Só não consegui segurar o malandro que arrancou a sua bolsa.
Ele parecia não dar muita atenção para o meu rosto, curiosamente.
- Agora, fique firme. Vou começar a limpar este corte e acho que vai doer.
Ele falava muito enquanto fazia o seu trabalho de limpeza. Alguma coisa eu podia entender.
Paul. Este era o seu nome. Paul havia herdado a pequena joalheria de seu pai, ourives conhecido da região. Tinha aprendido o ofício com ele, mas não tinha o seu talento. Assim, quando o pai morreu, a procura por suas jóias foi diminuindo. Agora, poucas encomendas eram feitas. Considerava-se um criador de “bijuterias” finas, sem grande valor, a preços módicos. Parecia ser uma pessoa bem humorada, falante, humilde, sem grandes aspirações na vida. Vivia o presente, sem ligar para o futuro. Conseguia uma pequena renda mensal na loja, que lhe permitia viver com simplicidade, sem extravagâncias. Só sentia não ter o suficiente para trazer a irmã caçula para viver em Dover com ele, pois se sentia muito só. Ela morava numa cidade do interior, distante uns 150 km dali, ao norte, com uma tia rabugenta, irmã de seu pai, desde que este falecera, há dois anos.
Mais uma pessoa que me tratava como ser humano. Parece que o destino resolvera compadecer-se de mim nesta nova trilha de minha vida.
Só depois de alguns dias, quando viu seu paciente em melhor estado, sentiu maior intimidade para perguntar-me sobre meu rosto. Resolvi contar-lhe a verdade. Senti que não havia necessidade de mentir para ele. E, realmente, tinha razão. Não notei pena em seu comentário, apenas um toque de tristeza por esta fatalidade.
- Deve ser difícil aguentar os olhares dos curiosos.
- O pior são os olhares que o fazem sentir-se monstruoso. Nesta minha viagem, descobri uma bela falsa explicação para este meu “defeito”. Ferimento de guerra.
- É, talvez seja uma boa opção para fugir de várias explicações.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Erik - Capítulo II



Este é Erik, protagonizado por Gerard Butler na versão cinematográfica de 2004




Na manhã seguinte, fui acordado por batidas fortes na porta, no andar debaixo.
- Abram, é a polícia!
Levantei-me da cama, com dificuldade, devido à dor, mas pude chegar até a porta do quarto, abrindo-a, para tentar escutar as vozes lá embaixo.
- Calma! O que está havendo? Porque a pressa?
Annie abriu a porta.
- Bom dia, madame. Fomos informados que um homem estranho, usando uma capa, foi visto andando por estas ruas. Pode ser um assassino. Estamos a sua procura. Deve ter ouvido falar do incêndio na Ópera, há duas noites, não?
- Sinto muito, mas não posso ajudá-lo. Não vi ninguém com esta descrição.
- Tem certeza?
- Claro! Se souber de alguma coisa, avisarei.
Fechou a porta. Respirou fundo, com olhar preocupado.
- Eu falei, mamãe. Vamos ter problemas.
Ela tinha razão. Se eu continuasse ali, elas poderiam ser intimadas e presas por cumplicidade. Precisava deixá-las. Não podia lhes causar mais este sofrimento.
Annie abriu a porta e surpreendeu-se ao me ver em pé.
- O que você está fazendo aí? Não pode levantar-se.
- Vou embora esta noite. Precisam conseguir-me roupas e algum disfarce para o meu rosto.
- Mas, você não pode sair. Você vai acabar sangrando até morrer, se não cuidar.
- Vocês estão correndo perigo enquanto eu estiver aqui.
- Está bem. Vou ver o que posso arranjar.
- Obrigado, Annie. É o melhor para todos nós. Você sabe disto...
A noite chegou. Um chapéu de abas largas e uma venda preta sobre o olho direito serviram para disfarçar minha face desfigurada. Annie conseguira retirar meu dinheiro do banco, guardado em seu nome, a meu pedido. Era uma quantia razoável, produto do salário pago, por anos a fio, pelos administradores da Ópera. Com ele poderia iniciar algum negócio, em outro país. Resolvi guardar a maior parte dentro de minhas botas e numa faixa usada junto ao corpo. Mais tarde, veria que tinha sido uma sábia decisão.
- Boa sorte, Erik! Deus o proteja. Aqui estão alguns mantimentos para a sua viagem – falou, entregando-me uma bolsa de couro.
- Obrigado, Madame Giry. Nunca vou esquecer o que você fez por mim.
- Por favor, assim que possível, escreva e mande notícias.
- Adeus.
- Adeus, Erik – e abraçou-me, como a um irmão.
- Erik... – falou Meg. - Eu peço desculpas pelo meu comportamento nestes últimos dias. Desejo que você seja feliz. Tenho uma coisa para lhe dar, que achei nos seus aposentos durante a confusão daquela noite – dizendo isto, alcançou-me a minha máscara que cobria a metade de meu rosto desfigurado.
- Eu não a culpo pelos seus pensamentos, Meg. Você tem toda a razão em ter medo. E obrigado por recuperar o meu “rosto”. Adeus.
Saí pela porta dos fundos. Já era madrugada. Só os bêbados e as poucas prostitutas que ainda não haviam conseguido completar a féria da noite, ainda perambulavam pelas ruas. A dor na ferida já recomeçara. Não podia arriscar-me a pegar um coche.
Tinha de seguir para o Norte. Calais? Não, muito movimentado. Talvez Boulougne fosse melhor.
Estava próximo ao mercado, que já começava a movimentar-se com a chegada das mercadorias, vindas em carroças, das pequenas propriedades da periferia da cidade. Se eu conseguisse pegar um daqueles cavalos. Um pequeno furto não mancharia muito mais a minha ficha policial.
Aproximei-me, cuidadosamente, ainda coberto pela escuridão da noite, do bebedouro público onde os cavalos saciavam sua sede. Consegui desatrelar um deles e silenciosamente afastei-me do local sem ser percebido. Quando o dono deu-se conta, já era tarde demais. Já cavalgava livremente pela estrada, rumo a Beauvais. De lá seguiria para Boulougne. Apesar da dor, não podia arriscar-me a parar para descansar. Eram cerca de 250 km a percorrer a cavalo. Não seria fácil, considerando meu ferimento. Contudo, cheguei a Beauvais no início da tarde.
Apesar do bom trabalho de Annie, o esforço de cavalgar era grande e uma pequena hemorragia insistia em voltar. Coloquei minha capa por cima do corpo, para esconder o sangramento. Logo na entrada da cidade, encontrei uma velha taverna, onde pude beber um copo de vinho, com pão e queijo. Sentindo-me observado pelos poucos freqüentadores do lugar, tentei não lhes dar atenção. O taverneiro não resistiu à curiosidade e perguntou:
- Foi ferimento na guerra?
Percebi que esta seria uma bela desculpa para aquela deformidade.
- Sim. Lembrança de uma batalha.
Iniciamos uma conversa muito animada, principalmente por parte de meu interlocutor, que viu em mim um companheiro de lutas. Passou a contar das batalhas que participara. Minha sorte foi que ele gostava mais de falar do que de ouvir. Quando terminou seu monólogo, pude pagar e despedir-me. Já não via desconfiança ou horror nos rostos a meu redor. Sentiam admiração e pena pelo herói que supunham eu ser.
A partir daí, decidi não fazer mais paradas nas localidades por onde passasse. Poderia ser reconhecido. Não tinha idéia de como estava a caçada ao Fantasma. Havia visto alguns policiais andando pela cidade, sendo que um deles ficou olhando-me suspeitamente. Provavelmente, devido ao meu aspecto e por curiosidade em relação ao meu “ferimento” no rosto, mas eu não podia arriscar. Resolvi manter a venda preta e não minha antiga máscara, para não chamar mais a atenção.
Foram três dias de longo e cansativo trote, tentando evitar as estradas principais, com a dor nas costas a me infernizar. Noites mal dormidas em meio ao mato, alimentando-me com o pão, a geléia de maçã e alguns biscoitos que Madame Giry colocara na bolsa de couro. A água, para saciar a sede, vinha dos córregos por onde passava. Estava exausto, sentindo-me fraco e febril. Precisava de um banho. Precisava trocar os curativos.
Finalmente, ao final do terceiro dia, as poucas luzes de Boulogne surgiram no horizonte, misturando-se ao lusco-fusco do anoitecer.
Podia sentir o cheiro de peixe em minhas narinas. Se pudesse achar um lugar para repousar à noite. Poucas luzes acesas. Consegui encontrar uma pequena pousada próxima à praia. Ao entrar, mais uma vez o olhar desconfiado do caseiro. Em tom de gracejo, comentei sobre o presente de Napoleão III em meu rosto. Fiquei impressionado com a simpatia que veio substituir a expressão de horror que havia segundos antes. Passei a surpreender-me com a maneira como as portas se abriam diante deste argumento.
Consegui um modesto quarto, mas com uma cama limpa e uma bacia com água para a higiene. Claro, que tinha um preço alto, além do cavalo que ficaria para completar o pagamento. Mas, considerando o cansaço e as dores que sentia, foi bem pago. Tentei cuidar de meu curativo da melhor maneira possível, mas, pela localização, tive dificuldades em fazer uma limpeza adequada. Como já não estava sangrando, apenas lavei-o como pude. No dia seguinte, colocaria uma camisa limpa. Não consegui dormir direito. Sentia a ferida latejante. Certamente estava infectada. Mantinha-me em estado de alerta constantemente pelo medo de ser descoberto e ter meus planos jogados por terra.
Tão logo amanheceu, levantei-me e desci para comer alguma coisa e procurar uma embarcação que me levasse para Dover. Se não estivesse ferido, eu mesmo poderia remar e atravessar La Manche. Porém, no estado em que me encontrava, seria assinar o meu óbito em meio às ondas do mar.
Conversando com o dono da pousada, consegui descobrir que seu irmão estava saindo dentro de uma hora, com seu barco a vapor, para atravessar o canal, levando algumas mercadorias para o território inglês. Como as coisas funcionavam a contento quando havia dinheiro para gastar... Esta seria a minha orientação a partir de então. Ganhar dinheiro. Todas as barreiras eram superadas na presença de algumas moedas. Não havia preconceito ou dificuldades.
Após um brevíssimo“petit déjeuner”, fui apresentado a Jean, irmão de meu hospedeiro. Era um homem de meia idade, forte, queimado pelo sol, de poucas palavras, diferente do seu consangüíneo. Pareceu-me meio desconfiado.
- Espero que você seja discreto a respeito deste nosso “passeio”.
- O mesmo espero de você. Portanto, não teremos problemas.
Após este breve entendimento, partimos mar adentro. Pude entender que o seu carregamento era ilegal e que não passaria por tarifa alfandegária. Isto ficou mais claro, quando, ao chegarmos ao outro lado do canal, o barco aproximou-se de uma praia deserta, onde dois homens aguardavam, para descarregar a mercadoria, num pequeno barco a remo, que logo alcançou-nos. Após uma breve apresentação, fui levado com a primeira série de caixotes.



Espero que quem ainda não conhecia esta estória, deixe o seu parecer a respeito dela e comente ou deixe seu recado. Não canso de repetir que este retorno de vocês é muito gratificante e pode me ajudar a melhorar os meus textos. Beijos!

PS: Pretendo postar um capítulo por dia para que vocês possam ir "degustando" aos poucos...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

ERIK

Depois de alguns dias de recesso, estou de volta. Agradeço a todas minhas amigas que colocaram seus comentários tão carinhosos e estimulantes a respeito do "Um Amor do Deserto". Por enquanto ainda estou me inspirando para escrever um novo romance. Assim, enquanto penso na próxima estória, decidi postar aqui o meu romance preferido. É uma pretensa continuação de um romance que já teve inúmeras versões no cinema e tem sido representado no teatro, na forma de musical, por Andrew Lloyd Weber: "O Fantasma da Ópera". Eu amo este romance e me apaixonei ainda mais quando assisti à versão para o cinema do ano de 1994, sob a direção de Joel Schumacher. Sei que esta versão afastou-se um pouco do romance original de Gaston Leroux, onde o fantasma era um homem totalmente deformado, com aspecto assustador, porém com uma voz de anjo. Para quem ainda não assistiu esta versão encantadora de 1994, eu recomendo.Para quem já assistiu, sei que entendem o por quê da minha fascinação por este filme e pela personagem principal.Resolvi escrever esta continuação por achar que o Fantasma (Erik) merecia um final melhor e, também, porque li "O Fantasma de Manhattan", de Frederick Forsythe, e não gostei muito.Vocês dirão: "Pretensiosa ela, não?" Mas reconheço que o Erik de Forsythe é mais fiel ao descrito por Leroux. Por isso Andrew Lloyd Weber está em vias de levar aos palcos esta versão.
Sei que a maioria de vocês já leu a minha continuação e a elas peço desculpas por não apresentar novidades.
Bem, vamos lá ao primeiro capítulo. Beijos!!



Capítulo I

Novamente em fuga. De volta aos esgotos. Mais uma vez, rejeitado. Christine me abandonara definitivamente. Tinha esperanças que ela ficasse comigo, mas seu amor por Raoul era maior. Devia saber que ela não trocaria o belo visconde por um deformado como eu. Ela não merecia o meu amor. Em nosso único beijo pude perceber que ela faria qualquer coisa para salvar seu amante. Eu podia entender agora. O amor nos faz cometer loucuras. Agora, seguiria meu caminho. Começaria do zero, mais uma vez. Esta era a minha vida, minha sina, meu destino. Quando poderia dar sossego a minha alma atormentada? De tudo que aconteceu, levara uma lição... Nunca mais colocaria alguém acima de mim mesmo. Tudo que conseguira ao longo dos anos, perdidos numa só noite, por causa de uma mulher. Uma mulher... Christine...
Ouvi as vozes dos soldados ao longe. Gritos de pavor vindos das ruas, acima de mim. O calor das chamas. Podia senti-lo, queimando toda a beleza daquele teatro magnífico, que por tantos anos fora meu lar. Um lar de sombras, de noite eterna, mas um lar.
De repente, ouvi em forte estrondo e alguns destroços caíram sobre mim. Entre as pedras que desabavam, enfraquecidas em suas ligas, pelo fogo, havia estacas de madeira. Uma delas precipitou-se rapidamente sobre minhas costas, cravando-se em minha carne, provocando uma dor intensa. Devo ter perdido os sentidos naquele momento, pois não me lembro de ter visto mais nada depois disso. Não sei quanto tempo ali fiquei, deitado, naquelas ruelas fétidas, subterrâneas, até recuperar a consciência. Levantei-me e continuei minha fuga. Agora, sentia muita dor. Minha camisa estava colada ao corpo. Não pelo suor ou pela água, mas por sangue, que fora perdido em grande quantidade. Sentia-me fraco. Precisava sair daquele lugar, antes que alguém me encontrasse. Todos deviam estar ansiosos por encontrar este “ser maligno, deformado, homicida sanguinário”. Ninguém sentiria compaixão por mim, nem ouviria minhas explicações. Nada explicaria aquela violência e aquela raiva contida numa só pessoa. Talvez Christine compreendesse. Vi nos olhos dela que sim. Outra pessoa já tinha entendido este meu lado. Não podia esquecê-la. Madame Giry. Annie Giry. Minha salvadora. Talvez... Quem sabe ela não pudesse ajudar-me agora. Seria ela capaz de arriscar-se novamente por mim? Depois de tudo que ocorrera naquela noite?
Ao encontrar uma saída para o ar livre, cobri-me com minha capa. A máscara que usava ficara perdida no meio dos escombros. Para onde Annie e sua filha poderiam ter ido? Seu lar também fora destruído. Lembrei que, certa vez, ela havia falado na casa de um irmão em Monmartre, próxima a Sacré-Couer Talvez tivesse ido para lá, até encontrar um lugar definitivo. Segui em sua direção. Lembrei do endereço. Não era difícil de achar. Com dificuldade, andei, esgueirando-me pelas ruas de Paris, como facínora perseguido que era. Cerca de quase duas horas depois, estava lá. Havia uma fraca lamparina acesa. Procurei a porta dos fundos. Consegui abri-la com facilidade. Entrei silenciosamente, indo na direção da luz. Num instante, ouvi vozes femininas, sendo que uma estava chorando. Era Meg. Pareciam estar sozinhas. Não queria assustá-las. A dor nas costas estava incomodando muito. Tropecei num pequeno tapete, não visualizado no escuro.
- Quem está aí? – perguntou a voz conhecida.
Ela pegou um pesado candelabro que estava sobre a mesa e levantou-o no ar, pronta para desferir um golpe no intruso oculto nas sombras da sala.
- Sou eu, Annie! Erik! - Minha voz saía fraca. Perdia as forças rapidamente.
- Erik! Meu amigo! O que houve com você?
Ela ainda me considerava seu amigo. Era uma pessoa especial. Tinha muito a aprender com ela. Desperdiçara meu tempo com vingança e um amor tolo, ao invés de prestar atenção a quem tinha algo de valor a ensinar. Talvez fosse tarde demais para isso.
- Annie, me perdoe. A culpa foi toda minha. Fui um estúpido. Deveria ter morrido naqueles subterrâneos. Só agora vejo que você tinha razão.
- Erik! O que aconteceu? Você está sangrando muito.
- Mamãe! Nós não podemos ajudá-lo! Ele está sendo perseguido pela polícia. Se souberem que o ajudamos, seremos presas como cúmplices!
- Cale-se, Meg! Não foi assim que a ensinei! Ajude-me aqui, agora!
Com muito esforço, conseguiram levantar-me do chão e levar-me até um pequeno sofá, onde, após despir-me da capa e de minha camisa, puderam ver um ferimento cortante, amplo, com uma séria hemorragia.
- Meg, traga-me água quente, panos limpos, agulha de bordar e uma linha de algodão. Rápido!
- Melhor deixar que eu morra. Já prejudiquei muita gente.
- Cale-se, você também, Erik. Agora vou dar um jeito neste ferimento. Não quero vê-lo morrer dentro de minha casa, na frente de minha filha. Assim que você estiver recuperado, poderá fugir e tentar refazer a sua vida. Agora, temos de pensar numa maneira de diminuir a dor que você irá sentir quando eu tiver de costurá-lo.
Falando isso, foi à cozinha, onde pegou uma garrafa de conhaque. Fez-me beber vários goles. Em pouco tempo já estava tonto. Não estava acostumado a beber tanto.
Meg voltou com o pedido da mãe. O ferimento foi limpo e logo, ela fazia o seu trabalho de costureira. Durante o procedimento, desmaiei. Não só pela dor, mas por estar fraco demais com a perda de sangue.

Acordei. Estava deitado em uma cama, com lençóis limpos. Meu peito encontrava-se enfaixado com gazes brancas. A dor recomeçara. Não conseguia mexer-me. Ainda estava fraco.
- Bom dia! Como está meu paciente? Sobreviveu ao meu trabalho de açougueiro? Trouxe-lhe um caldo de galinha quentinho, para recuperar suas forças.
- Annie... Como vou poder agradecê-la por tudo que está fazendo por mim?
- Ficando bom logo, para poder ir embora daqui - falou sorridente.
- Erik, falando sério, o seu ferimento foi bem profundo. Você tem que repousar, pois ele pode sangrar de novo. Não tente fugir. Você está seguro aqui.
- E o seu irmão?
- Ele faleceu há cerca de seis meses. Deixou-me esta casa como herança, pois não tinha herdeiros.
- Eu não sabia. Porque não me contou?
- Você estava muito envolvido com os seus planos e com a sua pupila. Não quis incomodá-lo.
- Annie, eu sinto que tudo isto que aconteceu mudou o meu modo de pensar. Parte daquele ódio que eu sentia deu espaço para outros sentimentos. Se eu conseguir sobreviver a tudo isto, vou embora para outro país, tentar recomeçar minha vida, de outra maneira.
- Erik, como é bom ouvir isto! Já é tempo de você deixar o passado de lado. Você é um homem muito inteligente e talentoso. Não pode deixar que um simples defeito físico atrapalhe sua vida. Você sabe que pode contar comigo... Sempre.
- Eu sei, Annie, e sou profundamente grato a você.
Mais uma noite de sonhos terríveis me aguardava. Sempre a perseguição era o tema principal. Era perseguido por sombras demoníacas, ávidas por meu sangue. Por minha cabeça. Às vezes, Christine surgia do nada. Por vezes queria ajudar. Via suas delicadas mãos tentando alcançar-me ou puxar-me para fora da escuridão. Outras vezes, ela surgia unida às sombras ou a Raoul, vociferando contra mim. A sensação de morte iminente era quase real.
Ao final, acordava banhado em suor e com as têmporas latejantes.