quarta-feira, 17 de junho de 2009

Para passar o tempo...

Por sugestão de uma grande amiga, a Cris, resolvi começar a postar outra de minhas estórias antigas. "Anjo da Guarda" é uma declaração abertíssima de alta tietagem, que fiz há cerca de dois anos, imaginando o que seria o encontro de uma fã alucinada com o seu ídolo. Claro que é uma estória maluquíssima, improvável (ou não?) de acontecer. Nesta, eu não troquei nome de nenhum dos personagens da vida real (a não ser o da nossa heroína, que é totalmente fantasioso). Deixo aqui claro que a estória saiu totalmente da minha imaginação e que, caso o senhor Butler venha a ler ( será que Deus atenderia às minhas preces?? Hahaha!), não fique chateado nem queira me processar por invasão de privacidade. Vários fatos citados estão na mídia. A maioria dos acontecimentos, obviamente não são reais. Como a estória é um pouco longa, vou colocá-la em partes. Beijos!


Anjo da Guarda - Parte I


Tinha que me apressar. Já estava em cima da hora. Não gostava de me atrasar. Se eu tivesse lido aquela notícia antes, teria desmarcado a consulta e ido direto para o aeroporto. Cheguei! Acho lindo este prédio antigo, na Nottinghan Street, habitado, agora, só por consultórios médicos. Vamos lá! O Sig está me esperando. Bati na porta. Ele abriu. Tão sereno... Tranquilo. Não era muito alto, mas devia ter sido bonito na juventude. Agora, as entradas, na cabeça de cabelos louros, anunciavam uma calvície em poucos anos. Os olhos cor de mel davam conforto e segurança para abrir o coração e a mente. A boca fina que pouco falava. As orelhas grandes, para ouvir muito. Sig. Não, não era diminutivo de Sigmund, e sim de Siegfried.
- Oi, Sig! Tudo bem?- Eu que pergunto. Tudo bem? Ou já está pensando em outra aventura?- Puxa! Assim eu volto atrás e procuro outro psiquiatra. - Qual é a próxima travessura que você vai fazer? Este olhar não me engana.- Você está muito perspicaz hoje e muito falante. Posso me sentar?- Por favor - e sentei-me na sua confortável poltrona. - Ah, Sig! Ele viajou ontem para Los Angeles. Parece que tem alguns compromissos por lá e depois volta.- E você, já está pensando em ir atrás.- Claro! Você sabe. Há quatro anos que eu respiro Gerry Butler. Não consigo pensar em mais nada. Depois que terminei minha faculdade e tive a herança de meu pai liberada, pude me dedicar mais a ele. Já fui atrás deste homem nas locações mais loucas. Até quando ele filmou "Beowulf and Grendel" na Escandinávia, eu fiquei acampada próximo às locações. Tenho conhecido lugares e pessoas muito interessantes por causa dele.- Você já tentou alguma aproximação dele, de fato?- Nunca!- Porque tanta veemência?
- Sig! Não tenho coragem de enfrentar a rejeição dele. Você sabe disto. Eu não sou bonita. Não tenho como competir com as mulheres lindas que ele tem a seus pés.- Quem te disse que você não é bonita?- O espelho me diz isto todos os dias.- Já falei que o seu espelho pode estar defeituoso? Vamos voltar um pouco atrás.Porque o medo da rejeição?- Ah! Vou sofrer muito se for rejeitada por ele.- E, se ao conhecê-lo pessoalmente, você se decepcionar com ele?- Impossível!!- Por quê?- Porque ele é maravilhoso!- Quem disse?- As fotos, os vídeos, os filmes, o jeito dele, o sorriso. Ah, Sig... Não me olha assim.- Assim como?- Com este olhar crítico.- Não estou com olhar nenhum,Claire. Acho que temos de trabalhar um pouco mais nesta distorção de imagem. Desde quando você não se acha bonita?- Está bem, está bem. Eu admito. Até que sou bonitinha. Digo isto para reforçar o medo de encará-lo. Gostou? Você venceu, Sig. Depois destas dezenas de sessões, você conseguiu que eu melhorasse a minha auto-estima. Que sentisse que há algo de errado neste meu relacionamento unilateralizado. Mas, continuo com medo.- Por quê?- Porque? Talvez ele não seja tudo isso que eu imagino. Talvez ele seja apenas alguém normal.- E daí? Provavelmente ele é normal. E daí?Silêncio. Minha mente parecia que ia explodir. Sempre fui corajosa para enfrentar tudo. Porque não conseguia enfrentar esta ilusão? Os olhos de Sig me provocavam, esperando uma resposta interna – “Pensa , Claire, pensa!”
Angústia... Silêncio...- Claire. Vou deixar uma pergunta para a próxima sessão: o que pode acontecer se você conhecer o Sr. Butler pessoalmente? Faça uma lista, mental ou por escrito, e traga uma resposta na próxima vez. Vamos encerrar por aqui. Boa tarde.
- Mas, mas, Sig. Eu tenho de ir a Los Angeles.- Até a próxima sessão, em dois dias, neste mesmo horário. Você está proibida de viajar. Ordens médicas.- Sig!- Boa tarde!Ele abriu a porta do consultório e praticamente me jogou para fora. Impassível. Bandido! Às vezes eu o odiava. O pior é que ele tinha razão. Por isso eu continuava com ele. Saí andando, em direção à Marylebone Road. Antes de pegar o metrô na estação da Baker Street, resolvi entrar na igreja de Saint Marylebone. Talvez eu tivesse alguma iluminação por lá. Ali, fiquei por um bom tempo, até que o padre chegou e disse que iam fechar. Desculpei-me e saí. Resolvi ir a pé para casa. Era uma boa caminhada até a Russel Square, mas seria bom para clarear as idéias, antes de chegar em casa.Sig estava certo. Tenho de criar coragem e enfrentar estes medos. O que pode acontecer? Fazer lista:- sofrer um desmaio na frente do Gerry- sofrer uma crise convulsiva- sofrer um ataque incontrolável de risoEm qualquer um destes casos, ele irá me achar louca mesmo. Aí, eu dou o cartão do Sig e peço que ele me interne. Ahahah... - pode ser que ele me dê "oi", vire as costas e vá embora, me achando a pessoa mais sem graça da face da Terra. Aí, eu morro! Não morre não, sua idiota!E, assim, até chegar em casa, minha lista , se escrita, teria se transformado num pequeno livro , cheio de situações, que variavam desde a mais ridícula até a mais mórbida. Em nenhuma delas me saía bem. Por quê? Por que não? Não quero ter falsas esperanças? Claire, pensa bem. Mesmo que ele não vá com a tua cara, ele não vai dizer nada. Ele sempre é tão carinhoso com as fãs. Isso se ele souber que sou fã. E, se não souber?
Assim, fiquei dois dias, pensando no que dizer ao Sig, na 4ª feira. Vocês devem estar achando que sou a maior desocupada do mundo. Sou! Eu poderia estar trabalhando, pois fui a melhor aluna da minha turma. Mas este homem ocupa meus pensamentos 18 horas por dia. Nas outras seis, eu sonho com ele. E que sonhos... Uau! É loucura? É! Por isso fui procurar ajuda com alguém como o Sig. Quer dizer que ainda tenho alguma chance de cura. Será?
Quarta -feira. Depois de quase me rasgar na frente do computador, vendo as fotos dele com aquelas peruas de Hollywood, lá estava eu, a caminho de minha sessão. Pelo menos, depois de dois dias procurando uma resposta para o Sig e para meus medos, acho que conseguira algo não muito assustador.Uma batida seca. A porta se abre.- Boa tarde.- Boa tarde.Sento-me na sua frente. Silêncio.- Não vai falar nada? Da outra vez, estava tão falante. E hoje?- Estou esperando a sua resposta. Lembra da pergunta?- Sim. Sig, pensei muito. Acho que você tem razão. Talvez eu tenha de enfrentar a verdade, por pior que ela seja. Acho que estou precisando arranjar um emprego. Meu pai deve estar se revirando na tumba, pensando porque deixou uma herança como aquela, para a doida de sua filha torrar tudo em maluquices.- Ótimo! Que mais?- Fiquei sabendo que o Guy Ritchie está procurando assistentes para a produção de seu novo filme. Sei que não tenho experiência neste ramo, mas eu gosto tanto de cinema, que acho que entendo um pouco disso. Ou, pelo menos, posso aprender rapidamente.Silêncio.- Pois é - Sig já parecia estar desconfiado de minhas intenções - Ele vai rodar um filme sobre gangsteres dentro de dois ou tres meses, aqui mesmo, em Londres. - E?
- O Gerry é um dos atores principais. Pronto! Falei! Acho que vai ser uma maneira de iniciar uma aproximação, não?Silêncio. Este silêncio me massacra!- Você não fala nada?? – não aguentava mais esperar pela sua opinião.- Digamos que há muitos pontos positivos no seu plano. Só o fato de voltar à vida, através do trabalho, já é algo muito bom. Além disso, esta tentativa de conhecer o seu ídolo pessoalmente, da maneira como você está arquitetando, pode ser uma boa coisa, também... Acho que deve ir em frente.- Pretendo ir até lá, amanhã. Estou ficando animada com tudo isto.- Que bom, Claire. Isto é bom.Conversamos até o final da consulta sobre algumas outras arestas a aparar. Saí de lá me sentindo mais segura e determinada.No dia seguinte, segui com meu currículo debaixo do braço, rumo ao escritório do marido da Madonna. Ao chegar lá, fui encaminhada para o departamento de pessoal. Pegaram meu currículo e ficaram de ligar. Só isso??? Fiquei indignada! Resolvi xeretar um pouco pelo lugar. Andei de um lado para outro, até que cheguei ao gabinete do Sr. Ritchie. Resolvi sentar e ver o movimento. Sorri para a secretária e ela me perguntou:- A Srta. tem hora com o Sr. Ritchie?- Não. Estou esperando uma pessoa. Posso aguardar aqui? - Às vezes, eu conseguia ser bem "cara de pau".- Claro! - disse sorridente e em dúvida. Difícil explicar aquele sorriso amarelo. Neste momento, Guy Ritchie saiu de sua sala com uma cara péssima e mandou a secretária chamar seu assistente, Mike. Em menos de 5 minutos, o rapaz já estava ali.- Você conseguiu falar com o Tom Wilkinson? Vamos começar a filmar dentro de dois meses e ainda não tenho quem faça o "Lenny Cole". Ele é perfeito para o papel, mas temos que conseguir falar com ele, urgentemente. Estamos em cima da hora.- Sinto muito, Guy, mas ele está filmando nos EUA, com Brian Singer.
Ao ouvir aquilo, imediatamente lembrei a pequena nota do jornal que havia lido naquela manhã, noticiando a chegada do ator Tom Wilkinson, há um dia, vindo dos EUA. Então, resolvi meter-me na conversa.- Vocês tem o telefone dele? Liguem agora. Ele chegou ontem em Londres e deve estar em casa agora.Guy ficou surpreso com a interrupção, enquanto Mike queria me fuzilar com os olhos. Foi obrigado a ligar tão logo Guy ordenou-o a fazer o que eu pedira.- Quem é você? - perguntou ainda espantado.- Meu nome é Claire Bates e sou grande admiradora sua. Gostaria muito de trabalhar com o senhor. Acabei de deixar o meu currículo no setor pessoal, para tentar a vaga de assistente na sua nova produção.- E de onde você tirou que o Tom está aqui em Londres?Antes que eu respondesse, Mike falou:- O Sr. Wilkinson na linha, Guy.- Obrigado. Vou atender no meu escritório. Você! - disse apontando para mim - Venha comigo!Alguns minutos ao telefone, Guy desligou e com um grande sorriso nos lábios:- Consegui que ele faça o papel de "Lenny" em "Rocknrolla", graças a você. Ele vai estar aqui para as filmagens. - Que bom!Alguns instantes depois:- Garota, você está contratada. Gostei do seu estilo. Pode falar com a minha secretária, que ela vai dar um jeito nisso. Pode começar amanhã?- Claro! Muito obrigada, Sr. Ritchie. Muito obrigada, mesmo!Despedi-me e fui falar com a moça que estava a minha frente.Consegui!! Estou contratada!! O Sig tem de saber disso. Viva!!Agora, é mostrar serviço e estar atenta. Estou no mundo do cinema! Nem acredito. Vou ficar um pouco mais perto de Gerry, agora.
No dia seguinte, fui recebida friamente por Mike.- Bom dia. O Sr. Ritchie pediu que a orientasse. Você será a responsável pela alimentação no set. Temos tres serviços em vista, mas não acertamos ainda. Vou lhe dar os endereços. ”E cai fora, garota. Se pensa que vou lhe dar qualquer dica, está redondamente enganada.” Certamente este foi o pensamento seguinte de Mike, considerando o olhar raivoso que me lançou.- Bom dia, Claire! Bem vinda ao nosso hospício!- Bom dia, Guy!- O Mike está te tratando bem? - piscou o olho e sorriu.- Sem dúvida.- Depois quero falar com você. Por favor, passe na minha sala.- Sim,senhor!Depois de pegar os endereços de "catering", completamente perdida, fui à sala de Guy. Bati na porta e entrei, com o aval da sua secretária.- Com licença...- Oi, Claire. Entre!
- Você queria falar comigo?- Sim. Andei dando uma olhada em seu currículo. Vi que você fez administração de empresas e foi uma ótima aluna. Seria possível você dar uma ajuda ao pessoal responsável pela aquisição de materiais para o set. Eles andam meio confusos. Eu não tenho encontrado tempo para ver isto. Talvez uma administradora consiga organizar a bagunça em que eles se encontram. É possível?- Pode contar comigo, Guy.
Resolvi não pedir ajuda. Teria que me virar sozinha. Daria um jeito. Organizar o pessoal de compras seria moleza. Teria que dar uma olhada na parte de alimentação. Lembrei de um professor da faculdade que poderia me ajudar. Ele já havia trabalhado em produção de filmes. Eu o procuraria ainda hoje.
A partir daí, comecei a conhecer todos os setores da produção do filme, suas engrenagens e as melhores soluções para seus problemas. Com eficiência, consegui organizar o que me era pedido, conseguindo melhores orçamentos, com a melhor qualidade de serviço. Meu professor foi de grande ajuda. Enfim, meus estudos não haviam sido em vão. Meu pai devia estar contente, pois sua filha, afinal, tinha um cérebro. Logo eu estava como 1ª assistente de Ritchie. No início, podia sentir a inveja nos olhares de meus colegas. Mas, com jeito e simpatia, consegui ficar amiga dos possíveis invejosos. Inclusive, Mike, que se tornou um grande companheiro de trabalho. Neste tempo todo, continuava procurando saber de tudo que estava acontecendo com Gerry. Sempre que tinha alguma folga, passava na frente de seu apartamento e falava com o porteiro, que já era meu amigo, para saber como ele estava. Breve, esperava ter notícias pessoalmente. O início das filmagens estava próximo. Gerry já estava em Londres. Continuava ansiosa, pensando no provável encontro, que seria inevitável. Eu buscara aquilo. Agora tinha de ter coragem para encará-lo de frente. Às vésperas do início das filmagens, fui avisada de que Guy queria falar comigo. Fui correndo para a sua sala. A secretária estava com o maior sorriso que eu já tinha visto em seu rosto. Parecia estar nas nuvens. Cheguei a prever o que deveria estar me esperando do outro lado da porta. Perguntei se Guy estava sozinho.- Não. Não está.Resolvi entrar sem perguntar mais nada. Engoli em seco e entrei. Lá estava ele, sentado na frente de Guy, numa calça jeans usada e uma camiseta cinza escura, que realçava seu corpo atlético. Pensei que fosse desmaiar. Cheguei a ficar tonta. Não podia dar um escândalo agora. O que Guy ia pensar? Não! Eu tinha que reagir como se nada estivesse acontecendo. Onde estava a minha "cara de pau" agora?? Respirei fundo e entrei. - Claire, querida! Venha aqui. Quero que você conheça Gerry Butler.No mesmo instante, ele se levantou e eu pude ficar diante daqueles 1,88 m, com aqueles olhos verdes olhando-me de alto a baixo, fazendo sua análise inicial. Não consegui segurar o rubor em meu rosto, que, obviamente, ele notou. - Muito prazer, Claire. Então esta é a sua funcionária exemplar, Guy?
Vi aquela mão erguida no ar, aguardando para receber a minha... A minha??Aí senti o calor invadindo minha corrente sanguínea ao tocar e receber o aperto daquela mão quente e poderosa.Os olhos continuavam sua análise e o chão, sob meus pés, vacilando como num terremoto. Meu olhar, impassível, dissimulado num sorriso congelado. - Pois é. Tive muita sorte de conseguir esta minha assistente. Eu flutuava no alto da sala de Guy, olhando minha carcaça, com cara de imbecil, ouvindo uma conversa sobre outra pessoa. Acorda, mulher!
- Claire? Você está bem?- Estou. Estou ótima! Estava pensando num probleminha que tenho de resolver ainda hoje. Desculpe, por isso estou meio distraída. – Minha "cara de pau" começava a render. - Muito prazer, Sr. Butler. Já ouvi falar muito de seu trabalho. É uma honra poder trabalhar com o senhor.
Santa hipocrisia. Mas não é que eu estava conseguindo falar e disfarçar, ao mesmo tempo? Valei-me, Santa Marylebone!- Por favor, não me chame de senhor. Pode me chamar só de Gerry. Afinal, vamos ser companheiros de trabalho, não? "Abriu um dos seus melhores sorrisos. Eu conhecia quase todos.- Temos problemas aonde, Claire?
- Nada que eu não possa resolver. Fique tranquilo.
- Viu só, Gerry? É a assistente que pedi ao Papai Noel - falou todo sorridente.- Não elogia muito, senão serei obrigado a roubá-la de você.
Quando ouvi aquela afirmação, precisei arranjar rapidamente uma desculpa para sair da sala, antes de ter uma síncope na frente deles. Meu coração parecia que ia saltar para fora do peito. Assim que fechei a porta, deixei de lado o disfarce de "distraída", e corri para o banheiro mais próximo, onde pretendia acalmar-me. Pensei em ligar para Sig, mas desisti. Acho que já posso enfrentar sozinha esta situação. Será? Calma, Claire. Respira fundo... Respira... Bem, pelo menos não desmaiei e ainda estou viva. Ah, Gerry! Ele falou comigo e parece ter gostado. Não se anime. Ele devora todas as mulheres, que ele encontra, com os olhos. Isto não quer dizer nada. Tenho de manter a calma. Meu coração não vai resistir se, cada vez que eu o encontrar, tiver um ataque destes. E eu vou encontrá-lo muitas vezes, ainda. Passaram-se alguns minutos, até que me sentisse recomposta. Resolvi sair para almoçar, pois já estava no horário, e esfriar a cabeça.Fui pegar minha bolsa, dei uma retocada na minha pouca maquiagem e, já estava quase saindo, quando ouvi uma voz conhecida atrás de mim.- Você vai almoçar agora?Não devia ter sido para mim, obviamente. Continuei andando.- Ei, Claire! Você não me ouviu?- Oi?? Ah, é você? Desculpe, achei que não era comigo. Não consegui esconder o rubor, de novo. Ele estava ali, na minha frente, com a melhor cara do mundo, e eu me acabando por dentro.- Você vai almoçar?- Vou. Acho que vou.- Você já tem companhia? – falou, dando aquele sorriso que conquistava todas as mulheres.
- Não.
- Então, vamos almoçar juntos? Não gosto de fazer as refeições sozinho. Você está bem? Parece meio pálida. Pelo jeito, o Guy está exigindo demais de você.- Não! Imagina... É que eu sou meio estressada com o trabalho, mesmo.
A garganta seca, o peito oprimido, a taquicardia voltando... Respira... Respira...- Então? Vamos?
- Está bem. Porque não? Respira, continua respirando. Ele só quer almoçar, sua maluca. Calma.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Advogada - Parte Final

- Parece que ela está bem... – disse Ed para Gerry, ao desligar o telefone.
A reunião já acabara. Deixaram o escritório de Alan, com a promessa de o atualizarem sobre os fatos em outra ocasião. Foram a uma Starbucks, próxima do escritório, para conversarem.
- Agora, por favor, me conte o que está acontecendo – pediu Gerry, ansioso.
- Olha, Gerry. Eu mal o conheço, a não ser por ter visto o seu último filme. Acho você um ótimo ator. Estou muito contente por estar trabalhando para sua produtora. Mas você deu um tremendo fora com a minha amiga, Sylvia.
- Edward, eu nem sei por onde começar. Não sei qual o seu grau de intimidade com Sylvia, mas...
- Sou íntimo o suficiente para saber de tudo que aconteceu entre vocês.
- Tudo?
- Quase tudo... A Sylvia é como uma irmã para mim. O que aconteceu foi que armaram para cima dela. Sem saber onde estava se metendo, foi parar naquela espelunca chamada “Lohan’s” e encontrou você. Te achou um cara legal. Talvez um pouco mais que isso. E pela primeira vez em muitos anos se desarmou e precipitou-se. Era o seu aniversário e você seria o presente dela. Acho que ela alimentou algumas fantasias a seu respeito, achando que aquilo que aconteceu tinha sido mais profundo do que era.
- E foi... – afirmou Gerry, num quase sussurro, tristonhamente – Era o aniversário dela?
- Sim. Se foi importante para você, porque deixou aquele bilhete e o cheque? Porque não tentou conhecê-la melhor?
- Fiquei com medo. Realmente pensei que ela estava agindo apenas “profissionalmente” e que riria na minha cara se eu tentasse conquistá-la de outra forma.
- Eu não devia lhe falar, mas eu o defendi perante ela. Você realmente não tinha como saber que ela estava lá naquele lugar por acaso e não caçando clientes. Você a impressionou muito, cara. Por isso a desilusão foi muito grande quando ela leu o seu bilhete e viu o seu cheque. Aliás, aqui entre nós... Você costuma pagar tudo aquilo por uma garota?
Ed resolveu calar-se ao ver o olhar recriminador de Gerry
- Está bem, desculpe por este último comentário.
- Eu preciso falar com ela e pedir desculpas.
- Acho que não vai ser possível. Pelo menos não nos próximos trinta dias.
- Por quê?
- Porque ela está saindo de férias hoje.
- Férias?
- Ela anda trabalhando muito. Combinamos que depois desta reunião de hoje ela sairia para descansar, depois de três anos de trabalho direto.
- E para onde ela vai?
- Na verdade... Eu não devia estar falando estas coisas com você. Ela vai me matar. E eu vou matar você se a fizer sofrer mais do que já fez, entendeu? – disse, surpreso com o próprio tom de voz usado para aquela ameaça.
- Por favor, fale. Eu juro que não vou magoá-la.

Depois de terminar de resolver alguns problemas surgidos no escritório, Edward ligou para Sylvia para saber como ela estava.
- Sylvia? Alô? Sou eu, Ed.
- Oi, Ed – respondeu ela, com voz entristecida.
- Você está bem?
- Agora estou melhor. Só ainda não resolvi onde vou montar o meu escritório de advocacia depois das férias.
- O quê? O que você está dizendo?
- Claro que depois de hoje, a minha fama em Los Angeles não vai ser das melhores.
- Como assim?
- Todos vão saber o que aconteceu no Lohan’s entre eu e o...
- Sylvia, minha amiga...Você está pior do que eu imaginava. Esta tarde sozinha com você mesma não lhe fez bem. O Gerry não vai contar para ninguém o que aconteceu. Aliás, ele não contou nem para o Alan. Ele é um gentleman. Não se preocupe.
- Tem certeza disso?
- Absoluta. Bem que eu gostaria de ir até aí para podermos conversar, mas combinei com minha mãe de visitá-la agora à noite e, obviamente, que isto inclui um jantar, que deve terminar tarde.
- Pode deixar, que as idéias suicidas já se foram.
- Sylvia!
- Estou brincando... - confortou-o, sem muita certeza do que estava dizendo.
- Pense que amanhã você vai estar longe de tudo isto. Vai divertir-se muito nestes próximos dias e voltar renovada.
- Tomara, Ed... Tomara.
- A que horas parte o seu vôo amanhã?
- Às 12 horas.
- Eu vou buscá-la em casa para levá-la ao Aeroporto. Daí poderemos conversar um pouco. Está bem?
- Está bem. E o trabalho?
- Ninguém vai morrer se eu não estiver por lá algumas poucas horas. A sanidade mental da minha sócia ainda é mais importante.
- Obrigada, Ed. Por isso é que te adoro.
- Bem, depois desta declaração vou ligar para mamãe e cancelar o nosso compromisso e vou correndo para a sua casa.
- Bobo. É sério. Eu estou bem. Só estava realmente preocupada com a possibilidade de a fofoca espalhar-se por aí. Se ele garantiu que não fará isso, fico mais tranqüila. Vá para o seu “encontro” sossegado.
- Então, até amanhã. Durma bem, querida.
- Até amanhã, Ed. Boa noite prá você também.
Desligou o telefone e voltou à posição em que estava na poltrona da sala. Conseguira manter-se ocupada boa parte da tarde com suas arrumações e montando a mala para sua viagem. Recebera a resposta de algumas das agencias de turismo, mas nada a agradara muito. Ainda faltavam dois ou três retornos. Sentara-se na sua poltrona predileta, com direito a vista dos morros que envolviam a cidade, pensando nele. Não conseguia evitar o desvio de seus pensamentos para aquele homem. Ele estava lindo hoje, quando entrou na sala de Alan pela manhã, naquela calça jeans surrada, a camisa branca aberta no peito... Os cabelos de reflexos prateados, que lhe conferiam um charme especial... Porque ele tinha de ser tão charmoso e sedutor? Mesmo depois de tudo que acontecera, ainda sentia seus joelhos fraquejarem e aquele calor subir por seu corpo. A lembrança de seus beijos não a deixava em paz. Nunca sentira por ninguém o que sentira por ele, ao ser beijada. Porque tinha de ser assim? Talvez o ditado “sorte nos negócios, azar no amor” ou algo semelhante, fosse verdadeiro.

Eram nove horas quando o som do interfone soou. Era da portaria para avisar que o senhor Edward estava subindo. Ela ainda estava terminando de se arrumar e colocar os últimos apetrechos na sacola de mão. Sempre ficava na dúvida se não esquecera nada. Revisava mentalmente todo o conteúdo da mala até a exaustão. Mesmo assim, não era incomum esquecer alguma coisa.
- Bom dia! – saudou-a efusivamente o amigo.
- Bom dia, Ed! Obrigada por vir no meu “bota-fora”.
- Amigos são para isso, não acha? Já está tudo pronto? Podemos descer as malas?
- Acho que sim. Só falta passar um batom e colocar meu perfume.
- Por mim, não precisa de mais nada. Você está linda. Pronta para arrasar corações.
- Não pretendo arrasar nenhum coração. De arrasado já basta o meu – disse a última frase em tom de voz tão baixo que Ed teve dificuldade em ouvi-la. Apesar disso, resolveu não comentá-la. Apenas passou o seu braço sobre os ombros de Sylvia e disse:
- Vamos, que o avião não espera e o trânsito a esta hora está terrível.
No caminho, Sylvia manteve-se quieta. Foi Ed que rompeu o silencio torturante.
- Você não quer saber o que eu conversei com ele?
- Com quem?
- Ora, você sabe com quem.
- Você está louco para me contar, não?
- Acho que seria bom você saber que ele está querendo desculpar-se e que não conseguiu parar de pensar em você desde aquele dia.
- Não me interessa.
- Puxa, Sylvia. Dá uma chance para ele – falou meio que irritado. Nunca pensou que naquela altura da vida estaria tentando bancar o cupido. “Era só o que me faltava”, pensou.
Parecia que o assunto havia sido encerrado ali, se levasse em conta a cara amarrada feita por Sylvia.
Chegaram ao aeroporto ainda com uma hora e meia de antecedência.
- Ao menos me diga se definiu para onde vai depois de Nova York. Ou vai manter segredo.
- Talvez eu queira ficar incógnita...
- Misteriosa, agora, é?
- Não. De fato não decidi ainda. Vou procurar uma agencia lá em NY mesmo e resolver.
- Ainda temos um tempo antes do embarque. Vamos tomar um cafezinho? – perguntou Ed, notando que sua amiga tornara-se um pouco fria.
- Não. Acho que vou esperar o embarque lá dentro. Você tem que voltar ao seu trabalho. Não precisa mais se preocupar comigo.
- O que houve? De repente parece que virei seu inimigo?
- É que estou achando você muito amiguinho do senhor Caldwell. Além do esperado.
- Ah, é isso, então? Estou apenas tentando ajudá-la a sentir-se melhor. Só isso! Se não percebe desta maneira, vou embora mesmo. Boa viagem para a senhora – Deu-lhe as costas e seguiu pisando duro em direção a saída.
- Ed! – chamou-o, já arrependida do que dissera. Só faltava perder o melhor amigo por conta de sua burrice. Mas ele não ouviu, pois no mesmo instante os microfones anunciavam o próximo embarque para Nova York. Ligaria para ele quando já estivesse instalada no Marriott.

O hotel ficava em pleno Times Square. Não podia haver lugar melhor e mais cheio de vida. Muitos teatros, casas de show, lojas das grandes marcas e grande movimento de pessoas de todas as partes do mundo. Era exatamente do que precisava. Já era meio tarde quando chegou. Como estava muito cansada, resolveu tomar um banho, ligar para Edward, saber se ainda eram amigos e dormir.
Acabou por não cumprir todo o seu plano de ação. Isto porque depois do banho, ao recostar-se na cama para ver um pouco de televisão, terminou por pegar no sono.

Passaram-se dois dias sem que se animasse a ligar para seu amigo. Já fizera muitas compras, já assistira a uma ótima peça de teatro e, agora se preparava para jantar num pequeno bistrô próximo ao hotel. Sozinha, é claro. Foi quando o seu celular tocou. Era Ed. - E aí, desaparecida? Liguei para saber notícias, já que parece estar muito bem por aí, pois nem lembra dos amigos.
- Oi, Ed! É que eu estava meio insegura para lhe ligar. Preciso lhe pedir desculpas pelo meu comportamento lá no aeroporto. Você me perdoa?
- Já nem lembro mais. O que foi que aconteceu mesmo?
- Que bom, Ed. Nem sabe o peso que você está me tirando da consciência. Além disso, precisava agradecer pelo seu presente. Estou adorando o hotel, a localização, a cidade... Tudo.
- Fico muito contente por você, querida. Ainda tenho mais uma surpresa para você. Não sei se você vai gostar.
- O que é?
- É que surgiu um probleminha com um de nossos clientes aí em Nova York, e eu terei de ir até aí, em dois dias. Pensei que podíamos nos encontrar. Não consegui reserva no seu hotel, por isso acabei ficando num executivo. Quando eu chegar, te ligo novamente para combinarmos de nos ver. Está bem?
- Que bom, Ed. Vai ser ótimo te ver!
Conversaram mais algumas banalidades, sem nem tocar no assunto “proibido”.
- Não, Ed. Por incrível que pareça ainda não consegui definir para onde vou na próxima semana. Vou acabar comprando passagem para algum local, tipo Brasil ou Itália e improvisar. Ficar numa praia sem fazer nada pode ser um ótimo programa.
- Quem sabe... Quem sabe. Talvez eu possa te ajudar a escolher.
- Seria ótimo.
Ao final de mais algumas frases, despediram-se.
Dois dias depois, Edward ligou novamente. Disse que chegara há algumas horas e que estava ansioso por encontrá-la, mas só poderiam se falar á noite. Por isso deu o endereço de um pub inglês chamado “Old Castle”, que por sinal ficava bem próximo do hotel de Sylvia.
Próximo a hora combinada, Sylvia confirmou a localização do pub com a recepção do hotel e dirigiu-se para lá. Como sempre, chegou um pouco antes da hora. Sentou-se numa das banquetas que ficavam de frente para o extenso balcão de madeira do bar, de costas para as mesinhas na parede do outro lado. Não teve como fugir da lembrança daquela noite no “Lohan’s”. Pediu um refrigerante e um copo com gelo, ao invés do cálice de vinho branco que costumava pedir.
Estava distraída, ouvindo a linda música, provavelmente escocesa, devido a presença de gaitas de fole no arranjo, quando sentiu uma presença aproximar-se e ouviu:
- Boa noite...Você vem sempre aqui?
O coração de Sylvia paralisou ao reconhecer aquela voz quente e rouca.”Não é possível! Como ele me encontrou aqui?”. Virou-se lentamente, esperando que fosse apenas sua imaginação. Quando identificou a presença real de Gerry ao seu lado e sentiu aquele perfume inebriante que ele usava, fez menção de levantar-se e fugir. Ao tentar, sentiu a mão poderosa dele segurando seu braço.
- Fique... – rogou Gerry, afrouxando um pouco o aperto – Por favor, Sylvia... Nós precisamos conversar.
- Eu não tenho nada a conversar com você. O que tínhamos para resolver foi resolvido no escritório da sua produtora. Se você quiser saber mais detalhes técnicos sobre a questão desta nova sociedade que Alan e você estão iniciando, pode procurar o meu sócio, Edward Michels.
- Sylvia você sabe muito bem que não estou falando sobre a produtora. Precisa ser tão dura comigo?
- Não sei de qual outro assunto você está falando. Aliás, Edward deve estar chegando daqui a pouco. Você vai poder falar com ele hoje mesmo, pessoalmente.
- Ele não vêm...
- O quê? Como?... Ed não vêm? – ela não podia acreditar que seu amigo de longa data fizera isto com ela – Vocês combinaram esta farsa toda? Como ele teve coragem de fazer isto comigo? – disse quase num murmúrio.
- Talvez porque ele saiba de minhas melhores intenções para com você.
- Por favor, nós não temos o que conversar. O que aconteceu foi um erro meu. Você não precisa se desculpar. Você queria uma qualquer para passar a noite e, infelizmente, eu cruzei o seu caminho.
- Eu não queria uma qualquer. Não sou tão promíscuo assim como você está imaginando – agora ele ficara sério e tenso – Que tal nos sentarmos e conversarmos mais calmamente? – rogou, com uma voz e um olhar tão doces que amoleceu a razão de Sylvia.
Ela decidiu ceder e deixou-se levar pela mão dele até uma das pequenas mesas no fundo do pub. Sentaram-se lado a lado, pois não havia outra opção.
- Agora, olha prá mim... - pediu Gerry.
Ela vacilou por um momento, com medo de não resistir àquele olhar, mas terminou por encará-lo.
Ele continuou, com seus olhos verdes a afrontá-la.
- Fiquei atraído por você desde que a vi no “O-Bar”. Eu lhe disse isso naquela noite no “Lohan’s”, lembra? Quando a vi novamente, não resisti e a abordei. Realmente pensei que você era uma profissional da noite, pois é lá que elas costumam ir e é para isso que os homens vão até lá. Todos sabem disso.
- Eu não sabia – disse Sylvia com a voz embargada.
- Só depois eu soube disso. Deixe-me continuar... – disse ele, segurando a mão esquerda de Sylvia, que estava abandonada sobre a mesa.
Ela pensou em retirar a mão, mas o toque de Gerry era tão cálido e suave, que ela deixou-se estar.
- Aquela noite foi uma das noites mais incríveis que já tive. Quando te deixei pela manhã, foi com pesar, pois tentava negar o que estava sentindo por você. Apaixonar-me por uma prostituta nunca esteve em meus planos. Mil coisas passaram por minha cabeça. Desde ser motivo de chacota para você, até ser explorado por um cafetão. Apesar de tudo isto, quando retornei ao apartamento naquela manhã, estava decidido à tenta tirar você daquela vida. Mas não a encontrei mais. Quando vi o bilhete amassado e o cheque intacto, aí enlouqueci de vez.
A tudo Sylvia ouvia atentamente, com os olhos marejados.
- Por que você não conversou comigo antes de sair e deixar aquele bilhete horrível? – As lágrimas começaram a correr – Eu tive vontade de morrer ao sentir-me como uma qualquer. Eu nunca havia me entregado para alguém daquela maneira. Pode parecer desculpa para minha leviandade, mas senti que você era diferente. Não sei explicar... Aí, eu li aquela frase fria, me dispensando, e me senti uma completa tola, imunda, vulgar...
- Sylvia, me perdoa... – ele tentou abraçá-la, mas ela resistiu. Tentava segurar o choro descontrolado que queria vir à tona.
- A culpa foi minha, Gerry. Eu não podia ter agido por impulso, me entregando para qualquer um.
- Não foi para qualquer um... Foi para mim. E eu amei cada segundo desta entrega... E quero muito mais – Novamente ele tentou abraçá-la e desta vez não obteve defesa. Sylvia sentia-se sem forças e necessitada de um afago, mesmo que fosse dele ou, até porque era ele. Sentia-se no meio de uma confusão de sentimentos, entre a vergonha, a vontade de que nada daquilo tivesse acontecido e a necessidade de sentir novamente aqueles braços em torno de si.
- Me diz como eu posso curar esta ferida que se abriu em você? Dê-me esta chance. A gente pode recomeçar de uma outra maneira. Vamos zerar tudo e iniciar de agora em diante. Por favor, Sylvia...
Entre lágrimas e soluços contidos, ela o olhou e sentiu sinceridade e carinho nas suas palavras. Mas ainda estava muito machucada e envergonhada com tudo que acontecera.
- Não sei, Gerry, não sei...
Amolecendo seu abraço, Gerry aproximou seus lábios do ouvido de Sylvia e implorou baixinho:
- Por favor...
Era quase impossível resistir àquela voz quente e suave e ao seu olhar suplicante.
Quando ele sentiu que as defesas de Sylvia estavam desabando, segurou-lhe o queixo e aproximou-se para beijá-la.
Mal tocou em seus lábios, foi repelido com delicada firmeza. Ele a olhou surpreso.
- Não... Eu ainda não estou pronta. Se você quer realmente recomeçar do zero, vai ter de me dar um tempo.
Mesmo tendo sido rejeitado, Gerry sentiu-se animado com a afirmação de Sylvia. Ele daria a ela todo o tempo necessário para que pudesse tê-la de novo em seus braços.
- Em três ou quatro dias vou viajar por três semanas. Poderemos nos encontrar na minha volta, lá em Los Angeles e conversar – disse, não muito convicta do que estava dizendo.
- Pois eu tenho uma idéia melhor.
- Ideia melhor? – perguntou Sylvia, já recuperando um pouco de seu ânimo.
- Eu tenho de ir à Itália na próxima semana e depois terei de passar em Londres para resolver alguns problemas por lá. O que acha de ir junto comigo.
-Como assim?
- Edward me falou que você ainda não sabia bem ao certo para onde iria nas suas férias. Que tal me acompanhar? Juro que não vou forçar nada. Podemos viajar como amigos, apenas. Seria muito bom ter a sua companhia.
- Não acho que seja uma boa idéia...
- Por quê? Você teria suas férias e, ao mesmo tempo, nos conheceríamos melhor.
Normalmente, Gerry ficaria irritado com este tipo de comportamento em uma mulher, mas aquelas incertezas vindas de Sylvia só o deixavam mais seduzido por ela.
- Você fala como se tudo fosse fácil assim...
- Mas é fácil assim, Sylvia. Sei que você me entendeu. Sei também que você está com medo de abrir a guarda e ser machucada novamente. Mas eu prometo que isso não acontecerá – disse, pegando em sua mão mais uma vez e fixando-a com seu olhar – Vamos viajar como amigos. Que tal? Quartos separados, sem segundas intenções... O que acha? Ando cansado de viajar sozinho por aí. Seria um prazer ter a sua companhia. Se depois desta viagem você definir que não quer me ver nunca mais, eu sumo da sua vida.
- Você deve estar me achando a mulher mais idiota do mundo, mas eu preciso pensar. Na última vez que tomei uma atitude precipitada, deu no que deu.
- Você tem até amanhã – falou sério, mas no íntimo pensou que poderia esperá-la até a última hora antes do seu embarque – Enquanto você começa a pensar, que tal conversarmos sobre outros assuntos? Você já jantou? – perguntou antes que ela reclamasse do prazo para dar a resposta – Podemos pedir um dos pratos aqui do pub. Soube que eles fazem uma Shepherd’s Pie excelente aqui. Você já provou? È feita de carne de carneiro e é típica inglesa.
- Não estou com muita fome...
- Então dividimos uma. Topa?
Diante do largo sorriso e da paciência de Gerry para com ela, não teve como negar o oferecimento.
- Está bem – disse, esboçando um tímido sorriso.
Ficou observando-o, enquanto ele chamava o garçom e fazia o pedido deles. Era difícil negar qualquer coisa a ele. Gerry era um belo homem, extremamente sedutor e gentil. Precisava ser firme e dar um tempo para conhecê-lo melhor e poder certificar-se de que a sua primeira impressão, de quando o conheceu, era verdadeira. Não queria enganar-se novamente.
Quando ele voltou a olhá-la, provocou-lhe um estremecimento e um calor que lhe percorreu o corpo todo. Ficou com medo que ele pudesse ter notado. Mas ele apenas falou:
- Sylvia, quanto ao Edward, não fique zangada com ele. Ele agiu com a melhor das intenções. Fui ameaçado de morte violenta, caso a faça sofrer. Assim, sinta-se protegida, pois não quero morrer cedo – e riu, conseguindo arrancar mais um sorriso de Sylvia – É bom vê-la sorrir para mim de novo.
- O Ed é como um irmão para mim – retorquiu ela, fazendo de conta que não tinha ouvido a última frase dele. Ele nunca agiu desta forma antes.
- Talvez ele ache que eu seja suficientemente bom para você. Quando nos conhecermos melhor, você vai ver que não sou tão mau assim.
- Quando eu o encontrar vou lhe dizer que ele me enganou, me fazendo pensar que era bom farejador só de negócios.
- E o que você acha que ele “farejou” em mim? – e começou a cheirar-se sob as axilas e a abrir a camisa e cheirar o peito.
Ela não resistiu e começou a rir.
- Acho que ele farejou um bobo... Um bobo muito charmoso...
Apesar de ter gostado do último adjetivo, Gerry preferiu adotar a técnica de ignorar o elogio e mudar de assunto. Ela estava começando a se soltar. Apenas continuou rindo e perguntou:
- Vocês nunca namoraram?
- Não.
- Por quê? Você sendo tão bonita, colega dele... Nunca pensaram nisso?
- Realmente, nunca nos passou pela cabeça este tipo de relação. Desde o início fomos só amigos.
A partir deste momento, Sylvia passou a contar sobre como havia conhecido Edward logo após ambos terem sido chutados por seus respectivos namorados, no primeiro ano da faculdade.
A conversa começou a fluir por ambos os lados. Gerry evitava qualquer atitude de conquista, com medo de assustá-la e fazer voltar tudo a estaca zero. Não queria perdê-la novamente. Deixaria que, no momento certo, ela demonstrasse que o queria.
Após o jantar, que durou mais de duas horas, Gerry levou-a até o hotel e despediu-se dela, no saguão, com um suave beijo no rosto.
- Te ligo amanhã para saber a sua resposta ao meu convite. Boa noite.
- Boa noite...
Apesar da louca vontade de jogar-se nos braços dele e pedir perdão por estar sendo tão cabeça-dura, resistiu e encaminhou-se para o seu apartamento.
Foi difícil encontrar o sono naquela noite. Os pensamentos com Gerry a perturbavam constantemente. Quando finalmente chegou a conclusão de qual deveria ser a sua resposta, dormiu como uma pedra.
Na manhã seguinte acordou bem disposta e louca para tomar um belo café da manhã. O telefone tocou no momento em que ela saia do banho.
- Que tal uma caminhada no Central Park? O dia está lindo.
Ela sorriu ao ouvir o inesperado convite.
- Aceito.
- Então passo para pegá-la dentro de... Trinta minutos. Está bom?
- Está ótimo!
- Vejo que acordou bem disposta hoje.
- Você acha? Talvez... – ele devia estar louco para saber a sua resposta, mas o faria sofrer um pouquinho mais. “Devo estar me tornando uma sado-masoquista”, riu intimamente.

No horário combinado, Gerry estava no saguão do hotel. Ele conseguia chamar a atenção de todas as mulheres e de alguns homens pelo seu porte elegante. Estava trajando uma calça de moletom azul, sendo que a jaqueta, da mesma cor, aberta, deixava entrever a camiseta branca justa, que torneava um tórax amplo e forte, de músculos trabalhados em academia. Seus olhos pareciam mais verdes do que nunca, realçados pela pele bronzeada. Esta visão fez Sylvia imaginar o que outras mulheres diriam se soubessem que ela estava menosprezando este homem. Mas ela precisava saber se ele não era apenas uma bela aparência. Queria conhecer o que havia por trás de todo aquele charme tão irresistível.
- Bom dia! Que pontualidade – saudou-o alegremente.
- Bom dia. Não gosto de deixar ninguém esperando - respondeu Gerry, tocando-a no ombro e curvando-se para beijá-la no rosto – Vamos? Você gosta mesmo de caminhar?
- Muito. Infelizmente não tenho muito tempo por causa do trabalho. Gostaria de fazer caminhadas diárias.
- Eu gosto muito, mas ultimamente sempre tem um fotógrafo no meu pé. Aí acabo pensando duas vezes antes de sair na rua. Aqui em Nova Iorque é melhor, mas em Los Angeles é praticamente impossível.
Saíram lado a lado, conversando amenidades. Gerry era muito bem humorado. Contava piadas, fatos engraçados que aconteceram com ele. Mas também deixava espaço para ela contar coisas suas. Quem olhasse os dois caminhando juntos, diriam que eram velhos amigos. Após uma hora de caminhada, pararam para beber água num pequeno quiosque dentro do parque. Ele acabou por tirar o casaco do abrigo, pois o calor no parque aumentara e ele começara a suar. Sentaram-se a sombra de uma frondosa cerejeira e, após alguns goles de água, Gerry olhou Sylvia e, não resistindo, perguntou:
- Já tem uma resposta para me dar sobre o meu convite?
- Você me deu um prazo até hoje. Eu considero que hoje só acaba a meia noite. Estou errada? – falou isso sem coragem de olhá-lo, pois com certeza fraquejaria no seu intuito se assim o fizesse.
“Ela está sendo mais difícil do que eu esperava... Mas eu gosto disso”, pensou, enquanto sorria sarcasticamente para sua companheira de “jogging”.
- Sem problemas. Eu espero a sua decisão. Sendo assim, que tal jantarmos hoje à noite? Quero estar ao seu lado para ouvir sua decisão ao vivo.
- Você acha isso tão importante?
- Muito... – ele a olhou de um jeito que ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo de alto a baixo. Mais uma vez teve que desviar seu olhar do dele para não ser traída.
Depois de um período de silencio, ele retomou a palavra.
- Você já tem algum compromisso para hoje à tarde?
- Não... – enquanto ela tentava arranjar uma desculpa para não encontrá-lo antes do jantar, ele falou:
- Que pena. Eu gostaria de almoçar com você e fazer algum passeio. Tem lugares lindos por aqui. Mas infelizmente tenho compromissos no horário do almoço e por toda à tarde. Só vou poder vê-la à noite.
- Não se preocupe – respondeu, ligeiramente perturbada por ter sido rejeitada antes que pudesse negar um suposto convite para continuarem juntos. Rapidamente pensou numa saída para a situação – Eu estava pensando mesmo em visitar mais uma agencia de turismo e ver os planos de viagem...
Ela conseguira irritá-lo com esta última frase. Pode ver claramente na expressão dura que surgiu na face de Gerry. Para tentar amenizar, falou, antes que ele pudesse reagir:
- Como ainda não resolvi como serão as minhas férias, preciso ter opções. Você não acha?
- disse-lhe com um sorriso.
“Ela está tentando me tirar do sério... Mas não vai conseguir. Não vai não...”
- Você tem toda a razão – e devolveu-lhe o sorriso, encantadoramente – Sylvia, eu preciso ir agora. Quer que eu a deixe no hotel?
- Ah... Não, não é necessário. Vou andar mais um pouco e... Pensar.
- Isto. Pense bem... E com carinho, sobre a minha proposta. Te pego às 20 horas no hotel. Está bom para você? – perguntou-lhe, tentando aparentar indiferença com a provocação dela.
- Está ótimo. Vou estar a sua espera.
Mais uma vez ele se aproximou e, sem deixar de mirá-la nos olhos, chegou com seus lábios muito próximos aos lábios dela, para no último momento desviar para o rosto.
- Até mais, então – virou- se costas e saiu andando sem olhar para trás.
Ficou observando-o, até que ele desaparecesse entre as árvores do parque, e pensando até quando conseguiria manter aquele jogo de “gato e rato”.

Tentou distrair-se durante o dia, mas estava muito ansiosa pelo encontro que teria a noite com Gerry. Já sabia qual seria sua resposta. A dúvida era como deveria agir depois. Gerry parecia corresponder a todos os seus anseios. Mas ainda tinham pouco tempo juntos para que ela tivesse certeza absoluta disso. Não queria errar novamente. Não queria sofrer. Desta vez queria estar no controle de suas emoções, o que não era fácil tendo um homem como Gerry a sua frente.
A noite chegou e já estava pronta, esperando-o, quando recebeu a ligação dele avisando-a que já estava no saguão. Havia colocado, de propósito, um vestido ligeiramente provocante, que tinha um grande decote nas costas, apesar de parecer discreto quando visto pela frente. Prendeu os cabelos, pois não queria passar uma imagem sexy demais. “Quantos preparativos, para depois querer evitá-lo. Será que não estou sendo ardilosa demais?”, foram seus últimos pensamentos antes de descer para a recepção do hotel, para encontrar-se com Gerry.
Lá estava ele, distraído, olhando o movimento do “lounge” do hotel. Estava impecável, num lindo terno escuro, provavelmente Armani ou Versace, sem gravata, com a camisa branca com os primeiros três botões abertos, que deixavam entrever seus pelos do peito. Os cabelos ligeiramente revoltos e a barba eternamente por fazer lhe davam um charme especial. Tinha uma elegância natural que chamava a atenção de todos.
Suspirou e dirigiu-se até onde ele estava. Quando ele virou-se, ao ouvi-la chamar seu nome, olhou-a com admiração. Sylvia, mais uma vez sentiu-se despida por aqueles olhos cor do mar, mas tentou abafar e disfarçar a onda de desejo que tomou conta de seu corpo. Beijaram-se como amigos e, pegando em seu braço, Gerry falou:
- Você está linda... Como sempre.
- E você caprichou também.
- È porque espero que esta noite seja muito especial... – lançou-lhe um olhar sedutor, mas logo em seguida, sorrindo, continuou – Afinal, não é sempre que se pode sair para jantar com uma grande amiga... É o que somos agora, não? Amigos? – e pegando em sua mão, deu-lhe um beijo no dorso, que a fez arrepiar-se – Vamos?
- Vamos... – respondeu, apoiando-se no braço que ele lhe oferecia.
Ela estranhou quando o carro estacionou na frente de um prédio de apartamentos. Desceram e um manobrista da portaria do edifício recebeu a chave para guardar o carro.
- Que lugar é este? Tem um restaurante aqui?
- O melhor, para o meu gosto – respondeu sorridente – É o meu apartamento. Eu o comprei há cinco anos e só há pouco tempo consegui terminar a reforma e mobiliá-lo. Gostaria que você o conhecesse – ele notando o olhar temeroso de Sylvia, continuou – Não se preocupe. Teremos um mordomo, um garçom e uma cozinheira para nos fazer companhia. Não estaremos sozinhos. Mas se você preferir ir a outro lugar, não há problema algum. Pegamos o carro e saímos novamente. Só vou lhe adiantar que a minha cozinheira é a melhor da cidade.
- Está bem, Gerry. Vou confiar em você. Vou conhecer o seu apartamento.
- Pode confiar. Não farei nada que você não queira...
Sylvia engoliu em seco e acompanhou-o até os elevadores. Subiram em silêncio. Ele tocou a campainha. Um senhor calvo, uniformizado abriu-lhes a porta, permitindo sua entrada.
- Boa noite, senhor. Boa noite, senhorita – cumprimentou-os com uma ligeira reverência com a cabeça.
Eles entraram e Gerry convidou-a a sentar-se no amplo sofá da sala.
- Quer ouvir alguma música em especial?
- Não, esta que está tocando está ótima – disse, referindo-se ao som do Sigur Rós que podia ser ouvido no ambiente.
- Você conhece esta banda?
- Sim. Adoro o tipo de música que eles tocam. Às vezes pode ser muito relaxante.
- Que bom. São a minha banda predileta – disse com satisfação – Quer tomar alguma coisa?
- Água seria ótimo.
Imediatamente o garçom, também devidamente uniformizado, foi acionado para atender ao pedido deles. Gerry a acompanhou na água.
Começaram a falar de músicas preferidas e a conversa passou a descontrair um pouco a tensão em que Sylvia se encontrava.
Após algo em torno de trinta minutos, foram convidados a sentarem-se na mesa redonda da sala de jantar, lindamente posta, com porcelanas Limoges, cálices de cristal, talheres de prata e um lindo arranjo floral no centro. Tudo estava perfeito. Só faltaram as velas. “Talvez ele tenha evitado este detalhe para não dar um tom romântico ao jantar. Muito perspicaz...”, pensou Sylvia, que estava gostando daquele jogo, afinal. Mais pontos iam sendo somados aos vários que ela estava atribuindo a Gerry.
A comida realmente estava deliciosa e Sylvia fez questão de agradecer pessoalmente a cozinheira ao final do jantar.
Foram oferecidos licores á Sylvia, que aceitou um pequeno cálice de cassis. Ela notou que durante todo este tempo Gerry não tomara nada de álcool. Mesmo o coquetel, que lhe serviram antes de irem para a mesa, era de frutas, não alcoólico.
- Está fazendo alguma dieta especial que o impede de beber? – perguntou despretensiosamente, enquanto ela saboreava o seu licor, já sentada no sofá.
- Digamos que seja uma dieta para o resto da vida.
- Como assim? – estava curiosa.
- No passado tive alguns problemas com álcool. Foi numa fase muito ruim de minha vida, que felizmente já superei. Não foi fácil, mas não pretendo voltar a ela.
- Você pode falar mais sobre isso, Gerry? – ela estava sinceramente interessada em saber sobre o passado daquele que mexia tanto com suas emoções – Se você não se importar, é claro.
- Não, não me importo. Acho que será bom contar para você este meu lado negro. Assim você poderá me conhecer melhor e decidir se quer continuar minha “amiga” ou não – falou demonstrando certa tristeza em seu pálido sorriso.
- Tenho certeza que isto vai servir para que eu o admire ainda mais – falou , animando-o.
A partir daí, a conversa tornou-se bastante íntima e Gerry abriu-se para ela como nunca havia feito para mulher alguma. E sentia-se muito bem com isso.


- E foi isso tudo que me trouxe até onde estou hoje – afirmou, ao acabar de revelar as agruras por que passara desde a sua adolescência e os detalhes de como vencera estas dificuldades até conseguir descobrir o que realmente queria da vida – Hoje em dia, amo o que faço. Isto me torna uma pessoa realizada. Não satisfeita, pois ainda tenho um caminho a trilhar e muitos planos a serem cumpridos. Mas agora sei aonde quero chegar e isto é essencial.
- Nem sei o que dizer, Gerry. Estou realmente admirada com tudo isto que você contou. Não imaginava que você tivesse passado por tudo isto. Realmente você é um vencedor.
- Ainda não. Ainda estou na briga, mas chego lá. Acho que a insatisfação nos leva muito mais longe do que pensar que já está tudo ganho e certo. A cada meta que alcanço, crio outras. Não se pode pensar pequeno, você não acha?
- Concordo plenamente com você – ela estava muito impressionada com tudo que acabara de ouvir.
- Bem, agora que você já conhece todos os meus segredos, já consegue decidir se vale à pena investir em mim e aceitar o meu convite, ou não? Ainda não é meia-noite. Quer mais um tempo?
- Não, Gerry. Acho que já me decidi.
Ela levantou-se de onde estava, colocou seu cálice vazio sobre uma das mesinhas da sala e foi na direção de Gerry, que estava sentado numa poltrona em frente ao sofá. Afagou-lhe os cabelos e disse, quase sussurrando:
- Eu vou com você. Vou para onde você quiser me levar... – disse, ainda com as mãos em sua cabeça, acarinhando seus cabelos.
Gerry, que fechara os olhos para sentir melhor o prazer daquele carinho, abriu-os, levantou-se e olhando-a com ternura, envolveu-a com os braços em torno de sua cintura. Puxando-a contra si, disse com a voz baixa e mais rouca que o normal:
- Prometo que não vai se arrepender, Sylvia.
Sentindo que o corpo dela deixava-se relaxar no seu abraço, e que seus lábios entreabriam-se para recebê-lo, Gerry beijou-a suavemente, começando pela testa, seguindo pela face, chegando ao queixo e, finalmente, encontrando os lábios carnudos e cálidos de Sylvia. Um beijo intenso e apaixonado, que há muito era esperado por ambos. Apesar de não mais haver necessidade de palavras, ela ouviu-o murmurando próximo a sua boca:
- Eu te amo... Como nunca amei ninguém.
Sylvia olhou-o, como que hipnotizada por aquelas palavras tão sonhadas, e segurando-o com as duas mãos em sua nuca, aproximou-o mais uma vez de seus lábios.
- Também te amo, Gerry.
Logo, envolvidos pelo desejo contido há tantos dias, beijaram-se ardorosamente, entre carícias e suspiros.
- Eu te quero, Gerry... Agora.
Ao ouvir o pedido de Sylvia, sorrindo, ergueu-a do chão, em seu colo e, a caminho do quarto, ainda disse:
- Como eu esperei para ouvir estas palavras, meu amor...
Fechada a porta da suíte, entregaram-se ao amor, ansiosos por tocarem-se e beijarem-se mais intensamente. Logo, as alças do vestido de Sylvia estavam caídas, deixando Gerry deslumbrar-se com os seios desnudos e perfeitos dela. Parecia que nunca haviam se conhecido intimamente antes. Viam-se com novos olhos e novos desejos. Não era mais uma aventura, mas um retorno ao lar. Suas mãos confundiam-se nas descobertas do prazer de tocar, acariciar e pressionar seus corpos. Os beijos molhados, as línguas ávidas pelos sabores do outro e a sensação de volúpia eram incontroláveis. A intimidade de Sylvia ansiava pela presença de Gerry, quando ele finalmente a penetrou, extraindo gemidos e gritos de prazer de ambos. O gozo chegou praticamente ao mesmo tempo para os dois, de forma completa e deliciosa, levando-os em alguns minutos das alturas ao Éden. Deixaram-se cair exaustos, um nos braços do outro, até normalizarem suas respirações.

Dois dias depois, partiram juntos rumo a Europa, iniciando pela Itália, onde tiveram momentos de puro romantismo, apesar de Gerry ter ido a trabalho. Porém, todos os seus momentos livres eram muito bem aproveitados. Em Londres, ela pode conhecer o terceiro apartamento de Gerry. Lá “inaugurou” com ele cada peça da casa.
Ao final, seis dias antes de sua volta a Los Angeles, Gerry lhe fez uma surpresa. Sem aviso prévio, pediu-lhe que preparasse sua mala para uma pequena viagem de quatro dias. Apesar de estranhar o seu pedido, deixou-se levar. Já confiava plenamente nele agora. Pegaram o automóvel alugado muito cedo pela manhã. Passaram o dia viajando. O coração de Sylvia bateu mais forte quando o carro cruzou a fronteira entre Inglaterra e Escócia.
- Já adivinhou onde estamos indo? – perguntou Gerry, com um sorriso malicioso.
- Estou vendo que você está com péssimas intenções em relação a mim.
- Pois eu já acho que elas não poderiam ser melhores.
Vencido o medo e o nervosismo por estar sendo levada para conhecer a mãe de Gerry, chegou a Glasgow, onde foi cercada de carinho e boas vindas por Sarah e seu marido.
- Parece que meu filho finalmente encontrou a pessoa certa para compartilhar sua vida – disse Sarah, na hora das despedidas.
Da Escócia, partiram para Londres, de onde retornaram a Los Angeles, certos de suas escolhas e com a intenção de ficarem juntos... Para sempre. Ou pelo menos, por muito tempo...

FIM
Volto em breve. Romance em construção... Se demorar muito, coloco um dos antigos só para não passarem o tempo em "brancas nuvens"...rsrsrs.
Beijos!

domingo, 14 de junho de 2009

Depois do Feriadão

Não sei se todos tiveram um feriadão ou apenas um feriadinho. De qualquer forma, as duas alternativas são excelentes. São momentos para se relaxar um pouco da rotina atribulada do dia-a-dia. Espero que todos tenham tido o seu descanso merecido e bem aproveitado.
Hoje decidi colocar mais um pouco de romance ao vento para podermos iniciar a semana um pouco mais leves. Muitas já devem conhecer a estória da minha advogada, a Sylvia. Mas se quiserem ler de novo, eu deixo...rsrsrs. Para quem não leu ainda, espero que gostem. Enquanto a nova estória não fica pronta, deixo vocês com "A Advogada". Beijos!



A Advogada - Parte I



O trabalho no escritório, nas últimas semanas, estava acabando com Sylvia. Andava tão estressada, que já não conseguia dormir ou comer direito. Seu aniversário estava próximo, mas não tivera tempo de planejar nada. Nem mesmo um jantar com amigos. Se é que ainda tinha algum. Apenas tinha a certeza da amizade de seu sócio, Edward, pois ele era o único que certamente não invejava a sua posição, já que estavam lado a lado na sociedade. Quanto aos outros, com quem trabalhava, tinha suas dúvidas. Amigos fora do ambiente de trabalho podiam ser contados nos dedos de uma só mão. Mesmo assim, fazia tanto tempo que não os encontrava, que tinha até vergonha de procurá-los para festejar qualquer coisa que fosse, muito menos o seu aniversário. Talvez fosse melhor tirar uma noite de descanso e curtir seu apartamento novo, esvaziando as caixas da mudança, que ainda estavam empilhadas pelos cantos, a espera de sua dona.
- Sylvia! Reunião de emergência! Agora! – gritou Edward ao vê-la passando com uma xícara de cafezinho na mão, a caminho de sua sala.
- Já estou indo – respondeu, interrompendo o curso dos planos para o seu aniversário.
Entrou na sala de Edward. Lembrou de quando cursavam a faculdade de Direito juntos. Sempre foram amigos, desde o primeiro dia. Sempre ativo, estudioso e empreendedor. Gostava dele como de um irmão, que não tinha. Quando terminaram o curso, pareceu natural que se tornassem sócios. Claro que haviam trabalhado por algum tempo junto a uma firma de advocacia maior, mas tão logo se acharam mais experientes, uniram as forças e lançaram-se no mercado com unhas e dentes. Depois do primeiro ano, tiveram a sorte de trabalharem na negociação de uma fusão entre duas grandes redes de TV, tornando-se conhecidos no meio artístico. A partir daí, o sucesso fluiu, com o surgimento de trabalhos junto a produtoras, tanto de programas de TV, de cinema e de música. O trabalho era árduo, estressante, mas recompensador, do ponto de vista monetário. Não tinha do que se queixar quanto a isso. Em compensação, sua vida pessoal era um horror. Não conseguia ter sorte com seus relacionamentos, que acabavam por falta de tempo para cultivá-los ou por descobrir que o interesse do companheiro não era só na sua pessoa. Já nem pensava mais nisso. Pelo menos não gostava de pensar muito nisso.
- Então, sócio, o que está acontecendo? Onde é o incêndio? – perguntou, fechando a porta atrás de si, acabando com as esperanças de pelo menos três colegas de ouvirem o que seria dito.
- Conseguimos uma nova produtora para assistir. Eles estão começando agora. Ajudaremos com todos os tramites legais para efetivá-la e ficaremos como responsáveis por toda a parte jurídica. Sei que não é nenhum negócio milionário, mas acho que ela tem um grande futuro. Temos que apostar nisso.
- Que ótimo, Ed! Confio no seu faro.
- O que há com você? Está tão abatida. Está doente?
- Não, só cansada.
- Precisando de umas férias?
- Talvez...
- Mas só depois de fecharmos este negócio, certo? Aí, você poderá usufruir um logo mês de férias. Que tal?
- Seria maravilhoso...E você? Não tira férias?
- Ah! Minha querida amiga e sócia, você sabe que o meu lazer predileto é o trabalho. Férias para quê?
- Você tem que se cuidar, Ed. Não quero ficar sozinha nesta sociedade tão cedo, ok?
- Não precisa se preocupar. Andei fazendo um check-up há pouco tempo e estava ótimo.
- Que eu lembre o seu último check-up foi há dois anos atrás e, se não me engano, o seu colesterol estava um pouquinho elevado. Lembra?
- Está bem. Assim que você voltar de suas férias, eu vou ao médico para uns exames. Combinado?
- Você promete?
- Claro! – respondeu sem olhá-la nos olhos.
- Ed... Não tente me enganar.
- Prometo, Sylvia. Prometo.
- E a reunião com estes novos produtores? Quando vai ser?
- Bem, ficamos de nos encontrar na semana que vem para levarmos os contratos a serem assinados e nos conhecermos.
- Como assim, nos conhecermos? Você ainda não os encontrou?
- Na verdade, encontrei apenas com um dos sócios. Ele me procurou e acertamos tudo. Nesta reunião ele vai apresentar o seu parceiro e eu apresentarei você. Não fica ótimo assim?
Depois de uma pausa teatral, Ed olhou Sylvia maliciosamente e disse:
- O tal Alan é meio feioso, mas parece que o sócio dele é ator, provavelmente mais bem apresentável. Quem sabe?
- Quem sabe o quê? – perguntou Sylvia levemente indignada com as possíveis intenções da última pergunta de Edward.
- Ora, Sylvia... Não vejo você com um namorado novo há pelo menos um ano.
- Quem falando! E você? A última vez que me apresentou alguém foi... Acho que na mesma época do seu check-up. Ela era a médica que o examinou. Débora, não?
- Você disse bem. Que eu a apresentei. Mas depois disso tive várias mulheres. Não preciso ficar apresentando-as a você cada vez. Ou tenho? Vai virar minha mãe, agora?
- Eu diria sua irmã... Mais moça.
- Mais moça? Da onde? Nós temos a mesma idade, maninha. Praticamente gêmeos univitelinos.
- Está bem, está bem. Vamos parar por aqui. Já sei que esta discussão não vai dar em nada. Quer jantar comigo? Estou meio carente hoje.
- Olha... Eu tenho um encontro com uma gata...- respondeu com ar pensativo, como se estivesse sondando alguma possibilidade de romper o compromisso para sair com ela.
- Não quero atrapalhar. Pode deixar, Ed. Fica para outra vez – disse , tristemente.
- Estou brincando, Sylvia. Sou todo seu. Você tem razão a respeito de minha vida amorosa. Ela está mais em baixa que as ações das AeroVias.
- Mas as AeroVias estão falidas.
- Exatamente o que eu disse.
Caíram na gargalhada juntos. Riram tão alto que todos no escritório pararam para ver o que estava acontecendo. Edward acenou para todos, mandando-os voltar aos seus afazeres e desceu a cortina da janela de sua sala, que dava para o interior do escritório.
- Agora, vamos ficar aqui um tempinho e deixar a imaginação das coleguinhas novas rolar, pensando que você é a dona de todo este corpinho – brincou, fazendo um molde imaginário de seu corpo com as mãos, mostrando alguns dos “pneus” adquiridos ao longo dos últimos anos de falta de cuidado com sua alimentação,
- Você não tem jeito, Ed. Continua querendo conquistar as novatas me usando como isca. O pior é que ainda me torno a mais odiada entre as mulheres deste “covil”.
- Ah, Sylvia. È isso que torna a vida mais interessante. Você não acha?
Achando que já era tempo de sair dali, Sylvia jogou um beijo no ar para Edward e despediu-se:
- Vou terminar de editar uma papelada lá no meu gabinete e te espero para sairmos para jantar. Você acha que às 21 horas está bom?
- Passo lá para te pegar.
- Ok!
Ao sair, Sylvia notou os olhares curiosos e dissimulados de seus colegas.
Achava graça nesta mania de Edward tentar insinuar que havia um caso entre eles. Apesar de não gostar muito desta estória, acabava participando. Às vezes era uma boa desculpa para escapar de alguns sujeitos inconvenientes.
Já eram 21:30 horas, quando saíram do trabalho rumo a um restaurante novo, o O-Bar, no Santa Mônica Boulevard, em West Hollywood. Tinham ouvido falar muito bem da cozinha e do ambiente. Longos móbiles de quartzo branco desciam do alto do teto, maravilhosas cortinas armadas como tendas em cada mesa de jantar, dando um ar de mistério ao ambiente. Era um lugar de sonho e romance. Não me pareceu muito indicado para um jantar entre amigos, mas era bom conhecer e saber que havia um lugar assim para ir com alguém especial. Tivemos sorte de conseguir lugar. Talvez porque fosse uma quinta feira e o movimento fosse menor. Normalmente, fomos avisados, necessitaríamos de reserva, com antecedência.

Ele estava numa das mesas próximas ao bar do O-Bar, conversando com uns amigos, antes de voltar para seu apartamento. Estava aproveitando que não teria filmagens nas próximas semanas e resolvera relaxar um pouco. Foi quando viu aquela bela mulher, vestida elegantemente com um tailleur mostarda, com uma saia que deixava ver as pernas bem torneadas, sem ser curta demais. Seus cabelos negros estavam presos na nuca e alguns fios despenteados lhe caiam sobre o rosto. A maquiagem era leve, mas realçava a boca de lábios cheios e, provavelmente muito macios. Há muito tempo uma mulher não lhe chamava tanto a atenção. Seu olhar era meigo e seus modos extremamente femininos. Infelizmente estava acompanhada por um tipo de altura mediana, com uma calvície já iniciada no alto da testa, com um certo sobrepeso. Não era feio e vestia-se com um terno Armani, apesar de lhe faltar elegância para tal. “Ela merecia coisa melhor”, pensou Gerry, sem conseguir parar de seguir o casal. Só deixou de vê-los quando “esconderam-se” numa das mesas de jantar do restaurante. Ficou pensando se não estava na hora de dar um tempo e dedicar-se a um relacionamento mais sério. O tempo estava passando. Via quase todos seus amigos casando-se, tendo filhos e ele apenas entregue ao trabalho. Sentia falta de ter uma mulher que lhe fizesse carinho quando chegasse em casa, depois de um dia de trabalho. Ou alguém que o acompanhasse em suas viagens. Dormir e acordar acompanhado de alguém que o amasse e que o compreendesse. Que pudesse ouvi-lo, trocar intimidades, abraçá-lo e beijá-lo sem motivos, simplesmente porque o amava. Sabia que muitas mulheres o desejavam, mas como desejavam a um de seus personagens. Talvez se o conhecessem como era de verdade, não o desejassem tanto.
- Gerry! Gerry! Ei! Andando por onde, amigo? Sonhando acordado? – perguntou Steve, um amigo de longa data, casado, batendo-lhe no ombro.
- Ahn? Não... Eu estava distraído.
- Foi aquela morena que entrou a pouco, não foi?
- Linda ela, não? – respondeu sorrindo, tentando disfarçar a melancolia que sentia.
- Falando nisso, a minha linda está lá em casa me esperando. Prometi não chegar muito tarde em casa. Vamos? Ou você vai ficar, esperando que o acompanhante da morena caia fulminado e você a aborde?
- Não seria uma má idéia – gargalhou, ao pensar na situação proposta por Steve.
Entre risadas, pagaram a conta e saíram. Steve ao encontro de sua mulher e Gerry para o seu solitário apartamento, onde encontraria algum roteiro para ler, antes de pegar no sono. No fim de semana daria um jeito de ir até o “Lohan’s”, a casa noturna onde ele ás vezes ia para dançar e “pegar” alguém para levar para a cama, quando a carência estava insuportável. Tinha vergonha de reconhecer que precisava pagar para este tipo de coisa, mas as garotas de programa eram discretas. Quando bem pagas, é claro.

Finalmente era sexta feira. Ainda não decidira o que fazer para festejar o seu aniversário. Ao chegar ao escritório, achou estranho o silencio reinante. Ninguém havia chegado ainda?
O que estava acontecendo? Dirigiu-se diretamente a sua sala. Ao abrir a porta, quase caiu para trás. Foi recebida com uma chuva de balões, apitos de línguas de sogra e um bolo, onde uma vela que, felizmente não denunciava sua idade. Pelo menos Edward resolvera ser discreto neste ponto. Não que 32 anos fosse uma idade avançada. Mas quando se é solteira, estranhamente, os anos a mais pesam mais que os de uma mulher casada.
Logo o canto do“Parabéns” se fez ouvir. Depois de apagar a vela cor de rosa no centro do bolo decorado com “Felicidades, Sylvia” em glacê, foi abraçada primeiramente por Ed. Em seguida, todos os outros colegas a cumprimentaram. Estava realmente sensibilizada com a homenagem que, certamente fora iniciativa de seu amigo. Mas também, surpresa pela participação “em massa” de todos os outros, mesmo aqueles que ela achava que não eram seus simpatizantes.
Depois de passada a euforia, a volta aos trabalhos foi conseqüência inevitável. Já estava distraída digitando alguns laudos, quando Lina e Gloria, que eram duas das mais recentes estagiárias, entraram em sua sala muito sorridentes.
- Oi, chefe. Podemos falar com você?
- Claro. Algum problema?
- Não há problema algum. Só queríamos saber se você já tem programa para hoje. Pensamos em convidá-la para sair.
Sylvia ficou mais surpresa com este convite do que com a festa realizada a pouco. Lina e Gloria nunca tinham demonstrado muita intimidade com ela desde que chegaram ao escritório. Está certo que ela tinha sido a responsável pela entrevista das duas e dera o seu aval para que elas iniciassem seu estágio lá. Mas sua relação não passara disso.
- Não... Isto é, na verdade não planejei nada para hoje. Pensei em ficar em casa e arrumar minhas coisas. Desde que me mudei, ainda não consegui desencaixotar nem a metade de tudo.
- Então, que tal fazer uma coisa diferente e sair para agitar um pouco na noite. Conhecemos um lugar ótimo para dançar e conhecer pessoas... – olharam-se, sorrindo maliciosamente uma para a outra.
- Não sei... – falou indecisa, mas já ficando um pouco animada com a possibilidade de relaxar um pouco. Adorava dançar. Talvez fosse um bom programa para festejar aquele dia.
- Temos certeza que o Ed não vai se chatear – riram novamente.
Mais uma dupla que acreditava no caso dela com Edward. Quem poderia acreditar que isso fosse uma coisa séria, principalmente depois de saber que o outro a abandonaria na noite de seu aniversário? Mas não falou nada a este respeito.
- Não, eu tenho certeza que ele não vai, não... Está bem! Eu topo. Não tenho nada a perder, não é mesmo?
- É isso aí, chefe! Boa decisão.
- Por favor, não me chamem de chefe. Sinto como se 20 anos fossem acrescidos a minha idade.
- Tudo bem, Sylvia. Bem, que tal nos encontrarmos lá no “Lohan’s” às 22:30 horas?
- “Lohan’s”? Onde fica?
- Vamos lhe dar o endereço. Nos encontramos lá dentro, no bar. Está certo?
- Está certo. Combinado.
As duas saíram entre risinhos de sua sala. “Será que estão preparando mais alguma surpresa para mim?”, pensou desconfiada.
De qualquer forma, não era nada mal a idéia de dançar e, quem sabe, conhecer alguém interessante.
Na hora do almoço, saiu com Ed e foram a um restaurante próximo. Contou-lhe sobre o convite para a noite.
- Você quer que eu a acompanhe?
- Não, imagina. Acho que vai ser bom fazer um programa diferente.
- Bem já que não vai querer a minha companhia – resmungou, Ed, simulando um beicinho – eu me resigno a ficar em casa rezando para que a sua comemoração seja em grande estilo. Quem sabe não seja a sua chance de desencalhar – caindo na risada.
- Não acho elegante esta palavra desencalhar. Me sinto como um navio enferrujado encalhado no Mar Morto.
- Tem navios encalhados por lá? – achando graça na referencia de Sylvia.
- Não sei... Mas o fato dele estar Morto tem algum significado para mim. Encalhada, morta...
- Pare com isso. Já me arrependi do comentário. Desculpe – reagiu ele, com legítimo arrependimento – Você é uma mulher atraente, com uma cabeça incrível, inteligente. Só ainda não encontrou o cara certo. Além disso, hoje não é dia para depressão. Saia e se divirta.
- Vou tentar...
- Olhe, eu não ia contar agora, mas em vista de sua carinha de tristeza, vou adiantar o assunto.
- O quê? Mais alguma fusão em vista?
- Não, nada de trabalho. É sobre as suas férias, lembra? Depois da próxima terça feira a senhora estará de férias. Ou já esqueceu do seu pedido?
- Ah, claro!
- Pois é. Em nome do “Michels and Allen ‘s Lawyers” você será presenteada com uma semana de férias, a primeira das quatro, em Nova York, numa suíte do Marriot, para renovar seu guarda roupa e poder escolher seu próximo destino, nas três semanas seguintes. Tenho certeza que você ainda não teve tempo de planejar estas quatro semanas. Estou errado?
- Ed, nem sei o que dizer. Nova York? No Marriot? Realmente, eu ainda não tinha pensado para onde ir...
- Então, a primeira semana você já sabe. Considere isto como o meu presente de aniversário.
- Ed, posso te dar um beijo?
- À vontade – ela levantou-se da cadeira onde estava e segurando a cabeça dele nas mãos, deu-lhe um beijo estalado no rosto, seguido de um abraço.
- Nossa, assim eu fico encabulado – observando que várias pessoas dentro do restaurante haviam parado de conversar para olhar a cena protagonizada por eles.
- Desde quando você fica com vergonha em público? – falou Sylvia, divertindo-se com o desconcerto do amigo e voltando a sentar em seu lugar.
- E desde quando você perdeu a vergonha. Você já foi mais recatada, moça.
- Hoje é meu aniversário e eu posso tudo, não?
- È isso aí, Sylvia. Você merece muito mais, querida.
- Você é o melhor amigo que alguém poderia ter, sabia?
- Que você pense assim, acho ótimo. O pior é que todas as outras garotas de Los Angeles parecem pensar assim também.
- Tenho certeza que a sua alma gêmea está reservada e logo vocês vão se conhecer.
- A esperança é a última que morre, já dizia minha avó.
Terminaram seu almoço já com melhores ânimos e voltaram ao trabalho. Combinaram que na segunda feira teriam a reunião com os clientes da nova produtora e, dali, Sylvia seguiria para suas férias de um mês.
A noite chegou. Sylvia foi para casa, excitada com as possibilidades das próximas horas. Conseguira marcar uma hora no cabeleireiro para o horário em que sairia do trabalho. Resolveu deixar o cabelo solto, para variar um pouco. Colocaria seu vestido novo, comprado há mais de um mês, depois da mudança. Este pelo menos não estava encaixotado.
Às 21:30 horas já estava pronta. Olhou-se no espelho para ver o resultado e não achou nada mal, para alguém de 32 anos. Parecia mais jovem. Os cabelos castanho-escuros longos, ondulados, soltos, davam um visual sensual. Caprichara na maquiagem, realçando sua boca e olhos. O vestido vermelho ajustado ao corpo, mostrava suas coxas só um palmo acima dos joelhos. Sem mangas, era “clean” e sexy, sem ser vulgar. Como bijuterias, colocara um lindo colar de cristais transparentes e brincos acompanhando. Depois de colocar seu perfume Burberrry London, seu preferido, achou que estava pronta para festejar seu aniversário em grande estilo.
Pouco antes das 22:30h, chegou ao “Lohan’s”. Foi de táxi, pois tinha medo de dirigir sozinha à noite. Não viu as garotas na frente do prédio e resolveu seguir o combinado. Criou coragem e entrou. Seguiu na direção do bar, tentando acostumar-se com as luzes e os neons que inundavam a escuridão do lugar. Ainda não conseguira ver nem sinal das colegas. Sentou no bar, numa das banquetas, e pediu uma taça de vinho branco.

“Era ela? A mesma mulher do “O-Bar”, que ele vira há três dias atrás?”, Gerry estava surpreso. O que ela estaria fazendo por ali? Não era um lugar muito recomendável para uma garota elegante. Seria ela uma destas garotas de programa requintadas? Não conseguia acreditar nisto. Ela estava mais linda e sensual que nunca com aquele vestido vermelho e os cabelos soltos. Logo pensou que aquela seria uma noite inesquecível. Pensando assim, rumou na direção dela.
- Boa noite – falou, sentando-se ao seu lado, displicentemente.
Ao ouvir aquela voz rouca e máscula a lhe cumprimentar, teve como primeiro impulso desencorajar o seu dono de qualquer pretensão a seu respeito. Ao levantar os olhos do balcão e cruzar com o olhar intenso e sensual, de um verde profundo, acabou por esquecer o que tinha pensado no último minuto e perdeu o poder da palavra. Em alguns instantes, hipnotizada por aqueles olhos, imaginou se ele não iria pensar que ela era retardada, tal a demora em responder um simples boa noite. Finalmente, conseguiu destravar a língua e responder:
- Boa noite... – o que fez brotar um lindo sorriso da boca lasciva de seu interlocutor.
- Está sozinha?
- Não... Quer dizer, estou esperando umas amigas, mas acho que elas se perderam por aí. Ou devem estar chegando – corrigiu rapidamente, para que ele não pensasse que ela estava totalmente só.
- Posso acompanhá-la... Até suas “amigas” chegarem?
- Como quiser. Você já está sentado mesmo ao meu lado. Que eu saiba o bar é livre. Não posso impedir que você fique aqui. Posso?
- Não quero ser inoportuno. Posso procurar outra pessoa para conversar.
- Desculpe – disse, arrependida do que acabara de falar, pois o homem parecia ser bem interessante. Era, mais uma vez, o seu sistema de defesa contra homens em geral, dando o alarme. Mas este parecia ser diferente. Esperava que fosse. Ele era extremamente charmoso e elegante. Além disso, não era nenhum rapazote. Parecia ter classe e experiência – Não costumo ser abordada em bares.
- Não? Onde você costuma ser abordada?
- Na verdade, não costumo sair muito à noite.
“Ela está se fazendo de difícil, mas eu gosto disso”, começou a sentir-se excitado.
- Acho que a vi esta semana no “O-Bar”, se não me engano, acompanhada por um homem.
- No “O-Bar”? Como sabe que era eu?
- Você é inesquecível – disse ele lançando-lhe um olhar que a fez estremecer e sentir os joelhos fraquejarem.
- Realmente eu estive jantando por lá esta semana. Não lembro de você...
- Era seu cliente?
- O quê? Quem?
- O homem que a estava acompanhando.
- Ed? Ah, não... Ele é meu sócio.
“Aquele cara não tinha jeito de cafetão. Mas hoje em dia nunca se sabe...”, pensou curioso.
- Você quer dançar um pouco?
Sylvia olhou para os lados, tentando ver se Lina ou Gloria apareciam para salvá-la aquela situação, mas nem sinal delas, ainda.
- Ainda nem sei o seu nome.
-Meu nome é Gerry – respondeu, pensando que aquela era uma garota de classe. Porque estaria nesta vida? Provavelmente tinha potencial para muito mais que uma “vida fácil”.
- Muito prazer, Gerry. O meu nome é Sylvia.
- Bem, agora que fomos apresentados, que tal aceitar o meu convite para dançar. A não ser que não esteja incluído, no seu programa, dançar – falou sarcasticamente.
Sylvia achou estranho o modo como ele falava, mas não deu muita importância. Talvez ele fosse estrangeiro, pois seu sotaque não era americano. Daí, talvez viesse alguma dificuldade em expressar-se.
- Dançar, certamente, está mais que incluído no meu “programa”.
- Então? Vamos? O que você tem a perder. Se não gostar de minha companhia, existem dezenas de outros que já devem estar de olho em você.
Sylvia sentiu seu rosto pegar fogo ao notar o olhar de volúpia de Gerry a despi-la, enquanto estendia-lhe a mão para ajudá-la a descer da banqueta.
Foram na direção da pista onde alguns casais já dançavam bastante animadamente. Talvez mais do que o esperado para ser visto numa pista de dança. Esperava que seu Gerry fosse menos afoito do que os outros. Começaram dançando separados, trocando sorrisos e conversando sobre banalidades.
- Você vem sempre aqui?
- Às vezes – mentiu, não querendo parecer uma freira.
- Eu nunca a tinha visto por aqui.
- Então você é assíduo.
- Na verdade, não muito. Venho só quando estou muito carente.
- E você está muito carente hoje? – perguntou, surpreendendo-se com sua própria impropriedade.
- Estou... Muito. E você?
- Para dizer a verdade, também – logo teria de por um esparadrapo na boca para parar de se escancarar com um completo estranho. Mas ele era muito sedutor e a fazia sentir-se à vontade com ele. Nunca sentira isso num primeiro encontro com ninguém.
“A noite realmente vai ser mais produtiva do que eu imaginava...”.
O ritmo da música tornava-se mais envolvente. Foi quando Gerry passou-lhe a mão na cintura e puxou-a para mais junto de si, surpreendendo-a.
- Vamos com calma...
- Só estou seguindo a batida da música – fazendo-a rodopiar e forçando-a a jogar-se para trás, quando tentou aproximar-se mais.
Sylvia começou a achar que a taça de vinho que havia tomado estava tendo efeitos sobre sua conduta, pois começava a achar tudo aquilo extremamente divertido e Gerry, um excelente dançarino. Talvez estivesse solta demais. O que ele pensaria sobre ela?
Quando a balada romântica começou, ela tentou desvencilhar-se de seus braços, com a desculpa de descansar um pouco. Mas ele, sem permitir, e exigindo mais aquela dança, apertou-a ainda mais contra seu corpo, deixando-a quase sem fôlego.
- Se você me apertar mais, não vou poder respirar.
- Quem está sem ar, sou eu, querida – murmurou Gerry, sedutoramente.
Imantada no seu olhar, Sylvia desistiu de lutar contra o abraço forte, e foi sendo levada a abraçá-lo também. Logo, a atração foi aumentando e um beijo era iminente.
“Eu preciso desta mulher”, pensou Gerry.
“Eu quero este homem”, desejou Sylvia.
E assim foi o primeiro beijo deles. Intenso, voraz, úmido e quente. Um beijo de tirar o fôlego e acordar o desejo adormecido em seus íntimos.
Sylvia sentia-se inebriada por aquele homem. Pensava em coisas que já esquecera há muito ou que nunca imaginara pensar ou ansiar. Precisava tentar controlar-se. Tinha que evitar aqueles olhos, aquele olhar...
Os beijos tornaram a repetir-se e o calor começava a atordoar-lhes os sentidos. A pista de dança já não permitia a demonstração de todos os sentimentos que insistiam em aparecer.
- Sylvia, vamos sair daqui?
Alertada pela pergunta, tentou recompor-se e bloquear a onda de desejo que estava sentindo por Gerry.
- Acho melhor irmos sentar numa das mesas e pedir alguma coisa para beber ou beliscar. Que tal?
- Não considero uma boa idéia. Estou tentado a fazer coisas bem melhores com você, do que beber ou comer “alguma coisa”.
Ela o sentia extremamente excitado. O fato de pensar que um homem como aquele se sentia tão atraído por ela, também era muito agradável, envaidecedor e... Estimulante. Afinal, ela era maior de idade, dona de seu nariz, não tinha que dar satisfações a ninguém. Que mal teria em dar-se de presente uma noite de prazeres com alguém tão interessante? Ela poderia apaixonar-se por ele. Talvez ele por ela... Quem sabe?
Quando ele novamente a beijou ardentemente, suas últimas barreiras foram destruídas e ela se deixou levar pela torrente de emoções.
- Vamos para o meu apartamento – ordenou ele.
- Está bem – sussurrou, simplesmente obedecendo.
Em poucos minutos, corriam pelas ruas, na BMW conversível de Gerry. Mal podia esperar chegar em casa para compartilhar o seu corpo com o de Sylvia.
Os beijos e abraços continuaram no caminho entre a garagem e a porta do apartamento de Gerry. Quando a porta da cobertura fechou-se atrás deles, as peças de roupa começaram a ser arrancadas e jogadas sem dó, no chão da sala de estar. Fizeram amor ali mesmo, mas não sem antes Gerry ter o cuidado de colocar um preservativo, surgido sabe-se de onde. Sylvia simpatizou com este cuidado da parte dele. Tomara que ele tivesse um bom estoque em casa. “Realmente eu não estou no meu normal... Pensar uma coisa destas, nesta hora...”, novos pensamentos surpreendiam Sylvia.
Depois da sala, veio a vez do quarto. Entre gemidos e gritos de prazer, Sylvia tinha as melhores sensações de sua vida. Por sua vez, Gerry pensava que nunca havia sentido prazer maior em muitos anos.
Amaram-se até não agüentar mais, quando caíram exaustos sobre a cama , com Sylvia deitada sobre o peito de Gerry, que a aconchegou em seus braços.
Ele custava a acreditar que esta mulher maravilhosa pudesse ser uma garota de programa. Ela chegou a simular certa falta de experiência, que inclusive o excitou ainda mais. Seria isto possível? Mas o lugar onde a encontrou era conhecido por todos como um local de encontros com este tipo de mulher. Talvez estivesse tentando negar este fato, para que houvesse uma mínima possibilidade de viver um caso sério com ela. O jeito seria tentar pegar seu telefone para ficar como cliente fixo. Ou não? Ele poderia se apaixonar por ela. Isto parecia muito fácil e provável de acontecer, se continuasse a vê-la. O melhor seria ficar com esta noite apenas na lembrança, como sendo uma das melhores noites de sua vida. Não queria ter mais uma decepção na sua galeria.
A manhã chegou. Gerry não teve coragem de acordá-la, tal a expressão de paz e satisfação estampada no belo rosto de Sylvia. Deixou um bilhete e um cheque com o valor do programa imaginado por ele, já que ela não discutira seu preço antes. Ainda assim considerou aquém do que ela merecia. Mas não podia inflacionar o mercado.
Sylvia, cerca de meia hora depois da saída de Gerry para seus exercícios matinais, abriu os olhos preguiçosamente e procurou por ele. Decepcionou-se quando não o viu deitado ao seu lado. Eles tinham tanto a se falar. Tudo tinha sido tão rápido, mas tão intenso. Talvez estivesse se apaixonando. Nunca se sentira tão à vontade com uma pessoa, nem tanto prazer. Agora, precisavam conhecer-se. Tinha certeza que ele pensava da mesma maneira que ela. Pelo menos imaginava que sim. Levantou-se e foi ao banheiro, olhando e certificando-se de que realmente estava só. Tomou um banho rápido, admirando o bom gosto da decoração da peça e tentando identificar os gostos dele, através dos xampus, cremes e perfumes que se encontravam sobre a bancada de mármore da pia. Pelo jeito ele era muito vaidoso. Não sabia qual a sua profissão ou seu nome completo. Ria de si mesma por ter sido capaz de fazer uma loucura como esta. Talvez estivesse com expectativas grandes demais sobre o que acontecera. Gerry poderia achar que tinha sido apenas uma aventura. E se ele fosse casado? A mulher poderia estar viajando... Não! Melhor parar de pensar bobagens. Melhor se arrumar e esperá-lo aparecer para conversarem. E assim o fez. Vestiu novamente o vestido vermelho. Apenas escovou os cabelos, passou um rímel nos longos cílios e um batom nos lábios. Quando saiu do banheiro, disposta a fazer um reconhecimento do apartamento, viu o bilhete sobre um papel dobrado, em uma das mesas de cabeceira. Correu para abri-lo, esperando encontrar palavras de carinho. Levou um choque. Entre lágrimas de tristeza e extrema vergonha, Sylvia lia as duras palavras escritas:

“Deixe o seu telefone para que possamos repetir uma noitada como esta uma outra vez. Aqui tem um cheque, que espero que cubra seus honorários. Até uma próxima. Gerry.”

“Que diabos está acontecendo aqui? Ele me confundiu com uma prostituta??” Ela custava a acreditar no que seus olhos viam naquelas palavras escritas em tom tão frio. Como ele pudera confundir tudo o que tiveram naquelas últimas horas com o trabalho de uma profissional? Será que ele não tinha conseguido ter a sensibilidade de reconhecer que o prazer que lhe dera era legítimo? Tantas perguntas vinham a sua cabeça, só aumentando ainda mais o seu desespero e sua decepção. Como ela pudera pensar que ele era o homem da sua vida. Quanto mais pensava nisso, mais tinha vontade de chorar.
Precisava sair dali o quanto antes. Não queria encontrar com ele... Nunca mais. Seria capaz de bater naquele homem. O sentimento de humilhação tornava-se insuportável. Pegou sua bolsa e correu a procura da porta de saída. Por sorte, não encontrou com ninguém. Já na rua, fez sinal para o primeiro táxi que surgiu vazio, entrou e foi para casa em prantos. Chegou em casa, um pouco mais calma, mas com uma sensação de vazio. As imagens da noite anterior insistiam em voltar a cada segundo. Os beijos, o gosto de sua boca, os braços fortes envolvendo-a, a invasão de sua intimidade de todas as maneiras possíveis... Ahhh.... Como podia ter sido tão idiota de entregar-se daquela maneira a um desconhecido? Mas ele parecia tão maravilhoso, tão perfeito...
De repente, sentia-se suja. Abriu as torneiras de seu chuveiro, tirou suas roupas de noite e entrou no box para um outro banho. Um banho que tirasse qualquer vestígio de que um dia um sujeito chamado Gerry tivesse tocado nela. Sylvia sentia-se como uma louca, a esfregar-se e a chorar. Lágrimas misturadas à água com que tentava limpar sua mágoa e o aviltamento porque passara.
Perto do meio dia, o telefone tocou. Ela não conseguia mexer-se da posição fetal em que se encontrava sobre a cama desde que saíra do banho. O toque irritante persistia. Parava por alguns poucos minutos e voltava a tocar, insistente. Cerca de uma hora mais tarde, outro som passou a tirá-la de seu estado catatônico. Era a campainha da porta de seu apartamento. Logo passou a ouvir as batidas na porta de madeira, que foram crescendo, numa quase tentativa de arrombá-la. Junto, ouviu seu nome, gritado por uma voz conhecida.
- Sylvia!! Eu sei que você está em casa! Abra a porta! Sou eu, Ed! Por favor! Estou preocupado com você!
“Ed... O que ele está fazendo aqui?”, alterando o curso de seu pensamento para a realidade atual, abandonando a seqüência de cenas da noite anterior, onde ainda procurava explicação para o que acontecera.
Com algum esforço, levantou-se, vestiu um robe que estava mais a mão e dirigiu-se para a porta, que estava a um passo de ser derrubada. Ao abrir, deu de frente com o punho de Edward, que se preparava para esmurrar mais uma vez a entrada do apartamento, estacionando no ar.
- Sylvia! – exclamou agoniado e surpreso com a expressão abatida de sua amiga. Entrou na sala, empurrando-a delicadamente para trás, a fim de fechar a porta e evitar a curiosidade de algum vizinho que estivesse interessado nos motivos do quase arrombamento.
- O que aconteceu, Sylvia? Estou tentando ligar desde as 11:30 horas. Já são quase 15 horas e você não respondeu. Liguei para a portaria do seu prédio e o funcionário confirmou que havia visto você chegando mais cedo, de táxi, chorando. Agora vejo você neste estado de semimorta. O que houve? A noite foi tão ruim assim?
Quando ela conseguiu encarar os olhos assustados de Ed, desabou em choro novamente.
- Acalme-se, querida... Sente-se aqui nesta poltrona e me conte o que aconteceu para deixá-la neste estado. Quer um pouco de água?
- S-Sim... – conseguiu murmurar, entre uma fungada e outra.
Após bebericar a água, respirou fundo e começou a contar o que acontecera. Sabia que podia confiar em Ed. Claro que deixando de lado os fatos mais íntimos.
Depois de ouvir tudo, Edward a olhava atônito.
- O que você foi fazer no “Lohan’s”? Você não sabe a fama daquele lugar?
- Que fama? Nunca tinha ouvido falar de lá. Quem me convidou para ir foram a Lina e a Glória. Lembra? Eu contei a você ontem.
- Mas não me disse o local do encontro.
- E o que tem o local?
- É um ponto conhecido de prostituição, Sylvia. Pelo que você está me contando este cara que saiu com você está inocente. É óbvio que ele pensou que você era uma garota de programa. Eu vou despedir são aquelas duas vigaristas que a convidaram para ir lá. Elas lhe prepararam uma armadilha, é claro.
- Armadilha?
- A Glória vem atirando seu charme sobre mim desde que começou a trabalhar na nossa firma. Como eu não estava interessado, acabei usando você como escudo, dizendo que você não ia gostar e estas coisas, que sempre falo. Certamente ela usou esta oportunidade para se vingar de nós dois, achando que tínhamos alguma coisa.
- Não, Ed. Não acredito que elas teriam coragem de fazer isto. Talvez elas não soubessem da fama deste lugar.
- Elas não apareceram por lá, não foi?
- Não... Será que elas seriam capazes de uma baixaria destas?
- Não duvido nada. Porque você acha que eu não quis nada com a Glória? Achei-a muito vulgar, desde o início.
- De qualquer jeito, eu não podia ter agido como agi. Tinha que ter me resguardado. Fui muito fácil.
- Sylvia, pára de se culpar. Pense no lado bom de tudo que aconteceu.
- Eu não consigo. Não consigo parar de pensar naquele cheque e no bilhete... Ser confundida com uma p... Não entra na minha cabeça.
- De quanto foi o cheque? Só por curiosidade...
- Dois mil dólares.
- O quê? E você não pegou?
- Ed!!!
- Sylvia, nunca imaginei que você pudesse ser tão boa de cama...
O olhar de Sylvia o fulminava.
- Sério! O cara deve ter te adorado.
- Se você não parar de falar assim, vou pedir para que vá embora.
- Desculpe, mas não pude me conter – disse meio que rindo.
- Vocês homens são todos iguais mesmo.
- Minha querida, não entendo porque está tão chateada com o tal do Gerry. Pelo jeito vocês tiveram uma ótima noite e ele apenas se enganou com a sua profissão.
- Você faz parecer tão simples...
- Mas é simples. Vocês se conhecem num bar, dançam, tem atração um pelo outro e resolvem curtir aquele momento. È óbvio que ele não ia sair te pedindo em casamento. Sylvia , nós vivemos em Los Angeles, que de anjo não tem nada , só o nome. Se fosse você pararia de sofrer e levaria isto na boa.
- Estou chocada com você, Ed.
- Você queria que ele estivesse apaixonado por você como você por ele, não é?
- Eu não estou apaixonada por ninguém! – gritou indignada.
- Espero que não. A chance de um encontro deste tipo virar um romance é 0,01%. Isto só acontece em filmes como “Uma Linda Mulher”.
- Chega, Ed. Pensei que você pudesse me consolar, mas só está me fazendo sentir pior.
- Sylvia, tente ver a coisa toda mais friamente. Mais tarde você vai me dar razão. Você está assim porque gostou do sujeito e ficou furiosa quando percebeu que para ele você foi apenas mais uma.
Ela fez uma cara de choro e já com lágrimas brotando dos olhos, baixou a cabeça e murmurou com voz embargada:
- Acho que sim...
- Venha cá, meu bem. Não fique assim. Esta sensação de ressaca vai passar. Pense que você em dois dias estará livre do trabalho, a caminho de Nova York. Poderá esquecer tudo isto nas compras maravilhosas que fará por lá – disse, abraçando-a fraternalmente.
- É... Talvez você tenha realmente razão. Vou tentar esquecer esta noite.
- Lá em NY, tenha cuidado na escolha dos lugares aonde vai à noite, está bem?
- Pare com isso, seu bobo! – respondeu, dando-lhe um safanão de leve, esboçando algo parecido com um sorriso.
- Bem, acho que já cumpri meu papel de irmão. Que tal ajeitar-se e sair para comer alguma coisa? O dia está lindo e agradável.
- Não. Vou ficar por aqui. Tenho uma pilha de caixas para desfazer. Talvez seja bom para me distrair. Vou aproveitar para pensar sobre as férias e procurar alguma sugestão na Internet.
- Tem certeza?
“Não tenho”, pensou.
- Sim – respondeu.
- Amanhã pretendo ficar em casa para ler alguns artigos. Se quiser conversar é só me ligar, tá bom?
- Está bem. Qualquer coisa te ligo. Obrigada, Ed.
- Te vejo na segunda, sem falta. Não esqueça a nossa reunião na produtora. Nos encontramos no escritório e vamos juntos para lá. Certo?
- Certo. Até segunda... Ah, antes que me esqueça. Não faça nada contra aquelas duas.
- Por quê? Elas merecem ir prá fora.
- Não. Não quero que elas pensem que conseguiram o que pretendiam. Vou dizer que como não as encontrei por lá, resolvi ligar para uns amigos e fazer outro programa. Elas vão ficar decepcionadas.
- Você que sabe. Mas vou ficar de olho nelas. Assim que cometerem o mínimo deslize, serão despedidas sem dó.

Sylvia tentou não pensar mais no ocorrido, mas não conseguia esquecer os carinhos e beijos de Gerry. Tudo fora muito intenso. Ainda bem que ficaria longe de tudo isto em dois dias. Teria um mês inteiro para esquecê-lo.
Passou o final de sábado e todo o domingo distraída com a arrumação de seu apartamento e nas visitas a Internet para decidir para onde iria nas semanas seguintes após NY. Estava quase decidida por fechar um pacote para o Caribe. Seriam três semanas de sol, mar e descanso merecido, num resort a beira-mar. Enviou e-mail para algumas agencias de turismo em NY. Talvez até segunda feira já soubesse o seu roteiro. Começava a ficar animada.
Iniciou a sua curtíssima semana de trabalho, levantando muito cedo e colocando um de seus melhores trajes de executiva poderosa. Como sempre, prendeu os cabelos e, depois de um frugal café da manhã, dirigiu-se para o escritório.
Edward já esperava. Glória havia chegado um pouco antes dela e veio pedir-lhe desculpa por não ter comparecido ao encontro marcado, mas havia ocorrido um imprevisto na família. Um tio materno falecera. “Já começou a matar a família para ter um álibi do crime”, disse Sylvia para si mesma.
- Não se preocupe. A minha noite foi ótima – afirmou sorrindo – Uns amigos acabaram me fazendo uma surpresa e, como vocês não apareceram, aceitei o convite deles para ir a outro nightclub. Fomos a um lugar fantástico e, acho eu, muito mais animado que aquela espelunca. Vocês costumam mesmo ir lá? Precisa melhorar o seu gosto, menina.
Adorou ver a cara de decepção de Glória. Certamente seria semelhante à de Lina, quando a amiga lhe contasse o fato.
- Vamos, querida? Já está na hora – chamou Ed.
- Claro.
Saíram no carro de Ed e foram em direção a West Hollywood onde ficava o escritório do novo produtor, Alan. Chegaram um pouco antes do combinado, mas foram imediatamente recebidos cordialmente por seu cliente.
- Muito prazer, senhorita Allen. Como vai, Edward?
- Pode me chamar de Sylvia, por favor. É um prazer conhecê-lo também, senhor Slaver.
- Alan, por favor – solicitou, todo sorridente – Mas vamos sentar. O meu sócio ainda não chegou e temo que ele se atrase um pouco. Ele me pediu que iniciássemos sem a presença dele, para não ocupar muito o seu tempo.
A partir daí, Sylvia tomou a frente das negociações, com grande fluência. Ela era expert nestes assuntos. Ed sempre a deixava falar, pois ela transmitia mais seriedade do que ele durante este tipo de discussão.
Quando faltavam apenas alguns detalhes e explicações para a assinatura dos contratos, Alan foi avisado por sua secretária, através do interfone, que seu sócio já chegara. Imediatamente a porta abriu-se. Sylvia estava de costas e sentiu-se congelar ao ouvir Alan saudando a pessoa que acabara de entrar:
- Oi, Gerry! Já íamos encerrar sem você. O que houve?
- O transito... Sabe como é a esta hora... – ele meio que parou de falar o que ia dizer ao ver a mulher de costas, que o lembrou muito de alguém.
Ed levantou-se e antes de cumprimentar Gerry, olhou para Sylvia, esperando que ela o imitasse. De repente, pareceu dar-se conta do que estava acontecendo com ela, ao ver o rosto muito pálido da amiga e ligar ao nome que acabara de ouvir. Ele sabia que o outro sócio da produtora era Gerard Caldwell, mas desconhecia o seu apelido.
- Sylvia... Você está bem?
Neste momento, foi a vez de Gerry surpreender-se. “Sylvia? O que ela faz aqui?”, perguntou-se e tentando fazer a ligação entre a garota de sexta e a advogada que estava ali. “Não devem ser a mesma pessoa”, imaginou.
Sylvia levantou-se lentamente e virou-se. Ainda tinha a esperança que o Gerry da produtora não fosse o mesmo que ela conhecera, apesar da voz ser muito parecida... Diria, inconfundível. Suas dúvidas todas caíram ao chão, quando o olhou diretamente. Ela, quase foi ao chão. “Controle-se, Sylvia... Faça de conta que não o conhece... Provavelmente ele fará o mesmo. Ele não vai se atrever a...”, seu pensamento foi interrompido por Gerry, que se aproximou rapidamente dela, com um doce sorriso e curvou-se para beijá-la no rosto.
- Sylvia... Que prazer... - disse ele.
Ao mesmo tempo, Sylvia esquivou-se de seu “cumprimento” efusivo e olhou-o o mais friamente que pode.
- Nós nos conhecemos?
- Vocês se conhecem? – perguntou Alan, meio defasado no tempo.
- È um prazer conhecê-lo, senhor Caldwell – Ed tentava consertar a situação constrangedora, tirando a atenção de Sylvia, que parecia que ia ter uma síncope a qualquer instante, dando um tempo para que ela se recuperasse do choque. Apesar de Gerry não conseguir tirar os olhos dela, cumprimentou-o meio que automaticamente:
- O prazer é meu, Ted – respondeu sem olhar o advogado – Sylvia, acho que precisamos conversar...
- Ed... de Edward – corrigiu, chateado com a troca de seu apelido, mas levando em conta o momento de conflito que o outro devia estar passando. Não devia ser nada fácil ele encontrar uma garota de programa, do qual fora cliente, sendo sua advogada, dias depois. Mais uma vez ele era seu cliente... “Nossa, que confusão”, pensou Ed.
Antes que Gerry tivesse a chance de dizer mais alguma coisa, Sylvia conseguiu desviar os olhos dele e virando-se para Alan, que também estava em situação de pasmo, disse:
- Alan, o Edward pode terminar a reunião sem mim. Acho que já não sou necessária. Preciso sair imediatamente, pois tenho outro compromisso. Sei que você vai entender.
- Claro... Mas você está bem?
- Sim. É que lembrei agora deste outro compromisso – disse mostrando um sorriso amarelo e virando-se para Ed – Edward, nos falamos depois.
Pegou sua elegante maleta Louis Vuiton e saiu, diante do olhar estupefato dos três homens.
- Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? – indagou Alan, olhando para um e outro, esperando alguma manifestação.
- Quem sabe se terminamos a assinatura dos papéis e encerramos a reunião? – sugeriu Edward.
- Eu vou atrás dela – disse Gerry, preocupado com a reação de Sylvia.
- Melhor não – afirmou Edward, com firmeza – Não é o melhor momento.
- Acho que Ed tem razão. Vamos encerrar logo esta reunião e resolver assuntos pessoais depois, ok? – Alan começava a ficar irritado com a falta de informações e o descaso com a sua presença.
- Está bem... Mas depois precisamos conversar – falou Gerry, apontando para Edward.
Tentando retomar o fio da meada, Ed continuou as explicações de onde Sylvia parara. Não tinha muito mais o que falar.
- Se quiser, senhor Caldwell, posso voltar atrás na explanação.
- Não é necessário. Tenho certeza que Alan entendeu tudo. Qualquer dúvida esclareceremos depois. Onde eu assino? – sua vontade era ter corrido atrás dela. Não conseguira tirá-la da cabeça desde aquela noite incrível. E agora ela aparecia assim. Enfim...
Era uma ótima notícia. Não precisaria mais tirá-la de uma vida ilegal... Ou será que ela tinha vida dupla? Mais incertezas o incomodavam.

Assim que passou da mesa da secretária de Alan e encontrou-se no corredor do luxuoso prédio de escritórios, Sylvia ainda tentava segurar o choro. Não ia dar este gosto a ele. Já tinha se decidido a esquecê-lo e tudo mais que acontecera. Precisava pensar nas suas férias. Mas a vergonha voltava a rondá-la. Certamente ele contaria para Alan o que acontecera. Estava acabada como advogada. Viraria chacota no meio artístico. Amaldiçoava aquela noite. Uma única vez que tomara uma atitude sem usar a razão, dera nisso. Talvez precisasse começar a pensar em montar um escritório em Aruba. Eles deviam utilizar os serviços de advogados por lá também. Quem sabe um escritório de frente para o mar. Até que seria interessante. Pensando ridiculamente desta maneira, as lágrimas voltavam a querer rolar. Saiu do prédio e fez sinal para o primeiro táxi que viu. Ainda não decidira para onde ir. Teoricamente não tinha mais trabalhos a realizar naquele dia.
- Para onde, senhorita? – perguntou o motorista com cara de mexicano.
- Para casa... – disse como um autônomo.
Sentindo o olhar sem paciência do motorista, caiu em si e falou:
- Oh! Perdoe-me! O endereço é...
Rapidamente, seguiram o itinerário indicado e, em poucos minutos, Sylvia desembarcava em sua casa. Ligou para o celular de Ed e avisou-o de sua resolução de não aparecer mais no escritório naquele dia e nos demais próximos trinta dias.


A parte final desta estória será postada amanhã.
Beijinhos!!!